Who Watches Watchmen

Viu só? Tentei fazer um trocadilho com o título do filme, dizendo “quem assiste a Watchmen“, mas fracassei miseràvelmente. Faltou o “the”. Paciência.

O fato é que fui ver hoje. Gostei, é um bom filme; vale o preço que se paga.

Mais de metade do cinema eram nerds como eu, barrigudos, na faixa de 35 a 50 anos, alguns acompanhados de outros nerds, outros arrastando as parceiras. Previsível, ainda mais em meio de semana: se fizeram como eu, esperaram a garotada se divertir e foram no horário mais tranqüilo, para poderem apreciar. Algumas risadas e aplausos mostravam que tinham lido os quadrinhos.

ATENÇÃO: VOU COMENTAR O FILME. Se não quiser saber detalhes, taqui um linque para você pular fora agora: é a entrada anterior deste belogue, sobre o vídeo do bacalhau.

Você foi avisado.

A fita está bem feitinha, mesmo desde a abertura com os créditos. Com a montagem que fizeram, ela já conta logo o que aconteceu a Dollar Bill, ao Traça e à Silhueta sem ocupar tempo de história e tirando esses pormenores do caminho ao mesmo tempo em que supre muito bem a necessidade de contar o que foi acontecendo aos heróis.

Aliás, um detalhezinho bobo mas expressivo é a pequena variação sobre a clássica foto do beijo em Times Square ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Passado o início, o que mais chama atenção é uma diferença previsìvelmente necessária em relação ao original: a supressão de detalhes. Na maior parte, não tenho queixas, porque atrasariam o filme sem contribuir para a história. É claro que, se Alan Moore os pôs ali, ele teve suas razões e a obra não estaria completa sem eles, mas, diabos, então vá ler o quadrinho, que, afinal, é genial mesmo. O filme não os comporta. A saber (e lembrando-me enquanto digito): os conflitos conjugais do psiquiatra e das lésbicas na banca de jornal, as reações de pessoas nos interrogatórios que Rorschach faz nos bares, a senhoria de Rorschach, a segunda visita dele a Dreiberg (perdendo-se o humor da segunda fechadura perdida), as reaparições do policial que primeiro entrou no apartamento do Comediante, o pai do Dr. Manhattan jogando o relógio pela escada de incêndio, o início da vida profissional de Manhattan, o homicídio de Hollis Mason, o encontro organizado pelo Capitão Metrópole onde vemos o destino do Traça. Tales of the Black Freighter não conta, porque já havíamos sido avisados de que não estaria no filme. Mas também não estão lá os resmungos do jornaleiro, embora o próprio jornaleiro esteja e o garoto lendo o gibi também. Para mim, é óbvio que estão lá sòmente para benefício dos fãs, porque nada acrescentam.

Outros detalhes foram trocados, também a benefício da simplicidade. A visita de Rorschach à torre de Veidt foi substituída por uma visita de Dreiberg. A discussão sobre brinquedos juntou-se à “tentativa de homicídio”. No encontro frustrado da segunda geração de vigilantes, o Capitão Metrópolis foi limado, juntamente com seus sonhos infantilóides e patéticos; seu lugar foi assumido por Veidt, que aparece já arquitetando seu plano. A entrevista de Janey Slater à Nova Express deu lugar a sua aparição no estúdio. A morte do pai de Manhattan foi trocada pela de Wally Weaver. Várias falas mudaram de lugar na história ou, então, aparecem ditas por outras pessoas. Os clássicos de saifai do cine Utopia foram trocados por uma exibição de The Outer Limits. Etc., etc. Regra geral, não creio que a versão para cinema tenha saído pior por isso.

Por outro lado, alguns detalhes foram acrescentados desnecessàriamente: a cena de sexo estendida a bordo de Archie (e grosseiramente explícita, em que pesem os benefícios, knowwhatImean, knowwhatImean, winkwink, nudgenudge, saynomore, saynomore, knowwhatImean, knowwhatImean, say — no — more!); a porta do banheiro revelando a Nite Owl e Silk Spectre que Big Figure estava lá dentro; e a exageradamente gráfica remoção dos braços de Larry.

Também o teletransporte é representado com efeitos demais. O original é instantâneo e mais discreto. Em especial, o de Rorschach, logo no começo, é tão súbito que, na percepção subjetiva do próprio, ele só nota que foi transportado depois que termina a frase. No filme, demora-se demais, com perda do humor.

Um detalhe estranho: na tentativa de estupro de Sally Jupiter, depois de apanhar mais do que no quadrinho (gratuitamente, a meu ver), ela não reage mais! No original, ela só não luta porque não consegue se mexer. No filme, fica esperando, sem estar imobilizada. Pergunto-me por quê.

Um detalhe bacaninha: Lee Iacocca no bolso de Veidt.

Um detalhe que tem tudo a ver com o filme todo e era de se esperar do personagem (e não sei como Moore não pensou nisto): descobrimos quem matou John Kennedy. Bem… ao menos naquele mundo.

Um detalhe contemporâneo demais: lutas em câmera lenta. Depois de Matrix, todas as cenas de luta estão em câmera lenta. Pelo menos dá para acompanhar, mas Moore não teria pensado nisso. Não é um mero uso de CGI que não havia em 1985; é uma inserção despicienda.

Por um terceiro lado, o filme (e insisto: é um bom filme) peca na tentativa de, às vezes, ter que enfiar todas as falas sem ter tempo para isso. Várias ficaram aceleradas em relação ao quadrinho, de um modo em que pessoas reais não teriam tempo de pensar, desconjuntadas, descontextualizadas. O exemplo mais forte é o reencontro de Rorschach e Dreiberg no porão. Quando Dreiberg pergunta, “whatever happened to them?”, ele não está contemplativo, e assume um ar de cobrança.

Também assim se perderam vários comentários cínicos de Rorschach, que, além de acelerado, foi parcialmente descaracterizado. Em alguns trechos, emocional demais: p.ex. pedindo para Nite Owl levantar Archie para não bater nas falésias; ou implorando para Manhattan no finalzinho. O Rorschach original é absolutamente apático, indicando a gravidade de sua doença mental. Especialmente na prisão, permanece sereno e não se dirige a ninguém com raiva nem com ironia (as quais demonstra diante do psiquiatra no filme). Imagino, entretanto, que só quem estava atento aos quadrinhos fosse notar a inconsistência. E o ator que o faz está ótimo. Aliás, fìsicamente, Rorschach estava igualzinho, em especial a voz, que foi desperdiçada em narrações aceleradas. Para ouvir uma versão correta de seu diário (aliás a única, em função de quem lê): aqui (original) e aqui (cópia conjugada ao quadrinho, mas abafada).

Um detalhe que não acrescenta a quem leu o quadrinho, mas que compõe um pouco no filme (embora, infelizmente, também o torne mais óbvio): quando o gordo Larry tenta pegá-lo através das grades e pergunta o que ele tem, a resposta nos quadrinhos é “your fingers. My perspective”. No filme, “your fingers. My pleasure”.

A determinação cínica de Rorschach também foi atenuada. Antes de aplicar o golpe ao seqüestrador, ele hesita, o que não faz no quadrinho. Ademais, aquele golpe é indolor (o cérebro já não está ali para sentir) e misericordioso (porque final). No quadrinho, a forma de execução é mais cruel.

O Comediante: perfeito. Infelizmente, a cena com Moloch padece do mesmo mal de quererem dizer tudo sem contexto para isso. O único outro exemplo ruim que me ocorre é Fernanda Montenegro como a prostituta/cigana de A Hora da Estrela, esquecível e torta imitação do indecifrável.

Uma falha que considero mais severa, embora outros vão discordar: quando Manhattan levanta seu relógio da areia, o efeito é o mesmo que seria se o relógio estivesse pronto e submerso e sùbitamente emergisse, afastando os torrões que estão no caminho. Brutal demais. No original, o efeito mostra a extensão do domínio de Manhattan sobre a matéria: o relógio é reunido a partir da areia que está na superfície, sem sujeira, mostrando que não existe nenhuma parte oculta, que você está vendo tudo que há. Isso faz diferença, porque ele enxerga aquele balé cósmico que empolga os astrônomos e vê o equilíbrio de tudo, todos os instantes são como fotografias estáticas onde ele escolhe se focalizar. Não há violência nem restos deixados por suas ações, que respeitam a ordenação elegante do universo.

A respeito disso, houve uma tentativa de se mostrar a perspectiva temporal dele, com as superposições de instantes em um só. Ainda assim, penso que se perdeu o vigor do trecho, tão curto, em que ele contemplava uma fotografia nas areias de Marte. Mais uma vez, parece-me ter sido o esforço de se enfiar tudo em menos de três horas.

Por falar em perspectiva, tem umas que são iguaizinhas. A saber: a primeira, com o sangue do Comediante na calçada; a de Manhattan ao som de Wagner; a da chuva sobre o túmulo do Comediante; a do controle da multidão; as da penitenciária. Ah, quase todas, se não todas.

A atriz que faz a Silk Spectre é bem ruim, mas não tem problema; é a mó gata.

Finalmente, o Grande Plano de Ozymandias. Acho que ficou melhor no filme. O original é muito complexo, envolve mais personagens, mais absurdos e, francamente, é um deus ex machina que sempre considerei especialmente inverossímil, não correspondendo ao conjunto da obra. A versão do filme é mais simples, requer menos detalhes na história (Max Shea, a genética) e, francamente, mais coerente, usando uma ameaça concreta, conhecida de todos, sem mensagens psíquicas.

Falei mal à beça, mas são queixas típicas de quem, na verdade, gostou. Claro que não é perfeito e, até certo ponto, é uma colagem; mas há suficientes passagens iguais para agradar aos fãs do original, que vejo como o principal público alvo.

Não me dê ouvidos (ou, neste caso, olhos). Vá ver e julgar por si mesmo.

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