Superaquecimento da credulidade

Hoje, cerca das 09:00 h, houve incêndio no Metrô do Rio de Janeiro. Eu estava lá: a estação Saenz Peña ficou cheia de fumaça e de um cheiro forte de borracha queimada. Que eu saiba, não houve feridos. Infelizmente, tampouco há evidência de que o Metrô tenha reembolsado o dinheiro de quem já havia pago, estava dentro do trem e teve que evacuá-lo. Confusão, incerteza e seguranças (?) desorientados.

Lápelas 10:50 h, li no Globo On e no Extra que, segundo o Metrô, houvera superaquecimento dos trilhos e que, por precaução, evacuaram tudo e levaram o trem para manutenção.

Essa é a versão oficial. O jornal não apresentou outra, e duvido que apresente, porque o que mais se vê hoje em dia é jornal repassando versão oficial, sem investigar nada.

Então, deixe-me trazer um pouquinho de contraditório. Oquei, não sou especialista em ferrovia nem em metrô. Mas sou engenheiro mecânico. Até onde sei, trilho só “superaquece” se houver um trem freando em cima, contìnuamente. De resto, trilho fica lá, parado. Se houver apenas trens passando por cima, contìnuamente, trilho só aquece um pouco. Se houver trem parado em cima, trilho não aquece.

Como não tinha trem freando em cima do trilho, resta investigar outra causa possível para um “superaquecimento”. A única hipótese que me ocorre é um curto-circuito: algum cabo que não deveria estar em contato com o trilho tenha, afinal, fechado contato e deixado passar aquela corrente suave que tira uma composição do lugar.

Outra possibilidade é, para mim, muito mais plausível: o Metrô teria simplesmente MENTIDO para o público, mascarando um incêndio com um improvável (quiçá impossível) “superaquecimento de trilhos”. Escolha sua hipótese.

Isso me lembra a bronca que dei numa colega outro dia: acreditava na versão oficial divulgada pelo saite de uma empresa, sem questionar. Tive que explicar a ela: se o saite diz isso, é que a verdade é justamente o contrário, e aquilo que se diz que aconteceu, como bem se pode estimar, na verdade não aconteceu.

Aliás, é por isso mesmo que, por enquanto, estou convicto de que Dilma não tem câncer coisa nenhuma. É claro que, nos próximos meses, veremos profissionais muito sisudos, todos de jaleco branco e mostrando consternação, apresentando os últimos desdobramentos no jornal da noite. Mas não acreditarei nem que ela morra.

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E essa é a cidade que pretende sediar jogos olímpicos.

“I’m sorry, Dave, I’m afraid I can’t do that.”

Ano passado, comprei um computador Dell. Dele escrevi isto aqui. Olha, não tenho grandes queixas. Ele funciona direitinho, é suficientemente rápido, até agora nada deu defeito, consigo instalar tudo sem complicações. Já que tem que ser o maldito Vista, então que venha de fábrica: não tive nenhum dos problemas que as pessoas relatam pela Web.

Mas tem uma coisa bem chata. Se eu tentar acessar os diretórios Documents and Settings, System Volume Information ou uns outros que tem no HD, ele me dá uma das mensagens mais simpáticas que um sistema pode te mostrar: Acesso negado.

PQP. O computador é meu, comprado da maneira mais legal e legítima, nenhuma pirataria envolvida, e EU não tenho acesso aos MEUS DADOS que estão gravados no MEU computador!!! Sei lá, vai ver que a Dell ou a Micro$oft deve achar que, se EU tiver acesso aos MEUS dados, vou lhes causar algum grande prejuízo, vou roubar toda a sua propriedade intelectual… Ou, então, que eu sou uma daquelas salsinhas (TM Cardoso) que vai apagar algum arquivo fundamental e depois culpar o fabricante… O computador é MEU, eu deveria ser livre para mexer onde quisesse nele… “Ah, mas aí viola a garantia.” F*da-se a garantia, o risco é meu, eu decido se ainda vou querer técnico de graça depois de fazer uma cagada.

O que a parceria entre Micro$oft e Dell está me dizendo é que considera que seus clientes não sejam pessoas adultas e responsáveis, que precisem ser levados pela mão e que sejam essas fornecedoras quem pode decidir o que EU posso fazer com o MEU computador e o que não posso. Como se computador fosse arma de fogo, sei lá.

Aí, vou descobrir que tenho que hackear meu próprio computador. Tenho certeza de que consigo, deve ser só dar uns comandos e tal, só que não estou a fim da dor de cabeça, de ter que — calafrios terríveis: — entrar no registro do Windows

Lobotomia espacial

Lobotomia espacial

e depois ficar dando tela azul uma em cima da outra por ter editado o lugar errado… Além disso, na hora em que eu começar a mexer, os comandos secretos do Windows — que agora, para funcionar, receber atualizações etc., tem que estar permanentemente em contato com a nave-mãe no Oregon (é no Oregon?), enviando e recebendo pings sem eu saber, hackers oficializados de uma figa –, os comandos secretos vão acionar uma luz vermelha na sala de controle da Micro$oft, daquelas que giram e ficam gritando, AHWHOOGA, AHWHOOGA, … e vai sair uma equipe SWAT que vem aqui na minha casa, descer do helicóptero de rapel e me levar pra Guantánamo por violação dos termos de uso…

Outro é o notebook da Digníssima, aliás também Dell, legal etc. A maldita engenhoca foi comprada no Brasil. Aí, eu fui a Neviorque e trouxe um DVD sobre Beethoven (o compositor, não o cachorro), legítimo, não pirata, comprado em loja, etc. Aí ele travou: “este computador só toca zona 4. Seu DVD é zona 1. Você já mudou de zona quatro vezes. Quer mudar de zona de novo?” Ficamos com um ligeiro temor: vai que eu digo sim e ele tem um máximo de mudanças possíveis. Vai que, mais tarde, a gente precise do DVD de verdade, para alguma coisa de trabalho, sei lá, e ele diga que passou do máximo e não pode mudar de novo. Na dúvida, a gente preferiu não aceitar. Vamos deixar para ver no DVD player Panasonic que eu hackeei em 2007.

Pode isso? Eu ponho MEU DVD para rodar no MEU computador, sem violação do direito de ninguém, e o fabricante me vem com a gracinha de que não posso assistir porque comprei meu computador numa parte do mundo diferente daquela onde comprei o DVD, como se isso fosse proibido! “Arrá, você tentou assistir a um DVD americano em um computador brasileiro, não pode, é crime, bem feito, ficou sem computador.” Que mal há nisso? Que que eu fiz de imoral, de ilícito, de errado? Eles presumem que eu esteja pirateando, é isso? O que eles estão protegendo com isso?

Uma das criações mais nefastas que já houve no campo das comunicações foi esse zoneamento do mundo. Não há, não adianta, não há justificativa plausível para uma sacanagem global dessas. E não adianta dizer que é contra a pirataria. Essa p*rra não é eficaz, só aborrece, ninguém sai ganhando com ela. É só mais um jeito de me fazer ter trabalho, ter que sair catando tutoriais e executáveis pela Web, em saites obscuros que, aí sim, periga me passarem um vírus. Quer dizer: é a maldita indústria “legal” me empurrando pro abismo da ilegalidade.

A alternativa é eu procurar o concorrente: sair baixando tudo dos torrents e comprando no camelô da Carioca, que grita bem alto, “DVD jogos Corél! CD-rum, uínduófice Corél! Filmesjogos DVDiêê!” É isso que eles querem? Se eu comprar com esses caras, violando todas as proteções legais, tenho certeza de que não vou ter esse tipo de problema, já vem tudo desbloqueado.

Cambada de fidaputa.

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Recém-lidos:

When Worlds Collide: Spock Confronts the Ultimate Challenge, de Paul Pope e K/O, publicado na Wired 17.05, 2009/04/24;

The Adventures of Superman #430 (julho de 1987), “Homeward Bound”, e #431 (agosto de 1987), “They Call Him — Doctor Stratos”, Action Comics #590 (julho de 1987), “Better Dying Through Chemistry”, e #591 (agosto de 1987), “Past Imperfect”, Legion of Super-Heroes #37 (agosto de 1987), “A Twist in Time”, 21 páginas selecionadas de 27, e #38 (setembro de 1987), “The Greatest Hero of Them All”, com isso terminando Superman: the Man of Steel: Volume Four, de John Byrne e outros; e Superman #9 (setembro de 1987), “Metropolis 900 Mi”, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008).

Recém-visitados:
http://www.nowheregirl.com (história em quadrinhos bem legal sobre solidão e diferenças);

http://www.factorfictionpress.co.uk/girly/ (mais histórias em quadrinhos);
http://www.mylifeinacube.com/ (tirinhas sobre a vida no escritório);
http://filthymac.apostos.com/ (Filthy McNasty);
http://thebrowser.com/
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/ (Reinaldo Azevedo);
http://escrevalolaescreva.blogspot.com/
http://ebompraquemgosta.wordpress.com/
http://www.youtube.com/watch?v=rmkLlVzUBn4 (A wolf likes pork) — stopmotion genial;
http://www.youtube.com/watch?v=TX1sgZVGBUwTop Gun feito em casa, ótima falta do que fazer, dica do Cardoso;
http://www.salsinhas.com/
http://www.morroida.com.br/
http://www.nerdblogueiro.com/
http://www.youtube.com/watch?v=_qQX-jayixQ (Penn and Teller Sleight of Hand, acho que dica do Alexandre Maron mas já não sei mais se foi)
http://www.interney.net/blogs/alexprimo/

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Psicose jornalística

Eu vivo resmungando dos retardados voluntários* que jamais escrevem seus próprios textos. Gente que, diplomada e tudo, prefere ctrl+c-ctrl+v no trabalho dos outros — afinal, é muito mais fácil.

Aqui, indícios de que certas respeitadas revistas também aderem a essa prática maligna:

http://stoa.usp.br/walrus/weblog/48338.html

E, aqui — dica do Cris Dias –, uma revista igualmente respeitada admite, abertamente, que não está nem aí para qualquer correspondência entre suas reportagens e a realidade:

http://scienceblogs.com.br/brontossauros/2009/04/revista_veja_fail_ao_quadrado.php

*Retardado voluntário: tipo de pessoa que, apesar de possuir um cérebro organicamente funcional e íntegro, optou pelo retardamento mental.

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Food fight

Estreando o novo endereço deste belogue, peço sua atenção para este vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=e-yldqNkGfo

Parece só um vídeo engraçadinho de comida brigando, mas NÃO É. É a explicação das guerras em que os Estados Unidos se meteram no mundo, representada pela comida dos países. A Inglaterra é o fish and chips, a Alemanha é o Pretzel com Bratwurst, a Rússia é o strogonoff, o Japão é o sushi, os árabes são o kebab.

Começa na Segunda Guerra Mundial, passa pela Coréia, Cuba, Vietnã, primeira Guerra do Golfo, 11 de Setembro e segunda Guerra do Golfo. Prestei muita atenção e reparei que as várias sutilezas estão representadas: a II Guerra Mundial começa com os judeus se mandando da Alemanha e os restantes sendo exterminados; a Alemanha passa por cima da França pra bombardear a Inglaterra; os americanos, com os ingleses vindo atrás, passam por cima da França pra bombardear a Alemanha. Etc.

Rússia e China ocupam meia Coréia “por dentro” enquanto, do outro lado, outra meia Coréia se junta aos americanos e ficam todos indo e voltando e se acabando em cima de uma fronteira que se desloca mas não se afasta. Depois, Rússia ocupa Cuba e assusta os Estados Unidos, Rússia penetra no Vietnã e põe a França pra correr, os americanos vêm ocupar o lugar da França ao lado do Vietnã do Sul e americanos e Vietnã se acabam sem vitória.

Enquanto isso, no Oriente Médio, os ingleses se mandam e deixam os judeus encararem os árabes sozinhos. Os árabes se juntam, Israel vem em defesa dos judeus, reduz mas não elimina os árabes.

Guerra Fria, nuclear stockpiling etc.

Os árabes (Kuwait), sentados em cima do óleo, são enxotados por outros árabes (Iraque) e fogem para pedir ajuda dos americanos. Americanos vêm, Iraque dispara vários Scuds em Israel, todos caem em Israel sem causar danos. Aí vem o 11 de Setembro.

Tem aqui um linque que explica qual comida é o quê:

http://www.touristpictures.com/foodfight/cheat.htm

Ficou perfeito.

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Em um tópico relacionado, iniciei meu belogue Seventy Years Ago Today, narrando a II Guerra Mundial com tempo na escala 1:1. Para que nunca mais se repita. Faço-o experimentalmente: presumo não ter tempo de atualizá-lo com a frequência que gostaria. Faço-o também para ver qualé a do WordPress. Com alguns minutos, estou gostando tanto que penso em dar um pé na bunda do Blogger. Só por causa da preguiça, provavelmente não o farei.

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Update: fiz. Acabei de me mudar pro WordPress, com mala e cuia. Teòricamente, é o que você está lendo agora. O belogue antigo ainda está onde estava, mas já não será atualizado.

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Intreináveis

Minha dona diz que eles são intreináveis. Não conheço melhor expressão.

Você vai ao comércio, o cara não consegue te vender uma bala Juquinha. Pergunta se tem o produto, está debaixo da fuça do infeliz, ele diz que não tem. Pergunta quanto é, ele diz que não sabe.

Minha colega foi à Saraiva da rua do Ouvidor, perguntou pelo Dicionário filosófico de Voltaire — com essas palavras — e o idiota lhe perguntou quem era o Autor. Ela repetiu, Voltaire, e o retardado escreveu “Wolter”, como se fosse um Walter que ele conhecesse.

Numa LIVRARIA! Ela não foi procurar o Dicionário no meio de um prédio em construção, nem nas termas, nem na cozinha.

E o pior é que não adianta a Saraiva demitir para contratar quem saiba ler. Ninguém sabe. É impossível contratar mão-de-obra qualificada neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval. É impossível treiná-los, eles não são capazes de aprender nada de nada de nada.

Amigo meu, médico, teve que explicar pro assentador de granito como é que se assentava granito, porque o mentecapto quebrou três pias sucessivas até aprender a cortar a pedra. Meu prezado doutor (duas vezes: por ser médico e por ter defendido tese) perdeu a paciência com o apedeuta, disse que um profissional consegue se sustentar com o que faz e que, òbviamente, o estropício não podia se considerar um profissional. Observo que, para esse doutor — que dá aula de Medicina em universidade pública, concursado e o escambau –, dizia, para esse doutor perder a paciência, precisa muito, não basta ser um caminhão de asneiras, tem que ser um trem de carga com cocô até em cima mesmo. Quando ele sofreu uma fratura cominutiva do ombro (osso quebrado em quatro partes), com uma dor que o fazia ver os sete anjos com as sete pragas (ele que é ateu), ainda assim manteve a compostura e falou civilizadamente com a pseudo-auxiliar de enfermagem que veio injetar-lhe o medicamento receitado para outro paciente enquanto ele continuava esperando o analgésico. Mas o fingidor de pedreiro conseguiu tirá-lo do sério.

No trabalho, vou usar a casinha e descubro que tem barata. Raios me partam! Tem um faxineiro que, sempre que entro no banheiro, está lá olhando pro teto e se ocupando só das próprias unhas, enquanto baratas tentam me engolir vivo. Aposto qualquer quantia, aposto meus diplomas — pode vir aqui em casa rasgar todos se eu estiver errado — que eu limpo banheiro melhor do que qualquer um desses descerebrados que estão, supostamente, GANHANDO SALÁRIO PRA FAZER ISSO há uma vida inteira.

NEM DISTRIBUIR PANFLETO NA RUA O CARA SABE: fica de costas para o sentido de onde vêm as pessoas, elas saindo do Metrô no início do horário comercial, ele não vendo ninguém se aproximar nem, portanto, conseguindo estender a mão a quem já foi embora. Quer dizer, nem esse ofício infernal de espalhador de filipetas, que devia ser dinamitado da face do planeta, nem essa pseudoprofissão inútil serve para absorver o excedente de mão-de-obra desqualificada, porque o sub-gump nem isso consegue fazer.

Minha proprietária sugeriu: homem-porta-cartazes, talvez?

NEM ISSO. O aborto ambulante vai arrumar um jeito de se enfiar no canto de menor visibilidade da praça.

Eu entendo que o cara não queira produzir mais: o salário é o mesmo se ele vender e se não vender, o patrão é mau, a mais-valia é cruel etc. etc. Mas o que eles são clìnicamente incapazes de enxergar é que a alternativa é a demissão! O nanicocéfalo não percebe que, se não trabalhar, vai para o olho da rua — e continua não trabalhando!

Aí eu começo a entender aquilo que tanto escuto no Metrô: as histórias tristes de quem toma a demissão como uma inevitabilidade, uma decorrência natural do fato de estarem empregados, que é só uma questão de quando, não de se. Para eles é normal, não se emendam mesmo!

Quando eu varria chão no Exército, o chão ficava limpo. Não se via um grão de poeira. Eu não fazia mais do que minha obrigação, nem era especializado na tarefa. Hoje, eu vejo uma faxineira fingir que esvazia uma lixeira, derrubar a sujeira toda no chão, e ouço dela que isso acontece toda hora. WTF??? A mulher pretende GANHAR A VIDA fazendo isso? Precisa ter mestrado pra aprender a esvaziar lixeira, a varrer chão? Eu varro aqui em casa e fica tudo limpo; supunha que uma profissional especializada soubesse fazer ao menos isso.

Uma colega (a mesma do Wolter) observou que é porque eu presto atenção, porque me dedico a tudo que faço. Se é para fazer, é para fazer bem feito, seja um prato de comida, um parecer jurídico ou um banheiro limpo. É para tentar fazer cada vez melhor, fazer em menos tempo com a mesma qualidade, fazer com mais qualidade no mesmo tempo. Mas, para eles, parece que não. Andam pela vida com o 32-A607 ligado (escreva num papel e olhe no espelho). Não aprendem NEM QUEREM APRENDER. Por isso é impossível ensinar-lhes qualquer coisa.

E estão sempre reclamando que estão doentes, com dor aqui e ali, e que “ontem passaram mal”, e vão pegar atestado, ou não vão.

Então, quer saber? Não tenho pena não. Um amigo me dizia que não tinha essa suposta “pena de botar um pai de família na rua”, porque havia OUTRO pai de família faminto e qualificado que não conseguia a vaga porque um mequetrefe desses a estava ocupando. Eu vou além: é preciso ser isonômico. Se são todos igualmente indolentes e preguiçosos, então a fila tem que andar, é preciso cada um ceder a vez: brinca um pouquinho, depois dá o lugar pro outro. Não pode é um só querer ganhar sem trabalhar o tempo todo.

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Da série Mais motivos para me deixar orgulhoso e assustado

Em um assunto distinto, porém relacionado, acabei de entender algumas das várias limitações que há anos venho percebendo nas pessoas. Acabei de entender por que é que tanta gente à minha volta lê tããããão devagar, palavra por palavra, causando-nos uma perda enorme de tempo e de produtividade. Taqui a explicação. Ou: “p*rra, por que esse cara está gastando um tempo enorme para ler esse pedaço que òbviamente não é o que interessa na discussão?”

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Andei lendo:
Superman #7 (julho de 1987), “Rampage”, publicada em Superman: the Man of Steel v. 4.
http://tirinhasfi.blogspot.com/ — Fi – Futuro Incerto, de Felipe Acosta;
http://lidetemeraria.blogspot.com/, de Ana;
http://calmaqueficapior.blogspot.com/, da Srta. T;
http://www.interney.net/blogs/imprensamarrom/, do Gravatai Merengue;
http://revistaerrata.blogspot.com/, dos Doutores Albieri, Banner, Gori, Jekyll e Jivago (PQP, tou velho. Entendi todas as piadas embaixo das apresentações dos doutores. Isso inclui o Doutor Gori).

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Incertezas vespertinas

Para minha desgraça em uma vida tão atribulada pela falta de tempo quando há tanto que fazer ou que quero fazer, agora entrei em mais um blog reading spree. Sabe como é: quando você começa a ler um, que linca pra outro, que linca pra outro, e você vai lendo tudo, opiniões, pontos de vista sendo compartilhados racionalmente, emocionalmente. Fico cheio de inveja que esse pessoal escreva tão bem. E tenha tempo. Ou pareça ter. E entro em fluxo de consciência e, como já disse outras vezes, quem escreve bem tem o dom de fazer você querer escrever tão bem. E muito, para aprender com a prática e ficar igual a eles. Ao lado dos belogues que referencio aqui no lado direito da tela, existem dezenas, dezenas que visito de vez em quando ou uma vez e nunca mais, mas cujos URLs anoto. Acho que vou passar a mencioná-los aqui.

Como esta entrada do Cocadaboa: que me fez vir aqui.

Sou ateu.

Agora que choquei, confesso: isso não é plenamente verdade. Não sei se Deus existe. A cada dia, mais me convenço de que não existe. Fui criado em escolas católicas, induzido a crer na existência, bondade, sabedoria e amor ilimitados de Deus, mas não sei não. Prefiro dizer: a eventual existência de Deus é irrelevante.

De um lado, impossível provar que existe. Deus se descobre é pela fé. A prova é racional, a fé não é. Se você chegasse a Deus pela razão, estaria tornando a fé desnecessária, o que contraria Deus. (Eu sei que não; isso foi uma falácia. Mas é apenas incidental; prossigamos.)

Por outro lado, impossível provar que não existe. Então, os ateus também estão agindo de acordo com uma fé. E fé é o que não tenho.

Deus, se existir, é inatingível: se Ela quiser se esconder, conseguirá isso melhor do que ninguém (a onipotência faz parte do conceito). Então, inútil me preocupar em descobri-La ou me convencer a favor ou contra.

Deus, se existir, é amoral. Não pune pecados nem premia boas ações. “Ah, então tá liberado! Então, Ela encoraja o mal, é isso?” Não, não é isso. Se fosse assim, Deus seria Imoral. Mas um Deus imoral premiaria pecados e puniria boas ações. Não creio que Ela faça isso. Creio que, se existir, não esteja nem aí. Fez o mundo e foi tirar férias, foi fazer outros mundos, está ocupada com as galáxias ou tentando resolver o problema da expansão cósmica, que levará ao esfriamento dos buracos negros, ao esgarçamento do espaço e à extinção da vida. Não está nem aí para o que nos acontece, não ouve orações, não concede audiência, não manda catástrofes nem salva aquele sujeito que ficou doze horas esmagado embaixo do caminhão e saiu sem ferimentos. Imagine como se sente o Dr. Manhattan (este ponto é mais contundente para quem leu o quadrinho).

Se Deus é amoral, que diferença faz eu puxar Seu saco? Que Lhe importa se eu repetir palavras mágicas enquanto seguro um colar de contas? O que Ela ganha com isso?

A alternativa seria um Deus maligno: se eu não repetir trinta pais-nossos, ou comer carne na sexta-feira, ou chutar a imagem da santa, vou para o inferno sem sursis. Para isso não acontecer, puxo-Lhe o saco. Mas sempre me identifiquei com a causa dos que vivem sob um regime tirano. Minha tendência é à rebeldia contra quem me tira minha God-given liberdade. Inclusive contra Ela: e eu e Ela saberíamos que seriam só aparências, e eu diria, não faço mais, me mande pro Inferno se quiser, aliás Você vai me mandar pro Inferno se quiser mesmo apesar de toda a minha puxação de saco, porque é onipotente e não responde perante ninguém, não tem que dar satisfações a algum tribunal olímpico ou valhállico, então vou exercer minha liberdade no pouco de vida que me resta. Prefiro ser sincero. E, no Inferno, lá estaria eu, com um punho cerrado e elevado em sinal de protesto, dizendo, Você sabe que eu estou aqui porque estou certo, eu ganhei de você: pode me quebrar, mas não pode me dobrar.

Mas Deus, se existir, não é maligna. Isso não faz parte do pacote. Então, em Sua infinita misericórdia, também não me mandaria pro Inferno nem que eu fosse mau. Então, pra quer esquentar a cabeça? Preocupemo-nos com esta vida, com quem sente fome e não sabe ler.

Se Deus existir, é onipotente (faz parte do pacote). Então, pode alterar as leis da Física a qualquer momento, inclusive retroativamente, reescrevendo a História, e nem saberíamos que o universo está mudado. Pode me fazer crer nEla de uma hora para outra, e eu nem saberia que um dia não teria crido (está certo esse particípio?). Então, inútil rezar, inútil resistir, inútil tentar puxar Seu celestial saco. Vai fazer o que quiser fazer, e não há nada com que eu consiga convencê-La do contrário. Nem há nada que eu possa fazer por Ela tal que ela retribuísse me fazendo algum favor: onipotentes não costumam precisar de qualquer ajuda. Para que acender velas e jejuar, então? Só para satisfazer Seu incomensurável ego? Deus tem problema de auto-estima, precisa que Lhe digamos quanto Ela é linda e maravilhosa?

Se Deus existir, é indecifrável, certo? Então, não adianta pensar sobre Ela, tentar entendê-La, filosofar sobre Ela — só se for para ser uma filosofia de nós mesmos, mas aí é sobre nós, não sobre Ela. Da mesma forma, inútil perscrutar quais são Seus indecifráveis planos para mim.

Isso se Deus existisse. Não creio que exista, então não tenho o que pensar dEla. De todo modo, irrelevante.

Mas e Jesus Cristo: existiu? Sua existência não é impossível, mas também a tenho considerado cada vez mais improvável. Se tiver existido, coitado, terá sido um sujeito brilhante, que teria tentado ensinar civilidade às pessoas, uma espécie de live-and-let-live hippie, só que alguns milênios off the mark. Òbviamente, foi devidamente punido por isso.

Mas então, e se eu decidir viver pelo Evangelho, isso faz de mim um cristão? Eu, que sou ateu? Adoro a parábola dos trabalhadores que passam o dia na vinha pelo mesmo salário (que, para mim, se traduz em “cuide da sua vida em vez de ficar com inveja de seu vizinho”), bem como a do irmão que vai trabalhar após ter dito que não ia, enquanto o outro não foi, mesmo tendo dito que ia. Adoro a história de se atirar a primeira pedra, e tudo mais. Se eu concordar com as regras de boa vizinhança que estão ali, isso faz de mim um cristão? The horror, the horror. Espero que não, mas talvez seja tarde demais.

Então, de um lado tenho vergonha de não admitir que sou ateu: pelo certo, eu deveria admitir logo, como sugere o Cris Dias. De outro, nem sequer disso tenho certeza!

Recém-lidos:
Justice League #1 (maio de 1987), “Born Again”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008); Detective Comics #574 (maio de 1987), “…My Beginning… and My Probable End”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008);

http://yourinnergoddess.blogspot.com/ — Goddess Bless America, sobre a erosão dos direitos individuais numa América tornada insalubre pela direita religiosa;

http://diariodeumdoentedosnervos.blogspot.com/ (de meu ex-discípulo André. Como bom padawan, superou o mestre. Estou orgulhoso e o acrescentei aqui à direita);

http://infinitadiversidade.blogspot.com/ (da Cláudia Freitas, uma das pessoas que me recebeu tão amàvelmente no JETCOM em fevereiro de 1994, que Deus a tenha em Sua infinita ironia);

http://marjorierodrigues.wordpress.com/ (sugerido pelo Alex Castro);

http://www.horsepigcow.com/ (não sei nem quem é, mas me amarrei em seu cenário jornalístico-belogueiro-literário e lhe desejo todo o sucesso, além de ela ser uma gata);

http://johneaves.wordpress.com/ (de John Eaves, criador da esguia Enterprise-E);

http://drexfiles.wordpress.com/ (Drex Files, de Doug Drexler, CGI artist em Deep Space Nine);

http://www.warbirdregistry.org/ (que compila os aviões restaurados pelo mundo — desejo-lhes sorte);

http://www.umsabadoqualquer.com/ (Um Sábado Qualquer, genial);

http://www.malvados.com.br/ (Malvados — outra boa tira online);

http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/ (Manual do Minotauro — o belogue das GENIAIS tirinhas do Laerte, que, se Deus não existe, pelo menos ele é a coisa mais próxima que um cartunista alcança);

http://substantivolatil.com/ (da Mirian Bottan, musa do Cardoso).

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Alguém me explique a lei 11.922, art 20

É assim. Anteontem, saiu a lei 11.922, que tem 19 artigos tratando de créditos da Caixa Econômica Federal, financiamento imobiliário, fundo habitacional e sonho da casa própria. Beleza.

Aí, o artigo 20 estende o prazo para registrar ou entregar arma de fogo à Polícia Federal dentro do Estatuto do Desarmamento.

O artigo 21 trata da vigência da lei. Aí acaba o texto dela.

Peraí, volta. Que que diz o artigo 20?

Fui investigar. Tudo começou com a medida provisória 445 de 2008, cujos dois artigos tratavam de créditos da CEF com negócios imobiliários. Aí, a MP tramitou na Câmara dos Deputados, onde recebeu 18 emendas (detalhes aqui), todas pertinentes ao assunto. Todas exceto duas.

A emenda 16 autorizaria a DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes) a fazer obras com determinados recursos que não os tratados pela MP. Naturalmente, estava fugindo do assunto, e o Deputado Duarte Nogueira se insurgiu contra sua aceitação. Foi indeferido. Recorreu e perdeu. Detalhes aqui. A emenda entrou na então-MP 445, futura-lei 11.922.

A outra emenda era a de número 10, do Deputado Sandro Mabel. Ele considerou oportuno estender o prazo relativo às armas (e, pelas razões que ele expôs, concordo com ele) e, out of the blue sky, pediu para enfiar lá um artigo relativo a isso nessa MP-mas-em-breve-lei. Mais detalhes aqui.

E ficou assim! Olhei todos os pareceres escritos e falados na Câmara, inclusive das comissões, e ninguém falou nada! Passou totalmente embaixo do radar!

Eu estava entendendo que, pela boa técnica legislativa, não se podia usar lei de um assunto para tratar de outro. Em matéria de lei orçamentária (que não é o caso), isso é até proibido.

Vou ver se alguém no Senado reparou nisso. Mas não ponho muita fé.

PREMONIÇÃO

Depois da notícia das chicotadas no trem, vi esta, do Laerte:

http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/2009/04/dragea-033.html

Detalhe: é da VÉSPERA.

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