Intreináveis

Minha dona diz que eles são intreináveis. Não conheço melhor expressão.

Você vai ao comércio, o cara não consegue te vender uma bala Juquinha. Pergunta se tem o produto, está debaixo da fuça do infeliz, ele diz que não tem. Pergunta quanto é, ele diz que não sabe.

Minha colega foi à Saraiva da rua do Ouvidor, perguntou pelo Dicionário filosófico de Voltaire — com essas palavras — e o idiota lhe perguntou quem era o Autor. Ela repetiu, Voltaire, e o retardado escreveu “Wolter”, como se fosse um Walter que ele conhecesse.

Numa LIVRARIA! Ela não foi procurar o Dicionário no meio de um prédio em construção, nem nas termas, nem na cozinha.

E o pior é que não adianta a Saraiva demitir para contratar quem saiba ler. Ninguém sabe. É impossível contratar mão-de-obra qualificada neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval. É impossível treiná-los, eles não são capazes de aprender nada de nada de nada.

Amigo meu, médico, teve que explicar pro assentador de granito como é que se assentava granito, porque o mentecapto quebrou três pias sucessivas até aprender a cortar a pedra. Meu prezado doutor (duas vezes: por ser médico e por ter defendido tese) perdeu a paciência com o apedeuta, disse que um profissional consegue se sustentar com o que faz e que, òbviamente, o estropício não podia se considerar um profissional. Observo que, para esse doutor — que dá aula de Medicina em universidade pública, concursado e o escambau –, dizia, para esse doutor perder a paciência, precisa muito, não basta ser um caminhão de asneiras, tem que ser um trem de carga com cocô até em cima mesmo. Quando ele sofreu uma fratura cominutiva do ombro (osso quebrado em quatro partes), com uma dor que o fazia ver os sete anjos com as sete pragas (ele que é ateu), ainda assim manteve a compostura e falou civilizadamente com a pseudo-auxiliar de enfermagem que veio injetar-lhe o medicamento receitado para outro paciente enquanto ele continuava esperando o analgésico. Mas o fingidor de pedreiro conseguiu tirá-lo do sério.

No trabalho, vou usar a casinha e descubro que tem barata. Raios me partam! Tem um faxineiro que, sempre que entro no banheiro, está lá olhando pro teto e se ocupando só das próprias unhas, enquanto baratas tentam me engolir vivo. Aposto qualquer quantia, aposto meus diplomas — pode vir aqui em casa rasgar todos se eu estiver errado — que eu limpo banheiro melhor do que qualquer um desses descerebrados que estão, supostamente, GANHANDO SALÁRIO PRA FAZER ISSO há uma vida inteira.

NEM DISTRIBUIR PANFLETO NA RUA O CARA SABE: fica de costas para o sentido de onde vêm as pessoas, elas saindo do Metrô no início do horário comercial, ele não vendo ninguém se aproximar nem, portanto, conseguindo estender a mão a quem já foi embora. Quer dizer, nem esse ofício infernal de espalhador de filipetas, que devia ser dinamitado da face do planeta, nem essa pseudoprofissão inútil serve para absorver o excedente de mão-de-obra desqualificada, porque o sub-gump nem isso consegue fazer.

Minha proprietária sugeriu: homem-porta-cartazes, talvez?

NEM ISSO. O aborto ambulante vai arrumar um jeito de se enfiar no canto de menor visibilidade da praça.

Eu entendo que o cara não queira produzir mais: o salário é o mesmo se ele vender e se não vender, o patrão é mau, a mais-valia é cruel etc. etc. Mas o que eles são clìnicamente incapazes de enxergar é que a alternativa é a demissão! O nanicocéfalo não percebe que, se não trabalhar, vai para o olho da rua — e continua não trabalhando!

Aí eu começo a entender aquilo que tanto escuto no Metrô: as histórias tristes de quem toma a demissão como uma inevitabilidade, uma decorrência natural do fato de estarem empregados, que é só uma questão de quando, não de se. Para eles é normal, não se emendam mesmo!

Quando eu varria chão no Exército, o chão ficava limpo. Não se via um grão de poeira. Eu não fazia mais do que minha obrigação, nem era especializado na tarefa. Hoje, eu vejo uma faxineira fingir que esvazia uma lixeira, derrubar a sujeira toda no chão, e ouço dela que isso acontece toda hora. WTF??? A mulher pretende GANHAR A VIDA fazendo isso? Precisa ter mestrado pra aprender a esvaziar lixeira, a varrer chão? Eu varro aqui em casa e fica tudo limpo; supunha que uma profissional especializada soubesse fazer ao menos isso.

Uma colega (a mesma do Wolter) observou que é porque eu presto atenção, porque me dedico a tudo que faço. Se é para fazer, é para fazer bem feito, seja um prato de comida, um parecer jurídico ou um banheiro limpo. É para tentar fazer cada vez melhor, fazer em menos tempo com a mesma qualidade, fazer com mais qualidade no mesmo tempo. Mas, para eles, parece que não. Andam pela vida com o 32-A607 ligado (escreva num papel e olhe no espelho). Não aprendem NEM QUEREM APRENDER. Por isso é impossível ensinar-lhes qualquer coisa.

E estão sempre reclamando que estão doentes, com dor aqui e ali, e que “ontem passaram mal”, e vão pegar atestado, ou não vão.

Então, quer saber? Não tenho pena não. Um amigo me dizia que não tinha essa suposta “pena de botar um pai de família na rua”, porque havia OUTRO pai de família faminto e qualificado que não conseguia a vaga porque um mequetrefe desses a estava ocupando. Eu vou além: é preciso ser isonômico. Se são todos igualmente indolentes e preguiçosos, então a fila tem que andar, é preciso cada um ceder a vez: brinca um pouquinho, depois dá o lugar pro outro. Não pode é um só querer ganhar sem trabalhar o tempo todo.

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Da série Mais motivos para me deixar orgulhoso e assustado

Em um assunto distinto, porém relacionado, acabei de entender algumas das várias limitações que há anos venho percebendo nas pessoas. Acabei de entender por que é que tanta gente à minha volta lê tããããão devagar, palavra por palavra, causando-nos uma perda enorme de tempo e de produtividade. Taqui a explicação. Ou: “p*rra, por que esse cara está gastando um tempo enorme para ler esse pedaço que òbviamente não é o que interessa na discussão?”

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Andei lendo:
Superman #7 (julho de 1987), “Rampage”, publicada em Superman: the Man of Steel v. 4.
http://tirinhasfi.blogspot.com/ — Fi – Futuro Incerto, de Felipe Acosta;
http://lidetemeraria.blogspot.com/, de Ana;
http://calmaqueficapior.blogspot.com/, da Srta. T;
http://www.interney.net/blogs/imprensamarrom/, do Gravatai Merengue;
http://revistaerrata.blogspot.com/, dos Doutores Albieri, Banner, Gori, Jekyll e Jivago (PQP, tou velho. Entendi todas as piadas embaixo das apresentações dos doutores. Isso inclui o Doutor Gori).

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