Balok era apenas um baixinho

(O título acima é para quem viu o episódio “The Corbomite Maneuver”. Não vou explicar.)

Quando eu estudava inglês no colégio e no curso, uma das coisas que vi, mais de uma vez até, foi como escrever cartas comerciais. Era uma redação toda formal, com o endereço do destinatário no canto superior direito, local e data, e abria com “Dear Sir or Madam,” Tinha que ser uma gramática toda castiça, com os tempos verbais bem cuidados e um fecho impecável: “I look forward to your reply. Yours truly, Fulano”.

Hoje negocio contratos internacionais, a maioria dos quais em inglês. Muitas vezes sou eu que abro as negociações, então sigo direitinho as instruções da Dona Nara, da Carmen Lúcia, da Dona Míria, do Quaresma e do Mr. Perry. “Dear Sir”, “Dear Mr. Sobrenome”, e vários had nots e would haves.

No início, as respostas me surpreendiam: ingleses e americanos mostravam uma total ausência de formalismo, preferindo ser chamados pelo primeiro nome (ou até abreviações: Ted, Chris). O vocabulário era totalmente coloquial. Os tempos verbais eram contraídos sem apóstrofo! I hadnt seen it, por exemplo. Ainda é assim, mas ainda não me habituei, mesmo após dois anos fazendo isso.

Então me lembrei de um detalhe: todos aqueles livros e professores estavam me contando sua versão acadêmica, sem exemplos extraídos do mundo real. Eu treinava e fazia provas, sempre com base no que tinha sido dado em sala de aula, sem verificação da realidade: será que realmente se escrevia carta assim? Ou isso era só o que *a escola* queria me fazer crer?

Duas hipóteses se candidatam a explicar o fenômeno. Uma é que primitivamente fosse assim mesmo e os livros tenham ficado desatualizados. Afinal, a vida se acelerou e já não escrevemos com o cuidado de nossos avós, que trabalhavam em estruturas fortemente hierarquizadas e cujos contratos tinham que vir em papel, a mão ou a máquina. Você tinha mais tempo elaborando uma carta e podia se dar ao luxo das firulas.

A outra hipótese é que nós, alunos latrino-americanos, tenhamos sido enganados por nosso paternalismo clientelista e pela falta de autoestima que lhe vem atrelada. O sinhô é sempre uma ameaça imprevisível, uma espécie de senhor de terras no feudo onde somos servos, a quem devemos homenagens pela simples diferença de status social, independentemente do interesse ou da posição das partes na negociação. Presume-se que o gringo seja mais respeitável, mais refinado, e que não dependa de nós para nada, de modo que tememos ofendê-lo, nós que desejamos os espelhos e miçangas que ele nos traz de outro mundo. Então nos desdobramos em rapapés e salamaleques.

A convivência me mostrou que eles erram, sim, que se confundem, que não são mais inteligentes e que deixam de usar s depois de apóstrofo só porque a palavra anterior também termina com s. De nosso lado, ainda temos uma força de trabalho analfabeta e desqualificada, de modo que o Gringo continua em vantagem. Mas não é um poder intrínseco nem sobrenatural que ele tenha. Talvez as veias da América Latina não estejam tanto para Galeano quanto para Galeno, que descobriu que somos todos feitos da mesma carne.

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