Verbos defectivos

Quando eu estava na quarta série, meu livro de conjugações verbais não tinha o imperativo do verbo querer. A professora dizia que o verbo era defectivo — ou seja, um verbo que não tem conjugação em todos os tempos verbais. Ninguém me explicou o porquê, mas deduzi que fosse pelo contrassenso: você não teria como mandar uma pessoa querer alguma coisa. Apesar da aparência de razoabilidade, ainda fiquei pensando que isso era uma omissão grave na língua: normalmente, você não mandaria alguém querer nada, mas o português deveria ter essa possibilidade. Vai que, uma vez a cada Lua Azul (A Gata e o Rato, alguém?), um escritor precise expressar o conceito por alguma razão abstrata. Afinal, as possibilidades de pensamentos são infinitas, e deveria haver língua para exprimi-los.

Foi só vários anos depois que me dei conta: o verbo querer tem imperativo, sim. “Por favor, queira se retirar”, “queiram dirigir-se ao balcão”. Mesmo que não tivesse, observe que o imperativo afirmativo se constrói por repetição do presente do indicativo, sem o S, no caso da segunda pessoa, e por repetição do presente do subjuntivo no caso da terceira pessoa: “contanto que você digite o texto” (presente do subjuntivo de digitar), “por favor, digite o texto” (imperativo afirmativo de digitar). O imperativo negativo também tem fórmula, mas eu esqueci qual é; isso não vem ao caso, o que importa é que tenha fórmula. Portanto, automàticamente, querer tem imperativo, sim.

“Tu queres” –> “quere tu”
“Você queira” –> “queira você”
“Nós queiramos” –> “queiramos nós”
“Vós quereis” –> “querei vós”
“Vocês queiram” –> “queiram vocês”

O fato de uma formulação não ser muito usada não deveria significar que não existisse na língua.

Mas a pergunta mais importante é outra: por que os livros e professores estão ensinando a língua incompletamente, como se alguns conceitos não existissem?

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O velho truque do desaparecimento

Òbviamente, você sabe, a esta hora Michael Jackson está na mesma ilha remota do Pacífico onde moram Elvis Presley, John Kennedy, Adolf Hitler e Greta Garbo, tomando prosecco e rindo de todos nós.

A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini

A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini

Enquanto isso, quem deu mó azar foi Farrah Fawcett: morreu justamente na véspera (ou no mesmo dia, de manhã, não sei bem). Consequência (agora sem trema): ninguém vai lembrar que ela morreu. Ele ganhará especiais e retrospectivas, ela não. Pois que conste aqui: Mulher Biônica, As Panteras e Encontro Fatal, com Larry Hagman.

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Star Trek: Countdown

Star Trek: Countdown é uma minissérie em quadrinhos, composta por quatro capítulos e publicada pela IDW nos meses anteriores a esse filme novo. Ela ajuda a entender o que aconteceu na linha de tempo “normal” antes dos acontecimentos do filme. Ou seja: que história foi aquela de supernova, de matéria vermelha, de Spock ajudando os romulanos etc. É uma espécie de prequel do filme, exceto que é ambientada no século 24. Atenção: seguem spoilers do filme e dos quadrinhos. Prossiga por sua própria conta e risco.

As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação. Filhos da p*ta.

As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação.

Peraí, pára para tudo. Deixeu descomplicar. O filme Star Trek lançado em 2009, apelidado “Star Trek XI” e que ainda está levando nos cinemas, é ambientado no século 23 e mostra o início da carreira do Capetão Kirk e do Orelha. Exceto que ele não está mostrando o passado dos personagens como você os conhece. Conforme o próprio filme explica, o que acontece é que, no século 24, Spock — òbviamente bem mais velho — envolveu-se com os romulanos e com um acidente cósmico de proporções, bem, cósmicas, e a consequência (agora sem trema) foi uma viagem de Spock e de alguns romulanos no tempo, ao século 23. O surgimento de Spock e de uma nave romulana no século 23 é a causa de uma nova linha de tempo, uma realidade alternativa, divergente daquela que os demais filmes e séries mostravam. Nesta linha de tempo alternativa, muita coisa passa a ser diferente por causa da chegada de Spock e da nave romulana. E é nessa realidade alternativa que se desenrola o filme.

Bem, mas que acontecimentos foram esses, no século 24, que causaram a viagem de Spock de volta no tempo? O filme explica, até mostra resumidamente, mas o foco dele não é essa passagem. Ela só entra como uma justificativa histórica, fazendo a ponte entre a linha de tempo tradicional e a nova. Para quem está interessado nos porquês e desdobramentos, fica uma lacuna.

Então, Countdown supriu essa lacuna, contando justamente esses detalhes, e mais: foi lançada antes do filme. Isso faz todo o sentido, primeiro porque você, ao assistir, já vai com a explicação na cabeça. Segundo porque, seguindo a lógica das viagens no tempo e apesar de tudo, a história passada no século 24 realmente vem antes da história do filme. Realmente é antecessora, realmente o filme é sequência (também sem trema) dela. É como se fossem duas metades de uma história só, embora bastante separadas uma da outra.

Outro dia, li Countdown inteira (bom, mais ou menos… aos saltos. Vendo as figuras, aliás bonitas, e lendo os diálogos na diagonal). É uma minissérie da Nova Geração, tendo o Embaixador Spock como protagonista, e se passa alguns anos após os acontecimentos de Nemesis — que, incidentalmente, é, IMHO, o pior, mais fraco e mais sem sentido dos filmes de Jornada. Mas, voltando à minissérie, nela vemos onde foram parar alguns personagens da NG. Data é o capitão da Enterprise-E, tendo sido ressuscitado a partir das memórias que deixara em B4 no filme anterior (óbvio óbvio óbvio. Alguém tinha dúvida de que era isso mesmo que ia acontecer?). Não reparei no que LaForge está fazendo, mas ele também aparece, assim como o Embaixador Picard — que, assim, acabou materializando aquilo que havia sido prenunciado no episódo “Future Imperfect”. Já Worf é general entre os Glunkons, o que não faz muito sentido em face do destino que teve no final de Deep Space Nine (não vou contar, que também é spoiler. Google: “What You Leave Behind”). E mataram Worf???!!!

Em síntese, gostei bastante. Juntando com o que se lê aqui, imagino que ainda seja possível fazer boas histórias no século 24 da linha de tempo tradicional.

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Star Trek mashups

Eu ia pôr aqui só os linques. Só que leva tanto tempo para carregar o saite original que resolvi kibar e dizer de onde tirei. A fonte taqui:
http://www.empireonline.com/features/movie-poster-mash-up/star-trek/

São 52 cartazes de filmes, adaptados para Jornada nas Estrelas. Os melhores momentos estão aqui embaixo. Logo depois, coloquei também os de Star Wars e de outros temas nerds. Vêm de outros linques do mesmo saite, clicáveis na página de Star Trek que indiquei no parágrafo de cima. Clique nas imagens para ampliar, porque, assim pequenas, perdem um pouco da graça.

Visitas recentes:
http://putaqpaliu.blogspot.com/
http://conversasemsentido.wordpress.com/
http://www.youtube.com/watch?v=OGqX-tkDXEk (The Monty Python Channel on YouTube)
http://trekmovie.com/2009/06/14/time/ — para entender as linhas de tempo de Star Trek “XI”
http://www.wired.com/geekdad/2009/06/passing-the-phaser-10-tips-for-turning-your-kids-into-trekkies/
http://aliengirl.wordpress.com/
http://jovemnerd.ig.com.br/especiais/filmes/tudo-o-que-voce-sempre-quis-saber-sobre-star-trek/ (RESUMÃO suficiente)
http://www.empireonline.com/features/movie-poster-mash-up/star-trek/
http://motherjoana.blogspot.com/
http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/05/um_pontinho_pretomais_uma_bale.php
http://horroresgraficos.marcamaria.com/2009/05/12/vegetarianos/
http://coconobanho.blogspot.com/
http://panoptico.wordpress.com/2009/05/28/wwf-expoe-desempregados-a-humilhacao/
http://marcogomes.com/blog/

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Intreináveis insidiosos

Minha irmã voltou de Curitiba anteontem. Conta-me dos percalços da volta.

Primeiro, chegou cedo ao aeroporto para fazer um voo direto ao Santos-Dumont, partindo às 11:05 h. A moça-do-checkin disse-lhe que seu voo sairia 10 e pouco, teria escala em Campinas e chegaria ao Galeão. Apesar da insistência de minha irmã, a moça-do-checkin teimou que o voo dela tinha sido cancelado e que minha irmã teria que vir no voo das 10 e pouco. Já dentro da área de embarque, minha irmã procurou um moço-do-balcão da companhia aérea, esclareceu o mal-entendido e ouviu dele que seu voo original, direto, partindo às 11:05 h e chegando ao Galeão, estava confirmado.

Que houvera no balcão de checkin?

Bem, não sei. O que importa é que se consertou o voo. O moço-do-balcão perguntou se ela tinha bagagem despachada. Tinha. Então, ele foi pro rádio e mandou retificar.

Chegando ao Rio, minha irmã não encontrou sua bagagem. Procurou o moço-das-reclamações. O moço-das-reclamações perguntou como era a mala e, diante da resposta, também foi para o rádio: “Fulano! Eu já falei mil vezes, vou falar pela última vez: é pra descarregar a bagagem não identificada! Põe na esteira um!” A esteira 1 começou a andar e a mala de minha irmã apareceu.

Você reparou? “Bagagem não identificada.” Sabe o que isso significa? Que, lá no aeroporto internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, alguém teve o trabalho de tirar a etiqueta errada, mas não o de apor alguma correta. Entendo a dificuldade logística de se trazer a mala de volta para dentro do prédio e de se reemitir uma etiqueta que batesse com o cartão de embarque, mas, pombas, etiqueta NENHUMA???

Apideite: tem mais uma, que só lembrei depois. Todos já a bordo, o piloto anuncia que o destino é Santos-Dumont e uma passageira se assusta: peraí, Santos-Dumont? Eu estou indo para Congonhas! Este avião não vai para Congonhas? Diante da negativa, saiu apressada.

Aí você vê: òbviamente, a criatura se enfiou em qualquer portão de embarque sem conferir o que dizia a tela; e ninguém deu a mínima para o cartão dela. Bem sei disso, porque já reparei que difìcilmente as moças que recolhem cartão de embarque chegam a ler o que está escrito. Ou seja, ninguém está nem aí. Ah, quer saber? A primeira pessoa a prestar atenção tinha que ser a passageira. Merecia ir para o Santos-Dumont! [/apideite]

Já demonstrei aqui que o Brasil está caindo vítima dos Intreináveis. A empresa em questão é mais uma refém da falta de qualificação de pessoal da Grande Nação Brasileira. Se, antes, só os encontrávamos atrás do balcão do KFC e do Bob’s, agora eles parecem penetrar alguns domínios mais arriscados da economia brasileira, como são as atividades de terra dos aeroportos. Em breve, a segurança dos voos estará nas mãos deles (ou talvez já esteja). Não é animador? Fico pensando naqueles filmes de invasão alienígena, onde o herói descobre que está cercado, que todo o mundo em volta é inimigo e que não há a quem pedir socorro. São aqueles conquistadores silenciosos, que, quando você percebe, já tomaram tudo. Mais ou menos como os chineses na SAARA.

O que me deixa mais admirado não é a bagagem chegar sem etiqueta. É terem deixado ENTRAR NO AVIÃO sem etiqueta. Se isso acontecesse em Heathrow, ou em algum lugar igualmente pouco civilizado, fico pensando se não mandariam todo o mundo descer do avião, esquadrão antibombas e o escambau, e se não iria lá aquele robozinho sobre esteiras, levantando a mala de minha irmã até um canto remoto da pista, para explodi-la em segurança.

Intreináveis.

USS Nassau em Palma de Mallorca

Em 25 de junho de 2008, entre 12:37 e 13:07 GMT+1, eu estava a bordo do Fokker 100 de prefixo D-AGPE, no vôo Air Berlin 2039, ocupando o assento 14A. Na aproximação final ao aeroporto internacional de Palma de Mallorca, deparei-me com esta embarcação.

USS Nassau em Palma de Mallorca, 25 de junho de 2008USS Nassau em Palma de Mallorca, 25 de junho de 2008

Nos últimos dias, estive processando as fotos tiradas naquela semana. Imaginei dividir esta aqui com quem gosta de navios anfíbios e porta-helicópteros.

Uma breve busca no saite Hazegray mostrará que se trata do USS Nassau (LHA-4). No final de 2008, uma visitinha à página do navio me mostrou que ele estava retornando do Golfo Pérsico (ou seria mar Vermelho?) aos Estados Unidos, o que me faz deduzir que Mallorca fosse uma escala. Provàvelmente a parada terá servido para combinar duas acepções da palavra cruzeiro.

Se você prestar atenção, conseguirá ver que há dois Seahawks sobre o convés de voo. Não sei fazer o WordPress exibir um formato menor do que o original, de modo que tive que reduzir a imagem para 60%. Vou ver se dou um jeito de disponibilizar o tamanho original, mas não garanto.

Para mais detalhes:
http://navysite.de/ships/lha4.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/USS_Nassau_(LHA-4)

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Em uma nota não relacionada: parece até que eu atraio. Anteontem, escrevi um parágrafo sobre o Império Britânico. Hoje a Wikipedia o escolheu como today’s featured article.

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Visitas recentes:
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/06/09/a_pergunta_e_propriedade_intelectual_do_/ (com o qual concordo sem ressalvas)
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/06/08/a_petrobras_entendeu_a_internet/ (idem idem)
http://www.fubiz.net/2008/07/13/candidate-as/
http://super.abril.com.br/blogs/videorama/172105_post.shtml
http://caminhantediurno.blogspot.com/
http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2009/06/por-que-jornalistas-experientes-fingem-nao-ver-que-a-petrobras-age-errado.html
http://pedrodoria.com.br/2009/06/08/a-petrobras-e-a-imprensa-golpista/
http://www.idelberavelar.com/archives/2009/06/o_blog_da_petrobras_e_o_desespero_da_midia.php#comments
http://anomia.blogueisso.com/
http://isaacasimov.wordpress.com/
http://www.diariodeumpm.net/2009/06/06/sindrome-do-rambo-a-fadiga-do-combate/
http://www.interney.net/blogs/oescriba/
http://trekmovie.com/2009/06/11/location-of-r2-d2-easter-egg-revealed-more-star-trek-easter-eggs/
http://www.worldcommunitygrid.org/
http://www.youtube.com/watch?v=lj-x9ygQEGATotal Eclipse of the Heart literal — PERFEITO, dica do Cardoso
http://www.youtube.com/watch?v=lnjYrP5J6rETake On Me literal, não tão bom mas ainda OK
http://www.youtube.com/watch?v=w0TYun-Nq1QHead Over Hills literal, EXCELENTE
http://www.youtube.com/watch?v=4oMokuYOXCMVader Thriller —  Um personagem tão dramático,  um dos vilões mais temidos do cinema ever (talvez O mais temido) — e difìcilmente voltaremos a levá-lo a sério depois disso.

Na cabeça e na caixa de som: Dukes Intro, In the Cage, Afterglow, Home by the Sea, Firth of Fifth, Domino e Los Endos, em Live Over Europe 2007, do Genesis.

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Foundation and Empire (Fundação e Império), de Isaac Asimov

Pesquisando Isaac Asimov na Web, descobri que sua obra mais aclamada é a trilogia da Fundação. Diz a lenda (ou melhor, a Lenda, porque é o próprio Asimov quem conta) que ele havia acabado de ler o Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, e que estava agitado para escrever uma história semelhante, mas ambientada no futuro. Expôs a ideia a seu editor, que a encomendou.

No caso do Império Romano do Ocidente, aconteceu o seguinte. Após abranger metade da Europa e todo o entorno do Mediterrâneo, Roma estava demasiadamente estendida, e já não era possível manter as linhas de comunicação nem a coesão do império. Gradualmente, aumentou a dependência do governo central sobre as províncias, cujos senhores locais foram ganhando autonomia. Ao mesmo tempo, a abastança da capital gerou imperadores acomodados, que já não se ocupavam de estratégias de expansão nem de manutenção da infraestrutura. Das províncias, vinha tanta riqueza que os imperadores gastavam a maior parte do tempo em intrigas palacianas e terminavam assassinados por usurpadores. Ocupando-se do próprio umbigo, o poder central descuidou-se de manter a pax romana e, com isso, foi regredindo e permitindo a projeção dos poderes periféricos. Um dia, vieram invasões. Os poderes periféricos, conquistados pelos bárbaros ou não, tiveram que se virar sem o apoio do império, que acabou caindo também. Esse foi o início da Alta Idade Média, com a Europa dividida em inúmeros reinos e principados. Com a institucionalização das culturas germânicas sobre os escombros do Império, veio o feudalismo.

O que Asimov fez de 1942 a 1945 foi contar uma história semelhante, mas ambientada em um futuro indefinido em que a Galáxia começa sob o domínio do grande Império Galáctico. Sua capital, Trantor, é aquele pujante entroncamento de culturas e tecnologia que George Lucas representou como Coruscant. Pessoalmente, penso sempre numa Londres metálica e de dimensões planetárias. Afinal, Londres é a antiga capital do Império onde o Sol não se punha, recebendo tributos e visitantes das culturas mais variadas da Terra. Como a BAxt poderá confirmar, ali você encontra desde comida tailandesa até jóias do Azerbaijão.

A história começa com a inevitável queda do Império Galáctico e concentra-se na iniciativa de um brilhante matemático, Hari Seldon, cuja nova ciência da Psico-história permite, através de equações, prever o futuro mais provável de uma civilização com percentuais de probabilidade que equivalem à certeza. Seldon descobre que o Império deixará de existir em menos de trezentos anos, e que se seguirão trezentos séculos de barbárie. Para abreviar essa grande noite da ignorância, concebe a Fundação, situada em um planeta no limite mais externo da Galáxia. De acordo com o Plano de Seldon, a Fundação abrigará o conhecimento científico do Império e servirá como um farol na escuridão, permitindo o surgimento de um novo império em apenas mil anos. (Só uma coisa: mais alguém notou que essa é a mesma premissa da série Gene Roddenberry’s Andromeda?)

A narrativa da Fundação desenrola-se em oito grandes contos que a acompanham ao longo dos séculos e que foram publicados naquelas clássicas revistas de ficção científica dos anos 40. No início dos anos 50, uma editora iniciante se dispôs a compilar esse material. Então, o Autor escreveu mais um conto, que passou a ser o primeiro da sequência, e agrupou os nove contos em três livros: Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, que passaram a ser chamados, coletivamente, de “trilogia da Fundação”. Nos anos 80, Asimov publicou duas continuações (Foundation’s Edge e Foundation and Earth) e dois romances que se passam antes da trilogia (Forward the Foundation e Prelude to Foundation), mas eles não têm a mesma reputação do material original.

Hoje de madrugada, terminei o sétimo conto e, com ele, o segundo livro. Atenção: no trecho identado abaixo, vou contar detalhes da história até aqui e revelar o final do livro. Prossiga sob seu próprio risco.

No primeiro livro, aprendemos como a Fundação, inicialmente confiante no apoio do Império, acaba isolada entre planetas ignorantes e belicosos. Ora, clàssicamente, os detentores da tecnologia sempre foram temidos como magos encerrados em seus castelos, senhores de mistérios da vida e da morte: haja vista o arquétipo que alimenta as histórias do Golem, dos alquimistas, do Fausto de Goethe, de Frankenstein, de Gandalf e dos tecnomagos de Babylon 5. Então, a Fundação se vale disso e cria uma religião com que seus “sacerdotes” dominam os novos reinos que a rodeiam. Mais tarde, ela começa a vender as traquitanas de suas inovações tecnológicas cujo desenvolvimento o agonizante Império já não consegue acompanhar; e passa a dominar pelo dinheiro.

Na primeira metade de Foundation and Empire, um general tenta reconquistar a Fundação, em um último espasmo de glória a um imperador que só se preocupa com as frivolidades da corte. Nesses dias de ocaso do Império, o cinismo impede a sobrevivência de idealismos patrióticos, regulando a política de nobres que só querem expandir sua parcela de poder pessoal. Nos estertores, o Império decai para a autofagia, e o general é acusado de traidor por pretendentes do trono que preferem nivelar por baixo e veem nele uma ameaça a seus planos.

Na segunda metade de Foundation and Empire, surge a Mula, um mutante misterioso que ràpidamente subjuga alguns reinos relativamente poderosos. Um casal de cidadãos da Fundação é enviado a Kalgan, a mais recente e espetacular conquista da Mula, para descobrir quem é esse sujeito e qual é seu poder tão especial que dominou o planeta sem dar um tiro. Durante a visita, o casal resgata um homem esquisitíssimo e vestiço de palhaço, que estava sendo assediado por soldados. Na fuga, descobrem que se trata do bobo da corte da Mula e, na esperança de obter segredos úteis, dão-lhe asilo político na Fundação. O homem revela-se sempre inofensivo e inocente, mas pouco útil, porque se comporta feito uma criança autista e se apresenta sempre tão apavorado que não consegue articular um pensamento.

Fiquei um bocado desconfiado do palhaço. Afinal, ele é esquisito, a Mula é um mutante, sua aparição é tão conveniente aos dois espiões, e continuamos sem ver nem saber quem é a Mula.

Pouco depois, a Mula exige que a Fundação devolva seu palhaço, que alega ter sido sequestrado. Não sei por quê, mas foi nesse ponto que comecei a pensar que o palhaço era a própria Mula. Deve ter sido meu cinismo, que sempre parte do pressuposto de que, quanto mais perigosa a ameaça, mais inofensiva ela vai tentar parecer. De todo modo, o “sequestro” é a desculpa da Mula para mover guerra à Fundação, que também é conquistada sem violência. No último dia antes da invasão, o casal espião foge levando o palhaço para uma das colônias, que serve como refúgio à resistência.

O palhaço continua sendo desprezado por todos, que o deixam a sós com suas tolices. A Mula continua avançando, e continuamos a não vê-la. Minhas suspeitas aumentam.

Como garantia contra o fracasso do Plano, Seldon também havia estabelecido uma Segunda Fundação no lado oposto da Galáxia, a respeito da qual, até aqui, só sabemos que existe e mais nada. Na fuga, o casal espião é acompanhado por um matemático que procura reconstruir o conhecimento de Hari Seldon, perdido há séculos na desagregação do Império, para descobrir onde fica a Segunda Fundação e, com isso, avisá-la contra o avanço inexorável da Mula. O plano do matemático envolve uma viagem às ruínas de Trantor, onde é possível que ainda estejam os antigos arquivos.

A colônia resistente é conquistada sem luta, e a esposa observa que é muita coincidência: o casal está sempre um passo à frente, escapando no último minuto. Nesse ponto, eu ainda não tinha certeza de que o palhaço fosse a Mula: imaginei que ele pudesse apenas ter um daqueles localizadores que, nos filmes, o herói encontra embaixo do carro. Mas minha aposta continuava sendo que ele fosse a Mula sim.

A caminho de Trantor, a nave do casal é interceptada. Marido e palhaço são levados como reféns, separados um do outro mas devolvidos sem demora. Marido crê que a nave tenha sido enviada pela Mula, cujos homens conseguiram segui-los de algum modo. Palhaço tem outra teoria, que o convence e desconversa. Minha desconfiança transforma-se em certeza.

Em Trantor, a história se acelera e se enche de sinais de que algo está para acontecer, o que me fez perceber que o clímax estava perto apesar de faltarem dezenas de páginas. O matemático passa semanas revirando os antigos registros e calcula a localização da Segunda Fundação. Então, percebendo que vai morrer, elimina todos os rascunhos e diz ao casal que vai revelar o segredo só a eles — na frente do palhaço. Antes que ele diga, a esposa explode sua cabeça. O marido cobra uma explicação. E ela demonstra, item por item da história que acabei de lhe contar (revendo muito mais e menores detalhes, é óbvio), que o palhaço só pode ser a própria Mula.

Pela primeira vez, o palhaço fala como um ser humano normal. E confirma.

Fim. As páginas seguintes eram de anúncios de outros livros.

Aí, sem sacanagem: li as trinta últimas páginas de um pulo. Eu virava, já ia pro final — porque percebi que algo importante estava acontecendo e não aguentava o suspense — e tinha que voltar para ler de verdade, devagar.

Talvez eu tenha visto uma quantidade suficiente de episódios de seriados que lidam com mistério. Talvez seja o fato de estar assistindo a Babylon 5, que é cheia de sinais espalhados ao longo da história e onde ninguém é o que parece. Talvez eu tenha visto episódios demais de Scooby-Doo. Talvez Asimov tenha dado bandeira, semeando muita coisa que parecia não contar para a história e, com isso, despertando minha desconfiança (afinal, é sempre assim: quando o mistério é esclarecido, você descobre que sempre tivera os elementos, que eles nunca pareciam importantes e que bastava tê-los ligado com senso crítico, sem o envolvimento que os personagens têm). Talvez o excesso de atenção dada pelo Autor ao palhaço, aliado ao fato de que ele, na verdade, nunca fazia nada nem contribuía para os acontecimentos, tenha colocado um holofote em cima dele. Talvez o palhaço fosse a famosa arma de fogo de Chekhov.

De um lado, fiquei me sentindo vitorioso, por ter decifrado o mistério antes que o Autor o revelasse. Por outro, fiquei pensando se não era exatamente isso que ele queria, em uma espécie de parceria comigo. Em 1942, Asimov lançou uma ponte para alcançar mentes no presente e no futuro, inclusive a minha. É como um pequeno vislumbre e compartilhamento daquilo que o divertia, como um pequeno presente que ele me deu. Só tenho a agradecer.

A seguir, O príncipe, de Maquiavel, em tradução de 1933 pela editora Calvino Filho; e, depois, a Segunda Fundação.

Visitas recentes:
http://www.interney.net/blogs/heresialoira/
http://biajoni.opsblog.org/
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http://money.cnn.com/2008/03/02/news/companies/elkind_jobs.fortune/index.htm?postversion=2008030419 (só a página 1)
http://diadefolga.com/
http://www.morroida.com.br/
http://tuliovianna.wordpress.com/

Recém-lidas:
Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994), inclusive “Childhood’s End”, originalmente publicada em Team Titans #1-A (setembro de 1992);
primeiras histórias de Team Titans #1-A a 1-E (setembro de 1992), publicadas em Os Novos Titãs no. 100 (julho de 1994). A primeira é imitação da origem do Dr. Manhattan, de Watchmen. Todas têm premissas genèricamente interessantes, mas todas são cheias de clichês e têm péssimos diálogos, desenvolvimentos sofríveis e desenhos feios e carregados de poluição visual;
Action Comics #682 (outubro de 1992), “Gauntlet”, publicada em Super-homem no. 125 (novembro de 1994);
Justice League Europe #42 (setembro de 1992), “Mother of Monsters”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 7 (fevereiro de 1995) — os desenhos são pavorosos e o colorido está todo errado, mas a história traz um interessante desenvolvimento a Power Girl. A jovem ruma para resolver suas inseguranças através do contato com a deusa-mãe que, do interior da terra, estimula sua feminilidade e, com isso, nutre a vida e desperta a criatividade.

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