Fatalismos

Com esse desastre do voo da Air France, naturalmente os alarmes de fatalismo tendem a ser ajustados para sensibilidade máxima, apitando vários falsos positivos até serem desligados.

Mas os meus sensores de fatalismo já estavam ligados desde a véspera. Minha irmã me telefona para dizer que soube, pelo Orkut, que uma determinada colega minha de faculdade, a quem muito estimo, havia casado e enviuvado após quarenta dias.

Depois veio a historinha que vai abaixo.

Alguns anos atrás, eu fiscalizava obras e seus projetos no serviço público. Depois saí de lá, mas mantenho contato esporádico com dois colegas da seção onde trabalhava, inclusive minha ex-supervisora. Sucede que o último projeto que fiscalizei era para umas instalações de ar condicionado em um edifício que estava para ser construído em São Pedro da Aldeia, cidade a uns 120 km do Rio (medi com régua no Google Maps, portanto your mileage may vary).

Depois que saí do serviço público, a obra seguiu. Ora, minha ex-supervisora me mandou um email anteontem, contando que a equipe de fiscalização estava no carro, indo para SPA, quando, na estrada, um acidente interrompeu sua viagem. Morreu o engenheiro eletrônico e ficaram sèriamente feridas a engenheira civil e a arquiteta.

Fico pensando que eu estaria entre eles. Mas fico pensando, também, que, com a minha presença, o carro teria ficado superlotado, obrigando ao uso de uma van em vez de um Gol. Talvez nos salvássemos todos num veículo maior, justamente por minha causa. Talvez não. Talvez acabássemos indo em outro dia e sofrêssemos um acidente pior, que matasse também o engenheiro eletricista e o motorista (que sofreram bem menos na vida real).

São os imponderáveis. Certa vez, eu voltava de Congonhas ao Rio quando a moça do checkin me disse que havia um voo logo antes do meu e perguntou se eu queria antecipar. Para a Varig era bom negócio, porque, semigo, o avião ia decolar mais vazio e o assento não geraria mais receita, estando perdido para eles. Já comigo, o problema do assento vazio ficava adiado de meia hora, para meu voo original, e aumentava a chance de a companhia conseguir vendê-lo no último instante, por uma boa margem de lucro.

Naquele momento pensei: vai que, ao trocar, passo do voo sadio para o condenado e acabo morrendo, clássico caso daquele passageiro que morreu por causa de um acaso bobo. “Era hora dele mesmo, não tinha jeito”, diriam as mães dinás. Por outro lado, vai que meu voo original é que é o condenado e, antecipando, eu me salvo. Ia ser o cúmulo da ironia: o avião despencando e eu pensando, podia ter ido no outro… (Aliás isso tá na música da Alanis Morrissette, não tá? Tá sim, Ironic se não me engano).

Como (1) a probabilidade de queda de avião é bem pequena, (2) não dá pra adivinhar se ou qual vai cair, (3) no caso da eventual certeza de que um deles cairia, a distribuição era cinquenta-cinquenta, preferi raciocinar com a ÚNICA certeza que tinha: se nenhum dos dois caísse mas eu pegasse o voo que saía mais cedo, certamente chegaria mais cedo. Melhor do que passar outra meia hora de estresse num aeroporto apertado. Então, aceitei e, dois anos depois, estou aqui.

Outro fatalismo foi o do casal de brasileiros que morreu no voo da Spanair acidentado em Barajas no ano passado. Não vou detalhar o caso porque acabaria violando a privacidade alheia, mas basta dizer que encontrei pelo menos três semelhanças comigo, sem contar que era o mesmo aeroporto na mesma época. Faz você pensar. Bom, a mim fez pensar que meu Doppelgänger morreu e que, portanto, é bom eu andar pianinho porque perdi meu pára-raios (como é que se escreve agora? É “pararraios”?).

… O que me leva à conclusão de que não adianta a gente se preocupar. Se você vai pegar avião ou estrada, vai pegar mesmo. Não adianta deixar de viver porque o avião pode cair. Você pode ficar em casa e morrer de um acidente bobo: engasgado, eletrocutado na tomada etc. Melhor tomar o cuidado básico de evitar procedimentos òbviamente perigosos e deixar que o Monstro de Espaguete Voador cuide do resto.

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Leituras recentes:

Wonder Woman #20 (setembro de 1988), “Who Killed Myndi Mayer?”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 3 (julho de 2008) — uma história de mistério contra as drogas, passável;
Green Lantern #3 (agosto de 1990), “Sound and Fury”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 2 (junho de 2008) — mal desenhada e um pouco longa demais para a premissa, que é até interessante (Guy Gardner e Hal Jordan saindo na porrada e terminando amigos);
Lobo #1-4 (novembro de 1990 a fevereiro de 1991), histórias publicadas em O Evangelho segundo Lobo (2008) — grotescas, bizarras, malucas e bem divertidas;
John Constantine: Hellblazer: hábitos perigosos, de Garth Ennis e William Simpson, tradução de Enzo Fiuza, outubro de 2008, ISBN 978-85-7316-525-8, incluindo as histórias de Hellblazer #41-46 (maio de 1991 a outubro de 1991) — a cruel e bem divertida estréia de Garth Ennis com o personagem. Eu soube que o filme saiu daí. Bem escrito, bem cínico, trazendo uma apreciação das coisas que valem a pena da vida enquanto se passa a perna no Coisa-Ruim;
Lobo’s Back #1-2 (maio-junho de 1992), histórias publicadas em O Evangelho segundo Lobo (2008) — idem às de cima;
Os Novos Titãs no. 96 (março de 1994), incluindo as histórias de Deathstroke #13-14 (agosto-setembro de 1992) — bem ruim, confirmando que Marv Wolfman estava perdido com os personagens que lhe haviam trazido tanto sucesso oito anos antes;
The Sandman #40 (agosto de 1992), “The Parliament of Rooks”, publicada em Sandman: fábulas e reflexões (2006) — bobinha e fora de sequência (se bem que nada é fora de sequência nessa série);
Justice League Europe #41 (agosto de 1992), “Welcome to the Dark”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 6 (janeiro de 1995) — inútil;
New Titans #90 (setembro de 1992), “That Which Lurks Within a Star”, publicada em Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994);
Batman #484 (setembro de 1992), “Warpaint”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 1 (agosto de 1994), iniciando a Queda do Morcego;
Justice League America #66 (setembro de 1992), “Together Again”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 8 (março de 1995) — história endógena trazendo o Átomo à equipe;
The Sandman #41 (setembro de 1992), história publicada em Sandman: vidas breves. Misteriosa e bem escrita, mostra Delírio à procura de seu irmão Destruição, pedindo ajuda (e não conseguindo) de Desejo e Desespero e decidindo ir pedir a de Sonho, que a assusta;
Hellblazer #57 (setembro de 1992), “Mortal Clay”, publicada em John Constantine: Hellblazer: sangue real — outra bem escrita por Garth Ennis, com John e Chas indo tomar satisfações com quem roubou o cadáver do Tio Tom.

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