Intreináveis insidiosos

Minha irmã voltou de Curitiba anteontem. Conta-me dos percalços da volta.

Primeiro, chegou cedo ao aeroporto para fazer um voo direto ao Santos-Dumont, partindo às 11:05 h. A moça-do-checkin disse-lhe que seu voo sairia 10 e pouco, teria escala em Campinas e chegaria ao Galeão. Apesar da insistência de minha irmã, a moça-do-checkin teimou que o voo dela tinha sido cancelado e que minha irmã teria que vir no voo das 10 e pouco. Já dentro da área de embarque, minha irmã procurou um moço-do-balcão da companhia aérea, esclareceu o mal-entendido e ouviu dele que seu voo original, direto, partindo às 11:05 h e chegando ao Galeão, estava confirmado.

Que houvera no balcão de checkin?

Bem, não sei. O que importa é que se consertou o voo. O moço-do-balcão perguntou se ela tinha bagagem despachada. Tinha. Então, ele foi pro rádio e mandou retificar.

Chegando ao Rio, minha irmã não encontrou sua bagagem. Procurou o moço-das-reclamações. O moço-das-reclamações perguntou como era a mala e, diante da resposta, também foi para o rádio: “Fulano! Eu já falei mil vezes, vou falar pela última vez: é pra descarregar a bagagem não identificada! Põe na esteira um!” A esteira 1 começou a andar e a mala de minha irmã apareceu.

Você reparou? “Bagagem não identificada.” Sabe o que isso significa? Que, lá no aeroporto internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, alguém teve o trabalho de tirar a etiqueta errada, mas não o de apor alguma correta. Entendo a dificuldade logística de se trazer a mala de volta para dentro do prédio e de se reemitir uma etiqueta que batesse com o cartão de embarque, mas, pombas, etiqueta NENHUMA???

Apideite: tem mais uma, que só lembrei depois. Todos já a bordo, o piloto anuncia que o destino é Santos-Dumont e uma passageira se assusta: peraí, Santos-Dumont? Eu estou indo para Congonhas! Este avião não vai para Congonhas? Diante da negativa, saiu apressada.

Aí você vê: òbviamente, a criatura se enfiou em qualquer portão de embarque sem conferir o que dizia a tela; e ninguém deu a mínima para o cartão dela. Bem sei disso, porque já reparei que difìcilmente as moças que recolhem cartão de embarque chegam a ler o que está escrito. Ou seja, ninguém está nem aí. Ah, quer saber? A primeira pessoa a prestar atenção tinha que ser a passageira. Merecia ir para o Santos-Dumont! [/apideite]

Já demonstrei aqui que o Brasil está caindo vítima dos Intreináveis. A empresa em questão é mais uma refém da falta de qualificação de pessoal da Grande Nação Brasileira. Se, antes, só os encontrávamos atrás do balcão do KFC e do Bob’s, agora eles parecem penetrar alguns domínios mais arriscados da economia brasileira, como são as atividades de terra dos aeroportos. Em breve, a segurança dos voos estará nas mãos deles (ou talvez já esteja). Não é animador? Fico pensando naqueles filmes de invasão alienígena, onde o herói descobre que está cercado, que todo o mundo em volta é inimigo e que não há a quem pedir socorro. São aqueles conquistadores silenciosos, que, quando você percebe, já tomaram tudo. Mais ou menos como os chineses na SAARA.

O que me deixa mais admirado não é a bagagem chegar sem etiqueta. É terem deixado ENTRAR NO AVIÃO sem etiqueta. Se isso acontecesse em Heathrow, ou em algum lugar igualmente pouco civilizado, fico pensando se não mandariam todo o mundo descer do avião, esquadrão antibombas e o escambau, e se não iria lá aquele robozinho sobre esteiras, levantando a mala de minha irmã até um canto remoto da pista, para explodi-la em segurança.

Intreináveis.