Verbos defectivos

Quando eu estava na quarta série, meu livro de conjugações verbais não tinha o imperativo do verbo querer. A professora dizia que o verbo era defectivo — ou seja, um verbo que não tem conjugação em todos os tempos verbais. Ninguém me explicou o porquê, mas deduzi que fosse pelo contrassenso: você não teria como mandar uma pessoa querer alguma coisa. Apesar da aparência de razoabilidade, ainda fiquei pensando que isso era uma omissão grave na língua: normalmente, você não mandaria alguém querer nada, mas o português deveria ter essa possibilidade. Vai que, uma vez a cada Lua Azul (A Gata e o Rato, alguém?), um escritor precise expressar o conceito por alguma razão abstrata. Afinal, as possibilidades de pensamentos são infinitas, e deveria haver língua para exprimi-los.

Foi só vários anos depois que me dei conta: o verbo querer tem imperativo, sim. “Por favor, queira se retirar”, “queiram dirigir-se ao balcão”. Mesmo que não tivesse, observe que o imperativo afirmativo se constrói por repetição do presente do indicativo, sem o S, no caso da segunda pessoa, e por repetição do presente do subjuntivo no caso da terceira pessoa: “contanto que você digite o texto” (presente do subjuntivo de digitar), “por favor, digite o texto” (imperativo afirmativo de digitar). O imperativo negativo também tem fórmula, mas eu esqueci qual é; isso não vem ao caso, o que importa é que tenha fórmula. Portanto, automàticamente, querer tem imperativo, sim.

“Tu queres” –> “quere tu”
“Você queira” –> “queira você”
“Nós queiramos” –> “queiramos nós”
“Vós quereis” –> “querei vós”
“Vocês queiram” –> “queiram vocês”

O fato de uma formulação não ser muito usada não deveria significar que não existisse na língua.

Mas a pergunta mais importante é outra: por que os livros e professores estão ensinando a língua incompletamente, como se alguns conceitos não existissem?

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