Sintomas de um mercado editorial incipiente

De vez em quando eu resmungo que este é um povo de pouca instrução, pouco dado à leitura. Pelo que leio por aí, parece que estou sendo injusto quanto a essa segunda parte, porque BAxt e pacamanca já me convenceram de que a aversão à leitura dever ter algo de universal.

De todo modo, é um povo pouco instruído, sim. O tratamento que os livros recebem no Brasil é quase o de algo proibido. De fato, alguns anos atrás, um amigo de meu irmão ficou espantadíssimo quando, visitando-nos em nossa casa, surpreendeu-me lendo durante as férias, como se eu fosse maluco de estar desperdiçando meu tempo com uma tarefa que só deveria cumprir se fosse obrigado.

Então, eu passava agora há pouco em frente à livraria Eldorado da Tijuca, quando uma capa chamou minha atenção. Vários homens jovens, com traje de vôo, sentados na asa de um avião inglês da II Guerra Mundial, em uma fotografia em preto e branco típica da época (incidentalmente, dá pra dizer que o avião é inglês pela forma do motor que aparece no canto). O livro era Há muito o que contar… aqui, de A.L. Kennedy. Fiquei imaginando que fossem histórias de aviação durante a guerra, tema que sempre me atrai. Como não gosto de comprar um livro só pela capa, fui pesquisar por aí.

Primeiro, procurei A.L. Kennedy na Amazon. Encontrei Day, que tem a seguinte descrição:

Kennedy’s contemplative, stylized sixth novel (after Paradise) follows former Royal Air Force tail gunner Alfred Day as he relives his experiences in a WWII German prison camp. It’s 1949, and (…) He volunteers as an extra on the set of a war documentary, (…) The film set experience grows darker as Alfred begins reliving his time in the prison camp (…)

A capa era diferente da que eu tinha visto. Para confirmar que o livro fosse o mesmo, fui ao saite da Saraiva, a conferir a descrição. Olhe só o que encontrei:

A historia de um homem que foi piloto de um bombardeiro da Força Aérea Britânica durante a segunda Guerra Mundial.
Após a guerra, em 1949, ele participa como figurante num filme em que revive sua experiência de prisioneiro de guerra.

Está notando algo diferente? No original, ele era tail gunner: artilheiro de cauda, aquele cara que vai dentro de uma jaulinha no rabo do avião, dando tiro nos alemães que vêm atacar por trás. No comentário brasileiro, ele se tornou piloto.

Relevando o ataque à ortografia (“historia” sem acento) e a impropriedade dos nomes (“Força Aérea Britânica”, em vez de “Real Força Aérea” ou de “Força Aérea britânica”, como se o “Britânica” fizesse parte do nome, o que não faz; e “segunda Guerra Mundial”, com o “segunda” iniciado por minúscula), resta o fato de que a resenha brasileira está, muito provàvelmente, errada quanto aos fatos. Quer dizer, não sei qual das duas, mas, se eu tivesse que apostar dinheiro, diria que a errada é a brasileira.

(No mínimo, porque é menor: meu Word contou 126 palavras, contra as 315 das duas resenhas da Amazon combinadas. Não vou contar o fato de que a Amazon deixa os leitores comentarem a obra, que seria covardia. Oito pessoas deixaram lá suas observações, muito mais úteis (e algumas mais extensas) do que as resenhas editoriais e, aliás, confirmando que Day era tail gunner. Aliás de novo, é por essa e inúmeras outras razões que eu adoro a Amazon: ela sempre dá vasta informação sobre o produto, permitindo que você saiba exatamente o que esperar dele, qual é a edição, o que chamou a atenção dos leitores etc. Você não toma nenhuma decisão no escuro. Já deixei de comprar inúmeros livros que compraria de outro modo, só com base nas resenhas deixadas lá.)

Você poderá argumentar que isso não faça diferença e que o livro terá valor, ou não, independentemente da posição que Day ocupava a bordo. Só que, se a idéia é expor o produto para que eu escolha se o quero, então tudo conta para meu julgamento. Sinceramente, eu, Atoz, dou mais valor à história do tail gunner do que à de um piloto, por duas simples razões. Uma, que as perspectivas são completamente diferentes: o piloto é um oficial, comandante da tripulação, responsável por erros e acertos e com poder de decisão sobre para onde leva o avião, enquanto o artilheiro de cauda não é um oficial, fica impotente para comandar qualquer coisa além de sua metralhadora, opera em um espaço bem mais confinado, e submete-se aos mesmos riscos do piloto mais o de levar um tiro na cara, que o piloto, em regra, não. São pontos de vista bem diferentes. Outra, que o ponto de vista do piloto está narrado em dezenas de livros e revistas sobre a guerra, mas o do artilheiro é bem mais difícil de se encontrar, e valorizo-o mais por isso.

Então, como você pode ver, o consumidor incauto, que não pesquisa em outros saites ou não fala inglês, é levado pela Saraiva a uma impressão errada sobre o livro. Além do mais, existe uma norma básica, né: o que não se pode é errar; se não sabe, então não escreva nada. Não vai cair a mão se, na dúvida, o livreiro escrever “tripulante” em vez de “piloto”.

Naturalmente, tudo isso decorre da displicência de quem não teve cuidado suficiente antes de resenhar Há muito o que contar… aqui. Imputo essa negligência ao espírito geral, reinante no Brasil, de se equiparar livro a mercadoria de camelô. É aquela noção de fazer tudo sem cuidado, porque tanto faz. Duvido que isso acontecesse em um país que desse valor à leitura.

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Uma dúzia de melhores episódios

Estava na Saraiva ontem quando vi uma caixa de DVD à venda: “os melhores episódios de Star Trek: The Next Generation”. Estou farto de me deparar com pífias seleções arbitrárias de três ou quatro episódios que se intitulam seleções dos melhores. Mesmo assim, curioso em saber quais estavam sendo rotulados como os melhores desta vez, conferi a listagem no verso.

Até que não fizeram mal. Realmente, os episódios estão entre os que considero os melhores da série: “The Measure of a Man”, “Yesterday’s Enterprise”, “The Best of Both Worlds” e “The Best of Both Worlds” Part II. Mas tenho uma reserva. Esses dois últimos ocupam metade da seleção com apenas uma história.

Quem comprar a seleção não estará mal. Até serve como uma boa introdução à série, da mesma forma como assim serve a seleção dos “melhores episódios da série Clássica”, também à venda: “Balance of Terror”, “The City on the Edge of Forever”, “Amok Time” e esqueci qual é o outro. Mesmo assim, após tantos anos me deparando com listas de melhores episódios de Star Trek, decidi que era hora de apresentar minha seleção dos melhores da NG.

Cabe observar que a série tem 176 episódios, alguns dos quais são ruins ou apenas passáveis, mas a maioria dos quais são realmente bons ou excelentes. Claro, porque, se não fosse assim, a série não seria boa, ela mesma. Então, qualquer lista de três, cinco ou dez melhores arrisca-se a ser injusta. Resolvi listar os doze melhores, perfazendo 7% do total, um em cada quinze, ou 9% dos que vi. Não levei em conta a popularidade dos episódios, mas considero sintomático que as listas de melhores episódios da NG sempre acabem repetindo os mesmos nomes. Alguns entram, outros saem, mas existem alguns que sempre tendem a aparecer.

Vejamos. Depois de ter assistido a 138 dos 176 episódios da NG, os episódios que considero melhores, sem qualquer ordem de preferência ou valor, são

“The Measure of a Man” (segunda temporada)
“Who Watches the Watchers” (terceira temporada)
“Yesterday’s Enterprise” (terceira temporada)
“The Offspring” (terceira temporada)
“The Best of Both Worlds” (terceira temporada)
“The Best of Both Worlds” Part II (quarta temporada)
“The Drumhead” (quarta temporada)
“Darmok” (quinta temporada)
“Cause and Effect” (quinta temporada)
“I, Borg” (quinta temporada)
“The Inner Light” (quinta temporada)
“All Good Things…” (sétima temporada)

Feita a lista, algumas constatações aparecem. Em primeiro lugar, não há episódios da pavorosa e tosca primeira temporada. Não é que ela seja realmente ruim, mas é que, em face de uma comparação com as demais, não tem chance. Em segundo lugar, é notável que, da sétima temporada, só haja o último episódio da série, visto como a qualidade dessa temporada é nìtidamente inferior à das que a precederam. Também é digno de nota como um terço dos melhores episódios se concentra na quinta, que também tem outras histórias muito boas, o que indica sua especial qualidade em relação às demais.

Observa-se que, nessa lista, não estão os episódios que envolvem os carismáticos personagens da Clássica: “Sarek”, “Unification II” e “Relics”. De fato, eles são marcos históricos notáveis, trazem grande carga afetiva, têm especial valor para trekkers, mas as histórias não são grande coisa em si mesmas (nem foram feitas para serem). Nem estão ali os episódios da saga klingon: “The Emissary”, “Sins of the Father”, “Reunion”, “Redemption” e “Redemption II”. Minha explicação para isso é que a saga é muito boa como um todo, mas nenhum de seus episódios tem um valor individual tão eminente que o destaque dentre os 138; o valor está justamente na evolução da história ao longo de seu conjunto.

Em coerência com minhas preferências pessoais, não me surpreende que quatro episódios tratem de dignidade da pessoa humana e direitos individuais: “The Measure of a Man”, “The Offspring”, “The Drumhead” e “I, Borg”. Nem me surpreende que só um tenha batalhas espaciais como tema (“Yesterday’s Enterprise”) e três as utilizem incidentalmente (“The Best of Both Worlds”, sua parte II e “All Good Things…”). Três episódios envolvem viagens no tempo ou laços de causalidade (“Yesterday’s Enterprise”, “Cause and Effect” e “All Good Things…”) e três foram dirigidos por Jonathan Frakes (“The Offspring”, “The Drumhead” e “Cause and Effect”). Por último, três envolvem os borgs (“The Best of Both Worlds”, sua parte II e “I, Borg”). Essas duas últimas observações ilustram como Frakes e os borgs passaram a ter a boa vontade do público, o que explica a escolha do diretor de First Contact e daquela m*rda de Insurrection, bem como o excesso de uso dos borgs mais adiante, até a exaustão.

Existem outros episódios dos quais gosto bastante (p.ex. “Chain of Command, Part II”, “Relics” e “Parallels”), mas não mereceram entrar na “melhor dúzia”. Em algum momento você tem que traçar a linha de corte.

Por exemplo: aqui.

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Cumprindo minha missão

NT100

A capa é a mesma de Team Titans #1-A.

Hoje, eu voltava do trabalho em pé no metrô, lendo Os Novos Titãs no. 100. À minha frente, estava sentada uma menina, seus 8 a 10 anos, ao lado da mãe. De repente, a menina deu um toque na revista, chamando minha atenção.

— Posso ler com você? — perguntou da maneira mais despojada e aparentemente sincera.

— Cuma?

— Posso ler com você?

A primeira voz que ouvi foi a do egoísmo mesquinho: não, não pode, é minha e eu quero continuar a ler. Essa voz foi prontamente espancada e silenciada.

A segunda voz foi a da razão: impossível deferir ao pedido. Se estou em pé na frente dela, não tem como ela ler junto comigo. Um de nós teria que girar 180 graus. Além do mais, a história é complexa e violenta demais para uma menina da idade dela, cheia de palavras e conceitos que requerem uma cultura geral que ela não tem. Também é continuação da edição 99, de modo que ela não a entenderia. Não bastasse tudo isso, a história é simplesmente ruim. Não a recomendo nem a uma criança de oito anos, que deveria estar lendo alguma coisa mais divertida e mais instrutiva.

A terceira voz foi a da sabedoria. Se tem uma coisa que eu NÃO vou fazer é me tornar em obstáculo entre uma criança e a leitura. Taqui, na minha frente, uma oportunidade de ouro, que talvez nunca se repita, de facilitar o caminho entre ela e o mundo dos livros; os quadrinhos são uma excelente via para isso. É um momento em que nenhum adulto metido está impondo um livro chato a ela: ao contrário, ela está, espontaneamente, deixando-se levar pela curiosidade de ler alguma coisa. A revista está sendo puxada por ela, não empurrada a ela. E eu tenho o DEVER auto-imposto de facilitar o acesso, ou não me chamo Atoz (vá ao Google: veja por que me chamo Atoz. Dica: jogue, também, as palavras-chaves Sarpeidon e “Beta Niobe”).

Enquanto a mãe morria de vergonha e tentava censurar a menina, respondi à última ignorando a primeira.

— Isso vai ser um pouco difícil, porque nós estamos um de frente para o outro. — Fiquei pensando, aqui estou eu, de terno e gravata, discutindo geometria espacial com uma menina desconhecida de oito anos. Os buracos em que se metem as mentes cartesianas iludidas.

A menina não entendeu nada, “hã?”, porém continuei, “mas a gente pode fazer o seguinte: você vai lendo até a gente chegar na Tijuca”, e estendi-lhe a revista.

Ávida, ela foi abrindo as páginas, toda estabanada, e vi que a segunda metade da revista se separava da primeira ao longo da lombada.

— Cuidado, vai abrir as páginas.

Ela passou a folhear com mais cuidado e pensei, raios, ela vai entender que não é pra ler, e não é nada disso. Então, voltei à página que se abria e mostrei, “tá vendo, se abrir muito vai rasgar”.

— Ih! Por que que fica assim?

— Porque é velha. (Verdade. NT 100 é de julho de 1994 e o papel está seco.)

Foi lendo. Abriu numa página.

— Era aqui que você tava?

— Não, eu já tinha passado daí.

Voltou para o começo e foi lendo a revista em voz alta, com uma sensível dificuldade que, na idade dela, eu não tinha mais: para mim, aos oito anos,  ia tudo fluindo. Também pensei, na minha época, depois do CA não tinha mais isso de ler em voz alta, a gente aprendia leitura silenciosa. Não tem alfabetização não? Não importa.

De repente, me peguei sem estar lendo nada e sentindo uma terrível crise de abstinência: eu quero alguma coisa pra ler e estou sem nada! A menina ficou com minha revista! Negativo. Abri a pasta e puxei meu exemplar de O príncipe, de Maquiavel, impresso em 1933. E segui lendo.

Chegando à Saenz Peña, confesso que senti um ligeiro medo de que a menina não fosse me devolver a revista. Infundado, primeiro porque a mãe não ia deixar, segundo porque eu já tinha lido todas as histórias e, terceiro, porque NT 100 é ruim mesmo, então não seria uma grande perda: melhor ficar com quem dá mais valor do que eu.

O trem parou, abriu as portas e somente então a mocinha fechou a revista e me devolveu.

— Agradece o moço. (É “ao moço”, dona.)

— ’Brigada.

— De nada.

APIDÊITE DO APEDEUTA (27/07/2009, 21:41 h): uma grande amiga, a quem vou dar o pseudônimo de Carolina Matoso, lembrou-me a seguinte possibilidade.

“já pensou se a menininha do metrô vê vc. lendo O Príncipe, larga a hq de lado e diz:

“- Ei, moço, prefiria ler Maquiavel!”

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A380 pra você

Sabe o Google Earth? Pois é. Acabei de flagrar um Airbus A380, fotografado em Heathrow em 2009.

Pelo menos até umas semanas atrás, as fotos de Heathrow eram todas de 2008 ou mesmo de antes, com o terminal 5 ainda todo em construção. Para minha sorte, pelo menos para uma parte do aeroporto, o Google atualizou as fotos para 2009 e, aí, apareceu isto aqui (o linque não leva ao Google Earth, mas ao Google Maps. A base de dados é a mesma):

http://maps.google.com/maps?ll=51.468399,-0.45410031&z=19&t=h&hl=pt-BR

O que chamou minha atenção imediatamente foi um avião bem maior do que os outros, que, de início, associei a um 747. Mas notei que havia uma enorme asa de enorme corda*. Também reparei que o enorme avião tinha pouco comprimento adiante da asa e um cockpit bem pertinho da ponta do nariz rombudo, de um modo tal que toda a curvatura do nariz ficava para cima do cockpit, não para baixo, como no 747.

Isso tudo já me dizia que era um A380. Some-se, ainda, o fato de que não muitas companhias aéreas se dispuseram a operar um monstro desses, e conseguimos ler na fuselagem: “Singapore Airlines” (a mesma que operou Concorde em conjunto com a British, lá nos anos 70).

Compare o 380 com os “aviõezinhos” que o rodeiam: imediatamente à esquerda, vemos um 767 da Air Canada e, mais à esquerda, um A340 da Virgin. Pombas, o A340 era pra ser um avião bem grande! Mais à esquerda ainda, um 747-400 da Cathay Pacific, modelo que, até há pouco tempo, era o recordista mundial em tamanho de avião de passageiros. Tire o zoom e compare os dois: o 747 fica pequenininho!

A sudoeste do 380, vemos um 757 taxiando; bem à direita do 380, um A321 da Air France. Minúsculos os dois.

Então taí.

*corda = distância entre bordo de ataque e bordo de fuga, ou entre a “frente” e os “fundos” da asa.

***
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

Hoje faz quarenta anos. É como eu já disse certa vez: verdade que é uma conquista americana mais do que uma conquista da raça humana. Ainda assim, é um tema que me empolga, e estimula-me pensar que alguns seres humanos andaram na Lua. Que, toda vez que você olha para ela, está olhando para os veículos, instrumentos e bases dos módulos de alunissagem, que lá deixaram. E pensar que até o seu celular tem mais memória do que qualquer coisa que tenham usado naquela época.

EOF

Prezado Cliente

Agora é assim: eu entro na estação do Metrô de manhã. É aquele mundo de gente caminhando no mesmo sentido, todos apressados e com cara de idiota (eu não sou exceção). Só pela multidão em movimento, Metropolis-style (Fritz Lang, não Siegel & Shuster), já dá pra antecipar que, dentro do vagão, vai estar todo o mundo socado (no mau sentido mesmo).

Aí, dos alto-falantes vem uma voz descarnada de mulher, toda entusiástica. A pontuação, por esquisita que seja, é realmente a que eles usam: “Prezado Cliente! O Metrô Rio, agradece, a preferência, e deseja, um bom, dia!” Segue-se uma voz masculina: “Prezado, Cliente!, aguarde o desembarque dos demais passageiros antes de embarcar?! Evite, acidentes. (…)”

Só pode ser molecagem, né? Só pode ser espírito de porco. Primeiro, a hipocrisia sarcástica e debochada da moça pseudo-educada. Depois, o paternalismo da gravação que me trata feito criança.

A lamentável culminação disso é que não tenho sequer a quem mandar tomar no

APIDÊITE posterior ao primeiro comentário abaixo: eu tinha esquecido outra gravaçãozinha irritante. É assim: “Prezado Cliente: o Metrô Rio destina carros exclusivos para às mulheres [sic na crase] nos dias úteis, entre seis, e nove horas da manhã, e entre cinco da tarde, e oito da noite. Respeitar a lei, é uma questão, de Cida Dania. Carro das Mulheres: respeito é bom e elas merecem.”

Olha só: cidadania é ter direitos políticos, poder votar e ser votado. Faveladinho usando computador não é cidadania, é demagogia e salsinhação do Orkut. Então, respeitar a lei não é questão de cidadania, não; é apenas uma forma inteligente de evitar as bordunadas dos brutamontes do Metrô, que ficam em frente ao vagão das mulheres, torcendo para aparecer um desavisado e descer-lhe a mamona. Não tem nada a ver com direitos políticos. E mais: respeitar a lei não é sequer questão de educação ou de caráter; é simplesmente um dever que você ou cumpre, ou vai pra cadeia, ou paga multa, ou a sanção que for. Algumas pessoas, querendo manter um discurso falacioso, vêm com essa de que cumprir a lei é questão de educação, como se a gente tivesse outra escolha. Não tem. Quem está no território do Estado tem que cumprir a lei do Estado, mesmo que não goste, mesmo que seja contra.

E como assim, “elas merecem”? Por que a ênfase? Por que a discriminação? Só elas é que merecem? Homem não merece?

Vou dizer a vocês, de fora do Rio (e também a quem está no Rio mas porventura não conhece a ratio legis): o motivo de existir um vagão destinado somente a mulheres é que, supostamente, tinha homem passando a mão na bunda das mulheres na hora do rush. Então, o simples fato de eu entrar no vagão não é, em si mesmo, alguma ofensa à dignidade feminina. Não se trata de algum território de propriedade das mulheres, tal que, entrando, eu estaria ofendendo-as, desrespeitando algo que fosse delas. Não. Apenas o Estado do Rio não quer que eu entre no vagão — eu estaria desrespeitando o Estado, que me proibiu de entrar. Não é o vagão nem são as mulheres, é o ato.

Outro dia, ouvi de uma moça no elevador: um rapaz, pilotando cadeira de rodas, entrou no vagão feminino por engano. Quando viu onde estava, a porta já tinha fechado. Foi imediatamente escorraçado por uma senhora. Ora, pombas, qual é o mal que pode fazer um moço em cadeira de rodas contra a bunda das circunstantes? Quem tá perto dele não tá olhando pra ele mesmo? Alguém vai dar esse mole? Mas, òbviamente, a imbecil julgava ter o especial direito de, sei lá, ter mais espaço.

O vagão das mulheres não é um direito das mulheres; é uma proibição aos homens. Antes que me venham com essa de que “mas o direito de um termina onde começa o do outro” ou de que, sempre que alguém tem um direito, é que alguém tem uma obrigação, deixa eu te dizer: existe um negócio chamado crime formal. Não, eu não estou dizendo que entrar no vagão das mulheres seja crime, estou apenas fazendo uma comparação. No crime formal, só de o sujeito praticar a ação, ele já merece punição, mesmo que não haja consequência (agora sem trema). Então, mesmo que não haja vítima, ele já incorreu em uma conduta proibida.

Poderão dizer, ah, mas a vítima é a sociedade. Bem, certamente. Só que, aí, é TODA a sociedade, inclusive eu e os demais homens, e não apenas as mulheres do vagão. Então não é isso.

Taí, viu? Comecei reclamando das gravações ofensivas e terminei no vagão das mulheres. Então, me deixa sair antes de levar p**rada.

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O Olho Viu

Esta não dá pra não passar adiante.

O baruno, colega de minha irmã, edita o fotologue O Olho Que Tudo Vê. Em geral, são placas com erros grosseiros de português ou falhas gritantes de lógica, do tipo “leve um e pague dois”. Ele fotografa e mostra pra todo o mundo.

Infelizmente, hoje à tarde, eu não tinha câmera (nem meu celular a tinha) na estação de metrô da Carioca. Então, vou ter que narrar. Acompanhe.

Tem u’as máquinas de vender livro, iguais às que vendem chocolate e biscoitinho. Tem a máquina da esquerda, a máquina da direita, e os livros presos lá dentro, querendo sair.

Na máquina da esquerda, os livros têm códigos: 011, 012, 013 etc. Na vitrine da máquina, um papel havia sido colado com durex: “acrescente um zero na frente dos códigos dos livros desta máquina”. Pensei: ué, já não tem o zero? Então são dois zeros? Seriam 0011, 0012, 0013… Bom, pode ser. Quem define os códigos são eles.

Na máquina da direita, os livros têm códigos: 21, 22, 23…

Entende o que aconteceu? O idiota colocou o aviso na máquina errada.

É disso que falo, é a isso que me refiro quando escrevo sobre os Intreináveis. Não adianta. Enquanto continuar contratando mão-de-obra desqualificada, desleixada, desidiosa, analfabeta, negligente e indolente, é isso que vai continuar acontecendo.

E isso é por toda parte. Canso de verificar semelhantes exemplos várias vezes por dia. Gente que não está nem aí e ainda espera receber salário por isso.

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A esse respeito, hoje cunhei outra máxima: CONTROL-CÊ-CONTROL-VÊ É PRA SER USADO COMO SUBSTITUTO DA DIGITAÇÃO — NÃO DO PENSAMENTO! Na faina diária, farto-me de encontrar exemplos em que pessoas simplesmente copiam um texto inteiro sem fazer revisão e, em consequência, sai tudo errado. Já quando eu copio um texto inteiro, geralmente o texto é meu mesmo e eu reviso ele todinho. O copia-cola é pra ser usado como substituto do tedioso trabalho de digitar tudo de novo, mas não é pra substituir o olhar atento de revisor. O usuário não deve — NÃO PODE — presumir que “ah, é tudo igual” e nem olhar o que está fazendo.

Argh, que, se o mundo fosse gerido por mim, tava todo o mundo na rua. Não ia ter emprego pra ninguém, e a indústria ia parar. Ainda bem que não sou eu que respondo.

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A morte da música

Dica do Cardoso: um vídeo resumindo o que anda acontecendo na indústria da publicidade por causa da Internet, especialmente (mas não apenas) da Web 2.0.

O vídeo tem várias virtudes. Uma é que realmente resume bem a questão. Outra é a escolha da música (uma de minhas preferidas). Outra, ainda, é o talento do Autor, que conseguiu manter a letra original *e* seu significado em inúmeras passagens. Resulta que a avaliação de mercado vem acompanhada de uma reação sentimental semelhante à de American Pie.

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Em nota não relacionada, estou ouvindo …Calling All Stations… Que coisa estranha. Não parece um álbum do Genesis. Melhor dizendo, só lembra, em algumas passagens. Tem toda a cara do rock inglês de sua época (1998), mas eu não diria que é Genesis se não soubesse. Não é um álbum ruim, mas tampouco é inspirado, e nem chega perto de me causar o mesmo efeito de inúmeros e maravilhosos outros discos deles do período 1970-1986 (você que adora baixar material, busque: Foxtrot, Selling England By the Pound, The Lamb Lies Down on Broadway, A Trick of the Tail, Seconds Out, Duke, Three Sides Live, Genesis e Invisible Touch, deixando de fora uns que não me agradam tanto. Se for fazer busca por nome de música, comece por minhas favoritas do momento: Firth of Fifth, The Cinema Show, Carpet Crawlers, Los Endos, AfterglowDuke’s Travels, sempre dando preferência para as versões ao vivo).

…Calling All Stations… parece só ter sido feito para bater ponto mesmo, seguindo formulinhas populares. Tenho quase pena do vocalista Ray Wilson, vários anos mais novo que os outros dois componentes da banda (Tony Banks e Mike Rutherford). Na época, li um depoimento dele, de que estava orgulhoso, sempre tinha sido fã… É isso que mata. A própria tietagem já mostra que ele não tinha condição de se misturar. Até agora, o álbum é o último gravado em estúdio pela banda. Foi um fracasso. Depois, Wilson saiu, e o Genesis ficou sem tocar por nove anos — certamente por terem percebido que não tinham mais condição. Mas o disco ao vivo que veio depois, Live Over Europe 2007, tem de volta Phil Collins, Chester Thompson (que toca bateria pra caramba) e Daryl Stuermer; e é muito legal. Recomendo-o.

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