Ninguém está errado

Colega minha acaba de me contar que, indo e voltando do bebedouro, entreouviu uma conversa dos faxineiros no corredor.

“… Jornalzinho mais sem graça, esse Globo, Jornal do Brasil!… Agora que inventaram esse Expresso, Meia hora, é só esse que eu leio!…”

Pra quem não está no Rio: esses dois jornais são tablóides baratíssimos, que só trazem notícias da violência urbana, do futebol e da novela. Têm a linguagem mais acessível e complexidade nenhuma. Não trazem análises nem recapitulações.

Ninguém está errado nesta história. Os jornais mais sisudos, ditos “formadores de opinião”, trazem um texto que é muito complexo para esse público. As palavras são difíceis, as frases são longas, existem relações de causalidade, explicações históricas e temas como atos secretos do Senado, crise política de Honduras e mísseis norte-coreanos, que saem do cotidiano dos Deltas e Epsilons. Em contraste, os tablóides usam o mesmo vocabulário de seu público-alvo.

Assim, a manchete do Globo poderia dizer algo como “Operação da PM no Morro do Vidigal deixa 2 mortos”, enquanto a mesma notícia, no Expresso, viria em outros termos: “PM dá dura e 2 vagabundos levam pipoco”.

Ora, o propósito de toda empresa é gerar lucro para seus sócios. Então, o objeto social varia: uns vendem sapato, outros vendem diplomas, e outros, ainda, vendem jornal; mas o propósito é sempre o lucro. O que a empresa de jornalismo quer, ao fim e ao cabo, não é instruir nem ilustrar o povo; é vender jornal. Informar o povo é apenas um passo intermediário para a consecução do objetivo. Se a empresa imprime um jornal complexo e caro, ela não vende para essa população, e deixa de auferir lucro. Já se imprime um jornal acessível (intelectual como financeiramente), ela está atingindo mais gente, e é mais dinheiro na caixinha, que é o que interessa.

De todo modo, existe um resultado adicional, que também me deixa mais feliz sem ironia nenhuma. Considere que o faxineiro já não lê O globo nem o JB mesmo. Se ele ler o Meia hora, já estará lendo alguma coisa, que SEMPRE é melhor do que nada. Então, no final de tudo, provàvelmente está melhor assim, e todo o mundo fica satisfeito: o faxineiro em sua leitura matinal, o acionista do jornal com seu dinheirinho, e até eu, cercado de um gado que está um delta menos ignorante.

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Voo AF 447 – relatório interino

Sugestão: ignore os jornais. Os jornais dizem muita bobagem. Chutam, inventam, manipulam.

Vá à fonte. Saiu o relatório do Escritório de Investigações e Análises (BEA: Bureau d’Enquêtes et d’Analyses) sobre o acidente do Airbus 330 da Air France ocorrido em primeiro de junho.

Não estou dizendo que o relatório seja perfeito. Vão dizer que ele é político, que é viciado, vão dizer um monte de coisas. Pode ser. Mas tem dois detalhezinhos para os quais eu gostaria de chamar sua atenção.

1) O relatório é técnico. O jornal não é técnico.

2) O relatório é a fonte primária. O jornal vai citar o relatório, vai dizer que o relatório disse tal e tal coisa, mas você só vai saber o que o relatório disse quando ler o próprio.

Taqui os linques para o relatório em francês e em inglês. Um com 128 páginas, o outro com 72.

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Em uma nota não relacionada, comecei a ler Green Lantern: Ganthet’s Tale, de Larry Niven e John Byrne. Eu conhecia a fama dessa graphic novel de 1992, que é muito elogiada como um ponto de vista original trazido por seu escritor aos quadrinhos da DC. Aliás, Niven já era bastante celebrado como o Autor de Ringworld e das histórias das guerras contra os Kzinti. (Vivo confundindo Ringworld com Discworld, do também elogiado Terry Pratchett. Se tivesse lido algum dos dois, isso não aconteceria.)

A grata surpresa foi, ao abrir o livro, reconhecer o traço de Byrne, que eu não sabia que o havia desenhado. Não só foi uma surpresa como me fez pensar em como evoluiu minha percepção do talento desse inglês. É que, quando vi os desenhos dele pela primeira vez há alguns anos, não gostei: eram muito simples e as expressões faciais, sempre dramáticas. Com o tempo, passei a apreciar justamente a simplicidade, junto com o vigor e o caráter dramático das expressões não faciais, mas corporais. De suas obras, talvez o exemplo mais famoso entre os quadrinhos da DC esteja no clássico Man of Steel, que foi o reboot do Super-homem em 1986.

Vou acabar de ler Ganthet’s Tale e, se for bom mesmo e eu estiver com saco, virei resenhar aqui.

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