Manifesto anti-houveram

Não aguento mais (agora sem trema) me deparar com “houveram”.

Casos em que “houveram” está certo: “eles houveram de ouvir tudo que foi dito” (“eles tiveram que ouvir tudo que foi dito”).

Todos os outros casos estão errados. Não tem essa de “houveram vários acidentes”, nem de “houveram muitos casos de gripe suína”. Infelizmente, em todos os casos em que tenho encontrado a palavra “houveram” nos últimos, sei lá, quinze anos, o uso está errado. QUANDO O VERBO “HAVER” TEM O SIGNIFICADO DE “EXISTIR” OU “ACONTECER”, NÃO É PRA PASSÁ-LO PARA O PLURAL. NUNCA.

Por favor, parem com essa agressão ao português. Se vocês ouvirem alguém usando “houveram” desse modo errado (e podem ter certeza de que é o único modo como vão ouvir), por favor, apertem o botão de ejeção do infeliz.

Obrigado.

***
Em uma nota não relacionada, quero saber por que é que há um helicóptero Super Puma da Força Aérea fazendo círculos em cima da Tijuca a esta hora da manhã de uma segunda-feira.

EOF

Resenhas: os livros de Tony Buttler

Recentemente, terminei análises detalhadas de dois livros que havia comprado em 2005. São eles British Secret Projects: Jet Bombers Since 1949Soviet Secret Projects: Bombers Since 1945. Não ganho um centavo por esses linques à Amazon, mas tampouco me importo. Os Autores merecem vender tanto quanto puderem, porque os livros são MUITO bons.

Conforme a abertura do texto que segue abaixo, sempre tive especial interesse nas obras não realizadas: o episódio não filmado, o livro não publicado, a versão alternativa do quadro, a forma que as naves da Frota Estelar poderiam ter tido. Também gosto de História alternativa, das histórias Elseworlds da DC Comics, e das variações não adotadas das coisas que conheço.

Felizmente não sou o único. Tony Buttler é um metalurgista inglês que trabalhava na High Duty Alloys, especializada em peças para aviação. Seu especial interesse em aviões fez com que completasse um mestrado em Biblioteca e Ciência da Informação e, em seguida, saísse desenterrando arquivos do governo, dos museus e de empresas sobre a evolução dos aviões militares. Desde o final dos anos 90, ele tem publicado diversos livros sobre a variedade de projetos para as forças aéreas do Reino Unido, da União Soviética e dos Estados Unidos, gastando especial quantidade de tinta nos aviões que não foram construídos.

O co-Autor do segundo livro é Yefim Gordon, que tem uma quantidade absurda de livros sobre a História da indústria aeronáutica soviética e russa, sempre fartos em informação obtida de seus numerosos e preciosos contatos no meio.

Eu já havia comprado outros livros de Buttler. Não sei se foi só desta vez que prestei especial atenção, mas esses dois a que me referi acima são tão bons que me motivaram a resenhá-los na Amazon.co.uk, que mos vendera.

Para meu próprio rastreamento, segue cópia do texto com que descrevi o primeiro livro aí em cima. Os parágrafos sobre o segundo são pràticamente iguais; só mudei uma frase e omiti outra.

“I have always been fascinated by ‘what if’ scenarios. In aviation, this translates as aircraft that never got off the drawing board. So, when I bought Tony Buttler’s British Secret Projects: Bombers Since 1949 and Soviet Secret Projects: Bombers Since 1945, I was aiming at numerous descriptions of unbuilt projects.

“Was I in for a treat. Yes, these books bring lots of text and drawings about endless scores of aircraft that never got built. However, their greatest strength is where they describe the development of airplanes that did in fact get a first flight. In both books, Buttler outlines the evolution in defence thinking of the relevant country at Ministry level, its impact in the doctrine for strategic defence and the consequent requirements and specifications of combat aircraft that should fit said doctrine. Each book then goes to show the industry’s approach to the specifications, explaining each manufacturer’s technical solutions to the problems posed: wing shapes, engines to be adopted, undercarriages, weapon loads, crew, why and how they would or would not be adequate, etc. The reader gets to see how aircraft designers think and how diverse aircraft features affect in-flight behaviour, cost and effectiveness. Then the Author retells of the military’s view on each project and the reasons for their adoption or rejection, the changes in requirements and therefore in specifications, contemporary views about in-service limitations, engine concerns, development cost, time to service entry, upgrades and the like. The political implications are also described (cases in point: the tortuous road that led to TSR.2 and its sad demise, and the AFVG discussions between the UK and France before commitment to Tornado). As a result, each chapter follows the backstory of development of well-known types, from the point of inception to detail design, with a comparison to the competitors up to the point when each fell by the wayside. The reader gets to see the whole gamut of projects that were mused before final adoption (or cancellation, as applicable) of Canberra, the three V-bombers, Buccaneer, Shackleton, Gannet, Seamew, TSR.2, Harrier, Jaguar and Tornado.

“All of this in a text that is fluent and light to read while, at the same time, the books are generous in technical specs, line drawings, and pictures of wood models, mockups, wind-tunnel models and actual prototypes.

“I recommend Buttler’s books to a variety of readers: those keen on the evolution of strategic thinking behind the military aircraft industry, those that want background on the requirements, development and reasons behind features of aircraft effectively built, and those that want to know more about the aircraft that remained stuck on the drawing board. At any rate, a good, solid, information-laden read — page turners with plenty of eye candy to boot.”

***
Hitler finds out Michael Jackson has died

EOF

Os comentários do Sr Atoz a Babylon 5

Continuando uma prática que iniciei algumas semanas atrás, resolvi criar uma página específica para arquivar meus comentários sobre Babilônia Cinco. Assim, reduzo o percentual de inglês do belogue ao mesmo tempo em que organizo a matéria mais conforme o (des)interesse do Leitor.

Portanto, além dos comentários que eu já havia feito sobre “There All the Honor Lies”, a partir de hoje estão no ar algumas notas sobre “Knives” e “In the Shadow of Z’ha’dum”. Infelizmente, as janelas de edição do WordPress não parecem ter sido feitas para páginas permanentes muito longas, e a formatação dá bem mais trabalho do que no Word. Esse problema só piora à medida em que o arquivo cresce e, aliás, nem sei se existe limite para esse crescimento. Portanto, creio que, algum dia, terei que arrumar uma melhor solução permanente para minhas notas. Até lá, vou colocando-as no arquivo criado hoje.

EOF

Compre o CD e leve 100 kg de papel

Esta história aconteceu a uma bibliotecária que conheço. Ela tem uma coleção completa da enciclopédia Barsa, que é maravilhosa mas ocupa vinte volumes daquele tamanho. Como o espaço em casa é pouco, ela procurou a Barsa em CD, para substituir mesmo. Foi a uma feira sobre bibliotecas, onde encontrou a vendedora.

Pois acontece que existe. De acordo com a vendedora, o CD vem de brinde na compra de uma Barsa completa em vinte volumes.

Mas, vem cá — pergunta a Bibliotecária Sem Espaço em Casa –, não dá pra eu levar só o CD? Diz a vendedora que não: você só leva o CD se comprar tudo mesmo, o que, aliás, custa um número de quatro algarismos.

E aí vem a pérola: a vendedora explicou que a editora tem o propósito de estimular as crianças à leitura e é por isso que não vende o CD separadamente.

Arrã. Estimular as crianças à leitura. As crianças vão ler uma ENCICLOPÉDIA, ainda mais uma sisuda feito a Barsa, que tem letra miúda e pouca figura, e vão passar a gostar de ler.

Aliás, pára. Antes de a criança ser afastada da leitura pela Barsa, primeiro ela teria que PEGAR a Barsa pra ler, o que já não vai acontecer. Aliás, antes de pegar a Barsa pra ler, os pais teriam que comprar pra ela, o que não aconteceria NEM se só custasse um reau. Vinte volumes? Sem figura?

Aí: temos uma novidade no linguajar da editora. “Encalhe de exemplares que ninguém mais compra” virou “estímulo à leitura”.

TNC todo o mundo.

Charlatanismo rampante

Vi o linque. Desconfiei que fosse charlatanismo, então cliquei para ver qual era a novel forma de enganar o público.

Vim parar aqui. Parece a história de sucesso de uma dona-de-casa americana típica, que teria conseguido perder 21 kg sem regime nem ginástica.

Só comendo açaí.

Ela começa dizendo não ser uma celebridade, mas minha desconfiança começou a se transformar em certeza quando vi que o texto ficava promovendo a Oprah e o Dr. Oz, usando a credibilidade de figuras que vendem MUITA credibilidade às donas-de-casa americanas e falando das maravilhas de uma frutinha que, para eles, é exótica. Santo de casa não faz milagre; portanto, para muitas americanas, seria garantido que a frutinha da Amazônia traria a receita extraterrestre para resolver todos os problemas de emagrecimento. Uma espécie de velho da montanha, só que em cápsulas.

Prosseguindo na descrição, detectei a lorota da “parede de gordura velha grudada no intestino”. É um velho truque dos charlatas do emagrecimento: eles te fazem engolir uma cápsula que, na verdade, contém uma espécie de massinha, dizendo que é remédio para purgar as gorduras velhas, toxinas, venenos etc. Dentro do seu corpo, a massinha absorve água, molda-se ao intestino e multiplica enormemente seu volume. Você acaba ca*ando esse negócio e acha que é mesmo uma substância que estava dentro de você fazia anos e que só agora está sendo expulsa, pelo “remédio”.

Pensei em entrar na caixa de comentários e denunciar a mentira do açaí. Foi aí que vi os comentários desabilitados. E a nota de copyright de uma empresa, não de uma pessoa física. E um linque para o belogue de Rachael Ray — esta, sim, celebridade no padrão Oprah. E também notei que o “belogue” só tinha esta entrada, de 2008, e mais nada.

Entrei no “belogue de Rachael Ray”. Idêntico, também tinha só esta entrada, texto igual, arranjo visual igual, mesmas cores, exceto que o texto não se dizia escrito por “Jenny Thompson”, mas por “Alyssa Johnson from Duque De Caxias, 21”.

Uma soccer mom americana de Duque de Caxias??? Ah, sim: aos 21 anos ela tem um filho de TREZE??? O que estão pondo na comida dessas meninas hoje em dia?

Bom. O último comprimido de anfetamina A gota d’água foi este detalhezinho no canto superior esquerdo: “Note: expiring on Fri, Aug. 14, 2009”. Estou digitando isto na sexta, 14 de agosto. Se você está lendo em outro dia, veja lá se a oferta não expira no dia em que está lendo, ou no dia seguinte.

Não sei. Certos websites, dá vontade de chamar a polícia. Exceto que não é crime, nem eu sei em que Estado publicaram.

Apidêite: testei. Agora Alyssa é de Niterói, mas ainda tem 21 anos e é casada há quinze. Já que agora é sábado, 15, a oferta vai só até domingo, 16. Aí: é muito Polishop, né não? “Mas espere! Você ainda leva este descascador de banana, inteiramente grátis!”

Visitas recentes:
http://news.yahoo.com/s/ap/20090808/ap_on_re_us/us_wrong_way_crash
http://news.yahoo.com/s/ap/20090808/ap_on_re_mi_ea/ml_iran_election
http://www.youtube.com/watch?v=Shti4brylgw&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=YVIHn5GdWhI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=0Kgusd1rN6E&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=S61zLcMFp1A&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=WRfDsSnLtE4&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=eCCMEIv8ZVk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=ApM_f-jBlP0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=DFwTEZVEe9s&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=GGoSCX9V4fo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=HmIkH1-ehKc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=xz8fOZxIdVg&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Q6l1rwQJjYg&feature=related (USS Forrestal, part 1)
http://www.youtube.com/watch?v=_MVXRng2VCc&NR=1 (part 2)
http://www.youtube.com/watch?v=UuTq6d51JfY&feature=related (part 3)
http://www.youtube.com/watch?v=hvZH7wtzY_Q&NR=1 (pt 4)
http://www.youtube.com/watch?v=iK7RGpSlJ7Y&NR=1 (pt 5)
http://www.youtube.com/watch?v=vYAWrkvyYdc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=SAhWU19etQM&feature=related (Tu-22M3)
http://www.patricksaviation.com/videos/Caribougnal/1694/ (Rio, 1967)
http://www.patricksaviation.com/videos/Guest/503/ (A-4 da MB)
http://mundofox.com.br?bcpid=5830441001&bctid=8364530001 (Family Guy) (uma das continuações diz que estão levando o prisioneiro para o bloco 1138, referência ao primeiro filme de George Lucas, THX 1138)
http://www.camigoestonorway.blogspot.com/

http://xkcd.com/123/ — sugestão da Pacamanca. E o mais engraçado é que o diálogo está 100% correto do ponto de vista da Física. Realmente, as forças centrífugas não existem nos referenciais inerciais, mas apenas nos referenciais em rotação, tal como explicado pelo vilão. Muito bom.

EOF

As mensagens que você passa

Refletindo sobre o episódio da menininha no metrô, fui lembrado de perguntar por que ela me pediu para ler a revista. Até agora, pensei em meus próprios termos, julgando que a revista tivesse algo em si mesma que despertasse o interesse da menina. Como a revista estava comigo, ela teria que pedir acesso.

Mas contei a história ao Raposo, que é pai de um menino mais ou menos da mesma idade e que me fez observar alguns meta-aspectos que eu estava deixando de lado. Segundo ele, provàvelmente a menina não estava tão interessada em algum conteúdo que tivesse percebido na revista. Acontece que ela viu um sujeito de terno, gravata e pastinha de couro, provàvelmente voltando do trabalho, com toda a aparência de seriedade mas lendo revistinha. Ora, certamente ela associa quadrinhos a infância (é o que faz a ignorante maioria das pessoas), mas viu um sujeito adulto lendo quadrinhos. Então, terá ficado curiosa, primeiro com o aparente contrassenso; segundo, com essa revista que devia ter algo de muito especial. É nesse ponto que ela quereria saber o quê.

Até ali, eu, sem saber, já havia deixado algumas mensagens para ela: que é lícito ler quadrinhos em idade adulta; que a leitura é algo tão bom que a gente a pratica sempre que tem um tempinho, até no metrô; e que, por mais atarefado e profissional que se seja, sempre se consegue um tempo para essa gratificação, mesmo que seja no metrô.

É claro que também se pode entender que eu seja um pobre-diabo tão atarefado que só mesmo no metrô vá ter tempo para a leitura.

EOF