O spam nosso de cada dia

Os caras realmente acham que eu vou cair. Mas o mais incrível não é isso. O mais incrível é que tem gente que realmente cai. Bem diz o ditado: “fools and their money are soon parted”.

Quer saber? Quem clicar, é bem feito. A Internet não é para as salsinhas. Se o analfabeto funcional não tem capacidade de amarrar sapato, escovar dente ou pontuar frase (não necessariamente nessa ordem), então não tinha nada que se meter na Internet, e está certíssimo que seu computador seja infectado.

Veja só o que recebi hoje.

ABRASPAS

Procedimento Investigatorio Nº 2009.00.17126-3

Prezado usuario,

Com ajuda de seu CPF e junto com seu provedor de e-mail, viemos por meio deste lhe informar que o seu CPF esta sendo usado em varias compras On-Line fraudulentas, por favor, clique no link abaixo e veja em quais locais foram feitas as compras e os valores. Caso voce nao seja o(a) responsavel, pedimos que nos preencha o formulario afim de que possamos tomar as atitudes necessarias por tais compras.

Formulario:

(cortei o URL)

FECHASPAS

O URL era ministeriopublico ponto ORG ponto br. Passando o mouse em cima, você vê que o linque vai para um saite obscuro com final ponto net.

Então, vem cá. Qual é meu CPF? Hein? O texto não diz, o que significa que é um texto genérico, que vale para qualquer um. Tudo bem, porque eu NUNCA tenho que informar CPF em compras online. E como é que meu provedor de email (o Yahoo!) vai informar que meu CPF está sendo usado em compras online, se meu provedor de email NÃO SABE meu CPF? Aliás, como assim o Yahoo! colaborou com o MP? A sede é fora do Brasil!

E tem aquela questãozinha básica: nossos analfabetos nunca foram à escola e, se tivessem ido, a escola não lhes teria ensinado que o Ministério Público não é defensor de seu CPF nem sucedâneo de operadora de cartão de crédito. Se tem uma coisa que o órgão não vai fazer, é investigar por você e trazer um retorno, mostrando onde houve a fraude, apresentando formulário e dizendo que vai fazer tudo por você — de um modo tal que você não precisa se mexer, não precisa levantar da poltrona, basta clicar e ele fará tudo por você, patricinha entitled (BAxt, foi mal o furto da expressão).

Aliás, isso é jeito de o MP se manifestar? “Tomar as atitudes necessarias”? Vamos abstrair do fato de o texto estar todo  sem acento. “Tomar atitude”? Isso é jeito de procurador escrever? Pobre é quem diz que o presidente tem que tomar uma atitude. Atitude, pra mim, é marca de cachaça. Ou, como diria o Catarro Verde (linque aí ao lado), atitude de c* é r*la.

E que “atitude” é essa? Hein? Procedimento investigatório? Ação penal? O texto não diz. Eu vou clicar para o MP fazer o que é necessário, só não sei o que é, mas deixe, que eles são responsáveis; eles que saibam as consequências, eu não.

Ah, sim, antes que eu esqueça: alguma vez algum órgão público mandou EMAIL para você? A mim nunca! Quando o Estado quer falar comigo, sempre manda correio físico. Assim é obrigado a fazer.

Essa fraude, como tantas, está se aproveitando da preguiça alheia. É tão fácil, né? Você só clica e deixa que outros façam o trabalho todo por você. Veja bem, supostamente é a sua vida, então você mesmo teria que tomar as providências (aliás, Providência é outra marca de cachaça), mas não: tem quem faça, então pra quê? Muito melhor do que ir à delegacia, tirar segunda via, mandar carta para a operadora do cartão, perder uma tarde na fila, ter que faltar ao trabalho… Fique no ar condicionado mesmo… NOT!

Reclame à vontade, mas acho que esse golpe é justo. De vez em quando recebo uma variação dele: já recebi do “Ministério Público da Justiça”, já recebi do Tribunal Superior Eleitoral falando em problema com CPF… Até hoje não caí, mas, se cair, terá sido justo. (Se bem que não vai adiantar nada, porque não digito senha de banco no computador.)

Apideite: os saites do MPU e da Rede Nacional de Pesquisa têm advertências sobre essa exata fraude, com esse exato texto. E, buscando no Google pelo número do “procedimento”, dei-me conta de que o mesmo número já aparecia na versão antiga, emitida pelo (inexistente) “Ministério Público da Justiça”.

EOF