Tragédias cariocas e proibição do fanque

Este é um texto desconjuntado, que descreve vários problemas urbanos de uma vez só, sem relacioná-los nem analisá-los. Não resulta de minhas reflexões; ao contrário: é o início delas. Nasceu de diversas impressões minhas à medida em que eu ia jogando pensamentos que vêm se atropelando em minha mente perturbada, sem a menor intenção de concluir alguma coisa — como, de fato, não concluí.

Para tudo que vejo, tenho várias reações, em geral simultâneas. Existe a reação emocional, que me é impossível escolher ou filtrar. Existe a reação defensiva, disfarçada de racional e causada por minhas experiências, que, muitas vezes, é preconceituosa, elitista, recalcada e também impossível de evitar. Normalmente, a última é a reação racional de verdade, oriunda de meus valores morais e políticos, construída deliberadamente a partir de tudo que já li e  ouvi e de muita reflexão, e com a qual concordo: é minha opinião. Essa eu posso escolher, reformular, e é essa que exponho ao mundo.

Por exemplo: sou contra a pena de morte. Essa é minha opinião moral, jurídica e política. Já vi inúmeros argumentos favoráveis à pena de morte, mas todos consegui rebater com base em seu conteúdo falacioso ou do qual simplesmente divirjo, seja com base em contra-argumentos jurídicos, estatísticas, ou considerações práticas. Onde há pena de morte, normalmente só os inocentes são condenados, ou aqueles que cometem infrações de menor potencial ofensivo. Os verdadeiros facínoras sempre se safam.

Minha reação emocional é muito outra. Não consigo deixar de me revoltar com esta notícia (desculpe a fonte, mas é a que achei). Se, no dia em que você está lendo isto, o linque já saiu do ar, vou resumir pra você: uma moça vinha dirigindo um carro pela Linha Amarela (via expressa do Rio de Janeiro). Um animal sem mãe atirou um pedaço de concreto de 10 kg de encontro ao veículo e afundou o crânio da moça, com fratura exposta. Enquanto digito isto, a notícia é de que a moça está em coma. Pode-se entender por que, em momentos como esse, eu me sinta tentado a apoiar a pena de morte.

É cansativo viver cercado de uma criminalidade tão intensa. Eles tiram nossa liberdade. Não posso percorrer a Linha Amarela, não posso ir à UERJ de metrô à noite (a passarela é campo de caça dos assaltantes), não posso morar em certas áreas sem um baile fanque ao lado, gritando obscenidades e estimulando roubos, tráfico e homicídios a 547.000 decibéis por toda a madrugada. Não posso circular pela cidade onde moro e onde sou inofensivo, porque “é perigoso”, os predadores querem meu sangue e não tenho nada nem ninguém com quem contar. Não posso trabalhar duro, juntar dinheiro e comprar um carro, porque posso levar um tiro na cabeça no sinal de trânsito. (Pelo menos seria indolor.) Quando levaram o carro do meu irmão, comprado com horas de trabalho insone, dedicação e persistência, minha mãe levantou as mãos pro céu porque não o feriram nem molestaram a esposa dele, como se isso fosse uma dádiva, uma espécie de concessão da parte de quem tem direitos sobre nós, podendo dispor sobre nossa vida e nossa morte. Bem, sobre a morte, porque vida isso não é.

Aliás, por falar no baile. Os antropólogos e sociólogos vêm publicando trabalhos sobre como o fanque é a manifestação cultural de um grupo de excluídos sociais. Não posso negá-los. Para mim, faz todo o sentido que os excluídos se aglomerem e teçam alguma espécie de expressão e de identidade sócio-cultural através dos sons do fanque. Acredito, firmemente (olha a opinião aí, racional, ponderada), que a liberdade de expressão é um dos fundamentos mais nobres da democracia; e é minha opinião política que, com base nela, não se possa reprimir o fanque. Se tenho o direito de vir aqui escrever, da mesma forma o fanqueiro tem o direito de dizer o que quiser com o batuque de sua preferência.

Isso não significa que eu deva gostar do fanque (pela dissonância), nem que eu deva aprová-lo moralmente (pela apologia de uma vida desestruturada). Devo, porém, tolerá-lo, não apoiando quem pretende reprimi-lo. É inevitável que os autores do fanque exprimam aquilo que vêem e sentem, aquilo em que acreditam, suas intenções reprimidas e a vida lastimável que sofrem. Por todos os motivos históricos, econômicos e sociais, são pessoas maltratadas, despossuídas, desprovidas de liberdade. Não têm tantas oportunidades como os homens brancos adultos, não têm tantas escolhas nem tanto poder político, não ditam regras, não têm qualificação nem participam do mercado de trabalho formal em paridade com os homens brancos adultos. Se o fanque descreve uma vida desestruturada, é porque é isso que seu causador tem para descrever; ele não haveria de compor poemas parnasianos.

Então, estou entendendo que os autores do fanque são pessoas revoltadas, que devolvem ao mundo a agressividade de que se vêem vítimas (“vêem” com acento. Aos diabos com a reforma. Estou em um WASP mood, embora longe de ser um WASP). Não posso culpá-los por isso se também eu venho aqui cuspir meus resmungos.

Se os pais deixam de educar seus filhos, ensinam-lhes violência e eles vão ao baile,  não tenho nada com isso; cada um cuida de sua vida. Não posso dizer a cada um o que fazer com seus filhos. Se o tráfico vende drogas no baile e expõe menores de idade à violência, esses são crimes graves, mas não se confundem com o próprio baile; não vou apoiar que ele seja proibido com base na suposta venda de drogas ou nos outros abusos. Só que o baile estupra meus ouvidos e os de meus vizinhos a 948 milhões de decibéis, e isso vai muito além da liberdade de expressão. Com a potência sonora, os fanqueiros demonstram que decidiram responder à violência com mais violência, de forma ampla. Não se alegue que é mera diversão, porque a diversão é possível sem invasão da esfera de direitos alheia. Poderíamos sugerir que eles procurassem os espaços de diálogo, que lutassem pelos canais formais construídos democraticamente, mas estaríamos alimentando uma falácia, porque eles não têm o acesso a esses canais tal como a escola nos ensina que têm. Falar no poder do voto, do diálogo e da conscientização é quase uma piada; não se pode esperar que o diálogo, que de nada adiantou nos quinhentos anos do Brasil (ainda) colonial, resolva as carências de uma geração atirada à marginalidade. Eles só conseguem reagir pela violência mesmo.

Portanto, à noite, gritos ásperos de “um cinco sete, um cinco sete” (vá pesquisar: Código Penal, artigo 157) impediam o sono de vários cidadãos. Vozes agressivas defendiam a união do Comando Vermelho contra facções rivais. Os tais cidadãos não só não podiam dormir como não tinham meios de fazer cessar a verborragia. “Com licença, Sr. Traficante. Pode abaixar as caixas de som? Não estou pedindo para interromper a venda de drogas, nem o abuso de menores, não; pode até continuar a desfilar com suas armas. Só peço que abaixem o amplificador ali.”

Já que não há diálogo, já que o conflito se resolve todo com base na força apenas, então tem que abaixar o som na marra. Como o cidadão comum é fraco diante do arsenal do boçal, o Poder Público cumpriu sua mais primitiva e hobbesiana função, sua fundamental razão de ser: reprimiu o estado de guerra em que vivem os homens, aqui representado pelos bailes fanque, batendo com seu tacape maior em quem trazia a insônia de todos com seus instrumentos malignos. O cidadão voltou a dormir.

Surgiu daí uma onda de revolta. O tráfico ganha muito dinheiro com os bailes, de modo que, manipulando sua massa de manobra, conseguiu reverter a atitude estatal. O foco do discurso saiu do barulho e passou a uma espécie de imposição da minoria sobre o consenso da maioria: os valores do fanque ganharam o manifesto apoio da ALERJ a esse mais novo “patrimônio cultural” do Estado do Rio. Com isso, esses valores foram reconhecidos como tão importantes que o fanque passou a ter precedência sobre a paz pública, sobre o sono dos trabalhadores, sobre o desejo de paz e a passeata inútil das velhas, de braços dados e camisetas brancas, pedindo paz no calçadão de Ipanema enquanto seus netos enchem o nariz de alcalóides ilícitos. Velhas filhas da p*ta.

Independente das agendas políticas em disputa, dos preconceitos, dos conceitos e da cultura (ou falta dela, segundo alguns), tenho uma certeza: enquanto os sociólogos discutem as minorias no ar condicionado e publicam suas teses acadêmicas em prestigiadas livrarias da Zona Sul, vários trabalhadores desta cidade vão voltar a passar suas noites em claro.

Outra notícia: em Bangu (subúrbio do Rio), hoje de manhã, explodiu um item de munição ainda não identificado. Supõe-se que a munição tenha sido furtada do campo de instrução de Gericinó. As versões são contraditórias, mas, aparentemente, alguns catadores de lixo manipulavam o objeto, seja brincando de jogá-lo um para o outro, seja dando-lhe marretadas para desmontá-lo e vender o material. Ao detonar, a granada (de mão, de morteiro ou lançada por fuzil, não sei) matou dois e feriu seis, pelo menos um gravemente.

Minha reação racional é que isso é lamentável e que não aconteceria em um país com mais justiça social, população instruída e mão-de-obra qualificada; lamento pelas vítimas imediatas e por seus familiares. Já minha reação emocional-cínica é que Darwin continua fazendo um bom trabalho. Não é pra ficar brincando com granada, nem é pra ficar dando marretada em material furtado de dentro de um campo de instrução do Exército. Não bastasse o crime de furto, é ÓBVIO que marretar munição não pode dar certo. Você há de entender por que a porção mais troglodita de meu cérebro chega até a comemorar o evento, para minha sincera perturbação e quase vergonha (“quase” porque não chego a concordar com ela).

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Prosseguindo no teste de nerdidade:

11. Você já fez uma pergunta em aula? — Sim. (É só o que faço.)
12. Você já respondeu a uma pergunta feita em aula? — É provável, mas não lembro. Não.
13. Você já corrigiu um professor em aula? — Não do modo como a pergunta dá a entender, mas já. Sim.
14. Você já respondeu a uma pergunta retórica? — Todos os dias: “tudo bem?” Sim.
15. Você já deu uma aula? — Não no sentido formal, de estar presidindo ou ser o principal expositor. Não.

Até agora, 12/15.

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