F-X não são só “efeitos especiais”

Continuo tendo que fazer uma faxina aqui no belogue: atualizar listas de linques, vídeos e leituras. Enquanto não faço isso,

Vocês devem estar sabendo que a Força Aérea tem uma concorrência em andamento para a compra de uns 36 novos aviões de caça. Após quase trinta anos de serviço do Mirage IIIEBR, a FAB iniciou a concorrência F-X para sua substituição. No início do governo Lula, nosso Poder Executivo entendeu que outras prioridades mereciam mais atenção, mormente o Fome Zero, de modo que a concorrência foi extinta antes de se escolher um vencedor. Como solução temporária, decidiu-se fazer o leasing de alguns Kfirs, aviões israelenses derivados do Mirage III (mas com turbojatos J79, os mesmos do Phantom II). Não acompanhei se esse leasing chegou a se efetivar, mas, algum tempo depois, uma nova solução temporária foi adotada: o leasing, ou empréstimo, de um punhado de caças Mirage 2000C, de um lote do início da produção e já usados pela França. Esses aviões estão em serviço na FAB com o nome de F-2000. A solução definitiva ficou adiada para quando se escolhesse o vencedor de uma nova concorrência, a F-X 2, que está rolando já faz um tempo e cujos concorrentes são o Dassault Rafale, o Boeing F/A-18E, o Sukhoi Su-35 e o SAAB 39 Gripen. Perdoe-me se eu tiver deixado algum outro modelo de fora.

O Gripen foi o primeiro caça de quarta geração a entrar em serviço e normalmente é considerado o mais bonito. Ele e o Su-35 costumam ser os mais admirados por amadores da aviação, este último por causa do desempenho impressionante (especialmente a manobrabilidade mas também o alcance), do porte e da capacidade de transportar armamento.

No 7 de setembro deste ano, muito antes de se anunciar um vencedor da F-X 2, nosso Iluminado Líder disse ao Sarkozy e à imprensa que o Brasil compraria o Rafale. Logo o Ministério da Defesa tentou botar panos quentes e dizer que isso ainda não era certo, mas sabemos o quanto nosso Glorioso Defensor parece estar acima de qualquer responsabilidade pelo que diz.

Mais adiante, ainda em setembro, um ex-colega de escola me perguntou qual avião eu pensava que seria vitorioso. Então, escrevi-lhe o que está abaixo. Fica registrado para me cobrarem depois do anúncio.

“Importante entender uma coisa. Em matéria de defesa nacional, os argumentos técnicos deveriam prevalecer, mas a política sempre acaba decidindo. Isso não é só no Brasil: o mesmo acontece nos países que costumamos tomar como paradigmas (EUA, Reino Unido, França).

“Você já percebeu que, em matéria de F-X 2, o que não falta são especialistas. Todo o mundo agora é especialista. As revistas populares comentam o assunto como se seus jornalistas fossem íntimos dele há anos e acompanhassem o cenário de defesa internacional, o que é ridículo. As reportagens acabam virando propaganda mal disfarçada. O povo ignora que o tema F-X e F-X 2 vem sendo discutido exaustivamente pela imprensa especializada há, pelo menos, uns sete anos, sem que o assunto tenha morrido.

“Em princípio, todos os aviões são muito bons. E não vou manifestar “preferências”: primeiro, que o que EU prefiro não faz a menor diferença para quem decide; segundo, que não tenho interesse pessoal na história. Não vou fazer como a molecada de doze anos, que gosta de gozar com o bilau dos outros e ficar enaltecendo os caças americanos como se esses próprios moleques é que os fabricassem na garagem de casa.

“Então, vejamos. O Brasil tem um longo histórico de cooperação com a França e a Dassault em razão do Mirage III. Também arrendou os Mirage 2000 por um tempo. E a França tem o hábito de facilitar a venda de armas, diferente dos Estados Unidos. Então, faz sentido comprar o Rafale, na continuação do uso de uma tecnologia já conhecida.

“F/A-18. Os Estados Unidos sempre resistiram em vender o pacote completo de armas que dá utilidade ao avião. Além do mais, tem havido uma certa tônica na política externa de não mais depender dos EUA para a defesa nacional, preferindo fornecedores que nos deem mais liberdade de uso para o equipamento.

“Su-35. A maior vantagem do avião russo é sua grande autonomia, que permite cobrir uma fração significativa do Território Nacional. Outra grande vantagem é sua robustez, adequada às condições climáticas e à necessidade, que a FAB tem, de não precisar fazer muita manutenção. As desvantagens são a notória falta de apoio logístico do fabricante e a maior necessidade de treinamento, por ser um avião oriundo de cultura diferente da ocidental.

“Saab 39 Gripen. Muita gente tem-no como favorito, mas, sinceramente, acho que é por ele ser considerado tão bonito. Como se fosse concurso de beleza de aviões. A vantagem do Gripen é o datalink integrado com os sistemas em terra e em outros aviões, tudo a ver com o SIVAM e com o radar **SUECO** já empregado no EMB-145. A seu favor também conta o fato de ser um avião de manutenção mais fácil. Só que tem dois problemas: um é a autonomia de titica que os aviões suecos sempre tiveram; outro é o que ouvi do pessoal da FAB em Santa Cruz: que os eletrônicos dele fritaram ao sol do Brasil; tinham que ficar trocando componentes queimados.

“Não sei qual desses aviões é mais adequado ao Brasil. Independente disso, imagino que o Rafale vá ganhar por causa de considerações políticas.

“Então taí minha opinião.”

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Winston Smith, O’Brien e Miniluv

Está no noticiário dos últimos dias: o cientista e PhD americano David Nozette, 52 anos, trabalhou de 1989 a 2006 em projetos do mais alto interesse estratégico para seu país. Teve farto acesso a informação da mais alta sensibilidade, top secret etc e tal: inteligência de comunicações, sistemas de vigilância, defesas contra ataque nuclear, projeto de armas avançadas (nucleares inclusive), satélites de espionagem, you name it. Aí, foi pego pelo FBI tentando vender informação a uma pessoa que ele acreditava ser um membro da inteligência israelense.

O que os saites de notícias não estão dizendo, mas o próprio FBI está, é que, aparentemente, o Estado de Israel, mesmo, não esteve envolvido. Um agente do FBI apresentou-se a Nozette em setembro como sendo integrante do Mossad e, ao longo de poucos dias, valeu-se do correio para lhe enviar pelo menos dois questionários, que Nozette preencheu com informação privilegiadíssima, top secret mesmo, só com base no que guardara de cabeça. Também lhe pagaram US$ 11,000. Nozette afirmou ao agente que, embora já não tivesse acesso a vários documentos, ainda tinha muita informação na cabeça e estava disposto a vendê-la. As idas de Nozette ao correio foram filmadas, até que, em 16 de outubro, ele foi preso e está sendo acusado de tentativa de espionagem. A pena máxima é perpétua.

Agora, observe só. O Estado teve todo o controle da situação neste caso. Foi o próprio FBI que propôs o cometimento de todos os atos, que dirigiu a conduta de Nozette, que o estimulou e instruiu. Era impossível que Nozette efetivamente cometesse crime, porque não tinha como a informação chegar a Israel. Se o crime era impossível, então ele não estava tentando algo que, ao final, pudesse chegar a ser um crime consumado; não houve nem haveria prejuízo para seu país.

No Brasil, o Código Penal define a tentativa de cometer crime:

“Art. 14. Diz-se o crime: (…)
“II – tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”

Vejam que a execução não se iniciou, porque o que se iniciou não foi um crime, mas um simulacro, um teatrinho, um arremedo, supervisionado e controlado pelo Estado, onde Nozette era um hamster na gaiola. Então, não há que se falar em sequer punir a tentativa.

No Brasil, flagrante armado não vale, porque o próprio Estado provocou a conduta imoral do sujeito: ele fez, mas o Estado fez primeiro. Se o Estado foi maligno, não pode vir alegar que o sujeito também foi. Ou, em u’a máxima que se usa mais no Direito civil que no penal, “a ninguém aproveita sua própria torpeza” (em língua de poetas mortos, nemo turpitudinem alegans).

(O flagrante armado é diferente do flagrante esperado. Neste último, é o próprio criminoso quem tem a iniciativa, e você só fica de tocaia, à espera de que ele faça o que vai fazer mesmo, sem estímulo. Aí, não partiu do Estado.)

Incidentes como esse fazem-me pensar, obòviamente, em 1984, de Orwell. Onde, aliás, tem uma situação igualzinha, onde um agente bem graúdo do Estado (Inner Party) induz o protagonista Winston Smith a crer que está vindo fazer parte de uma conspiração, quando, na verdade, era tudo armado para se criar nele uma culpa, seguida de inquisição e correção.

A conclusão é em duas partes. Primeira: é verdade o que diz a nota do FBI? Resposta: não sei, mas vou presumir que sim, porque a narrativa faz com que ele mesmo fique mal na fita. Segunda: pode fazer isso? é Nozette culpado? Não, não pode, e não, não é. Porque o Estado criou toda a situção do nada.

Sei que já concluí, mas deixe-me complementar. Considere o seguinte. Se não fosse o FBI provocando, Nozette não ia fazer nada; ia continuar cuidando de sua vida. Poderá ser que o FBI tivesse suspeitas de que ele estivesse a ponto de se envolver com espionagem, mas não estamos na época de Minority Report: só poderia punir o crime efetivamente cometido, não o desejo seminal ou sonho louco de um sujeito potencialmente corruptível. Passados tantos séculos após a Inquisição Espanhola, hoje em dia já não se punem desejos e ânimos, mas somente atos efetivamente praticados. Então, não tem essa de “ah, mas ele era mau, ia cometer mesmo”. Nana nina não: nada de punir pensamentos. Eu mesmo tenho inúmeras idéias condenáveis (especialmente a de descumprir a nova ortografia em vez de escrever “ideias”), mas, do crânio para dentro, ali está meu âmbito de última defesa, meu forte inexpugnável, onde o Estado não pode invadir. O âmbito de punição possível começa na superfície da minha pele.

É de se pensar por que o FBI fez isso. Pode ser simples queima de arquivo, “ele sabia demais”. Pense bem: não é o que você faria? Se o sujeito é PhD, inteligente pra burro, dono de ótima memória e com acesso a tudo, é de se presumir que, depois de dezessete anos, ele já soubesse MUITA coisa e se tivesse tornado um perigo ambulante. O que os Estados Unidos fizeram foi ganhar a corrida contra os israelenses, iranianos e incas venusianos, prendendo Nozette antes que eles lhe pusessem a mão.

Então, é pura tirania mesmo: o Estado aprisionando seus súditos sem justa causa. Sem dúvida, isso atende a interesses bastante legítimos de segurança nacional, mas utiliza meios indignos de um Estado democrático de Direito. Viola valores democráticos fundamentais, põe o Estado acima do indivíduo e fere o interesse público. Não que os Estados Unidos sejam os únicos a fazerem isso (o Brasil faz muito), mas é que sempre são os primeiros a bater no peito, falando de democracia…

Como diz minha sogra: dime lo que te presumes y te diré lo que te falta.

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Tomara que os maias tenham acertado a previsão

Hoje eu estava olhando as reações dos belogues à vitória do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016.

(Ué, não era isso? Bom, mas já deve ter gente por aí achando que é. “O Brasil ganhou os Jogos Olímpicos de 2016.” Assim, por antecipação.)

É muito engraçado. Váááários belogues e comentários com atitude ambivalente. De um lado, condenam os negativistas, os derrotistas, e ufanam-se com a grande vitória que afaga nossa auto-estima (“auto-estima” agora é sem hífen? Pesquisaí). Que o Rio é tão bom quanto Oslo e que Liechtenstein tem problemas urbanos iguaizinhos aos nossos. De outro lado, admitem que “vai ser a maior roubalheira”, “não resolve nossos problemas”, “cabe a nós a fiscalização” etc.

Como sempre, não sei de nada. Mas o metrô vai até a Barra. Então, o sujeito vai sair lááá da Pavuna, vai dar a maioooor volta, vai passar pelo Centro, vai até a Barra. O que eu não entendi é como é que vou fazer para descer na Carioca. Sim, porque, quando você achava que não tinha como aumentar o grau de compactação, vêm os guardas com chicotes que dão choque e te fazem perceber que, se ficar na ponta do pé, até dá pra respirar. “Atenção! Todo o mundo bidimensional aê! Aperta mais! Você aí! Molda na parede! Isso!”

(Eu já contei de quando não consegui mover a cabeça no metrô? É angustiante. Não podia girar a cabeça para os lados. Não há nem que temer o batedor de carteiras, porque ele também não consegue mexer a mão. Em condições assim, nem precisava de vagão das mulheres.)

E não venham me dizer que estou amargo. Agora somos internacionalizados. Eu estou é demi-sec.

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“Nossa missão é agradar ao cliente.”

Estou há um tempo sem escrever e precisando fazer uma faxina em minhas anotações, de modo que, hoje, é só um comentariozinho rápido.

Mais cedo, eu estava lendo Cynthia Semíramis e sua preocupação com o subtratamento que as mulheres ainda recebem no mercado de trabalho.

Agora à noite, encontrei esta notícia. Em síntese: produtor tentou chantagear David Letterman porque, supostamente, Letterman teve relações com várias mulheres com quem trabalhou na CBS. Letterman confessou pùblicamente, desse modo esvaziando a chantagem. De um lado, a promotoria foi em cima do chantagista, enquanto, de outro, a situação de Letterman ficou complicada perante a percepção pública. Imprensa e advogados discutem se o que ele fez pode ser classificado como assédio sexual, aproveitamento de uma situação de vantagem etc. A emissora manifestou-se ao lado dele, mas sem excessos. O público sente-se traído porque Letterman costuma criticar políticos justamente por causa das puladas de cerca que cometem. Bill Clinton foi seu alvo durante anos.

Não vou fazer nenhum comentário sobre o caso de Letterman, primeiro porque nada sei, segundo porque já deve ter varada de gente fazendo isso. Vou observar só dois detalhes.

Um, que já faz alguns anos que percebi: se alguém, algum dia, resolver me chantagear, acho que a melhor saída é revelar pùblicamente aquilo que, em princípio, teria sido escondido. Fácil falar, claro. Porque nem sempre é fácil falar claro. É muito fácil vir com bravata quando não se está sofrendo na pele. Mas é a solução que resolve o problema definitivamente: esvazia a chantagem imediata e todas as chantagens futuras, que o chantagista teria o potencial de voltar a praticar porque o fato permaneceria. Essa minha tese foi alimentada por duas fontes: uma, Richard Bach, que, em Ilusões, sugeriu que você devesse viver de modo a não ser afetado pelo que outros dissessem de você — mesmo que estivessem mentindo. A outra é Frank Miller, que, em Batman: ano um, pôs o Tenente Gordon em um caso com sua colega Sarah Essen. Devidamente exposto a fotografias e ameaças, ele optou pelo caminho difícil, entrou em conflito conjugal mas continuou dono da própria vida.

Dois, o seguinte. A reportagem analisou, ouviu colegas e ex-chefes de Letterman e do produtor, consultou especialistas e advogados, todos perplexos e em dúvida sobre as condutas dos cavalheiros, mas fechou o texto com a constatação de que não houve nem se espera uma evasão de anunciantes do Late Show. O dinheiro continua entrando (~US$ 145M em seis meses de 2009). Por quê? A frase final é reveladora: “(…), said Laura Caraccioli-Davis, an executive vice president and director at Starcom. ‘We believe that he handled it with full transparency. Consumers are looking for that authenticity and honesty.'”

Full transparency, indeed. Em segredo, o sujeito mantém supostos envolvimentos (aliás, confessados) com mulheres sob sua influência. Mesmo assim, na empresa de publicidade que põe dinheiro no programa, uma vice-presidente — tipo de cargo profundamente envolvido em governança corporativa — analisa que ele agiu com transparência. Letterman continuará respeitado e o assunto nem é tão grave assim, na medida em que os anunciantes se mantêm fiéis, mesmo que ele não tenha sido com seu público. Beleza; o que importa é o que os consumidores percebem. Tudo se resume a isso.

Quer dizer, a humanidade continua podre. Ao fim e ao cabo, tudo neste mundo continua girando em volta do dinheiro. Então, quer saber? Nessa história, todo o mundo se merece. Não ganhei o meu, então todos que se danem.

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