“Nossa missão é agradar ao cliente.”

Estou há um tempo sem escrever e precisando fazer uma faxina em minhas anotações, de modo que, hoje, é só um comentariozinho rápido.

Mais cedo, eu estava lendo Cynthia Semíramis e sua preocupação com o subtratamento que as mulheres ainda recebem no mercado de trabalho.

Agora à noite, encontrei esta notícia. Em síntese: produtor tentou chantagear David Letterman porque, supostamente, Letterman teve relações com várias mulheres com quem trabalhou na CBS. Letterman confessou pùblicamente, desse modo esvaziando a chantagem. De um lado, a promotoria foi em cima do chantagista, enquanto, de outro, a situação de Letterman ficou complicada perante a percepção pública. Imprensa e advogados discutem se o que ele fez pode ser classificado como assédio sexual, aproveitamento de uma situação de vantagem etc. A emissora manifestou-se ao lado dele, mas sem excessos. O público sente-se traído porque Letterman costuma criticar políticos justamente por causa das puladas de cerca que cometem. Bill Clinton foi seu alvo durante anos.

Não vou fazer nenhum comentário sobre o caso de Letterman, primeiro porque nada sei, segundo porque já deve ter varada de gente fazendo isso. Vou observar só dois detalhes.

Um, que já faz alguns anos que percebi: se alguém, algum dia, resolver me chantagear, acho que a melhor saída é revelar pùblicamente aquilo que, em princípio, teria sido escondido. Fácil falar, claro. Porque nem sempre é fácil falar claro. É muito fácil vir com bravata quando não se está sofrendo na pele. Mas é a solução que resolve o problema definitivamente: esvazia a chantagem imediata e todas as chantagens futuras, que o chantagista teria o potencial de voltar a praticar porque o fato permaneceria. Essa minha tese foi alimentada por duas fontes: uma, Richard Bach, que, em Ilusões, sugeriu que você devesse viver de modo a não ser afetado pelo que outros dissessem de você — mesmo que estivessem mentindo. A outra é Frank Miller, que, em Batman: ano um, pôs o Tenente Gordon em um caso com sua colega Sarah Essen. Devidamente exposto a fotografias e ameaças, ele optou pelo caminho difícil, entrou em conflito conjugal mas continuou dono da própria vida.

Dois, o seguinte. A reportagem analisou, ouviu colegas e ex-chefes de Letterman e do produtor, consultou especialistas e advogados, todos perplexos e em dúvida sobre as condutas dos cavalheiros, mas fechou o texto com a constatação de que não houve nem se espera uma evasão de anunciantes do Late Show. O dinheiro continua entrando (~US$ 145M em seis meses de 2009). Por quê? A frase final é reveladora: “(…), said Laura Caraccioli-Davis, an executive vice president and director at Starcom. ‘We believe that he handled it with full transparency. Consumers are looking for that authenticity and honesty.'”

Full transparency, indeed. Em segredo, o sujeito mantém supostos envolvimentos (aliás, confessados) com mulheres sob sua influência. Mesmo assim, na empresa de publicidade que põe dinheiro no programa, uma vice-presidente — tipo de cargo profundamente envolvido em governança corporativa — analisa que ele agiu com transparência. Letterman continuará respeitado e o assunto nem é tão grave assim, na medida em que os anunciantes se mantêm fiéis, mesmo que ele não tenha sido com seu público. Beleza; o que importa é o que os consumidores percebem. Tudo se resume a isso.

Quer dizer, a humanidade continua podre. Ao fim e ao cabo, tudo neste mundo continua girando em volta do dinheiro. Então, quer saber? Nessa história, todo o mundo se merece. Não ganhei o meu, então todos que se danem.

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