Panopticons da vida privada e outros da vida online

Acabo de ver um linque na Web, com uma chamada tão mal escrita que fiquei até curioso: que notícia obscura seria essa? Então cliquei e li que Tiger Woods bateu com o carro, ontem, anteontem, sei lá.

Ordinàriamente, eu não continuaria lendo, mas o que me deixou tão intrigado foi a extensão da reportagem. Comecei uma metaleitura, na intenção de descobrir o que esses jornalistas conseguem extrair de um mero acidente de trânsito. Sei lá, vai que tem alguma implicação mais séria, né?

Bom. Aparentemente, Woods bateu com o carro perto de casa, às 2 e pouco da manhã. A esposa ouviu, acudiu e teve que quebrar uma janela para tirá-lo do carro. O golfista estava sangrando e com a consciência indo e voltando, mas consta que já passa bem.

O que me chamou a atenção, mesmo, foi o seguinte:

“Left unanswered was where Woods was going at that hour.” – Ou, em língua lusa, “o que ficou sem resposta foi aonde Woods estava indo àquela hora”.

Como assim? Ora, pombas, quer dizer que, agora, um cidadão tem que dar satisfações sobre aonde vai a que horas? Não pode mais dirigir seu carro de madrugada sem se tornar suspeito? Tem toque de recolher, é isso?

“Pois não, policial?”

“O senhor estava dirigindo seu carro de madrugada. Aonde estava indo?”

Faz sentido essa conversa pra você?

NINGUÉM TEM NADA COM A VIDA DELE. Não é pra se meter, ficar fazendo inquérito, saber aonde ele ia com seu carro.

Eu, hein.

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Em uma nota não relacionada, vejamos.

Belogues, fóruns de discussão, email, listas de email, instant messaging, Google Translate, Orkut, Facebook, Google Docs, Google Maps, 4share, Rapidshare, Scribd, Flickr, Picasa, YouTube… Deixei alguma coisa de fora? Não, né?

Pois bem, ontem assisti a este vídeo de apresentação do Google Wave:

 

De início, fiquei apaixonado pela idéia. Juntaram tudo em uma interface só. Fundiram todos os modos de expressão que você tem na Web, de um modo intuitivo, como já aprendemos a esperar desse pessoal do Google. A programação deve ter sido animal, depois de sessões insanas de desenvolvimento da arquitetura, de modelagem, de brainstorms viajantes sobre as funcionalidades. A orientação a objeto salta aos olhos.

Ao mesmo tempo, não pude deixar de pensar: confuso, bagunçado, com um elevadíssimo potencial para ser mal utilizado pelas mentes analfabetas destes tempos de inclusão digital. Deu-me a sensação de uma ferramenta prematura – não uma ferramenta que está “adiante de seu tempo”, mas uma implementação prematura, talvez carecendo de ferramentas que ainda estão por inventar e tais que, na falta delas, fica desconjuntado. Em outras palavras: está tudo agrupado, mas não realmente agregado, não realmente consolidado.

Sei lá. Como costuma acontecer nesses casos, é muito fácil ficar acrescentando previsões ao hype, sejam elas otimistas ou pessimistas, e quase garantido que estarão todas erradas. Eu poderia dizer, “complicado demais, não vai dar certo”, mas isso é o que disseram de tudo que DEU certo em tecnologia da informação. Muitas vezes, a coisa acabou simplesmente ganhando um uso que não tinha nada a ver com o uso imaginado originalmente. Outras vezes, foi o contrário: fez-se uma comemoração insana de tecnologias “revolucionárias” que simplesmente não pegaram. Ou você conhece alguém que tenha um telefone Iridium? Eu poderia dizer, “é tudo que eu queria, todo o mundo vai adorar”, e as pessoas continuarem preferindo a simplicidade da compartimentalização entre os canais.

Mas que é supermaneiro, é.

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Já que estamos falando em Web 2.0: está no ar o belogue colaborativo da REDARTE/RJ. A Redarte é uma associação de bibliotecas especializadas em arte situadas no Estado do Rio de Janeiro. Nas palavras do próprio belogue,

“A Rede de Bibliotecas e Centros de Informação em Arte no Estado do Rio de Janeiro (REDARTE/RJ) é uma rede de instituições com acervos especializados na área de artes no Rio de Janeiro e em Niterói. Seu objetivo principal é ampliar, para o público em geral e os pesquisadores de arte em particular, as opções de acesso a todo um universo de informações disponível em um conjunto expressivo e representativo de acervos especializados em arte.

“Participam da Rede instituições públicas e privadas, como museus, universidades, arquivos, centros culturais, totalizando 36 integrantes. As instituições são representadas na Rede por gestores dessas unidades de informação, graduados em Biblioteconomia e áreas afins.

“OBJETIVOS
”- Facilitar aos pesquisadores e ao público em geral o acesso a informações na área de arte;
”- Divulgar suas instituições integrantes;
”- Oferecer serviços e produtos informacionais;
”- Promover o intercâmbio de experiências entre os profissionais da Rede e auxiliar sua atualização;
”- Promover o intercâmbio de informações em arte através da localização de itens e do serviço de empréstimo entre as bibliotecas integrantes;
”- Incrementar a permuta e a doação de itens entre seus membros.”

Até há pouco tempo, a existência online da Redarte era só um website com edição centralizada, que não se comparava às várias atividades que aconteciam no mundo real. Agora, com a iniciativa do belogue, já dá pra ver uma dinâmica onde tudo que acontece é atualizado ràpidamente. Como a Redarte é liderada por bibliotecárias, o belogue cumpre a vocação da classe: contém inúmeros linques para instituições, bases de dados e relatos de eventos. Com o tempo, as organizadoras pretendem disponibilizar os powerpoints das palestras, artigos e por aí vai.

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Ainda no teste de nerdidade:

31- Você já discutiu com um professor? – É possível, mas não que me lembre.
32 – Você venceu? – Não.
33 – Algum palestrante já indicou que alguém procurasse você como tendo mais conhecimento? – No contexto, não creio.
34 – Você já tentou admissão a alguma faculdade só para “ver se conseguiria entrar”? – SÓ para isso? Não.
35 – No seu SAT, a Matemática estava mais de 300 acima de seu verbal? – Nem conheço o teste, mas já vi que não se aplica no Brasil. Pulo.

Até agora, 20/33. Até que está melhorando (ou piorando, não sei).

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Para dias quentes

Nas últimas duas ou três semanas, temos tido dias de um calor desgraçado aqui no Rio. Hoje é um deles. A praia deve estar cheia, e você ouve os condicionadores de ar da vizinhança, virando direto. Não adianta tomar banho, porque a água desce da caixa na mesma temperatura em que você a queria num dia muito frio.

Em uma de suas obras, Vinicius de Moraes disse que sua receita para esses dias era chupar bala de hortelã. Isso era no tempo em que as casas não tinham ar condicionado.

Já eu recomendo minha fórmula, muito melhor. Em um copo de 300 a 500 ml, vá pondo, nesta ordem,

1 dose de rum Bacardi flavorizado com limão (pode ser outro destilado semelhante: rum, cachaça, gim)
Meia dose de licor de menta
Suco doce de limão até em cima
2 pedras de gelo

Não precisa mexer: conforme cada líquido vai caindo no copo, já mistura sozinho.

Isso ajuda!

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Esqueci-me de contar. Naquele dia em que fui ao zoísta, a sala de espera tinha uma TV ligada num desses programas de barraco ao vivo, onde as pessoas vão contar seus problemas familiares para que a plateia dê palpite. Difícil eu me concentrar na leitura. Posso escolher não ver (é só fechar os olhos), mas não posso escolher não ouvir.

Na TV, uma mulher reclamava do namorado, que só queria saber de jogar bola com os amigos e não dava atenção a suas necessidades de, hm, vadiar (para usar a curiosa nomenclatura de Jorge Amado em Dona Flor), ou de fazer o que a apresentadora chamava de “nhanhãnha”.

Mas, também, lógico. A mulher era feia como a fome!

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Aliás, no Afeganistão, dizque as mulheres também são todas muito feias e que nunca tomam banho. Por isso, eram obrigadas a usar aquela roupa que cobria o corpo inteiro, só deixando uma gradezinha para elas enxergarem. Parece que os Estados Unidos acharam pouco, então mandaram bombardear o país.

Não sei; dizem.

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Prosseguindo no teste de nerdidade:

26. Você já virou a noite estudando? – Tècnicamente, não. Dormi por quase uma hora.
27. Você já fez algum curso do tipo passar/não passar só para preservar seu GPA? – A pergunta parece-me inaplicável ao Brasil. Vou pular.
28. Você já soube mais sobre o assunto do que o professor? – Já.
29. … mas continuou na aula porque “precisava da nota”? – Sim.
30. … e o professor admitiu isso a você? – Não.

Até agora, 20/29.

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Quase um twit

Alvejante é uma substância que você ingere para melhorar sua pontaria.

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Fui ao oftalmologista ontem. Durante o atendimento, entrou uma assistente dele:

— Doutor, a Fulana já está preparada para o procedimento. Está esperando há meia hora e já está bastante dilatada. O Dr. Sicrano pergunta se já pode ir começando.

— Pode, eu não demoro. Daqui a uns dez minutos eu acabo aqui. Diz a ele que eu já vou lá.

Depois que ela saiu, eu disse a ele: um ouvido menos atento pensaria que o Sr. fosse obstetra.

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Então, a julgar pelo que vejo na Web, parece que a moça do vestido já apareceu chorando em foto posada pro jornal, está na capa da Istoé e vai aparecer no Casseta e Planeta. Não dou quinze dias para ler o anúncio de que é a próxima capa da Playboy.

Estou convicto de que TUDO isso foi cuidadosamente arquitetado por ela. Estou igualmente convicto de que deu uma grana para os primeiros começarem a gritar. Quando essa história tiver rendido bastante, vão perceber que ganharam pouco. Ninguém me convence do contrário.

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Ainda no teste de nerdidade:
21.  …usando outros princípios? (começando de uma equação diferente da que o texto usou) — Acho que sim.
22. Você toma notas em mais de uma cor? — Hoje em dia, não.
23. Você usa outros instrumentos ao tomar notas? (régua, compasso, transferidor) — Não.
24. Você já orientou alguém? — Não.
25. Você já fez dever de casa na sexta-feira à noite? — Já.

Até agora, 18/25.

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… e ainda estou lhes devendo uma arrumação deste belogue.

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O apagão dos cérebros

Sabe esse apagão que se abateu sobre as regiões Sul e Sudeste do Brasil na noite de terça-feira? Então. Constatei algumas coisas.

1 – A luz não caiu TOTALmente. Os LEDs de meu roteador ficaram acesos, assim como o rádio despertador esqueceu que horas eram mas ficou mostrando 00:00. Isso indica que havia energia nas linhas. Indica, também, que o que NÃO aconteceu foi o acionamento de algum mega-disjuntor em algum lugar; ainda estávamos conectados a Itaipu. Logo pensei no risco que isso envolve. Vai que alguém toma confiança de que “está sem luz mesmo” e vai mexer na rede. Torci para não ter notícia de gente eletrocutada no dia seguinte.

2 – Quando eu estava no Exército, tive uma instrução noturna em um acampamento. Aprendi que, na guerra, deve haver disciplina de luzes e sons. Aprendi que a luz de um cigarro aceso pode ser vista a centenas de metros de distância. Você definitivamente não pode acender lanterna, nem conversar nem fazer qualquer barulho, que o inimigo te vê e te escuta. Pois, na noite do apagão, deu para ver nìtidamente quem eram os vizinhos que iam fumar na janela, lá longe, no outro lado da rua. Impressionante.

3 – Minha ex-chefe me contou que teve gente dizendo que viu vaga-lume. Acredito que não, porque a cidade é um ambiente muito hostil para esses bichos, mas pode muito bem ser que sim nos bairros com mais vegetação – no Rio de Janeiro, estou falando na Zona Oeste, especialmente Vargem Grande e Recreio. Como ela lembrou muito bem, “a gente acha que não porque não tá vendo com essa luz toda em volta, mas eles ainda estão por aí”.

4 – Silêncio completo na vizinhança às onze da noite. No prédio vizinho, onde tem uma família que passa dia e noite aos berros entre si, todos calados. Então constatei que não estava ouvindo o burburinho de fundo das televisões ligadas, nem o vozerio difuso de todos os vizinhos. Minha conclusão é que, não tendo televisão, o povo ficou sem nada pra fazer e foi dormir. Ô gente dependente da caixinha eletrônica do diabo! Todo o mundo virou zumbi, pendurado nas imagens mágicas que Globo, SBT e Record despejam em seus cérebros embotados (sim, porque a classe média tem TV por assinatura só pra ostentar; o negócio mesmo é assistir aos mesmos canais do povão). Não foi só a falta de luz; o cérebro deles também vive em estado constante de apagão.

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Prosseguindo no teste da nerdidade:

16 – Você se senta na fileira da frente por mais de 20% do tempo? – Não. Muito arriscado.
17 – Você já teve uma “assiduidade perfeita”? – Não que chamassem assim ou se importassem, mas já, inúmeras vezes.
18 – Você já verificou uma equação em um texto de Ciência por conta própria? (i.e. prova experimental) – Já.
19 – Você já deduziu uma equação que encontrou em um texto de Ciência? – Já.
20 – … quando não tinha que fazê-lo? – Já.

Até agora, 16/20.

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