Relação sinal/ruído em queda

Na minha infância (mais ou menos na época em que estavam construindo as pirâmides do Egito), o português dos jornais e revistas tinha um padrão de qualidade que era referência até na escola. A quem não tinha o hábito de ler livros, aconselhava-se que, pelo menos, procurasse manter sua proficiência lendo periódicos. Empìricamente, sempre constatei que a publicidade seguia a mesma regra: era extremamente raro encontrar erro de português em anúncio — qualquer tipo de anúncio.

Agora, você abre os jornais online e não encontra uma linha que não tenha nenhum erro de concordância, onde não falte nem sobre nenhuma palavra e onde se tenha certeza de que o estagiário-redator não tenha matado a aula de pronomes relativos. São textos que, na minha escola, teriam sido classificados abaixo do subcrítico (é com hífen?), com os mesmos nomes sendo grafados de duas ou três maneiras diferentes na mesma frase. Não raro, existem sequências que contradizem a chamada ou sequer fazem sentido.

Aí, chegamos ao maldito spam. Todo dia recebo aquelas mensagens pedindo que eu atualize meu módulo de segurança em algum banco onde não tenho conta. Sabe como é, “clique aqui para instalar um cavalo-de-troia na sua máquina e liberar acesso a suas senhas”. Uma das formas de se identificar esse tipo de mensagem é que sempre vem num português pavoroso, começando frase com minúscula, cheio de erros de ortografia, concordância nenhuma etc. e tal.

Só que, agora, com o agravamento da tragédia escolar nacional, mesmo as mensagens legítimas vêm povoadas de erros crassos. Então, não dá mais pra separar o trigo do joio. Qualquer dia, vou receber algum aviso importante mas identificá-lo como spam (no que provàvelmente acertarei, sem contradição mas cheio de doublethink).

Nessa inversão contemporânea de valores, pelo menos já consegui identificar algumas regras do neoportuguês, a saber:

– Toda vez em que o português correto proíbe o “a” craseado, o neoportuguês exige-o. Quando o português o exige, o neoportuguês proíbe-o. Por exemplo: a frase

A partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa às 8 h. — A Gerência.

, quando vertida para neoportuguês, fica assim:

À partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa as 8 h. — À Gerência.

– Toda vez que o português correto exige a forma “há” do verbo haver, o neoportuguês transforma-o em “a” isolado ou em “à”, craseado, à escolha de quem escreve. Assim, a frase

Há muitos anos não vou à escola.

é transformada em

À muitos anos não vou a escola.

– Toda vez que o português correto usa a construção “nada a ver”, o neoportuguês transforma-a em “nada haver” ou “nada a haver”.

– Toda vez que um verbo vem antes de seu sujeito, o neoportuguês exige que o verbo fique no singular, mesmo que o sujeito esteja no plural:

Chegou as novas regras de concordância!

– Toda vez que um verbo vem antes do sujeito e está na voz passiva, o neoportuguês exige que o verbo auxiliar e o particípio permaneçam sem qualquer concordância com esse sujeito:

Foi dado várias ordens para desocupar a praça.

E assim sucessivamente. Se você descobrir alguma regra do neoportuguês que não esteja aqui, por favor me informe. Preciso aprender essa nova língua urgentemente, para poder manter uma vida negocial saudável.

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