Se certas profissões desaparecessem

Neste exato minuto, há uma festa infantil no pleigráudi do meu prédio. Não vejo muito sentido em tocarem a música da Dança do Siri numa festa infantil, mas está tudo bem, porque eu tenho mesmo muita dificuldade em encontrar sentido nas coisas. Também considero bastante pitoresco que esta classe média, que tanto abomina que suas filhas subam o morro em busca de transgressão e de um traficante para se esfregarem, insista em tocar fanque para diversão dessas mesmas filhas. Não sei, o hipócrita devo ser eu.

Agora, o mais divertido, mesmo, é ficar aqui matutando sobre a grande contradição que é terem contratado uma animadora profissional para motivar as crianças. Veja bem: ou a festa é animada ou não é. Se a festa é animada, então a animadora é desnecessária. Se a festa não é animada, existem duas hipóteses: ou é para ser animada ou não é. Se não é para ser animada, então não era para essa mulher estar ali, e ela está toda errada. Já se a festa não está animada e é para estar, então tem alguma outra coisa muito errada, e a presença da animadora não vai fazer muita diferença.

Quer dizer, as pessoas contratam uma animadora pelas mesmas razões que as levam ao álcool e às drogas: para induzir um estado de espírito que não seja natural. Estou deprimido, bebo para me alegrar. Sinto-me sòzinho, então injeto heroína para esquecer a solidão. As crianças não estão alegres, então contrato uma animadora para lhes induzir um sentimento artificial, fabricado, de alegria com hora e duração marcadas. Parecido com o Carnaval, só que mais barato e mais localizado.

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Por falar em transgressão, estive refletindo sobre um dos temas mais caros ao Alex Castro, que é a opressão praticada pela classe média contra suas empregadas domésticas. Sobre como é uma relação de escravidão. Uma colega minha contratou uma diarista para dois dias por semana e me conta que a moça era empregada em casa de uma atriz global (ela disse o nome da atriz, mas não quero ser processado por difamação). Que eram frequentes as festas até quatro da manhã e que a pobre mulher tinha que estar permanentemente à disposição e, mesmo assim, acordar cedo para fazer a faxina, enxugar os restos de uísque e varrer as sobras de cocaína canapés. E que está muito feliz, não só por não se sujeitar mais àquele regime como por “ser tratada como se fosse uma igual”. Estou entendendo que seus novos contratantes a tratem de maneira educada, sem gritaria nem humilhações extremas.

Que me perdoe minha cara colega, mas ela não trata a diarista como se fosse uma igual, não. O só-fato de contratá-la já mostra o ponto de vista de quem não se vê igual. Mais sobre isso aqui.

Mas, voltando à transgressão, imaginei: e se, de repente, todas as empregadas domésticas se rebelassem em todo o Brasil? E se, de uma hora para outra, simplesmente dissessem “não trabalho mais aqui” e saíssem pela porta sem mais? Tenho certeza de que a situação não se sustentaria, por todas as razões sociais e principalmente econômicas, pelo problemão de mão-de-obra instantaneamente excedente e não qualificada, pela certeza de que oferta e procura voltariam a vigorar e de que alguém acabaria roendo a corda e se deixando recontratar, e tudo mais. Mas, pelos primeiros momentos e pelos primeiros dias, como seria? Já imaginou? De súbito, todas as patroas estariam privadas de suas empregadas, e as empregadas estariam livres, e os homens e mulheres escravocratas deste Brasil teriam que arear suas próprias panelas, varrer seus próprios chões e passar X-14 em seus próprios banheiros. E as empregadas estariam, unas, em greve por melhores condições de trabalho, por horários definidos de entrada e saída, por semana inglesa e pelo piso de dez salários mínimos.

Como seria?

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