Casal Nardoni

O título desta postagem é o que Cardoso costuma chamar de Google bait.

A manchete do jornal dizia, enooorme: “FOI FEITA JUSTIÇA”.

Alguém vai lá e explica pro jornalista que sempre seria feita justiça, de um modo ou de outro. Quaisquer que fossem as decisões do júri (condenando ou absolvendo) e do juiz (estabelecendo o quantum da pena), estaria sendo feita justiça. Por definição, justiça é aquilo que eles decidem. É pra isso que existe Poder Judiciário. “Justiça” não é sinônimo de “condenar”.

Outra: “agora você pode descansar em paz, Isabella”. Outro desinformado. Alguém, por favor, vai lá e explica pra esse sujeito, que não sabe p*cas de processo penal, que não acaba aí. Qualquer um que já tenha lido qualquer notícia, sobre qualquer processo penal, sabe que, depois da sentença, ainda cabe recurso. Vocês podem tacar pedra à vontade, dizer que as hipóteses são mais restritas no júri, que o protesto por novo júri foi abolido, podem dizer o que quiserem. A defesa sempre vai entrar com o recurso que quiser, ou até com habeas corpus, e algum tribunal sempre vai ter que, no mínimo, dizer que o recurso não cabe. Mas nunca acaba ali.

Não adianta vir me dizer “ah, mas o jornalista não fez curso de Direito, não é obrigado a saber esses detalhes”. Realmente, não é mesmo. Mas, então, PERGUNTA, P#RRA. Insisto e insisto: SE NÃO SABE, NÃO CHUTA. Não é pra escrever sobre o que não sabe, nem é pra inventar. Advogado taí é pra isso mesmo, pra responder pergunta. Eu, por exemplo, não sou especialista em nada, mas não tem uma palavra que eu escreva aqui cujo significado ignore.

Conheço a tese: tudo é pra ontem, não dá tempo de consultar um especialista, o jornal tem que ir pra gráfica, se possível, ONTEM. Já sei, já sei. É, realmente vai cair o dedo se o sujeito pegar um telefone e ligar prum advogado antes de escrever besteira. Realmente, cinco minutos vão fazer uma diferença enorme para um jornal que leva 24 horas pra ficar pronto.

Ah, é só pra vender jornal mesmo, que se f*da. TNC todo o mundo.

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Cabides aéreos

Minha amiga Moema enviou-me o linque:

http://www.bemlegaus.com/2010/03/cabides-avoados.html

Em resposta, enviei um email a ela, que reproduzo e expando aqui. Abre aspas.

É bem legaus!

E é um episódio muito interessante da História da aviação esse da Ponte Aérea de Berlim. Em alemão, Luftbrücke: literalmente, “ponte de vôo”, ponte aérea. Em inglês, Berlin Airlift. Um dos aviões (um C-54 — não o mesmo do cabide) ficou conhecido como Candy Bomber. Seu piloto (Cap Gail Halvorsen) atirava chocolate pela janela na aproximação final ao aeroporto, cada um com seu pequeno paraquedas (agora sem hífen), causando impressão nas crianças de Berlim que dura até hoje. Em alemão, é Rosinenbomber (está no texto). Halvorsen ficou impressionado que, durante a guerra, apenas três anos antes, ele fazia a mesma rota ao comando de um bombardeiro, largando sua carga mortífera sobre a cidade que, agora, ajudava a sustentar. Depois da iniciativa de Halvorsen, vários pilotos passaram a fazer a mesma coisa.

Quando a P.A. de Berlim fez cinquenta anos, várias revistas especializadas publicaram matérias comemorativas. Tenho-as. São artigos superinteressantes, detalhando o esforço logístico louco que foi sustentar Berlim Ocidental durante um ano e meio, trazendo de tudo: carvão, batata, leite, arroz, remédio, biscoito, café, açúcar, sal, madeira, roupa, sapato, gasolina, graxa, tecido, tudo. Um avião por minuto — um por minuto! No inverno, com neblina arriscada, um a cada três minutos! Sabe lá o que é sustentar isso, nonstop, por um ano e meio?!

Hoje, existe um monumento na frente de Tempelhof, referente à Ponte Aérea. O formato do cabide é o de um setor de disco, remetendo ao pátio de estacionamento de aeronaves desse aeroporto, que tem esse formato bem chamativo. Tempelhof não é usado pela aviação comercial há vários anos, mas uma passada pelo Google Earth (ou Google Maps) mostra vários aviõezinhos estacionados, bem como um C-54, preservado em metal natural, a leste do pátio.

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Observação jurídica sisuda: serviços públicos e dignidade da pessoa humana

Diz o Professor Alexandre Santos de Aragão:

Os serviços públicos têm uma conotação coletiva muito mais ampla que as atividades econômicas privadas. Visam à coesão social, sendo muitas vezes um instrumento técnico de distribuição de renda e realização da dignidade da pessoa humana (art 1o., III, CF), com o financiamento, através das tarifas dos usuários que já têm o serviço, da sua expansão aos que ainda não têm acesso a ele.

(Serviços públicos e defesa do consumidor: possibilidades e limites da aplicação do CDC. LANDAU, Elena (org.). Regulação jurídica do setor elétrico. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006. P. 153-154. Apud GUERRA, Sergio; SAMPAIO, Patrícia Regina Pinheiro. Ordem constitucional econômica. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, s.d. P. 42.)

Portanto, o Autor vê, no serviço público, uma forma de materialização da justiça distributiva e da noção abstrata de dignidade da pessoa  humana (art 1o., III). Eu acrescentaria que também é uma das formas de se materializar outro comando constitucional: o do artigo 3o., I.

Artigo 3o. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

O grifo é meu.

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Minha contribuição à paranoia global

A partir do final do século XIX, a pólvora negra foi deixando de ser usada nas armas de fogo. Em seu lugar, passou-se a usar nitrocelulose, que é mais energética e menos sensível a atrito e pressão, causa menos corrosão nas armas, tem um processo de fabricação mais seguro e faz muito menos fumaça. Por todas essas razões é que, nos últimos cem anos, a munição de todas as armas de fogo não usa pólvora como propelente, mas nitrocelulose, apesar de o público leigo continuar chamando de pólvora.

Ora, esmalte de unha é, basicamente, nitrocelulose dissolvida em acetato. Quando se diz que esmalte é inflamável, talvez seja tècnicamente mais apropriado dizer que seja explosivo, porque é isso que ele é.

Agora, falemos na segurança dos aeroportos do mundo. Nas salas de embarque espalhadas por todo este lindo planeta azul, cartazes advertem da proibição de determinados itens na sua bagagem: armas brancas e de fogo, substâncias inflamáveis, corrosivas ou tóxicas, animais, explosivos…

Peraí. “Explosivos”?

Isso vale para esmalte de unha?

Sssshhhh!!!!… Vale, sim. Por enquanto, os agentes de segurança ainda não se deram conta disso, nem proibiram as madames de embarcarem com suas últimas tonalidades da moda. Quero ver o rebu que vai ser quando perceberem que qualquer perua inconsequente pode iniciar um incêndio a 20 mil pés…

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Retuíte nerdiano de quem não tuíta

Isto é maravilhoso. Dica do Juan (que não conheço, mas acabo de visitar o belogue dele). O WordPress não me deixar mostrar o vídeo nem na porrada, mas, se você clicar, é diversão garantida.

Star Wars: Uncut Trailer from Casey Pugh on Vimeo.

A explicação você encontra aqui: centenas de fãs estão, cada um, refilmando uma cena de quinze segundos de A New Hope. Quando tiverem terminado, os caras farão a colagem.

Capanema, doutores de Coimbra, educação e ideologias

Neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval e o J. Ben tem uma nêga chamada Teresa (palavras dele, não minhas), temos algumas concepções paternalistas e clientelistas que extraímos desde Roma, passando por Portugal medieval e chegando aos dias de hoje.

Como resultado dessas concepções, nossas elites sempre enviavam seus filhos a se instruírem em Coimbra e a se tornarem “doutores”, mesmo que nunca fossem usar o conhecimento. No período republicano, insuflados pela ilusão de que mobilidade social existe, somos levados a crer que você não é ninguém se não tiver estudo. Bem, não exatamente. Você não é ninguém se não tiver um título. Não faz diferença se domina o assunto ou não.

Então, antes de vir administrar os negócios da família e a compra e venda de escravos, o jovem de tradicional estirpe tinha que ser médico, engenheiro ou advogado. De preferência, advogado, que assim você conhece as fórmulas que obtêm o favor dos deuses. O advogado torna-se uma espécie de pontífice, de sacerdote, com todos os privilégios associados à função. Vêem-se (porque a sociedade os vê) acima dos demais mortais, sabedores dos sortilégios sagrados das artes ocultas, revelados somente a iniciados. Mais ou menos feito os alquimistas.

Com o tempo, a saturação dos mercados e fartas doses de mediocridade, preguiça e hipocrisia, disseminou-se uma noção mais vaga, de que, de qualquer forma, você tem que ter um diploma universitário, qualquer diploma universitário, para conseguir qualquer coisa, para ser alguém, para ter dignidade. Não importa diploma de quê, nem onde. Você acaba forçado a fazer faculdade, mesmo que ìntimamente não queira, porque ninguém te aceita de outro modo. Agora, então, que a Lei de Diretrizes e Bases facilitou a obtenção de diploma para cursos de nível superior em menos de três anos, é como se ninguém mais tivesse desculpa.

Uma noção completamente falaciosa. As pessoas ficam achando que o papel da universidade é servir de curso profissionalizante, como se só houvesse profissões se de nível superior. Algumas viram cursinho para passar em concurso. Chega-se ao absurdo de se supor que todo o mundo tem que ter feito faculdade. Um País de doutores. Sabemos com que qualidade. Sei de doutores que não conseguem soletrar o próprio nome.

Ficam desprezados todos os técnicos, e essa gente esquece que, sem técnicos, não se constrói um país. Não dá pra ter só engenheiro; alguém tem que saber operar no chão de fábrica. Não dá pra ter só cirurgião dentista; alguém tem que saber cuidar do instrumental. O técnico é fundamental.

Mas conhecemos a visão que impera. As pedagogas de voz áspera, aquelas que nunca entraram numa sala de aula mas não deixam de comparecer a um debate na TVE, realmente acreditam que, se você não faz uma faculdade, você automàticamente é um fracassado.

Não há de ser outra a mentalidade que motivou certo artigo que encontrei na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005.

A matéria é uma biografia de Gustavo Capanema em quatro páginas. Já começa por uma ambivalência: na chamada, afirma que Capanema “foi um ministro renovador e idealista”, citando carta de Lúcio Costa que elogia o arrojo do prédio do MEC no Centro do Rio e o atribui à visão do mecenas; mas, poucos parágrafos adiante, esclarece como esse intelectual mineiro chegou a ministro:

Capanema acompanhou os mineiros, quer na fase da campanha eleitoral, quer na da conspiração, tornando-se oficial de gabinete de Maciel, por sinal, seu primo. Vitoriosa a revolução [de 1930], o presidente de Minas foi o único a não ser afastado do cargo pelo chefe do Governo Provisório. Seu oficial de gabinete tornou-se o secretário do Interior e Justiça (…) Campos e Capanema articularam um plano para ‘liquidar’ a liderança do mais poderoso político mineiro, Artur Bernardes (…). Uma briga de cachorro grande (…) que aproximou Vargas de Capanema, pois foi ele que intermediou as sigilosas conversações entre poderes estadual e federal. (…) Maciel morre e Capanema assume, interinamente, o cargo de interventor federal, postulando uma efetivação.

Os grifos são meus. Mas quer dizer: a Autora abre o texto enaltecendo o ministro visionário, mas mostra como ele armou para subir a escada do poder à medida em que se instalava uma ditadura no País.

Já ministro da Educação e Saúde, Capanema estava encarregado de sistematizar o ensino em todo o Brasil. Havia um debate entre correntes leigas e religiosas, entre estatizantes e liberalistas.

Essa discussão se prolongou, sendo interrompida pelo golpe de 1937, que deu ao ministro a liberdade de encaminhar suas propostas conforme as diretrizes autoritárias, nacionalistas e centralizadoras do Estado Novo.

Não é que eu seja fundamentalmente contra o modelo educacional. Provàvelmente ele estava correto, considerando que a geração que foi à escola nos anos 40 não é tão ignorante quanto as posteriores — ressalvado, aí, seu viés por vezes doentio, exageradamente positivista, nacionalista, integralista até; por culpa mais do Estado conformador do que dos próprios alunos. O lance é que, seja que modelo for, não é assim que se implementa. O cara é incensado como gênio da educação, mas parece não ter se pejado em simplesmente mandar cumprir o que achava que estivesse certo. Grande exemplo estava dando.

Bom, mas eu me estendo em digressões. Esse nem era para ter sido o foco principal. O que mais chamou minha atenção foi a seguinte passagem:

a reforma também criou cursos profissionalizantes, voltados para os que não seguiriam carreiras universitárias. Como é fácil perceber, eles se destinavam aos jovens menos abastados, o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única e de boa qualidade.

Esse trecho está tão errado que nem sei por onde começar. Deixe-me seguir na ordem da leitura.

Primeiro: por que a Autora considera que os cursos profissionalizantes sejam voltados a quem não iria para a faculdade? Veja só que ela escreve por exclusão: “os que não seguiriam carreiras universitárias”. Presume-se que o padrão seja você fazer faculdade e que os demais se definam por não seguirem a regra. O pressuposto é que a universidade seja o certo, o óbvio, e que os refugos vão fazer escola técnica. Como se não houvesse a opção de não fazer universidade; como se não pudesse parar no primeiro ou segundo grau. A escola técnica surge como opção de quem perdeu, de quem é excluído, ráuli.

Segundo: “como é fácil perceber” — fácil para quem, cara-pálida? Há uma certa arrogância no texto: para ela, tudo que for dito depois são verdadeiras obviedades e, em princípio, o Leitor que não concordar tem dificuldade de perceber algo que está na cara.

Terceiro: “eles se destinavam aos jovens menos abastados” — ah, quer dizer então que escola técnica é pra pobre, é isso? Se escolho ser técnico, é porque sou um proletário limitado, emburrecido talvez pelo simples fato de ser pobre e, portanto, incapaz de alcançar um ambiente intelectual mais elevado — é essa a mensagem? Depois do primeiro grau, não convivi mais com gente rica, mas, desde então, já conheci várias pessoas que fizeram escola técnica e que não tinham dificuldade nenhuma de se sustentarem com isso.

Quarto: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única” — hein? Quer dizer que as escolas técnicas não têm como se inserir num sistema de ensino? O Senhor Ministro não sabe onde encaixá-las, elas não se destinam a formar doutores — então, estão fora do sistema unificado, é isso? Estão entregues ao descontrole, estão à margem, é essa a ideia? E o que que eu digo pra quem acabou de entrar no CEFET?

Quinto e talvez pior de todos: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública (…) de boa qualidade”. Então, quer dizer que as escolas técnicas são todas ruins, é isso? Só está certo quem seguiu o caminho virtuoso da universidade; todos os demais são desqualificados e, se o curso é técnico, então automàticamente o curso é ruim — é isso? Por que a Autora não diz logo que tinha que acabar com o SENAI e rasgar o diploma de todos os soldadores, mecânicos e técnicos em Radiologia? Será que ela realmente acha que conseguiria sequer ter luz e água encanada em casa sem esse pessoal? O que o texto está dizendo é: “você nunca vai ter educação pública de boa qualidade se continuar formando técnicos”. Vá perguntar o que um russo, o que um alemão acha disso. Vá ver o que estão fazendo na China.

E era aqui que eu queria chegar. Nota-se aí mais uma das manifestações desta nossa ideologia do diploma. A Autora absolutamente despreza quem não tem é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ ou pós-doutor pela Sorbonne. Essa é a exata visão da nossa cultura dos bachareis de Coimbra, do grau universitário como único reconhecimento de valor social. Uma cultura de opressão, onde alguns arrotam erudição e “falam difícil” para outros ficarem impressionados e temerosos, ignorando que os primeiros, muitas vezes, são tremendos enroladores que sequer aprenderam o básico das primeiras disciplinas da graduação, quiçá do próprio segundo grau. Uma cultura que não conhece o conceito de accountability (e por isso não tem nome para ele), onde professores titulares não aparecem para dar aula “porque estão acima disso”, onde a ocupação de qualquer sinecura autoriza o alto bradar da pergunta, “você sabe com quem está falando?”

Eu sei. Sei muito bem.

E estou de mau humor. MAU HUMOR COM “U”, PELO AMOR DE NEWTON!

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Helicópteros e sabotagem

Estava lendo no Globo On: caiu no Centro-Oeste um helicóptero do Batalhão de Aviação do Exército.

Como se só houvesse um. Na verdade, são quatro Batalhões de Aviação do Exército. A matéria até dá a entender que a aeronave era do 3o. Batalhão, mas será que vai cair o dedo se escrever certo?

Mas o mais importante é isto. A fotografia mostra um helicóptero Tigre, usado pelos exércitos francês e alemão e não usado no Brasil. E a legenda diz “Modelo de helicóptero que caiu no Pantanal /Reprodução TV Morena”. É evidente que o helicóptero caído não tem como ser do mesmo modelo do da foto.

É o que vivo dizendo sobre a absoluta preguiça de se pesquisar qualquer coisa, tão comum entre pseudojornalistas brasileiros. Ninguém olha nada. Fiquei sem saber qual é o modelo do helicóptero que caiu. E aí você começa a duvidar de tudo: sequer caiu?

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