A imbecilidade humana, mais de perto

Vou começar com a seguinte premissa: o Metrô está errado. Não há como livrar a cara da empresa. Tudo que vem dando errado nos últimos meses, tudo, tudo, é culpa do Metrô Rio.

Pra você, que não usa o sistema, permita-me explicar. Aqui no Rio, existem duas linhas de metrô: linha 1 e linha 2. Para passar de uma para outra, você desce na estação Estácio e sobe ou desce a escada. Alguns meses atrás, os governos estadual e federal e o Metrô fizeram o maior alarde para dizer que isso tinha acabado e que, agora, você embarca na linha 2 e vai direto até o ponto final da linha 1, sem mudar de linha. Se você, que está fora do Rio, está se perguntando como pode e desconfiando que não faça sentido, é porque não faz mesmo. Na verdade, era mentira. Ainda é necessário descer no Estácio.

Exceto que, durante a semana, na linha 1, circulam trens das duas linhas. Então, é o seguinte; preste atenção: quando você está na linha 1 e vem um trem, é preciso reparar na tabuleta na frente do trem. Se estiver escrito “Pavuna”, é que, lá na frente, ele vai mudar da linha 1 para a linha 2. Se estiver escrito “Saenz Peña”, é que ele vai permanecer na linha 1. Além disso, existe na plataforma um LCD que diz para onde está indo o trem, nos mesmos termos. Basta ler a droga da tabuleta ou o raio do LCD que você vai para onde quer.

É claro que um sistema desses é absolutamente confuso. Não bastasse o fato de que, a cada seis meses, eles mudam os nomes das direções na linha 1 (já foram Tijuca e Botafogo, depois passaram a ser Zona Sul e Zona Norte, depois Saenz Peña e General Osório, e assim até acabarem os nomes, quando então ciclarão de volta), eles òbviamente tinham que up the ante e aumentar o valor da aposta, fazendo os trens das duas linhas andarem nos mesmos trilhos. Com a população analfabeta que temos, realmente ajuda muito. Some-se a isso o desastre das integrações multiplicando por um milhão o número de passageiros, mais os trens que não aguentam mais a quantidade de gado que estão carregando e cujo sistema de ar condicionado pede arrego, mais as quebras e paradas inúmeras que acontecem durante o dia, mais o eventual desligamento do arcond (antigamente, ele ficava ligado mas os retardados achavam que não, porque continuava quente. O imbecil queria geladinho até num dia de 40 graus com o triplo de gente que o vagão comportaria, já que o imbecil não sabe como arcond funciona. Agora é diferente, eles desligam mesmo), e você tem o quadro catastrófico que só quem viaja sente.

Agora, a ressalva é a seguinte. Este nosso povo desdentado, mulambento, que arrasta chinelo pelo chão por absoluta preguiça de levantar o pé, este povo de beiço pendurado e se entupindo de salgadinho Torcida, este povo com a bermuda que põe a bunda à mostra ou encrava o shortinho no rêgo (dependendo do sexo), este povo que acha estèticamente desejável a mulambice escrotástica e repulsiva da Gata da Hora do jornal O dia (outro dia, li no mesmo jornal que já teve até travesti na capa e, pelo visto, nenhum desses boçais rematados percebeu a diferença), este povo, enfim, que “é brasileiro e não desiste nunca” de pelar o saco, este povo faz questão, questão de não prestar atenção, um minuto que seja, aos avisos que são dados pelo sistema de alto-falante.

Acompanhe o caso. Hoje, embarquei quando o LCD dizia “Saenz Peña”, o que estava repetido na tabuleta, lá na frente. Dentro do trem, duas mulambas, vestidas com aqueles trapos de R$ 0,99 mas certamente se achando a caminho de alguma festa bizuleu regada a Skol em lata, conversavam entre si e totalmente ignoravam os avisos insistentes que o desgraçado do condutor repetia a cada parada: “este trem está indo para a estação Saenz Peña. Para tomar a linha 2, os passageiros devem descer na estação Estácio”. Chegou ao Estácio e metade do trem saiu. As duas mulambas imediatamente sentaram à minha frente e continuaram a não dar bola para avisos sonoros, indiferentes ao fato de metade do trem ter saído. Até que viraram pra trás e perguntaram para o rapaz a meu lado: “ué, não tá indo pro Estácio não?”

— O Estácio já passou.

— Ué, mas tem que fazer a baldeação? Disseram que tinha acabado a baldeação.

— Não acabou não. Pra fazer baldeação, tem que descer no Estácio e pegar a linha 2.

— Ué, mas eu perguntei pro rapaz [deve ter sido um segurança] e ele disse que tinha acabado a baldeação no Estácio. [Quer dizer: se for verdade, ainda por cima os empregados continuam dando informação errada. Realmente, o nível de orientação que costumo testemunhar nos empregados do Metrô costuma ser sub-Bob’s.]

Nisso, saíram para pegar o trem em sentido oposto, a fim de voltar para o Estácio e lá pegar linha 2 para seu baile fanque. Mas você vê? Ninguém presta atenção a NA-DA. Já vi isso acontecer inúmeras vezes: o condutor avisa e repete, insiste, enche o saco, mas, quando chega no Estácio e sai aquele mundo de gente, sempre tem um retardado que permanece a bordo e não se toca de que todos os demais arrasta-chinelos saíram de uma vez. O imbecil sempre se surpreende quando chega à Saenz Peña e descobre que tem que voltar.

Não vejo outra explicação para o que relatou meu ex-padawan Rumpelstiltskin. Que me perdoe seu ponto de vista tão condescendente dessa vez, mas só pode ser isso: permanente ânimo que têm de JAMAIS prestar atenção a qualquer aviso.

Na empresa onde trabalho, todo ano eles fazem uma simulação de incêndio, para manter a proficiência da evacuação do prédio. O aviso de emergência é dado por uma gravação no sistema de som: “atenção. É necessário abandonar este andar”. Tenho certeza de que, no dia em que for real, essas mulambas vão todas morrer. Acenderei uma vela para São Darwin, agradecendo também a elas por contribuírem para a melhoria da raça humana pelo maravilhoso mecanismo da seleção natural.

Desgraçadas.

EOF