O fantasma de São Diogo

Até o século XIX, havia no Rio de Janeiro um prolongamento da baía da Guanabara, chamado Saco de São Diogo. Os registros divergem, mas, pelo que entendi, o Saco ocupava a região onde, hoje, ficam parte da região portuária, a estação Leopoldina, a avenida Francisco Bicalho, o Trevo das Forças Armadas, e pedaços da Cidade Nova. Um debate sobre sua extensão aqui.

Durante o século XIX, aquela área foi toda aterrada. Naturalmente, nem por isso se tornou muito mais alta. Ali chegam o Rio Comprido, o rio Joana, o rio Maracanã, o Trapicheiro e outros cursos d’água que drenam o terreno de nossa cidade desde o tempo da última glaciação. O canal do Mangue é prova de que, por ali, um bocado de água ainda corre para o trecho de baía junto à rodoviária Novo Rio. O Saco de São Diogo foi-se, mas sua macro-influência na hidrografia do Rio permanece, feito um fantasma que se recusa a ser derrotado.

Quanto à Praça da Bandeira, històricamente sempre foi alagada. O terreno ali é desconfortavelmente baixo, era dominado por um manguezal e estava ìntimamente ligado ao Saco de São Diogo, com toda a sujeição às marés que caracteriza esse tipo de situação. O traçado topográfico variava fortemente conforme o Saco estivesse mais ou menos cheio de água e, mesmo que hoje haja uma praça por cima, os rios ainda passam ali por baixo. Mesmo hoje, se chover forte durante a maré alta, a desembocadura dos rios fica mais baixa do que o nível do mar, a água não tem pra onde ir e é alagamento na certa.

Acho que isso explica por que é que, em tempo de chuvas como a desta semana, não convém ficar muito perto de São Cristóvão e Maracanã. Agora há pouco, eu estava assistindo ao Jornal Nacional online, e tem o vídeo de um ônibus em frente ao CEFET, com água na altura da janela!

E diz a previsão do INPE que vai continuar chovendo nesta quarta-feira e além…

Na cobertura jornalística do G1, tem um meteorologista dizendo que “não é possível associar [a chuvarada desgraçada dos últimos dois dias], que classificou de ‘atípico’, com o aquecimento global, mas também não se pode descartar sua influência”. Em outras palavras, o homem não sabe o que diz. Mas deixe-me acrescentar alguma coisa, eu, que não sou especialista em p**ra nenhuma. Primeiro, concordo que seria ignorante e leviano associar uma específica chuva, em uma específica semana, a um fenômeno mundial de longo prazo, como é o aquecimento global. Não dá pra fazer esse vínculo, como alguns palpiteiros poderão tentar amadorìsticamente. Em matéria meteorológica, existe um zilhão de fatores envolvidos, e não é a primeira vez que chove forte no Rio.

Mas, segundo a mesma reportagem, a causa da chuva forte seria o calor brabo dos últimos dois meses, que provocou uma umidade incomum no ar sobre a cidade. Com a chegada de uma frente fria, caiu o mundo em cima da gente. Ora, com base nisso, arrisco-me a identificar uma tendência para o futuro sim, por mais que eu prefira estar errado: com o aquecimento global, mais vezes veremos o ar ficar úmido além do que era habitual durante o século XX. As chuvas torrenciais, que aconteciam a cada vinte anos, vão passar a acontecer a cada quinze, dez, cinco, dois anos; já não vai ser algo incomum, mas perfeitamente previsível. Com a chuva, virão a falta de luz, o caos nos transportes, isso tudo.

Então taí. Como Esposa estava comentando comigo ontem: vai acabar esta nossa mamata de ter tudo fácil, eletricidade, telefone, água potável. Vamos ter que conviver com escassez sim, e a vida de nossos filhos não vai ter os luxos da nossa. Quero dizer, para quem é rico assim como para quem é pobre, o padrão de vida vai cair e as agendas vão ter que considerar mais contingências do que as nossas. Tudo vai mudar em nossa civilização. E não descarto a falta de comida.

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