Eu adoro a Web 2.0 (quando bem feita)

Estou há um tempão para escrever sobre a parte boa da Wikipedia. A ruim a gente já sabe: não confiável, subjetiva, sujeita a flamewars etc. Mas tem o lado bom também, que eu queria enfatizar. Ainda não é desta vez, estou sempre sem tempo, e coisa e tal. Mas acabei de ver um exemplo muito legal da boa Web 2.0 que queria compartilhar com você.

Estou lendo um artigo sobre Penda, que foi rei de Mércia no século VII. Mércia era um dos reinos que, quando se juntaram no século IX, formaram a Inglaterra. Na página de discussão sobre o artigo, várias pessoas se preocuparam que não havia um retrato de Penda. Aí vem um e retruca, óbvio que não; o cara se perdeu na aurora dos tempos, é quase mítico feito o Rei Artur, não tem quadro, iluminura, nada. Mas, aí, outro lembra que não importa, o artigo está longo, tinha que ter uma figura: um mapa da Inglaterra naquela época, uma foto de armadura do século VII, uma moeda, qualquer coisa. Um terceiro vem e sugere: mapa não costuma ficar bom; será que não podemos usar o retrato de algum evento? Uma batalha, talvez?

Aí é que fica interessante. Primeiro, um usuário tem a ideia de usar a foto de um vitral da catedral de Worcester, que representa a morte de Penda. A foto estava em um texto online sobre a Idade Média, cujo Autor se ofereceu para VENDER os direitos de reprodução. Que que o usuário sugeriu? “Alguém que more perto de Worcester pode ir lá com a câmera e trazer uma foto para nós aqui.” Assim dito, assim feito.

Várias vitórias aconteceram aí. A primeira é óbvia: alguém foi criativo em usar a foto da catedral e está de parabéns. A segunda também é óbvia para quem está atento aos benefícios da Web colaborativa: várias cabeças pensando juntas, sugerindo, todas orientadas de boa fé ao melhor resultado possível, mostram as enormes vantagens que tendem a melhorar o conteúdo. O resultado fica sempre melhor do que o de uma só pessoa, limitada, batendo cabeça e não conseguindo uma solução. É quase um brainstorm documentado de mútuo socorro.

A terceira vitória não é tão fácil de ver. Perceba que um sujeito, que pode estar a bilhares de quilômetros, que podia ser eu aqui na América do Sul, vai lá e posta a sugestão de que outrem, morando perto da catedral, possa fazer o que o sul-americano não pode: simplesmente ir à catedral e pôr a foto para todos verem. No mundo online, a distância não faz a menor diferença, estão todos convivendo um ao lado do outro no mesmo ciberespaço. Quando é necessário voltar ao mundo físico, não tem problema; quem estiver mais perto vai lá e faz. Se eu quiser saber como está o tempo na Nova Zelândia agora, procuro o twitter de alguém de Auckland e simplesmente pergunto.

A quarta vitória mostra como a economia da Web 2.0 quebra os paradigmas. O sujeito offline pretendeu cobrar pelo uso de sua foto. Ele tem esse direito; a foto é dele, ninguém pode usar sem sua permissão. Entretanto, embora a foto esteja protegida por direito autoral, ele não enxergou que o objeto da foto não estava e que era muito fácil alguém simplesmente ir lá e fazer outra. Quis vender, ficou sem o crédito; puseram a foto sem ter que pagar um penny a ele ou reconhecerem sua ideia prévia. Tá todo mundo maluquinho tentando descobrir um jeito de monetizar a Web 2.0, e não consegue por causa dessas coisas.

Eu achei a história ótima.

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