Laboratório da evolução, 2010

Diz a teoria da evolução que, quando as condições ambientais mudam, as espécies mais adaptadas vão sobreviver, enquanto as outras vão se extinguir. (Aliás, é com base nisso que Richard Dawkins tenta levantar seu astral dizendo que você necessariamente descende de uma linhagem de vencedores.)

Antigamente, o metrô do Rio de Janeiro era simples. Na linha 1, as estações terminais eram Botafogo e Saenz Peña. Qualquer trem que você pegasse em uma dessas estações iria te levar, necessariamente, a todas as demais, inclusive Estácio.

Mesmo assim, todo dia alguma desdentada me perguntava, “moço, qual é o trem que vai pro Estácio?” Meu ódio fervia por causa do óbvio, até o dia em que minha colega Maria Luiza, engenheira hidráulica que é exemplo de profissionalismo e discrição e que pega trem lá pra não sei onde, esclareceu-me que, na Central do Brasil, você tem que saber em qual trem está embarcando, porque não tem uma linha só; e essa gente está acostumada é com isso. Vá lá. Entretanto, continuo com ódio, porque, diabos, basta olhar em volta. Tem mapa, tem sinalização, tem tudo.

Mas, enfim, aqueles tempos eram simples. Só tinha um tipo de trem na linha 1, e o único lugar onde as faxineiras mudavam de linha era no Estácio. Simples, simples, simples, e, mesmo assim, toda vez eu tinha que responder.

Os tempos mudaram e com eles veio uma confusão do catso. Depois da obra entregue este ano (note bem que eu não disse “terminada este ano”), o metrô passou a ter trens circulando na linha 1 sem serem exatamente da linha 1. O trem da linha 1, mesmo, circula com um painel de LEDs vermelhos, avisando que é o trem da linha 1. Aí vem um trem lá de Deusmelivre, ocupando os mesmos trilhos da linha 1, mas só circulando na linha 1 entre Central e Botafogo. Os LEDs desse trem são verdes, indicando que é um trem da linha 2. Além disso, acabou a conexão no Estácio, e os pobres têm várias opções de estação para mudarem de um trem para outro: todas entre Central e Botafogo.

Exceto que não exatamente. Porque à noite, nos fins de semana, nos feriados, nos dias que terminam em “-feira”, e nos horários entre 6 da manhã e 18 horas, ou bàsicamente quando eles querem, o Metrô Rio costuma suspender esse esquema e voltar ao esquema antigo. Apagam os LEDs dos trens da linha 1 (porque òbviamente só podem ser da linha 1, certo?, pra que os LEDs?), e volta a necessidade de fazer conexão no Estácio. Então fica assim: tem dia que duas linhas ocupam os trilhos da linha 1; tem dia que a linha 2 sai da linha 1, passa pela Central mas daí vai direto a São Cristóvão sem passar pelo Estácio; e tem dia que, para passar da linha 1 para a linha 2, tem que descer no Estácio tal como antigamente. E às vezes eles não avisam. Ou seja, um bundalelê do ca**lho, onde ninguém se entende e onde, mais de uma vez, já vi os seguranças inúteis, mal orientados, dando informação errada pro passageiro.

Hoje, por exemplo, resolvi pegar o metrô no final do expediente, como não fazia havia meses, achando que estaria menos cheio por ser dia enforcado (ontem foi Corpus Christi, amanhã é sábado) e porque agora, supostamente, acabou a megatransferência dos pobres do Estácio, de modo que eles estariam todos no outro trem. Ledo engano. Foi eu passar meu cartão pré-pago maldito, rodar a catraca, e ouvir o infeliz do PA avisando que, hoje, “excepcionalmente” (“rá rá rá”, riu-se o Doutor Plausível), a conexão voltou a ser necessária no Estácio. Lá fui eu ter que esperar um trem menos entupido para dividir meus seis centímetros quadrados com a metade da população mais odiada pelo Deputado Justo Veríssimo.

E foi aí que me dei conta de uma coisa. Já faz vários meses que não vejo mais as lavadeiras perguntadeiras. Nada daquelas aflições com lenço na cabeça e Folha universal na mão, perguntando qual é o trem que vai pro Estácio. Considerando a mudança súbita das condições ambientais nos meses precedentes, e sabendo da reduzida capacidade que algumas pessoas têm de se adaptarem a mudanças, estou entendendo que essa espécie tenha sido extinta.

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