Teria sido mais barato telefonar para Marte

Em 2008, comprei dois telefones celulares de minha operadora. O vendedor disse que os dois estavam desbloqueados. Ingênuo ou burro, não pensei em testar se era verdade.

Em 9 de julho de 2010, cheguei a Heathrow sabendo que, se fosse usar meu celular em roaming, pagaria uma fortuna. Então, ali mesmo, diante da esteira de bagagem, fui à máquina que vende chips (“SIM cards”) e comprei um da Lebara. Assim, como quem compra Coca-Cola, só que era chip de celular, entende? Igual àqui, no Brasil.

É claro que, quando troquei o chip de minha operadora pelo da Lebara, o celular acusou que estava bloqueado. A partir daí, apesar de ter levado uns vinte minutos entre o desembarque e o recolhimento de bagagem (incluído aí o controle de passaporte), ainda fiquei umas duas horas discutindo com a “assistência ao cliente” da operadora, pedindo para desbloquearem meu telefone remotamente.

O de minha esposa até desbloquearam. O meu, não: dependia de pedirem o código à Nokia, com prazo de resposta de cinco dias úteis. Pedi-lhes que enviassem o código por SMS ao celular de minha esposa, que é da mesma operadora. Enviaram ao teu?

Ao dela também não.

O único motivo de eu não dizer qual é minha operadora é que, se eu fizer isso, dita Murphy que serei processado por difamação. De todo modo, as quatro operadoras que temos no Rio de Janeiro te tratam do mesmo jeito; então, você pode mudar de uma para outra, que não faz a menor diferença.

Mas daí. Quando vi que o desbloqueio não ia sair na hora, resolvi telefonar para minha mãe, só para dizer que tinha chegado. Ontem veio a conta: R$ 8,91 pelos 18 segundos que durou a ligação. Isso dá R$ 29,70 por minuto.

Com o chip da Lebara, eu telefonei DA INGLATERRA PARA O BRASIL pagando 4p por minuto. Pelo câmbio do dia em que comprei créditos, isso dá R$ 0,1058 por minuto. Ou seja, custou 281 VEZES MAIS BARATO.

Deixe-me repetir isso. Com o dinheiro que eu gasto para falar UM MINUTO da Inglaterra  para o Brasil, no roaming da operadora do Brasil, eu falo QUATRO HORAS E MEIA com o chip da operadora inglesa. Só posso chegar à conclusão de que minha operadora pensa que a Inglaterra fica em Marte, sei lá. Dizque ligação interplanetária só fica mais barata quando os dois lados da linha estão do mesmo lado em relação ao Sol. Não sei, dizem.

Além disso, temos uma amiga alemã que tem uma amiga espanhola. Pois ouvi da espanhola que ela tem um contrato de combo (telefone, Internet e TV, sabe como é) do mais simples — com 12 MEGAbits por segundo. Vamos presumir que, lá como aqui, a operadora só entregue um sétimo do valor contratado. Mesmo assim, esse um sétimo é DOZE vezes maior do que o plano mais simples que minha operadora de Internet me oferece. E não venha me dizer que “não tenho mais porque não quero”. Eu pedi mais, mas o moço que veio instalar mostrou-me, com medidor de ruído, que a linha não comporta mais do que 1 mega. Então, eles estornaram a cobrança dos 2 mega e fiquei com um só mesmo.

Verdade que eu posso estar errado, posso ter sido enrolado — tudo pode ser, não sou especialista. Mas está claro para você que nós somos uns índios? Está claro que nossos planos são dos mais caros que existem entre Vênus e Júpiter e que ainda temos que comer muito feijão para sonharmos com inclusões digitais e o raio que o parta?

Depois disso, volto para o Galeão na noite de 24 de julho e descubro que há um descontrole total no desembarque. A calçada está tomada de empregados de cooperativas que ficam, agressivamente, impedindo a aproximação de veículos de fora e, de modo até hostil, quase forçando os passageiros para dentro das mandíbulas de seus motoristas. Uma ambulância estava estacionada, sem emergência nem luzes acesas, em vaga de táxi especial. Nenhum empregado da Infraero à vista.

Então, que temos? Um aeroporto com intermodalidade quase nula (só umas poucas linhas de ônibus, uma delas a que segue para a zona Sul e que não tem horário), sem trem, sem metrô, com uma bandalheira que se apoderou do ponto de táxi; denúncias de cambistas ilegais disfarçados de carregadores de mala; ausência quase completa de comércio; um free shop (o de quem sai do País) que mais parece uma piada de mau gosto; uma minúscula área de coleta de bagagens que, ademais, está caindo aos pedaços; ambientes sem iluminação; várias áreas comerciais vazias; ausência de sinalização em língua estrangeira correta; e pessoal do comércio e serviços incapaz de falar um português correto, quanto mais inglês…

Mas nada tema: teremos Jogos Olímpicos em 2016 e Copa do Mundo em 2014. Com esse nível de preparo e de serviços, tenho certeza de que tudo vai dar certo.

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