De especialistas marca barbante

Aqui tem uma entrevista com o Autor de quadrinhos Robert Crumb, um dos ícones vivos da contracultura dos anos 60. Em determinado trecho, diz o entrevistador:

Em Paraty, o cartunista, antes esperado como o grande nome da Flip, saiu de lá tachado com um chato, já que a mesa em participou ao lado de seu amigo e também cartunista, Gilbert Shelton, criador dos Faboulous Freak Brothers, decepcionou a muitos. Crumb é avesso a jornalistas e a fotógrafos, e realmente não tem muito a ver com algo como a Flip. Mas o grande equívoco foi escalar um mediador que não conhecia a obra de Crumb a fundo, tampouco de quadrinhos.  E aí na imprensa lemos bastante que “Crumb é um chato, ranzinza e mal educado, a Flip deveria chamar só escritores etc.” Ele pode ser ranzinza e mal educado por conta dos lugares comuns que sempre lhe perguntam, ou coisas como se havia muita competição nos quadrinhos underground nos anos 1960, na Califórnia. A essa pergunta, no debate, ele questionou duas vezes: “Você está bricando?” [“Are you kidding?”].

Extremamente educado, simpático e gentil, (…)

E aí eu digo: de fato, a escolha do mediador faz uma diferença enorme. Em 1996, fui convidado pelo Prof. Paulo Metri, então diretor cultural do Clube de Engenharia, para ser um dos debatedores após uma exibição do filme Jornada nas Estrelas VI, no auditório do clube. Aceitei muito honrado, porque o tema é caro a mim e eu era (ainda sou) muito preparado para discutir qualquer aspecto de Jornada, em especial esse filme.

A exibição foi um sucesso, o filme se presta a várias discussões sobre geopolítica, ecologia, ideologia, pacifismo e anacronismo, eu e minha amiga Patricia contribuímos bastante, e o público só saiu porque estava na hora de fechar o auditório. Acontece que, como mediador, o clube pusera um sujeito que nunca tinha assistido a Jornada nas Estrelas nem conhecia nada de nada do tema. Pois o camarada começou atacando o filme — sem se dar conta de que boa parte dos que ali estavam já gostavam bastante dele — e prosseguiu a falar mal dos trekkers como alienados, irresponsáveis — sem se dar conta de que quase toda a plateia era composta por trekkers. De início, foi constrangedor vê-lo antagonizar palestrantes e público sem saber do que estava falando (uma das eternas marcas da arrogância oriunda da ignorância) mas, de certo modo, foi até engraçado como todo o mundo se uniu para praticamente escorraçá-lo de modo paternalista, se é que isso não é uma contradição em termos.

De outra feita, no mesmo Clube de Engenharia, o filme era 2001. Conforme eu já disse várias vezes, sou adepto da tese do Underman de que 2001 seja uma obra aberta: cada um vê nele o que é levado a ver, e o significado do filme só se completa na mente de cada um. É verdade que isso vale para toda obra de arte, aliás para toda obra: afinal, você precisa do receptor para se completar a mensagem. Mas, em 2001, nada tem realmente seu próprio significado: é você que põe seu significado na obra que está vendo. É como se cada pessoa visse um filme diferente.

Só que certas pessoas levam esse tecido aberto a extremos. Lembro-me de um senhor idoso velho, componente da mesa de debatedores, que, quando o filme terminou, começou a malhá-lo dizendo que sua principal mensagem era denunciar o ridículo do capitalismo americano. Exemplificava com as cenas da comissária de bordo, servindo bandejas devagar em zero-g com seu capacete branco redondo, e dos astronautas jogando xadrez com Hal. WTF?! Posso até entender que ele considerasse ridícula a cena da comissária, mas claramente se via que o ancião velho não conhecia o contexto em que o filme fôra feito (bem na parte mais excitante da Era Espacial, 1964-68), não tinha lido o livro 2001 original nem o livro onde Arthur Clarke explica das motivações e procedimentos da criação do filme (anote aí: Lost Worlds of 2001, com tradução esgotada no Brasil, Mundos perdidos de 2001), nem òbviamente tinha estudado qualquer coisa sobre a obra que tinha acabado de ser exposta.

Portanto, cuidado com isto. Quando for convidar alguém para ser debatedor ou mediador em qualquer seminário, congresso, painel, mesa redonda, o que for, tenha atenção a quem você estiver chamando. Certifique-se de que a pessoa conheça o tema. Aliás, isso vale para qualquer convite que se faça para qualquer coisa, não é verdade?

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Completamente fora de contexto, uma citação de Alex Castro

Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.

O original está aqui.

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