Propulsão de dobra com uma nacele a menos

Advirto ao preclaro Leitor que este texto só faz sentido para trekkers. Quem não for trekker também pode ter a aprender, mas não se espante se não souber do que estou falando.

Recentemente, minha colega Leila Kalomi consultou-me a respeito de propulsão de dobra, que é a utilizada pelas naves de Jornada nas Estrelas. Considerei que nossa troca de emails poderia ser guardada para referência futura, não só por nós dois, mas por eventuais googladores. Então, com autorização dela, segue abaixo.

1 – Sei que é possível uma nave voar(?) com apenas uma nacele, mas qual seria o desempenho da que está funcionando? 50%? Seria possível uma velocidade de dobra muito grande?

Se uma nave foi feita para voar com duas naceles, em princípio ela não será capaz de voar com uma só. Para dar forma ao campo de dobra, ela precisa da configuração das duas. Com uma só nacele, o campo será só o campo gerado por ela, que é assimétrico, incompleto. Só seria simétrico se tivesse as duas. É diferente do caso de quando a nave já foi feita para voar com uma nacele só.

Os detalhes por trás vêm daqui: http://www.ex-astris-scientia.org/treknology/treknology-w.htm (… descer até Warp nacelle).

É claro, isso sou eu deduzindo. Ou inventando. O bom da treknologia é que é igual a Direito: cada um diz uma coisa, porque ninguém sabe nada. E todas as versões são aceitáveis, porque você não tem um paradigma “real” para contrastar.

2 – Em teoria, seria o seguinte: a nacele danificada está com um rombo. Daí, deduzo que o combustível deve vazar, certo? Seria possível criar um campo de força para conter esse vazamento?

Não é o combustível que está vazando. É plasma de dobra (isso, pelo menos, é certo; já foi falado diversas vezes em DS9/Voyager). Se você pegar o capítulo 5 do ST:TNG Tech Manual, o plasma de dobra é o que resulta quando você combina matéria e antimatéria no reator de dobra.

Esse vazamento pode ser contido por um campo de força, porque estamos tratando de um gás quente a ser recolhido no espaço como tantas vezes se faz, tanto para recolher como para evitar que entre ou saia de algum lugar. Por exemplo, os extintores de incêndio de bordo funcionam assim: bloqueiam o acesso do oxigênio ao fogo por meio de um campo de força local. Também as portas dos hangares da Enterprise-D têm um campo de força para evitar que o ar escape, mantendo as portas abertas com atmosfera lá dentro. Outros exemplos: em Generations, o campo de força que evita a despressurização na Enterprise-B, permitindo que Scott e Chekov fiquem perto do rombo no casco; e em First Contact, quando Pituquinha abre uma escotilha e mostra a Lily Sloane que é uma longa queda até Montana.

Mas não seria desejável conter o plasma de dobra que vazou. Ele é muito quente, e qualquer nave que esteja vazando plasma de dobra está arriscada a uma falha de contenção em pouco tempo. O ideal é interromper o vazamento o mais cedo possível e deixar que o plasma já vazado se perca no espaço — que é o que eles costumam fazer se você reparar. Para interromper o vazamento, há de se parar a produção do plasma (i.e. desligar o reator) e fechar o buraco.

Você pode pensar em usar um campo de força para “tapar o buraco”, mas isso equivale a tomar remédio para diarreia. O objetivo não é segurar dentro de você aquilo que é ruim. O objetivo é deixar ir embora e parar de produzir mais — ou seja, desligar o reator (assim parando de produzir mais), deixar o plasma escapar evacuando os conduítes, e fechar os conduítes, ou com campo de força ou com algum anteparo. Eu presumo que as naves sejam equipadas nesse sentido, de preferência com anteparos porque não gastam energia para se manterem.

3 – Em caso afirmativo, como seria esse campo de contenção? Alguma ideia?

Os campos de contenção são os mesmos campos de contenção que são usados para muita coisa. Existem dois tipos: os gravitacionais e os magnéticos. Os gravitacionais são os campos obtidos por geração artificial de gravidade; são campos de gravidade, mais intensos ou menos intensos, gerados pela nave com tecnologia que só foi inventada em algum momento lá pela década de 2060. É a mesma tecnologia dos diversos campos de força que servem como barreiras ou suportes, p.ex. o SIF (Structural Integrity Field), que ajuda a manter a nave inteira durante manobras; o IDS (Inertial Damping System), que segura os ocupantes para eles não virarem pizza quando a nave acelera; o defletor navegacional; os escudos; e o raio trator.

Já os campos magnéticos — que me parecem os mais indicados no seu caso — são tecnologia das décadas de 1940-1960. São campos que contêm, feito garrafas, a matéria que quer escapar feito um gás. São exemplos o campo de contenção do teletransporte e o campo de contenção de plasma de dobra (que é gerado dentro do reator e dos conduítes para evitar contato do plasma com as paredes).

Campos gravitacionais também serviriam no seu caso, mas eles são mais indicados para objetos sólidos e força bruta. Para controles refinados e objetos fluidos, campos magnéticos são mais apropriados. Especialmente se for plasma, por razões que a Física do século 20 explica perfeitamente: o plasma é eletricamente carregado, e todo campo magnético só se presta a aprisionar um gás se ele estiver eletricamente carregado.

Não acredito que, passados dezesseis anos, eu ainda consiga dizer tanta bobagem com coerência e, pior, dominando o assunto. Eu e Senhora temos assistido a episódios feitos por fãs e, de vez em quando, algum personagem manda uma dessas, tipo assim: “vai ter que trocar os injetores de plasma”, ao que eu digo na hora para ela: “pô, mas essa manutenção é demorada pra burro, vai ter que estacionar numa base estelar para fazer o serviço, e ainda vai ter que calibrar os injetores novos”. Em seguida, o outro personagem responde: “mas isso só vai poder ser feito na base tal, e vamos ter que chamar alguém que entenda da calibração necessária”. Ela só fica me olhando enquanto eu digo, “eu não disse?” [Atualização: ontem, estávamos vendo o primeiro episódio de Star Trek: Odyssey. Uma romulana sugere a adaptação de um quantum slipstream drive em uma nave romulana. Pensei, isso não pode, porque vai interagir com a singularidade quântica que os romulanos usam para propulsão. Dito e feito: ato contínuo, o Ten.-Cte. Aster responde exatamente o que pensei.]

4 – Uma pequena dúvida: é possível entrar dentro de uma nacele com ela funcionando ou é hermeticamente fechada?

Com ela funcionando não pode. O plasma de dobra é mais quente do que palpite comprado para o páreo armado da corrida de cavalos. Vaporiza a vítima em menos tempo do que leva uma multidão de trekkers famintos para esgotar o estoque de fotografias autografadas que o Nimoy levou para a convenção.

Mas, com a nacele desligada, pelo menos nas classes Galaxy e Sovereign, você pode até entrar nela — conforme visto em “Eye of the Beholder” (http://stng.36el.com/st-tng/episodes/270.html).

De todo modo, não é hermeticamente fechada. Existe um escapamento de plasma “gasto” através das laterais, que é o que permite rastrear a nave através do espaço. Mas aí é só saída, não serve de entrada.

Vista interna de uma nacele da classe Sovereign: http://www.ex-astris-scientia.org/scans/sovereign-nacelle.jpg

5 – Mais uma vez você dá mostras que o seu intelecto continua afiado. Vou explicar a situação e, quem sabe, você me ajuda a sair da sinuca de bico em que me meti. [Seguem-se detalhes da história que está escrevendo.] (…) Uma nave da classe Excelsior está dentro da Zona Neutra Romulana por uma série de fatores. Uma Warbird descobre a dita nave[, que] tem a nacele esquerda atingida. Acontecem alguns fatos e ela acaba por se livrar da Warbird, mas ainda está dentro da ZN e ela precisa urgentemente sair de lá. A minha pobre ignorância já tinha pensando a respeito de um campo de contenção e a sua resposta 2 vai de encontro àquilo que tinha intuído, mas tinha partido da seguinte teoria: ora, se um avião pode voar com apenas um motor, por que não uma nave? Terei de repensar isso. Estou encalacrada no seguinte ponto da história: o engenheiro-chefe pensou em usar o feixe de teletransporte para criar um campo de contenção para que o plasma não se perca. Ele pensa em mandar o plasma através do transporte e ao mesmo tempo criaria um campo que serviria de contenção e assim poderia aumentar a velocidade de dobra, pois, do jeito que a nave está, vai demorar uns seis meses pra sair da ZN e claro, não seria lá muito prudente passar seis meses sendo perseguidos pelos romulanos. Deu pra entender? Please, be free para publicar onde quiser. Quem sabe alguém também não dá um pitaco que ajude?

Depois dessa última pergunta, discutimos o tema ao telefone, e recrutei auxílio de meu primo, meu irmão Leandro M. Pinto, que deu uma excelente sugestão: pode-se conjugar uma certa quantidade de naves auxiliares e fazê-las ocupar o lugar da nacele faltante. Nas palavras dele no Twitter,

Outra opção é tecnoblabar os shuttles na posição da nacele perdida e utilizar as deles para complementar o campo de dobra da nave

Legal é que a solução encontrada dá para ser escrita de maneira bem dramática – pilotos coordenando esforços com a nave, etc.

O lance é o seguinte: nada disso existe, certo? Nada disso existe. Mas já existe um bocado de trabalho teórico em cima, verdadeiros tratados sendo escritos. Especial atenção merecem os saites de Joshua S. Bell, Jason Hinson e Bernd Schneider. Então, no dia em que os trabalhos do maluco do Alcubierre gerarem resultado e cruzarmos a barreira de Dobra Um, a maior parte da teoria já estará desenvolvida! Graças a nós, trekkers, boa parte do trabalho estará pronta!

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