Os rótulos supersimplificadores

Hoje cedo, tou eu lá no elevador, aquele papo de vizinho só esperando a hora de chegar no térreo para não ter que ouvir mais besteira, e a vizinha me conta que, de acordo com o médico de seu genro, torcer o pé é pior do que quebrar. “É mesmo?”, pergunto, “por quê?” Ela me responde que não sabe, porque não perguntou. Aí eu digo, “por que não? Eu pergunto sempre, sabe por quê? Porque, em geral, depois vou acabar tendo que responder pela coisa, então é bom conhecer bem a ideia, antes de comprá-la”.

Aí ela me pergunta se eu sou advogado.

Ora, pombas, eu não sou minha profissão! Por incrível que pareça e a despeito do que falam de mim, eu sou (infelizmente) um ser humano, com toda uma formação, experiências, gostos diversos, já li sobre todo tipo de assunto, já viajei a alguns lugares, já vi vários filmes, li vários livros, e só trabalho durante dez das 24 horas do dia. O resto do tempo eu passo fazendo outras coisas. Sei fazer ovo frito, sei instalar um drive de CD com conector SATA, sei comandar rolamento num Cessna 172, e fico um tanto ofendido com essa abordagem minimalista e, principalmente, rotuladora: “você pensa assim, logo você é advogado”. “Você sabe que máquina de calcular também erra, logo você é engenheiro”. Essa última veio do professor de Contabilidade, que, aliás, não é contador e, portanto, devia saber como dói o rótulo.

Pois saiba a Dona Vizinha que eu comecei a pensar assim mais ou menos no tempo do pré-vestibular e que o que sedimentou esse pensamento foi o serviço militar, onde regularmente te chamam à responsabilidade, de modo que você logo aprende que devia ter feito várias perguntas antes de abraçar a missão porque, depois, quem vai ter que respondê-las é você. Não é à toa que, ao fim de uma instrução, o instrutor sempre pergunta, bem alto e demarcado, “Dúvi-DÁS?” e não há vergonha nenhuma em responder “Sim, SeNHOR!” Não é burrice, é prevenção e, acredite, isso não é mal visto. Porque, depois, já não é dúvida, é dívida. E pode ter certeza de que alguns superiores têm um desejo secreto de que nenhum subordinado queira ser aquela única voz a dizer “sim, senhor”, porque aí vão poder cair em cima depois, sabendo, de antemão, que a missão é muito mais difícil do que parece. Alguns, não todos.

Aliás, esta tem sido uma política de grande sucesso na minha vida e contribui, em muito, para reduzir minha responsabilidade sob a aparência de aumentá-la: sempre pergunto tudo que não entendi. Prefiro, sim, passar por burrão uma vez, ser aquele único cara que não entendeu. Porque a verdade é que tem muito mais gente que também não entendeu e que está morrendo de vergonha de perguntar; aliás, não sabe nem que pergunta fazer, porque entendeu ainda menos do que eu. Como diz meu pai: o sinal de inteligência não está tanto em responder certo quanto em perguntar certo. Só tem dúvida quem entendeu alguma coisa; quem não entendeu nada não tem nada a perguntar. Então, não vou ficar inerte feito os demais idiotas; como dizia Titio Roquete, “cobra que não se mexe não engole sapo”. Se eu pergunto, pelo menos eu saio dali sabendo alguma coisa; dos outros não sei.

Então, vou eventualmente passar por burrão uma vez (ou nem isso), mas vai ser a última vez, porque, daquele ponto em diante, serei aquele cara que sabe e nunca mais perguntarei aquilo. Essencialmente, mudarei de lado. Desse jeito é que pergunto tudo: pergunto ao médico, porque preciso saber o que fiz que me causou o problema; pergunto à chefe, porque depois vou ter que trazer resultados, então preciso entender bem o que ela espera de mim; pergunto ao professor, porque vou fazer prova e preciso saber como ele pensa; pergunto ao vendedor, porque quem vai ficar com um produto que afinal não me atende sou eu.

É claro que, às vezes, minha pergunta, feita com toda a boa fé (juro!), pode acabar, sem querer, desmascarando a ignorância de quem estava lá bostejando na esperança de ninguém perceber. Aí eu pergunto e o cara se irrita. Felizmente, com o correr dos anos fui aprendendo a detectar, bem cedo, quando é que o falsário não sabe do que está falando, e aí nem perguntar nada, ou só perguntar uma vez para já entender o que está acontecendo.

E isso mostra que sou advogado? Se mostra, então quem não entendeu nada fui eu. Há quem me diga que advogado é assim mesmo, questionador, sempre se insurgindo contra as regras, sempre combativo. Ora, mas eu só pergunto! Raramente começo ou sequer termino dizendo que “está errado”, raramente digo que não vou cumprir a regra. Ao contrário: no meu tempo de vida já encontrei vários advogados idiotas, muitos dos quais se limitam ao positivismo míope de que “está escrito, então tem que cumprir”, como se a regra fosse uma espécie de inevitabilidade sagrada, escrita na pedra, a ser fiscalizada por um ser onisciente que vai derramar enxofre e cinzas sobre quem for pego mijando fora do penico. Aliás, mais comuns são aqueles que pensam que as leis se cumprem sòzinhas, como se não fosse necessária uma vontade e uma atuação humanas para as regras se materializarem. O cara acha que, só porque alguém, sei lá, cometeu alguma improbidade funcional, automàticamente vai estar demitido do serviço público no dia seguinte, por milagre, ignorando o fato de que ainda é necessário (1) ser pego, (2) haver provas, (3) seguir-se um processo administrativo etc. etc. Ou, então, assim: “põe aí uma cláusula de que eles prometem que, se houver desconto, vão ter que devolver o dinheiro”. “Tá. Mas, e se não devolverem? As pessoas fazem o que querem mesmo, você sabe. E aí como faremos para cobrarmos? Aliás, como faremos para sequer descobrirmos que descumpriram?”.” “Ah, não, mas aí vão estar descumprindo, e aí não pode! Então, põe aí a cláusula, que vai dar tudo certo”, como se a outra parte morresse de medo de descumprir o contrato por, com isso, incorrer na ira do Olimpo. Como se, a partir daí, o cara, que não ia pagar, passasse a ter a iniciativa de pagar, só porque eu disse que é feio se omitir, mesmo sabendo que eu não tenho como fiscalizá-lo.

Fico revoltado com isso. Eu construo minha personalidade a duras penas, sendo elogiado e censurado, pagando em dinheiro ou em credibilidade, tomando decisões difíceis, observando os resultados, tentando fazer melhor na vez seguinte, incorporando a experiência – e Dona Vizinha simplifica tudo sob o abrangente rótulo de que é porque sou advogado. Eu não sou o que eu faço! Eu sou eu, eu sou muito mais do que minha carteira da Ordem!

Quinem a velha a quem ofereci lugar no ônibus. Na época, eu estava no Exército, mas, naquele dia, estava sem farda. “Você é militar, né?” “Sim, senhora, como percebeu?” “É que foi tão educado…” Ah, p#$%a, TNC a velha! Meus pais não me deram educação, não? Teve que ser o Exército? If anything, o Exército me ensinou que as praças deveriam ser tratadas como uma espécie de sub-estrato que não merece respeito, contrariando tudo que aprendi em casa sobre profissionalismo e urbanidade. Mais de um soldado me disse ter ficado espantado que eu os tratasse feito gente. Voticontar, não é fácil nem intuitivo ter que tratar por “você” um sargento com o dobro da minha idade.

Mas, enfim, tudo isso são apenas rabugices, não é verdade? Eu devo ser é um covarde, que vim resmungar aqui em vez de espinafrar Dona Vizinha.

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