Vivendo de imagens

Aí você recebe uma daquelas propagandas de lançamento imobiliário. Como o prédio ainda não existe, eles publicam fotos virtuais, quer dizer, uma espécie de previsão de como vai ser.

Só que, é claro, as “fotos” são computação gráfica. Então, atrás do prédio, onde tem um morro, aparece a mata, ou o céu. Na rua, aparecem árvores onde não tem árvore nenhuma. No condomínio, há sempre palmeiras, nenhuma peça de roupa pendurada, nenhum brinquedo de criança esquecido na varanda…

O prospecto também mostra os ambientes interiores. Aparece a piscina: com iluminação noturna indireta, águas translúcidas de um azul safíreo (essa palavra existe?), cadeiras perfeitamente alinhadas e ninguém por perto. Na vida real, não vai ser nada disso, né. A água vai ser turva, talvez mal dê para ver o fundo, e vai ter um bocado de sujeira em volta, trazida pelo vento e pelos usuários. Vamos ver um bocado de limo e encardido entre os azulejos, a madeira vai ficar toda manchada. Então, você imagina aquela área de recreação toda arrumadinha, com todas aquelas luzes; a “cave” (que nome mais fresco para “sala de jantar”) com uma grande TV de LCD, garrafas de vinho — completamente irreal. Sempre haverá desgaste, sujeira, muita poeira depositada, desarrumação… Você imagina o cenário tal como no prospecto, com as luzes permanentemente acesas e uma certa tranquilidade no ar… Tudo falso, né. Porque, vem cá, a construtora vai pôr a TV de LCD lá? Não vai, né. Nem o vinho. Alguém vai ter que comprar. E, quando a LCD der defeito, quem é que vai consertar? Vai ficar lá, quebrado. Até porque, sabemos, aquilo que é de todos acaba sendo tratado como se não fosse de ninguém; sempre vai quebrar relativamente cedo, porque esses condôminos (ou, mais ainda, seus convidados) às vezes se comportam feito animais. Feito quem realmente são.

Aí o vídeo mostra uma “brinquedoteca”, uma lanhouse comunitária, salões de festas, “espaço teen“… Tudo muito bonito. Aí você compra, achando que vai morar num resort que já vem com tudo, praticamente uma gigantesca área de lazer, um transatlântico estacionário… Vem cá, quem é que vai ter que pagar para isso tudo ficar funcionando? Hm? E quer apostar quanto como o “espaço teen” logo vai estar com tudo quebrado, que só vai ter uma raquete (a outra vai sumir misteriosamente)… E é você quem vai ter que comprar a mesa de pingue-pongue, véi.

Aliás, uma coisa me chamou atenção. As construtoras podem dizer que estão promovendo a convivência, as pessoas se encontrando fora de suas casas, no espaço comunitário, espaço de festa de adulto, espaço de jogar poker buraco, espaço zen… É, porque dentro de casa não tem espaço, né. Nem vi o vídeo todo: ele mostra a planta dos apartamentos? Você vive fora de casa, faz festa fora de casa, criança brinca fora de casa, tudo isso porque não tem espaço DENTRO de casa. Então, você vive do lado de fora do seu apartamento, você vai usar o computador da lanhouse (valendo quanto como vai estar cheio de vírus, sem espaço em disco, cheio de pornografia, isso se tiver computador, se não for só um monte de gabinetes quebrados, de monitores quebrados, ou, então, nem isso; e ninguém vai configurar nada na instalação, vem cheio de aplicativos inúteis que o filho do vizinho é que instalou, todos aqueles aplicativos de monitoramento que ninguém nem sabe para que é que servem), você vai assistir a televisão na lanhouse (aliás, a TV só vai ficar mostrando Globo ou então Record — sim, porque quem é que vai pagar TV a cabo do condomínio? Aliás, mesmo com TV a cabo, o povo quer ver mesmo é Globo, é Record, é Band. E imagina a disputa pela escolha do que assistir, e imagina o barulho que vai ser dentro dessa lanhouse, do jeito que os jovens são, cheios de hormônios violentos)… Aliás você reparou quantas LCD esse decorador imaginou no condomínio? Quero só ver quem é que vai pagar isso. E, na “brinquedoteca”, não dou uma semana para aparecerem diversos brinquedos de plástico quebrados, boneca sem cabeça, Playmobil sem braço, carrinho sem roda, peças de quebra-cabeça de plástico espalhadas e extraviadas, bola murcha no canto. Parece que ninguém esteve na vida real, ninguém nunca viu uma sala que criança usa de verdade.

Em outra nota não relacionada, a Piraquê acaba de lançar mais um biscoito. Como sempre que a Piraquê lança um biscoito, este veio ao mundo sem alarde, sem propaganda. Com seu público cativo do Estado do Rio (existe Piraquê no resto do Brasil? Ao que eu saiba, não, né), a Piraquê nunca precisou de propaganda. Feito Monteiro Lobato com a campanha para vender seus livros (punha livro à venda na quitanda, na padaria, na farmácia), a Piraquê não põe seus biscoitos só em supermercado: você encontra biscoito Piraquê em qualquer boteco buteco, lanchonete, loja de conveniência.

Pois agora a Piraquê acabou de lançar um cream cracker amanteigado. Sabe o cream cracker da Piraquê? Aquele da embalagem vermelha-e-branca? Então. Tem os outros, né: o integral (embalagem branca), o de gergelim (embalagem verde), pois agora tem um amanteigado.

Eu detesto biscoito amanteigado. Só como casadinho por causa da goiabada; a manteiga é o preço que eu pago para comer aquela goiabada. Detesto gosto de manteiga. Não ponho manteiga na pipoca, òbviamente não ponho manteiga no pão, tenho nojo de manteiga em biscoito, no macarrão, onde quer que seja. Estranhamente, eu admito manteiga na torrada, vê se pode. Pois agora a Piraquê me lança um biscoito ostensivamente amanteigado.

Pode não ser. A embalagem bem que mostra uma colher pegando manteiga, mas pode ser só encenação. Pode ter só o gosto artificial da manteiga, e o biscoito ser até light. Mas, se for amanteigado mesmo, tenho tremores só de pensar: aquela gordura que vai ficar na mão, aquele cheiro de manteiga.

Mas eu gosto da Piraquê. Pode parecer que estou fazendo propaganda para a Piraquê, mas não estou não: para quem não é do Rio, não adianta nada ler isto aqui; para quem é, não faz diferença, porque já come biscoito Piraquê. No dia em que a fábrica da Piraquê pegar fogo, igual à da Mabel, não pense a Bauducco ou a Tostines que vai conseguir penetrar no mercado, não. Não pense a Triunfo ou a Nestlé São Luiz que vai conseguir tomar a fatia de mercado. No Rio de Janeiro, biscoito maizena, cream cracker ou goiabinha é sempre da Piraquê. Vai ser um chororô que vocês vão ver só, vai haver uma fileira de viúvas da Piraquê para chorar o morto. Queira o Grande Monstro de Espaguete Voador que isso nunca aconteça.

Vocês sabem onde é a fábrica da Piraquê? Pois fica em Turiaçu, perto de Madureira, no Rio de Janeiro. Vai lá no Google Earth e procura: 22°51’51”S 43°20’30”W.

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Apidêite: estive em Natal, RN, em outubro de 2011. Para meu espanto, encontrei vários biscoitos Piraquê nas prateleiras do supermercado! Antigamente (e nem faz tanto tempo assim), Piraquê era só no Estado do Rio, mas agora, pelo visto, tem no Brasil inteiro. Que alegria! Dia de júbilo e regozijo!

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