Servidores públicos, escândalos e falácias

Fica-se dizendo que funcionário público servidor público ganha bem, que servidor público tem aposentadorias e pensões nababescas, que tem privilégios, que ganha verba pra tudo, que desvia dinheiro público, que faz negociatas…

Toda vez que aparece um nome de servidor público envolvido em escândalo, o que é que se verifica? Que é assessor. Que detém cargo em comissão. Que não é concursado nem efetivo. Que é dirigente, diretor de algum órgão. A gente quase nunca vê servidores efetivos envolvidos em maracutaias. Às vezes tem, tanto quanto tem criminoso comum. Mas, quase sempre, os líderes dos esquemas, os servidores que estão levando um por fora, quase sempre é gente que foi nomeada para cargo em comissão, gente que não tem nenhum vínculo com o serviço, nem preparo, gente que é apadrinhada política daquele nosso clássico clientelismo. Essa gente (bem entendido: os criminosos. Não estou falando dos outros, tome nota) sabe que vai ficar no cargo só pelo tempo que ficarem aqueles que os nomeiam. Sabe que essa é sua oportunidade para enriquecimento rápido e fácil. Em regra, é gente que não trabalha, não chega realmente a exercer o cargo no sentido de trabalhar como se espera do ocupante do cargo, às vezes nem dá as caras no local de trabalho. É gente que faz pouco dos servidores efetivos com quem convive e a quem humilha quando pode, gente que tem uma percepção de cargo público bem diferente da de quem fez concurso.

Enquanto isso, os servidores efetivos, que são maioria, continuam ganhando pouco (especialmente no Poder Executivo e suas autarquias), sofrendo com péssimas condições de trabalho, sem ar condicionado nem a aguinha gelada ou o cafèzinho que vemos para os assessores e secretários.

Então, peço ao Leitor que preste atenção: toda vez que sai uma notícia de servidor público ganhando comissão para liberar obra irregular, preste atenção se não é um assessor, diretor, secretário de alguma coisa. Não são esses os representantes da classe, tá? Não são esses os trabalhadores, nem são maioria, que a maioria são servidores efetivos, concursados. Vampará de ficar demonizando os servidores públicos como se fossem os responsáveis pelos problemas do Estado brasileiro.

Aliás, é curioso. Todomundo falando mal de servidor público, todomundo criticando que é uma boca, mas todomundo querendo ser um, estudando pra concurso… Parece contraditório, né? É que, muitas vezes, a indignação não é pelo desvalor ético, não é uma crítica à conduta em tese. É, isto sim, uma queixa: “também queromeu, por que só eles têm e eu não?”, puro fruto de egoísmo mesquinho.

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Em outra notícia, vejo que, esses dias, em Belo Horizonte, uma carreta trazia XYZ mil toneladas de trigo a duzentos mil quilômetros por hora no meio do trânsito movimentado — o que, em si mesmo, já é uma insanidade de punir com marretadas na canela — quando, depois de uma curva, não viu o trânsito parado e saiu atropelando quinze veículos, o que resultou em cinco mortos e vários feridos, com direito a caminhão sendo jogado na vala entre pistas. A alegação do mentecapto motorista foi ter perdido o controle do veículo.

Putaquepariu. É nisso que dá entregar uma carreta na mão de um energúmeno analfabeto. A alegação é sempre essa, você já percebeu? A mais comum é ter “perdido o freio”. O paramécio oligofrênico não percebe que não dá pra parar uma carreta carregada até em cima com tijolos, vindo a duzentos por hora, na mesma distância em que se pára um caminhão vazio que venha a quarenta. Não estou pretendendo que esse animal tenha estudado Física básica, não é isso. Mas, se tivesse um mínimo do treinamento necessário pra subir no veículo, esse aborto viciado em anfetaminas perceberia que o freio, ao contrário do que supõe, não é mágico! Ao contrário do que se possa pensar, não é só pisar no pedal que o caminhão, pronto, instantaneamente pára.

Agora, uma sugestão. Se você olhar pelo espelho retrovisor e vir um mastodonte desses vindo na sua direção, sem ter para onde escapar, solte o freio de mão. Você reduzirá a transferência de energia cinética e ganhará uma minúscula chance a mais de sobrevivência.

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