Cronologia do Lanterna Verde até maio de 1994

A história do Lanterna Verde dos Lanternas Verdes é extensa e complexa. Recentemente, um colega fez-me diversas perguntas, que resolvi responder pesquisando e enviando-lhe um email. Mas por que ele tem que ser o único beneficiário? O trabalho já está pronto, então posso dividir com você, com quem googlar e comigo mesmo — já que é referência à qual eu mesmo posso querer voltar.

A cronologia abaixo é intencionalmente supersimplificada. Há farto material na Web, em saites como glcorps.dcuguide.com e todos os de quadrinhos indicados aí ao lado. A Wikipedia é suficientemente boa, e o Google vai te trazer ainda um montão de informação sobre inúmeros personagens, planetas, histórias, poderes, características… Não pretendo suplantar nada disso. Esta cronologia é só para ajudar o nobre Leitor a contextualizar as histórias que ler e que sejam ambientadas no período coberto.

De 2006 até agora, aconteceu MUITA coisa em torno do Lanterna Verde. O título ganhou enorme destaque nos EUA sob a batuta de grandes artistas (inclusive Ivan Reis, premiado por isso) e atualmente, no Brasil, com retardo de um ano, está passando de um abrangente arco (Blackest Night, A noite mais densa) para outro (Brightest Day, O dia mais claro). Não estou cobrindo nada disso, porque não li nada disso. Nem o período 1994-2005, onde também aconteceu muita coisa na vida de Hal Jordan. Neste momento estou em junho de 1994 e é só até aí que vou. Intencionalmente, estou omitindo referências a Alan Scott, zamorianas, e vilões além de Sinestro. Para manter simples.

CRONOLOGIA DO LANTERNA VERDE DA TERRA-1 (DEPOIS TERRA ÚNICA) ATÉ JUNHO DE 1994

Showcase #22 (Oct 1959) – Primeira aparição do Lanterna Verde Hal Jordan.

Green Lantern #1 (Aug 1960) – Primeira aparição dos Guardiões.

GL #6 (Jun 1961) – Primeira aparição de outro LV (Tomar-Re, do planeta Xudar).

GL #7 (Aug 1961) – Primeira aparição e origem de Sinestro: LV que usava o anel para dominar, humilhar e explorar os habitantes de seu planeta, Korugar. Julgado, perdeu o anel, foi banido para Qward e tornou-se renegado.

GL #9 (Dec 1961) – Primeira aparição do anel amarelo de Sinestro, que extrai energia dos anéis verdes.

GL #40 (Oct 1965) – A história de Krona, que investigou a origem de tudo, espalhou o Mal no universo e foi banido. Os oanos, tentando compensar o dano causado ao universo, tornaram-se os Guardiões e criaram a Tropa dos Lanternas Verdes.

GL #59 (Mar 1968) – Primeira aparição de Guy Gardner, destinado a ser substituto eventual de Hal Jordan.

GL #76 (Apr 1970) – Primeira história de Dennis O’Neil: Hal Jordan questiona a ordem sem justiça dos Guardiões.

Nas histórias de Dennis O’Neil, a parceria de LV e Arqueiro Verde inicia a Era de Bronze dos quadrinhos, questionando a ética dos super-heróis.

GL #81 (Dec 1970) – Dennis O’Neil conta como os Guardiões saíram de Maltus para Oa.

GL #87 (Jan 1972) – Guy Gardner incapacitado por acidente com ônibus. Primeira aparição de John Stewart como LV substituto eventual.

1972-1976 – Com baixas vendas, a revista GL é suspensa em 1972 mas retomada em 1976, seguindo normalmente a numeração.

GL #123 (Dec 1979) – Culminando uma linha de histórias, Guy Gardner entra em coma.

GL #151 (Apr 1982) – Hal Jordan exilado no espaço por dar atenção demais à Terra. Continua LV, cumprindo missões por um ano. John Stewart fica como LV da Terra?

GL #181 (Oct 1984) – “Take This Job — and Shove It”: Hal Jordan pede as contas. Guardiões nomeiam John Stewart o LV permanente da Terra.

John Stewart casa-se com Katma Tui (sucessora de Sinestro em Korugar e sua treinadora). Durante a Crise nas Infinitas Terras, John Stewart é o LV da Terra.

Crisis on Infinite Earths revela que, quando investigou a origem de Tudo, Krona criou o multiverso. Que os oanos ficaram divididos sobre a forma de mitigar o mal. Os mais passivos tornaram-se os Guardiões; os mais intervencionistas foram embora de Oa e tornaram-se os Controladores.

Crisis on Infinite Earths #9 (Sep 1985) + GL #195 (Dec 1985) – Guy Gardner curado e convocado pela facção brigona dos Guardiões.

GL #198 (Mar 1986) – Tomar-Re morre em combate; Hal Jordan fica com seu anel e volta a ser LV.

Millennium (Jan-Fev 1988) – Guardiões vão embora do Universo, e a Tropa fica abandonada à própria sorte. Só fica para trás um Guardião, Appa Ali Apsa, que havia perdido a imortalidade como punição por seu comportamento nas histórias de Dennis O’Neil. Em Maltus, A.A. Apsa começa a treinar Guy Gardner, que se rebela. Apsa tenta retomar o anel de Gardner, mas Jordan livra a cara dele.

Secret Origins #22 (1988) – Revelado que, antes do GLC, os Guardiões haviam criado os robôs Manhunters. Quando os MH se rebelaram, os Guardiões fundaram o GLC.

O título GL torna-se Green Lantern Corps. Arisia, Ch’p, Kilowog, Katma Tui e Salakk vêm morar na Terra.

GLC #222-223 (Mar-Apr 1988) – A Tropa decide matar Sinestro. Em reação à morte de Sinestro, a Bateria Central é destruída. A maioria dos anéis perde o poder. (Na verdade, Sinestro não morreu; sua essência foi parar dentro da Bateria.)

GLC #224 (May 1988) – Último número da série. Lanternas Verdes passam a aparecer em Action Comics Weekly.

Action Comics Weekly #601 (Jul 1988) – Safira Estrela mata Katma Tui.

ACW #635 (Jan 1989) – Última aparição do GLC em ACW.

GL: Emerald Dawn #1-6 (Dec 1989 – May 1990). Reconta a origem do LV. Reboot do personagem.

GL: Emerald Dawn II #1-6 (Apr-Sep 1991) é continuação imediata de Emerald Dawn conforme a cronologia dos personagens, contando do treinamento do novato Hal Jordan pelo experiente Sinestro. Também reconta o banimento de Sinestro, que, nesta versão, é um tirano em Korugar, mas por ser obcecado com ordem e achar que está fazendo a coisa certa.

GL #1 (Jun 1990) – Imediatamente após o reboot de GL:ED, a DC inicia novo título do LV. A história continua do ponto onde havia parado ACW.

Os oito primeiros números de GL compõem a história GL: the Road Back, onde Hal Jordan, não mais LV, está em busca de uma finalidade na vida. Enquanto isso, A.A. Apsa enlouquece e começa a sequestrar para Oa as cidades que visitou em vários planetas. Jordan, Gardner, Stewart e outros vão combatê-lo. Entre os voluntários que auxiliam os LV está Tomar-Tu de Xudar. Quando os LV estão a ponto de ser derrotados por A.A. Apsa, os Guardiões retornam (GL #8, Jan 1991).

Em GL #8, a Bateria Central é restaurada e os Guardiões distribuem tarefas:
– Guy Gardner passa a ser o LV da Terra;
– Hal Jordan vai recrutar novos membros para recompor a Tropa;
– John Stewart fica incumbido de cuidar das cidades trazidas a Oa.

Após GL #15, inicia-se a série GL: Mosaic, onde Stewart é o protagonista e que dura 18 edições. Ao fim da série, Stewart torna-se o primeiro Guardião mortal.

GL #25 (Jun 1992) – Hal Jordan retorna à Terra para reassumir a antiga função. Guy Gardner desafia-o e perde o anel na porrada.

Guy Gardner Reborn #1-3 (1992) – Gardner recruta o auxílio de Lobo e recupera o anel amarelo de Sinestro em Oa.

Guy Gardner #1 (Oct 1992) – Início da série, que foi até o #44 (Jul 1996).

Superman #80 (Aug 1993) – Coast City destruída.

GL #48-50 compõem o arco Emerald Twilight.

GL #48 (Jan 1994) – Hal tenta recriar Coast City para trabalhar seu luto, mas é convocado a Oa para ser julgado por abuso do anel.

GL #49 (Feb 1994) – Jordan matando LV diversos, tomando seus anéis.

GL #50 (Mar 1994) – Hal mata Kilowog e Sinestro, destrói Bateria Central, mata os Guardiões. O último Guardião deixa anel para Kyle Rayner.

GL #51 (May 1994) – Primeira história onde Rayner é o novo LV.

Darkstars #21 (Jun 1994) – Com o fim do GLC, Stewart torna-se um Darkstar. Os Darkstars foram criados pelos Controladores.

A SEGUIR: ZERO HORA!

Minha resenha sobre os primeiros números de GL desde 1959 estava publicada no falecido Geocities e não fiz nenhum esforço para preservá-la. Algumas almas caridosas, porém, fizeram. Várias páginas estão recuperadas nos domínios http://www.reocities.com e http://www.geocities.ws, inclusive esta, que é minha: http://www.geocities.ws/jpcursino/ScPGLv1.htm

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Plantões histéricos, quase nunca históricos

Às vezes você está lá, tranquilo, sem p*rra nenhuma pra fazer assistindo à Sessão da Tarde, quando o filme é interrompido por aquela música escandalosa do Plantão da Globo. “Pã pãpã pãpã pãpãpãpããã… Pã pãpã pãpã pãpãpãpã pãpããããã… tem tem temtemtem…” Por todos esses anos, sempre que eu era interrompido por essa música, só pensava em uma coisa: “f*deu, Angra explodiu”. Sério. Juro.

Aí, depois, não era nada disso, era para dizer que o Mubarak tinha renunciado, ou que o Zé Alencar tinha finalmente parado de fazer c* doce e abraçado a noite gentil… Minha reação sempre foi a mesma: p*rra, vocês me estressam, me apavoram, me acordam daquela morgada básica de depois do almoço interrompem meu filme, e tudo isso pra quê? Pra me contar de uma notícia que acabou de acontecer do outro lado do mundo e que podia muito bem esperar até o jornal da noite!

Não, sério: meu raciocínio é sempre o seguinte. Para alguma coisa interromper o meu filme, para ser tão urgente a ponto de não dar para esperar até o Jornal Nacional, só pode ser que a urgência exige que eu corra para salvar minha vida. Tipo, tem que ser uma m*rda estratosférica mesmo, de nível nuclear, algo cuja única resposta adequada seja “salve-se quem puder”, “corram para as colinas”… Tem que ser alguma coisa tão séria, mas tão séria, que a Globo entenda, olha só, vou ter que interromper o seu filme, mas é que isto NÃO PODE ESPERAR, é sério demais, é para salvar a sua vida, serviço de utilidade pública, sabe?

Mas não, é para dizer que determinado ditador caiu lá naquele lugar do outro lado do meridiano de Greenwich. Como se eu fosse sair correndo em seguida, “ó meu Deus! Preciso ir já para o aeroporto, pegar o primeiro voo para o Egito, achar que sou o Chuck Norris e restaurar o pobre ditador no poder single-handedly”… Ou então, “caramba! O papa acabou de morrer! Preciso ligar para meu corretor AGORA para vender minhas ações da Santa Sé antes que despenquem mais!” Não, né. Então, você que está estudando produção de TV e que sonha um dia interromper o Vale a Pena Ver de Novo dos outros com o Plantão da Globo: não é pra fazer isso. Combinado? Pode ser?

E mais: quando for acidente mesmo em Angra (pédepatomangalôtresvezes, bate na madeira), DUVIDO que a reação seja assim instantânea. Dá uma olhada nisto aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki#Japanese_realization_of_the_bombing. P*rra, cai uma BOMBA NUCLEAR na cabeça dos infelizes, a nuvem é visível a centenas de quilômetros, e ninguém se toca durante vários minutos! (Claro que, para mim, é fácil falar. Eu já ficaria APAVORADO só de perceber que a linha telefônica ficou muda, que o quartel-sempre-em-contato não responde e que, estranhamente, não tem nenhum avião americano na área.  Quebra-cabeça não difícil de montar, esse.)

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“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”

Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.

Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).

Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.

Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.

Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)

Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.

Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.

O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.

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