“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”

Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.

Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).

Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.

Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.

Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)

Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.

Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.

O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.

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