Bariloche em maio de 2011 — antes das cinzas do vulcão!

O propósito deste texto é apresentar dicas para quem cogita viajar a Bariloche depois que o vulcão liberar o espaço aéreo. Não vou simplesmente contar o que fiz nem onde estive, mas descrever o que se encontra e a que preço. É minha forma de retribuir e complementar os textos muito úteis onde pesquisei antes de viajar, com especial destaque para os do Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, e para este tópico aqui, do Mochileiros.com.

Este ano estava cheio de compromissos na época das férias, de modo que, se eu reservasse (ou, pior, pagasse) qualquer viagem com antecedência, seria grande o risco de ter que desmarcar. Por isso não programei nada. No fim de abril, já não havia vagas nos resorts do Nordeste, e passagens para a Europa estariam muito caras em razão das apenas três semanas de antecedência. Então me ocorreu: todos dizem que a Argentina está barata para brasileiros, e Bariloche já devia estar mais fria na segunda metade do outono.

O suposto baixo custo também nos atraiu. De fato, nos dias em que lá estivemos, vendemos reais por 2,40 pesos, com as favoráveis consequências que aponto adiante.

Não gosto de montar viagem com trechos diferentes voados por empresas diferentes. Por isso procurei passagem para Bariloche pela Gol e pela TAM, mas só Aerolineas e LAN Chile tinham voos inteiramente próprios saindo do Rio, a primeira delas com conexão em Buenos Aires, até Bariloche. (A vantagem de fazer os dois trechos numa companhia só é que, em caso de atraso na conexão, a companhia responsável pelo segundo voo não pode alegar que seu atraso no primeiro não é culpa dela. Não pode a do primeiro voo alegar dificuldade de te alocar no segundo, nem a do segundo se isentar de responsabilidade. Uma teoria que me parece muito prática, mas confesso que nunca tive que testá-la. Quem tiver algum exemplo ou contra-exemplo, agradeço que comente a seguir.)

Buenos Aires tem dois aeroportos: Ezeiza — grande, usado por 747 e A340, como se vê no Google Earth — e o Aeroparque Jorge Newbery, que é bem parecido com Santos-Dumont, Congonhas e Pampulha. O Aeroparque é usado para voos regionais por bimotores a jato e turboélice, predominando a Aerolineas e sua subsidiária Austral. Ali se veem muitos A320 da TAM e da LAN (estes últimos, curiosamente, com registro LV, da Argentina, e não com registro chileno. Alguém me explica?, conforme gentilmente explicado nos comentários). Também se veem muitos MD-88 DC-9 e Embraer 190 da Austral e 737 da Aerolineas. É um aeroporto arrumado, aparentando ter recentemente passado por reforma.

V11-2363 (nome provisório) - Argentina, Buenos Aires, Aeroparque Jorge Newbery, 28 de maio de 2011 - pista - aviões

Aeroparque Jorge Newbery, Buenos Aires, 28/05/2011, 16:47 h, visto do assento 8F de um 737-700. O avião mais próximo é um Embraer 190; o do fundo, um DC-9. Desculpe o sol na cara, mas é a foto mais abrangente que tenho.

Chegando ao Aeroparque, o primeiro desaforo que ouvi em solo argentino veio de um brasileiro que, despreparado, não tinha uma reles caneta para preencher o formulário da imigração e cismou que tinha direito à minha. Um idiota.

Um hambúrguer, um peito de frango no pão francês, fritas e dois refris no Aeroparque custam 75 pesos. Um expresso duplo, 15 pesos. Pelo menos os argentinos sabem fazer café direito.

O avião da Austral que nos levou no trecho AEP-BRC era um MD-88 DC-9 mal conservado por dentro, sujo em alguns pontos e indicando a idade na medida em que meu assento tinha cinzeiro.

Nota aeronáutica: não se deixe iludir pelo nome “MD-88”. Os aviões de passageiros da McDonnell Douglas seguiam a nomenclatura DC, da antiga Douglas. No DC-9, as sucessivas versões eram DC-9-10, DC-9-20 etc., até que os últimos modelos foram batizados de DC-9-81 em diante. Comercialmente, a fabricante divulgava essas versões tardias não como DC-9-81, DC-9-82 etc., mas como MD-81, MD-82 etc. São aviões fabricados do fim dos anos 80 aos meados dos anos 90, mas, apesar da aparente mudança de nome perante o público, continuam sendo DC-9 perante as autoridades certificadoras. Para mais detalhes, http://en.wikipedia.org/wiki/McDonnell_Douglas_MD-88#Model_designation

O aeroporto de Bariloche tem apenas três portões, e, com duas fotos, cobri todo o pavimento do embarque. Pronto, o parágrafo já ficou maior do que ele. Mas, pelo menos, é muito mais arrumadinho e moderno do que aquele muquifo que é o aeroporto de Beauvais, ao norte de Paris, onde estive em 1998 e onde, com a ajuda do Monstro de Espaguete Voador, jamais hei de novamente pôr os pés.

V11-0154 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, aeroporto, 22 de maio de 2011 - desembarque

Esta é a vista de dentro de uma das pontes ao desembarcar de um DC-9 da Austral. Um frio de rachar lá fora, com a vista para oeste mostrando os Andes e a torre antiga do aeroporto. A fotografia foi feita às 15:14 h. Pronto, você já viu metade do pátio de aeronaves. A torre de controle não é a atual.

Ao reservar o hotel Panamericano, eu havia solicitado o traslado desde o aeroporto, e o hotel confirmou. Entretanto, chegando ao aeroporto, descobri que ninguém esperava por nós. Telefonando ao hotel, descobri que ninguém sabia de traslado nenhum, nem tinha como verificar. Azar o deles: pegamos uma van que cobrou 20 pesos por pessoa — resultando em 38% menos gasto do que no transporte do hotel.

O Panamericano aparece em todas as referências como um luxuoso cinco estrelas e, em todas as listagens, está acima de todos os mais de quinhentos hotéis de Bariloche, ressalvados apenas outros dois. Novamente, não se engane: certamente é limpo e confortável, com quartos espaçosos, um café da manhã bem farto e variado e um atendimento prestativo 24/7, mas, de cinco estrelas, só tem a entrada suntuosa. Enfim, a 620 pesos de diária, minha única queixa é uma lâmpada queimada no quarto.

Bariloche está diante do magnífico lago Nahuel Huapi, então naturalmente você quer um quarto com vista. Isso certamente o Panamericano oferece, assim como um sem-número de outros hotéis. Porém a cidade está construída em um declive, com avenidas paralelas ao lago e ruas transversais em ladeira. Os hotéis estão nas avenidas. Das de cima (Elflein, Mitre, Moreno e San Martín), quem chega à janela tem os quarteirões abaixo em primeiro plano antes do lago, como vimos do Panamericano, que fica na San Martín.

V11-0173 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado esquerdo da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h.

V11-0174 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado direito da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h. À direita, a passarela sobre a rua e o cassino são parte do hotel. Ao fundo, acabam os Andes e as nuvens e começa a Patagônia. Perdoe-me o arranjo esquisito da página, mas é que esta M*RDA de WordPress não obedece quando se tenta pôr as fotos uma ao lado da outra nem, às 01:55 da manhã, tenho saco de fazer a colagem eu mesmo. Vai assim.

Para ver só o lago, as montanhas e o céu, é preciso dar alguns passos para trás. Para se ter sòmente a vista desobstruída do lago, o melhor é um hotel na avenida mais próxima dele (a 12 de Octubre, Bustillo ou Rosas, conforme o trecho), como, por exemplo, o Cacique Inacayal ou El Candil. Nessas horas, como sempre e especialmente ao pesquisar para viagens, Google Earth é seu amigo.

Chegamos no domingo, 22/05, e saímos no sábado, 28/05. Eu esperava que a temperatura não tivesse caído a ponto de nevar, e de fato não nevou. Mas a previsão do www.foreca.com, extraída em 20/05, era de mínimas de zero a 1 grau e máximas de 7 a 10 graus. Realmente, fazia muito frio para um carioca. À noite, òbviamente fazia mais frio, tolerável se não ventasse.

Apesar da proximidade da muito seca Patagônia, Bariloche situa-se em uma faixa bem estreita de terra cujo clima é influenciando pelos ventos úmidos que sopram do Pacífico, ultrapassam os Andes e fazem chover deste outro lado. Portanto, é um dos lugares onde mais chove na Argentina, e sempre com vento gelado descendo das montanhas a oeste. Nas duas vezes em que ventou e nas duas vezes em que choveu, o frio entrou até os ossos, os olhos ficaram secos e os pés e dedos começaram a doer.

Até que não usamos muita roupa, mas anote aí a referência: eu, que nunca me considerei friorento, vesti sobre o peito uma camisa quente, um pullover de lã irlandês (quente!) e um casaco impermeável de lã (quente). Por baixo dos jeans, uma calça térmica de tecido sintético. Dois pares de meias grossas, um gorro de lã, e luvas de couro forradas de feltro. Já a pequena Esposa precisou de cinco camadas: camiseta, blusa térmica, pullover e dois casacos, além da calça térmica por baixo dos jeans. Meias quentes, cachecol, gorro, luvas e sapato impermeável são indispensáveis. Tudo isso pode ser comprado na cidade, com preço menor do que no Brasil (graças ao câmbio favorável), variedade e qualidade adequada ao uso (aqui no Rio é raro encontrar roupa de frio digna desse nome). Como se entra e sai de ambientes aquecidos, é bom usar várias camadas de roupa em vez de só uma camisa e um casaco pesado.

Por uma questão de simplicidade, a Argentina escolheu seguir um só fuso horário, que aliás é o mesmo de Brasília. Isso é muito conveniente, mas, em Bariloche, é extremo o deslocamento da longitude local em relação à longitude referencial do fuso. Com isso, no inverno a alvorada é às nove da manhã.

O comércio frequentado por turistas está concentrado na avenida Mitre, com inúmeras lojas de roupas de frio e de chocolates, restaurantes, sorveterias e lanchonetes. Em quase todos os estabelecimentos, o atendimento foi excelente. A grande quantidade de brasileiros há de ser a causa de tantos profissionais se desdobrarem para usar palavras do português mescladas ao espanhol. Em toda parte, brasileiros só falavam português e eram prontamente atendidos. Ademais, mui peculiarmente, os argentinos pronunciam todos os LL e Y como nosso J. Difícil entender, mais difícil ainda se acostumar.

A presença brasileira também se nota pela seleção musical nas rádios, que tocam Ritchie, Djavan, Tribalistas, Adriana Calcanhoto e música baiana. Também se ouve muito pop e rock dos anos 80: Alphaville, Blondie, Chris Isaac, New Order, The Police, muito Guns N’ Roses e a predominância de Bon Jovi.

Outra peculiaridade linguística: há uma fruta de polpa rosada e suco cor-de-rosa que, em inglês, chama-se “grapefruit” e, em português, “toranja”. Seu nome científico é Citrus paradisi. Em espanhol, essa fruta chama-se “pomelo”, mas não deve ser confundida com a fruta que chamamos de “pomelo” em português, que é a Citrus grandis. Fácil lembrar, já que, no Brasil, ninguém parece saber que grapefruit tem nome em português. De todo modo, é do grapefruit/toranja/pomelo que os argentinos fazem um dos sabores do refrigerante Paso de los Toros. Azedo e pouco doce, recomendo.

As únicas exceções ao excelente e cordial atendimento que recebi em Bariloche foram as lojas de chocolates Rapa Nui e del Turista, onde o tratamento era mais industrial, impessoal e rápido em despachar. Também, com o comércio vazio (já que a temporada ainda não havia começado), os seguranças armados de ambas as lojas ficaram ostensivamente nos seguindo enquanto examinávamos os produtos. E as moças do caixa da Rapa Nui foram as únicas pessoas argentinas a me tratarem com grosseria.

Essas duas lojas são as maiores e vendem não apenas uma enorme variedade de chocolates em barra e bombons, senão também sorvetes de vários sabores leitosos (chocolate ao leite, meio amargo, com nozes, biscoito, amendoim, doce de leite, framboesa etc.) e produtos regionais, como alfajores, licores, geleias de frutas típicas da Patagônia, carnes de caça defumadas e seus patês, cogumelos locais, cervejas fortes locais e até cosméticos.

A sorveteria Jauja (esquina de Mitre com Quaglia) revelou o melhor atendimento e o sorvete mais variado e mais barato: diferentemente das outras sorveterias, apresenta sabores como banana com doce de leite, boysenberry, laranja com gengibre, calafate com leite de ovelha, sauco com maracujá, arándano (variedade de arando, mirtilo, cranberry), mascarpone com framboesa e mate queimado.

O chocolate da Jauja era mais barato do que os de cinco lojas (Jauja, del Turista, Rapa Nui, Fenoglio e Abuela Goye), saindo por 120 pesos/kg em quantidades pequenas ou 96 pesos/kg na compra acima de 250 g. Em contraste, a Rapa Nui cobra 142 pesos/kg, ou 115 pesos/kg na promoção com o cupom que nos deu a Turisur (agência de turismo sobre a qual comento mais adiante) e pagando em dinheiro. Na del Turista, chocolate a 113 pesos/kg.

Todos os saites onde pesquisei mencionavam os baratos táxis de Bariloche e também os remises (“aluguel de carro com motorista”), mas não explicavam a diferença. Pois é a seguinte: o remise é um táxi, mas, em vez do taxímetro, usa preço pré-fixado para o percurso. Esse preço não é padronizado, de modo que é bom perguntar antes. Táxis e remises são fàcilmente identificados como tais. Outra diferença é que o táxi você pega na rua, mas para o remise você telefona, ou passa na loja para acertar, para que ele pegue você em tal lugar e hora. Além disso, diz a moça do hotel que, de modo geral, os remises têm melhor apresentação e profissionalismo, mais ou menos como um táxi chamado por telefone em comparação com os que você chama na rua no Rio de Janeiro (òbviamente, se você, Leitor, dirigir um dos que a gente chama na rua, ou tiver parente que faça isso, seu táxi é uma exceção). Os remises são indicados para percursos longos, para fora do centro da cidade.

Na avenida San Martín, existem pelo menos duas agências de remises que são 24 horas, assim como a da Autojet, que fica numa esquina bem perto da prefeitura e que é mais barata para ir do centro ao aeroporto (55 pesos) do que se o hotel a chamar para você (65 pesos).

Já que falo do comércio, observo que entramos em quatro livrarias no centro de Bariloche, uma cidade de 100.000 habitantes. Entende agora por que se diz que argentino lê muito mais que brasileiro?

Chegamos antes do inverno e, portanto, da temporada turística. A pequena desvantagem foi encontrar alguns estabelecimentos fechados, especialmente restaurantes. Mas muitos estavam abertos e tivemos a grande vantagem de estarem todos vazios, o que proporcionou atendimento rápido, garçons tranquilos e várias ofertas de tirarem fotos de nós. No Familia Weiss (o restaurante mais famoso e referido, grande e tìpicamente turístico) e no La Alpina, os respectivos garçons estavam sòzinhos, mas nos atenderam muito bem. Em Bariloche o que mais se come é carne, e a carne de Barilocha é realmente deliciosa. Um detalhe interessante é que a maioria dos restaurantes e chocolaterias que visitamos têm fotos históricas da cidade, indicando os nomes das ruas e um “você está aqui”.

Recomendo todos os lugares onde comemos. Em todos a comida estava ótima e o atendimento foi personalizado e simpático. A saber:

– Rapa Nui — esta cafeteria funciona nos fundos da loja de chocolate, mas as duas atuam como se não fossem ligadas. Estivemos várias vezes, e foi o único lugar que vimos sempre cheio. O motivo provável é que parece ser o local de reunião dos barilochenses (é assim que se diz?). As pessoas ficam horas digitando em seus notebooks enquanto saboreiam chocolate quente, café e milkshake. Por causa disso, o atendimento é lento.

– El Boliche de Alberto — São quatro filiais, sendo três concentradas em dois quarteirões vizinhos. Dessas três, só uma faz parrilla (churrasco na grelha, o tipo de comida que mais se vê por ali, pronunciado “parrija”). Onde comemos, o cardápio não poderia ser mais simples: você escolhe a carne e vem só ela, grelhada com sal grosso. A variedade de acompanhamentos e bebidas é espartana. O churrasqueiro também é o cumim. Cordeiro assado para duas pessoas, garrafa de vinho e porção (generosa) de excelentes e fininhas fritas saem por 120 pesos.

Breogan — restaurante galego tão interessante que ganhou um texto só para ele.

– Aire Sur — fica na Colônia Suíça, muito longe do centro da cidade. Uma casinha supersimpática, de madeira, com aquecedor a lenha espalhando calor pelo ambiente. Havia sòmente duas moças trabalhando, com ares de serem as proprietárias. Uma truta ao molho de amêndoas, um chucrute à moda da casa (com bacon, duas salsichas defumadas, batatas ao molho de azeite e purée de maçã), uma cerveja e um café suíço (com creme, espuma de leite, canela e licor de guindas) custam 130 pesos.

– La Alpina — Ao centro do restaurante há uma lareira a lenha, e as mesas têm bastante privacidade, mas também têm contato visual com o garçom. Aqui se destacam os fondues. Comemos um de queijo com cerveja preta, que aliás o garçom nos conta ser bem comum na região. (De todo modo, fondues são comuns sim, especialmente a título de sobremesa.) Acompanhado de um suco e um refri, deu 164 pesos.

– Friends — Este é uma lanchonete melhorada, de sanduíches e pizzas retangulares. Uma pizza de javali e outra de cogumelos, que vieram cada uma sobre uma tábua, mais uma cerveja, por 126 pesos.

– Familia Weiss — Aqui o Ricardo Freire, Autor do Viaje na Viagem, relatou ter comido “bem médio”. Atribuo isso ao estado do restaurante quando ele foi; mais de um saite relata que o lugar enche muito na alta temporada. Entretanto, pudemos aproveitar um almoço supertranquilo num restaurante silencioso, com arquitetura aconchegante e excelente iluminação natural (porque sentamos à janela, senão não). Um bife de chorizo e um Spätzle (mininhoque) com picadinho de cervo, mais a garrafa de vinho, saíram por 163 pesos. O bife estava sensacional; já o picadinho… bem médio. OK, o Ricardo tinha razão, e quem comentou a matéria dele também.

V11-1869 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 27 de maio de 2011 - restaurante Familia Weiss

Chegamos para almoçar cerca das 16:20 h. Havia uma mesa ocupada e um garçom. O atendimento foi excelente, a comida também. Dizem que na alta temporada fica muito cheio...

Vários estabelecimentos fecham na hora da siesta, de umas 13:30 às 16 horas. Pelo menos a maioria tem o salutar costume de pôr seus horários de funcionamento na porta, como se faz na Europa.

Outro inconveniente grave: em Bariloche, o cartão de débito internacional Visa Travel Money não foi aceito. Cuidado, quem contava com ele!

Sempre se associa Bariloche a neve e esqui. Mas, quando não neva, ainda há diversos passeios que se podem fazer pelos arredores da cidade. No Centro Cívico, onde fica a prefeitura, há a Oficina de Informes Turisticos (“oficina” = espanhol para “escritório”), que fica aberta de 8 às 21 horas, inclusive aos domingos. O atendimento é excelente, os servidores municipais são atenciosos e vão te dar vários panfletos ricos em informação, que vão complementar com o tanto que sabem de útil.

Para explorar esse mercado, existem várias agências de turismo em Bariloche. Aliás, a cidade vive bàsicamente de turismo. Como chegamos em um domingo à tarde, só encontramos uma agência aberta, a Turisur, bem localizada no começo da avenida Mitre. Seu atendimento foi muito bom e os preços eram compatíveis com a faixa que nos havia sido estimada na Oficina de Informes. Por esses motivos, fizemos três passeios com eles, a saber:

– Cruzeiro de barco pelo lago Nahuel Huapi e visita ao bosque de arrayanes (que eles pronunciam “arrajanes”), por 230 pesos por pessoa (mais ingresso no Parque Nacional Nahuel Huapi, 61 pesos por pessoa). Você entra em um catamarã com dezenas de outros turistas e ràpidamente percorre o belíssimo lago, observando paisagens sensacionais abrigado do vento congelante lá de fora. Infelizmente, para melhor apreciá-las, é preciso tirar a bunda enorme da cabine bunda da enorme cabine e ir pro tombadilho lá fora, onde é preciso se lembrar de tirar o pingente de gelo do nariz antes de posar para foto.

V11-0269 (nome provisório) - Argentina, lago Nahuel Huapi, 23 de maio de 2011

Olhando para o Norte do lado de fora de um catamarã da Turisur às 14:39 h. No lado esquerdo da foto, ao fundo, os Andes.

(Em tempo: quem estuda Direito tributário brasileiro logo perceberá que, se o Direito tributário argentino for igual ao nosso, o que paguei não foi “ingresso” ao parque, mas uma taxa pelo exercício do poder de polícia de fiscalização contra predação do parque — regulado, no Brasil, pelo Código Tributário Nacional, arts 77 e 78.)

A visita ao bosque é interessantezinha, mas os guias fazem um escarcéu como se fosse o parque mais incrível do mundo. Meu, é só um pouco de reserva florestal, que você percorre num caminho todo delimitadinho em cima do calçamento de madeira. Aí a Turisur tem um fotógrafo que explica como a agência fez uma lanchonete numa cabana de madeira, pôs-lhe o nome de “casa do Bambi” e tira sua foto na frente, cobrando extorsivamente. Ridículo. Foi o primeiro dos casos que vi de turismo um-sete-um da Turisur. Se bem que me deram um cupom para desconto na chocolateria Rapa Nui, de 20% à vista ou 10% no cartão.

O passeio se completa com a visita à ilha Victoria, onde um magnata com preocupações ecológicas iniciou um jardim botânico em 1924 (dez anos antes da criação do Parque Nacional, que inclui a ilha). O jardim tem árvores de vários lugares do mundo, inclusive um bosque de sequoias.

Olha só. A guia explicou que as mudas de sequoias vieram da Califórnia. Necessàriamente isso aconteceu após o início do plantio do jardim em 1924, certo? Ao lado de uma dessas altíssimas árvores, há uma fotografia, feita em 1868, de uma sequoia do parque Yosemite. Pois saiba que esta brasileira do grupo, nova-rica deslumbrada sem cultura, logo me perguntou se era a mesma árvore. Expliquei-lhe que não, que as sequoias da ilha Victoria tinham sido plantadas sessenta anos depois da sequoia da foto. Ela contestou que as sequoias da ilha Victoria eram altíssimas, mas aí a informei de que as sequoias crescem um metro por ano, tornando perfeitamente possível que, de 1924 a 2011, as da ilha Victoria tivessem chegado à altura enorme que estávamos vendo. Expliquei-lhe que o Yosemite ficava na Califórnia, que não era ali por perto e que, portanto, as duas não eram a mesma árvore, mas a mulher não acreditou em mim. Estava convencida de que as sequoias tinham sido trazidas inteiras da Califórnia e replantadas ali na Argentina e que aquele ali era o parque Yosemite.

Gente ignorante exerce um paradoxo interessante. Em geral, não têm imaginação nenhuma; porém, quando se metem a duvidar da realidade, acreditam em absurdos que desafiam Tolkien, Asimov e Clarke. Não sei como a mulher concebeu que as árvores tivessem sido transportadas. Certamente algum lenhador as teria posto nos ombros e trazido de navio, lá da costa Oeste dos EUA até o interior mais austral da Argentina, subindo até Bariloche de caminhão numa época em que não havia nem luz elétrica na área. Porque a moça ficou atrás da guia, querendo se certificar de que não fossem rigorosamente as mesmas árvores que se viam na fotografia antiga.

– Cerro Tronador. Esta foi a melhor excursão, custando 143 pesos por pessoa. Partimos às oito da manhã, quando ainda estava escuro, numa van que tomou o rumo sul, contornando o lago Mascardi até uma das entradas do Parque Nacional (ingresso: 50 pesos por pessoa). A estrada só é asfaltada até certo ponto; como disse o guia Raúl, “… después: Patagónia!”. O passeio dura o dia inteiro e você vê paisagens magníficas de lagos, montanhas e floresta temperada.

V11-0493 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é a bifurcação central do lago Mascardi, vista de uma praia de cascalho às 09:19 h. Chegamos ali levados na van da Turisur. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

V11-0504 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é outra vista da mesma praia. Por incrível que pareça, esta imagem não recebeu nenhum tratamento; a cor é natural (ou: tão natural quanto u'a máquina fotográfica digital consegue interpretar). Às 09:23 h, a manhã estava muito fria.

V11-0598 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Este é o braço ocidental do lago, visto de um mirante às 12:11 h. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

Para o almoço, a van pára no único restaurante que você vai ver dentro do parque. O lugar é simplesinho e não tem concorrência, mas o que importa é combater o frio de rachar lá de fora, e nisso a comida e o chocolate quente são eficazes. E saborosos também. Uma sopa, um guisado de lentilhas, uma empanada (pastel) de queijo e presunto e uma cerveja saem por 113 pesos.

Depois do almoço, vem a cereja do bolo que é o cerro Tronador: um vulcão de 3.500 metros que separa Chile e Argentina e do qual desce uma impressionante geleira. Não se impressione com a altitude, porque Bariloche está a 800 metros acima do nível do mar e você sobe de carro só até uns mil metros. Descendo do carro, caminha quinze minutos, com cuidado para não escorregar no gelo, e logo chega a uma esplanada (que, trinta anos atrás, estava embaixo de vários metros de gelo, cortesia do aquecimento global). Enquanto a montanha está escondida pelas nuvens, dali se descortina esta vista do limite inferior da geleira:

V11-0741 (nome provisório) - Argentina, cerro Tronador, 24 de maio de 2011

Esta é a base da geleira no lado argentino do cerro Tronador, que faz a fronteira com o Chile. O vulcão eleva-se acima de 3500 metros, mas a fotografia foi feita de cerca de 1000 metros, às 15:10 h.

O nome “Tronador” deve-se aos blocos de gelo que se soltam e despencam centenas de metros até se esborracharem cá embaixo. O ruído é idêntico ao de detonação de explosivos trovão.

Circuito Chico (“circuitinho”). Por 57 pesos por pessoa, a Turisur leva você aos mirantes ao longo do lago Nahuel Huapi. Uma subida de teleférico ao cerro Campanario (40 pesos por pessoa) mostra 360 graus desta paisagem.

V11-1265 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Cerro Campanario, 26 de maio de 2011

Em dez minutos de teleférico, chegamos ao alto do Cerro Campanario, de onde se tem uma vista de 360 graus dos arredores de Bariloche. Às 10:28 h, fazia frio. Esta é a vista para Noroeste. À esquerda, o Cerro López e, atrás dele (não visível), o Cerro Tronador e os Andes. Ainda na esquerda, os dois braços do lago Perito Moreno. À direita, em primeiro plano, o lago Nahuel Huapi; em direção ao fundo, uma península, novamente o Nahuel Huapi e a ilha Victoria.

O resto do passeio é interessante, mas tem mais turismo um-sete-um. Primeiro, porque, por alguma razão que ainda hei de entender, alguém cismou que é atração turística levar você a percorrer o jardim diante do hotel Llao Llao, o mais antigo e sofisticado de Bariloche. Patèticamente, ninguém pode descer da van, que circula em baixa velocidade à frente da imponente construção. Parece até aquele episódio dos Simpsons onde as crianças vão visitar uma fábrica de caixas. Segundo, porque, depois de você ter tido APENAS QUINZE MINUTOS para apreciar o momento mais bonito da semana no cerro Campanario, a Turisur te põe durante MEIA HORA DENTRO DE UMA LOJA de cosméticos que só existem à venda ali, como se isso fosse atração turística. Cabe lembrar que todos os cosméticos são feitos de rosa mosqueta, uma plantinha que, no discurso da vendedora, resolve todo problema de pele, de remoção de manchas a queimaduras de terceiro grau. Ela só se esquece de dizer que a rosa mosqueta não é típica dali, mas veio da Europa meridional e se adaptou tão bem que hoje é uma praga na Patagônia.

Com o pouco trânsito de Bariloche e apesar de os argentinos serem latinos como nós, impressionou-nos que os ônibus cumprissem os horários da tabela que o servidor da Oficina de Informes nos deu. Pegamos a linha 10, que, ao preço de 6 pesos por passageiro e após cinquenta minutos na estrada que segue o lago, deixou-nos na Colônia Suíça.

A Colônia Suíça é mais um caso de turismo um-sete-um. Fontes escritas e faladas nos indicaram a localidade como um povoado histórico onde, todas as quartas-feiras, um festival traz artesanato e comidas típicas, inclusive curanto (carne assada em fogo enterrado durante várias horas — barreado, alguém?). Só que tudo que encontramos foi uma rua de terra que se percorre em cinco minutos, as barraquinhas e restaurantes quase todos fechados à espera da alta temporada, e uma meia dúzia de malucos-beleza vendendo um artesanato mequetrefe que qualquer maluco-beleza te vende em qualquer praça de cidade grande. Tem uma capela e uma casa antiga preservadas, mas a “colônia” acaba aí. A observação mais notável foi o posto da polícia, com um carro velho e batido que só dá mesmo é pena do policial.

As partes boas da visita à Colônia Suíça foram o restaurante Aire Sur, a vista de um lago próximo porém escondido atrás de algumas árvores e a própria viagem no ônibus, que não só é sempre um divertimento em terra estrangeira como nos ofereceu farta vista de paisagens do lago Nahuel Huapi. Na volta, o ônibus foi enchendo, inclusive de um grupo de mochileiros jovens e anglófonos. Desceram no mesmo ponto nosso e perguntei de onde eram. Um deles era de North Yorkshire. Embora muito novinho, tinha, à guisa de cachecol natural, uma barba de fazer inveja ao Alan Moore.

Por último, duas visitas a museus que recomendo sem reservas. Um é o Museu do Chocolate, integrado à fábrica da Fenoglio, que, entretanto, não está aberta a visitação (embora visível através de janelões). Sua exposição está muito bem montada, explicando vários fatos sobre o cacaueiro, o cacau e seu aproveitamento econômico, sobre a história da indústria do chocolate desde os astecas, passando pelos conquistadores e pela nobreza europeia, sobre a evolução do significado social do chocolate, sobre o contexto em que era bebido… Tudo com ilustrações pertinentes e objetos de época. A explicação do guia era dispensável, porque há bastante texto junto às imagens, contendo tudo que ele disse; mas a visita valeu os 16 pesos do ingresso.

V11-1733 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Museu do Chocolate, 27 de maio de 2011

Em Bariloche, a fábrica de chocolate Fenoglio mantém este museu, cuja exposição está muito bem montada e é rica em informação e ilustrações sobre a evolução do uso social do chocolate desde os astecas, passando pela nobreza europeia, até o final do século XX. A fotografia mostra aproximadamente 2/3 da mostra. Atrás da parede à direita, o primeiro terço é sobre o cacaueiro, a composição orgânica do chocolate e os primeiros usos entre os astecas. À direita, o uso pelos astecas conforme testemunhado pelos Conquistadores e a adoção inicial pelos espanhóis. À esquerda, a propagação do chocolate na Europa durante os séculos XVII a XIX e o início da fabricação em massa durante a Revolução Industrial.

O outro museu é o paleontológico, aonde chegamos quando faltava meia hora para fechar. O museu não recebe dinheiro estatal, mas apenas dos ingressos (8 pesos) e da venda de produtos como camisetas. Funciona em um galpão que não deve ter mais de 100 metros quadrados e agrupa um excelente sortimento de fósseis. Apesar do espaço apertado, os fósseis estão dispostos de modo bem visível e didático. Nas paredes, paineis ilustrativos mostram a deriva continental, a formação dos fósseis, a genealogia evolutiva dos tipos de animais, a evolução das glaciações na Patagônia e os locais de onde vieram os fósseis. Estão presentes a mandíbula de um Charcharodon megalodon (versão gigante do tubarão-branco), a réplica dos ossos de um ictiossauro e centenas de fósseis de palmeiras, moluscos, insetos, aracnídeos, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, dispostos em ordem cronológica. O museu está quase escondido entre o lago Nahuel Huapi e a avenida 12 de Octubre, em frente a uma escola e a uma das sedes do órgão que fiscaliza parques nacionais.

E foi isso. Não há muito mais a contar, e espero ter sido útil. Nos vemos na próxima postagem, quando detalharei o excelente restaurante Breogan.

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Em tempo: sabe a postagem anterior a esta? Pois fiquei sabendo que o seriado da Mulher-Maravilha foi cancelado. Ótimo. Assim ninguém passa vergonha.

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