De ilusões de óptica

Na minha adolescência, muito ouvi meu pai se queixar de um colega de trabalho, que supostamente era arrogante e inflexível. Após meses e anos ouvindo os resmungos, houve uma curta transição após a qual meu pai reconheceu que, afinal de contas, o colega não era tão arrogante ou inflexível assim; que tinha havido uma falha de comunicação todo esse tempo e que o colega até tinha virtudes e dificuldades com as quais ele se solidarizava.

Disso retive a lição de que não temos que fazer para sempre a mesma imagem das pessoas próximas. Que, mesmo que elas não mudem, ainda podemos mudar nossa percepção sobre elas. Que, às vezes, a distorção (se for distorção) está em nossos olhos, não no objeto observado.

Na vila onde eu morava, sempre tive certa impressão do proprietário de uma das casas: parecia-me agressivo, prepotente e precipitado. Um dia, foi necessário reunir-me com ele em razão de questões exclusivas da vila. Eu, que nunca conversara com ele, fui tratado com educação. Comigo não foi agressivo nem prepotente, nem me pareceu precipitado.

Em outra história, não relacionada, era uma vez o General Guilherme, comandante da 1a. Divisão de Exército em meados dos anos 90. Jogue o nome “General Guilherme” no Google e o autocompletamento já segue com “… toquinho da maldade” — que era o apelido como era conhecido, e tão comum que foi parar no autocompletamento do Google. Na Vila Militar, todos o temiam e dali se espalhou sua fama de implacável, de que punia a todos por tudo, de que mandava prender e punha ordem etc. Vários anos depois, ouvi de um colega, que serviu sob seu comando, que o Gen Guilherme era apenas um militar que cumpria o regulamento, não mais rigoroso do que as previsões normativas. Mas que as pessoas sempre estão erradas e sabem que estão, então o temiam. E que quem andasse na linha não tinha o que temer.

Não sei qual versão é verdadeira, se é que alguma. Mas a lição aqui foi outra: a de que, toda vez que escuto que alguém em alto cargo é intolerante, rigoroso ou trovejante, tenho que interpretar que, na verdade, a pessoa age certo e quer que seus subordinados ajam certo. Atentar para os fatos de que, na maioria das vezes, as pessoas são preguiçosas, negligentes, acomodadas, indispostas a aprender, fazem corpo mole e carecem de iniciativa; e de que reagem à chefia que não tolera esses vícios. Então, sempre que ouço acusarem a diretora de que é exageradamente durona, eu, que nunca a encontrei, desconfio fortemente do que escuto, porque a impressão está sempre vindo de terceiros, e as pessoas são falhas; só terei uma impressão fidedigna quando EU mesmo a tiver. E, em princípio, cresce minha admiração por ela, e mais a respeito — quer dizer, a mensagem acaba funcionando ao contrário.

Tudo isso me confirma a lição que meu pai me transmitiu e vai além: em princípio, não é para pressupormos nada a respeito das pessoas com quem lidamos. Você sofre por antecipação (ou se decepciona, dependendo do caso) desnecessàriamente.

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