O calendário maia e o fim do mundo

Então dizem que o mundo vai acabar em dezembro de 2012. Supostamente porque o calendário maia acaba em dezembro de 2012.

Imagine a cena: dois calendaristas maias seminus, andrajosos, barbão imundo, trabalhando numa parede de pedra. Cipós no lugar de cintos, botas de pele de urso. Entalhando o calendário com cinzel contra o granito, fazendo a maior força, as mãos calejadas e cansadas. Estão há dias ocupados, sem comer, incumbidos pelo imperador de registrar o calendário completo. Só podem sair quando terminarem.

De repente…

— Ô Fulano, acho que já tá bom, não tá não?

— Cê acha? A gente ainda não acabou!

— Rapaz, a gente não vai acabar nunca! O calendário não tem fim!

— Ué, mas por que é então que o imperador botou a gente aqui, fazendo calendário?

— Eu sei lá. Acho que ele queria dar alguma coisa pra gente fazer. Sabe como é, tem a crise, o desemprego, e coisa e tal. Vai ver que ele não queria deixar a gente por aí, de bobeira.

— Mas será que ele sabe que o calendário não acaba?

— Acho que ele nem pensou nisso! Deixou a gente aqui, fazendo, e esqueceu. Olha lá o pessoal brincando. Tá todomundo lá, na beira do rio, e só nós aqui, feito dois otários, entalhando calendário nessa pedra dura que nem a cabeça do imperador.

— E se a gente largar como tá agora e disser pra ele que já acabou?

— Mas ele vai acreditar na gente? Vai nada. Ele vai perguntar, “que que cês tão fazendo aqui? Volta lá e acaba, senão eu solto os cachorro em cima de vocês!”

— Ah, a gente diz pra ele que o mundo vai acabar em 2012. Até lá vai tá todomundo morto mêmo, cê acha que ele vai conferir? Ele nem vai se importar. Qualquer coisa, a gente diz que foi profecia.

Mas eu tenho outra teoria. Aliás, tenho duas.

Conforme é bem sabido, o México é um lugar propenso a terremotos. Não faz nem cem anos, surgiu um vulcão lá, no meio duma plantação de milho! Então, foi assim:

Em 1848, o famoso arqueólogo Arne Saknussem encontrou a caverna maia em cuja parede estavam registrados os números de todos os dias até o fim dos tempos. O último número era 12/12/2012. Então ele saiu da caverna e anunciou aos jornais que o fim do mundo seria em 2012. Seu assistente, Otto Lidenbrock, expressou preocupação:

— Professor Saknussem, não é meio imprudente anunciar que o mundo acaba em 2012 só porque os números acabam em 2012? Isso pode causar pânico!

— Meu caro Lidenbrock, eu quero mais é que se dane. Em 2012 já estaremos todos mortos. Se eu estiver errado, o problema não será mais meu.

Mal sabia o distinto arqueólogo que, no ano anterior, um terremoto havia afundado a entrada de uma caverna ao lado. A continuação do calendário estava lá. É por isso que os estranhos caracteres no final do calendário diziam “continua na caverna ao lado”, embora o professor tivesse entendido “aqui é o fim do mundo”.

De acordo com outra teoria, o final do calendário estava gravado em uma pedra cujos caracteres tinham mais ou menos a forma que reproduzi abaixo:

…20052006200720082009201020112012ACABOU

Todos sabemos que, tal como os romanos, os maias acreditavam que a correta pontuação das frases tivesse poderes sobrenaturais maléficos e por isso a evitavam de todas as formas. (Ainda hoje essa crença é compartilhada pelas tribos de lusófonos que habitam as maiores aldeias sul-americanas.)

Depois de um grande esforço para decifrar essa inscrição, o famoso explorador Henry Jones Jr. percebeu que ela trazia a seguinte mensagem:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU

E assim ele divulgou sua teoria de que o fim do mundo seria em 2012. Entretanto, o Professor Jones nunca conseguiu explicar por que havia uma lasca na pedra, logo após essa famosa e assustadora inscrição.

A verdade é que, no chão da caverna, havia um pedaço de pedra que se encaixava perfeitamente na parte onde estava faltando um pedaço. Virada para o chão, a face lisa da pedra trazia a continuação da mensagem, que ficou inédita até hoje. Agora, o famoso pesquisador Dr. Satipo Molina revelou-me com exclusividade a continuação da misteriosa inscrição. Após decifrá-la, ele descobriu que o texto diz o seguinte:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU O ESPAÇO NESTA PEDRA MAS O MUNDO CONTINUA PARA SEMPRE

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