O Whole Foods Market e o mapeamento do conservadorismo por contraste

Quando minha amiga Carolina Matoso esteve em Nova Iorque, ela serendìpicamente descobriu um mercado, de tamanho descomunal segundo ela, especializado em comida orgânica. Diz que tinha uma enorme praça de alimentação, só desse tipo de comida. Que ficava aberto, com comida quente, 24 horas. Chama-se Whole Foods Market. A loja que Carolina Matoso conheceu fica em TriBeCa, na esquina de Greenwich com Warren.

Mesmo sem nunca ter estado lá, já indiquei o estabelecimento a duas pessoas. Para a segunda, indiquei-o alguns minutos atrás. Mas esta última pessoa me disse que ficaria hospedada na rua 42, ou seja, ao Norte do Central Park, o que é bem longe de TriBeCa. E o saite do WFM tem um store locator, de modo que me pus a ver se não havia lojas mais próximas. E há.

Como fazem inúmeras outras empresas, na verdade qualquer empresa mìnimamente sensata, o saite do WF tem uma API do Google Maps para localização das lojas. À medida em que tirei o zoom, fui descobrindo algumas coisas muito interessantes.

Primeiro, que a concentração de WFM é bem grande junto ao litoral Nordeste dos EUA, particularmente nas cidades mais próximas a Nova Iorque. Faz todo o sentido: não só a densidade populacional é a maior do país como também é ali que se concentram as pessoas mais endinheiradas e mais instruídas. É ali que você encontra mais hipsters, mais frequentadores de Starbucks, mais pessoas preocupadas com alimentação saudável, que leem sobre e preferem alimentos orgânicos, e que (1) têm o dinheiro e (2) estão dispostas a pagar por isso.

Afastando-se daquela área, você vê outras grandes concentrações na Flórida, em São Francisco e em Los Angeles. Novamente, são centros de riqueza, de gente instruída, de hipsters e de Starbucks, de gente que vota em Obama, de artistas e outros progressistas descolados.

Que têm essas regiões em comum além da riqueza e da instrução? Também são regiões de intenso movimento marítimo; são as cidades mais cosmopolitas dos Estados Unidos. Estão em contato intenso com outras civilizações, com imigrantes, com gente de variadas formações e opiniões políticas e religiosas; há uma enorme diversidade cultural. Você vai lá e vê isso. É onde estão fatores de renovação de percepções, é onde as pessoas têm mais tolerância ao diferente.

Em contraste, o Sul dos Estados Unidos é sabidamente uma área onde impera um certo radicalismo de valores: é onde se encontram tantos daqueles protestantes extremados, daqueles racistas mais ostensivos, daqueles defensores da guerra. Pois bem, nesses estados é bem pequena a concentração de lojas do Whole Foods Market.

Há o Texas. A densidade populacional e a riqueza tendem a ser maiores em Houston e Dallas, mas, tanto ali como no resto do estado, o que se vê muito são comedores de churrasco que se orgulham de sua independência, que se veem como vitoriosos supremacistas contra o pobre vizinho México, que desfilam em carrões com fálicos chifres de touro sobre os radiadores. Para muitos texanos, “esse negócio de ‘comida orgânica’ é para v*adinhos”. Voilà: comparativamente poucas lojas do WFM em Dallas e Houston e quase nenhuma no resto do estado.

Também há o Meio-Oeste: a região que disputa em conservadorismo com o Sul, onde você encontra extensas plantações de cereais, rednecks comedores de milho, religiosos fervorosos, defensores da manutenção de tropas no Iraque. Ali a concentração das lojas de WFM é mínima — exceto em Chicago, que é um centro industrial, financeiro e comercial, também cosmopolita, mantendo contato com várias partes do mundo. Ali a concentração de WFM é como nas cidades ricas do Texas.

Finalmente, nos estados do Noroeste, Seattle e Portland são centros industriais e comerciais, com várias lojas do WFM. No resto da região, você encontra enormes extensões florestais e montanhosas, onde a densidade populacional é a menor do país. Só o que se vê são cidades pequeninas a enormes distâncias uma da outra; esparsas cabanas de milicianos paranoicos com camisas de xadrez vermelho, gorro, espingardas de dois canos e delírios de serem perseguidos pelo governo federal; alimentação à base de carne; isolamento completo de toda modernidade; e uma genérica disposição de achar que comida orgânica é coisa de gente fresca. Quantas lojas do WFM nessas grandes extensões vazias? Nenhuma no interior de Washington e nenhuma por toda a extensão de Montana, Wyoming e Dakotas do Norte e do Sul.

Quem gostaria de fazer esse levantamento seria Rodger Doyle. Esse colunista da Scientific American costuma comparar mapeamentos de diversas grandezas nos Estados Unidos (consumos de água e energia, ocorrências policiais e de saúde etc.) com os fatores socioeconômicos subjacentes, em sua seção mensal intitulada By the Numbers. Enquanto ele não faz isso para o Whole Foods Market, fica você, Leitor, com esse pequeno factoide analítico.

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