A divisão de classes em tempos de crise

O conteúdo deste vídeo é uma constatação a que eu já havia chegado independentemente, por observação dos aviões, dos anúncios, dos websites e das notícias.

http://live.wsj.com/video/say-goodbye-to-first-class-on-us-airlines/3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055.html?mod=wsj_blog_tboleft#!3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055

Em síntese: as companhias aéreas estão deixando de operar a primeira classe. O motivo é a falta de procura. Os passageiros pagantes simplesmente não estão interessados em pagar o dobro da executiva, considerando que a primeira classe não oferece vantagem significativa sobre uma executiva que já é bem confortável, aparelhada e luxuosa. E os não pagantes, usando milhas, são três quartos dos que voam na primeira classe. Consequência: a primeira classe deixou de ser rentável.

As companhias aéreas criaram os programas de milhagem e, com isso, entraram em um caminho sem volta: graças à concorrência, nenhuma delas ousa deixar de manter seu programa. Tendo que cumpri-los, veem-se vítimas de seus próprios esquemas, porque a primeira classe acabou invadida pelos não pagantes e elas ficaram presas com isso. A solução? Extinguir a primeira classe: transformar esses assentos em executiva e, assim, passar a extrair dinheiro deles.

Além disso, o passageiro que tem um pouco mais de dinheiro e quer fugir da econômica, esse passageiro contenta-se com uma classe que surgiu há não mais do que cinco anos: a “econômica premium”, ou “econômica plus“. O tráfego aéreo está bem maior do que há vinte anos, e os aviões estão maiores também: veja o surgimento do mastodôntico A380, do recém-lançado 747-8I, do 777, do A340 (esses dois, inclusive, em versões mais longas, o 777-300 e o A340-600). Veja como as versões recentes do 737, que é um avião de curto alcance, têm pràticamente a capacidade dos 707 intercontinentais de há cinquenta anos; veja como os jatos regionais de cem lugares substituíram os turboélices de cinquenta. Há mais gente viajando e a passagem econômica ficou mais acessível. Com isso, as pessoas mais afluentes dentre essas da econômica acabam migrando para a econômica plus.

Assim, gradual (mas ràpida) mente, deixa de existir o trio primeira-executiva-econômica e passa a haver o trio executiva-econômica(plus)-econômica. No geral, que vemos? Afora os nomes, uma redução na qualidade oferecida nas duas classes superiores. Mas também um aumento de receita para a empresa aérea: o passageiro deixa de viajar na primeira classe (onde não pagaria) e passa a viajar na executiva (onde paga e, além disso, o custo é um pouco menor). Outros passam a viajar na econômica plus, onde há pouco acréscimo de qualidade mas o preço é 50% maior — tal como na executiva de bem antigamente.

A matéria fala de empresas americanas, mas veja só: em 2010, viajei à Inglaterra. Em um voo intercontinental como era aquele, NÃO HAVIA primeira classe; nem na ida nem na volta. O mais luxuoso que havia eram cerca de trinta lugares de executiva.

Claramente isso é uma consequência da crise financeira mundial, porque começou a acontecer aproximadamente em 2008, justamente um ano após o início das quebras de grandes bancos e do encolhimento das economias.

Mas não nos queixemos: como diz o analista do vídeo, em TODAS as classes que permanecem o conforto e o serviço estão muito mais evoluídos do que há quinze anos (ele disse dez, mas divirjo). Realmente, na executiva os assentos passaram a descer até a horizontal e a ter mais privacidade do que tinha a primeira classe de então; e o cardápio também se tornou mais variado e em pratos de porcelana, tal como era na primeira classe. Enquanto isso, na econômica, já faz uns cinco anos que cada passageiro tem sua própria tela de TV — algo que, há quinze anos, só existia da executiva para cima. Na econômica também passou a haver muito mais canais de áudio e vídeo dos quais escolher, e outras vantagens vieram também. Por sinal que os canais de áudio e vídeo são benefícios da econômica atual que não existiam nem na primeira classe daqueles tempos.

Tudo graças à concorrência, que se torna mais acirrada em tempos de crise.

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