Falsa resenha de Star Trek: Into Darkness (Jornada nas Estrelas: Além da Escuridão)

Não vou resenhar o filme. Já tem gente demais fazendo isso pela Internet e, a bem da verdade, nunca dei muita relevância às resenhas dos outros: são impressões subjetivas de quem gostou ou não gostou, e terei minhas próprias impressões, gostando ou não gostando eu mesmo. Se tenho essa atitude em relação às resenhas dos outros, com mais razão hei de considerar justo quem a tenha em relação às minhas.

O que vou fazer, isto sim, é relatar detalhes que chamaram minha atenção e que podem passar despercebidos para parte da audiência. Tal como fiz com outros filmes, minha esperança é ajudar a digestão dos trekkers que já foram ver, ou, nos casos de quem não se importa com spoilers, preparar para a curtição que poderia não acontecer.

Aliás não sei se esta exposição será útil. A esta altura, os dois meses de pré-estreia já foram suficientes para todos os trekkers que estavam ansiosos, e já se passaram duas semanas e dois dias desde a estreia. Todomundo a quem aproveitaria meu texto já teve sua oportunidade de gastar R$ 37 no ingresso e duvido que vá ver de novo. Mesmo assim, fica este registro para escarmento do futuro e, quiçá, aproveitamento no Blu-ray.

Portanto, prepare-se: mega spoilers abaixo! Para não causar dano inadvertidamente, estou mudando a cor da fonte para branco e pedindo a você que, se realmente quiser ler, dê um copia-cola e leve o texto para o Word, o bloco de notas, sei lá.

Segue o relato.

O filme começa no planeta Nibiru. Esse é o nome que os babilônios davam a Júpiter, e os lunáticos de hoje dizem que é o nome do (inexistente) planeta que extinguirá a raça humana por meio de distúrbios gravitacionais quando entrar sùbitamente no Sistema Solar.

Na cena de abertura, a correria de Kirk e McCoy é totalmente reminiscente das cenas de abertura nos filmes de James Bond. Supostamente somos apresentados a mais um dia rotineiro na vida do herói aventureiro, sem nenhuma ligação com a história principal porém suficiente para sermos apresentados aos personagens.

Enterprise debaixo d’água?!?! Deixando de lado as queixas do Sr. Scott sobre os efeitos da água salgada (em princípio desprezíveis, já que o casco é feito de durânio), essa nave foi projetada para aguentar pressão de dentro para fora — não o contrário! Se não deveria sequer voar dentro de uma atmosfera (o que fez duas vezes neste filme), menos ainda dentro do oceano!

Se eu visse a Enterprise saindo da água na minha frente, eu também ia cair de joelhos no chão feito os nativos de Nibiru, mas por diferentes razões. #coraçãodetrekker

Não tenho a menor dúvida de que o uniforme de almirante de Pike (cinza e branco) é uma referência ao uniforme que Kirk usava em ST:TMP. Eu só gostaria de que o filme não fosse um desfile de moda dos uniformes. No caso de Kirk, por exemplo, tem a camisa amarela, a túnica cinza e o macacão azul escuro. Convinha usarem UNIformes. Da mesma forma, Chekov não mudaria de especialidade só porque foi para a Engenharia. Na verdade, talvez até estivesse errado em usar amarelo em primeiro lugar, já que era o pequeno gênio do teletransporte no filme anterior.

Então Kirk violou a Diretriz Primeira. Grandesm*rda. Pela “evolução natural” daquela sociedade de pigmeus espaciais, o vulcão ia explodir e MATAR TODOMUNDO. Se quer falar em Diretriz Primeira de não interferir, o “natural” era não haver mais sociedade nenhuma. No momento em que salvou os nativos, a Enterprise já interferiu demais e, desse ponto em diante, já que não tinham morrido, a meu juízo eles até poderiam idolatrar nossos bravos tripulantes. É melhor isso do que estarem mortos.

Quando Pike diz a Kirk que ele despreza regras, está descrevendo nosso bom e velho Capetão e, ao mesmo tempo, abordando um ponto que ficou pendente ao fim do filme anterior. Como se aceitaria que, desde o fim do filme anterior, a Frota Estelar mantivesse um moleque impulsivo e imaturo como capitão de uma nave estelar? Resposta: não aceitaria. Foi bom encarar isso neste filme aqui, de modo absolutamente explícito. Embora, a meu juízo, tenham cometido um erro no roteiro: Kirk não cometeu nenhum crime, de modo que não se justificaria que fosse rebaixado a comandante. Observe que isso não acontece nas forças armadas do mundo e certamente não acontece em Star Trek. Mesmo em ST IV, foi necessário que ele cometesse crimes militares e fosse julgado pelo próprio Conselho da Federação para ser rebaixado de almirante. Aqui não poderia ser diferente. Não é por conveniência do serviço ou por prerrogativa disciplinar que se rebaixam oficiais. Nomeou mal? Agora conviva.

Ao mesmo tempo, a preocupação de Pike com regras tem relação com o homem que vimos em “The Cage”.

É interessante que o Kirk da série não seja impulsivo como este moleque interpretado por Chris Pine. Mas também é interessante que, no piloto “Where No Man Has Gone Before”, Kirk não é sequer o aventureiro descumpridor de regras, espada em punho na proa do navio, que viríamos a conhecer. Ele era muito mais cerebral, filosófico, “enciclopédia ambulante” (ou algo assim) como o descreveu Gary Mitchell. Foi só a partir do episódio seguinte que pudemos vê-lo como o popular jogador de pôquer e enganador da morte, fruto, sem dúvida, de uma deliberada mudança no modo de se escrever e interpretar o personagem.

“John Harrison?” você pensa. Já viu alguém com esse nome em todos os 46 anos da franquia? Claramente era pseudônimo.

Na sala onde Kirk vai pedir a Marcus que lhe restitua o comando, consegui identificar alguns modelos de naves sobre a mesa. O primeiro é o Wright Flyer; depois vêm o Spirit of St. Louis, o X-15 (até hoje recordista de velocidade para aviões, pilotado por alguns candidatos a astronautas, como Scott Crossfield e Neil Armstrong, e um dos integrantes da abertura da malfadada série Enterprise), uma cápsula Mercury, uma Vostok, a space shuttle Enterprise, a XCV-330 Enterprise (a nave civil em forma de anel que aparece em Star Trek: the Motion Picture e que foi vezes demais ignorada pela cronologia), a Phoenix, de Cochrane, o protótipo de “First Flight” e a NX-01. Veja detalhes dos modelos aqui.

Perdi a fala do Almirante Marcus onde ele defere o pedido de Kirk para reassunção da Enterprise. A cabeça dele deu um pulo e uma frase não era continuação da outra. É que o Cinemark fez a gentileza de trocar os rolos de fita (ainda existe isso?) e cortar o discurso do ator. Acho que, agora, só no Blu-ray.

Como assim o Alte. Marcus revela a existência da Seção 31? Certamente os caras têm backups em algum lugar, certamente os agentes deles estão por aí. Não era para revelar nada! Referência gratuita para quem já conhece e inútil para quem não conhece. E agora Kirk e Spock estão a par da pouco querida Seção.

Quando a Tenente Wallace se apresentou, logo pensei, “Janet Wallace” (“The Deadly Years”)? Mas era Carol. Aí, claro, descobrimos que era a jovem que, mais tarde, criaria o Dispositivo Gênesis. De certo modo, a fala de Spock dentro do vulcão (“as necessidades da maioria se impõem às necessidades da minoria”) e a presença de Carol no filme foram duas introduções que nos disseram quem realmente seria o vilão, embora só depois de uma cola da Mãe do Movimento Trekker Brasileiro (descubra você quem é) eu tenha reconhecido a primeira como uma dica.

A cena da lingerie da Ten. Marcus foi injustificada, gratuita. Para as mulheres, ofensiva; para os homens, mostrou muito pouco. Se era para fazer só isso, melhor seria não ter feito nada. Parece até que era para cumprir alguma cota (como foi o caso no filme anterior).

Quando a Enterprise chegou a Qo’noS, você viu Praxis explodida? Eu vi. É uma semi-esfera no céu, com uma nuvem de detritos espalhando-se para a direita. A paisagem está lá para quem quer vê-la.

Vá lá que os diálogos abordam a preocupação com a Enterprise ser detectada pelos klingons enquanto está no espaço deles. Mas fico espantado em ver que longo tempo se passa sem que eles a detectem.

Quando Kirk retoma o comando do Ten. Sulu, o jovem oriental observa que é difícil largar a cadeira. A uma, creio que uma frase muito parecida já tenha sido usada em ST V; a duas, parece-me uma premonição em referência ao estimado Capitão Sulu, um dos favoritos dos fãs.

Questões tecnológicas. A nave do Alte. Marcus não deveria ser capaz de disparar os phasers enquanto estava em velocidade de dobra. Vários episódios da TNG (que acontece em uma era de tecnologia mais avançada) deixam claro que isso não é possível. Por outro lado, a tecnologia desta versão de Jornada avançou mais rápido do que a do universo Prime, ainda mais com ajuda de Khan, de modo que tudo é possível.

Quando a nave do Alte. Marcus — maior, mais poderosa, mais veloz do que a Enterprise — vai disparar o tiro de misericórdia, descobre-se que o Sr. Scott a sabotou. Ao apertar do botão, os sistemas caem e o Sr. Scott revela sua pequena intervenção. Ecos da Excelsior em ST III.

Khan menciona que o sistema de suporte de vida fica na parte de trás de uma das naceles. Isso não faz o MENOR sentido. Tem toda a cara de que foi enchimento de diálogo feito com o propósito de ser substituído na revisão técnica, mas que passou.

Nimoy-Spock volta a aparecer. Mas J.J. Abrams não disse que não ia mais fazer isso? Veja bem: é sempre agradável rever o Marmitão da Galáxia, mas há uma hora em que se deve largar as muletas. A passagem da tocha foi feita no filme anterior e com muita legitimidade por sinal, mas não se pode depender dessa conexão para sempre. Se era para ser reboot, era para ser reboot.

“Conseguiram derrotar Khan?” “Yes — at great cost.” Tell me about it. Se tem alguém que sabe do custo, é ele, não é mesmo?

Quando Kirk dialoga com Scott pouco antes de entrar no reator, os trekkers atentos à tradição podem contar com o iminente ato heróico. Quando pôs Scott para dormir, podia-se ter plena certeza. Nesse instante, meu pensamento foi, “mas sem mind meld, como que ele vai sobreviver?!”

Então Kirk entra no reator. Não sei nem por onde começar a criticar isso. Dentro do reator, matéria e antimatéria encontram-se no vácuo; nosso bravo Capetão não deveria ser capaz de respirar ali dentro. Além disso, não é que a radiação fosse envenená-lo: a intensa produção de energia deveria transformá-lo em átomos saltitantes imediatamente. Também muito me admira que um componente feito para lidar com potências da ordem das usadas pela Enterprise, uma vez desalinhado, vá voltar para o lugar com alguns chutes. Ainda que volte: todo o aspecto das peças mostra que são componentes de alta precisão. O tratamento ministrado por nosso nobre desbravador do espaço não deveria ser exatamente um exemplo de eficácia.

Outra questão tecnológica. Quando Kirk põe o reator para funcionar, a energia retorna e Spock ordena o acionamento dos manobradores (thrusters). Do modo como se conduziu o diálogo, fica evidente que o reator era necessário para que os manobradores funcionassem; do contrário, Sulu já os teria operado bem antes. Pois bem. Inúmeros episódios (TNG “Booby Trap”, Voyager “The Cloud”) já deixaram muito clara a noção de que os dois sistemas são completamente independentes. Os manobradores funcionam com seus próprios reatores de fusão, que não são afetados pelo que ocorre ao reator de dobra. Então, com todo o efeito dramático, a cena contrariou uma consistência já estabelecida.

Quando a nave estava novamente funcionando e a voz de Scott veio da Engenharia à ponte chamando Spock com urgência, posso afiançar a vocês que as falas de Scott foram as mesmas, e todas as falas de Scott (“You will flood the whole comparment!”), Spock e Kirk, até certo ponto, também foram as mesmas da morte original de Spock, lá em 1982. O vidro separando os dois e a saudação vulcana final foram os detalhes mais marcantes. Mas isso você também já sabia. De meu lado, se o diálogo teve a intenção de ser o mesmo, penso que deveria ter sido o mesmo até o fim, com exatamente as mesmas falas.

Bem perto do fim do filme, Spock comenta que nunca houve uma missão de cinco anos. Não??! De acordo com a literatura, “The Cage” aconteceu justamente durante a missão de cinco anos de Pike. Até o equívoco chamado Enterprise lançou a nave em uma prolongada missão de exploração do espaço. Não dá pra acreditar que, em quase cem anos de existência da Frota Estelar (mais, se contarmos o tempo antes da fundação da Federação), ninguém tenha tentado uma missão desse tipo.

Ao fim de tudo, reparo que os personagens estão mais entrosados e que os atores estão mais próximos desses personagens do que no filme anterior, em particular McCoy (Karl Urban perfeito nos resmungos e perdas de paciência) e Scott, que é mais do que um sotaque de Aberdeen.

Há um detalhe que me chamou atenção no filme anterior e que continua presente neste, que é o nível de detalhe com que Zachary Quinto conseguiu reconstruir o desempenho de Leonard Nimoy. Na série original e em seus filmes, Nimoy sempre apareceu caminhando de um modo peculiar, deliberado, típico de um idoso. Pode-se ver que levanta bem os pés, realçando sua magreza. Provàvelmente de modo intencional, Quinto emula o caminhar de Nimoy e, com isso, traz Spock de volta sem que a audiência média consiga apontar o dedo para onde, exatamente, está a semelhança.

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