As séries amadoras de Jornada nas Estrelas: status em 2013

Esta postagem é a atualização de uma outra que publiquei em 2009. Update: ao final, há uma pequena nova atualização, feita em 2016.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web. O que me surpreende (mas não deveria) é que a quantidade dessas produções tem aumentado.

O resultado tem chamado minha atenção. São obras amadoras, mas apresentam valores de produção que estão ao mesmo nível do que era produzido nos anos 60 ou que é produzido hoje. Em vários casos, os atores são de fato profissionais, e as filmagens acontecem no interior de estúdios, em cenários que são reconstruções impressionantes da ponte de comando da Enterprise original. Os efeitos sonoros e a trilha musical estão perfeitamente sincronizados com a ação. Com as câmeras e computadores atuais, os episódios são rodados em HD e contam com tomadas espaciais que fariam inveja às equipes de produção da série original naqueles tempos de barro fofo e pedra lascada. Esse é o caso, especìficamente, de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Farragut e Star Trek: Phase II, que me parecem as mais célebres (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Nos Estados Unidos, é muito comum que os fã-clubes de Jornada nas Estrelas se organizem no formato de naves espaciais. Em 1999-2000, o fã-clube USS Angeles, situado em Los Angeles, produziu cinco episódios de uma série à qual deu o nome Voyages of the USS Angeles e que contava as aventuras de uma tripulação da mesma época de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração. Os personagens tinham os mesmos nomes dos atores e a produção era tosca, mas você via que estavam se divertindo. Mais tarde, houve uma dissensão no grupo, e alguns integrantes, sob a liderança do cineasta iniciante Rob Caves, iniciaram uma série que era continuação de Voyages, repetindo vários personagens e aproveitando a linha de histórias que havia sido iniciada ali. A nova série ganhou o nome de Star Trek: Hidden Frontier.

Em Hidden Frontier, o cenário é a nebulosa em torno do planeta Ba’ku, do filme Star Trek: Insurrection. Como premissa da série, a Federação instala a base estelar Deep Space 12 na fronteira da nebulosa e designa algumas naves estelares para patrulharem a região, entre elas a USS Independence e a USS Excelsior — não a mesma do Capitão Sulu, mas uma integrante da classe Galaxy com três naceles. O comando de DS12 é passado para um comodoro veterano da guerra contra o Dominion. Entre os muitos personagens da série está Shelby, a ousada tenente-comandante de “The Best of Both Worlds”, que, interpretada pela estudante de teatro Risha Denney, vai sendo promovida, primeiro a capitão (comandando a Excelsior) e depois a almirante. Também é recorrente a Almirante Nechayev, velha conhecida do Capitão Picard em diferentes episódios da Nova Geração, e um dos personagens fixos é Robin Lefler, que era alferes e havia sido interpretada por Ashley Judd em dois episódios daquela série. Passados tantos anos, Lefler (agora interpretada por duas diferentes atrizes) é tenente-comandante e engenheira-chefe da Excelsior.

Hidden Frontier durou sete temporadas, ganhando sua própria mitologia, complexidade crescente e valores de produção em aprimoramento contínuo. Com tanta longevidade, é compreensível que tenha havido um certo entra-e-sai de atores e personagens. As histórias tomaram diferentes rumos com a passagem do tempo, formando arcos onde se enfrentaram diferentes arqui-inimigos e onde se pôs foco no desenvolvimento ora de um personagem, ora de outro.

A equipe de produção de Hidden Frontier (ou ao menos parte dela) mantém contato com um fã-clube situado em Dundee, na Escócia, o qual, sob a liderança do ator amador (e enfermeiro em seu emprego diurno) Nick Cook, produz a série Star Trek: Intrepid, até agora com sete episódios. Dessa proximidade nasceram três crossovers, episódios que mostram a interação entre personagens de Hidden Frontier e de Intrepid. Um desses crossovers, chamado Operation Beta Shield, é um filme de duas horas de duração, bastante complexo por depender de conhecimento de boa parte do que aconteceu em Hidden Frontier, mas impressionante na qualidade narrativa e nos valores de produção, com especial destaque para as cenas espaciais. Um aspecto particularmente curioso de Intrepid é ver como toda a tripulação da nave fala com forte sotaque escocês… Aqui, um trailer de Beta Shield.

Os cenários de Hidden Frontier são telas de videogames de Jornada, e a música de abertura é ripada do filme Galaxy Quest. Fora isso, os diálogos e a atuação melhoraram contìnuamente ao longo das sete temporadas, atraindo novos atores amadores e profissionais e gerando duas spinoffs filmadas com esses atores — nominalmente, Star Trek: Odyssey e Star Trek: the Helena Chronicles, ambas as quais prosseguem na história de Operation Beta Shield. Essas duas séries contam uma mesma história, sendo uma (Helena Chronicles) ambientada nesta Galáxia enquanto seus personagens tentam resgatar os personagens da outra (Odyssey), que ficaram isolados em Andrômeda. Após três temporadas, essas duas séries terminaram em 2012, com um episódio final de 127 minutos que reúne atores e personagens de Voyages of the USS Angeles (retomada como série de áudio em determinado momento anterior), Hidden Frontier, Intrepid, Odyssey e Helena Chronicles.

Outras spinoffs de Hidden Frontier prosseguem, incluindo (até hoje) Henglaar, M.D. (apenas em áudio) e Star Trek: Federation One (uma temporada em áudio, outra em vídeo). A mesma equipe produz Star Trek: Diplomatic Relations (contando histórias dos diplomatas da Federação, que atuam depois que a Frota Estelar vai embora, e novamente com a participação do elenco de Intrepid no primeiro episódio); Star Trek: Grissom, que relata as aventuras da navezinha exploradora de Jornada nas Estrelas III antes de ela ser explodida pelos klingons; e Frontier Guard, a única não relacionada ao universo de Jornada nas Estrelas.

Falei bastante de Hidden Frontier, mas ela não é a série amadora de maior ou mais famoso impacto no fandom. Essas honras cabem a Star Trek: Phase II, produzida sob a liderança do ator James Cawley. Profissionalmente, Cawley segue carreira como imitador de Elvis Presley em Las Vegas. Aparentemente essa função lhe rende um bom dinheiro, que ele gasta em um estúdio onde produz sua própria continuação da série original de Jornada nas Estrelas.

Tendo estreado em 2004 sob o nome de Star Trek: New Voyages (o nome atual Phase II veio só depois), esta série tem o propósito de contar as aventuras da Enterprise após o terceiro ano de Jornada nas Estrelas, em um quarto ano que a série não teve — ou não tivera até agora, porque isso está mudando. Para tanto, Cawley reconstruiu os cenários da série original, inclusive uma réplica minuciosa da ponte de comando, e tem contado com a colaboração de diversas pessoas que participaram das séries oficiais, como os atores Walter Koenig (realmente como Chekov), Malachi Throne, William Windom (Comodoro Decker), Barbara Luna, J.G. Hertzler e Tim Russ, o ilustrador Doug Drexler, a consultora Denise Okuda, a roteirista D.C. Fontana, o produtor de efeitos visuais Ronald B. Moore e vários outros. O próprio Cawley faz o papel do Capitão James Kirk, com diferentes atores tendo assumido os papéis de Spock, Sulu, Uhura e Chekov ao longo dos oito episódios já lançados, mas sendo constantes os atores que têm feito McCoy e Scott. Se, de um lado, todos associamos Kirk ao desempenho paradigmático e exagerado de William Shatner, de outro a atuação de Cawley é notável, seguindo até os trejeitos e entonações de Shatner nos mais minuciosos detalhes.

É impressionante como Phase II consegue emular a série Clássica à perfeição. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas. O colorido dos cenários é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas, os mesmos tons de maquiagem, os mesmos filtros nas lentes. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty. Provàvelmente o detalhe que mais dá a sensação de se estar assistindo à série original é a iluminação, que define todo um clima mas que é sempre um componente sutil, de cuja importância frequentemente não nos damos conta, o que bem mostra o quanto a equipe de Cawley estudou a série Clássica. Em contraste, o detalhe que mais se percebe é a música incidental, que é usada exatamente nos mesmos momentos e com as mesmas partituras a que nos acostumamos na série Clássica: os temas de introspecção vulcana, de luta animada, de suspense antes do intervalo, de contraponto cômico, todos esses são empregados como esperamos.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio de Phase II, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare. A produção visual é perfeita e começa com George Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior em companhia de Janice Rand, novamente interpretada por Grace Lee Whitney. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise cai vítima de um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e Kirk envia o Tenente Sulu aos destroços de uma nave inimiga. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte, e quem emerge é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto o hoje idoso Takei.

Star Trek: Phase II” é o nome convencionalmente adotado para a série de Jornada nas Estrelas que a Paramount preparou mas afinal não produziu no fim dos anos 70 e que acabou se materializando como Jornada nas Estrelas: o Filme, com parte de suas ideias reaproveitada na Nova Geração. Fazendo uma espécie de ponte retroativa entre a série original e as produções oficiais que a sucederam, a Phase II de James Cawley inclui o vulcano Tenente Xon (que substituía Spock na Phase II dos anos 70, mas aqui o complementa, interpretado por Patrick Cawley, filho do produtor) e uma promoção de Sulu a tenente-comandante (da qual decorre o cômico curta-metragem “Center Seat”). Além disso, o traje antirradiação de sua Engenharia é o mesmo que vemos nos filmes de cinema.

Entre os episódios da Phase II de Cawley estão as duas partes de “Blood and Fire”, uma história que o escritor David Gerrold propôs para a Nova Geração mas não foi aceita naquela época. Agora, o roteiro ganha vida com as participações de Denise Crosby, Bobby Rice como Alferes Peter Kirk (um veterano de Hidden Frontier e Odyssey, que comentei acima, aqui fazendo o papel do sobrinho do capitão), e Nick Cook (o escocês que normalmente faz o capitão da Intrepid, mas que, aqui, é um camisa-vermelha). A adaptação para esta filmagem é de Carlos Pedraza, um colombiano que também escrevia Hidden Frontier, e a direção é de Gerrold, que recentemente se tornou um dos produtores de Phase II.

O episódio mais recente de Phase II é “The Child”, que foi escrito por Jon Povill para a Phase II dos anos 70, realizado como episódio da Nova Geração em 1988 mas, agora, refilmado pela equipe de Cawley sob a direção de Povill e relançado em 2012 como o episódio da série Clássica que poderia ter sido. Neste episódio vemos o Tenente-Comandante Sulu ser interpretado por J.T. Tepnapa, um dos atores mais importantes de Hidden Frontier e The Helena Chronicles. O próximo episódio, a ser lançado em outubro de 2013, é “Kitumba”, outro que foi escrito para a Phase II original mas que até hoje não havia sido filmado. Já vi um dos trailers de “Kitumba” e percebi que o “Comodoro Probert” é interpretado por Andrew Probert, o artista que desenhou as Enterprises dos filmes de cinema e da Nova Geração. Outros quatro episódios estão em filmagem ou pré-produção.

Uma grande diferença de Phase II em relação à série Clássica são os efeitos visuais, especialmente as tomadas externas de naves espaciais. Os produtores sabem resistir à tentação de abusar do CGI, que se mantém como ferramenta a serviço da história (em vez do contrário, tão comum em filmes amadores). Mesmo assim, são empolgantes os movimentos da Enterprise e de seus rivais klingons no espaço. Dê só uma olhada nas primeiras tomadas de “Blood and Fire” Part Two.

Outras produções recentes foram bem sucedidas em trazer de volta a sensação de se estar assistindo a um episódio da série original de Jornada nas Estrelas. Um bom exemplo é Starship Farragut, que começou tão tosca quanto todas as demais porém se aperfeiçoou e hoje tem quase a mesma qualidade de Phase II, com exibição em alta definição e cenários que replicam os da série Clássica. Em Farragut, o produtor John Broughton atua como o Capitão Carter, comandando a nave estelar de mesmo nome, e os produtores Michael e Holly Bednar fazem o oficial de ciências e a chefe da Engenharia. Nesta série já vimos a participação especial de James Cawley como Capitão Kirk e podemos ver o ator Paul Sieber como o chefe de segurança Henry Prescott. Conforme uma rápida consulta ao IMDB poderá lhe mostrar, Sieber já apareceu em Phase II no papel de um alienígena e em breve deveremos vê-lo novamente como Prescott, mas em “Kitumba”, mostrando o grau de intercâmbio entre os estúdios e suas produções. O próprio Cawley já havia aparecido em Hidden Frontier no papel do Capitão Mackenzie Calhoun, um personagem que, na série de livros New Frontier, comandava a USS Excalibur e tinha a Comandante Shelby como sua imediata.

Aliás, essa mistura de elencos e equipes pode render bons momentos de diversão. Em 2010, a FedCon (grande convenção europeia de Jornada nas Estrelas) foi brindada com este maravilhoso vídeo produzido por James Cawley e por seu colaborador Tobias Richter. Trata-se de uma brincadeira que trata os filmes de J.J. Abrams como muitos trekkers gostariam de ver, inclusive enfatizando a diferença de tamanho entre a Enterprise original e a do jovem diretor. Outra brincadeira, produzida pela equipe de Farragut, encontra-se aqui, onde o Presidente Nixon tem um delírio que somente o Agente Smith (de Matrix) poderia abordar.

Em mais um recente e excelente caso de homenagem extra-oficial à série Clássica, eu não poderia deixar de mencionar o filme em três partes intitulado Star Trek: Of Gods and Men. Trata-se de uma história de viagem no tempo produzida por Tim Russ que tem o próprio como Tuvok, mais as participações de Nichelle Nichols como Uhura, Walter Koenig como Chekov, Alan Ruck novamente como Capitão Harriman (bem melhor do que quando comandou a Enterprise em Generations), Garrett Wang, J.G. Hertzler, Ethan Phillips, Chase Masterson e Cirroc Lofton.

Uma característica comum a todas estas séries feitas por fãs — além da paixão de quem as faz — é sua qualidade artesanal. Os créditos finais mostram a sintomática repetição de nomes: é muito frequente vermos a mesma pessoa como ator, produtor, editor, supervisor de roteiro, figurinista, carpinteiro, motorista, pintor, eletricista e artista de CGI; enquanto algum colega é ator, produtor, marceneiro, supervisor de efeitos visuais, maquiador, fotógrafo e continuísta; e uma terceira pessoa participa como atriz, produtora, roteirista, iluminadora, eletricista, maquiadora e operadora de som… E por aí vai.

A mais recente fanseries a seguir os passos da série original é Star Trek Continues, produzida pelo mesmo estúdio de onde sai Starship Farragut. O ator Vic Mignogna (que já atuara em Phase II) faz James Kirk ao comando da Enterprise (já tendo aparecido nesse papel em “The Price of Anything”, o mais recente episódio de Farragut), tendo a seu lado Todd Haberkorn (ator e diretor veterano de Farragut e de Phase II) como Spock, Larry Nemecek como McCoy e Chris Doohan como Scotty. Permita-me enfatizar: Nemecek é um dos mais ativos fãs antigos de Jornada, tendo publicado vários trabalhos, dos quais o mais famoso é seu ST:TNG Companion. Já Chris Doohan é filho do Scotty original, James Doohan. Todos os atores do elenco principal de Star Trek Continues são profissionais, embora a produção não seja oficial. No primeiro episódio, “Pilgrim of Eternity”, o ator Michael Forest retorna ao papel de Apolo, que desempenhara na série Clássica em “Who Mourns for Adonais?”.

A próxima grande produção deve ser Star Trek: Renegades, que promete trazer em 2014 uma nova história com Walter Koenig, Tim Russ, J.G. Hertzler e outros experientes atores de Jornada nas Estrelas. Recomendo observar o trailer e acompanhar as notícias.

Outras séries amadoras há, embora sem a mesma qualidade. Posso enumerar a extinta Starship Exeter e ainda Star Trek: the Romulan Wars, Enterprise: the Next Generation, Tales of the Seventh Fleet, Starfleet Renegades, Star Trek: Aurora, Star Trek: Encarta, … A lista é longa.

Atualização de 2016:

Star Trek: Phase II voltou a se chamar “Star Trek: New Voyages”. O produtor executivo James Cawley emitiu um comunicado no sentido de que havia se tornado insuportável o assédio de pessoas criticando, atacando e agredindo seu trabalho. Essas pessoas desgastam, não agregam e, por fim, venceram o ânimo de Cawley, que preferiu dedicar sua atuação a projetos que, ao menos, rendem dinheiro. Então, quanto a Phase II/New Voyages, ele se mantém como produtor executivo, mas deixou a atuação como Kirk a cargo do ator profissional Brian Gross. Os episódios recentes incluem “Kitumba”, um dos que foram escritos para a Phase II dos anos 70 e não filmados então, com uma perspectiva inovadora sobre o Império Klingon (que, lembre-se, não havia sido exibido na época; tudo que vimos em TNG ainda estava por vir) e a participação de atores de Star Trek Continues no papel de Klingons e de Gil Gerard (o Buck Rogers dos anos 70) como almirante; “Mind Sifter”, com a experiente atriz Rebecca Wood, veterana de Hidden Frontier, onde fizera a ardilosa Presidente Vindenpawl, agora no papel de uma enfermeira, em um episódio com duas referências internas ao clássico “Nightmare at 20,000 Feet” e James Cawley em uma rápida ponta como maluco em um hospício; e “The Holiest Thing”, com a esposa de Brian Gross no papel da Dra. Carol Marcus, testando seus primeiros passos na terraformação e tendo-os desafiados pela protomatéria. Os últimos episódios tiveram uma colaboração mais intensa de Ralph Miller e do alemão Tobias Richter, mago das belas visões da Enterprise em CGI. Aliás, com a chegada de Gross, a Enterprise passou por uma pequena reforma, que lhe deu a aparência que teria na abortada série Phase II dos anos 70 (uma espécie de visual intermediário entre o da série Clássica e o do primeiro filme de cinema).

Infelizmente, ST:NV acabou. Em razão das novas regras da CBS para filmes amadores de Jornada nas Estrelas (q.v. mais detalhes abaixo), Cawley decidiu fechar o website americano, mantendo apenas seu espelho alemão. Foi definitivamente interrompida a elaboração de novos episódios, nem sequer se concluindo aqueles que já estavam em pós-produção, embora os financiadores vão ter acesso ao próximo episódio, que estava quase pronto.

Star Trek Continues segue de vento em popa. A série está ainda mais próxima da Clássica a cada episódio, assemelhando-se em mínimos detalhes que às vezes nem reparamos: as cores, a iluminação, as tomadas de câmera, a música incidental, até as sombras ao fundo. Em qualidade, considero que ela conseguiu a incrível proeza de superar ST:NV. Entre os personagens fixos, há uma conselheira, em uma espécie de pioneirismo retroativo da função que, cem anos depois, será desempenhada por Deanna Troi. Esta série costuma fazer menos referências a episódios de Star Trek (seja a original ou outras séries) do que ST:NV, evitando o que se convencionou chamar de continuity porn.

Star Trek: Renegades afinal lançou seu episódio piloto em 2015. Sobre ele já publiquei uma resenha em inglês. Em síntese, a série ambienta-se no futuro após Star Trek: Voyager, quando traidores assumiram posições importantes no Comando da Frota Estelar. O Almirante Chekov (interpretado por Walter Koenig), auxiliado pela Almirante Uhura (interpretada por Nichelle Nichols e só vista no segundo episódio) e pelo Comandante Tuvok (interpretado pelo produtor Tim Russ), estabelece uma aliança entre a Segurança da Frota Estelar e um grupo de renegados que tomaram posse de uma nave da Frota, a Icarus, com o propósito de combater a ameaça através de canais pouco ortodoxos. Entre os atores, Robert Picardo retoma seu papel de Lewis Zimmermann, Edward Furlong faz um personagem que nos traz uma surpreendente revelação nas últimas cenas do piloto, e a bela Sean Young é a ciberneticista da tripulação. Em razão das regras da CBS, recentemente Renegades abandonou o rótulo e o universo de Star Trek, e seu segundo episódio, “Requiem”, tomará lugar em um novo e autônomo ambiente.

Outra série que merece comentário é a abortada Star Trek: Axanar. A intenção de seus produtores era mostrar a Guerra dos Quatro Anos, que, de acordo com a literatura trekker, aconteceu entre a Federação e o Império Klingon pouco antes da série Clássica. O protagonista seria o Capitão Garth de Izar, célebre herói que tinha a admiração de James Kirk em razão de seu desempenho na Batalha de Axanar, interpretado pelo produtor Alec Peters. Após o episódio piloto Prelude to Axanar, o estúdio tornou-se réu em uma ação judicial promovida pela CBS/Paramount. Esta ação vem sendo acompanhada de perto e discutida por todos os websites com algum interesse nas produções amadoras de Jornada nas Estrelas. Na minha interpretação, ela é motivada pela percepção (errada) da CBS no sentido de que essas produções amadoras esvaziariam o mercado para a iminente série oficial Star Trek: Discovery. De fato, as séries amadoras que destaquei superam a qualidade das produções oficiais, e a CBS estaria, com a ação, inibindo aquilo que percebe (erradamente) como uma concorrência. Essencialmente, a CBS nivela por baixo. Por enquanto, Axanar está perdendo o processo.

(Interessante observar que Alec Peters chegou a aparecer como o Capitão Garth também em Star Trek: Phase II, na vinheta “Going Boldly”, que introduz a nave após sua reforma e temporàriamente muda o nome da série. É de se notar a frequente participação, em uma série amadora, de atores de outra série amadora, às vezes no mesmo papel, às vezes não. Phase II/New Voyages e Farragut compartilham estúdios e equipes, e um dos personagens de Farragut, o chefe de segurança Prescott, interpretado por Paul Sieber, aparece tanto em Farragut como em Phase II.)

Uma consequência particularmente desastrosa do processo de Axanar foi a emissão pela Paramount, no início de 2016, de suas draconianas regras para a criação de filmes amadores. Em síntese e em termos práticos, a CBS proibiu a criação de novos filmes de fãs. Por causa dessas regras, alguns estúdios escolheram suspender suas produções enquanto aguardam o resultado do processo (como é o caso de Star Trek: Phoenix, sobre a qual não escrevi), outros as cessaram, conforme comentei acima sobre New Voyages, e outros, ainda, decidiram por outros rumos, como Renegades.

Neste fim de 2016, tudo permanece em um estado incerto, contrastando com o clima animador de apenas um ano atrás. Todavia, as produções nunca tiveram tão boa qualidade como temos visto, mostrando que o espírito criativo dos trekkers permanece tão vivo quanto sempre foi nossa apaixonada tradição.

EOF

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Minha pseudorresenha de Man of Steel

Tal como no caso de Into Darkness (q.v. abaixo), não vou resenhar o filme do Homem Que Avoa (Agora Com a Cueca Para Dentro da Calça), porque muita gente já está fazendo isso e com mais habilidade do que eu. Vim apenas relatar alguns detalhes que me chamaram a atenção. Há spoilers, de modo que, novamente, a fonte do texto é branca. Você tem que selecionar para lê-lo.

Logo ao começo do filme, os kryptonianos golpistas são condenados à Zona Fantasma. Já tínhamos visto essa cena, embora de outro modo, em Superman II, de 1980. Naquela ocasião como nesta, a Zona Fantasma acaba servindo mais como salvação do que como punição. Pense bem: o planeta é destruído, todos os kryptonianos morrem — exceto Kal-El e os ocupantes da Zona Fantasma. Neste filme de 2013, o prêmio é ainda mais evidente, porque, assim que o planeta se acaba, cessa também o efeito da Zona Fantasma, e os criminosos estão livres! Você poderia argumentar que, com o fim de Krypton, vão-se também suas leis e toda a importância que poderia ter seu sistema penal. Seria como libertar todos os prisioneiros em um país que se revoluciona e arruína, já que não faria sentido continuar a punir alguém segundo regras que já não têm relevância ou vigência. Só que eu tenho certeza de que não foi essa a intenção dos roteiristas, assim como tenho certeza de que não faz o menor sentido privilegiar os criminosos e deixar que morra o restante da população.

Vários personagens do filme são velhos conhecidos de quem conhece os quadrinhos. Falar em Jor-El, Lara, Lois Lane e Perry White é um tanto óbvio, mas também estão presentes o robô flutuante Kelex — com bàsicamente a mesma aparência que lhe deu John Byrne –, Pete Ross, Lana Lang e até mesmo Ken Braverman, o valentão que descobriu a identidade secreta de Kal-El/Clark Kent na história A morte de Clark Kent, de 1995. Braverman é aquele moleque ruivo que desafia Clark, jogando-o ao chão em frente a uma oficina mecânica, e afinal se afasta quando vê que os adultos estão olhando.

Aliás, estudando os créditos do filme no IMDB, descubro que há alguns extras (nem sequer são personagens secundários) chamados Byrne e Sekowski. John Byrne foi o roteirista e desenhista do reboot do Super-Homem na minissérie The Man of Steel, de 1986, sucedida por um período em que foi ele o principal Autor por trás do personagem. Mike Sekowski foi o principal desenhista da Liga da Justiça nos anos 60.

No filme, o ruivo Pete Ross é um gordinho que começa provocando Clark Kent no ônibus escolar, é salvo de afogamento e, quando adulto, é gerente de uma IHOP. As IHOPs são lanchonetes sub-McDonald’s, bem fuleirinhas, onde só trabalham pessoas de pouca qualificação. Creio que a ideia fosse mostrar um emprego bem medíocre para o ex-colega de Clark. Em contraste, nos quadrinhos, Pete Ross é um bom e velho amigo de Clark Kent, não tem nada de gordinho, casa-se com Lana Lang e, bem mais tarde, chega a senador e vice-presidente dos Estados Unidos na década de 90, ao ponto de exercer a presidência.

Ainda em Smallville, Jonathan Kent foi um idiota de escolher a morte. Pense bem: independente de superpoderes, o que você tem na estrada é um jovem de dezessete anos, na flor da idade e no máximo de sua capacidade física, e um cansado agricultor que já está entrando na senectude. QUEM você envia para resgatar um cachorro preso na camioneta? QUEM teria mais possibilidades diante de um tornado? E quem teria que ficar abrigado embaixo do viaduto? Aliás, pensando bem, seria uma EXCELENTE oportunidade para se usarem os superpoderes, já que, no meio da ventania, não daria para ver que estivessem sendo usados. Mesmo que Clark não voasse nem usasse superforça, ele não seria ferido, nem ninguém perceberia que o normal seria não sobreviver. Portanto, Jonathan Kent foi um idiota que buscou a própria morte e por isso mereceu morrer.

Na minissérie Man of Steel, de Byrne, assim como na divertida série Lois & Clark, o uniforme de Super-Homem foi criado e costurado por Martha Kent, com acréscimo do S por Jonathan Kent. Neste filme, o uniforme tem origem kryptoniana, aproximando-se do retorno às origens proposto em The Adventures of Superman #455, de junho de 1989 (publicada em Super-Homem no. 85 em julho de 1991). Além disso, tal como no filme de 1978 e nos quadrinhos pós-Byrne, agora o símbolo de S já era usado pela Casa de El em Krypton. Absolutamente não há erro nem criatividade nisso; é uma questão de escolha do roteirista, que dará preferência à versão que mais combina com a história que quer contar. Pessoalmente, prefiro esta versão usada no filme, por mais que haja a incrível coincidência de que o símbolo de esperança em Krypton coincida com a letra S.

Aliás, você reparou como a insígnia de Zod lembra um pouco a foice-e-martelo usada por Kal-El na minissérie Superman: Red Son?

Neste filme de 2013, ficamos sabendo que Krypton explorou o espaço no passado, tomando conhecimento da Terra entre muitos outros planetas, e que depois optou pela reclusão. Fica evidente que os kryptonianos erraram ao abandonarem seu programa espacial e se concentrarem no próprio umbigo, já que, no fim, causaram a condenação de Krypton sem terem para onde fugir. A meu juízo, essa solução aproveita a parte dramática, melancólica e inteligente das histórias de John Byrne dos anos 80, sem seu lado ligeiramente estúpido. De acordo com Byrne na minissérie World of Krypton, de 1987-1988 (Super-Homem especial no. 1, de agosto de 1988), e com Jerry Ordway e George Pérez em Action Comics Annual #2, de 1989 (Super-Homem no. 84, de junho de 1991), foram os próprios kryptonianos quem usaram uma arma de guerra para iniciar uma reação em cadeia no núcleo de seu planeta, milênios antes do nascimento de Jor-El. A reação desenvolveu-se lenta mas contìnuamente, enquanto, na superfície, a sociedade evoluía para repudiar as guerras mas, ao mesmo tempo, hipervalorizar tradições, abrir mão de todo contato entre pessoas e estagnar, mais ou menos como a civilização de Solaria e Aurora nos livros The Naked Sun, The Robots of Dawn e Robots and Empire, de Isaac Asimov, e o planeta Vulcano, de nosso querido Sr. Spock. Com o tempo, o gradual envenenamento radioativo causou esterilidade não apenas das ideias mas também dos corpos dos kryptonianos, que já não se reproduziam quando o planeta finalmente explodiu, deixando uma amarga lição sobre o efeito de longo prazo das armas nucleares — muito pertinente naquele fim dos anos 80, quando a Guerra Fria, atingindo o clímax, entrava em sua corrida armamentista final antes de terminar para alívio de todos os terráqueos. A parte estúpida da História de Krypton veio em ACA #2, quando ficou revelado que os kryptonianos tinham um defeito genético que os impedia de deixar o planeta. Ora, em razão de tudo que já foi exposto, é muito mais coerente, trágico e didático supor que eles tenham optado por abandonar suas excursões espaciais, em lugar de dizer que haviam sido impedidos por alguma causa inerente a sua constituição. Além disso, novamente fica a mensagem do preço que se paga por se agredir irresponsàvelmente o planeta onde se vive: os kryptonianos deste filme de 2013 estão usando o núcleo de Krypton como fonte de energia e, com isso, causando a destruição de seu mundo, tal como os terráqueos humanos de 2013 fazem ao queimarem combustíveis fósseis como fonte de energia e, com isso, causarem o aquecimento global e o fim de várias espécies — inclusive sua própria. A solução correta, para eles como para nós, seria abandonar as práticas destrutivas; a paliativa, para eles como para nós, será procurar um novo e acolhedor planeta — exceto que nossa exploração espacial nem de longe está adiantada como a deles.

… Pelo menos a representação de Krypton está coerente com o cenário demonstrado nas histórias de Byrne: desolado, desértico e pontiagudo, contribuindo para isolar as pessoas umas das outras, mas sem aquele aspecto polar de espigões cristalinos contra um céu negro como se vê nos filmes de 1978 e 1980.

Um detalhe que faz TODA a diferença na mitologia do Homem de Aço: neste filme, Lois Lane descobre sòzinha que Clark Kent é o Super-Homem — e cedo! O fim do filme mostra que haverá uma convivência entre eles dali em diante, mas, diferentemente do que aconteceu nos quadrinhos durante décadas, Lois SABE o segredo de Clark, e nem foi ele quem contou.

Repare que, quando Zod discursa para o mundo exigindo a entrega de Kal-El, uma das versões do texto “you are not alone” está em português. Aqui houve um erro de tradução lá em Roliúdi: em português, no contexto em que a frase foi usada, o certo não seria “vocÊ não estÁ sòzinhO”, mas “vocÊS não estÃO sòzinhOS”. Em tempos de salas de projeção digitais, não sei se isso foi só no Brasil ou se também está assim nas exibições de Man of Steel pelo resto do mundo. Na segunda hipótese, suponho que o Brasil tenha passado a chamar a atenção do mundo com todo o petróleo, o ressurgimento da economia e os recentes e futuros eventos de esporte e visita do Papa.

Por falar em Papa, há diversas semelhanças entre Kal-El e Jesus Cristo, certamente intencionais. Este paralelo já foi enfatizado em múltiplos momentos ao longo da História da DC, com o maior e mais notável exemplo na minissérie Kingdom Come (O reino do amanhã na tradução). A noção geral é, naturalmente, a de um deus que caminha entre humanos com aparência de pessoa comum enquanto desempenha diversos milagres sem querer chamar atenção para si. No caso particular, o foco do filme e de Kingdom Come está no papel de Kal-El como salvador da humanidade. No caso do filme, Kal-El está disposto a se sacrificar para conseguir essa salvação, na mesma rendição que é o clímax do Evangelho. Para deixar isso ainda mais evidente, há uma cena onde Kal-El procura um padre numa igreja, aflito e em dúvida: se deve ou não deve assumir o sacrifício. Atrás dele, vê-se um vitral que representa Jesus Cristo no Getsêmane, na mesma passagem do Evangelho onde está em dúvida e pede para, se possível, ser dispensado da função de Cordeiro de Deus, logo antes de ser capturado pelos soldados romanos. O padre fala em esperança e, atrás dele, vê-se outro vitral, onde Jesus Cristo ressuscita. Aliás essa é a mesma justaposição que foi praticada por Kingdom Come perto do fim do capítulo 4, quando o Padre McCay prega em sua igreja com os mesmos vitrais ao fundo.

Outra semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é que, no filme, no momento em que é chamado a salvar a humanidade, Kal-El tem 33 anos de idade. Nos quadrinhos, o Azulão apresenta-se ao mundo antes dos trinta.

Uma terceira semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é o momento em que os militares estão reunidos no deserto e Kal-El desce em pé, braços abertos na posição de crucifixão, a capa esvoaçando e o Sol por trás. É uma visão bem religiosa e dramática de um ser òbviamente superior. Por sinal, Kingdom Come tem essa mesma cena, apenas um pouco diferente.

Durante a luta em Metrópolis, tenho certeza de que todos viram, enormes, as letras “LEX CORP” no caminhão trailer de combustível que é jogado em cima de Kal-El. Ele passa por cima do engate e o caminhão explode no térreo de um prédio, atrás dele. Só que, além disso, há um determinado momento anterior no filme em que Clark chega para visitar a mãe. Fica claro que ele pegou carona em um veículo que vemos acelerar ao fundo. O que algumas pessoas podem não ter visto é que esse veículo não é um ônibus, mas outro caminhão da Lexcorp. Esses dois detalhes minúsculos evidenciam que, embora Lex Luthor não esteja em pessoa neste filme, a Lexcorp é uma entidade onipresente.

A respeito do Coronel Hardy (Christopher Meloni, de Law and Order: Special Victims Unit), o filme cometeu o mesmo erro da série Space: Above and Beyond. Na série (que de outro modo é excelente e recomendo), jovens pilotos de caças espaciais têm a dupla função de atuar como infantaria móvel ao estilo de Starship Troopers. Minha maior crítica a S:AAB é justamente essa impossível dupla especialização. Ou bem se é um piloto (uma profissão que exige dedicação 24/7, inclusive quando se está em terra), ou bem se é um socador de barro (como os chamou Garibaldi em Babylon 5). As duas coisas não dá! Em Man of Steel, Hardy é responsável pelas escavações no Ártico, mas também é o encarregado da infantaria que vai receber Faora-Ul no deserto e, finalmente, é visto aos controles de um C-17… Não dá pra fazer tudo!

Na estação de trem, vemos Zod tentando matar um grupo de terráqueos assustados, que se encolhiam a um canto, enquanto Kal-El tenta impedi-lo. Ao fim, Kal-El mata Zod, para seu grande lamento. O filme não foi específico em expressar o principal valor moral de Clark Kent, que é a preservação da vida — toda e qualquer vida, inclusive a de um criminoso kryptoniano. Mesmo assim, chegou a mostrar (sem explicar) que Kal-El só matou Zod por uma razão, que era a total impossibilidade de detê-lo de outro modo. Ficou muito claro que, enquanto Kal não o matasse, Zod estaria o tempo inteiro tentando acabar com os humanos; a única forma de interromper a matança seria pôr fim ao próprio Zod: uma vida sendo interrompida para salvar bilhões. Essa é a mesma escolha difícil com que Clark se depara, e que Kal-El pratica, em Superman #22, de outubro de 1988 (Super Powers no. 17, de maio de 1990). Nos quadrinhos, foi uma experiência traumática cujos efeitos se estenderam e ramificaram por todo o universo DC por um longo tempo. No filme — veremos. Mas ele me pareceu curado depois de um mero grito de desespero e lamúria.

É claro que, morto Zod, você não ouviu vozes, suspiros aliviados nem agradecimentos dos terráqueos que estavam acuados no canto, nem os viu rodeando o Homem de Aço diante do general inerte. Ao contrário: só o que se vê é uma pequena e densa nuvem de fumaça preta, vindo justamente de onde Zod os encurralara. Alguma dúvida de que foram efetivamente torrados a despeito dos esforços do Azulão? Imagino que uma das intenções dos roteiristas, ostensiva ou mesmo subconsciente, fosse ter Kal-El punindo Zod com a pena capital em razão desse específico homicídio.

E isso era o que eu tinha para comentar. Sua vez.

EOF

Mais boçais e ladinos

Algum tempo atrás, neste belogue, reproduzi uma nota da Revista de História da Biblioteca Nacional sobre a diferença entre escravos boçais e escravos ladinos. Estava ali, não a origem dessas palavras, mas ao menos do uso que temos feito delas nos últimos duzentos anos, ou por aí.

Para meu total e sincero espanto, a cada vez em que vou analisar as estatísticas deste belogue, descubro que tem sempre uma cabeçada de gente que chegou a ele através do Google, justamente digitando “boçais e ladinos”, “escravos boçais e ladinos”, “diferença entre boçais e ladinos” e expressões similares. É incrível, é inexplicável, é sensacional a quantidade de pessoas que vêm parar aqui com essas expressões de busca, todo dia. De todas as minhas postagens, essa é, de longe, a que angaria mais hits, descontada a tela de entrada da vez. Nunca vi tamanho sumidouro de atração gravitacional webiana feito meu minúsculo comentário sobre os dois tipos de escravos, verdadeira lâmpada onde vêm orbitar todos os insetos que vagueiam na escuridão digital.

Não estou isolado em escrever sobre o tema. Eu mesmo fiz a busca e descobri várias páginas da Web brasileira diferenciando os dois grupos de escravos. Só que fico intrigado com a motivação por trás das buscas. Até há três anos, eu nem sabia de onde vinha esse uso de “boçais” e “ladinos”, nem jamais havia tido razão para me preocupar com isso. Então, de repente, dezenas, centenas de pessoas começam a procurar a distinção, certamente porque nunca haviam visto essas palavras na vida. Fico me perguntando: estão ensinando isso na escola agora? faz parte do programa do MEC? Tem algum discurso político “de base” usando isso? Está caindo em algum concurso, no ENEM ou no supletivo? De onde o interesse, por que a específica curiosidade? Ainda existe supletivo?

Então esse foi o mistério de hoje. Boa noite.