Mais boçais e ladinos

Algum tempo atrás, neste belogue, reproduzi uma nota da Revista de História da Biblioteca Nacional sobre a diferença entre escravos boçais e escravos ladinos. Estava ali, não a origem dessas palavras, mas ao menos do uso que temos feito delas nos últimos duzentos anos, ou por aí.

Para meu total e sincero espanto, a cada vez em que vou analisar as estatísticas deste belogue, descubro que tem sempre uma cabeçada de gente que chegou a ele através do Google, justamente digitando “boçais e ladinos”, “escravos boçais e ladinos”, “diferença entre boçais e ladinos” e expressões similares. É incrível, é inexplicável, é sensacional a quantidade de pessoas que vêm parar aqui com essas expressões de busca, todo dia. De todas as minhas postagens, essa é, de longe, a que angaria mais hits, descontada a tela de entrada da vez. Nunca vi tamanho sumidouro de atração gravitacional webiana feito meu minúsculo comentário sobre os dois tipos de escravos, verdadeira lâmpada onde vêm orbitar todos os insetos que vagueiam na escuridão digital.

Não estou isolado em escrever sobre o tema. Eu mesmo fiz a busca e descobri várias páginas da Web brasileira diferenciando os dois grupos de escravos. Só que fico intrigado com a motivação por trás das buscas. Até há três anos, eu nem sabia de onde vinha esse uso de “boçais” e “ladinos”, nem jamais havia tido razão para me preocupar com isso. Então, de repente, dezenas, centenas de pessoas começam a procurar a distinção, certamente porque nunca haviam visto essas palavras na vida. Fico me perguntando: estão ensinando isso na escola agora? faz parte do programa do MEC? Tem algum discurso político “de base” usando isso? Está caindo em algum concurso, no ENEM ou no supletivo? De onde o interesse, por que a específica curiosidade? Ainda existe supletivo?

Então esse foi o mistério de hoje. Boa noite.