As séries amadoras de Jornada nas Estrelas: status em 2013

Esta postagem é a atualização de uma outra que publiquei em 2009. Update: ao final, há uma pequena nova atualização, feita em 2016.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web. O que me surpreende (mas não deveria) é que a quantidade dessas produções tem aumentado.

O resultado tem chamado minha atenção. São obras amadoras, mas apresentam valores de produção que estão ao mesmo nível do que era produzido nos anos 60 ou que é produzido hoje. Em vários casos, os atores são de fato profissionais, e as filmagens acontecem no interior de estúdios, em cenários que são reconstruções impressionantes da ponte de comando da Enterprise original. Os efeitos sonoros e a trilha musical estão perfeitamente sincronizados com a ação. Com as câmeras e computadores atuais, os episódios são rodados em HD e contam com tomadas espaciais que fariam inveja às equipes de produção da série original naqueles tempos de barro fofo e pedra lascada. Esse é o caso, especìficamente, de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Farragut e Star Trek: Phase II, que me parecem as mais célebres (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Nos Estados Unidos, é muito comum que os fã-clubes de Jornada nas Estrelas se organizem no formato de naves espaciais. Em 1999-2000, o fã-clube USS Angeles, situado em Los Angeles, produziu cinco episódios de uma série à qual deu o nome Voyages of the USS Angeles e que contava as aventuras de uma tripulação da mesma época de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração. Os personagens tinham os mesmos nomes dos atores e a produção era tosca, mas você via que estavam se divertindo. Mais tarde, houve uma dissensão no grupo, e alguns integrantes, sob a liderança do cineasta iniciante Rob Caves, iniciaram uma série que era continuação de Voyages, repetindo vários personagens e aproveitando a linha de histórias que havia sido iniciada ali. A nova série ganhou o nome de Star Trek: Hidden Frontier.

Em Hidden Frontier, o cenário é a nebulosa em torno do planeta Ba’ku, do filme Star Trek: Insurrection. Como premissa da série, a Federação instala a base estelar Deep Space 12 na fronteira da nebulosa e designa algumas naves estelares para patrulharem a região, entre elas a USS Independence e a USS Excelsior — não a mesma do Capitão Sulu, mas uma integrante da classe Galaxy com três naceles. O comando de DS12 é passado para um comodoro veterano da guerra contra o Dominion. Entre os muitos personagens da série está Shelby, a ousada tenente-comandante de “The Best of Both Worlds”, que, interpretada pela estudante de teatro Risha Denney, vai sendo promovida, primeiro a capitão (comandando a Excelsior) e depois a almirante. Também é recorrente a Almirante Nechayev, velha conhecida do Capitão Picard em diferentes episódios da Nova Geração, e um dos personagens fixos é Robin Lefler, que era alferes e havia sido interpretada por Ashley Judd em dois episódios daquela série. Passados tantos anos, Lefler (agora interpretada por duas diferentes atrizes) é tenente-comandante e engenheira-chefe da Excelsior.

Hidden Frontier durou sete temporadas, ganhando sua própria mitologia, complexidade crescente e valores de produção em aprimoramento contínuo. Com tanta longevidade, é compreensível que tenha havido um certo entra-e-sai de atores e personagens. As histórias tomaram diferentes rumos com a passagem do tempo, formando arcos onde se enfrentaram diferentes arqui-inimigos e onde se pôs foco no desenvolvimento ora de um personagem, ora de outro.

A equipe de produção de Hidden Frontier (ou ao menos parte dela) mantém contato com um fã-clube situado em Dundee, na Escócia, o qual, sob a liderança do ator amador (e enfermeiro em seu emprego diurno) Nick Cook, produz a série Star Trek: Intrepid, até agora com sete episódios. Dessa proximidade nasceram três crossovers, episódios que mostram a interação entre personagens de Hidden Frontier e de Intrepid. Um desses crossovers, chamado Operation Beta Shield, é um filme de duas horas de duração, bastante complexo por depender de conhecimento de boa parte do que aconteceu em Hidden Frontier, mas impressionante na qualidade narrativa e nos valores de produção, com especial destaque para as cenas espaciais. Um aspecto particularmente curioso de Intrepid é ver como toda a tripulação da nave fala com forte sotaque escocês… Aqui, um trailer de Beta Shield.

Os cenários de Hidden Frontier são telas de videogames de Jornada, e a música de abertura é ripada do filme Galaxy Quest. Fora isso, os diálogos e a atuação melhoraram contìnuamente ao longo das sete temporadas, atraindo novos atores amadores e profissionais e gerando duas spinoffs filmadas com esses atores — nominalmente, Star Trek: Odyssey e Star Trek: the Helena Chronicles, ambas as quais prosseguem na história de Operation Beta Shield. Essas duas séries contam uma mesma história, sendo uma (Helena Chronicles) ambientada nesta Galáxia enquanto seus personagens tentam resgatar os personagens da outra (Odyssey), que ficaram isolados em Andrômeda. Após três temporadas, essas duas séries terminaram em 2012, com um episódio final de 127 minutos que reúne atores e personagens de Voyages of the USS Angeles (retomada como série de áudio em determinado momento anterior), Hidden Frontier, Intrepid, Odyssey e Helena Chronicles.

Outras spinoffs de Hidden Frontier prosseguem, incluindo (até hoje) Henglaar, M.D. (apenas em áudio) e Star Trek: Federation One (uma temporada em áudio, outra em vídeo). A mesma equipe produz Star Trek: Diplomatic Relations (contando histórias dos diplomatas da Federação, que atuam depois que a Frota Estelar vai embora, e novamente com a participação do elenco de Intrepid no primeiro episódio); Star Trek: Grissom, que relata as aventuras da navezinha exploradora de Jornada nas Estrelas III antes de ela ser explodida pelos klingons; e Frontier Guard, a única não relacionada ao universo de Jornada nas Estrelas.

Falei bastante de Hidden Frontier, mas ela não é a série amadora de maior ou mais famoso impacto no fandom. Essas honras cabem a Star Trek: Phase II, produzida sob a liderança do ator James Cawley. Profissionalmente, Cawley segue carreira como imitador de Elvis Presley em Las Vegas. Aparentemente essa função lhe rende um bom dinheiro, que ele gasta em um estúdio onde produz sua própria continuação da série original de Jornada nas Estrelas.

Tendo estreado em 2004 sob o nome de Star Trek: New Voyages (o nome atual Phase II veio só depois), esta série tem o propósito de contar as aventuras da Enterprise após o terceiro ano de Jornada nas Estrelas, em um quarto ano que a série não teve — ou não tivera até agora, porque isso está mudando. Para tanto, Cawley reconstruiu os cenários da série original, inclusive uma réplica minuciosa da ponte de comando, e tem contado com a colaboração de diversas pessoas que participaram das séries oficiais, como os atores Walter Koenig (realmente como Chekov), Malachi Throne, William Windom (Comodoro Decker), Barbara Luna, J.G. Hertzler e Tim Russ, o ilustrador Doug Drexler, a consultora Denise Okuda, a roteirista D.C. Fontana, o produtor de efeitos visuais Ronald B. Moore e vários outros. O próprio Cawley faz o papel do Capitão James Kirk, com diferentes atores tendo assumido os papéis de Spock, Sulu, Uhura e Chekov ao longo dos oito episódios já lançados, mas sendo constantes os atores que têm feito McCoy e Scott. Se, de um lado, todos associamos Kirk ao desempenho paradigmático e exagerado de William Shatner, de outro a atuação de Cawley é notável, seguindo até os trejeitos e entonações de Shatner nos mais minuciosos detalhes.

É impressionante como Phase II consegue emular a série Clássica à perfeição. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas. O colorido dos cenários é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas, os mesmos tons de maquiagem, os mesmos filtros nas lentes. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty. Provàvelmente o detalhe que mais dá a sensação de se estar assistindo à série original é a iluminação, que define todo um clima mas que é sempre um componente sutil, de cuja importância frequentemente não nos damos conta, o que bem mostra o quanto a equipe de Cawley estudou a série Clássica. Em contraste, o detalhe que mais se percebe é a música incidental, que é usada exatamente nos mesmos momentos e com as mesmas partituras a que nos acostumamos na série Clássica: os temas de introspecção vulcana, de luta animada, de suspense antes do intervalo, de contraponto cômico, todos esses são empregados como esperamos.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio de Phase II, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare. A produção visual é perfeita e começa com George Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior em companhia de Janice Rand, novamente interpretada por Grace Lee Whitney. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise cai vítima de um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e Kirk envia o Tenente Sulu aos destroços de uma nave inimiga. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte, e quem emerge é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto o hoje idoso Takei.

Star Trek: Phase II” é o nome convencionalmente adotado para a série de Jornada nas Estrelas que a Paramount preparou mas afinal não produziu no fim dos anos 70 e que acabou se materializando como Jornada nas Estrelas: o Filme, com parte de suas ideias reaproveitada na Nova Geração. Fazendo uma espécie de ponte retroativa entre a série original e as produções oficiais que a sucederam, a Phase II de James Cawley inclui o vulcano Tenente Xon (que substituía Spock na Phase II dos anos 70, mas aqui o complementa, interpretado por Patrick Cawley, filho do produtor) e uma promoção de Sulu a tenente-comandante (da qual decorre o cômico curta-metragem “Center Seat”). Além disso, o traje antirradiação de sua Engenharia é o mesmo que vemos nos filmes de cinema.

Entre os episódios da Phase II de Cawley estão as duas partes de “Blood and Fire”, uma história que o escritor David Gerrold propôs para a Nova Geração mas não foi aceita naquela época. Agora, o roteiro ganha vida com as participações de Denise Crosby, Bobby Rice como Alferes Peter Kirk (um veterano de Hidden Frontier e Odyssey, que comentei acima, aqui fazendo o papel do sobrinho do capitão), e Nick Cook (o escocês que normalmente faz o capitão da Intrepid, mas que, aqui, é um camisa-vermelha). A adaptação para esta filmagem é de Carlos Pedraza, um colombiano que também escrevia Hidden Frontier, e a direção é de Gerrold, que recentemente se tornou um dos produtores de Phase II.

O episódio mais recente de Phase II é “The Child”, que foi escrito por Jon Povill para a Phase II dos anos 70, realizado como episódio da Nova Geração em 1988 mas, agora, refilmado pela equipe de Cawley sob a direção de Povill e relançado em 2012 como o episódio da série Clássica que poderia ter sido. Neste episódio vemos o Tenente-Comandante Sulu ser interpretado por J.T. Tepnapa, um dos atores mais importantes de Hidden Frontier e The Helena Chronicles. O próximo episódio, a ser lançado em outubro de 2013, é “Kitumba”, outro que foi escrito para a Phase II original mas que até hoje não havia sido filmado. Já vi um dos trailers de “Kitumba” e percebi que o “Comodoro Probert” é interpretado por Andrew Probert, o artista que desenhou as Enterprises dos filmes de cinema e da Nova Geração. Outros quatro episódios estão em filmagem ou pré-produção.

Uma grande diferença de Phase II em relação à série Clássica são os efeitos visuais, especialmente as tomadas externas de naves espaciais. Os produtores sabem resistir à tentação de abusar do CGI, que se mantém como ferramenta a serviço da história (em vez do contrário, tão comum em filmes amadores). Mesmo assim, são empolgantes os movimentos da Enterprise e de seus rivais klingons no espaço. Dê só uma olhada nas primeiras tomadas de “Blood and Fire” Part Two.

Outras produções recentes foram bem sucedidas em trazer de volta a sensação de se estar assistindo a um episódio da série original de Jornada nas Estrelas. Um bom exemplo é Starship Farragut, que começou tão tosca quanto todas as demais porém se aperfeiçoou e hoje tem quase a mesma qualidade de Phase II, com exibição em alta definição e cenários que replicam os da série Clássica. Em Farragut, o produtor John Broughton atua como o Capitão Carter, comandando a nave estelar de mesmo nome, e os produtores Michael e Holly Bednar fazem o oficial de ciências e a chefe da Engenharia. Nesta série já vimos a participação especial de James Cawley como Capitão Kirk e podemos ver o ator Paul Sieber como o chefe de segurança Henry Prescott. Conforme uma rápida consulta ao IMDB poderá lhe mostrar, Sieber já apareceu em Phase II no papel de um alienígena e em breve deveremos vê-lo novamente como Prescott, mas em “Kitumba”, mostrando o grau de intercâmbio entre os estúdios e suas produções. O próprio Cawley já havia aparecido em Hidden Frontier no papel do Capitão Mackenzie Calhoun, um personagem que, na série de livros New Frontier, comandava a USS Excalibur e tinha a Comandante Shelby como sua imediata.

Aliás, essa mistura de elencos e equipes pode render bons momentos de diversão. Em 2010, a FedCon (grande convenção europeia de Jornada nas Estrelas) foi brindada com este maravilhoso vídeo produzido por James Cawley e por seu colaborador Tobias Richter. Trata-se de uma brincadeira que trata os filmes de J.J. Abrams como muitos trekkers gostariam de ver, inclusive enfatizando a diferença de tamanho entre a Enterprise original e a do jovem diretor. Outra brincadeira, produzida pela equipe de Farragut, encontra-se aqui, onde o Presidente Nixon tem um delírio que somente o Agente Smith (de Matrix) poderia abordar.

Em mais um recente e excelente caso de homenagem extra-oficial à série Clássica, eu não poderia deixar de mencionar o filme em três partes intitulado Star Trek: Of Gods and Men. Trata-se de uma história de viagem no tempo produzida por Tim Russ que tem o próprio como Tuvok, mais as participações de Nichelle Nichols como Uhura, Walter Koenig como Chekov, Alan Ruck novamente como Capitão Harriman (bem melhor do que quando comandou a Enterprise em Generations), Garrett Wang, J.G. Hertzler, Ethan Phillips, Chase Masterson e Cirroc Lofton.

Uma característica comum a todas estas séries feitas por fãs — além da paixão de quem as faz — é sua qualidade artesanal. Os créditos finais mostram a sintomática repetição de nomes: é muito frequente vermos a mesma pessoa como ator, produtor, editor, supervisor de roteiro, figurinista, carpinteiro, motorista, pintor, eletricista e artista de CGI; enquanto algum colega é ator, produtor, marceneiro, supervisor de efeitos visuais, maquiador, fotógrafo e continuísta; e uma terceira pessoa participa como atriz, produtora, roteirista, iluminadora, eletricista, maquiadora e operadora de som… E por aí vai.

A mais recente fanseries a seguir os passos da série original é Star Trek Continues, produzida pelo mesmo estúdio de onde sai Starship Farragut. O ator Vic Mignogna (que já atuara em Phase II) faz James Kirk ao comando da Enterprise (já tendo aparecido nesse papel em “The Price of Anything”, o mais recente episódio de Farragut), tendo a seu lado Todd Haberkorn (ator e diretor veterano de Farragut e de Phase II) como Spock, Larry Nemecek como McCoy e Chris Doohan como Scotty. Permita-me enfatizar: Nemecek é um dos mais ativos fãs antigos de Jornada, tendo publicado vários trabalhos, dos quais o mais famoso é seu ST:TNG Companion. Já Chris Doohan é filho do Scotty original, James Doohan. Todos os atores do elenco principal de Star Trek Continues são profissionais, embora a produção não seja oficial. No primeiro episódio, “Pilgrim of Eternity”, o ator Michael Forest retorna ao papel de Apolo, que desempenhara na série Clássica em “Who Mourns for Adonais?”.

A próxima grande produção deve ser Star Trek: Renegades, que promete trazer em 2014 uma nova história com Walter Koenig, Tim Russ, J.G. Hertzler e outros experientes atores de Jornada nas Estrelas. Recomendo observar o trailer e acompanhar as notícias.

Outras séries amadoras há, embora sem a mesma qualidade. Posso enumerar a extinta Starship Exeter e ainda Star Trek: the Romulan Wars, Enterprise: the Next Generation, Tales of the Seventh Fleet, Starfleet Renegades, Star Trek: Aurora, Star Trek: Encarta, … A lista é longa.

Atualização de 2016:

Star Trek: Phase II voltou a se chamar “Star Trek: New Voyages”. O produtor executivo James Cawley emitiu um comunicado no sentido de que havia se tornado insuportável o assédio de pessoas criticando, atacando e agredindo seu trabalho. Essas pessoas desgastam, não agregam e, por fim, venceram o ânimo de Cawley, que preferiu dedicar sua atuação a projetos que, ao menos, rendem dinheiro. Então, quanto a Phase II/New Voyages, ele se mantém como produtor executivo, mas deixou a atuação como Kirk a cargo do ator profissional Brian Gross. Os episódios recentes incluem “Kitumba”, um dos que foram escritos para a Phase II dos anos 70 e não filmados então, com uma perspectiva inovadora sobre o Império Klingon (que, lembre-se, não havia sido exibido na época; tudo que vimos em TNG ainda estava por vir) e a participação de atores de Star Trek Continues no papel de Klingons e de Gil Gerard (o Buck Rogers dos anos 70) como almirante; “Mind Sifter”, com a experiente atriz Rebecca Wood, veterana de Hidden Frontier, onde fizera a ardilosa Presidente Vindenpawl, agora no papel de uma enfermeira, em um episódio com duas referências internas ao clássico “Nightmare at 20,000 Feet” e James Cawley em uma rápida ponta como maluco em um hospício; e “The Holiest Thing”, com a esposa de Brian Gross no papel da Dra. Carol Marcus, testando seus primeiros passos na terraformação e tendo-os desafiados pela protomatéria. Os últimos episódios tiveram uma colaboração mais intensa de Ralph Miller e do alemão Tobias Richter, mago das belas visões da Enterprise em CGI. Aliás, com a chegada de Gross, a Enterprise passou por uma pequena reforma, que lhe deu a aparência que teria na abortada série Phase II dos anos 70 (uma espécie de visual intermediário entre o da série Clássica e o do primeiro filme de cinema).

Infelizmente, ST:NV acabou. Em razão das novas regras da CBS para filmes amadores de Jornada nas Estrelas (q.v. mais detalhes abaixo), Cawley decidiu fechar o website americano, mantendo apenas seu espelho alemão. Foi definitivamente interrompida a elaboração de novos episódios, nem sequer se concluindo aqueles que já estavam em pós-produção, embora os financiadores vão ter acesso ao próximo episódio, que estava quase pronto.

Star Trek Continues segue de vento em popa. A série está ainda mais próxima da Clássica a cada episódio, assemelhando-se em mínimos detalhes que às vezes nem reparamos: as cores, a iluminação, as tomadas de câmera, a música incidental, até as sombras ao fundo. Em qualidade, considero que ela conseguiu a incrível proeza de superar ST:NV. Entre os personagens fixos, há uma conselheira, em uma espécie de pioneirismo retroativo da função que, cem anos depois, será desempenhada por Deanna Troi. Esta série costuma fazer menos referências a episódios de Star Trek (seja a original ou outras séries) do que ST:NV, evitando o que se convencionou chamar de continuity porn.

Star Trek: Renegades afinal lançou seu episódio piloto em 2015. Sobre ele já publiquei uma resenha em inglês. Em síntese, a série ambienta-se no futuro após Star Trek: Voyager, quando traidores assumiram posições importantes no Comando da Frota Estelar. O Almirante Chekov (interpretado por Walter Koenig), auxiliado pela Almirante Uhura (interpretada por Nichelle Nichols e só vista no segundo episódio) e pelo Comandante Tuvok (interpretado pelo produtor Tim Russ), estabelece uma aliança entre a Segurança da Frota Estelar e um grupo de renegados que tomaram posse de uma nave da Frota, a Icarus, com o propósito de combater a ameaça através de canais pouco ortodoxos. Entre os atores, Robert Picardo retoma seu papel de Lewis Zimmermann, Edward Furlong faz um personagem que nos traz uma surpreendente revelação nas últimas cenas do piloto, e a bela Sean Young é a ciberneticista da tripulação. Em razão das regras da CBS, recentemente Renegades abandonou o rótulo e o universo de Star Trek, e seu segundo episódio, “Requiem”, tomará lugar em um novo e autônomo ambiente.

Outra série que merece comentário é a abortada Star Trek: Axanar. A intenção de seus produtores era mostrar a Guerra dos Quatro Anos, que, de acordo com a literatura trekker, aconteceu entre a Federação e o Império Klingon pouco antes da série Clássica. O protagonista seria o Capitão Garth de Izar, célebre herói que tinha a admiração de James Kirk em razão de seu desempenho na Batalha de Axanar, interpretado pelo produtor Alec Peters. Após o episódio piloto Prelude to Axanar, o estúdio tornou-se réu em uma ação judicial promovida pela CBS/Paramount. Esta ação vem sendo acompanhada de perto e discutida por todos os websites com algum interesse nas produções amadoras de Jornada nas Estrelas. Na minha interpretação, ela é motivada pela percepção (errada) da CBS no sentido de que essas produções amadoras esvaziariam o mercado para a iminente série oficial Star Trek: Discovery. De fato, as séries amadoras que destaquei superam a qualidade das produções oficiais, e a CBS estaria, com a ação, inibindo aquilo que percebe (erradamente) como uma concorrência. Essencialmente, a CBS nivela por baixo. Por enquanto, Axanar está perdendo o processo.

(Interessante observar que Alec Peters chegou a aparecer como o Capitão Garth também em Star Trek: Phase II, na vinheta “Going Boldly”, que introduz a nave após sua reforma e temporàriamente muda o nome da série. É de se notar a frequente participação, em uma série amadora, de atores de outra série amadora, às vezes no mesmo papel, às vezes não. Phase II/New Voyages e Farragut compartilham estúdios e equipes, e um dos personagens de Farragut, o chefe de segurança Prescott, interpretado por Paul Sieber, aparece tanto em Farragut como em Phase II.)

Uma consequência particularmente desastrosa do processo de Axanar foi a emissão pela Paramount, no início de 2016, de suas draconianas regras para a criação de filmes amadores. Em síntese e em termos práticos, a CBS proibiu a criação de novos filmes de fãs. Por causa dessas regras, alguns estúdios escolheram suspender suas produções enquanto aguardam o resultado do processo (como é o caso de Star Trek: Phoenix, sobre a qual não escrevi), outros as cessaram, conforme comentei acima sobre New Voyages, e outros, ainda, decidiram por outros rumos, como Renegades.

Neste fim de 2016, tudo permanece em um estado incerto, contrastando com o clima animador de apenas um ano atrás. Todavia, as produções nunca tiveram tão boa qualidade como temos visto, mostrando que o espírito criativo dos trekkers permanece tão vivo quanto sempre foi nossa apaixonada tradição.

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