Múltiplos pontos de contato

Hoje tratarei de dois tópicos diferentes dentro de um mesmo assunto, que são os quadrinhos de super-heróis da DC Comics. Os dois tópicos têm um ponto de contato que merece resenha, e foi por isso que vim aqui.

O primeiro tópico são edições anuais. A editora DC Comics publica mensalmente os títulos que trazem as histórias com seus super-heróis. (Tudo que digo neste texto é verdade como regra em 2013, mas os títulos mudam com o correr dos anos e minha leitura ainda está em 1996, de modo que os exemplos específicos que dou são daquele ano.) Então, as contínuas aventuras do Super-Homem saem em Action Comics, The Adventures of Superman e Superman; as do Batman, em Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat e The Batman Chronicles; outros heróis saem em Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman e muitos, muitos outros títulos que o público leigo não reconheceria, como Nightwing, Azrael e Impulse.

Normalmente, cada uma dessas séries tem doze edições por ano. As mais populares são acompanhadas de outras séries com periodicidade anual, que, na prática, equivalem a edições especiais — como se fosse uma décima-terceira edição do título principal. São os Annuals, como Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. Pela prática mais comum da editora, a história que vem em um Anual não integra a sequência da história que está sendo contada ao longo dos meses na série principal; mas, mesmo assim, faz parte da cronologia oficial. Cada Anual costuma ter mais páginas do que o título regular correspondente, e alguns têm mais de uma história por edição.

Nos anos 90, a DC costumava dar um mesmo tema aos Anuais de cada ano. Por exemplo, em 1991, todos foram interessantes histórias vinculadas ao evento Armageddon 2001. Em 1994, todos foram histórias do tipo Elseworlds. Já em 1996, todos os Anuais traziam o subtítulo “Legends of the Dead Earth”. Cada um contava uma história que não era necessàriamente compatível com as dos outros Anuais, mas a cada roteirista a editora incumbiu de criar uma variação sobre o mesmo tema: um futuro distante onde o planeta Terra não existe mais. Nesse futuro, o herói publicado pelo título regular (não o do Anual) já morreu há séculos, mas sua memória sobrevive de algum modo, e outro herói segue sua tradição.

Batman Annual #20. História fraca.

Green Lantern Annual #5. História divertida.

Na sua maioria, esses Anuais ficaram ruins. Isso não é exatamente uma surpresa, já que, de acordo com a Lei de Sturgeon, 90% de toda a produção cultural é lixo. Não poderia ser de outro modo: primeiro que, estatìsticamente, não faria sentido que tudo fosse bom, e é justamente daí que a palavra “medíocre” deixou de significar apenas “médio” e passou a significar “ruim”; segundo que, por definição, você só repara que alguma coisa é boa porque ela se destaca do resto, e é daí que a palavra “bom” passa a ter significado. Se tudo fosse bom, você não perceberia que fosse bom, nem, portanto, teria sequer o conceito ou um nome para ele.

Justamente por tudo isso, quando um desses Anuais ficou bem melhor do que os outros, ele chamou minha atenção. Refiro-me a Legionnaires Annual #3, que foi um dos últimos Anuais de 1996, tendo sido publicado junto com os regulares de dezembro. Diferente dos outros Anuais de 1996, este fez sua história como continuação de outra que acontecia em um título principal.

É nesse momento que suspendemos a discussão dos Anuais de 1996 e entramos no segundo tópico, que é a cronologia dos vários personagens chamados “Flash”. Tal como no caso de qualquer outro super-herói da DC, uma cronologia completa mereceria extensas explicações e os devidos comentários. Infelizmente, diante do escopo desta discussão, vou ter que ficar devendo o tratamento que o Flash merece, porque seria uma exposição muito longa, com muitos detalhes. Apenas acredite que tudo que eu digo a seguir tem uma história fascinante e minuciosa por trás, e faça a si mesmo o favor de pesquisá-la, porque há muito esforço e muita criatividade envolvidos. Por ora, prossigamos.

Acompanhe. Històricamente, o epíteto “The Flash” foi atribuído a um personagem chamado Jay Garrick que havia adquirido supervelocidade. As histórias desse Flash foram publicadas de 1940 até 1949, durante a Era de Ouro dos quadrinhos, e então sua revista Flash Comics deixou de ser publicada. Talvez você ainda se lembre dele: camisa vermelha, calça azul, capacete, sem máscara.

Jay Garrick, o primeiro Flash. Tentei usar a imagem da Wikipedia, mas o WordPress não aceita. Então vá na Wikipedia (em inglês, por favor) e jogue “Jay Garrick”.

Em 1956, a DC Comics reformulou o conceito e lançou um novo personagem com o nome de Flash. Desta vez, o corredor era um químico forense e atrasildo contumaz chamado Barry Allen, que adquiriu seu superpoder ao ser atingido por um raio no laboratório. Este segundo Flash deu continuidade a Flash Comics, sendo hoje considerado o personagem que inaugurou a Era de Prata dos quadrinhos na DC.

O segundo Flash, Barry Allen

Esse é o Flash que ganhou fama, que os leitores passaram a amar e que o público leigo conhece. Ele é a epítome do herói de bom coração disposto a sacrificar a própria vida para salvar a dos outros — em alguns casos mais do que o próprio Super-Homem, que é considerado o arquétipo do super-herói por todos os seus aspectos físicos e psicológicos.

Em 1961, com a edição The Flash #123 e sua história “Flash de dois mundos”, o roteirista Julius Schwartz trouxe o conceito que, a meu juízo, é o mais genial e estimulante de mentes em todo o Universo DC: a noção de universos paralelos onde os heróis têm contrapartes que são como diferentes versões da mesma pessoa. Com essa edição, ficou retroativamente declarado que o antigo Flash (Jay Garrick) continuava existindo apesar de ter deixado de ser publicado. É que suas aventuras aconteciam em outro universo, na assim chamada Terra-2 (no Brasil, “Terra Paralela”). Exercendo um salto dimensional, Barry Allen encontra Jay Garrick, declarando-se seu admirador e imitador.

The Flash #123, uma edição clássica. Esta história mudou todo o universo DC. Um exemplar original custa mais de mil dólares, mas, felizmente, é fácil encontrar reimpressões.

Nos anos subsequentes da Era de Prata, aprendemos que todos os heróis que haviam sido publicados durante a Era de Ouro (de 1938 a 1951), inclusive Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, faziam parte da Terra-2, enquanto os heróis que estavam sendo publicados desde 1955 estavam ambientados na Terra-1 (no Brasil, “Terra Ativa”). Logo, havia dois Super-Homens, dois Batmen, duas Mulheres-Maravilhas, dois Lanternas Verdes (sendo um deles Alan Scott e o outro Hal Jordan), dois Flashes etc., um de cada em cada Terra. A grande maioria dos títulos regulares da DC contavam as aventuras da Terra-1, mas, nos anos 80, alguns títulos passaram a contar as aventuras que continuavam na Terra-2, fora da cronologia principal da DC. Eram muito comemorados os encontros de heróis dos dois universos, especialmente nas ansiosamente esperadas histórias que saíam uma vez por ano nas edições regulares de Justice League of America.

(Incidentalmente, a variedade de Terras em vários universos só veio a se tornar um dos pontos relevantes da DC na minissérie Crise nas infinitas Terras, em 1985-1986. Essa extensa história, escrita por Marv Wolfman e maravilhosamente desenhada por George Pérez, redefiniu todo o Universo DC, com um impacto fundamental na cronologia de todos os personagens e efeitos permanentes que são discutidos até hoje. Na época, seu propósito era extinguir o multiverso, matar vários personagens e reunir os sobreviventes em um universo único e simplificado. Com o correr dos anos, a ideia de multiverso voltou, já que era boa demais para ser desperdiçada, mas ela só voltaria a ser tema principal de discussão no período 2006-2008, com Crise infinita e Crise final.)

Em 1984-1985, a revista The Flash lançou Barry Allen ao século 30, em uma longa e complexa história onde ele nunca mais voltou a sua época original. Quando houve a Crise nas Infinitas Terras, Barry fez o sacrifício final para salvar as várias Terras, mas ninguém testemunhou sua morte. De acordo com George Pérez, Barry foi escolhido para mártir porque com ele havia começado a ideia do multiverso na DC, portanto também com ele se extinguia esse multiverso.

O sacrifício final de Barry Allen, salvando os universos da DC em sua última corrida.

Então, em uma reviravolta que foi bastante controversa na época e atraiu a fúria de vários fãs, não apenas Barry ficou morto definitivamente(*) (o que nunca acontece com personagem nenhum de quadrinhos, mas finalmente aconteceu com ele) como foi sucedido por Wally West, sobrinho de sua esposa. Wally já era conhecido dos leitores, porque havia sofrido o mesmo tipo de acidente de Barry (pois é, os roteiristas eram menos criativos na Era de Prata) e, durante um bom tempo, seguiu os passos de seu amado e admirado tio-afim como Kid Flash, tendo, aliás, feito parte dos Titãs e dos Novos Titãs. Com a morte de Barry, Wally passou a ser o terceiro Flash.

Kid Flash (Wally West durante a Era de Prata)

Ao fim da Crise, Wally assume o legado do tio-afim.

Wally West como o terceiro Flash, após a Crise.

[Parêntese: a série de TV The Flash, que teve vida curta em 1990, contava as aventuras de Barry Allen, cujas origem e profissão coincidiam com as de Barry Allen nos quadrinhos da Era de Prata. Entretanto, o Flash dessa série de TV tinha as características pessoais e o metabolismo de Wally West, que já era o Flash nos quadrinhos da época. Suponho que essas escolhas tenham sido feitas para aliar a popularidade de Wally ao conhecimento do público mais velho e mais leigo em relação ao único Flash que provàvelmente conheciam, que era o mais duradouro Barry Allen (ativo por trinta anos até 1986), em comparação com o então novato Wally West (ativo por apenas quatro anos até ali).]

Em 1994-1996, o título The Flash era escrito pelo brilhante Mark Waid, Autor do clássico Kingdom Come (Reino do amanhã) e um dos roteiristas que mais compreendem e respeitam seus personagens. Waid escreveu várias histórias onde reuniu os diversos supervelocistas do universo DC, e eu adoro histórias que reúnem as variações do mesmo personagem. Em particular, são excelentes e inspiradas as histórias que Waid escreveu com esse mote. Além disso, no tempo em que escreveu o Flash, Waid elevou o superpoder do personagem a algo maior do que ele, inserindo Wally em uma continuidade onde uma só força do universo era a fonte motora de todos os supervelocistas. Sùbitamente, o superpoder do Flash deixava de ser único, e revelou-se que era derivado de um campo de energia que os mortais comuns não seriam capazes de atingir: a Speed Force. Nas mãos de Waid, o Flash tornou-se uma espécie de cavaleiro Jedi da velocidade, um privilegiado que, tal como Neo em Matrix e Luke Skywalker em Star Wars, tinha acesso a compreender significados ocultos na realidade e a perceber universo, tempo e espaço com um senso zen de unicidade. A Speed Force tem o efeito de uma força que não é mágica mas tampouco é compreendida ou sequer percebida pelos humanos, sendo uma energia que permeia o universo e que sòmente os supervelocistas conseguem explorar. Saem daí algumas histórias interessantíssimas onde conseguimos enxergar o mundo em câmera lenta através dos olhos do corredor escarlate à medida em que, aos poucos, Wally descobre que seu poder de velocista traz várias utilidades colaterais, como a viagem no tempo e a possibilidade de dar “carona” em sua velocidade para outras pessoas. Além disso, o roteirista Waid tratou a memória de Barry Allen com uma reverência religiosa, criando em Wally o desejo de conhecer melhor o destino de seu tio-afim no século 30 e de ter contato com a realidade ampliada que havia alimentado Barry e que sòmente agora se fazia visível para ele.

No início de 1996, The Flash contava o arco Dead Heat, em várias partes, onde Wally se esforçava por impedir que o vilão Savitar desabilitasse todos os heróis cujo superpoder é a corrida: o próprio Wally, Jay Garrick, o jovem Impulso (Bart Allen, neto de Barry, nascido no século 30), Johnny Quick, sua filha Jesse Quick, o sábio Max Mercúrio (um velocista revitalizado por Waid, nascido no Velho Oeste, viajante do tempo e, já com uma certa idade, mentor dos outros velocistas) e alguns outros. Para vencer Savitar, Wally teve que acelerar de um modo que nunca lhe fôra exigido, entrando na correnteza do tempo e, sem controle, viajando para o século 64.

Na sequência Race Against Time!, após a vitória sobre Savitar e já no segundo semestre de 1996, Wally tenta voltar para sua época em sucessivos saltos que vão retrocedendo ao longo dos séculos. Um dos personagens que o auxiliam é John Fox, o Flash do século 27, herdeiro do manto inspirado na memória de Barry e de Wally.

Na continuidade das histórias, estou em dezembro de 1996, no ponto em que Wally consegue voltar ao século 20. Acontece que, ainda na luta contra Savitar no início do ano, Wally havia sido auxiliado por uma corredora de codinome XS (lê-se “excess”), que aliás também é uma neta de Barry Allen nascida no século 30 (e prima de Bart). Em Deat Heat, XS havia voltado no tempo, de seu século 30 para o século 20, juntamente com seus colegas da Legião dos Super-Heróis, e havia ficado presa aqui. Assim como Wally passa a usar a Speed Force para voltar do futuro para o presente (e afinal consegue), XS tenta saltar em sentido contrário, do presente para o futuro (que é o “presente dela”). No título The Flash, nas edições de 1996, a jovem heroína XS é apenas um personagem coadjuvante, e chega um momento (no primeiro capítulo de Race Against Time!, The Flash #112, abril de 1996) em que John Fox e Jay Garrick a auxiliam a dar um salto no tempo. XS desaparece, o Leitor é levado a presumir que ela tenha conseguido voltar para casa, e a história volta seu foco para o Flash, suas desventuras e seu retorno feliz.

E foi aí que, sempre tentando ler tudo na ordem de publicação original, cheguei a Legionnaires Annual #3. É aqui que os dois tópicos se tocam. Tendo lido os outros anuais de 1996, eu havia presumido que esta edição estivesse na porção de 90% da Lei de Sturgeon. Para minha gratíssima surpresa, descobri que estava enganado! A história começa mostrando o que aconteceu a XS quando, auxiliada por Fox e Garrick, consegue projetar-se à correnteza do tempo. Na sequência, ela se sente atraída por um ponto focal, sai da correnteza e descobre-se já no século 30, mas ainda muito antes do ponto aonde queria chegar. Ocorre que o ponto que a atraiu foi a construção de um dispositivo de viagem no tempo pelas mãos de… Barry Allen! Desde as histórias publicadas em 1986, não me lembro de ter visto nenhuma história nova com Barry Allen que não fosse alguma retrospectiva ou, de outro modo, alguma história ambientada na Era de Prata, quando ele era o Flash titular. Até onde sei, esta é a PRIMEIRA história onde Barry aparece ao mesmo tempo em que, para o leitor, o “Flash atual” já é Wally West. Infelizmente para XS, Barry ainda é muito jovem, não tem sequer filhos e, portanto, não a reconhece. Mesmo assim, o momento é emocionante, porque XS se vê na oportunidade de conhecer seu avô, que já era falecido quando ela nasceu. A cena poderia ter sido até pungente, eu não me importaria. Mas os dois não se conhecem, então o que fica é aquela profunda admiração e o sentimento de XS de que está diante de um ícone histórico, um dos maiores heróis de todos, em um momento solitário de introspecção — e ele é seu avô!…

Barry dá a XS o privilégio e a honra de correr com ele e então consegue servir como catapulta para ela, novamente a lançando na correnteza do tempo. Desta vez, XS vai parar no século 100, onde descobre que a Terra já não existe (é aqui o ponto em comum com os outros anuais de 1996, Legends of the Dead Earth), assim como já não existe a Legião dos Super-Heróis. No planeta Almeer-5, a humanidade é oprimida pelo vilão Nevlor, que aprisionou os poucos meta-humanos restantes. Um dos heróis presos é Avatar, que empunha a milenar Lança do Destino, a qual só pode ser levantada pelos dignos. Seu traje assemelha-se aos dos deuses de Jack Kirby, em particular ao de Thor, da Marvel, cujo martelo Mjölnir sòmente os dignos podem levantar. Outra heroína é Melissa Trask (anagrama de “Stark”, pegou?), que é uma brilhante engenheira eletrônica e criou uma armadura que voa e dispara raios das mãos (tal como a do Homem de Ferro…). O terceiro herói é Robert “Bob” Brunner (como Robert Bruce Banner, certo?), que, graças a uma transferência de energia (raios gama?), transformou-se em um megamusculoso gigante azul (e não verde, OK?). As roupas se rasgam e ele fica só de calção e arremessa homenzinhos. O último herói, dito o maior de todos do século 100, não tem superpoderes, mas chegou ali em animação suspensa para liderá-los, com seu capacete com asinhas e seu traje com uma estrela no peito (tal como, vejamos, um certo Capitão América…). Com a ajuda de XS, os heróis escapam e se reúnem em uma nova base secreta construída por Stark Trask, a Mansão dos Vingadores. Observe que as palavras “Almeer” e “Nevlor” contêm as letras de “Marvel” e (Stan) “Lee”.

Recebendo nova ajuda dessa Legião “Vingadora” do século 100, XS consegue entrar novamente na correnteza do tempo, mas, em vez de voltar para casa, vai parar no Ponto de Fuga, a base espacial dos Homens Lineares, situada estàticamente em uma dimensão paralela durante o último instante de tempo antes do fim do universo. Às vezes o Ponto de Fuga aparecia nas histórias da DC dos anos 90, inclusive na minissérie Zero hora. Ali, XS encontra o Senhor do Tempo (Time Trapper), um vilão das histórias da Legião dos Super-Heróis — que, porém, ela não conhecia, porque não houve confrontos com ele depois que ela passou a integrar a Legião. O Senhor do Tempo tem domínio das linhas de tempo, que muitas vezes manipula para alterar eventos a seu favor, mas, neste breve encontro, ele se apresenta a XS como alguém que age assim a benefício da raça humana, em contraposição aos Homens Lineares, que patrulham as linhas de tempo contra interferências e, entre outras coisas, impedem que o planeta Terra seja salvo da destruição. Sob essa óptica, o Senhor do Tempo é que é o herói! Antes que ele a envie de volta ao século 30, XS consegue testemunhar os eventos de Zero Hora sob a perspectiva dos Homens Lineares. Embora ela não entenda o que está acontecendo (pois é uma personagem criada por Mark Waid após a publicação de Zero hora), o Leitor consegue reconhecer diversas falas dos Homens Lineares, de Waverider e do Átomo, assim como a morte do Átomo, que foi um dos desdobramentos da minissérie. O roteirista nunca explicita que é o Zero Hora que estamos vendo, mas deixa a conclusão bem disponível enquanto conseguimos observar os mesmos acontecimentos sob uma perspectiva diferente.

Curiosamente, a história de Legionnaires Annual #3 não foi escrita pelo consistente e cuidadoso Mark Waid, mas por Roger Stern. É uma história tão coerente, tão bem encaixada no universo DC, tão alinhada com as histórias do Flash às quais está ligada, tão perfeitamente elegante diante das cronologias de Zero Hora e da Legião dos Super-Heróis, que você pensaria que Waid fosse o verdadeiro Autor. A obediência à continuidade e o tratamento respeitoso (e não debochado) dos heróis da Marvel mostram um vínculo afetivo aos quadrinhos que tìpicamente vemos na obra de Waid. Fica o elogio ao excelente trabalho, não só de quem escreveu como de quem desenhou (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz e Dan Jurgens, o último dos quais foi quem desenhou o trecho “Zero Hora” e fôra também o desenhista da minissérie Zero Hora original) e, especialmente, de quem editou (Ruben Díaz e K.C. Carlson, que fôra editor de Zero Hora).

(*) Sim, estou parcialmente ciente do efetivo retorno de Barry Allen após a Crise Final. Como eu disse, minha leitura está em 1996 e, neste ponto, permanece a intenção da DC de manter Barry morto definitivamente.

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