Observações em A Identidade Bourne

Em The Bourne Identity (o filme de 2002, com Matt Damon, não o de 1988, com Richard Chamberlain), na marca de 1:35:30, vemos um jato executivo da CIA, onde embarca o Agente Conklin. O avião é claramente um Dassault Falcon trimotor branco, portando o símbolo do fabricante na deriva e o registro N-GIDE.

Ora. Qualquer Leitor acostumado a registros de aeronaves (“prefixos” no linguajar brasileiro) sabe que, nos Estados Unidos, os registros começam com a letra N mas continuam com algarismos, sem traço entre o N e os algarismos. Uma sequência de traço e quatro letras não faz sentido num registro americano.

Mas uma letra seguida de traço e quatro letras faz todo o sentido na Europa, onde são assim os registros britânicos, alemães, italianos e franceses. Além disso, podemos ver, no filme, que a letra N não está pintada diretamente na fuselagem como estão as outras; o N, e somente ele, está impresso em alguma camada adesiva que foi colada antes do traço.

Não é necessária muita intuição para se perceber que alguma outra letra ocupava o lugar do N. Sendo um avião da Dassault e ainda tendo o símbolo dela na cauda, podemos imaginar que a aeronave pertença à própria Dassault (e não a alguma empresa que a tivesse alugado ao estúdio). Portanto, o avião há de ser francês, com registro original F-GIDE.

Uma breve pesquisa por F-GIDE no Airliners.net revela que, de fato, o trimotor do filme é o primeiro exemplar do Dassault Falcon 900, apresentado em Farnborough em 1988. Pode-se ver aí uma espécie de product placement por parte da distinta fabricante francesa.

Além disso, Bourne Identity tem duas cenas com truques de desaparecimento. A primeira, aos 0:09:45, mostra Bourne caminhando no porto quando uma camioneta passa entre ele e a câmera. No exato instante em que os dois passam um pelo outro, dois sujeitos caminham da esquerda para a direita a centímetros de distância da câmera, òbviamente encobrindo Bourne e a camioneta. Assim que os dois sujeitos saem da frente, vê-se a camioneta, ainda fazendo seu percurso, mas… Bourne sumiu!

Essa cena tem a evidente intenção de simbolizar o desaparecimento de Bourne no terreno: sem identidade, sem cartão de crédito, sem passaporte, não é possível rastreá-lo, não é possível saber onde ele está até que seja encontrado a centenas de quilômetros dali. Mas, mesmo assim, a técnica é surpreendente. Nos comentários ao DVD, o Diretor Doug Liman esclarece que não houve edição de vídeo nem efeitos de computador; foi tudo feito realmente diante das câmeras. Nesse caso, onde está o truque?

Pausando e exercendo um quadro-a-quadro, podemos ver uma esperta sequência: antes que os dois sujeitos apareçam para encobrir sua visão, você consegue perceber que Matt Damon e a camioneta estão muito próximos um do outro e que o ator está apenas alguns passos além dela. Os dois caminhantes cobrem sua vista porque é aí que o diretor vai desempenhar seu pequeno truque de mágica; eles fazem o mesmo papel de uma cortina no palco. Mas, em um fotograma isolado, conseguimos perceber as pernas de Damon. Prestando muita atenção a seu casaco vermelho, e olhando através dos vidros da camioneta, podemos ver que Damon sobe no lado de fora dela mas fica escondido, abaixado por trás do motorista e da cabine. Nos fotogramas seguintes, a camioneta desloca-se para a direita da tela e ele vai junto; no fim da sequência, Damon até mesmo começa a se levantar. O truque funciona porque, no início, ele estava caminhando para nossa esquerda, e a ponto de cruzar seu caminho com o da camioneta, de modo que temos a expectativa de vê-lo na continuação desse movimento, quando, na verdade, ele e a camioneta avançam para nossa direita, onde não esperamos vê-lo. Tal como em todo truque de ilusionismo, o mágico rompe com nossas expectativas, fazendo com que tudo ocorra em uma direção diferente daquela para onde estamos olhando.

Outro pequeno truque de desaparecimento ocorre aos 1:49:29: Bourne vem caminhando da direita para a esquerda, a câmera acompanha-o de modo a mantê-lo centralizado, e então a câmera pára. Como Bourne continua caminhando, òbviamente ele avança para fora do campo de visão. A câmera continua parada e então volta-se lentamente para o lado onde ele sumiu, supostamente para acompanhá-lo — exceto que, novamente, ele desapareceu. Esta é outra cena intencionalmente simbólica, indicando que Bourne se tornou novamente irrastreável e que agora pode estar em qualquer lugar, abaixo dos radares. Também aqui o diretor informa que tudo foi feito diante das câmeras, sem mais tecnologia. Este caso é fácil, e Liman esclarece que bastou Matt Damon correr para fora do campo de visão, mais rápido do que se podia acompanhá-lo.

Uma última observação é que, aos 1:50:10, o Vice-Diretor Abbott menciona o projeto Blackbriar. Neste filme, essa é uma menção genérica; poderia ser qualquer outra palavra, indicando apenas que Abbott está descrevendo projeto atrás de projeto, sendo Blackbriar o próximo na fila depois de Treadstone. Porém, quando assistimos ao terceiro filme da sequência, The Bourne Ultimatum, aprendemos que Blackbriar é o projeto que sucedeu a Treadstone. Nenhuma fala é perdida.

Agora em inglês:

In The Bourne Identity (the movie from 2002, with Matt Damon, not the one from 1988, with Richard Chamberlain), at the 1:35:30 mark, we see a CIA business jet, which Agent Conklin boards. The airplane is clearly a white, three-engined Dassault Falcon, bearing the manufacturer’s logo on the fin and the registration N-GIDE.

Well. Any Reader who is accustomed to aircraft registrations will know that, in the USA, they begin with the letter N but continue with algarisms, without a dash between the N and the algarisms. A sequence with a dash and four letters does not make sense in the American registry.

But one letter followed by a dash and four letters makes every sense in Europe, where British, German, Italian and French registries follow such pattern. Besides, we can see in the movie that the letter N is not painted directly on the fuselage as the other letters are; the N alone is printed on some removable coating that had been glued before the dash.

One does not need much intuition to realise that some other letter occupied that spot under the N. This being a Dassault airplane and, on top of it, bearing the manufacturer’s logo on the fin, we can imagine that the aircraft belongs to Dassault itself (and not to some company that would have loaned it to the studio). Therefore the airplane must be French, with original registration F-GIDE.

A quick search for F-GIDE at Airliners.net reveals that, as a matter of fact, the movie’s trimotor is the first example of the Dassault Falcon 900, displayed at Farnborough in 1988. One could see some product placement by the noted French manufacturer there.

Also, Bourne Identity has two scenes with disappearing acts. The first one, at 0:09:45, shows Bourne walking on the harbour when a small cargo truck passes between him and the camera. At the exact instant when Bourne and the truck pass by each other, two men walk from left to right, centimetres away from the camera, obviously hiding Bourne and the truck. As soon as the two men get out from your face, you can see the truck, still making its run onscreen, but… Bourne has vanished!

This scene has the evident intent of symbolising Bourne’s disappearance into the terrain: without an identity, without a credit card, without a passport, it is not possible to track him, it is not possible to know where he is until he is found hundreds of kilometres away. Even so, the technique is surprising. In the DVD commentary, Director Doug Liman makes it clear that there was neither video edition nor computer effects; everything was made on-camera. In this case, where is the trick?

By freezing and stepping frame by frame, we can see a smart sequence of events: before those two men appear to cover your view, you can notice that Matt Damon and the truck are very close to each other and that the actor is just a few steps beyond it. The two walkers cover your view because this is where the director will perform his little magic trick; they fulfill the same function of a curtain on stage. However, in an isolated frame, we can see Damon’s legs. By paying a lot of attention to his red coat, and by looking through the truck’s glass panes, we can see that Damon climbs on the vehicle’s outside but stays hidden, lowered behind the driver and the cabin. In the following frames, the truck runs to the right of the screen and he goes along with it; at the end of the sequence, Damon even starts to rise. The trick works because, at first, he was walking towards our left, and about to cross paths with the truck, so that we expect to see him proceeding on this movement, when in truth he and the truck are moving towards our right, where we do not expect to see him. Just as in any illusionist’s trick, the magician breaks our expectations, making everything happen in a direction divergent from the one we are looking in.

Another minor disappearing act takes place at 1:49:29: Bourne comes walking from right to left, the camera follows him in order to keep him centred, and then the camera stops. Since Bourne is still walking, he obviously steps outside the field of vision. The camera remains where it stopped and then turns slowly towards the side where he went out of sight, supposedly to continue following him — except that, again, he has disappeared. This is another intentionally symbolic scene, pointing out that Bourne has again become untrackable and that now he may be anywhere under the radars. Here, again, the director advises us that everything was done on camera, without any further technology. This is an easy case, and Liman explains that it was enough for Matt Damon to run out of sight, faster than the camera could follow him.

A last observation is that, at 1:50:10, Deputy Director Abbott mentions project Blackbriar. In this film, this is a generic reference; it could have been any other word, just to show that Abbott is describing project after project, Blackbriar being the next in line after Treadstone. However, when we watch the third movie in the sequence, The Bourne Ultimatum, we learn that Blackbriar is the project that has succeeded Treadstone. So much for throwaway lines.

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