Minha inevitável pseudorresenha de Interestelar

Então seja bem-vindo a mais uma pseudorresenha do Senhor Atoz. Você sabe como é: eu vou ao cinema, eu venho aqui e conto.

Mais uma vez, não farei uma resenha. Já tem gente fazendo isso de montão por aí (nem pesquisei desta vez para saber se é verdade, mas sempre é verdade). Baste ver que há toda uma edição da Slate dedicada ao filme, inclusive com as minúcias científicas. Baste ver que o Bad Astronomer, Phil Plait, tem todo um mea culpa sobre o ponto específico de buracos negros com rotação.

Meu público-alvo são as pessoas que já viram Interestelar. Em respeito às que não viram, tomarei o cuidado de esconder o texto que revelaria conteúdo. Então, você já sabe como funciona: para ler o trecho escondido, você tem que selecioná-lo com o mouse, porque o escrevi com fonte branca.

Primeiro, vamos à parte não secreta.

– Em nenhum momento o filme diz quando se passa. Temos sugestões de que seja no futuro próximo, nas poucas décadas adiante de nós, mas nada categórico. Não há referência a NENHUM ano. A camioneta do personagem é um modelo recente, e o interior da casa dele poderia ser hoje, mas isso não quer dizer nada, porque, naquela região dos Estados Unidos, os anos passam e nada muda. Hoje vemos camionetas que estão rodando há quarenta anos; o interior das casas, exceto por um eletrodoméstico ou outro, conserva a mesma estética de cem anos atrás. Então, essa atemporalidade pode ser usada para a frente também, e não sabemos se o filme se passa em 2014, 2024, 2064 ou 2114. O tema de insustentabilidade é premente hoje, quando já sentimos os efeitos do aquecimento global nas colheitas e na falta de água, e é certamente por isso que é tão fácil nos identificarmos com os personagens.

– A trilha sonora é de Hans Zimmer. Naturalmente bem feita, como sempre. A mesma melodia é ouvida diversas vezes, ora devagar ao piano nas cenas de mais reflexão, ora acelerada no violoncelo nas cenas tensas. Dá pra reconhecer. Agora, tive a forte impressão de que as passagens ao piano têm uma semelhança intencional com a introdução de Space Oddity, de David Bowie.

– Matthew McConaughey melhorou muito como ator. Lá na época de Contato (1997), ele era só mais um descamisado (sabe como é: os galãs que só aparecem nos filmes para tirarem a camisa em algum momento). Agora ele atua e convence.

– Na estante de livros do personagem, alguns exemplares chamam atenção e certamente não estão lá por acaso: The Stand, de Stephen King, que versa sobre a resistência à extinção da humanidade; biografia de Lindbergh, pioneiro da aviação; e pelo menos um livro de Conan Doyle, mestre da dedução científica através de seu personagem Sherlock Holmes.

– Nos anos 60, 70 e 80, os filmes de espaço costumavam mostrar os interiores das naves como se estivessem décadas ou mesmo séculos no futuro. Era sempre aquela atmosfera limpíssima, estéril, mas também confortável. Pense em Mercenários das Galáxias (se você não via Sessão da Tarde, azar o seu), O Abismo Negro, Galactica, Buck Rogers ou mesmo o primeiro filme de cinema de Jornada nas Estrelas. Pense em Voyager: Rumo às Estrelas, da Disney (e não o confunda com Star Trek: Voyager, que é outro animal). Já dos anos 90 em diante, instalou-se uma tendência que a mim é bem-vinda: os filmes de espaço costumam mostrar o interior das naves, e a tecnologia toda, como se fossem exatamente os atuais, exceto que um pouquinho de nada mais avançados, como se estivessem apenas dez ou vinte anos no futuro. Veja Space Odyssey, da BBC; Gravidade; até mesmo Armageddon. Isso tem a relevante consequência de ter que explicar menos, porque o público (ou ao menos parte dele) já viu astronautas no telejornal, já viu o interior da Estação Espacial Internacional em notícias e documentários, já sabe o que esperar. Quando se fala em naves e astronautas, já sabemos mais ou menos que aparências as estruturas e seus interiores devem ter, já sabemos que cara têm os painéis, comandos e trajes. Em Interestelar, podemos ver detalhes da superfície da nave, e lá estão todos os tijolinhos que nos acostumamos a ver nos ônibus espaciais, o preto-e-branco de seu revestimento, os bocais de seus motores, os aneis de vedação etc. A estética é conhecida. Então, quando o contador de histórias quer nos dizer “nave espacial”, ou “astronauta”, ou “interior de uma estação”, o que ele nos mostra é isso que temos visto nos filmes, e já sabemos do que ele está falando, e nada mais tem que ser explicado, permitindo que ele se concentre na HISTÓRIA. Afinal de contas, é isso que interessa; um filme é bom ou ruim conforme bem ou mal conte sua história. Se você tirar o foco do cenário, estará tirando isso do caminho, e o enorme benefício é que a história pode ser contada com menos obstáculos. O filme pode andar na sua própria velocidade. E é isso que acontece em Interestelar.

– Vi nos créditos: produtor executivo e consultor de Ciência, Kip Thorne. Quem se amarra em Astrofísica sabe que Thorne é uma das grandes celebridades da Astronomia neste entorno do Milênio. Contemporâneo do planetarista Carl Sagan, Thorne é uma das maiores autoridades na especulativa Física dos buracos negros. De acordo com Phil Plait, ele fez toda a matemática para concluir que fossem válidos certos pontos mostrados no filme — justamente os que os nerds desafiariam — e até mesmo publicou The Science of Interstellar. Talvez eu leia…

– Não sei de onde vieram os nomes CASE e TARS, mas KIPP é claramente uma referência a Kip Thorne.

Agora, a parte escondida.

– O filme é longo. Com 160 minutos, ele é desnecessàriamente longo. Dá pra ver por quê: ele gasta uma boa meia hora na visita inútil ao planeta do Dr. Mann, gasta um tempo enorme na tentativa de homicídio e de sequestro de uma nave, e nas longas cenas de ação: em luta com Mann, tentando alcançá-lo e depois tentando acoplar o módulo de descida à nave. O que eu faria? Cortaria, sem pena, toda a passagem com o Dr. Mann e boa parte do conflito familiar entre Tom e Murphy Cooper. Só serviram para tornar o filme mais pesado.

– Um milhão de referências a 2001, intencionais ou não. Então a NASA encontrou uma anomalia em órbita de Saturno? Ora, 2001 (o livro, não o filme) tinha um monolito em órbita de Saturno. Então não temos Hal, mas temos KIPP: uma inteligência artificial que tudo controla, que conversa conosco — só não tem aquela maligna luzinha vermelha, mas eles até abordam isso diretamente. E aí o astronauta mergulha numa singularidade e tem uma viagem de luzes psicodélicas… Rapaz, eu estava vendo a hora que Cooper ia cair em um quarto de hotel, encontrar comida azul e encarar um monolito. Faltou pouco. E então o astronauta, dentro da singularidade, conversa com a inteligência artificial, que colheu dados… Isso não está em 2001, mas está nos livros que lhe dão continuidade; a saber, 2010, 2061 e 3001.

– Robôs que, apesar de terem uma personalidade, põem a segurança em primeiro lugar e, de resto, não têm escolha senão obedecer aos humanos? ASIMOV! Primeira e Segunda Leis da Robótica, que aparecem em todos os livros de robôs de Isaac Asimov e que são citadas a toda hora por todos os seus leitores que hoje fazem filmes de saifai.

– Aliás: o TARS, quando está simplesmente em pé, não é DIREITINHO o Monolito? 2001, múltiplo check.

– Não adianta, eu tenho mesmo o coração mole para voos espaciais. Uma das cenas que mais mexeram comigo, que mais me emocionaram, não foi nenhuma das cenas projetadas para isso. Ao contrário, foi uma cena feita mais para nos deixar boquiabertos mas, ao mesmo tempo, passando uma forte ideia de profissionalismo e objetividade, sem muito espaço para outra coisa a não ser a missão. É claro que estou falando da decolagem. No cinema IMAX, o som ficou tão alto, tudo que se ouvia eram os rugidos dos motores, o equipamento sacudindo e a música no último volume. Aquele close, com a câmera parada e o foguete subindo na frente dela enquanto caem partículas de tinta congelada, é intencionalmente evocativo das decolagens do Projeto Apolo. É ISSO que mexe comigo.

– Sensacional a representação do buraco de minhoca com forma esférica. Sensacional a explicação. Claramente influência de Kip Thorne.

– Aliás, pensando um pouco mais sobre o buraco de minhoca, foi depois que me ocorreu: em todas as descrições que os livros fazem do buraco, uma nave permanece em seu próprio espaço e seus ocupantes nem perceberiam que estão passando por ele. Para eles, o espaço parece normal. Veja no desenho — qualquer desenho — que acompanha uma dessas explicações; basta googlar: se você está no espaço 2D (como em todo desenho), você continua andando no espaço 2D até ver que, sem ter se dado conta, foi parar do outro lado. E mais: não existe essa história de furar o papel com o lápis e “atravessar”. Nos desenhos se vê que o contorno é suave, que a nave não “pula” de um lado para o outro, porque, justamente na passagem, o espaço é perfeitamente contínuo, não tem borda afiada. A formiga do exemplo não pula para fora do papel, não se lança no vazio para o outro lado; ela meramente continua andando até ficar de cabeça para baixo do outro lado.

Buraco de minhoca simplificado em espaço 2D

Formigas suicidas tentaram, mas não encontraram a beirada.

Por incrível que pareça, ESTA é uma representação muito mais realista do efeito do buraco em 3D, embora ainda peque por representá-lo em 2D.

Então, no filme, não veríamos os personagens “saltando para fora do espaço”. Eles olhariam para o buraco, veriam uma projeção 2D do buraco (a qual teria meramente a aparência de uma janela), da mesma forma como tudo que vemos está em 2D no nosso olho, e veriam o que tem do outro lado, tal como quem olha por uma janela. Atravessando o buraco como quem passa por uma janela, eles estariam o tempo todo em um espaço 3D, sem nenhuma lei da Física que lhes parecesse diferente, só que, ao olhar em volta, reconheceriam estar em um lugar diferente do lugar de antes da travessia. Em outras palavras: a viagem pelo buraco de minhoca só seria perceptível para quem estivesse prestando atenção, por causa da mudança do cenário em volta. Não haveria nada daquele efeito dramático, das acelerações, das maluquices sensoriais, nada disso. Porque a nave que atravessa o buraco não sai do espaço 3D, não entra em um espaço 5D nem coisa parecida.

– Se um planeta orbitasse um buraco negro tão de perto, ele estaria sujeito a um permanente banho de raios X, resultante da aceleração da matéria no disco de acreção. Você reparou na intensidade luminosa ali perto? Então. Os raios X são ainda mais abundantes, você só os não está vendo; de acordo com Plait, a luz no filme era até pouca. Portanto, se você fosse morar no Planeta de Miller ou no Planeta de Mann, você tomaria doses maciças de raios X a cada segundo. Deviam chamá-los de Planetas do Câncer. Só o tempo que os astronautas passaram nas proximidades do horizonte de eventos já seria suficiente para evaporar a eles e à nave, não sem antes você conseguir ver seus esqueletos na mais espetacular ferramenta de diagnóstico médico que o universo já teve o trabalho de acumular.

– E mais: supostamente há três planetas habitáveis orbitando um buraco negro, certo? OK, um deles é um mar inóspito, outro tem paisagens geladas e atmosfera de amônia, mas, em princípio, até dá para caminhar na superfície, não é isso? Muito bem. Só que, para você não morrer congelado a zero kelvin na superfície de um planeta que congelaria o AR à sua volta, é necessário que esse planeta receba bastante calor. Calor que viria, por exemplo, DA ESTRELA QUE ELE ORBITA. No nosso caso, a Terra só não é uma vastidão de gelo porque o Sol a mantém aquecida. Se, em vez de uma estrela, seu planeta orbita um buraco negro, então o calor que você recebe não é suficiente nem para você ter uma atmosfera, muito menos água líquida, céu claro ou, no caso extremo, habitabilidade. Portanto, só de ver que a “estrela” é um buraco negro, as esperanças para os três mundos acabariam ali.

– Faltou explicarem um pouco melhor este lance de que cada hora no Planeta de Miller corresponde a sete anos longe dele. Eles até pincelaram o motivo (distorção do espaçotempo na proximidade do buraco negro), mas o povo que assiste pode ficar um tanto confuso. É verdade que foram fartamente explícitos em dizer que é tudo por causa da relatividade, e até disseram que Cooper não teve tempo de explicá-la à filha de dez anos (leia-se: não vamos explicar a vocês que assistem; procurem um livro), mas, ainda assim, eu teria comentado.

– Quando Cooper e Brand retornam para Romilly e ele envelheceu 23 anos, você notou duas coisas? Uma são os modos dele: o gestual, o caminhar e os maneirismos de uma pessoa de mais idade. Ele já não era novinho quando a nave decolou, então certamente havia se tornado um senhor próximo da aposentadoria. A segunda coisa são as mãos dele: bem na postura de quem tem artrite, em forte sinal da idade. Parabéns à equipe e ao ator por isso.

– Eu não sei você, mas para mim foi uma total surpresa a aparição de Matt Damon. Não do personagem, mas do ator. Isso está fartamente comentado aqui (javisei: spoilers). Não é a primeira vez que ele faz isso: quem viu EuroTrip teve a oportunidade de se surpreender da mesma forma. Deve ser uma espécie de diversão para ele. Se bem que, em retrospecto, “Mann” soa como “Matt Damon” falado rápido, muito rápido, deixando apenas os dois fonemas iniciais e o último.

– Planeta de Mann = superfície interminável de gelo acumulado, com quilômetros de altura. Portanto: planeta de Mann = Islândia. Isso é óbvio. Quando os créditos reconhecem que o filme foi rodado lá, e listam todos aqueles nomes como “Gunnar” e “Olaf”, todos terminando com “…fsson” e “…dottir”, não há surpresa nenhuma. Quem viu Prometheus saberia.

– Astronauta mandando computador abrir a escotilha, não conseguindo e tentando entrar na marra? 2001, check.

– Explosão no espaço: silenciosa. Pronto, nerds, estão felizes? Pronto, taí. Tal como em Gravidade, vimos uma explosão e o som não se propagou no espaço.

– Quando a Endurance (ou o que restou dela) está completando a manobra de estilingue em torno de Gargântua, TARS comenta que, de acordo com a Terceira Lei de Newton, para ganhar velocidade você tem que deixar alguma coisa para trás. Algumas pessoas riram no cinema, porém a Terceira Lei de Newton é exatamente isso. Ele não estava brincando. Na verdade, a descrição foi um pouco imprecisa, porque não basta deixar massa para trás; é preciso que a massa tenha uma velocidade negativa em relação à sua. Se TARS for apenas abandonado, ele vai continuar acompanhando a nave até que, de acordo com a Segunda Lei, ela sofra alguma aceleração que ele não. Isso acaba acontecendo, mas, infelizmente, não chegamos a ver a Terceira Lei em ação.

– Ambiente artificial criado no fim do filme pelas criaturas avançadas para que os humanos consigam se comunicar? 2001 e Contato, check.

– Outra influência que não passou despercebida foi a de Star Wars: quando, nas últimas cenas, Cooper recruta a ajuda de TARS e sub-reptìciamente furta uma nave monoposta para encontrar Brand no planeta de Edmund, observe que seu embarque espelha aquela cena do Episódio V onde Luke se afasta de seus amigos para ir encontrar Yoda. Sua entrada no cockpit, mais o fato de que a inteligência artificial se acomoda no espaço apertado atrás dele (R2-D2 no X-Wing), mostram claramente de onde partiu a ideia original, mesmo que o diretor não tenha feito de propósito.

– Por último: os fãs de saifai, assim como outras mentes difíceis de se iludir, já devem ter percebido uma falha lógica gritante, extremamente comum neste tipo de filme, mas que mesmo assim continuam fazendo. Se os sinais de Cooper viajaram para trás no tempo e chegaram à adolescência de sua filha, isso só aconteceu porque os humanos-do-futuro criaram esse hipercubo com aparência de tridimensionalidade, de onde ele poderia enviar os sinais, certo? Bem. Mas esses humanos-do-futuro só são possíveis porque a missão deu certo, e a missão só deu certo porque Cooper encontrou a base secreta da NASA, e Cooper só encontrou a base secreta porque sua filha lhe trouxe os dados revelados pelo fantasma, e os dados só foram revelados pelo fantasma porque o fantasma teve um ambiente do qual enviá-los, e ele só teve esse ambiente porque os humanos-do-futuro lho forneceram. Ou seja, os humanos-do-futuro só se tornaram possíveis porque agiram. É um paradoxo temporal de predestinação, mais suave e mais sutil do que o outro, agressivo e gritante, da contradição que surge quando você volta no tempo e mata seu avô. Ainda assim, um paradoxo, e o filme sofre essa falha lógica insuportável, que rompe a relação de causalidade. Feito o loop temporal, nada deu causa ao sucesso da missão, ou ela só deu certo porque só poderia dar certo… Nunca houve dúvida sobre o sucesso da missão? (Desculpe, anos demais vendo filmes e séries de saifai.)

No geral, Interestelar teve o cuidado de não ser um espetáculo de efeitos visuais. Ao contrário: os efeitos, quando existem, são para promover a história, não para ficar no caminho dela. São uma forma de suprir uma expectativa no momento em que aparecem e então permitir que nos concentremos no que os atores fazem. Mas o filme é muito longo.

Para ler a resenha de Phil Plait, que recomendo enfàticamente, apenas clique aqui.

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Conforme sabemos

Hoje falarei da palavra “conforme”.

“Conforme” pode ser usada como conjunção. Então, você diz “faça conforme lhe ensinei”. Veja que, sendo uma conjunção, “conforme” tem o poder de vincular uma oração a outra. Isso é fácil de identificar: toda oração gira em torno de um verbo, toda oração tem um verbo, todo verbo está em sua oração. Então, no exemplo acima, existe uma oração principal, que, aliás, só tem seu verbo (“faça”) e mais nada; e existe uma oração subordinada, que é “conforme lhe ensinei”, orbitando à volta do verbo “ensinei”. A palavra “conforme” é uma conjunção, pendurando uma oração à outra.

“Conforme” pode ser usada como advérbio. Por exemplo, “Fulano dança conforme a música”. Embora seja um advérbio, a palavra “conforme” não é usada sòzinha; ela faz parte de um conjunto, que é uma locução adverbial. Uma locução adverbial desempenha o mesmo papel de um advérbio, com a diferença de que são várias palavras atuando como uma só. Advérbios e locuções adverbiais costumam ter a mesma função sintática, que é a de adjunto adverbial. Ou seja, estão meramente ajudando a especificar o que se quer dizer com determinado verbo. No exemplo, “conforme a música” equivale a um advérbio só, como, por exemplo, “assim”: “Fulano dança assim”.

Quando “conforme” é usada como advérbio, observe que não precisa de preposição. Podemos dizer “conforme a música”, “conforme o combinado”, “conforme o exemplo”, “conforme o decreto”, “conforme a lei” etc. Em todos esses casos, observe que “a música” e “o combinado” são palavras que não vêm precedidas de preposição. Por isso, “a música” fica com sòmente esse um “a”, que é o artigo definido antes da palavra “música”. Sendo um só “a”, não caberia falar em crase, porque a crase só aparece quando dois “a” estão juntos.

Os vários usos da palavra “conforme” são essencialmente muito parecidos, e difìcilmente pensamos em classificações gramaticais quando a usamos, de modo que não costumamos reconhecer que está sendo usada ora como conjunção, ora como advérbio. Tenho certeza de que o Leitor nunca deve ter reparado que os usos de “conforme” na qualidade de conjunção e na qualidade de advérbio são diferentes, porque sempre veiculam a mesma ideia afinal de contas.

Agora, um uso menos frequente da palavra “conforme” é como adjetivo. Nestes casos, novamente “conforme” está traduzindo a mesma ideia (ou quase a mesma ideia), de modo que é difícil perceber que é um adjetivo. Mas acontece e há uma forma de identificar.

Quando “conforme” é um adjetivo, ela é usada como atributo de algo ou alguém; afinal, é isso que são os adjetivos. Então, você diz que “tal coisa é conforme a outra coisa”. Observe que há uma sutileza aí: quando é adjetivo, “conforme” costuma ser sucedida de uma expressão que vai completar seu sentido, que é o complemento nominal. O complemento nominal sempre é usado quando um adjetivo fica meio solto no ar, com seu sentido muito abstrato, sem ligação com nada. O complemento vem dar sentido ao adjetivo. Então, um exemplo do qual gosto muito é o dos tanques de combustível do tipo CFT do caça F-15C. “CFT” significa “conformal fuel tanks”, ou “tanques de combustível conformais”. Eles vão presos à fuselagem da aeronave de modo tal que o formato deles segue exatamente o formato da fuselagem. Veja na foto.

Tanque de combustível sendo empurrado

Tanque de combustível sendo empurrado para ser acoplado à fuselagem, embaixo da asa deste F-15D. No avião ao fundo, acima da cabeça do empurrador, vê-se outro tanque, já acoplado.

 

Fotografia mostrando o CFT quando o F-15E está em voo

Quando este F-15E é visto de frente, nota-se que o CFT se molda perfeitamente, como se fizesse parte da aeronave.

 

Em consequência, pode-se dizer que os tanques são conformes ao formato da fuselagem. Repare: “AO formato”. Não é “conforme O formato”, porque, agora, existe uma preposição aí. Da mesma forma, se usarmos “a fuselagem”, a frase dirá que os tanques são “conformes à fuselagem”: agora existem duas palavras “a”, sendo uma a preposição e a outra, o artigo definido antes de “fuselagem”; daí a crase.

Então, a presença da preposição (denunciada ora em “ao”, ora em “à”) indica que “conforme” é um adjetivo. Há outras situações onde “conforme” é adjetivo e nas quais não há complemento nominal, mas essas situações parecem até arcaicas, porque a gente não usa muito. Um exemplo clássico é este: “a escritura foi lida e achada conforme”. E a frase acaba aí. Conforme o quê? Pois é, nada. Conforme, ponto. Está implícito que seja conforme à vontade de alguém, ou ao que foi combinado. Note que “a escritura” é o sujeito da oração, “foi” é verbo de ligação, “lida” é um núcleo do predicativo do sujeito, “achada” é outro núcleo do predicativo do sujeito (aquilo que se diz que o sujeito seja), e “conforme” é complemento nominal de “achada” (porque teria que ser “achada alguma coisa”, senão não faz sentido; quando “achar” tem sentido de opinião, é preciso dizer que opinião é essa: então a palavra “conforme” está vindo responder justamente a essa pergunta).

Todo este artigo só foi escrito por isto: quero mostrar que existem casos em que “conforme” vem sucedida da preposição “a”. Essa preposição é a única forma de verificar que “conforme” é adjetivo. Veja, por exemplo, estas duas frases.

Fizeram o documento conforme o combinado.

Fizeram o documento conforme ao combinado.

As duas frases estão corretas. Na primeira, “conforme” é advérbio e indica como foi que fizeram o documento: de tal e qual maneira; de maneira adequada ao que fôra combinado. “Conforme o combinado” é adjunto adverbial, pendurado no verbo “fizeram”. Já na segunda frase, “conforme” é adjetivo. Fizeram o documento, e como podemos descrevê-lo? Podemos dizer que é um documento conforme ao combinado. Nesse caso, “o documento” é objeto do verbo “fizeram”, e a expressão “conforme” é predicativo do objeto: está descrevendo algum atributo do objeto. Claro que “ao combinado” entra como complemento nominal desse predicativo.

A ideia deste texto partiu da leitura de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Estava lendo a ADPF 54 e, no acórdão que encerrou o processo, página 33, vi que o Ministro Marco Aurélio escreveu: “… os referidos enunciados sejam interpretados conforme à Constituição”. Ora, “interpretados” é um adjetivo, de modo que o que lhe vai pendurado, “conforme”, é um advérbio. Nesse caso, mais apropriado seria dizer “conforme a Constituição”, com apenas um “a” (que é o artigo) e, portanto, sem crase. Não quero, com isso, dizer que o Ministro errou, porque o mesmo Ministro, noutras vezes, deixa de usar a crase; e, noutras vezes ainda, usa-a corretamente. Não estranhe quando encontrar a expressão “interpretação conforme à Constituição”, com crase, porque, nesse caso, “conforme” será um adjetivo, vinculado ao substantivo “interpretação” como se espera. Então, “interpretar conforme a Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de advérbio e “interpretação conforme à Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de adjetivo.

Já se eu disser “deve-se dar interpretação conforme a/à Constituição”, qual é o certo? DEPENDE. Se “conforme” estiver sendo usada na qualidade de advérbio, vinculada a “dar”, então a frase deve ficar sem crase. Se como adjetivo, vinculada a “interpretação”, então a frase deve levar crase. O Leitor saberá se o Autor quis usar “conforme” com uma ou outra intenção conforme haja uma crase ou não. Logo, não é para ficar pré-julgando que a frase esteja correta ou errada só porque tem ou deixa de ter crase: permita que o Autor escolha e você saberá que emprego ele quis dar às palavras.

A lição que fica — e que não me passaram na escola, mas que estou transmitindo a você — é que não podemos ler um texto com a pretensão de sabermos mais do que o Autor. Se existir uma forma pela qual o Autor esteja certo em sua gramática, então em princípio ele está certo, e cabe a nós decifrar o que ele queria dizer de acordo com as regras, decodificar de acordo com o código que temos, que são as normas do português e nosso conhecimento de funções sintáticas. Na verdade, a análise sintática é uma ferramenta muito útil para entendermos o papel de cada palavra na frase e, assim, podermos saber o que quer dizer o quê.

Um dos erros muito comuns dos professores de português é quererem que só exista uma forma de dizer determinados conteúdos, ou quererem que determinadas palavras só possam vir em determinada ordem, ou que determinadas frases só possam ser construídas de determinado jeito. Aí, quando uma frase tem uma vírgula ou uma crase ou um plural onde não esperam, dizem que a frase está errada, sem procurar algum significado que pudesse estar expresso corretamente daquela forma. O certo é tomar a frase pelo valor de face, tal como está, e nela encontrar as indicações do papel de cada palavra. Desse modo, podemos descobrir que o que parece verbo pode ser sujeito, que o que parece adjunto adverbial é predicativo, e assim muitas outras coisas.

(É claro que, às vezes, o Autor está errado mesmo, e a gramática da frase está errada. Mas não é para partir dessa ideia como premissa só porque a frase parece errada.)

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