Conforme sabemos

Hoje falarei da palavra “conforme”.

“Conforme” pode ser usada como conjunção. Então, você diz “faça conforme lhe ensinei”. Veja que, sendo uma conjunção, “conforme” tem o poder de vincular uma oração a outra. Isso é fácil de identificar: toda oração gira em torno de um verbo, toda oração tem um verbo, todo verbo está em sua oração. Então, no exemplo acima, existe uma oração principal, que, aliás, só tem seu verbo (“faça”) e mais nada; e existe uma oração subordinada, que é “conforme lhe ensinei”, orbitando à volta do verbo “ensinei”. A palavra “conforme” é uma conjunção, pendurando uma oração à outra.

“Conforme” pode ser usada como advérbio. Por exemplo, “Fulano dança conforme a música”. Embora seja um advérbio, a palavra “conforme” não é usada sòzinha; ela faz parte de um conjunto, que é uma locução adverbial. Uma locução adverbial desempenha o mesmo papel de um advérbio, com a diferença de que são várias palavras atuando como uma só. Advérbios e locuções adverbiais costumam ter a mesma função sintática, que é a de adjunto adverbial. Ou seja, estão meramente ajudando a especificar o que se quer dizer com determinado verbo. No exemplo, “conforme a música” equivale a um advérbio só, como, por exemplo, “assim”: “Fulano dança assim”.

Quando “conforme” é usada como advérbio, observe que não precisa de preposição. Podemos dizer “conforme a música”, “conforme o combinado”, “conforme o exemplo”, “conforme o decreto”, “conforme a lei” etc. Em todos esses casos, observe que “a música” e “o combinado” são palavras que não vêm precedidas de preposição. Por isso, “a música” fica com sòmente esse um “a”, que é o artigo definido antes da palavra “música”. Sendo um só “a”, não caberia falar em crase, porque a crase só aparece quando dois “a” estão juntos.

Os vários usos da palavra “conforme” são essencialmente muito parecidos, e difìcilmente pensamos em classificações gramaticais quando a usamos, de modo que não costumamos reconhecer que está sendo usada ora como conjunção, ora como advérbio. Tenho certeza de que o Leitor nunca deve ter reparado que os usos de “conforme” na qualidade de conjunção e na qualidade de advérbio são diferentes, porque sempre veiculam a mesma ideia afinal de contas.

Agora, um uso menos frequente da palavra “conforme” é como adjetivo. Nestes casos, novamente “conforme” está traduzindo a mesma ideia (ou quase a mesma ideia), de modo que é difícil perceber que é um adjetivo. Mas acontece e há uma forma de identificar.

Quando “conforme” é um adjetivo, ela é usada como atributo de algo ou alguém; afinal, é isso que são os adjetivos. Então, você diz que “tal coisa é conforme a outra coisa”. Observe que há uma sutileza aí: quando é adjetivo, “conforme” costuma ser sucedida de uma expressão que vai completar seu sentido, que é o complemento nominal. O complemento nominal sempre é usado quando um adjetivo fica meio solto no ar, com seu sentido muito abstrato, sem ligação com nada. O complemento vem dar sentido ao adjetivo. Então, um exemplo do qual gosto muito é o dos tanques de combustível do tipo CFT do caça F-15C. “CFT” significa “conformal fuel tanks”, ou “tanques de combustível conformais”. Eles vão presos à fuselagem da aeronave de modo tal que o formato deles segue exatamente o formato da fuselagem. Veja na foto.

Tanque de combustível sendo empurrado

Tanque de combustível sendo empurrado para ser acoplado à fuselagem, embaixo da asa deste F-15D. No avião ao fundo, acima da cabeça do empurrador, vê-se outro tanque, já acoplado.

 

Fotografia mostrando o CFT quando o F-15E está em voo

Quando este F-15E é visto de frente, nota-se que o CFT se molda perfeitamente, como se fizesse parte da aeronave.

 

Em consequência, pode-se dizer que os tanques são conformes ao formato da fuselagem. Repare: “AO formato”. Não é “conforme O formato”, porque, agora, existe uma preposição aí. Da mesma forma, se usarmos “a fuselagem”, a frase dirá que os tanques são “conformes à fuselagem”: agora existem duas palavras “a”, sendo uma a preposição e a outra, o artigo definido antes de “fuselagem”; daí a crase.

Então, a presença da preposição (denunciada ora em “ao”, ora em “à”) indica que “conforme” é um adjetivo. Há outras situações onde “conforme” é adjetivo e nas quais não há complemento nominal, mas essas situações parecem até arcaicas, porque a gente não usa muito. Um exemplo clássico é este: “a escritura foi lida e achada conforme”. E a frase acaba aí. Conforme o quê? Pois é, nada. Conforme, ponto. Está implícito que seja conforme à vontade de alguém, ou ao que foi combinado. Note que “a escritura” é o sujeito da oração, “foi” é verbo de ligação, “lida” é um núcleo do predicativo do sujeito, “achada” é outro núcleo do predicativo do sujeito (aquilo que se diz que o sujeito seja), e “conforme” é complemento nominal de “achada” (porque teria que ser “achada alguma coisa”, senão não faz sentido; quando “achar” tem sentido de opinião, é preciso dizer que opinião é essa: então a palavra “conforme” está vindo responder justamente a essa pergunta).

Todo este artigo só foi escrito por isto: quero mostrar que existem casos em que “conforme” vem sucedida da preposição “a”. Essa preposição é a única forma de verificar que “conforme” é adjetivo. Veja, por exemplo, estas duas frases.

Fizeram o documento conforme o combinado.

Fizeram o documento conforme ao combinado.

As duas frases estão corretas. Na primeira, “conforme” é advérbio e indica como foi que fizeram o documento: de tal e qual maneira; de maneira adequada ao que fôra combinado. “Conforme o combinado” é adjunto adverbial, pendurado no verbo “fizeram”. Já na segunda frase, “conforme” é adjetivo. Fizeram o documento, e como podemos descrevê-lo? Podemos dizer que é um documento conforme ao combinado. Nesse caso, “o documento” é objeto do verbo “fizeram”, e a expressão “conforme” é predicativo do objeto: está descrevendo algum atributo do objeto. Claro que “ao combinado” entra como complemento nominal desse predicativo.

A ideia deste texto partiu da leitura de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Estava lendo a ADPF 54 e, no acórdão que encerrou o processo, página 33, vi que o Ministro Marco Aurélio escreveu: “… os referidos enunciados sejam interpretados conforme à Constituição”. Ora, “interpretados” é um adjetivo, de modo que o que lhe vai pendurado, “conforme”, é um advérbio. Nesse caso, mais apropriado seria dizer “conforme a Constituição”, com apenas um “a” (que é o artigo) e, portanto, sem crase. Não quero, com isso, dizer que o Ministro errou, porque o mesmo Ministro, noutras vezes, deixa de usar a crase; e, noutras vezes ainda, usa-a corretamente. Não estranhe quando encontrar a expressão “interpretação conforme à Constituição”, com crase, porque, nesse caso, “conforme” será um adjetivo, vinculado ao substantivo “interpretação” como se espera. Então, “interpretar conforme a Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de advérbio e “interpretação conforme à Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de adjetivo.

Já se eu disser “deve-se dar interpretação conforme a/à Constituição”, qual é o certo? DEPENDE. Se “conforme” estiver sendo usada na qualidade de advérbio, vinculada a “dar”, então a frase deve ficar sem crase. Se como adjetivo, vinculada a “interpretação”, então a frase deve levar crase. O Leitor saberá se o Autor quis usar “conforme” com uma ou outra intenção conforme haja uma crase ou não. Logo, não é para ficar pré-julgando que a frase esteja correta ou errada só porque tem ou deixa de ter crase: permita que o Autor escolha e você saberá que emprego ele quis dar às palavras.

A lição que fica — e que não me passaram na escola, mas que estou transmitindo a você — é que não podemos ler um texto com a pretensão de sabermos mais do que o Autor. Se existir uma forma pela qual o Autor esteja certo em sua gramática, então em princípio ele está certo, e cabe a nós decifrar o que ele queria dizer de acordo com as regras, decodificar de acordo com o código que temos, que são as normas do português e nosso conhecimento de funções sintáticas. Na verdade, a análise sintática é uma ferramenta muito útil para entendermos o papel de cada palavra na frase e, assim, podermos saber o que quer dizer o quê.

Um dos erros muito comuns dos professores de português é quererem que só exista uma forma de dizer determinados conteúdos, ou quererem que determinadas palavras só possam vir em determinada ordem, ou que determinadas frases só possam ser construídas de determinado jeito. Aí, quando uma frase tem uma vírgula ou uma crase ou um plural onde não esperam, dizem que a frase está errada, sem procurar algum significado que pudesse estar expresso corretamente daquela forma. O certo é tomar a frase pelo valor de face, tal como está, e nela encontrar as indicações do papel de cada palavra. Desse modo, podemos descobrir que o que parece verbo pode ser sujeito, que o que parece adjunto adverbial é predicativo, e assim muitas outras coisas.

(É claro que, às vezes, o Autor está errado mesmo, e a gramática da frase está errada. Mas não é para partir dessa ideia como premissa só porque a frase parece errada.)

EOF