Aí eu estava refletindo sobre a autocensura que muitas vezes praticamos sem a menor necessidade. Pense em todas as vezes em que poderíamos publicar um texto completamente inocente e, no entanto, tememos escandalizar ou ferir suscetibilidades. Repare que, muitas vezes, não há real fundamento para se achar que alguém vá se ofender com o texto. Em várias dessas vezes, o Autor está, de fato, expondo um ponto de vista que diverge da maioria — nem por isso ofensivo a quem quer que seja. Certas vezes o temor é de ofender uma pessoa específica que sequer vai ler o texto, ou que não se importaria. Independente do efeito, mesmo assim muita gente acaba limitando seu discurso por temor da polêmica, da rejeição, do comentário negativo. Outros casos podem ser explicados por uma timidez, mas a perda para o mundo é a mesma, e ficamos todos mais pobres por isso.

Por essa altura o Leitor já pode estar pensando que é de mim mesmo que estou falando. Êxito de quem percebe, mas, embora eu concorde, é claro que não é só de mim que trato aqui. Lamentàvelmente, verifico que não sou o único. Outras pessoas deixam bem claro, aqui e ali na Web, que se calam para não se indisporem com famílias, empregadores, pessoas diversas. Só sei que muitas vezes o discurso é inócuo, o temor é exagerado, e perdemos todos com o silêncio.

Naturalmente, não vamos supor autocensura toda vez que um Autor toca ponto sensível. Alguns casos estão apenas na medida exata, e a mensagem original já era pouco ambiciosa mesmo. Só estou convidando meu Leitor a aguçar o senso crítico ao se deparar com eventuais confissões comedidas.

Muitos desses casos nem sequer farão diferença. Um ou outro é que me faz refletir. Lamentar, às vezes. Hoje em dia, com este canal quase democrático oferecido pela Rede, é uma pena vermos o desperdício de oportunidades, os silêncios onde poderia haver poesia. Esta Rede iguala a todos nós em poder de divulgação e poderia ser o canal para as mais livres falas. Retrações são sempre uma perda para todos, Leitores especialmente. Espero, aliás, que meu Leitor perceba que este resmungo — este desabafo — também é alvo de autocensura; e peço desculpas se sou críptico. Só me resta torcer para que os mais perceptivos alcancem tudo que não está dito e não me recriminem por isso.

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