Memphis Belle: filme de ação e lição de História

mv5bnzfjzti0ytgtmzk3os00odziltlimtmtntc3nwvimwexm2i1l2ltywdlxkeyxkfqcgdeqxvynjqzndi3nzy-_v1_

Ontem revi este filme angloamericano de 1990 (link para o IMDB), que mostra a guerra aérea sobre a Europa em 1943. É um filme bastante didático para quem não tem íntimo conhecimento daquele específico período da II Guerra Mundial, e um espetáculo para os fãs de História da aviação militar.

Para começar, por alguma razão que não alcanço, meu exemplar é uma edição minimalista em DVD. O formato de tela é 4:3, não há quaisquer extras, e o filme contém falhas e granulação que fazem pensar se não é mera transposição do VHS. O texto da capa traseira e os nomes dos capítulos são traduções literais que perdem o sentido em português. Claramente uma edição descuidada e apressada.

As técnicas de filmagem indicam a idade da obra. A montagem dos aviões sobre o céu acaba aparecendo, especialmente quando o editor de vídeo transforma os cinco aviões usados para a filmagem em dezenas de aviões se perdendo na distância. É o que havia em 1990, pouco tempo antes do uso intenso de efeitos digitais no cinema.

Apesar das limitações, o filme é primoroso. O contexto está reproduzido fielmente, ainda que os cineastas tenham tomado algumas liberdades em relação aos eventos reais. 1943 foi o primeiro ano da campanha pesada de bombardeio da Alemanha conduzida todos os dias pela USAAF (Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, mais tarde transformada na Força Aérea dos Estados Unidos) e todas as noites pela RAF (Real Força Aérea, da Inglaterra).

Decolando de bases na Inglaterra, os inúmeros esquadrões da 8a. Força Aérea da USAAF (a “Oitava”), compostos cada um por 24 bombardeiros B-17, atravessavam o Mar do Norte e aventuravam-se sobre território inimigo, para dentro de França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Tchecoslováquia. Naturalmente, os alvos mais valiosos e defendidos estavam na Alemanha. Os Aliados estavam empenhados em bombardear as fábricas que sustentavam a máquina de guerra alemã, de modo a sufocar a capacidade do inimigo conforme a doutrina desenvolvida nos anos 30.

Aliás, foi em 1935 que voou o primeiro Boeing B-17. Desde o início este modelo foi chamado de Fortaleza Voadora porque fôra projetado para voar tão alto que ficaria imune ao alcance dos caças e da Flak (artilharia antiaérea). Já em 1943, a antiaérea e os caças eram bastante capazes de atingir esses bombardeiros. Para se defenderem ao menos dos caças, as B-17 passaram a ser dotadas de inúmeras metralhadoras em volta da fuselagem, e também se descobriu que sua extrema robustez permitia que continuassem voando apesar de impressionantes danos causados pelo fogo inimigo. Com o tempo, formou-se o equívoco (comum ainda hoje) de pensar que o nome Fortaleza Voadora tivesse vindo dessa capacidade de autodefesa e de sua construção resistente. Seguem exemplos:

65dd376e0e8c2bd2b4ad57e2808767d8-640x469

b-17-battle-casualty1 eeebe3963b7baaec9dd049b4c39e21e2

stabil2

De fato, Memphis Belle enfatiza bastante as características e vulnerabilidades das B-17. Naquele tempo, as tripulações formavam vínculos de carinho e gratidão com seus aviões, que suportavam severo fogo inimigo e ainda assim as traziam de volta em segurança. Era costume que cada avião individual tivesse seu próprio nome, pintado no nariz, muitas vezes com uma figura decorativa. Este filme retrata a ocasião histórica em que a tripulação da B-17 batizada de Memphis Belle foi a primeira a completar 25 missões.

Na época, a USAAF seguia a política de que, após 25 voos de combate, os tripulantes podiam voltar para casa e descansar antes de entrarem novamente em combate. O marco atingido pela Memphis Belle foi objeto de um documentário comemorativo, exibido nos cinemas americanos em 1944 como propaganda de guerra.

Já este filme de 1990 é uma história de ficção, mas representa acuradamente a rotina daquelas longas jornadas a bordo das B-17. Nele acompanhamos a 25a. missão da Memphis Belle, até seu alvo na Alemanha e de volta, na companhia de Windy City, C-Cup, Mother and Country e outras 356 aeronaves iguais a elas. Os personagens são fictícios, mas são o espelho de uma tripulação real.

Memphis Belle também é uma lição de como se conta uma história didàticamente, introduzindo os conceitos à audiência de modo gradual e explicando-os pelos diálogos, que não passam a impressão de uma aula, tão comum em outros filmes. A história começa ao entardecer, quando os ocupantes de uma base aérea acompanham a chegada de um esquadrão na volta de mais um difícil bombardeio, os aviões semidestruídos, sendo contados pelos companheiros em terra com a expectativa angustiada de que todos tenham retornado. Em seguida, os tripulantes da Memphis Belle são apresentados à audiência um a um, fazendo ver como são jovens, inexperientes, arrancados de uma vida simples e sùbitamente lançados a este ambiente tecnológico e assustador onde devem cumprir missões que contrariam todo senso de autopreservação em nome do esforço maior da guerra.

À noite, um baile comemora o primeiro aniversário do grupo (cada quatro esquadrões formavam um grupo). Na manhã seguinte, vêm as instruções para a missão, a espera ansiosa pelo momento da decolagem, e então o esquadrão se enfileira e decola. Seguem-se momentos de tédio e tensão até a entrada em território dominado pela Alemanha, seguidos pela tentativa dos ágeis caças de defesa alemães de derrubar os bombardeiros enquanto os atiradores se defendem freneticamente e os pilotos não podem fazer manobras evasivas, sob o risco de se chocarem contra os aviões vizinhos. Então, já na corrida final de bombardeio, vem a densa barragem de artilharia antiaérea, mas os bombardeiros devem continuar voando em linha reta até o objetivo e assim permanecem como alvos fáceis, para aflição de todos a bordo. Apesar de robustas, muitas B-17 eram atingidas em cheio pelas defesas de caças e canhões alemães, e percentuais tão altos como 20% delas acabavam não voltando.

q-daylight1

Era um cenário sombrio, em que a vida de um jovem tripulante podia acabar em segundos. Essa lúgubre lembrança faz-se ostensiva de vários modos por toda a duração do filme.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

Naturalmente, Memphis Belle traz a carga patriótica esperada de um filme sobre a II Guerra Mundial. Mas, diferente dos filmes dos anos 40-50, não retrata seus personagens como perfeitos. Os tripulantes demonstram medos, inseguranças e egoísmos, e são capazes de mentir e contar farol. Infelizmente, a história chega a exagerar quando mostra irregularidades a bordo (o navegador, que se embebeda na véspera e passa a missão toda de ressaca; o co-piloto, que descumpre as normas e vai buscar emoção como atirador de cauda no calor do combate; o atirador que cola um cartaz de mau gosto nas costas do colega). Na vida real, os tripulantes estariam concentrados em suas tarefas e jamais cometeriam essas indisciplinas.

Pode-se ainda apontar um anacronismo. No filme, as instruções de pré-voo mostram que, em torno do alvo (uma fábrica), existem uma escola, um hospital e várias casas. Ao chegar à zona do alvo, o piloto recusa-se a liberar sua carga mortífera se não puder ter absoluta certeza de que só atingirá a fábrica, evitando bombardear os civis inocentes, e por isso retorna e executa uma segunda passagem (sob os protestos da tripulação, que, com razão, vê nisso uma prática suicida). Acontece que, em 1943, não havia esse tipo de pudor, que só viria a se tornar regra na década de 90. Ainda que houvesse essa preocupação, teria sido impossível satisfazê-la, pois o nível de precisão necessário a se atingir um único edifício de uma altitude de 16 mil pés só foi obtido com a tecnologia dos anos 70. Durante a II Guerra Mundial, a regra era que centenas de bombardeiros despejassem seus milhares de bombas com a esperança de que algumas atingiriam o alvo, mas sabendo-se que os ventos, a distância entre os aviões e a imprecisão natural do processo espalhariam a maior parte desses artefatos em áreas de centenas de milhares de metros quadrados.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Outro absurdo que só acontece nos filmes: um dos tripulantes, ferido, perde muito sangue e chega a ter uma parada cardíaca. Entretanto, quando o bombardeiro finalmente consegue pousar, a equipe de resgate gentilmente espera que se organize uma fotografia da heróica tripulação antes de levá-lo em uma ambulância!

Apesar das liberdades dramáticas, o filme se mostra razoavelmente fiel à realidade nos aspectos aeronáuticos. Em 1943, a versão de B-17 que estava em uso na Oitava era a B-17F, dotada de dez tripulantes e dez metralhadoras. No nariz, situava-se o bombardeador, que precisava enxergar o alvo para definir o momento da liberação das bombas e, até chegar lá, operava uma metralhadora atirando à direita; atrás dele, o navegador, com outra metralhadora atirando à esquerda. Ambos ficavam abaixo do cockpit, onde iam piloto, co-piloto e mecânico de bordo (que também operava duas metralhadoras no dorso). O compartimento de bombas ficava logo atrás do cockpit, e atrás vinham, na sequência, operador de rádio, atirador ventral (com duas metralhadoras), atirador de boreste (com uma), atirador de bombordo (com outra), e atirador de cauda (com outras duas metralhadoras). Boa parte do filme transcorre a bordo do avião, de modo que podemos ver os papeis desempenhados e a interação entre esses tripulantes. (Parêntese: o atirador ventral é interpretado por um imberbe Sean Astin, onze anos antes de ajudar o Senhor Frodo a destruir o Um Anel.)

Para a produção do filme, foram usadas cinco B-17. Algumas eram da versão B-17G, equipada com metralhadoras sob o nariz, que, portanto, tiveram que ser removidas para a filmagem, em um downgrade que lhes deu a aparência da versão B-17F. A pintura dos aviões também é representativa do ano em que se passa o filme.

Em maio de 1943, as B-17 eram escoltadas por caças P-47, que as defendiam contra os caças alemães. Infelizmente, os P-47 tinham alcance limitado e eram forçados a retornar antes que as B-17 chegassem até seus alvos, devolvendo-as à própria sorte justamente onde elas mais estavam expostas. O filme mostra o conforto dos aeronautas ao verem a chegada dos caças de escolta (“little friends”) e seu lamento ao vê-los se afastarem. Entretanto, comete uma imprecisão: nessas cenas, os caças que vemos são P-51 Mustangs, especìficamente da versão P-51D, que só veio a ser usada a partir do fim de 1943. A grande diferença do P-51D é que ele tinha alcance para escoltar os bombardeiros até Berlim, de modo que, a partir de sua introdução, uma proporção maior das B-17 passou a ser capaz de chegar a seus alvos e retornar em segurança, favorecendo dramaticamente as estatísticas dos Aliados.

Já os caças alemães são de dois modelos: Messerschmitt 109 e Focke-Wulf 190. Como não havia nenhum 109 em condições de voo para a filmagem, os produtores usaram aviões do modelo HA.1112 Buchón. O HA.1112 era um 109 fabricado na Espanha no pós-guerra, que pode ser facilmente diferenciado do modelo original pela enorme carenagem sob o motor (tanto que o nome espanhol se traduz como “barrigão”).

Duas aeronaves foram usadas para representar Memphis Belle neste filme, e uma delas foi a B-17G Sally B. Esta é uma B-17 que permanece voando até hoje, apresentando-se regularmente em shows aéreos.

Sally B em 2005

Sally B em 2005

Terminada a filmagem, Sally B teve repintados seu nome e sua pin-up a bombordo, mas manteve o nome e a pintura de Memphis Belle a boreste, como referência a sua participação no filme. Em 1998, mediante a módica quantia de duas libras, o autor deste texto teve a oportunidade de fotografá-la por dentro na antiga base aérea de Duxford, que é seu lar, onde funciona o Museu Imperial da Guerra e onde foi rodada parte do filme (embora as cenas com a torre de controle tenham sido filmadas na base aérea de Binbrook, também inativa). Em 2008, reencontrei Sally B no show aéreo Flying Legends, novamente em Duxford, mas ela estava apenas exposta, faltando-lhe o motor número 1, que estava em manutenção. Em compensação, vi voando Pink Lady, que voou no papel de Mother and Country no filme.

Sally B, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Sally B em 2008, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Em 2010, em novo reencontro no Flying Legends, pude ver Sally B voando, mantendo vivo o legado das bravas tripulações que sacrificaram suas vidas nos céus da Europa Ocidental para que hoje meu Leitor pudesse ler estas linhas a salvo dos odiosos coturnos do regime nazista.

Anúncios