Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

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