Verificando a velocidade — Brian Shul e o SR-71

O Lockheed SR-71 “Blackbird” (na verdade Blackbird nunca foi o nome oficial) detém o record de avião a jato mais rápido do mundo. Atrás apenas do North American X-15, que tinha motor de foguete e era essencialmente uma nave espacial, o SR-71 é o segundo avião mais rápido do mundo. E também parece uma nave espacial.

De 1964 a 1998, quando foram tirados de serviço, os 32 exemplares de Blackbird construídos reinaram sobre o mundo da aviação, voando rotineiramente a 3,2 vezes a velocidade do som e 80 mil pés de altitude a serviço da Força Aérea dos Estados Unidos. Durante a maior parte da Guerra Fria, os Blackbirds operaram da Base Áerea de Beale, na Califórnia, com bases avançadas em Mildenhall, na Inglaterra, e Kadena, em Okinawa. Desses lugares partiam para invadir o espaço aéreo da União Soviética, Alemanha Oriental, China, Cuba, Líbia e outros países pouco simpáticos aos Estados Unidos, tirando fotografias ultraconfidenciais em missões de reconhecimento estratégico.

Cada tripulação era formada por um piloto e um oficial de sistemas de reconhecimento, que do assento traseiro operava as câmeras e outros sensores. Esses pouquíssimos profissionais formavam uma elite na Força Aérea, a bordo de um tipo de aeronave diferente sob todos os aspectos. O SR-71 tinha um formato diferente, sistemas diferentes, comportamento diferente, era feito de materiais diferentes, usava um combustível diferente, e há toda uma bibliografia sobre suas peculiaridades e superpoderes.

Essas aves raras nunca portaram armas, nem precisavam, pois, em sua velocidade e altitude, caças e mísseis inimigos eram incapazes de alcançá-las. Para efeito de comparação, considere que os caças mais velozes não costumam passar de 2,2 vezes a velocidade do som nem subir além de 50 mil pés. Os aviões de passageiros, quando voam alto, não passam de 41 mil pés. Apesar do risco que os Blackbirds sempre corriam sobre áreas proibidas, e da quantidade de mísseis lançados contra eles, nenhum foi derrubado.

O Major Brian Shul, que havia pilotado aviões de combate, que depois passou para o SR-71, e que está atualmente aposentado, costuma contar uma história, conhecida como “LA Speed Check”, sobre a velocidade de cruzeiro dessas máquinas. É tão engraçada que resolvi legendá-la e traduzi-la para seu deleite.

Então, abaixo do vídeo segue a melhor transcrição que pude fazer, e abaixo dela vai minha tradução. Recomendo abrir o vídeo em outra aba e ir acompanhando. (Se o YouTube tiver tirado este vídeo do ar, basta procurar outro com as palavras-chaves “Brian Shul” e “speed check”.)

T’s called the LA Speed Story. And I — It was just a story about one day when it was really cool being — being an SR-71 pilot. Walter and I were doing a training mission ‘round the United States, we just were building up hours and time, and we’d take off outta Beale, hit a tanker in Idaho, rip on up to uh — Montana, zip across Denver, hang a right turn Albuquerque, out over Los Angeles, up to Seattle, back into Sacramento, two hours, 21 minutes. And you’d just do that for — and you’d do it backwards and g– you’d hit a tanker, to — just, just to gain crew coordination, get — build your hours.

We’re on our last training mission, we’re over Tucson. I can see downtown L.A. from Tucson. We’re at 89,000 feet, I can see the whole Western United States bathed in a warm October fall glow… I can see the chain of Rocky Mountains from Canada to New Mexico, I co– I could just see the most beautiful picture laid at my feet in this air smooth as glass, not a gauge moving in the cockpit. It was perfect. Now I’m thinking: we bad…

And I feel sorry for Walter, ‘cause he has to monitor five radios in the backseat, so I flip the switch up just to listen and — LA Center is controlling, they control all — when you fly Southwest they’re there, the guys controllin’ everybody. But we’re above controlled airspace. So, they, they have us on their scope, but they’re not talkin’ ta us. Now there’s controllers all over the country, Jacksonville Center, Chicago Center, Seattle Center, you know… It’s the same guy! They all talk the same! And it’s really cool the way they talk, ‘cause they make you feel important as a pilot. They don’t just say, “yeah, okay, here’s your thing –” They make you feel really cool. So, sure enough, there’s this — this is pre-GPS days — some Cessna guy has to know his groundspeed, “Uh LA Center, Cessna November Tango Alpha, you got a groundspeed readout for us?” And Center would like to say, “who cares? Get off freq” But no, he’ll talk to ‘im like he’s John Glenn: “Cessna November Alpha, we show you ninety knots, niiine zero knots on the ground!” And they’d do that same song, but that’s how they talk… And it makes you feel kinda cool.

Right after that, a Twin Bonanza came up to pimp the guy for speed, I guess, and — “Hey, LA Center, Twin Beech uh whatever, you got a groundspeed readout for us?” And Center (…) “it’s Friday, why me, God, please just get off our freq–” but he’s gotta talk to ‘im just like he’s Air Force One! “Twin Beech, we show you one twenty-one twwwo zero knots on the ground!”

And right after that, a Navy F-18 out of Lemoore popped up on frequency. And you knew it was a Navy guy, ‘cause he talked really slliiick on the radio… “Center, Dusty Five Two, speedcheck!” And I’m thinking, “wait a mi-nute!… Dusty 52 has a groundspeed indicator in a million-dollar F-18 cockpit, it’s right there in the heads-up display, why is he calling Center to broadcast his speed — oooh, I get ittt! ‘We are just the meanest, baddest, fastest military jet in the Valley to-day… We’re taking our little Hornet jet over Mount Whitney and ripping across Death Valley, we want everyone from Fresno to the coast to know what real speed is…'” And you could almost hear a little, a little glee in the controller’s voice like, “we have put an end to this…” “Dusty 52, we show you six twenty-six twwwo zero knots across the ground”, and it was that “across the ground”, see that little knifelike, “I hope nobody else has the nerve to get on frequency now…” And there wasn’t an airliner from Seattle to San Diego who wanted to be next on frequency, it’s sort of an etiquette thing amongst flyers.

And a twelve-year-old was reaching for the mike button. And I thought, “oh, no, wait, Walter’s in charge of the radios! I flew single-seat all those years, but I’m in the family model now, and I — oh, no, it’s the Navy, they must die and they must die now” — and I thought, “no, but if I do, and I — oh but so Walter and I want us to be a good crew, and I” — at that moment, I heard a click at the mike button in the back seat. Ladies and gentlemen, Walter and I became a crew at that moment. In his best innocent voice, “LA Center, Aspen Three Zero, have you got a *hmph* groundspeed readout for us?” You could almost hear a collective gasp on freq like, “oh the poor fools didn’t hear the previous transmissions, ooh, they, they’ll get crushed like a grape”, it’s a, it’s just a pilot thing. But Center had to give you that same voice… “Aspen 30, we show you one thousand nine hundred ninety-two knots… ‘cross the ground…” When I knew I was gonna like Walter a lot was when he came back, said, “Center, we’re showing a little closer to two thousand…”

Ladies and gentlemen, we did not hear another transmission on that frequency all the way to the coast. The king of speed lived, the Navy had been flamed, and a crew had been formed. For just a moment, it was absolutely fun being the fastest guys on the block.

Chama-se “a história da velocidade em LA”. E eu — é só uma história sobre um dia em que foi realmente bacana ser um piloto de SR-71. Walter e eu estávamos em uma missão de treinamento pelos Estados Unidos, estávamos só acumulando horas, e decolávamos de Beale, encontrávamos um avião-tanque em Idaho, rasgávamos até Montana, cruzávamos Denver, dobrávamos à direita em Albuquerque, esticando até Los Angeles, subindo até Seattle, de volta a Sacramento, duas horas, 21 minutos. E você fazia isso só pra — e fazia de trás pra frente — e reabastecia, para — só para ganhar coordenação da tripulação, somar horas.

Estamos em nossa última missão de treinamento, estamos sobre Tucson. De Tucson eu consigo ver o centro de Los Angeles. Estamos a 89 mil pés, eu vejo todo o Oeste dos Estados Unidos banhado em um brilho quente de outono em outubro… Eu vejo a cadeia de Montanhas Rochosas do Canadá ao Novo México. Eu via a mais bela pintura aos meus pés neste ar liso feito vidro, nenhum ponteiro se movendo no painel. Estava perfeito. Nesse momento eu estava pensando: nós somos maus…

E eu lamento pelo Walter, porque ele tem que monitorar cinco rádios no assento de trás, então eu viro a chave só para ouvir e — o Centro de LA está controlando, eles controlam tudo — quando você voa para o Sudoeste, eles estão lá, os caras controlam todo o mundo. Mas nós estamos acima do espaço controlado. Então, eles nos veem no painel, mas não falam conosco. Ora, existem controladores por todo o país, Centro de Jacksonville, Centro de Chicago, Centro de Seattle, sabe… É o mesmo cara! Eles todos falam igual! E é realmente legal a forma como falam, porque fazem você se sentir importante como piloto. Eles não dizem simplesmente “tá, OK, taqui o que você pediu –” Eles fazem você se sentir o máximo. Então, conforme esperado, vem este — isto é na época antes do GPS — algum piloto de Cessna precisa saber sua velocidade em relação ao solo, “hã, Centro de LA, Cessna NTA, você pode nos dar uma leitura de velocidade?” E o Centro gostaria de dizer, “quem se importa? Saia da frequência”, mas não, ele fala com o cara como se ele fosse um astronauta: “Cessna NA, você aparece a 90 nós sobre o solo!” E é a mesma canção, mas é assim que eles falam… E isso faz você se sentir especial.

Na sequência, um Bonanza Bimotor chegou para humilhar o cara com a velocidade, eu acho, e — “ei, Centro de LA, Beech Bimotor hã sei-lá-o-quê, você pode nos dar uma leitura de velocidade?” E o Centro (…) “é sexta-feira, por que eu, Deus, por favor só saia da frequência–” mas ele tem que falar com ele como se ele fosse o Força Aérea Um! “Beech Bimotor, você aparece a 121.20 nós sobre o solo!”

E logo depois, um F-18 da Marinha, vindo de Lemoore, apareceu na frequência. E dava pra ver que era um cara da Marinha, porque ele falava todo bonitão no rádio… “Centro, Dusty Cinco Dois, verificação de velocidade!” E eu penso, “pe-ra-í!… Dusty 52 tem um indicador de velocidade de solo em um cockpit de F-18 de um milhão de dólares, está bem ali no mostrador projetado no pára-brisa, por que ele está chamando o Centro para anunciar sua velocidade para todo o mundo — aaah, entendiii! ‘Nós somos simplesmente o jato militar mais danado, mais malvado, mais veloz no Vale hoje… Estamos levando nosso pequeno jato Hornet sobre o Monte Whitney e rasgando pelo Vale da Morte, nós queremos que todo o mundo de Fresno até o litoral saiba o que é velocidade de verdade…'” E você quase conseguia ouvir uma pequena, uma pequena alegria na voz do controlador, tipo, “agora pusemos um fim nisso…” “Dusty 52, você aparece a 626.20 nós sobre o solo”, e foi aquele “sobre o solo”, sabe, aquela pequena lâmina afiada, “espero que ninguém mais tenha a audácia de entrar na frequência agora…” E não havia um avião de passageiros de Seattle até San Diego que quisesse ser o próximo na frequência, é uma espécie de etiqueta entre aviadores.

E um garoto de doze anos estava procurando o botão do microfone. E eu pensei, “ah, não, espera, Walter está encarregado dos rádios! Eu voei sozinho todos aqueles anos, mas agora estou no modelo família, e eu — ah, não, é a Marinha, eles têm que morrer, e eles têm que morrer agora” — e eu pensei, “não, mas se eu fizer, e eu — ah, mas então Walter e eu queremos ser uma boa tripulação, e eu” — naquele momento, eu ouvi um clique no botão do microfone do assento traseiro. Senhoras e senhores, Walter e eu nos tornamos uma tripulação naquele momento. Na sua melhor voz inocente, “Centro de LA, Aspen Três Zero, você pode nos dar uma — cof — leitura de velocidade?” Você quase conseguia ouvir uma respiração ofegante coletiva na frequência, tipo, “ó, os pobres tolos não ouviram as transmissões anteriores, ó, eles, eles vão ser esmagados feito uma uva”, é uma coisa entre pilotos. Mas o Centro tinha que te dar a mesma voz… “Aspen 30, você aparece a mil, novecentos e noventa e dois nós… sobre o solo…” O momento em que eu soube que ia gostar muito do Walter foi quando ele respondeu, “Centro, estamos vendo um pouco mais perto de dois mil…”

Senhoras e senhores, não ouvimos outra transmissão naquela frequência por todo o caminho até o litoral. O rei da velocidade estava vivo, a Marinha tinha sido queimada, e uma tripulação tinha sido formada. Por apenas um momento, foi absolutamente divertido ser os caras mais velozes da vizinhança.

 

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