Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

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