O passado está de volta no futuro

Então hoje anunciaram a mais nova spinoff de Jornada nas Estrelas, intitulada Strange New Worlds. O Capitão Pike comandará a USS Enterprise ao lado de Number One e do Tenente Spock.

Versão curta: estou ansioso para ver e pretendo assistir com boa vontade.

O que os trekkers da antiga sabem é que, na origem, quando “The Cage” foi criado, quem não tinha emoções era a Number One. Spock era só o alienígena, do qual nem sequer se dizia que era vulcano: naquele momento, seu planeta estava indefinido.

Com a rejeição daquele primeiro episódio piloto, Number One foi excluída da série e Spock perdeu as emoções. (Dizem que foi porque a emissora rejeitou uma mulher na ponte de comando. Isso não é verdade, mas não vem ao caso aqui.)

Depois disso, Spock tornou-se o ícone que conhecemos e amamos. Um vulcano racional, ocultando suas emoções em uma contínua jornada em busca de autocompreensão. A evolução do personagem é uma trajetória fascinante, desde os primórdios, passando por relances de emoções controladas na série Clássica, pela radicalização do Kolinahr, pelo choque com V’Ger, pela quebra de paradigmas após a Ira de Khan e pela paz e sabedoria que viria a adquirir posteriormente.

Na origem da série Clássica, os vulcanos eram cercados de mistério. O pon farr era secreto e sòmente o descobrimos por circunstâncias extremas. O elo mental era um superpoder desconhecido, de raro uso. Gradualmente, fomos sendo expostos à cultura vulcana, e os trekkers passaram a compreendê-la melhor do que os membros da Frota em volta de nosso orelhudo preferido.

Corta para 2017 e, após 729 episódios de Jornada nas Estrelas, estreia Star Trek: Discovery. Mais uma vez a CBS comete o erro que a Paramount cometera com Enterprise em 2001, e cria uma prequel ambientada antes da série Clássica. Se, de um lado, Enterprise fez uma tentativa desajeitada de se encaixar no cânone e acabou antecipando tudo que não devia, Discovery já chegou metendo o pé na porta. Inventou Klingons que tinham pouco a ver com os que conhecíamos, abusou do Universo do Espelho, e zoou com tudo que sabíamos sobre Sarek e os vulcanos. O resultado foi uma série controversa, que me criou desagrado desde o começo.

Mas, na segunda temporada, a CBS resolveu mexer em Discovery, trazendo Anson Mount para atuar como o Capitão Pike e traçando um arco de episódios que, com todos os defeitos, aproximou a série das ideias centrais de Jornada nas Estrelas. Mais do que isso: Mount teve um desempenho brilhante como Christopher Pike. Interpretando o personagem de forma bem diferente das versões de Jeffrey Hunter e Bruce Greenwood (e Sean Kenney também ;-P ), Anson Mount mostrou-nos um Pike que era essencialmente um modelo mais experiente do Capitão Kirk, mais acostumado e relaxado com o comando. Saiu-se TÃO bem, e com tanta popularidade, que alterou dramàticamente a percepção que se tinha de Discovery.

Claramente a fórmula tinha dado certo, mas Discovery não podia fazer uso continuado de Mount/Pike, porque, nesta época, ele era sabidamente o capitão da Enterprise. Ao fim da segunda temporada, ele teve que ir embora.

O resultado era previsível: quase imediatamente surgiu esta nova spinoff anunciada hoje, com as aventuras da Enterprise sob o comando de Pike e tendo, na tripulação, destaque para Spock e Number One.

Independente de outros aspectos, Spock é o personagem mais conhecido e mais popular da série Clássica, e fazia parte da tripulação da Enterprise na época do comando de Pike. Então, ele necessàriamente tem que fazer parte de Strange New Worlds — como foi anunciado que fará, como um dos três personagens centrais. Nem tem como não.

É aqui que entram minhas ressalvas.

Se fizerem uma série com Spock e Number One ao mesmo tempo HOJE, um dos dois vai ter que deixar de ser quem era. Ou Spock será racional e impassível, como era na Clássica toda, ou Number One será, como era em “The Cage”. Mas os dois não dá, e pelo menos um deles vai sair da configuração. Torna-se enorme o potencial de ferir o cânone.

Alternativamente, poderão focar nos aspectos da fisiologia e da cultura dos vulcanos. Aliás nem tem como evitar isso, não só porque é disso que o povo gosta como porque agora são aspectos indissociáveis do personagem. Só que neste ponto também se arrisca uma violação do cânone, porque, na época de Pike, essas características eram pràticamente secretas: só foram reveladas ao longo da série Clássica, pelo próprio Spock. Não importa o fato de que, mais tarde, tornaram-se lugar comum para os trekkers.

Em Discovery, a presença de Spock e Number One não causou grande dano, porque ele estava fora de si e ela apareceu em poucas cenas. Mas, quando vi “Q&A”, esse pequeno episódio pareceu-me furar o que sabíamos sobre os personagens, com uma informalidade que não se encaixava no perfil de qualquer um deles.

OK, então esses são aspectos que podem dar errado e provàvelmente darão. Mas o que podemos dizer sobre a própria série?

Por enquanto, quase nada, é claro. Mas o título é animador. “Strange New Worlds” está no lema de abertura da série Clássica, a ponto de ser uma expressão já vinculada a este universo há tempos. Também é o estimulante nome de uma série de livros de fanfics que exploram a variedade da criação de Gene Roddenberry.

Se vão colocar o Capitão Pike no comando da Enterprise, com Number One e Spock a seu lado, de imediato sou levado a pensar: trata-se da Jornada nas Estrelas que teria existido se “The Cage” tivesse sido aprovado!… É pràticamente uma versão alternativa da série Clássica, onde a Enterprise explorará novos mundos e novas civilizações, audaciosamente se valendo de todos os efeitos visuais de que dispomos em 2020 e que teriam sido impensáveis em 1965.

Com essa perspectiva, vejo um bem-vindo contraste com a tendência que Jornada nas Estrelas vinha adotando, de conspirações e inimigos ocultos. Esse tipo de narrativa era interessante quando era inovador (p.ex. em DS9, contra os Fundadores), mas tende a ser cansativo com o tempo. Felizmente, de tempos em tempos, o universo de Jornada volta a suas origens, como a Nova Geração, Voyager e Enterprise acabaram fazendo, cada uma a seu modo e com resultados variáveis.

De minha parte, fico animado com a possibilidade de se retomar o conceito da série Clássica de um modo respeitoso e muito mais próximo da original do que fez J.J. Abrams com seu reboot (embora, vá lá, a intenção dele fosse outra). Por mais que eu esteja atualmente curtindo Picard (e estou), Strange New Worlds desperta-me maior interesse, inclusive porque uma parte de sua fórmula já foi testada como protótipo na segunda temporada de Discovery.

Há que ver como vão desenvolver simultaneamente Discovery, Picard, Section 31 e Lower Decks, mas quanto a isso tenho fé. Já houve Jornadas simultâneas em outros momentos (TNG/DS9, DS9/Voyager). Embora, na época, tenha havido uma diluição da capacidade criativa, em retrospecto a qualidade das séries afetadas aumentou com o tempo. Além disso, a equipe criativa (nomes como Alex Kurtzman, Akiva Goldsman, Heather Kadin e Aaron Baiers, entre outros) tem mostrado que consegue desenvolver material novo e vigoroso apesar de eventuais tropeços.

E que assim venham outros 54 anos.

O triunfo de David Brin

Várias postagens deste belogue dão conta de minha progressiva leitura dos livros onde Isaac Asimov construiu sua magistral História do futuro. Embora desordenadamente, o Bom Doutor escreveu contos de robôs, romances de robôs, romances do Império e sete livros da Fundação. Esse material está detalhado na Web inteira, inclusive (bastante) na Wikipedia e aqui. Até eu fiz meu próprio resumo.

Agora, após onze anos, sete dias e 31 livros, acabei. Anteontem terminei a leitura de Foundation’s Triumph, último livro da Segunda Trilogia da Fundação. Ainda existem algumas minisséries escritas por outros autores e ambientadas neste universo, parte delas iniciada enquanto Asimov ainda estava vivo, até agora totalizando 29 livros. Nessas não vou entrar por ora, e considero que a aventura esteja concluída. Mais abaixo explico por quê. Hoje quero tratar justamente de Foundation’s Triumph.

Foundation's Triumph

Foundation’s Triumph

Antes, uma recapitulação. Nos livros de robôs — sejam os contos, ambientados no século 21, sejam os romances, no século 35 –, o principal tema são as Três Leis da Robótica.

Primeira Lei: um robô não pode causar dano a um humano, nem, por omissão, permitir que seja causado dano a um humano. Com esta Lei, os robôs são seguros.

Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens de um humano, exceto se conflitarem com a Primeira Lei. Com esta Lei, os robôs são úteis.

Terceira Lei: um robô deve preservar sua existência, exceto se conflitar com a Primeira ou a Segunda Lei. Com esta Lei, os robôs são econômicos.

Os contos e romances de robôs desenvolvem consequências lógicas e não necessàriamente previsíveis dessas Leis em diversos cenários, quase sempre em alguma busca detetivesca pela explicação de comportamentos aparentemente ilógicos dos robôs. Em todas essas histórias, as Três Leis aparecem como características inalienáveis dos robôs, sem as quais não seria sequer possível construí-los no universo de Asimov.

Se dispusermos os livros dos robôs, do Império e da Fundação na ordem cronológica em que as histórias acontecem (e não na ordem de publicação), o resultado é a sequência abaixo, onde estou pulando as poucas histórias que não têm relevância para a Segunda Trilogia.

*** CUIDADO: DAQUI PARA BAIXO, SPOILERS EM MASSA. ***

1. Contos de robôs — no século 21, a robopsicóloga Susan Calvin decifra a mente dos robôs aplicando as Três Leis da Robótica com uma racionalidade fria e radical. Em um dos contos, é inventada a propulsão hiperespacial, que permite vencer distâncias interestelares instantaneamente.

2. The Caves of Steel e The Naked Sun — no século 35, os habitantes da Terra vivem em metrópoles subterrâneas e têm fobia e ódio dos robôs. Em cinquenta outros planetas vivem os Spacers, descendentes dos colonizadores que lá chegaram com tecnologia hiperespacial. Os terráqueos são desprezados pelos Spacers, cujas economias, por sua vez, dependem totalmente dos robôs. Na Terra e na colônia Spacer de Solaria, o detetive Elijah Baley investiga dois homicídios e nisso recebe ajuda de Daneel Olivaw, um dos recentes e raros robôs que conseguem se passar por humanos.

3. The Robots of Dawn — no planeta Aurora, a primeira colônia Spacer, o roboticista Han Fastolfe sugere a possibilidade de que o comportamento humano possa ser previsto por leis matemáticas que ainda estariam por ser descobertas, em uma espécie de psico-história. Baley resolve mais um crime com ajuda de Daneel e do robô Giskard e vence a resistência dos Spacers a uma nova onda de emigração da Terra. Baley descobre que, graças a um acidente de construção, Giskard é secretamente um telepata.

4. Robots and Empire — trezentos anos após Robots of Dawn, Solaria está deserta e ninguém sabe desde quando, como nem por quê. Em Aurora, Daneel e Giskard descobrem que as cinquenta colônias de Spacers estão estagnadas e fadadas à extinção devido a sua dependência dos robôs e consequente acomodação. Novas colônias foram fundadas por orgulhosos terráqueos que, em lugar de robôs e comodidade, levaram consigo apenas espírito empreendedor e disposição para o trabalho. São os Settlers, cuja cultura é bem diferente da cultura Spacer. Giskard deduz lògicamente a existência da Zeroésima Lei da Robótica: um robô não pode causar dano à humanidade, nem, por omissão, permitir que seja causado dano à humanidade. A partir da Zeroésima Lei, Daneel e Giskard adotam uma medida drástica para tornar inevitável a continuidade da recém-iniciada emigração da Terra pelos Settlers. Giskard confere seu poder telepático a Daneel, que se compromete a descobrir e usar as regras do comportamento humano para salvar a humanidade de si mesma.

5. The Stars Like Dust — após milênios de colonização, os vários planetas da Galáxia disputam poder cosmopolítico, tal como os antigos reinos feudais da Terra. Entre eles, os Reinos Nebulares incluem Nephelos e Widemos, liderados pela família de Biron Farrill, e Rhodia, liderado pelos Hinriads. A Terra está radioativa e, nos Reinos Nebulares, quase ninguém sabe onde ela fica. No início do livro, Biron estuda na universidade da Terra, quando recebe a notícia de que o reino de Tyrann está promovendo um golpe de Estado em Nephelos, na tentativa de anexá-lo. Biron junta-se à princesa de Rhodia e, com auxílio dos dirigentes do planeta Lingane, eles escapam à dominação de Tyrann. Biron e a princesa dos Hinriads casam-se em união real. Esse romance ruim é um dos três romances do Império.

6. The Currents of Space — um pesquisador descobre que no espaço sideral há correntes de matéria orgânica, as quais influem no ecossistema dos planetas e cujo estudo permite prever catástrofes. O pesquisador tenta advertir sobre a iminente destruição do planeta Florina, dominado pelo vizinho Sark. Para salvar Florina, ele busca ajuda do Império de Trantor, que domina metade da Galáxia. Fora do Império de Trantor, ninguém sabe onde fica a Terra. Esse é outro romance do Império, também ruim.

7. Pebble in the Sky — neste que foi o primeiro romance do Império a ser escrito, acontece um acidente no século 21: um raio de táquions experimental transporta o aposentado Joseph Schwartz, de Chicago para sua sucessora de 10.000 anos no futuro. A Terra está ainda mais radioativa do que em The Stars Like Dust. Os terráqueos são vistos como inferiores pelo Império Galáctico, sediado em Trantor e dominador de todos os planetas habitados. Na Terra, um movimento revoltoso, fruto do ressentimento, pretende espalhar uma arma biológica por todo o Império. Schwartz ganha poderes telepáticos, ajuda a derrotar o plano rebelde e obtém a promessa do Império de tentar eliminar a radioatividade da Terra.

8. “Blind Alley” — esta é a única história deste universo onde se vê alguma forma de vida inteligente mas não humana em toda a Galáxia. Uma civilização alienígena foi encurralada pelo crescimento do Império e está a caminho da extinção. O burocrata Antyok manipula a Administração pública imperial e oferece aos alienígenas uma oportunidade de fuga para outra galáxia.

9. Prelude to Foundation — neste romance, publicado em 1988, o Império Galáctico já tem 12 mil anos. O jovem matemático Hari Seldon chega a Trantor e apresenta seu teorema, que demonstra ser possível descobrir as leis matemáticas que regem o comportamento de grandes populações. Esse é o primeiro grande marco na incipiente ciência da Psico-História. O Primeiro-Ministro Eto Demerzel percebe na Psico-História a chave para salvar o Império de sua atual decadência e estimula Seldon a desenvolvê-la. Seldon descobre que, no passado, a humanidade criou seres artificiais, hoje desaparecidos, chamados “robôs”. Em um dos setores de Trantor, a população é composta de xenófobos tradicionalistas, que organizaram uma religião em torno do passado longínquo, quando seus ancestrais viviam rodeados de robôs em Aurora. Esses fanáticos são considerados bizarros pelos demais setores.

Ao fim do livro, Demerzel revela-se como uma identidade secreta do robô Daneel, que ainda luta para salvar a humanidade, mas agora nas sombras, manipulando eventos polìticamente.

10. Forward the Foundation — este livro, publicado em 1993, divide-se em cinco partes e conta cinquenta anos da vida de Hari Seldon enquanto ele desenvolve a Psico-História. Seldon modela o comportamento de populações com leis e equações matemáticas e, com elas, descobre que o Império está em crise, rumando para a extinção em trezentos anos. Na esteira do fim do Império, a Psico-História indica que sobrevirão trinta milênios de ignorância e desunião. Então, Seldon começa a conceber seu grande Plano, com o qual poderá salvar a humanidade das trevas. Na última parte do livro, ele descobre que sua neta faz parte de uma minoria de humanos a quem uma mutação deu poderes telepáticos, e pede a ela que procure outros telepatas.

11. Trilogia da Fundação — estas são nove histórias, dispostas ao longo dos três livros Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, respectivamente publicados em 1951, 1952 e 1953. A primeira história apresenta o leitor ao matemático Hari Seldon, à Psico-História e ao Plano Seldon para a Fundação. Aqui, Seldon tem que defender seu plano contra acusações de traição pela Comissão de Segurança Pública do Império. Ao explicá-lo aos julgadores, o matemático também o revela ao leitor, que passa a ter contexto para as histórias subsequentes.

Eis o plano: o fim do Império é inevitável e será seguido por 30 mil anos de conflitos. Para abreviar esse período tenebroso para “apenas” mil anos, Seldon cria a Fundação, reunindo especialistas em Ciências Exatas no planeta Terminus, isolado na borda mais externa da Galáxia. Ali compilarão a Enciclopédia Galáctica, com todo o conhecimento acumulado pelo Império, para posterior divulgação, qual farol na escuridão dos tempos (como foram os mosteiros medievais após o fim do Império Romano).

Mas esse plano é um engodo. Nas histórias subsequentes, o leitor descobre que o verdadeiro Plano Seldon é que a Fundação, valendo-se do conhecimento privilegiado, seja a semente do Segundo Império Galáctico. Percorrendo quinhentos anos, oito histórias mostram o crescente domínio da Fundação sobre seus vizinhos rumo a um destino glorioso. Sem que a Fundação saiba, seu desenvolvimento é gerido pela secreta Segunda Fundação, também estabelecida por Seldon e composta pelos descendentes dos psicólogos e telepatas reunidos por sua neta.

Nas últimas histórias, o Plano Seldon descarrila quando, de forma não prevista pelas equações da Psico-História, surge o Mulo, um mutante com extremos poderes telepáticos. Com a sutileza de um rolo compressor, o Mulo conquista a Fundação e muitos outros planetas, e sòmente a muito custo a Segunda Fundação consegue restabelecer o cumprimento do Plano.

12. Foundation’s Edge — o político Golan Trevize tem a fama de nunca ter tomado uma decisão errada. Banido da Fundação, ele parte em busca da Terra. Ao mesmo tempo, a Segunda Fundação descobre que uma terceira força está ajustando o Plano Seldon para um sentido não programado. Trevize e a Segunda Fundação descobrem que essa força é o planeta Gaia, onde humanos, robôs e toda a natureza compõem uma só mente unificada, vivendo em harmonia. Gaia pretende estender sua unidade aos demais planetas, fundindo a todos em uma mente única chamada “Galaxia”, mas somente o fará se tiver a concordância de Trevize.

13. Foundation and Earth — Ainda em busca da Terra, Trevize parte de Gaia e visita algumas das cinquenta colônias de Spacers, já desabitadas. Em Solaria, descobre que a população nunca abandonou o planeta, mas vive oculta no subterrâneo. Em Alpha Centauri, encontra os descendentes dos últimos terráqueos, evacuados pelo Império depois que fracassou o plano de eliminação da radioatividade. Afinal Trevize chega à Lua, onde conhece Daneel, que informa ter fundado Gaia e estar prosseguindo no plano de salvar a humanidade através de Galaxia.

Conforme observei aqui, o que Asimov fez nos anos 80, principalmente com The Robots of Dawn, Robots and Empire e Prelude to Foundation, foi conectar as diferentes épocas nas quais se situavam suas obras, unificando-as.

Ou seja: de início, havia apenas períodos históricos desconectados. Então, o Bom Doutor unificou-os em uma linha temporal única, que estivera inicialmente oculta dos leitores. Nesta continuidade retroativa, Asimov olhava para trás, para obras já escritas, e interpretava-as sob uma óptica de materialismo histórico, em que as circunstâncias de um período levavam ao período seguinte, em uma relação de causa e efeito.

Após a morte de Asimov (1992), e a pedido de seu espólio, o escritor Gregory Benford concebeu o tema de três novos livros, que viriam a ser conhecidos como a Segunda Trilogia da Fundação. O próprio Benford escreveu o primeiro livro, Foundation’s Fear, publicado em 1997, e delegou os demais a Greg Bear (Foundation and Chaos, 1998) e David Brin (Foundation’s Triumph, 1999).

A Segunda Trilogia não é uma continuação das histórias da Fundação. Os três livros ambientam-se entre as histórias de Prelude to Foundation, de Forward the Foundation e do próprio Foundation. Conforme já detalhei aqui, Foundation’s Fear é bem fraco, mas Foundation and Chaos já traz uma melhora, e Foundation’s Triumph fecha muito bem a série.

Eu sempre dou preferência a consumir obras em ordem de publicação. O grande motivo é que, quase sempre, o conteúdo de uma obra mais antiga é pressuposto das obras mais recentes, o que é intensamente verdadeiro também no caso desta Segunda Trilogia. Embora o terceiro livro avance mais rápido e tenha mais conteúdo, ele infelizmente depende de eventos dos dois primeiros livros.

Mas eu disse que Triumph fecha bem a série. Porque David Brin teve o talento de reunir todos os elementos de todos os livros anteriores e, com uma muito bem amarrada retrocontinuidade, dar-lhes um sentido panorâmico que o próprio Asimov certamente não imaginou. Brin desenvolveu explicações que, em retrospecto, fazem com que haja uma contínua linha de sentido e propósito ligando todos os livros de Asimov desde o primeiro conto de robô, escrito em 1939. O ponto em que se apoia essa engenhosa unificação é a Zeroésima Lei da Robótica.

Explico.

De todos os livros de robôs escritos pelo próprio Asimov, o último foi Robots and Empire. Ao introduzir a Zeroésima Lei da Robótica, esta história, dependendo da interpretação do Leitor, pode pôr a perder todo o sentido das Três Leis.

Tendo deduzido a Zeroésima Lei, Giskard convence Daneel, que a incorpora a sua própria programação. O vilão auroriano Amadiro, motivado por vingança, pretende iniciar um processo que transformará a Terra em uma vastidão radioativa inabitável. Os dois robôs impedem Amadiro, mas percebem que, se a radioatividade da Terra for aumentada gradualmente, a consequência será que, ao longo de séculos, a humanidade será forçada a evacuar seu planeta natal e conquistar as estrelas, vindo a formar o Império Galáctico. Assim, com base na Zeroésima Lei, os robôs ativam a máquina de Amadiro em um ajuste de baixa intensidade.

Com esse evento, Asimov retroativamente justificava por que a Terra era radioativa na época do Império em The Stars Like Dust e Pebble In the Sky. Também justificava por que, ao tempo da Fundação, ninguém mais sabia onde ficava a Terra, que já era considerada um planeta mítico.

Porém a Zeroésima Lei traz seus próprios problemas. O primeiro que se vê, e mais filosófico, é: se nem mesmo os humanos conseguem enxergar adiante as consequências de seus próprios atos, como esperar que a mente de um robô faça um exercício de futurologia e calcule quais ações causarão dano ou benefício ao conjunto da humanidade? Como se mede ou sequer percebe esse dano ou benefício? É necessário um poder de abstração que difìcilmente se veria na mente de u’a máquina. Em Robots and Empire, Giskard e Daneel deduzem que, a longo prazo, será mais benéfico que a humanidade emigre da Terra; mas eles não podem ter essa certeza, enquanto é certo que, em prazo mais curto, milhões morrerão por efeito da radiação, contrariando a Primeira Lei.

Além disso, para humanos esse já seria um sério dilema ético, enfrentado há muito tempo (lembro-me de “The Conscience of the King”, episódio de Star Trek), e nós mesmos tenderíamos a preservar as vidas imediatas de quem habita a Terra. Não faz muito sentido que os robôs, construídos para servir e limitados pelas Três Leis, decidam o que é melhor e passem a agir como pastores da humanidade.

Também existe uma questão operacional mas também de coerência. Em todos os livros anteriores, sempre esteve claro que as Três Leis são implementadas em um nível fundamental, provàvelmente no hardware dos robôs. Com a introdução da Zeroésima Lei, fica evidente que os robôs podem acrescentar leis fundamentais a sua programação de alto nível. Por extensão, retroativamente fica estabelecido que as Três Leis não são pressupostos da construção dos robôs, mas comandos programáveis e removíveis. Eis aí uma incômoda contradição diante de todas as maravilhosas histórias anteriores, que tão sadiamente afastavam o complexo de Frankenstein. Diante da Zeroésima Lei, em teoria um robô passava a poder até mesmo matar um humano se essa ação beneficiasse a humanidade.

Pois voltemos à Segunda Trilogia da Fundação. Em uma postagem anterior, critiquei bastante a execução de seu primeiro livro por Gregory Benford. O livro é ruim mesmo, mas, sendo justo, não sei quanto do brilhantismo unificador do segundo e do terceiro livro vem dos próprios Autores e quanto foi imaginado por Benford em seu plano para o conjunto.

No segundo livro desta Trilogia, Foundation and Chaos, o leitor vem a descobrir que, quando Daneel começou a seguir a Zeroésima Lei, ele passou a recrutar seus semelhantes para seu grande plano de salvação da humanidade. Os aliados de Daneel agem ocultos, protegendo a humanidade contra si mesma como uma criança irresponsável, que não sabe o que é melhor para si nem pode sequer saber que outros estão cuidando de seu destino.

Os robôs adeptos da Zeroésima Lei, liderados por Daneel, eram os giskardianos, pois Giskard foi o descobridor da lei. Em Foundation and Chaos, Daneel confessa a Hari Seldon que, no passado distante, para cumprir a Zeroésima Lei, os giskardianos cometeram um grande crime, que ele não revela qual foi.

Para minimizar o sofrimento humano, os giskardianos tiveram que amortecer todas as forças sociais que trazem renovação e criatividade, e formou-se um Império Galáctico pacífico e materialmente próspero porém baseado em conservadorismo, estagnação e, principalmente, amnésia sobre suas origens. Por isso é que, em todo o Império, raras são as pessoas que dão crédito ou importância à Terra como planeta de origem da raça humana. O passado pré-imperial é impenetrável e desimportante.

Portanto, esta Segunda Trilogia mostra que o Império e a Fundação, bem como todo o ambiente cultural em que se inserem, são o resultado da obediência de Daneel e seus colaboradores à Zeroésima Lei da Robótica.

Porém, nem todos os robôs concordam com a existência da Zeroésima Lei. Um grupo de radicais conservadores são chamados Calvinianos, por aderirem somente às Três Leis propugnadas por Susan Calvin. Os calvinianos veem no gentil cajado de Daneel uma interferência indevida no rumo natural da humanidade e uma subversão da finalidade dos robôs. Por isso, antes mesmo do estabelecimento do Império, instaurou-se uma guerra civil entre calvinianos e giskardianos. Graças à imitação quase perfeita, os robôs continuaram disfarçados entre os humanos, que nunca desconfiaram do conflito.

Agora, em razão das mesmas características que mantiveram o Império estável durante 12 mil anos, essa grande entidade política já não tem força para suprimir os crescentemente frequentes afloramentos de caos social. Cada vez mais planetas estão incidindo na mesma doença: súbitos renascimentos de criatividade, seguidos de severos conflitos internos e desagregação social.

Por isso é que, à medida que o Império dá mostras de implosão, Daneel vê no Plano Seldon a solução para conduzir a civilização a uma nova estrutura com mínimos efeitos colaterais. Já os calvinianos percebem que, apesar do fim iminente do Império, Daneel continua querendo manipular o destino da humanidade através do Plano Seldon, e tentam impedir o exílio da Fundação em Terminus. Ao mesmo tempo, agentes do Império descobrem uma telepata extremamente poderosa, aberrante e renegada, e tentam usá-la para, de uma só vez, eliminar Seldon, os demais telepatas e os robôs, todos os quais são percebidos como ameaças. Após o clímax onde calvinianos e telepata são derrotados, o livro repete ipsis litteris a cena do julgamento de Seldon.

Então chegamos a Foundation’s Triumph. Neste romance, Hari Seldon já exauriu seu papel na História da humanidade. Os membros da Fundação estão emigrando de Trantor para Terminus e a Psico-História está nas mãos da Segunda Fundação. O velho matemático prepara-se para morrer em breve, quando é convidado a uma nova aventura por Horis Antic, um pesquisador de solos. Antic ficou intrigado quando descobriu que, de modo geral, os planetas habitados têm solos de mesma composição, indicando alguma espécie de preparação. Também descobriu que o surgimento do caos está correlacionado a planetas onde o solo é diferente do padrão e que se situam no caminho de correntes do espaço. Eis aqui a única ocorrência das correntes do espaço fora do livro a que dão nome, reconhecendo importância a um conteúdo que nunca tinha sido abordado novamente.

A partir deste ponto, Foundation’s Triumph segue uma estrutura semelhante à dos romances de Asimov, seguindo o herói em uma fuga por vários planetas da Galáxia, durante a qual vai reunindo pistas para entender o panorama político. O piloto da nave é um nobre da família Biron, senhor dos planetas Nephelos, Rhodia e Widemos —novamente, em referência aos romances do Império. Ele sabe que um de seus antepassados estudou na universidade da Terra e busca registros da História desaparecida.

A parada mais importante desta jornada é dentro de uma nuvem de poeira cósmica, onde há milênios estão guardados segredos aos quais a humanidade jamais poderá ter acesso: são naves robóticas terraformadoras (explico-as adiante) e milhões de bilhões de arquivos, reunindo todo o conhecimento que a humanidade conseguiu preservar antes da grande amnésia que acometeu o Império. Tanto Seldon como os robôs reconhecem que, se alguém encontrar esses arquivos, haverá imediatas manifestações do caos em toda a Galáxia. Para que o Plano Seldon funcione, é imperioso que a humanidade continue progredindo às cegas, sem saber que tudo já foi previsto nem conhecer suas origens. Por isso, Seldon autoriza os robôs a destruírem os arquivos milenares.

Imediatamente após a destruição dos arquivos, um grupo de calvinianos sequestra Seldon, levando-o à Terra para submetê-lo ao mesmo raio taquiônico que deslocou Joseph Schwartz a seu respectivo futuro (e que ainda está ativo desde o século 21, pois ninguém soube desligá-lo). Os calvinianos pretendem avançar Seldon quinhentos anos, para que ele julgue se seu Plano se revelou benéfico, e estão dispostos a se curvarem a esse julgamento.

Depois de várias peripécias, David Brin faz como Asimov: ao fim do livro, monta o quebra-cabeças das peças que foi dispondo pelo caminho. Neste ponto, Foundation’s Triumph estabelece uma gigantesca continuidade retroativa e revela inúmeros fatos que sempre foram verdade ao longo de todos os livros anteriores mas que estiveram escondidos do leitor (e, na verdade, também do próprio Asimov):

– Na Terra, após o século 21, um agente biológico tornou-se o causador de uma doença mental que leva as sociedades a rejeitar novidades e da qual a maioria dos humanos são portadores. Após surtos criativos, essa doença causa o caos das civilizações, que acabam se retraindo. Na Terra, a invenção dos robôs e da propulsão hiperespecial, em tão pouco tempo, resultou numa fobia que levou os terráqueos a se enfurnarem em cidades subterrâneas (“cavernas de aço”). Inevitàvelmente, antigas cepas da doença chegaram às colônias de Spacers, que entraram em obsessão xenofóbica, isolamento e definhamento. Sòmente após várias gerações é que alguns terráqueos se recuperaram do surto criativo, iniciando a emigração dos Settlers, que, porém, também levaram a doença consigo.

– Após Robots and Empire, os giskardianos procuraram estimular e facilitar a expansão de Settlers a novas colônias, sem que os Settlers pudessem saber. Com essa intenção, em poucos séculos, milhares de naves robóticas ajustaram os solos dos planetas de clima adequado a uma futura ocupação, terraformando-os em segredo adiante da onda de colonizadores. Isso explicava a improvável semelhança entre os solos de milhões de planetas. Toda forma de vida pré-existente era eliminada pela terraformação, como quase aconteceu aos alienígenas de “Blind Alley”.

– Nos planetas terraformados, os giskardianos estabeleceram dispositivos biológicos, tecnológicos e sociais de amortecimento, que suprimiam a criatividade e induziam a comportamentos pacíficos de conformidade. Tais dispositivos evitavam o surgimento de novas ideias e dos conflitos de onde brota a evolução, mas também evitavam o caos e estabeleciam as bases de estabilidade do Império.

– Nos planetas onde a terraformação não foi completada por algum motivo, os solos permaneceram na forma original, fugindo ao padrão estatístico descoberto por Horis Antic. Ausentes os mecanismos de amortecimento social, esses planetas vieram a ser os mais suscetíveis ao surgimento do caos. É o caso de Lingane e Sark, o primeiro por se localizar numa zona que foi colonizada antes que os robôs a alcançassem e o segundo por se situar sobre uma corrente do espaço, onde a terraformação é inutilizada em pouco tempo.

– O grande e inconfessável crime dos giskardianos não é completamente definido em Foundation’s Triumph, mas fica claro que é um dentre dois: ou foi o envenenamento radioativo da Terra em Robots and Empire, com o qual os robôs tomaram as rédeas do destino da humanidade sem o conhecimento dela; ou foi a eliminação de outras formas de vida na terraformação, que Horis Antic sabia ter sido impedida no caso de uma espécie inteligente por seu antepassado Antyok, em “Blind Alley”.

– O Império é uma criação de Daneel, que o vem promovendo há 12 mil anos, sob várias identidades secretas. Em uma dessas identidades, Daneel foi a figura histórica que criou as bases da administração confucionista do Império.

– O nobre piloto Biron também descende da família dos Hinriads, que històricamente se opõe aos giskardianos. Seu motivo para pilotar a nave com Seldon e Antic é a perspectiva de, seguindo as correntes do espaço, encontrar os arquivos com o conhecimento oculto da História, do qual os giskardianos privaram o Império.

– A arma biológica de Pebble in the Sky era derivada da doença do caos e levaria à desagregação do Império. Quem identificou o plano terráqueo de contaminação e concedeu telepatia a Joseph Schwartz foi um agente secreto de Daneel.

– Ao detectar a crise que levaria à implosão do Império, Daneel percebeu que sòmente com a Psico-História seria possível prever o comportamento da civilização e descobrir o caminho para uma nova solução. Mas uma criatura jamais conhece os desígnios de seu criador, de modo que Daneel sabia ser incapaz de compreender os humanos. Além disso, a descoberta das leis da Psico-História requeria intuição e criatividade, que estavam além da capacidade dos robôs. Então, através de genética, formação escolar e pedagogia, Daneel e seus agentes selecionaram e aprimoraram o próprio Hari Seldon, seu talento matemático e sua obstinação por ser capaz de prever o rumo da História. A aparente descoberta de Seldon por Demerzel foi apenas o completamento de uma etapa deste projeto.

– O surgimento de mutantes telepatas também é obra de Daneel, que espera promover o surgimento de Galaxia após séculos de contínua propagação desses genes. Infelizmente, a mistura genética de várias cepas de telepatia é propensa a alguns exageros dramáticos e imprevisíveis, o primeiro dos quais é a renegada que se dispõe a ajudar o Império a pôr fim aos demais telepatas. Outro exemplo inesperado será o Mulo.

– Se a Enciclopédia Galáctica é um engodo de Seldon para ocultar seu Plano de mil anos, por outro lado o próprio Plano Seldon é um engodo de Daneel para seu verdadeiro plano de longo prazo, que é Galaxia. Nesta futura comunidade, a união de mentes evitará todo tipo de conflito, promovendo eterna harmonia. Este projeto precisa de, no mínimo, quinhentos anos de preparação. Nesse ínterim, a Fundação é uma forma de passar o tempo distraindo a raça humana rumo a outro propósito (ilusório) de união e prosperidade.

– No momento apropriado, Daneel secretamente preparará outro humano da mesma forma como preparou Seldon. Desta vez, Daneel preordenará circunstâncias que farão parecer que o sujeito sempre tome a decisão correta. Esse humano será levado a escolher Galaxia em detrimento da Fundação, convencendo os robôs de que essa tenha sido uma escolha espontânea de alguém que sempre acerta. Isso evitará uma nova guerra civil entre giskardianos e calvinianos, que também serão absorvidos por Galaxia.

Em Foundation’s Triumph, David Brin levou a continuidade retroativa um passo além do ponto aonde a levara o próprio Asimov. Como se pode ver dessas revelações finais, Brin introduziu a noção de que todos os eventos deste universo tenham uma causa subjacente desde os contos de robôs. Essa causa seria o caos que ressurge a cada vez que uma civilização atravessa um período de grande criatividade, interrompendo o progresso tecnológico e social em surtos espasmódicos.

Na nova e adicional continuidade retroativa de Brin, vê-se que o robô Daneel sempre lutou contra o caos desde o momento em que descobriu a Zeroésima Lei da Robótica. No permanente esforço de defender a humanidade do caos, Daneel dirigiu os humanos a formarem o Império Galáctico, sem que eles mesmos soubessem que estavam sendo guiados. Também foi Daneel que estimulou a criação da Psico-História e do Plano Seldon, para preservar a civilização após o fim do Império. Por fim, é Daneel que pretende dar início à solução definitiva para todos os problemas humanos, na forma de Galaxia.

Em Triumph, Brin acrescenta mais uma camada de complexidade ao universo asimoviano: a sucessão de eventos passa a ser vista como o reflexo visível de um conflito oculto, de uma dialética da qual a raça humana participa como executora mas não como conhecedora. A evolução da civilização humana é retratada como uma consequência deliberada de uma só mente planejadora, que enxerga todo o panorama e testemunha 20 mil anos de História.

Em síntese, Brin mostrou que havia um sentido finalístico deliberado por trás de todas as histórias escritas por Asimov e ambientadas neste universo. A raça humana, personagem dessas histórias, desconhecia essa intenção com a qual era guiada; e o próprio Autor original das histórias também a desconhecia!

Infelizmente, a Segunda Trilogia também atenta contra um dos fundamentos da obra de Asimov. Um dos personagens de Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph é um robô que, embora seja um dos agentes secretos de Daneel, sofre um acidente que o liberta das quatro Leis da Robótica. Esse evento implica que, desde Robots and Empire, a concepção tenha sido de que as Três Leis tenham sido programadas, em lugar de fìsicamente gravadas nos robôs. É um rompimento sério em relação à concepção original de Asimov, pois as Três Leis haviam sido imaginadas de modo que fosse fìsicamente impossível um robô que não as seguisse. Já na Segunda Trilogia, os robôs obedecem às Três Leis (e à Zeroésima) da mesma forma como humanos obedecem às leis que criam: meramente por atos de vontade, decorrentes da noção de sua obrigatoriedade. As Leis da Robótica deixaram de ser tratadas como implementações orgânicas para serem meras leis jurídicas, a que os robôs obedecem por convicção racional.

O conflito entre giskardianos e calvinianos é uma das consequências dessa mudança de paradigma. Se as Três Leis estivessem implantadas fìsicamente, não haveria possibilidade de diferentes convencimentos racionais entre diferentes robôs, nem, portanto, qualquer divergência ideológica ou filosófica.

Com esse tratamento, também desmorona o único pressuposto relevante das histórias de robôs de Asimov, pois o cumprimento da Primeira Lei depende da cognição pessoal dos robôs, que assim deixam de ser inerentemente seguros. Quando os robôs ganham a capacidade de filosofar, eles deduzem novas leis que se impõem às Leis da Robótica. Com isso, “comem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” e atentam contra o criador que impôs essas leis (a raça humana). Eis uma curiosa inversão em relação ao livro do Gênesis: é pelo pecado original cometido por dois robôs que a raça humana, sua criadora, é expulsa do paraíso na Terra.

Foundation’s Triumph chega a comparar os humanos a deuses aos olhos dos robôs, mas lembra a lição de que servos que pensam deixam de ser seguros e se tornam indignos de confiança.

***

Minha motivação para a leitura sequencial do universo de Asimov era o fascínio pela habilidade desse Autor em montar uma História unificada do futuro. Agora, já li todas as obras que o Bom Doutor situou neste universo (exceto, talvez, sete contos do computador Multivac, que fogem ao escopo deste texto). Movido pela curiosidade, até mesmo fui além, terminando quatro livros com que outros Autores davam continuidade à obra original: Foundation’s Friends e a Segunda Trilogia da Fundação.

Quanto a Foundation’s Friends, supus que fossem pequenas histórias bem humoradas para homenagear o criador deste universo, e algumas eram mesmo. Quanto à Segunda Trilogia, imaginei que fosse uma continuação ambientada em momento posterior a Foundation and Earth. Não era, mas, uma vez iniciada a leitura, eu não ia interrompê-la, e fui até o fim.

Ainda restam por ler as minisséries Robot City, Robots and Aliens, Robots in Time, e a Segunda e Terceira Séries dos Robôs. Entretanto, esses livros também foram escritos por outros Autores e, do que pude apurar, são histórias laterais, fora da linha principal contínua que vai dos contos de robôs até Foundation and Earth. Robot City e Robots and Aliens foram publicadas enquanto Asimov estava vivo, mas as demais minisséries são posteriores a 1992 e, portanto, à morte do Autor original.

(Foundation’s Triumph chega a fazer referência a um dos livros da Segunda Série dos Robôs. Quando Daneel resume as tentativas fracasssadas de fundar novas sociedades imunes ao caos, ele menciona os robôs fabricados com Leis da Robótica mais flexíveis no planeta de Isaac Asimov’s Inferno, que é parte dessa Segunda Série.)

Da mesma forma, falta ler a trilogia I, Robot, que narra o início da carreira de Susan Calvin (portanto antes de todos os outros livros), e Psychohistorical Crisis, que se passa mais de quinhentos anos após Foundation and Earth (portanto após todos os outros livros). Esses quatro livros foram publicados na década de 2010.

Ora, vê-se que não pára de crescer a quantidade de livros ambientados no universo dos robôs, Império e Fundação. Se eu me dispuser a acompanhar estas histórias enquanto forem publicadas, não conseguirei ler outra coisa. Como não é mais Asimov escrevendo, mas quinze outros Autores, não seria possível correr mais que eles, o que me põe em uma clara desvantagem. Então, chega um momento em que é preciso traçar uma linha.

Por isso, chega por ora. Os 29 livros de outros Autores entram na fila infinita dos livros que pretendo ler, e um dia hei de alcançá-los (estimo que daqui a, digamos, 13.098 livros). Se não conseguir, paciência.

EOF

Bastou trocar a grafia e a mensagem ficou clara

Em outras postagens (como esta, esta e esta), comentei os livros da Fundação, onde Isaac Asimov imaginou seu Império Galáctico. Situado 21 mil anos no futuro, o Império é constituído de 25 milhões de planetas habitados, ocupando toda a Via Láctea.

Asimov foi categórico em mais de um desses livros: em todo o Império, a única vida inteligente é a humana. Quando explorados pelos primeiros visitantes, alguns planetas tinham plantas nativas, pouquíssimos tinham pequenos animais; nenhum tinha outra espécie autoconsciente. E assim tomamos esse espaço sem disputa, e deixamos a Terra para trás, e ninguém mais lembra onde ficava nosso planeta natal, cuja própria existência é matéria de debate.

Para um Autor de ficção científica tão prolífico, Asimov escreveu muito poucas histórias envolvendo alienígenas, nenhuma passada no universo do Império. Após alguns livros, esse contraste chama a atenção do leitor. Como poderia um Autor de scifi, dono de uma imaginação tão fértil, NÃO conceber que outros planetas da Galáxia pudessem ser habitados?

A resposta quem deu foi o próprio Asimov. Ao longo de suas centenas de livros, ele sempre reconta como seu primeiro grande editor foi John Campbell. Foi nas conversas com Campbell que surgiram as oito histórias originais e geniais da Fundação.

Conforme narrado pelo Bom Doutor, todas as vezes em que ele propôs histórias com alienígenas, Campbell acolheu a ideia mas sempre fez questão de que a raça humana fosse representada como melhor e superior. Na percepção de Asimov, esse monotema estava firmado em um racismo subjacente: a superioridade da espécie humana sobre os alienígenas seria uma alegoria para uma superioridade entre raças da própria humanidade. Em razão de suas convicções, Asimov ficou bastante incomodado com o racismo de Campbell, ainda que disfarçado, e recusava-se a escrever histórias onde essas noções estivessem sequer implícitas.

Mas ele precisava da aprovação de Campbell para conseguir vender seu material. Então, sua solução foi um meio termo: na Galáxia não haveria seres inteligentes senão os humanos. Pronto; não há comparação com mais ninguém, porque não há mais ninguém.

Do ponto de vista das histórias, fica difícil justificar essa escolha. Afinal, se a vida inteligente nasceu na Terra como resultado natural da evolução após apenas 4,5 bilhões de anos, então seria igualmente provável seu surgimento em pelo menos alguns dos milhões de planetas da Galáxia. Felizmente, Asimov não se esforçou para criar alguma explicação, que sempre soaria implausível. Simplesmente manteve essa unicidade da espécie humana como um mistério, sobre o qual seus personagens especulavam.

(Na verdade existe uma história ambientada no Império, chamada Blind Alley, onde a humanidade é contraposta a uma espécie inteligente nativa de outro planeta. Por ser a única nesses termos, destaca-se bastante entre as demais histórias, sendo a exceção que confirma a regra. Por sinal, é um conto excelente, e seu verdadeiro assunto é a burocracia imperial, não os alienígenas.)

Então, chegamos ao ponto onde li 77% de Foundation’s Fear, de Gregory Benford, na continuação autorizada das histórias da Fundação por Autores pós-asimovianos. Em meu exemplar (de ISBN 978-0-06-105638-3), na página 484, encontramos o seguinte diálogo entre Hari Seldon e sua esposa Dors:

O buraco de minhoca cúbico levou-os ràpidamente a várias docas em órbita próxima em torno de planetas. Um deles Hari reconheceu como um tipo raro com uma biosfera antiga porém arruinada. Como Panucópia, ele sustentava formas de vida avançadas. Na maioria dos mundos habitáveis, os primeiros exploradores haviam encontrado tapetes de algas que nunca se desenvolveram adiante.

— Por que nenhum alienígena interessante, então? — Hari se perguntou enquanto Dors lidava com os Homens de Cinza das docas locais.

Ocasionalmente, Dors lembrava-o de que ela era, afinal de contas, uma historiadora. — A mudança de criaturas unicelulares para multicelulares levou bilhões de anos, diz a teoria. Nós simplesmente viemos de uma biosfera mais rápida, mais durona, só isso.

— Também viemos de um planeta com pelo menos uma grande lua.

— Por quê?

— Temos incorporados padrões repetitivos de 28 dias. A menstruação, por exemplo — incidentalmente diferente da dos chimpanzés. Somos projetados pela biologia. Nós tivemos sucesso, essas biosferas não tiveram. Existem muitos meios de matar um mundo. Geleiras avançando quando uma órbita se altera. Asteróides se chocando, bam-bam-bam! — Ele bateu barulhentamente na lateral da cabine. — A química da atmosfera dá errado. Ela sai do controle até o planeta se tornar uma estufa ou congelar.

— Entendi.

— Humanos são mais resistentes — e mais inteligentes — do que qualquer um. Nós estamos aqui, eles não.

— Quem disse?

— Conhecimento comum, desde que o socioteórico, Kampfbel —

— Tenho certeza de que você tem razão — ela disse ràpidamente.

Nesse diálogo, emerge aquele mesmo racismo que Asimov evitou. “Viemos de uma biosfera mais durona”, “humanos são mais resistentes e mais inteligentes”. Seria uma forma de explicar como nosso planeta evoluiu mais rápido, mas também há uma crítica aí, escondida mais fundo.

Como é o nome do teórico que explicou a prevalência da raça humana? Kampfbel?

Campbell?

Em alemão, muitas vezes, a grafia “pf” indica o som de /f/, e muitas vezes os sons de /p/ e /f/ são intercambiáveis de uma língua para outra. Em particular, várias palavras do alemão têm um /f/ onde, em inglês, têm um /p/. Assim ship (em inglês) x Schiff (em alemão); apple (no inglês) x Apfel (no alemão).

Vê-se que “Kampfbel” é apenas uma transposição do nome escocês “Campbell” para alemão, com o duplo efeito de aproximar o nome de “Kampf” (luta), como no título de Mein Kampf, o livro onde Hitler verteu o núcleo de sua ideologia nazista, fundada na racista noção de superioridade da etnia ariana, a qual teve apoio de teóricos alemães de sua época.

Essa engenhosa equiparação de Campbell a um nazista, embora possìvelmente exagerada, é um pequeno Easter egg inserido por Gregory Benford em Foundation’s Fear. Imagino que tenha sido uma forma de Benford sinalizar ao leitor a verdadeira explicação, fundada no mundo real, para uma Galáxia deserta de outras formas de vida inteligentes na ficção; ou, pelo menos, sua forma de vincular Campbell a esse estranho fenômeno na obra de Asimov.

Trata-se de uma limitação de cenário imposta por Asimov como resposta à limitação mental de seu antigo editor. Um desentendimento político entre escritor e editor tem o efeito de moldar várias obras, e as consequências acabam ressoando décadas depois, quando os personagens continuam discutindo como é possível tamanha ausência de vida inteligente, como se criticassem seu Autor pela extrema improbabilidade.

Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

EOF

Verificando a velocidade — Brian Shul e o SR-71

O Lockheed SR-71 “Blackbird” (na verdade Blackbird nunca foi o nome oficial) detém o record de avião a jato mais rápido do mundo. Atrás apenas do North American X-15, que tinha motor de foguete e era essencialmente uma nave espacial, o SR-71 é o segundo avião mais rápido do mundo. E também parece uma nave espacial.

De 1964 a 1998, quando foram tirados de serviço, os 32 exemplares de Blackbird construídos reinaram sobre o mundo da aviação, voando rotineiramente a 3,2 vezes a velocidade do som e 80 mil pés de altitude a serviço da Força Aérea dos Estados Unidos. Durante a maior parte da Guerra Fria, os Blackbirds operaram da Base Áerea de Beale, na Califórnia, com bases avançadas em Mildenhall, na Inglaterra, e Kadena, em Okinawa. Desses lugares partiam para invadir o espaço aéreo da União Soviética, Alemanha Oriental, China, Cuba, Líbia e outros países pouco simpáticos aos Estados Unidos, tirando fotografias ultraconfidenciais em missões de reconhecimento estratégico.

Cada tripulação era formada por um piloto e um oficial de sistemas de reconhecimento, que do assento traseiro operava as câmeras e outros sensores. Esses pouquíssimos profissionais formavam uma elite na Força Aérea, a bordo de um tipo de aeronave diferente sob todos os aspectos. O SR-71 tinha um formato diferente, sistemas diferentes, comportamento diferente, era feito de materiais diferentes, usava um combustível diferente, e há toda uma bibliografia sobre suas peculiaridades e superpoderes.

Essas aves raras nunca portaram armas, nem precisavam, pois, em sua velocidade e altitude, caças e mísseis inimigos eram incapazes de alcançá-las. Para efeito de comparação, considere que os caças mais velozes não costumam passar de 2,2 vezes a velocidade do som nem subir além de 50 mil pés. Os aviões de passageiros, quando voam alto, não passam de 41 mil pés. Apesar do risco que os Blackbirds sempre corriam sobre áreas proibidas, e da quantidade de mísseis lançados contra eles, nenhum foi derrubado.

O Major Brian Shul, que havia pilotado aviões de combate, que depois passou para o SR-71, e que está atualmente aposentado, costuma contar uma história, conhecida como “LA Speed Check”, sobre a velocidade de cruzeiro dessas máquinas. É tão engraçada que resolvi legendá-la e traduzi-la para seu deleite.

Então, abaixo do vídeo segue a melhor transcrição que pude fazer, e abaixo dela vai minha tradução. Recomendo abrir o vídeo em outra aba e ir acompanhando. (Se o YouTube tiver tirado este vídeo do ar, basta procurar outro com as palavras-chaves “Brian Shul” e “speed check”.)

T’s called the LA Speed Story. And I — It was just a story about one day when it was really cool being — being an SR-71 pilot. Walter and I were doing a training mission ‘round the United States, we just were building up hours and time, and we’d take off outta Beale, hit a tanker in Idaho, rip on up to uh — Montana, zip across Denver, hang a right turn Albuquerque, out over Los Angeles, up to Seattle, back into Sacramento, two hours, 21 minutes. And you’d just do that for — and you’d do it backwards and g– you’d hit a tanker, to — just, just to gain crew coordination, get — build your hours.

We’re on our last training mission, we’re over Tucson. I can see downtown L.A. from Tucson. We’re at 89,000 feet, I can see the whole Western United States bathed in a warm October fall glow… I can see the chain of Rocky Mountains from Canada to New Mexico, I co– I could just see the most beautiful picture laid at my feet in this air smooth as glass, not a gauge moving in the cockpit. It was perfect. Now I’m thinking: we bad…

And I feel sorry for Walter, ‘cause he has to monitor five radios in the backseat, so I flip the switch up just to listen and — LA Center is controlling, they control all — when you fly Southwest they’re there, the guys controllin’ everybody. But we’re above controlled airspace. So, they, they have us on their scope, but they’re not talkin’ ta us. Now there’s controllers all over the country, Jacksonville Center, Chicago Center, Seattle Center, you know… It’s the same guy! They all talk the same! And it’s really cool the way they talk, ‘cause they make you feel important as a pilot. They don’t just say, “yeah, okay, here’s your thing –” They make you feel really cool. So, sure enough, there’s this — this is pre-GPS days — some Cessna guy has to know his groundspeed, “Uh LA Center, Cessna November Tango Alpha, you got a groundspeed readout for us?” And Center would like to say, “who cares? Get off freq” But no, he’ll talk to ‘im like he’s John Glenn: “Cessna November Alpha, we show you ninety knots, niiine zero knots on the ground!” And they’d do that same song, but that’s how they talk… And it makes you feel kinda cool.

Right after that, a Twin Bonanza came up to pimp the guy for speed, I guess, and — “Hey, LA Center, Twin Beech uh whatever, you got a groundspeed readout for us?” And Center (…) “it’s Friday, why me, God, please just get off our freq–” but he’s gotta talk to ‘im just like he’s Air Force One! “Twin Beech, we show you one twenty-one twwwo zero knots on the ground!”

And right after that, a Navy F-18 out of Lemoore popped up on frequency. And you knew it was a Navy guy, ‘cause he talked really slliiick on the radio… “Center, Dusty Five Two, speedcheck!” And I’m thinking, “wait a mi-nute!… Dusty 52 has a groundspeed indicator in a million-dollar F-18 cockpit, it’s right there in the heads-up display, why is he calling Center to broadcast his speed — oooh, I get ittt! ‘We are just the meanest, baddest, fastest military jet in the Valley to-day… We’re taking our little Hornet jet over Mount Whitney and ripping across Death Valley, we want everyone from Fresno to the coast to know what real speed is…'” And you could almost hear a little, a little glee in the controller’s voice like, “we have put an end to this…” “Dusty 52, we show you six twenty-six twwwo zero knots across the ground”, and it was that “across the ground”, see that little knifelike, “I hope nobody else has the nerve to get on frequency now…” And there wasn’t an airliner from Seattle to San Diego who wanted to be next on frequency, it’s sort of an etiquette thing amongst flyers.

And a twelve-year-old was reaching for the mike button. And I thought, “oh, no, wait, Walter’s in charge of the radios! I flew single-seat all those years, but I’m in the family model now, and I — oh, no, it’s the Navy, they must die and they must die now” — and I thought, “no, but if I do, and I — oh but so Walter and I want us to be a good crew, and I” — at that moment, I heard a click at the mike button in the back seat. Ladies and gentlemen, Walter and I became a crew at that moment. In his best innocent voice, “LA Center, Aspen Three Zero, have you got a *hmph* groundspeed readout for us?” You could almost hear a collective gasp on freq like, “oh the poor fools didn’t hear the previous transmissions, ooh, they, they’ll get crushed like a grape”, it’s a, it’s just a pilot thing. But Center had to give you that same voice… “Aspen 30, we show you one thousand nine hundred ninety-two knots… ‘cross the ground…” When I knew I was gonna like Walter a lot was when he came back, said, “Center, we’re showing a little closer to two thousand…”

Ladies and gentlemen, we did not hear another transmission on that frequency all the way to the coast. The king of speed lived, the Navy had been flamed, and a crew had been formed. For just a moment, it was absolutely fun being the fastest guys on the block.

Chama-se “a história da velocidade em LA”. E eu — é só uma história sobre um dia em que foi realmente bacana ser um piloto de SR-71. Walter e eu estávamos em uma missão de treinamento pelos Estados Unidos, estávamos só acumulando horas, e decolávamos de Beale, encontrávamos um avião-tanque em Idaho, rasgávamos até Montana, cruzávamos Denver, dobrávamos à direita em Albuquerque, esticando até Los Angeles, subindo até Seattle, de volta a Sacramento, duas horas, 21 minutos. E você fazia isso só pra — e fazia de trás pra frente — e reabastecia, para — só para ganhar coordenação da tripulação, somar horas.

Estamos em nossa última missão de treinamento, estamos sobre Tucson. De Tucson eu consigo ver o centro de Los Angeles. Estamos a 89 mil pés, eu vejo todo o Oeste dos Estados Unidos banhado em um brilho quente de outono em outubro… Eu vejo a cadeia de Montanhas Rochosas do Canadá ao Novo México. Eu via a mais bela pintura aos meus pés neste ar liso feito vidro, nenhum ponteiro se movendo no painel. Estava perfeito. Nesse momento eu estava pensando: nós somos maus…

E eu lamento pelo Walter, porque ele tem que monitorar cinco rádios no assento de trás, então eu viro a chave só para ouvir e — o Centro de LA está controlando, eles controlam tudo — quando você voa para o Sudoeste, eles estão lá, os caras controlam todo o mundo. Mas nós estamos acima do espaço controlado. Então, eles nos veem no painel, mas não falam conosco. Ora, existem controladores por todo o país, Centro de Jacksonville, Centro de Chicago, Centro de Seattle, sabe… É o mesmo cara! Eles todos falam igual! E é realmente legal a forma como falam, porque fazem você se sentir importante como piloto. Eles não dizem simplesmente “tá, OK, taqui o que você pediu –” Eles fazem você se sentir o máximo. Então, conforme esperado, vem este — isto é na época antes do GPS — algum piloto de Cessna precisa saber sua velocidade em relação ao solo, “hã, Centro de LA, Cessna NTA, você pode nos dar uma leitura de velocidade?” E o Centro gostaria de dizer, “quem se importa? Saia da frequência”, mas não, ele fala com o cara como se ele fosse um astronauta: “Cessna NA, você aparece a 90 nós sobre o solo!” E é a mesma canção, mas é assim que eles falam… E isso faz você se sentir especial.

Na sequência, um Bonanza Bimotor chegou para humilhar o cara com a velocidade, eu acho, e — “ei, Centro de LA, Beech Bimotor hã sei-lá-o-quê, você pode nos dar uma leitura de velocidade?” E o Centro (…) “é sexta-feira, por que eu, Deus, por favor só saia da frequência–” mas ele tem que falar com ele como se ele fosse o Força Aérea Um! “Beech Bimotor, você aparece a 121.20 nós sobre o solo!”

E logo depois, um F-18 da Marinha, vindo de Lemoore, apareceu na frequência. E dava pra ver que era um cara da Marinha, porque ele falava todo bonitão no rádio… “Centro, Dusty Cinco Dois, verificação de velocidade!” E eu penso, “pe-ra-í!… Dusty 52 tem um indicador de velocidade de solo em um cockpit de F-18 de um milhão de dólares, está bem ali no mostrador projetado no pára-brisa, por que ele está chamando o Centro para anunciar sua velocidade para todo o mundo — aaah, entendiii! ‘Nós somos simplesmente o jato militar mais danado, mais malvado, mais veloz no Vale hoje… Estamos levando nosso pequeno jato Hornet sobre o Monte Whitney e rasgando pelo Vale da Morte, nós queremos que todo o mundo de Fresno até o litoral saiba o que é velocidade de verdade…'” E você quase conseguia ouvir uma pequena, uma pequena alegria na voz do controlador, tipo, “agora pusemos um fim nisso…” “Dusty 52, você aparece a 626.20 nós sobre o solo”, e foi aquele “sobre o solo”, sabe, aquela pequena lâmina afiada, “espero que ninguém mais tenha a audácia de entrar na frequência agora…” E não havia um avião de passageiros de Seattle até San Diego que quisesse ser o próximo na frequência, é uma espécie de etiqueta entre aviadores.

E um garoto de doze anos estava procurando o botão do microfone. E eu pensei, “ah, não, espera, Walter está encarregado dos rádios! Eu voei sozinho todos aqueles anos, mas agora estou no modelo família, e eu — ah, não, é a Marinha, eles têm que morrer, e eles têm que morrer agora” — e eu pensei, “não, mas se eu fizer, e eu — ah, mas então Walter e eu queremos ser uma boa tripulação, e eu” — naquele momento, eu ouvi um clique no botão do microfone do assento traseiro. Senhoras e senhores, Walter e eu nos tornamos uma tripulação naquele momento. Na sua melhor voz inocente, “Centro de LA, Aspen Três Zero, você pode nos dar uma — cof — leitura de velocidade?” Você quase conseguia ouvir uma respiração ofegante coletiva na frequência, tipo, “ó, os pobres tolos não ouviram as transmissões anteriores, ó, eles, eles vão ser esmagados feito uma uva”, é uma coisa entre pilotos. Mas o Centro tinha que te dar a mesma voz… “Aspen 30, você aparece a mil, novecentos e noventa e dois nós… sobre o solo…” O momento em que eu soube que ia gostar muito do Walter foi quando ele respondeu, “Centro, estamos vendo um pouco mais perto de dois mil…”

Senhoras e senhores, não ouvimos outra transmissão naquela frequência por todo o caminho até o litoral. O rei da velocidade estava vivo, a Marinha tinha sido queimada, e uma tripulação tinha sido formada. Por apenas um momento, foi absolutamente divertido ser os caras mais velozes da vizinhança.

 

Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

Memphis Belle: filme de ação e lição de História

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Ontem revi este filme angloamericano de 1990 (link para o IMDB), que mostra a guerra aérea sobre a Europa em 1943. É um filme bastante didático para quem não tem íntimo conhecimento daquele específico período da II Guerra Mundial, e um espetáculo para os fãs de História da aviação militar.

Para começar, por alguma razão que não alcanço, meu exemplar é uma edição minimalista em DVD. O formato de tela é 4:3, não há quaisquer extras, e o filme contém falhas e granulação que fazem pensar se não é mera transposição do VHS. O texto da capa traseira e os nomes dos capítulos são traduções literais que perdem o sentido em português. Claramente uma edição descuidada e apressada.

As técnicas de filmagem indicam a idade da obra. A montagem dos aviões sobre o céu acaba aparecendo, especialmente quando o editor de vídeo transforma os cinco aviões usados para a filmagem em dezenas de aviões se perdendo na distância. É o que havia em 1990, pouco tempo antes do uso intenso de efeitos digitais no cinema.

Apesar das limitações, o filme é primoroso. O contexto está reproduzido fielmente, ainda que os cineastas tenham tomado algumas liberdades em relação aos eventos reais. 1943 foi o primeiro ano da campanha pesada de bombardeio da Alemanha conduzida todos os dias pela USAAF (Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, mais tarde transformada na Força Aérea dos Estados Unidos) e todas as noites pela RAF (Real Força Aérea, da Inglaterra).

Decolando de bases na Inglaterra, os inúmeros esquadrões da 8a. Força Aérea da USAAF (a “Oitava”), compostos cada um por 24 bombardeiros B-17, atravessavam o Mar do Norte e aventuravam-se sobre território inimigo, para dentro de França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Tchecoslováquia. Naturalmente, os alvos mais valiosos e defendidos estavam na Alemanha. Os Aliados estavam empenhados em bombardear as fábricas que sustentavam a máquina de guerra alemã, de modo a sufocar a capacidade do inimigo conforme a doutrina desenvolvida nos anos 30.

Aliás, foi em 1935 que voou o primeiro Boeing B-17. Desde o início este modelo foi chamado de Fortaleza Voadora porque fôra projetado para voar tão alto que ficaria imune ao alcance dos caças e da Flak (artilharia antiaérea). Já em 1943, a antiaérea e os caças eram bastante capazes de atingir esses bombardeiros. Para se defenderem ao menos dos caças, as B-17 passaram a ser dotadas de inúmeras metralhadoras em volta da fuselagem, e também se descobriu que sua extrema robustez permitia que continuassem voando apesar de impressionantes danos causados pelo fogo inimigo. Com o tempo, formou-se o equívoco (comum ainda hoje) de pensar que o nome Fortaleza Voadora tivesse vindo dessa capacidade de autodefesa e de sua construção resistente. Seguem exemplos:

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De fato, Memphis Belle enfatiza bastante as características e vulnerabilidades das B-17. Naquele tempo, as tripulações formavam vínculos de carinho e gratidão com seus aviões, que suportavam severo fogo inimigo e ainda assim as traziam de volta em segurança. Era costume que cada avião individual tivesse seu próprio nome, pintado no nariz, muitas vezes com uma figura decorativa. Este filme retrata a ocasião histórica em que a tripulação da B-17 batizada de Memphis Belle foi a primeira a completar 25 missões.

Na época, a USAAF seguia a política de que, após 25 voos de combate, os tripulantes podiam voltar para casa e descansar antes de entrarem novamente em combate. O marco atingido pela Memphis Belle foi objeto de um documentário comemorativo, exibido nos cinemas americanos em 1944 como propaganda de guerra.

Já este filme de 1990 é uma história de ficção, mas representa acuradamente a rotina daquelas longas jornadas a bordo das B-17. Nele acompanhamos a 25a. missão da Memphis Belle, até seu alvo na Alemanha e de volta, na companhia de Windy City, C-Cup, Mother and Country e outras 356 aeronaves iguais a elas. Os personagens são fictícios, mas são o espelho de uma tripulação real.

Memphis Belle também é uma lição de como se conta uma história didàticamente, introduzindo os conceitos à audiência de modo gradual e explicando-os pelos diálogos, que não passam a impressão de uma aula, tão comum em outros filmes. A história começa ao entardecer, quando os ocupantes de uma base aérea acompanham a chegada de um esquadrão na volta de mais um difícil bombardeio, os aviões semidestruídos, sendo contados pelos companheiros em terra com a expectativa angustiada de que todos tenham retornado. Em seguida, os tripulantes da Memphis Belle são apresentados à audiência um a um, fazendo ver como são jovens, inexperientes, arrancados de uma vida simples e sùbitamente lançados a este ambiente tecnológico e assustador onde devem cumprir missões que contrariam todo senso de autopreservação em nome do esforço maior da guerra.

À noite, um baile comemora o primeiro aniversário do grupo (cada quatro esquadrões formavam um grupo). Na manhã seguinte, vêm as instruções para a missão, a espera ansiosa pelo momento da decolagem, e então o esquadrão se enfileira e decola. Seguem-se momentos de tédio e tensão até a entrada em território dominado pela Alemanha, seguidos pela tentativa dos ágeis caças de defesa alemães de derrubar os bombardeiros enquanto os atiradores se defendem freneticamente e os pilotos não podem fazer manobras evasivas, sob o risco de se chocarem contra os aviões vizinhos. Então, já na corrida final de bombardeio, vem a densa barragem de artilharia antiaérea, mas os bombardeiros devem continuar voando em linha reta até o objetivo e assim permanecem como alvos fáceis, para aflição de todos a bordo. Apesar de robustas, muitas B-17 eram atingidas em cheio pelas defesas de caças e canhões alemães, e percentuais tão altos como 20% delas acabavam não voltando.

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Era um cenário sombrio, em que a vida de um jovem tripulante podia acabar em segundos. Essa lúgubre lembrança faz-se ostensiva de vários modos por toda a duração do filme.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

Naturalmente, Memphis Belle traz a carga patriótica esperada de um filme sobre a II Guerra Mundial. Mas, diferente dos filmes dos anos 40-50, não retrata seus personagens como perfeitos. Os tripulantes demonstram medos, inseguranças e egoísmos, e são capazes de mentir e contar farol. Infelizmente, a história chega a exagerar quando mostra irregularidades a bordo (o navegador, que se embebeda na véspera e passa a missão toda de ressaca; o co-piloto, que descumpre as normas e vai buscar emoção como atirador de cauda no calor do combate; o atirador que cola um cartaz de mau gosto nas costas do colega). Na vida real, os tripulantes estariam concentrados em suas tarefas e jamais cometeriam essas indisciplinas.

Pode-se ainda apontar um anacronismo. No filme, as instruções de pré-voo mostram que, em torno do alvo (uma fábrica), existem uma escola, um hospital e várias casas. Ao chegar à zona do alvo, o piloto recusa-se a liberar sua carga mortífera se não puder ter absoluta certeza de que só atingirá a fábrica, evitando bombardear os civis inocentes, e por isso retorna e executa uma segunda passagem (sob os protestos da tripulação, que, com razão, vê nisso uma prática suicida). Acontece que, em 1943, não havia esse tipo de pudor, que só viria a se tornar regra na década de 90. Ainda que houvesse essa preocupação, teria sido impossível satisfazê-la, pois o nível de precisão necessário a se atingir um único edifício de uma altitude de 16 mil pés só foi obtido com a tecnologia dos anos 70. Durante a II Guerra Mundial, a regra era que centenas de bombardeiros despejassem seus milhares de bombas com a esperança de que algumas atingiriam o alvo, mas sabendo-se que os ventos, a distância entre os aviões e a imprecisão natural do processo espalhariam a maior parte desses artefatos em áreas de centenas de milhares de metros quadrados.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Outro absurdo que só acontece nos filmes: um dos tripulantes, ferido, perde muito sangue e chega a ter uma parada cardíaca. Entretanto, quando o bombardeiro finalmente consegue pousar, a equipe de resgate gentilmente espera que se organize uma fotografia da heróica tripulação antes de levá-lo em uma ambulância!

Apesar das liberdades dramáticas, o filme se mostra razoavelmente fiel à realidade nos aspectos aeronáuticos. Em 1943, a versão de B-17 que estava em uso na Oitava era a B-17F, dotada de dez tripulantes e dez metralhadoras. No nariz, situava-se o bombardeador, que precisava enxergar o alvo para definir o momento da liberação das bombas e, até chegar lá, operava uma metralhadora atirando à direita; atrás dele, o navegador, com outra metralhadora atirando à esquerda. Ambos ficavam abaixo do cockpit, onde iam piloto, co-piloto e mecânico de bordo (que também operava duas metralhadoras no dorso). O compartimento de bombas ficava logo atrás do cockpit, e atrás vinham, na sequência, operador de rádio, atirador ventral (com duas metralhadoras), atirador de boreste (com uma), atirador de bombordo (com outra), e atirador de cauda (com outras duas metralhadoras). Boa parte do filme transcorre a bordo do avião, de modo que podemos ver os papeis desempenhados e a interação entre esses tripulantes. (Parêntese: o atirador ventral é interpretado por um imberbe Sean Astin, onze anos antes de ajudar o Senhor Frodo a destruir o Um Anel.)

Para a produção do filme, foram usadas cinco B-17. Algumas eram da versão B-17G, equipada com metralhadoras sob o nariz, que, portanto, tiveram que ser removidas para a filmagem, em um downgrade que lhes deu a aparência da versão B-17F. A pintura dos aviões também é representativa do ano em que se passa o filme.

Em maio de 1943, as B-17 eram escoltadas por caças P-47, que as defendiam contra os caças alemães. Infelizmente, os P-47 tinham alcance limitado e eram forçados a retornar antes que as B-17 chegassem até seus alvos, devolvendo-as à própria sorte justamente onde elas mais estavam expostas. O filme mostra o conforto dos aeronautas ao verem a chegada dos caças de escolta (“little friends”) e seu lamento ao vê-los se afastarem. Entretanto, comete uma imprecisão: nessas cenas, os caças que vemos são P-51 Mustangs, especìficamente da versão P-51D, que só veio a ser usada a partir do fim de 1943. A grande diferença do P-51D é que ele tinha alcance para escoltar os bombardeiros até Berlim, de modo que, a partir de sua introdução, uma proporção maior das B-17 passou a ser capaz de chegar a seus alvos e retornar em segurança, favorecendo dramaticamente as estatísticas dos Aliados.

Já os caças alemães são de dois modelos: Messerschmitt 109 e Focke-Wulf 190. Como não havia nenhum 109 em condições de voo para a filmagem, os produtores usaram aviões do modelo HA.1112 Buchón. O HA.1112 era um 109 fabricado na Espanha no pós-guerra, que pode ser facilmente diferenciado do modelo original pela enorme carenagem sob o motor (tanto que o nome espanhol se traduz como “barrigão”).

Duas aeronaves foram usadas para representar Memphis Belle neste filme, e uma delas foi a B-17G Sally B. Esta é uma B-17 que permanece voando até hoje, apresentando-se regularmente em shows aéreos.

Sally B em 2005

Sally B em 2005

Terminada a filmagem, Sally B teve repintados seu nome e sua pin-up a bombordo, mas manteve o nome e a pintura de Memphis Belle a boreste, como referência a sua participação no filme. Em 1998, mediante a módica quantia de duas libras, o autor deste texto teve a oportunidade de fotografá-la por dentro na antiga base aérea de Duxford, que é seu lar, onde funciona o Museu Imperial da Guerra e onde foi rodada parte do filme (embora as cenas com a torre de controle tenham sido filmadas na base aérea de Binbrook, também inativa). Em 2008, reencontrei Sally B no show aéreo Flying Legends, novamente em Duxford, mas ela estava apenas exposta, faltando-lhe o motor número 1, que estava em manutenção. Em compensação, vi voando Pink Lady, que voou no papel de Mother and Country no filme.

Sally B, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Sally B em 2008, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Em 2010, em novo reencontro no Flying Legends, pude ver Sally B voando, mantendo vivo o legado das bravas tripulações que sacrificaram suas vidas nos céus da Europa Ocidental para que hoje meu Leitor pudesse ler estas linhas a salvo dos odiosos coturnos do regime nazista.

Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

EOF

Não ser uma âncora

Acontece muito: você tem um sonho, que pode ser simples ou complicado. Você conta do seu sonho para alguém. Daí a pessoa logo diz que você não vai conseguir, melhor desistir etc.

Aí você vê a Internet, e vários livros, e várias crônicas, todos dizendo que você tem que acreditar em si mesmo, não dar ouvidos à multidão, que as pessoas vão tentar te derrubar, mas seja forte, acredite no sonho… Você sabe como é.

Aconteceu até comigo. Quando eu estava na segunda metade do primeiro grau (hoje seria sexta a nona série do ensino fundamental), minha escola premiava com medalha o aluno que concluísse todas as disciplinas com média 7. Na sétima série, a escola tinha a disciplina de Datilografia, que era terceirizada e onde as notas não eram números, mas os subjetivos S (Sofrível), R (Regular), B (Bom), MB (Muito Bom) e E (Excelente). Sendo a disciplina terceirizada, e sendo a nota expressa desse modo tão diferente, já estávamos no segundo semestre quando perguntei à instrutora se ela contaria para a concessão da medalha.

Não integrando a equipe do colégio, a instrutora não sabia dessa premiação, de modo que pensou que eu estivesse viajando na maionese, imaginando uma medalha fantasiosa. Sabe o que ela me respondeu?

“Hm! Sonha, passarinho…” e sorriu com escárnio enquanto já se afastava.

Se ela apenas dissesse que a nota de Datilografia contava (embora não contasse, como depois vim a saber), eu não teria me incomodado, pois era o que eu tinha perguntado. Mas a resposta continha uma vigorosa dose de desprezo. Ela me magoou tão profundamente que me lembro até hoje. Afinal consegui a tal medalha, e você pensaria que isso tivesse o poder de apagar o sentimento ou de substituí-lo com uma satisfação de vingança, mas não, especialmente porque a agressora nunca soube. Talvez nem se ela viesse a saber.

Por causa disso, ali mesmo em 1987, decidi que nunca, na minha vida, eu menosprezaria o sonho de outra pessoa. Nunca seria eu a dizer “você não vai conseguir”. Posso estar convicto de que o sujeito não tenha a menor chance, posso perceber que ele não tenha o menor preparo, mas não serei eu a dizer-lhe que deva desistir. Às vezes eu posso dizer “você precisa estudar tal assunto”, mas então estarei ajudando-o a suprir uma deficiência e a tornar possível aquilo que hoje é impossível. Também posso considerá-lo tão sem esperança que eu não responda nada, mas não serei eu a lhe tirar a ilusão.

É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado e o sujeito ter, sim, alguma chance de concluir seu insano projeto. Nesse caso, ao tirar-lhe a esperança, serei mais um daqueles milhares de medíocres de quem mais tarde, ao ter sucesso, ele dirá que “muitas pessoas tentaram me puxar para trás, mas não desisti” — é assim que desejo ser lembrado? Se, porém, eu estiver certo, ainda assim eu farei mal em desencorajá-lo, pois o sonho lhe dá forças, trazendo-lhe a nobreza dos visionários e a sublimidade dos loucos, cuja desconexão os poupa deste mundo cão. No mínimo, não gostaria de ser eu aquele que ouve que deveria desistir, tal como de fato fui um dia.

Em 2005, tive aula com o Juiz Marcelo Tavares, que, em determinado momento, explicou um pouco de seu ofício. Disse que é preciso ouvir as pessoas que formulam seus pedidos em juízo, e levar esses pedidos a sério, mesmo que seja para depois indeferi-los. Pois, segundo ele, “você não pode tirar o sonho de uma pessoa, porque às vezes é tudo que ela tem”. (É claro que, ao negar o pedido, o juiz pode estar fazendo exatamente isso, mas, ao ouvir o pleito e mostrar que o considerou antes de decidir, não estará desprezando seu autor. Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida.)

Essas lembranças me vieram ontem, quando fui assistir à exposição The Art of the Brick, de obras do escultor Nathan Sawaya. Uma das figuras era esta.

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Conforme a legenda, sempre haverá mãos para segurar você.

Não serei eu!

Citações, 26/11/2016

ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. Trad. por Aurora F. Bernardini e Homero F. Andrade.

Página 66:
“‘Guilherme!’ exclamou. ‘Meu irmão querido!’ Levantou-se com esforço e veio ao encontro de meu mestre, abraçando-o e beijando-o na boca. ‘Guilherme!’ repetiu, e os olhos se lhe umedeceram de pranto. ‘Quanto tempo! Mas eu te reconheço ainda! Quanto tempo, quantas vicissitudes! Quantas provas o Senhor nos tem imposto!’ Chorou. Guilherme retribuiu o abraço, evidentemente comovido.”

P. 83:
“‘Nada que seja pretextuoso é santo, Guilherme, sabes que te quero bem. Sabes que confio muito em ti. Castiga a tua inteligência, aprende a chorar sobre as chagas do Senhor, joga fora os teus livros.’
“‘Guardarei apenas o teu’, sorriu Guilherme. Ubertino sorriu também e ameaçou-o com o dedo: ‘Inglês tonto. E não caçoes muito dos teus semelhantes. Ou melhor, os que não podes amar, teme-os. E cuidado com a abadia. Este lugar não me agrada.’
“‘Quero justamente conhecê-lo melhor’, disse Guilherme despedindo-se. ‘Vamos, Adso.’
‘Eu estou te dizendo que não é bom, e tu dizes que queres conhecê-lo. Ah!’, disse Ubertino sacudindo a cabeça.

P. 84:
“‘(…) Não construas um castelo de suspeitas sobre uma palavra.’
“’Nunca o farei’, respondeu Guilherme. “(…) Porém gosto de ouvir também as palavras, e depois fico pensando nelas.’”

P. 158:
“‘(…) Quem ri não acredita naquilo de que está rindo, mas tampouco o odeia. E portanto rir do mal significa não estar disposto a combatê-lo e rir do bem significa desconhecer a força com a qual o bem se difunde a si próprio. (…)’”

Quem chia não consome

Hoje, ao anoitecer, entrei na sorveteria Itália. Enquanto eu estava lá dentro, entrou também uma velha, que passou a dialogar com a vendedora.

– Tem [sorvete de] iogurte com quê?

– Só com frutas vermelhas.

– Mas eu quero de iogurte com limão siciliano. Não tem?

– Não, Senhora, só de iogurte com frutas vermelhas.

– Mas não tinha na semana passada, hoje também não tem… Vocês não pedem?

– A gente até pediria, Senhora, mas o problema é que a loja é pequena. Não tem espaço.

– Olha o espaço ali!

– Mas, Senhora…

– Já entendi. Vocês é que não querem. Eu vim aqui só pra isso, então é bom já saber logo; assim eu não volto mais aqui.

E saiu resmungando e gritando, mas aí já não entendi mais.

Olha só. Na forma, a velha errou feio. No mérito, a velha até teria razão, mas na verdade não tinha, e perdeu a pouca que poderia ter. Vou explicar.

A frase “o cliente sempre tem razão” não é pra ser entendida literalmente. Na verdade, é até uma frase meio canalha. Ela significa, em essência, que o vendedor tem que descobrir o que o cliente quer e dispor-se a vender esse mesmo produto. Quem define o negócio é a demanda, então o vendedor tem que ouvir essa demanda e comportar-se de acordo, para que o cliente queira lhe dar dinheiro. “Ouvir a demanda” significa descobrir o que o mercado quer comprar. A pesquisa de mercado é um dos conhecimentos valiosos para um empreendimento, e é por não atentarem a isso que muitas empresas iniciantes falham apesar de terem produtos geniais: produtos que, porém, ninguém quer.

Então, “o cliente tem razão” por definição: quem define o produto é ele. Ele entra no restaurante, diz que quer o prato assim e assado, e o restaurante passa a ter esse prato no cardápio. Mas o “cliente” da frase é, de certo modo, o conjunto dos clientes, da média razoável dos clientes: aquilo que, acontecendo repetidas vezes, trará lucro ao estabelecimento. Se for um pedido louco, custoso ou impossível de atender, se o prato não tiver saída, o cliente pode não ter razão.

O sorvete de iogurte com limão siciliano (doravante ILS para encurtar) é azedo. Eu sei, porque eu gosto, mas eu sei muito bem que a maioria das pessoas não gosta. Aliás, o povo nem pede sorvete de iogurte nenhum; a Itália tem que ficar fazendo promoção e festival dos sorvetes de iogurte pra ver se sensibiliza o povo e empurra sua produção pra fora! Em matéria de sorvete, o povo é conservador: morango, chocolate e creme. Ninguém pede, como eu peço, tangerina, manga com gengibre, tapioca, menta, chocolate meio amargo com amendoim, ABÓBORA COM COCO (um de meus preferidos; doravante ACC para encurtar).

Ora, se o sorveteiro quer vender, ele tem que fabricar aquilo que o povo compra. É uma questão estatística: ele tem que olhar os trinta espaços da sorveteria e fabricar os trinta sorvetes que mais vendem. Não adianta fazer ILS se ficar mofando na geladeira sem ninguém tomar; não só tem o custo de fabricação, mas também estará deixando de vender daquilo que vende, abrindo mão de receita. Seria insensato fabricar ILS por causa de um cliente só. É por isso que o ACC fica ANOS sumido.

As pessoas têm que lembrar que todo empresário só exerce o comércio para ganhar dinheiro, e não para satisfazer o ego delas. Uma coisa é o objeto social: aquilo que a pessoa jurídica faz. Cada empresa tem o seu objeto social; o da Itália é fabricar e vender sorvete. Outra coisa é o objetIVO social, que, no caso de uma empresa, é SEMPRE ganhar dinheiro. Fico meio frustrado de não ter ACC, mas tenho que entender o lado do lojista: não é nada contra mim; é uma decisão prática dele. E mais: estatìsticamente, ele também está certo. Ao privilegiar morango, chocolate e creme, ele maximiza o número de egos satisfeitos, fazendo o sacrifício necessário de deixar de atender a uma minoria de egos. Certamente não seria justo nem democrático se ele atendesse a uma minoria e forçasse a maioria a, querendo sorvete, só ter ILS ou ACC para escolher.

Mas a velha está muito errada. Ela parece ter a pretensão de gerir a loja, de dizer o que é que a sorveteria tem que fazer. Quando diz “olha o espaço ali”, ela afirma que o espaço está disponível para atender à prioridade dela. Com isso, olvida os fatos de que (1) é a Itália quem define como aquele espaço será ocupado, não a velha; (2) sabe lá se o espaço está realmente livre? Dali a dez minutos seria ocupado! O que garante que vá ficar livre por dias e dias e dias? Então, (3) parece livre, mas, ao ser ocupado, será ocupado por algo diferente do que ela espera. NÃO É ELA A GESTORA DA LOJA.

Uma conclusão que se extrai daí é que seja uma velha mandona (como em geral são as velhas — não confunda com as senhoras nem com as velhinhas, que são espécies bem diferentes). Como toda gente mandona, ela sofre de um tipo bem especial de psicose, que é supor que seu ego seja mais importante que o de outras pessoas e, portanto, concluir que o mundo exista para servi-la.

Afinal a velha foi embora ameaçando não mais voltar. De um lado penso, “blefe”: quem fala não faz. Ela vai voltar, inclusive porque se diverte demais fazendo isso. Se ela não reclamar na sorveteria, que graça tem a vida para ela? É claro que vai voltar! É isso que é importante para ela; seu vício é esse. Se houvesse ILS, aí sim ela se frustraria, por não ter do que reclamar, e iria encontrar outra coisa, e ia querer outro sabor que ali não houvesse. Mas, de outro lado, penso, “não volte mesmo; a vendedora agradece”.

Mas não só a vendedora agradece. Pensa bem: esse tipo de cliente não interessa à sorveteria. Esse tipo de cliente não compra, não se contenta com os sabores que há (e são muitos), só cria tumulto e má impressão na loja. Se a velha SÓ aceitaria ILS, então ela não é a cliente que a sorveteria Itália quer, porque é uma cliente muito limitada, que é caro atender. É uma cliente que quer um sabor de sorvete só pra ela — o sabor DELA — e que, com isso, impede a sorveteria de ganhar mais dinheiro com um sabor mais popular; certamente a velha não se disporia a comprar toda a produção de ILS, né? Ia ficar lá uma caixa inteira, que ela queria para satisfazer ao ego dela — nada a ver com sua real preferência ao paladar; a questão toda se resume a mostrar quem manda –, mas pela qual não pagaria.

Então, uma cliente dessa não convém. Como costuma argumentar o @cardoso, quem chia não consome, é um cliente que na verdade não interessa e que NUNCA estará satisfeito. Pode parar de tentar agradar, porque você não vai conseguir.

E não é assim em tudo na vida?

EOF

Uma atroz dúvida jurídica

Lanche. S.m. 1. Refeição leve que se faz entre o almoço e a janta. 2. P.ext. Qualquer refeição leve. 3. Paulistês. Sanduíche.

Há alguns dias, chegou-me, pelo Twitter, a notícia de que o ex-deputado Eduardo Cunha havia sido preso “enquanto comia um lanche”. Quem me deu a notícia foi um usuário paulista.

Atenção ao verbo. Não é “fazia um lanche”, mas “comia um lanche”.

É claro que, imediatamente, veio-me a dúvida óbvia (a única que deveria preocupar a mente de qualquer leitor dessa notícia com tamanha gravidade): era “lanche” no sentido de “refeição leve” ou “lanche” no sentido de “sanduíche”? A um carioca não vem esse pensamento, porque, para nós, “lanche” nunca significa literalmente “sanduíche” (embora frequentemente o lanche, refeição leve, possa até consistir em um sanduíche). Mas o emissor da mensagem era paulista. Minha dúvida estava mais que justificada.

Apesar de se referir ao ato de comer, e não ao de fazer, paradoxalmente o texto teria sido mais claro se tivesse dito “fazia um lanche”. Afinal, nem à Velhinha de Taubaté ocorreria a hipótese de que o verbo “fazer” fosse literal nesse caso; só poderia estar sendo usado no sentido figurado, de “comer”. Mas, como ninguém aplica tal sentido figurado quando o objeto do verbo é um sanduíche (ou seja: ninguém diz que vai “fazer” um sanduíche no sentido de “comê-lo”), não haveria dúvida: o sentido seria de “comer uma refeição leve”.

Mas não foi essa a escolha de quem escreveu. Como o verbo era literal, “comer”, vieram-me inevitáveis pontos de interrogação.

Felizmente, alguns minutos depois, vim a saber que o “lanche” consistia em um pão com manteiga.

Ora! Ninguém considera um pão com manteiga como parte da categoria dos sanduíches! Sanduíche se faz com alguma coisa que você comeria sòzinha: carne, frango, sorvete, prego de aço — qualquer coisa que você comeria sem pão mas que está escolhendo comer dentro do pão. Se a coisa depende de pão para ser comida — caso da manteiga, da margarina ou do requeijão –, aí você não chama de “sanduíche”; você apenas diz que é “pão com (…)”.

Assim ficou esclarecido o mistério: sendo pão com manteiga, não se tratava de um sanduíche. Não sendo sanduíche, um legítimo herdeiro dos Bandeirantes não chamaria o pão com manteiga de “lanche” com esse sentido. Portanto, òbviamente, só podia ser um “lanche” no sentido de “refeição leve”.

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É claro que outros aspectos jurídicos merecem discussão. O primeiro diz respeito à informação — verdadeira ou falsa — de que os policiais não esperaram que o ex-deputado acabasse de comer para prendê-lo. Ora, se o pão estava ali e não foi comido, logo ficaria duro, apesar da manteiga, e se tornaria imprestável para consumo. O que traz a pergunta: onde fica a sustentabilidade? Então agora se monta um sanduíche para ninguém comer? Será que o País está tão rico que estamos nos dando ao luxo de jogar comida fora? O mínimo que algum policial deveria ter feito seria ter comido o final que restava do sanduíche pão com manteiga, de modo que este cumprisse sua função social.

Pode-se arguir, ainda, que esse ato equivaleria a um confisco, expropriando o preso de seu patrimônio (no caso, o dito final de pão), quando tudo que o Estado poderia suprimir seria sua liberdade. Mas argumento eu: melhor um confisco pelo Estado do que pelo particular. O que você acha que a padaria (ou supermercado, sei lá) ia fazer quando visse o meio pão dando mole, sem consumo, em cima do balcão?

Em uma outra questão igualmente jurídica, mas de muito menor importância, levanta-se a tese de que os policiais poderiam, ao menos, ter esperado que o preso acabasse de consumir sua refeição leve seu lanche. Divirjo. A ordem de prisão é para cumprimento imediato; pudessem os policiais cumpri-la instantaneamente, com teletransporte, deveriam fazê-lo. Então, retardar o cumprimento da ordem seria uma procrastinação ilegal, uma omissão do dever. Mais: se Cunha consumisse o pão até o fim, estaria exercendo liberdade, e a ordem judicial foi justamente para fazer cessar o exercício da liberdade. Então, cuneus panem edere non potest.

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Trago quatro trechos alheios

… de obras diferentes.

O primeiro é de Umberto Eco, em O nome da rosa, conforme tradução de Aurora F. Bernardini e Homero F. Andrade, editora Nova Fronteira, 1983, p. 45.

” ‘Compreendo’, disse Guilherme. Eu já tivera meios de notar que, quando se exprimia daquele modo tão solícito e educado, de costume calava, de maneira honesta, o seu dissenso ou sua perplexidade.”

Conheço quem me deu o mesmo exemplo. Atento, procuro praticar; ainda falho miseràvelmente, mas insisto.

O segundo é do artigo Supersônicos: a primeira turma no F-103 no Brasil, de Reinaldo Peixe Lima, publicado na Revista força aérea no. 41 (dez.2005 – fev. 2006), p. 31-35. Na página 34,

“(…) o AT-26 Xavante, com a sua camuflagem verde, voando sobre os verdes mares cearenses, era praticamente invisível, (…)”

“Eu vi o que você fez”, disse Castro Alves.

O terceiro é do artigo Mistral I: o dia em que a FAB armou a arapuca…, de Carlos Lorch, da mesma edição da RFA acima, p. 36-41. Na página 36, o Autor relata um evento de 1997, quando a Armée de l’Air trouxe seus Mirages 2000 para treinarem em Natal, em exercícios de combate simulado com os Mirages III (“F-103”) do Esquadrão Jaguar da FAB.

“(…) bem, na verdade não dava para esperar muito dos nossos Mirage. Eram aeronaves de outra geração, o esquadrão estava treinado para conduzir interceptações vetoradas. Sabe como é …coisa de outra época. Nada que não fosse varrido pela fantástica relação peso/potência, pelos radares RDI e mísseis Super R.530 e Magic II dos Mirage 2000 da nova geração. Estava quase me perguntando se não teria sido melhor deixar os F-103 lá em Anápolis…

“Mas o que eu imaginava não foi bem o que ocorreu. Logo no início da Operação, enquanto fazia fotografias no pátio de estacionamento das aeronaves, comecei a notar um estranho padrão de comportamento nas tripulações que retornavam do vôo. Principalmente nas francesas. Ao descerem de seus Mirage 2000, os pilotos começaram a agir de forma estranha. Coçavam a cabeça, discutiam com seus alas já ali, na rampa. Gesticulavam e partiam rápido para o debriefing com cara de poucos amigos. Esse padrão se repetiu no dia seguinte e já então permeava no ar uma sensação esquisita. Os pilotos e os mecânicos de nossos Mirage, por sua vez, mal conseguiam esconder uma satisfação coletiva que de pronto tomou conta da base. Não dava para saber exatamente o que estava acontecendo, mas era algo fora do comum. De algu’a maneira, os Jaguares, com seus aviões de outros tempos, estavam dando uma escovada em nossos incrédulos visitantes. Havia rumores e explanações desencontradas. Muita vibração de um lado, e um misto de surpresa e indignação do outro.

“Eu não sabia o que havia acontecido. Só sabia que os havíamos superado, e isso já era o bastante…”

O quarto trecho vem da mesma reportagem de C. Lorch. Na página 37, as palavras são do Major-Aviador José Eduardo Portella Almeida:

“… os franceses nos ofereceram voar na nacele [eu tinha pra mim que o nome certo fosse ‘carlinga’] traseira dos dois M2000 biplaces que haviam trazido, o que foi disputado por todos os pilotos brasileiros. Nós também tínhamos trazido dois MIII biplaces e nenhum francês tinha pedido para voar de ‘saco’. O exercício durou uma semana. Lá pela quinta-feira, começamos a fase operacional, os vôos em que aplicaríamos a tática. O posicionamento tático era o seguinte: dois MIII simulariam estar defendendo Natal e dois M2000, vindos do oceano, tentariam romper a patrulha (…). Na quinta-feira, se não me engano, ganhamos todos os combates. Em um deles, contra o Comandante dos franceses (…), os dois M2000 foram abatidos nos dois engajamentos. No debriefing, o Comandante gritava, em francês, com seu ala, inconformado com a ‘derrota’ a que ele tinha sido submetido, a seu ver por causa de falhas do ala. Ele fez questão de assistir ao filme em que ele manobrava na frente do MIII, lançando flares, em vão. Naquele dia, os franceses se trancaram na sala de briefing reservada a eles e ficaram até altas horas, fazendo não sabemos o que (todos os dias nós ficávamos fazendo nossa reunião do pôr-do-sol e eles saíam para a cidade logo após o último vôo. Na quinta-feira, nós saímos antes). No dia seguinte (sexta), havia dois franceses na porta da nossa sala de briefing pedindo para voar conosco, na nacele traseira do MIII…”

É como diziam no Exército: “treinamento difícil, guerra fácil”.

EOF

 

O Bom Doutor, esse espertinho

Já por algumas vezes tentei escrever meu texto definitivo sobre o universo comum onde se passam inúmeras das histórias do futuro de Isaac Asimov. Terminei alguns textos parciais, que você encontra neste mesmo belogue. Agora, acho que saiu o texto que eu tanto queria. Não é definitivo, porque ainda não acabei de ler todos os livros do dito universo, mas já transmite a visão global que eu vinha buscando há um tempo.

O prolífico escritor americano Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova Iorque, 1992) publicou algumas centenas de livros. A maioria são de divulgação científica, mas os livros que o tornaram mais famoso foram os de ficção científica, em particular os contos de robôs positrônicos, aos quais o Autor ficou para sempre associado.

Nem todas as obras de ficção científica de Asimov tratam de robôs. O Bom Doutor publicou vários contos e romances, muitos dos quais são independentes, completamente desconectados de qualquer outra obra. Entetanto, muitos outros (perfazendo cerca de três dezenas de livros) são ambientados em um mesmo universo, a que os textos especializados se referem como o universo dos Robôs, Império e Fundação. Trata-se de uma extensa obra já revirada e analisada por uma multidão de leitores fiéis, que descreve o futuro da humanidade ao longo de milênios e que trouxe a Asimov reconhecimento como um dos maiores Autores de ficção científica até hoje. Nestes livros, os longos diálogos entre os personagens são o veículo para aquilo que mais tarde se convencionou chamar de world-building: extensas descrições da História, Geografia e sociedade do futuro, em uma visão grandiosa onde mais importante é o cenário do que as histórias.

Estes livros foram publicados ao longo de cinco décadas, na ordem em que ao Autor veio a vontade de escrevê-los: uma ordem bem diferente daquela em que se passam seus eventos. Então, existem pelo menos duas formas de se ler esta criação: a ordem histórica de publicação (à qual sempre dou preferência, tal como faço com quadrinhos, J.R.R. Tolkien, Jornada nas Estrelas e Babylon 5) e a ordem cronológica em que os eventos transcorrem no universo criado pelo Autor. As duas ordens estão minuciosamente analisadas em numerosos saites na Web. Para seguir a ordem histórica de publicação, pode-se procurar o artigo na Wikipedia, assim como numerosas fontes online; para seguir a ordem cronológica dos eventos, pode-se procurar a Lista de Ficção Insanamente Completa de Johnny Pez. Para uma história que explica como surgiu e evoluiu esta grande obra espalhada em vários livros, clique na Parte 1 da História das Histórias de Robôs Positrônicos e da Fundação.

Daqui para baixo, SPOILERS. Você foi avisado.

De 1939 até 1982, Asimov criou três universos narrativos sem conexão entre si:

1) Os contos de robôs, ambientados no Sistema Solar no século 21. A colonização dos planetas é auxiliada pela mão de obra dos robôs positrônicos, que são proibidos na Terra mas largamente empregados no espaço. Um número significativo destas histórias é protagonizado pela Robopsicóloga Susan Calvin; algumas, de fundo mais cômico, pelos especialistas Powell e Donovan. A maioria das histórias explora as consequências das Três Leis da Robótica, uma criação de Asimov que caracteriza seus robôs como máquinas úteis à raça humana, evitando o Complexo de Frankenstein. A maior parte destes contos estão agrupados nas coletâneas I, Robot (o mais famoso de todos os livros de Asimov, de 1950), The Rest of the Robots (1964), The Bicentennial Man and Other Stories (1976), Robot Dreams (1986), Robot Visions (1990) e na que reúne os dois primeiros, The Complete Robot (1982), embora alguns contos desses livros não façam parte do universo dos contos de robôs, por não serem compatíveis com as Três Leis.

2) Os romances de robôs, ambientados alguns milênios em nosso futuro. Fazendo uso da tecnologia hiperespacial, a humanidade alcançou cinquenta planetas em sistemas estelares próximos e neles fundou colônias, cujos habitantes são denominados Spacers. As colônias têm baixíssima densidade populacional, enquanto a Terra, superpovoada, é vista por elas como um planeta atrasado, doente e decadente. Enquanto a Terra continua a rejeitar a presença de robôs, as colônias fazem extenso uso deles como sua principal mão de obra. Isso as torna tão economicamente eficientes que a vida dos Spacers é um paraíso hedonista, onde ninguém precisa trabalhar e todos são mais saudáveis e longevos do que seus contemporâneos terráqueos. Essa dicotomia provoca hostilidade entre os dois grupos de humanos, terráqueos de um lado e Spacers do outro, os últimos vendo-se como um novo passo da evolução e os primeiros percebendo-os como elitistas esnobes. Oriundo de Nova Iorque, o Detetive Elijah Baley investiga homicídios na Terra e nas colônias com seu parceiro improvável, o andróide R. Daneel Olivaw, e os dois tornam-se grandes amigos. As obras são os romances The Caves of Steel (1954), ambientado em Nova Iorque, e The Naked Sun (1957), ambientado na quinquagésima colônia, Solaria, mais o conto Mirror Image (1972). Ainda, o conto Mother Earth (1949) passa-se alguns séculos antes dos romances e não faz uso dos mesmos personagens, mas integra o mesmo conjunto.

3A) Os romances do Império, ambientados alguns milênios depois dos romances de robôs. A humanidade espalhou-se e colonizou toda a Galáxia. Dos inúmeros planetas ocupados, Trantor expandiu sua influência a ponto de se tornar a capital de um crescente império, cujo tamanho é diferente de um para outro livro. A Terra é um planeta radioativo, visto como a escória decadente da Galáxia (ou até esquecido, dependendo da época). Os romances são os fracos Pebble in the Sky (de 1950, sendo o mais conhecido e menos ruim deste conjunto), The Stars, Like Dust (1951) e The Currents of Space (1952). Não há robôs nestas histórias.

3B) A Trilogia da Fundação. Trata-se de oito noveletas publicadas isoladamente de 1942 a 1950 e posteriormente agrupadas em três livros, junto com uma nona e tardia história. Entre os admiradores do escritor, esta trilogia é considerada sua obra-prima, tendo sido fortemente inspirada pela leitura do clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. As noveletas mostram os dias finais do Império, ainda sediado em Trantor e, a esta altura, existente já há 12.000 anos. O Império estende-se por todos os milhões de mundos habitados por humanos nesta Galáxia, cada um com sua variada cultura, totalizando quatrilhões de súditos. Sua eclética capital, toda coberta de edifícios, representa a epítome da burocracia, para ela afluindo representantes dos mais variados cantos da Galáxia. (Costumo dizer que Londres, capital de um império onde o Sol não se punha, é a mais próxima imagem que hoje temos de Trantor. Imagino que, em Star Wars Episódio I, George Lucas tenha criado Coruscant à imagem daquele planeta-cidade.) Nesse contexto, o cientista Hari Seldon cria um novo ramo da Matemática ao qual batiza de Psico-história. Nesta ciência, as equações formuladas por Seldon permitem deduzir as tendências comportamentais de grandes populações com base em leis sociológicas e probabilidades e, com isso, essencialmente prever o futuro com suficiente e assustadora precisão; quanto maior a amostra, mais acuradas são as previsões. Esse conhecimento avançado permite a Seldon descobrir que o Império já está decadente e cairá em poucos séculos. Da mesma forma, para se atingir determinado resultado a longo prazo, as previsões da Psico-história permitem identificar quais são as ações eficazes. Assim, para preservar o conhecimento de milênios e abreviar a iminente idade das trevas, Seldon calcula que o melhor a fazer é instituir a Fundação, uma nova organização que sucederá o Império em meio a guerras e outros conflitos planetários. A Trilogia narra os desdobramentos da criação da Fundação e do Plano de Seldon ao longo dos séculos subsequentes, sendo constituída pelos livros Foundation (de 1951, abrangendo quatro histórias mais uma que se passa antes das demais mas que foi escrita por último, especialmente para este livro), Foundation and Empire (de 1952, com as duas seguintes histórias originais) e Second Foundation (de 1953, com as últimas duas histórias originais). Não se veem robôs em qualquer um desses livros.

Em algumas destas histórias do Império e da Fundação, fica implícito e, noutras, explícito que a raça humana é a única espécie inteligente em toda a Galáxia. Com isso, Asimov pôde concentrar-se em descrever sòmente conflitos envolvendo a própria raça humana, sem preocupações com alienígenas. (Havia uma motivação editorial antirracista por trás disso, explicada por ele mesmo em The Early Asimov (1972), que não vem ao caso agora.) Como, porém, o Autor nunca se preocupou muito com coesão ou consistência, existem alguns contos de robôs, e outros tantos que mencionam planetas do Império Galáctico, onde se dá o confronto entre a humanidade e outras civilizações. Pode-se considerar que estas histórias estejam fora do conjunto das demais apesar de conterem elementos que lhes são comuns. São elas Victory Unintentional (de 1942, continuação de Not Final!, de 1941) e Black Friar of the Flame (de 1942, fazendo referência a Trantor e a outros planetas do Império). Uma outra, Blind Alley (1945), também envolve alienígenas, mas, mesmo assim, é compatível com os romances do Império.

As obras dos três conjuntos acima ambientavam-se em épocas tão distintas que seu tratamento era absolutamente independente. Essencialmente, Asimov exercitava-se em três universos desconectados, um no futuro próximo, outro no futuro distante e um terceiro no futuro bem remoto, sem nenhuma intenção, plano ou esforço de reuni-los. Esse comportamento mudou nos anos 80, quando o Autor começou uma grande unificação dos três universos ficcionais, fundindo-os em um só. Ao longo daquela década, os novos trabalhos passaram a incluir referências bastante ostensivas aos elementos de histórias já conhecidas, costurando os diferentes retalhos em um tecido único.

A tarefa começou em The Robots of Dawn (1983), que é mais um romance de robôs com Baley e Daneel. Ambientado em Aurora, a primeira das Cinquenta colônias, The Robots of Dawn faz referências a eventos dos contos de robôs como parte de um passado já distante, ao mesmo tempo em que um de seus personagens especula sobre um futuro onde seja possível prever o comportamento da civilização com alguma espécie de “Psico-história”.

Nesse ponto, havia uma incompatibilidade entre os períodos históricos dos universos dos robôs e da Fundação. Se a humanidade já entregara à tecnologia robótica todo o trabalho braçal nos romances de robôs, como se explicaria que, milênios depois, não houvesse um só robô nas histórias de Império e Fundação?

A resposta veio do romance de robôs seguinte, ambientado alguns séculos após The Robots of Dawn, com o título de Robots and Empire (1985). Aqui, aprende-se que, conforme fôra previsto em The Robots of Dawn, os Cinquenta Mundos estagnaram e suas culturas começaram a definhar em razão do uso indiscriminado de robôs, que tirou todo o desafio da vida colonial. Ainda no intervalo entre um e outro livro, iniciou-se uma segunda onda de colonização do espaço a partir da Terra, sem o auxílio de robôs. Os mundos da segunda colonização começaram a disputar espaço político com os primeiros, mas seu vigor tende a prevalecer. Ao fim, inicia-se um processo onde a Terra se torna gradualmente radioativa, motivando a emigração e o paulatino abandono pela humanidade, e as colônias da segunda onda estabelecem as bases de um futuro Império Galáctico sem robôs, com o concomitante desvanecimento das Cinquenta colônias originais. Fica explicada a origem da radioatividade da Terra e do esquecimento do planeta original da humanidade nos livros do Império e da Fundação.

Nesse meio tempo, Asimov publicou um romance continuando a Trilogia da Fundação, com o nome de Foundation’s Edge (1982). Após esse livro, assim como havia começado a estender para o futuro os romances de robôs de modo a conectá-los às histórias do Império e da Fundação, da mesma forma ele passou a estender-se também a partir da extremidade oposta, contando, em retrospectiva, como os Cinquenta Mundos haviam dado lugar ao Império. Assim, em Foundation and Earth (1986), continuação de Foundation’s Edge, os protagonistas partem em busca da Terra, agora já um planeta mítico, de cuja existência muitos duvidam. No processo, encontram restos de algumas das já abandonadas Cinquenta primeiras colônias, deparam-se com Daneel (ainda operacional após tanto tempo) e descobrem que ele foi o grande mentor, tanto da formação do Império como da posterior Fundação. Com Foundation’s Edge e Foundation and Earth, passa a haver uma Série da Fundação, para além da Trilogia original.

Pouco depois (1988), Asimov publicou a prequel Prelude to Foundation, que relata um momento da juventude de Hari Seldon, pouco após o matemático inventar o conceito de Psico-história. Em uma das passagens, descobre-se que o setor mais tradicionalista de Trantor é ocupado por descendentes dos habitantes de Aurora, em uma cultura que reverencia o passado perdido, em que eram mestres de robôs. Ao fim do livro, Seldon descobre que ainda existem alguns robôs, disfarçados entre os humanos, um dos quais é Daneel, que continua a influenciar vigorosamente a evolução da humanidade.

É inevitável que, ao longo de cinquenta anos de publicações e sendo tão numerosas as histórias, existam inúmeras inconsistências dentro desta majestosa obra. Apesar de ser um só Autor por trás de todos os livros, Asimov sempre se confessou indisposto ao esforço de compatibilizar novas histórias com as velhas, preferindo concentrar-se na diversão criativa e, por vezes, estabelecendo o que se costuma chamar de continuidade retroativa (quando novas obras essencialmente reescrevem o passado, substituindo o conhecimento dos eventos que o leitor tinha a partir de histórias mais antigas).

Eu só escrevi todo este resumo porque queria comentar o romance que terminei na semana passada, Nemesis, de 1989. Este foi o primeiro romance de Asimov que se pretendeu autônomo em sua obra desde 1972, com uma história original não relacionada às de robôs ou da Fundação. Ambientado no século 23, ele conta como a primeira colônia orbital sai do Sistema Solar e, em uma longa viagem, vai acercar-se de uma estrela anã vermelha descoberta a apenas dois anos-luz do Sol. Ao longo do livro, os personagens inventam a tecnologia hiperespacial, que permite viagens instantâneas entre localidades situadas a anos-luz uma da outra.

Na Nota do Autor ao início de Nemesis, Asimov diz (e traduzo livremente do original, pois não tenho à mão um exemplar da edição da Nova Fronteira) que “este livro não é parte da Série da Fundação, da Série dos Robôs, nem da Série do Império. Ele se sustenta independentemente. Apenas pensei em alertar o Leitor para evitar uma apreensão mal dirigida. É claro, posso um dia escrever outro romance ligando este aos demais, mas, por outro lado, pode ser que não. Afinal, por quanto tempo conseguirei chicotear minha mente para fazer funcionarem estas complexidades da História do futuro?”

Essa passagem é intencionalmente ambivalente. De um lado, Asimov liberava-se para escrever uma obra original, sem compromisso com o universo estabelecido entre robôs e Fundação. Por outro lado, nota-se a intenção, ainda embrionária, de inserir o livro no conjunto da obra maior.

No entanto, olha só o discurso de uma personagem que se encontra a duas páginas do fim do livro: “no fim, talvez a Galáxia venha a ter dois tipos de mundos, mundos de terráqueos e mundos de mais eficientes pioneiros, os verdadeiros Spacers. Eu me pergunto como isso se resolveria. Certamente significaria que o futuro estaria com eles. Em certa medida, eu lamento isso”. Nas duas últimas páginas, outro personagem “sabia que a humanidade correria de estrela para estrela tão facilmente como tinha corrido de continente para continente (…). A mesma anarquia, a mesma degeneração, a mesma mentalidade inconsequente de curto prazo, todas as mesmas disparidades culturais e sociais continuariam a prevalecer — por toda a Galáxia. O que haveria agora? Impérios galácticos? Todos os pecados e tolices graduados de um mundo para milhões? (…) Quem conseguiria enxergar sentido em uma Galáxia, quando ninguém conseguira enxergar sentido em um único mundo? Quem aprenderia a ler as tendências e prever o futuro em uma Galáxia inteira fervilhando de humanidade?”

Quando cheguei a esse trecho, imediatamente percebi o propósito do Bom Doutor. Era quase uma pilantragem: embora ele não assumisse qualquer compromisso de tornar Nemesis compatível com os livros anteriores, desobrigando-se de eliminar inconsistências e de conectar uma história às outras, estava claro que se referia ao período histórico dos romances de robôs, ao Império Galáctico e à Psico-história. Certamente é por causa dessas duas passagens que os pesquisadores situam Nemesis como “tangencialmente” situado no universo da Fundação.

Mais recentemente, descobri que o clássico The End of Eternity, de 1955, também “tangencia” a Série da Fundação. Considerando o ano de publicação, decerto o Autor terá feito isso de forma menos deliberada. Ainda assim, creio que terei que lê-lo prioritàriamente, antes de passar aos últimos livros: Forward the Foundation (1993) e, da pena de outros Autores, Foundation’s Friends (1989), Foundation’s Fear (1997), Foundation and Chaos (1998) e Foundation’s Triumph (1999).

Antes de fechar, quero apenas observar que todos esses livros (até onde sei) foram publicados no Brasil, vários em traduções castiças pela editora Hemus (nos áureos tempos), outros tantos pela Record. Nos últimos três ou quatro anos, os romances de robôs e do Império e os sete livros da Fundação têm saído em novas traduções pela editora Aleph, que parece ressurgida das cinzas com várias traduções de clássicos, não sòmente de Isaac Asimov mas também de Arthur Clarke, Philip Dick e outros veneráveis mestres. A meus estimados Leitores que porventura tenham tido a paciência de chegar até aqui, recomendo embarcar nessa viagem, que, até agora, já me tomou belos oito anos de leituras e há de tomar ainda mais alguns.

ATUALIZAÇÃO EM 4 DE MARÇO DE 2018:
Já li The End of Eternity e estou lendo Forward the Foundation. Veja como é que o primeiro se integra ao universo da Fundação e como foi que afinal Asimov conectou Nemesis a esse universo, clicando aqui.

EOF

Traduzi isto hoje

Obrigado
Original por Ken Block, Jeff Beres, Andrew Copeland, Ryan Carter Newell, Mark E. Trojanowski; cantado por Dido Armstrong, publicado no album No Angel
Tradução por João Paulo Cursino

Meu chá esfriou, e eu me pergunto por que sequer me levantei da cama
A chuva matinal enevoa minha janela, e não consigo ver nada
E mesmo que eu conseguisse, estaria tudo cinza, mas seu retrato na minha parede
Ele me lembra que não é tão ruim, não é tão ruim

Bebi muito a noite passada, tenho contas pra pagar, só sinto dor de cabeça
Perdi o ônibus e vai ser uma cobrança danada hoje, estou atrasado pro trabalho de novo
E mesmo quando eu estiver lá, vão todos ficar mandando indiretas de que eu não passo de hoje
E aí você me liga e não é tão ruim, não é tão ruim e

Quero te agradecer por me dar o melhor dia da minha vida
Oh, só ficar com você é ter o melhor dia da minha vida

Empurro a porta, finalmente estou em casa e estou completamente ensopado
Aí você me estendeu uma toalha e tudo que vejo é você
E mesmo que a minha casa desabasse agora, eu nem perceberia
Porque você está perto de mim e

Quero te agradecer por me dar o melhor dia da minha vida
Oh, só ficar com você é ter o melhor dia da minha vida

A pergunta inevitável

Estimulado pelo Aerolito no. 58, do grande Lito, venho aqui trazer alguns pontos que estou devendo a vocês há um bom tempo.

Quando eu era criança, certa vez visitei Dona Cosette, amiga de minha vó. Vendo que eu me interessava por aviões, Dona Cosette perguntou-me quem havia inventado o avião. Quando respondi que tinham sido os irmãos Wright, ela se indignou; “cooomo? Você não é patriota???”

Dona Cosette estava errada por tantos argumentos que nem sei por onde começar. Mas vejamos.

Primeiro, ela parecia ter a estranha noção de que, se uma pessoa é patriota, ela tem que afirmar a primazia de seu país mesmo quando sabe que está propagando uma mentira. Quer dizer: não importa quem inventou o avião ou se você realmente acredita que tenham sido os irmãos Wright; você está obrigado a contrariar sua crença sincera e afirmar aquilo que, na sua mente, crê que não seja verdade. Pois a verdade não interessa por mais que você a conheça; prevalecem os interesses.

Segundo, ela parecia acreditar que o patriotismo consistisse em, nas menores manifestações, afirmar sempre que seu país seja melhor do que os outros. Em vez de se esforçar por ter saneamento básico, ensino fundamental para todos e balança comercial favorável, você tem que afirmar que seu país é melhor. Isso parecia mais prioritário para Dona Cosette do que efetivamente se esforçar para melhorá-lo. Noções estranhas de patriotismo tinha Dona Cosette. Eu sempre achei que a segunda conduta seria mais patriótica do que a primeira, mas, sei lá, vai ver que eu não sou patriota.

Terceiro — eu sei que sua professora de Educação Moral e Cívica vai enfartar se ouvir isto, mas ninguém é obrigado a ser patriota. Está lá na Constituição, artigo 5o., inciso II (meu preferido em todo o ordenamento): se não há lei obrigando você ao que quer que seja (inclusive a ser patriota), você NÃO está obrigado! Você tem que cumprir todas as leis do País, isso tem. Dentro de seu território, o Estado é soberano; você tem que obedecer. Mas não tem que gostar.

Poderíamos perdoar Dona Cosette por ter sido criada em uma época de integralismo, por ter sido jovem durante as duas ditaduras de Getúlio Vargas (a primeira, 1930-1934, e a segunda, 1937-1945), por ter sido regida por governos desenvolvimentistas. No Brasil, o século XX foi bàsicamente um grande exercício nacionalista, de discurso ufanista e engrandecimento do Estado.

Poderíamos, mas eu certamente não vou. Para mim, a partir dessa cobrança, Dona Cosette foi e sempre será apenas uma velha antipática e autoritária. Que, ainda por cima, criava romãs no jardim, certamente para fazer chá. Detesto romã.

De todo modo, se você é fã de aviação (meu caso) ou trabalha com aviação (não é meu caso), é inevitável — inevitável, tal como a morte — que, mais cedo ou mais tarde, algum engraçadinho venha perguntar a você quem inventou o avião. Se você tiver sorte, a pergunta será feita por alguém que realmente quer saber e que reconhece em você alguém que já leu mais sobre o tema e que, portanto, está em melhor condição de responder. Será uma pergunta sincera, de curiosidade, feita com respeito. Infelizmente, esse não é um cenário provável. Eu sempre acabo me deparando mesmo é com gente metida a sabichona que fica querendo me testar, para ver se eu passo no seu pequeno e medíocre teste pessoal. Como se eu lhes devesse alguma coisa. Seguidores de Dona Cosette.

“Quem inventou o avião?” A pergunta não é lá muito inteligente. Se formos observar os inventos a partir do século XIX, ninguém inventou nada sòzinho. Todos os equipamentos que vemos a nossa volta resultam de um somatório de diversas contribuições individuais, que foram se somando gradualmente, por incrementos. O avião, que é o exemplo em discussão aqui, só foi possível depois da invenção do motor de combustão interna — que não foi criado por Santos-Dumont nem pelos Wrights –, e aproveitou o formato de aerofólio que já era usado nos planadores desde o século anterior. Além disso, a experiência de vários pioneiros ia agregando o conhecimento necessário para que outros construtores se informassem e, com base nessas descobertas, pudessem ter a inspiração de criar em cima. E, no entanto, o público em geral continua não sabendo quem foram Clément Ader, Henri Farman, Samuel Langley e Otto Lilienthal (vá pesquisar), sem cujas contribuições dificilmente os Wrights e Santos-Dumont teriam conseguido resultados. Quer dizer: ninguém faz nada sòzinho.

Na verdade, é só no Brasil que vejo a pergunta de “quem inventou o avião” ganhar importância; fora daqui, esse não é um ponto de discussão. O que parece motivá-la é uma espécie de ufanismo tolo, de querer afirmar ao mundo que existe alguma espécie de corrida e que o Brasil a ganhou. Como se o indivíduo ufanista tivesse feito alguma contribuição; como se tivesse de que se orgulhar. Não fez nada! Está só indo na aba de alguém (no caso, Santos-Dumont, mas poderia ser Ayrton Senna, Daiane Santos, Gustavo Borges ou Sérgio Vieira de Mello) que teve pouco ou nenhum apoio de seu País e que, portanto, conquistou vitórias independentemente dele, ou até apesar dele. É um complexo de vira-lata, resultante de uma baixa auto-estima nacional, onde o sujeito vê seu País desprezado em negociações internacionais, vê-se excluído ao precisar de visto para entrar nos Estados Unidos, vê sua baixa posição nas classificações de IDH ou de corrupção, mas quer ter alguma compensação onde possa afirmar que, apesar de tudo, é o melhor; como se tudo mais que sofre fosse resultado do recalque dos outros em razão de uma suposta derrota (quando, na verdade, o recalcado é ele). Ademais, é um espírito doentio de competição, onde não vale o ditado do Barão de Coubertin (“o importante não é vencer, mas competir”) e se exige vitória em todas as disputas: se não vier a medalha de ouro, o competidor é um fracassado. O prazer está todo em vencer, vencer, vencer, sempre, com exclusão de tudo e de todos. Então, o foco é no mais veloz, no mais forte, em ter sido o primeiro, ter inventado o avião e dizer que existe algum grande complô “dos americanos” para “esconder a verdade”. Sim, certamente os 323 milhões de americanos estão se importando muito com uma primazia do Brasil em inventar o avião (embora pareçam não ligar que o automóvel seja francês, o motor de combustão interna, alemão; e a máquina a vapor, escocesa, assim como o trem). Estão decerto muito empenhados em sufocar uma grande vitória do Brasil!

Enfim. De fato, as melhores evidências que tenho mostram que Alberto Santos-Dumont foi o primeiro a decolar com um avião diante de um grande público, em 12 de novembro de 1906. Mas como? O Dia do Aviador não é 23 de outubro? Bem, sim, porque 23/10 foi quando ele decolou com o 14-Bis, mas sem testemunhas do Aeroclube da França para documentarem o fato. Se você vai argumentar que o primeiro voo foi em 23/10, então, pelo mesmo argumento, tem que aceitar que os irmãos Wright decolaram antes, com poucas testemunhas, em 17 de dezembro de 1903 ou, que seja, em diversas ocasiões ao longo de 1904 e 1905 (tiveram tempo e oportunidades de sobra).

Argumenta-se que o 14-Bis foi o primeiro mais-pesado-que-o-ar a decolar por seus próprios meios: saiu do repouso para o voo controlado sem nenhum auxílio externo, somente com a força de seu motor. Isso contrasta com as decolagens dos irmãos Wright, cujo Wright Flyer I requeria um plano inclinado e uma catapulta para dar um empurrãozinho. A verdade é que os irmãos Wright já não precisavam de plano inclinado em 1904, quando seus voos também eram testemunhados. Então, usar o voo de Santos-Dumont de 23/10/1906 como marco não é tão legítimo quanto usar o voo de Wilbur Wright de 13/08/1904 — o que, também sob esse critério, dá precedência aos irmãos Wright.

Ademais, se argumentarmos que a decolagem sem assistência seja essencial para considerarmos a máquina como um avião legítimo, então será preciso desconsiderar alguns aviões (igualmente americanos) como detentores de feitos históricos: o Bell X-1, primeiro avião supersônico, não decolava sòzinho, como não decolava sòzinho o North American X-15, o avião mais veloz do mundo,  propelido por motores de foguete (Mach 6.72). Ambos eram alçados aos ares sob as asas de bombardeiros e, no entanto, nunca vi ninguém alegar que não fossem aviões de verdade. (Antes que alguém se insurja: o Lockheed SR-71 atingia Mach 3.5, o que o fez o JATO mais rápido, mas não o AVIÃO mais rápido. Há uma diferença.)

As maiores virtudes de Santos-Dumont em relação à aviação acabam ignoradas pelos próprios brasileiros, provàvelmente por não serem nenhuma vitória em alguma corrida que tenham em suas cabeças. Despreza-se a verdadeira contribuição do pequeno mineiro da fazenda Cabangu porque não é nada que dê troféu de primeiro colocado. Porém, há que observar: (1) com o Demoiselle, de 1907, foi Santos-Dumont quem criou a configuração atual dos aviões, com leme e profundores na cauda em lugar de na frente, bem como centro de sustentação atrás do centro de massa. Essa configuração tornou os aviões fundamentalmente estáveis e seguros, liberando o piloto de ficar lutando contra os controles para evitar um desastre. (2) Santos-Dumont adotou ailerons no lugar da impraticável opção dos Wrights, que requeria torção da asa para controle de rolamento. Então, foi ele quem primeiro pôs em prática as técnicas básicas de dirigibilidade que têm estado em uso nos últimos 109 anos da aviação. (3) Finalmente: os irmãos Wright queriam inventar u’a máquina que lhes trouxesse sustento pelo licenciamento das patentes, enquanto Santos-Dumont liberou os planos do Demoiselle para quem quisesse contruir seu próprio exemplar, de graça. Não há nenhum mal em querer ganhar dinheiro com sua invenção (ao contrário: esse é um dos motores do avanço tecnológico), mas o brasileiro, que nascera em família rica de cafeicultores, tinha os sonhos mais nobres de que todo homem, ainda que destituído de posses, pudesse usufruir das maravilhas do voo sem restrições; que cada cidadão do mundo pudesse conhecer a sensação incomparável de se levantar nos ares. Pretendia que o avião fosse uma ferramenta de integração dos povos (em contraste com os Wrights, que viam nas forças armadas seu grande cliente). Dessa virtude de altruísmo do pioneiro os brasileiros difìcilmente vêm a aprender na escola, apesar de ser mais importante para a História da aviação do que a tola disputa de saber quem chegou na frente para cortar a fita.

A Exposição de Motivos, as fontes primárias e o Carnaval

Veja só como são as coisas. Vou agora ensinar a você como se pesquisa.

Estava eu aqui, numa segunda-feira de Carnaval, estudando Direito penal (sim, sim). Prosseguindo naquele meu projeto de ler toda a legislação relevante, um artigo por dia, eu estava lendo a Exposição de Motivos da lei 7209 de 1984 (que trouxe a vigente Parte Geral do Código Penal).

Eu estava lendo a Exposição de Motivos conforme consta em um exemplar impresso em janeiro de 2000 e publicado pela editora Revista dos Tribunais com ISBN-13 978-85-203-1834-8. Na EM, dizia o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de participar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Vamos abstrair desse pronome oblíquo “lhe” depois de vírgula, que a norma culta proíbe. O item 12 está aludindo à dicotomia entre crimes comissivos e crimes omissivos. No primeiro conjunto estão aqueles que a parte (o autor do crime) comete ao praticar um ato proibido. A ação é chamada de “positiva” não por ser boa (não é), mas por ser algo posto, afirmado no mundo por quem comete o crime. No segundo conjunto estão os crimes onde o autor deixa de praticar um ato que tem o dever de praticar; o crime está na omissão, que é indevida: é o que o texto chama de “ação negativa”.

Mas aí estranhei a redação desse item 12. Veja: perto do fim, ele diz “dever de participar o ato”. Ora, “participar o ato”, onde “participar” é transitivo direto, significa “relatar o ato”; significa, talvez, noticiar o ato a uma autoridade policial. Se o Autor do texto quisesse dar ao verbo o significado de “exercer o ato”, ele diria “participar Do ato”, onde “participar” é transitivo INdireto.

Portanto, a redação é um tanto inesperada. Por que alguém teria o dever de participar o ato, de relatar o ato à polícia? Apesar de a Exposição de Motivos (e o anteprojeto da lei 7209) datar de 1983, quando o Brasil estava sob uma ditadura militar, não faria sentido exigir do cidadão o dever de participar um crime à polícia, pois o próprio Código de Processo Penal, então em vigor (e nascido ao tempo de uma ditadura até pior sob esse aspecto, a de Getúlio Vargas, em 1941), explicitamente dizia e diz que o cidadão NÃO tem o dever de coibir crimes.

Desconfiei de um erro de transcrição. Imaginei que, no documento original submetido pelo então Ministro Abi-Ackel, subscritor da Exposição de Motivos, a redação tivesse um D, omitido pela editora em 2000: “participar Do ato”. Esse seria um erro compreensível, a mera supressão de uma letra na transcrição, embora com o efeito danoso de inverter o sentido do texto.

Fui investigar. Embora o trâmite legislativo tenha ocorrido em 1983 e 1984, supus que o website da Câmara dos Deputados contivesse a informação que eu buscava. Saiba meu Leitor: o saite da Câmara é muito bom para se ver, não somente a sucessão de eventos do trâmite legislativo, mas também os documentos produzidos ao longo dele, a respeito de todas as leis após 2001. Para leis anteriores, isto é espantoso, mas também se encontra muito material. Então comecei a buscar o que havia em relação à lei 7209.

Para minha alegria, encontrei um PDF de 669 páginas que é a digitalização de todo o dossier do trâmite legislativo, montado na época. Lá se veem as capas, em papel, com manuscritos diversos; lá se veem inúmeros documentos datilografados, com rabiscos manuscritos e carimbos. Eu procurava, e encontrei, a Exposição de Motivos original, datilografada, assinada pelo ministro, com carimbos de numeração de página, datas postas a mão e furos para encadernação.

Veja só o que descobri. No documento original, o documento que valeu mesmo, diz o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de praticar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Você reparou? PRATICAR o ato. Aí o texto faz muito mais sentido, já que estamos falando de crimes comissivos (“ação positiva”). E é ESSE o texto da Exposição de Motivos — não o texto, supostamente transcrito, que traz meu exemplar da RT. A lição que fica é que sempre devemos nos referir às fontes primárias, porque erros de transcrição podem acontecer. É por isso que o saite do Planalto sempre diz, ao fim de toda transcrição de ato normativo, que “este texto não substitui aquele publicado no Diário Oficial no dia tal”. Claro! Pois a redação oficial é a que está no Diário; em caso de conflito, é ela que vale, e não venha alguém depois alegar que foi induzido em erro pelo Planalto, cujos servidores fizeram inserir essa advertência.

Essa lição os historiadores conhecem bem e por isso tantos procuram a Torre do Tombo, em Portugal, para ver o que é exatamente que dizia o documento original lá do tempo do Pero Vaz de Caminha. O que a gente às vezes não lembra é que, estranhando o texto supostamente transcrito, a gente tem que fazer a mesma coisa com a legislação, com todos os instrumentos que a tecnologia hoje nos dá. Quem diria! Sem ter que ir a Brasília, aqui estou eu, quase 33 anos depois, tendo acesso ao documento original produzido, para entender o conteúdo e o propósito da lei ainda em vigor. A gente às vezes não dá valor a isso, mas é certo que, hoje em dia, os Poderes da República praticam muito mais transparência, e você tem acesso a muito mais informação de seus atos, do que no tempo mesmo em que foram praticados. Em particular, recomendo os websites da Câmara e do Senado para quem quiser pesquisar o conteúdo correto ou o propósito teleológico da maior parte da legislação emitida pela União.

Este caso também ilustra que, antes de qualquer discussão, sempre fazemos bem em irmos à fonte original. Imagine todo o debate que poderia haver — e que se evita — sobre o significado de “participar” quando se vê que não era esse o verbo realmente usado! Ainda mais quando penalistas adoram discutir o tema da participação (co-autoria, partícipes do crime etc.).

E era isso que eu tinha para contar sobre como foi meu Carnaval este ano.

Resenha: Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1

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Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1 (May 98) é o capítulo Dezesseis do arco de histórias Cataclysm, onde um terremoto destrói Gotham City. Curiosamente, foi publicado depois do capítulo intitulado “Conclusão” (que saiu em Robin #53). Mas isso não faz diferença, porque a história é bastante autônoma e poderia entrar em qualquer ordem.

Tales of Madness é a única história de Cataclysm a mostrar o que aconteceu ao Asilo Arkham durante o terremoto. Ao detectar o sismo, um dispositivo automático de segurança fecha o acesso à área das celas, isolando os prisioneiros de seus captores. Entretanto, o Crocodilo consegue dominar os três guardas que estavam em sua cela na hora do terremoto e, na sequência, liberta o Coringa, o Espantalho, o Charada e duas internas introduzidas nesta história, Samantha e Vox.

Assim, invertem-se os papéis: os seis loucos matam dois guardas e prendem o terceiro, a quem passam a ameaçar. Isolados do resto do mundo pelo tempo que levar a chegada do resgate, decidem aterrorizar sua vítima. Inicia-se então um torneio onde ele será o árbitro e onde cada um deverá contar-lhe uma história. Será vencedor quem contar a história mais assustadora, ganhando o direito de matá-lo.  Com isso, introduz-se uma estrutura narrativa que vem dando certo desde o Decamerão, de Boccaccio, notòriamente nos Contos de Cantuária e, mais recentemente, em Sandman: Worlds’ End.

O que mais chamou minha atenção em Tales of Madness foi a arte: o desenhista Dave Taylor conseguiu o incrível feito de variar de estilo de uma para outra história a tal ponto que me fez duvidar de que fosse o Autor de todos os desenhos. Compare seus traços —

Na história principal (CLIQUE EM TODAS AS IMAGENS PARA AUMENTÁ-LAS):

Página 7

Na história de Vox (onde os desenhos parecem ter sido feitos por Mike Dringenberg, de The Sandman):

Página 15

Na história do Charada (onde os desenhos são como os de Uderzo e o Charada parece o Asterix):

Página 18

Na história do Crocodilo:

Página 21

Na história de Samantha (onde as linhas lembram muito as capas de Marvel 1602, de Scott McKowen):

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Na história do Espantalho (que nos remete ao simplório início dos anos 60):

BAAToM_1_p28Não sòmente isso, mas os desenhos da história principal são ricos em belíssimos e expressivos detalhes e contrastes. A necessidade de apreciá-los retardou minha leitura. Um exemplo é a impressionante escadaria de mármore na página 7, acima; outros são as páginas 25 e 26:

BAAToM_1_p25Página 26

Tales of Madness não é nenhuma especial contribuição ao Universo DC. É uma história bem independente e quase atemporal, que poderia encaixar-se em qualquer um de vários pontos da cronologia, na qual não me parece influir. De fato, não compromete nem é comprometida por outros eventos, e o terremoto aparece apenas como pretexto: sem nenhum prejuízo para a narrativa, poderia ser substituído por qualquer outro acontecimento. Seu principal valor é como banquete para os olhos, servindo como um mostruário da versatilidade de Dave Taylor.

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O terror que deduzimos

Neste Mês das Crianças (sez who?), entrei duas vezes em uma famosa loja de varejo desta cidade. Em ambas as vezes, lá estava aquele tenebroso disco de música alegadamente infantil a tocar em todas as caixas de som da loja. Um coro de crianças entoava famosas canções de roda, acompanhado por repetitivos baixos sintéticos, teclados eletrônicos e samplers. A “música” era tão assustadora como um palhaço de filme de terror ou a pobre vítima infantil de Cemitério Maldito.

Estou convicto de que todas as faixas do disco foram gravadas enquanto um guarda mantinha seu revólver apontado para as cabeças das crianças. É a única forma de explicar o que eu ouvia.

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Se você é fã de exploração espacial, vai adorar Perdido em Marte

ATÉ QUE ENFIM! UM FILME DECENTE PRA NERDS!

Olha só: esta resenha não é spoiler-free. Eu já tinha uma vaga ideia do que acontecia no filme, então farei o mesmo com você se não viu, e talvez seja pior, então esteja avisado.

Perdido em Marte não tem romancinho. Isto aqui é Ridley Scott! Por acaso Alien tem romancinho? Blade Runner tem romancinho? Prometheus tem romancinho? Então! Se você vai ver Perdido em Marte esperando romancinho, pode tirar o foguetinho de órbita (e não o cavalinho da chuva, porque em Marte não chove). Não tem namoradinha chorosa torcendo pela volta do herói. Nada de “o amor é a única grandeza que transcende as cinco dimensões”. Nada disso! Onde Interestelar errou, Perdido em Marte mostra a Ciência como salvação.

Acima de tudo, o filme tem esta mensagem, que há anos espero ver: a solução está na CIÊNCIA. Na persistência do cientista que poderia escolher sentar e chorar sua sorte até morrer, mas prefere usar o cérebro, usar seu conhecimento, anos de estudo e dedicação, pôr tudo isso à máxima prova e salvar a própria vida. Você vê que Watney sobrevive com base em conhecimento básico sobre o crescimento de plantas, sobre Química, sobre fontes de energia. Minha frase favorita no filme é a mesma do grande Astrônomo Neil deGrasse Tyson: “I’m going to have to science the shit out of this”.

Reparem que ele usa instrumentos básicos, como COMPASSO, hackeia o sistema operacional não-Windows direto em linguagem de máquina, e aproveita o combustível não usado para fabricar água, tudo isso porque sabe os fundamentos. Quando precisa de um método de comunicação simples (por causa da pouca largura de banda), ele recorre a código ASCII com conversão hexadecimal. Quando os astronautas enterram a fonte de radioatividade, ele não se torna supersticioso “oh, plutônio é perigoso, não quero chegar nem perto, é proibido mexer porque o dogma da NASA me proibiu”, não! Ele sabe POR QUE é perigoso, ele pondera o risco, ele escolhe recuperar o plutônio.

(Aliás: no meio de tempestades e ventos que derrubam o módulo e arrancam a antena, a bandeirinha amarela de alerta do plutônio ficou em pé direitinho? Tem que explicar melhor isso aí.)

Mas não é só conhecimento científico básico. Fica evidente que Watney, como qualquer astronauta, sabe de cabeça inúmeros detalhes da missão, detalhes que ele decorou de tanto rever, treinar, rever, treinar, rever, treinar e rever de novo. Ele sabe as localizações do Pathfinder e da Ares 4 embora não fosse necessário saber isso para sua missão, e por quê? Porque é um autodidata, um entusiasta, que deve ter devorado tudo que já foi escrito sobre as missões passadas, e vive e respira isso porque é isso que adora. Ele se salvou porque é um nerd! Também se salvou porque, como todo astronauta, ele não entra em pânico: foi treinado para sobreviver, para usar seu cérebro da melhor forma possível, recorrendo a milênios de aprendizado da raça humana e concertando uma interdisciplinaridade que mostra capacidade de planejar e executar. Por exemplo: quando se vê sòzinho, qual é a primeira medida? Primeiros socorros (alô, treinamento). Qual é a segunda? Avaliar a situação, avaliar os requisitos de nutrição, contar a comida, como fazê-la durar, em quanto tempo terá que ter uma plantação, de qual tamanho. Contas, planejamento, e o cuidado de não desperdiçar nenhum recurso. Repare que, depois que ele vai embora sem intenção de voltar, nem por isso destrói qualquer coisa, e ainda fecha a comporta pressurizada atrás de si. Podia ter que voltar, né! Alguém ainda pode precisar no futuro!

É claro que, sendo este o mesmo Ridley Scott que fez Alien e Prometheus, não poderia faltar a autocirurgia a sangue frio. Na extremidade oposta do filme, também vemos o resultado de dois anos de racionamento, uma gravidade menor do que a da Terra e uma dieta paupérrima em proteína (já que Watney só plantou batatas, não vacas): seja por CGI, seja por esforço de Matt Damon, Watney está magro feito Christian Bale em O Operário.

O filme também faz boa homenagem a toda a História do programa espacial. Num momento de humor (para nerds), “nada de ruim adveio de se queimar hidrogênio”. Você logo pensa em todos os acidentes desde o Hindenburg (embora não tenha sido o hidrogênio que causou o desastre) e lembra qual é o principal combustível dos foguetes… No teto do JPL, um modelo da cápsula Mercury. No gabinete do diretor da NASA, um dos mais célebres quadros de Chesley Bonestell, Saturno visto de Titã.

E, com tanta coisa para se gostar, com todo o ritmo que não pára de nos trazer ideias o filme inteiro e não dá descanso, com tantas paisagens marcianas belíssimas que eu não sei de onde tiraram, a cena que mais me emocionou começa quando Watney encontra o pára-quedas da Pathfinder — porque aí eu sabia o que estava para vir — e tem seu clímax quando ele começa a desenterrar o Sojourner. Fiquei emocionado porque, no ato, lembrei-me deste melancólico quadrinho e pensei “tantos anos depois de morto, o robozinho vai servir novamente”. Certamente é tudo de que ele gostaria.

Eu li no Tuíter uma galera achando o filme “chato”. Claro! É gente que não é fã de Ciência, que não entendeu nada do que se passava, que nada sabe de Química, ou de Botânica, ou do frio ou da atmosfera de Marte, ou de Física, ou do retardo ou da dificuldade de comunicação, ou da tragédia que é acelerar uma nave para o estilingue em volta de Marte sem ter como freá-la justo na hora do resgate. O filme não tem explosões (OK, tem quatro que eu me lembre, e três são intencionais), não tem correria, não tem vilão maligno, não tem tiros, não tem violência, então, para eles, “não acontece nada, o filme é parado e chato”. Para quem aprecia Ciência, o filme é movimentado, com uma sucessão de problemas e soluções que atiça a curiosidade. Como não é seu blockbuster habitual para deixar o cérebro na porta do cinema enquanto come pipoca, algumas pessoas se decepcionarão. Mas é bem feito.

E olha que isso é ainda considerando que o Ridley Scott acelerou o tempo. Você vê meses inteiros sendo pulados, porque nada de novo estaria acontecendo. Você vê a comunicação Watney-NASA parecendo ser em tempo real, embora haja um retardo de vários minutos entre emissão e recepção de cada mensagem. E até nisto o tratamento do filme foi cientìficamente correto: eles enfatizam que há essa demora, e aliás o tempo varia de um momento para outro do filme, porque as órbitas podem aproximar e afastar Terra e Marte.

Você nem pode reclamar que o filme seja tão difícil de entender. Quando Rich Purnell propõe a aceleração no perigeu da Ares III, ele está explicando mecânica orbital básica para quem não é nerd. É claro que seus interlocutores no filme não têm a menor necessidade da simplificação simbólica que ele faz, com grampeador e caneta, porque conhecem toda a Física por trás. Aquilo ali foi para benefício do público. Quer ver outro detalhe que você pode não ter percebido? Mesmo ao meio-dia, Marte tem dias mais escuros do que os da Terra. Claro: está 50% mais distante do Sol.

Mesmo assim, eles não ficam martelando Ciência tanto quanto poderiam. Por exemplo: não ficaram explicando por que os astronautas da Ares III Hermes flutuam em “gravidade zero” quando estão no eixo principal da nave nem como conseguem simular gravidade quando ocupam a roda. Tampouco o filme explicou por que eles não precisam descer manualmente os degraus do eixo para a roda, bastando deixar que a “força centrífuga” (com todas as aspas) faça o trabalho. Foi até engraçado no cinema: a Senhora Atoz começou a me perguntar como eles podiam ficar em pé ou sentados (já que é “gravidade zero”), mas aí reparou na rotação da roda e se calou no meio da frase.

É claro que o filme tem momentos previsíveis. Quando a sonda com suprimentos é lançada, o pessoal começa a comemorar, mas, na vida real, a comemoração costuma vir DEPOIS que a queima acabou. Quem acompanha os lançamentos na vida real, desde o tempo do Sputnik I, sabe que MUITA coisa pode dar errado e frequentemente dá. Quantos foguetes explodem na plataforma? Quantos vídeos já não vimos de foguetes saindo do rumo e sendo destruídos remotamente? Por causa de um ridículo anel de vedação congelado, a Challenger se desfez com todomundo dentro! Então, à medida em que vi o foguete subindo, fiquei pensando “e se explodisse agora? Bem plausível explodir agora”. A Senhora Atoz comentou depois do filme: “óbvio que ia explodir. Tem que ter o drama, estava fácil demais, estava tudo dando certo. Tem que ter um evento que limite as alternativas e faça a tripulação ter que dar a volta”.

Da mesma forma, para quem pega as letras das músicas, a trilha sonora faz todo o sentido. I Will Survive é bem óbvia, mas a gente também ouve Hot Stuff diante do isótopo radioativo (no jargão de quem lida com radioatividade, “quente” significa “emissor de radiação”) e “there’s a starman waiting in the stars” quando a Ares III Hermes completa a manobra para retornar a Marte. A gente ouve Waterloo, do ABBA (na ideia de que ele não consegue desistir e afinal voltará para a Terra), logo depois de uma cena que mostra um vinil da banda.

Naturalmente, apesar de todos os acertos, ainda tenho algumas perguntas.

1) Se o nerd Rich Purnell (aliás bem interpretado: o sujeito tem aquele olhar distante do nerd) precisou de um supercomputador para conferir as contas (ele, que é especialista nisso), como é que outros apenas dizem que “já conferiram” e, a bordo da Ares III Hermes, a tripulante afirma, na maior simplicidade, que já as conferiu? Ainda por cima, ela teve que fazer isso no braço e com muito menos dados.

2) Se o MAV da Ares 4 está há meses em pèzinho esperando seus usuários, como é que tem tão pouca poeira e seus sistemas estão funcionando tão confiàvelmente?

3) Aliás, se Marte tem tempestades tão terríveis, como é que aquele MAV ainda está em pé? (Este caso admite suspensão da descrença: no início do filme, a tripulação comenta que uma tempestade do nível daquela é de fato incomum. Então é questão de probabilidade.)

4) Será que foi agradável voltar para a Terra (266 dias aproximadamente) em uma nave que acabou de perder sua atmosfera exceto na ponte de comando? Que tal ver seu espaço confinado ser sùbitamente reduzido a um confinamento ainda pior, sem acesso ao ginásio, aos laboratórios, ao alojamento ou à cozinha? (Apideite em 10/10/2015: Carlos Cardoso respondeu-me essa de modo elegante, fazendo-me ver que naves como a Hermes levariam ar para se pressurizarem mais de uma vez. Eu deveria ter considerado esse ponto.)

Infelizmente, o filme também tem alguns estereótipos. Um é que Purnell, sendo um nerd, é necessàriamente estabanado, tropeça e cai. Outro é que o único astronauta religioso é latino. O terceiro (talvez correto) é que os chineses desenvolvem sua tecnologia em segredo.

E, por falar em religião, taí dois detalhes muito oportunos em um filme que enaltece a Ciência e a persistência: (1) Nada de fé para salvar o astronauta perdido. O que o traz de volta é conhecimento, planejamento, criatividade e trabalho duro, sem NENHUM espaço para orações. Ao contrário: o único crucifixo de Marte é usado como combustível por um sobrevivente que tem que usar todos os recursos à disposição. (2) Além de Martinez, só um personagem reconhecidamente tem uma crença, mas ele não privilegia nenhum deus, acreditando em vários.

Aliás só vi os dois primeiros trailers agora. Rapaz, como manipulam a audiência! Os trailers “mostram” Watney chorando supostamente diante da esposa e do filho (que eram de outro tripulante e estavam em outra cena), mostram uma explosão na Ares III Hermes como se fosse desastrosa (quando era a descompressão de frenagem no fim do filme), mostram a comandante falando em motim como se fosse algo ruim… e contêm algumas tomadas que não entraram no filme (p.ex. o diretor da NASA contemplativo em uma varanda e depois hesitando em responder se Watney pode estar vivo).

Antes que eu termine, cabe um parabéns a Sean Bean: depois de participar do Conselho de Elrond pela segunda vez, neste filme ele não morre! (Mas sua carreira sim.) Outro parabéns a Matt Damon: depois da trilogia Bourne, de Resgate do Soldado Ryan e de Interestelar, de novo ele deu trabalho a um monte de gente para trazê-lo de volta, sendo que, neste filme, diferente do anterior, ele não ficou maluco no espaço.

Por último, as legendas cometeram dois erros (o que está até bom considerando o histórico a que me acostumei):

1) No original, Watney fala que “foi assim que o Laboratório de Propulsão a Jato foi inventado”. Depois disso, várias vezes ao longo do filme, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, “na sigla em inglês” como dizem nossos periódicos) aparece com o nome todinho. Mesmo assim, o tradutor escreveu lá: “foi assim que a propulsão a jato foi inventada”. Não!

2) O nome da chinesa é Tao. O autocorretor da legenda escreveu “Tão”. Não!

E por hoje é isso. Se eu me lembrar de mais coisa, pode deixar que eu incremento este texto.

Apideite do apedeuta em 10/10/2015:

À medida em que os dias passaram, realmente eu fui me lembrando ou raciocinando sobre vários pontos do filme. Você vai encontrar vários websites apontando os mesmos detalhes que eu, mas tudo que está aqui embaixo são percepções que tive sem a ajuda deles.

Você reparou que o filme nunca diz em que ano se passa? Isso foi sábio, porque assim ele não fica datado cedo demais. Um tópico de discussão do Reddit indica 2035, e este video promocional com Neil Tyson, gravado na época da decolagem, mostra que necessàriamente o filme se passa após 2029.

A atmosfera de Marte é muito rarefeita: 0,6% da pressão atmosférica da Terra. Portanto, o vento de Marte seria absolutamente incapaz de provocar a tempestade catastrófica que vimos no começo do filme e certamente incapaz de fazer tombar o MAV. É claro que, com isso, não haveria a premissa que levou ao abandono de Watney. Considerando que tudo mais no filme está bàsicamente correto, podemos perdoar essa falha intencional na medida em que foi um componente necessário da história. Neil Tyson certamente a perdoou.

Pelo mesmo argumento da atmosfera rarefeita, não teríamos visto a cobertura plástica a oscilar no vento depois que Watney a pôs no lugar da comporta explodida. Com a pressurização interna do habitat, a cobertura teria ficado abaulada sem flutuações, e o vento não lhe faria nem cosquinha. Na cena em que os nervos dele estão à flor da pele durante outra tempestade, ele não teria o que temer.

Já um problema a contornar — e que o filme essencialmente ignorou — é que, justamente em razão da atmosfera rarefeita, Watney não estava protegido contra a radiação solar. Na vida real, ele teria passado mais de um ano sendo duramente castigado por raios cósmicos e por todo tipo de comprimento de onda nocivo. Aliás, não sòmente ele, senão toda a tripulação da Ares III. Conforme adianta Phil Plait, se o filme realmente fosse realista, todomundo ali teria morrido de câncer depois de um tempo.

Marte é bàsicamente vermelho visto de longe, mas de perto as cores variam mais; há tons de verde, e o filme aborda isso. Os frequentes redemoinhos aparecem ao fundo toda hora, acrescendo realismo, porque o planeta é assim mesmo. Infelizmente, o pôr-do-sol de Marte é azulado, mas o filme o mostrou vermelho como os da Terra.

Você reparou que os objetos em Marte caem devagar? Quando a comporta de ar explode e capota, e quando Watney descarta componentes do MAV da Ares 4, tudo cai devagar. Isso não é coincidência. De início eu até pensei em câmera lenta como estilo do diretor, mas aí lembrei que a gravidade de Marte é 38% a da Terra. O filme acertou até nisso!

OK, esta percepção não foi minha, mas de Neil Tyson: a prova de que o filme é ficção é que todos os seus tomadores de decisão têm conhecimento científico básico.

No fim, quando Watney vai incerimoniosamente desmontando o MAV e despejando seus componentes sobre o solo de Marte, fiquei pensando: cada um daqueles parafusos, assentos e cabos custou algumas centenas de milhares de dólares para fazer e outros tantos milhões para levar até a superfície de Marte… e agora ele se desfaz de tudo sem o menor pudor.

Aliás, quando um dos astronautas está indo lá pra fora da Hermes, sua colega o adverte para tomar cuidado porque, “in space…”, e não completa a frase. Fãs de scifi sabem que a outra metade da frase seria o lema do maior sucesso de Ridley Scott: “… no one can hear you scream”.

Ao montar a bomba, um dos astronautas conecta seu cabo de ativação a uma saída na parede junto à comporta. Você reparou nas portas USB bem ao lado dessa conexão? A gente não mexe naquilo que está funcionando; no ano 2035 ainda haverá portas USB.

Perdido em Marte não é um filme de ação nem tem um vilão, algo raríssimo nos blockbusters de Hollywood. Você reparou na contagem de corpos deste filme? ZERO! Já viu ALGUM filme de scifi conseguir esse feito? Geralmente, algum herói sacrifica sua vida para salvar os demais — não desta vez!

Outros vídeos promocionais gravados durante a preparação da missão Ares III:

Finalmente, aponto algumas resenhas que encontrei por aí:

Apideite do apedeuta em 11/10/2015:

Tem um ponto que eu pensei assim que vi no filme, mas depois me esqueci de comentar. Quando o Diretor Kapoor intui o percurso que Watney está fazendo, ele corre até a cantina para usar o mapa de Marte que está pendurado na parede. Entendi a necessidade dramática de mostrar a empolgação e as prioridades de um nerd, mas será que ele mesmo não teria, em seu computador, um mapa de Marte muito melhor do que o da cantina? Pense bem. Se o ofício dele é esse, com certeza ele estaria cercado de mapas mais recentes e mais precisos.

Outra que eu pensei na hora e que foi abordada em uma das postagens que referi acima: quando a comandante Lewis vai lá fora puxar Watney para dentro, o arnês dá voltas em torno dos dois. Quando o Dr. Beck começa a dar tração no arnês, o certo é que, primeiro, o arnês fique teso, reto entre ele e o par que flutua lá fora, para só depois começar a puxá-los. Entretanto, o filme errou neste ponto: o arnês começa a puxá-los enquanto ainda está em um formato frouxo, solto em volta da dupla.

Se eu não me lembrar de mais nada, este é o último ponto: considerando que o filme não tem vilão e que Lewis está do mesmo lado do protagonista, creio que tenha sido inevitável que a Hermes tivesse que ir novamente a Marte para buscar Watney. Por quê? Porque, Lewis não sendo uma vilã, ela terá sentido um remorso terrível por deixá-lo vivo no planeta. Na estrutura narrativa tradicional, desse ponto em diante ela precisa de uma oportunidade de se redimir diante de si mesma, ainda que ninguém a esteja culpando. Então, ela precisa pessoalmente resolver isso: na sua óptica, foi ela quem fez mal ao colega (ao dar a ordem de partida sem ele), então ela é quem deve reparar esse mal.

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My inevitable review of Star Trek: Renegades

After nearly two years of nail biting, the pilot episode of Star Trek: Renegades is here. This professional-quality fan production has been anxiously awaited by all of us enthusiasts who have supported great works such as Star Trek: Phase II, Star Trek Continues, Starship Farragut and Axanar, to name only those of higher production values (not that I do not appreciate the likes of other fan series, but the list is too long to fit here).

As always, it feels somewhat awkward to review something that is already covered in depth elsewhere on the Web. Also, it is a bit unfair that we sit back and comment on other people’s work as if we were entitled to a quality set by our own standards when it is not us sweating to make a good film. And Renegades more than matches the criteria by which so-called “official” Star Trek works are judged, canonical or otherwise (Enterprise and J.J., I am looking at you).

Still, some aspects of Star Trek: Renegades came to mind on first watching.

If you look at the Icarus with more than a casual glance, you will see that it has sagital symmetry. That is, the ship’s bottom mirrors the ship’s top along a plane that runs through the waistline. There are two shuttlebays, the nacelles are located right on the symmetry plane and there are four of them. It is thus only a matter of time before upcoming episodes show us the vessel in a classical split (aka “multivector assault mode”) as an improvement on the preceding Enterprise-D’s and Prometheus‘s abilities.

Also, the Icarus‘s design is reminiscent of a continuous line of aggressive-looking ships that started way back in 1991, in Rick Sternbach and Michael Okuda’s ST:TNG Technical Manual. Along the Defiant, the Equinox and the Prometheus, ships have become smaller in size, more angular, more detailed and more heavily armed in relation to their size. The Icarus‘s hull and bridge shape continue the Voyager‘s precedent, and, at the ship’s very front, those two prongs look like they have been borrowed from the Klingon Vor’cha class. In particular, the ship’s overall front and torpedo tubes seem to (at last) be the realization of part of Sternbach’s design for a small fighting ship that was detailed in the ST:DS9 Technical Manual.

None of this should be any wonder, of course, since Sternbach and John Eaves did ship design for Renegades. But will someone please remind me of where I have seen the backs of the Klingon ships’ nacelles before? I am sure I have seen that, but I cannot seem to remember where.

Exploring the Icarus‘s array of technical marvels, we are introduced to a novel communications device that conveys tact as much as realistic image and sound. At first this may seem very nifty and impressive, but one has to bear in mind the advances that Voyager promoted with the EMH and its fake matter. With holodeck technology, it is very easy to imagine a puppet controlled to mimic a real person’s remote behavior, as previewed in Worf and Quark’s bat’leth handling in “Looking for par’Mach in All the Wrong Places” and by today’s performance capture as amply demonstrated by Andy Sirkis (of Gollum fame). Even if it is only forcefields instead of real tangible matter, the holodeck has done this and better in the past. The 3-D imaging in communications was also shown in DS9’s second half (notably in “Doctor Bashir, I Presume” but elsewhere as well; episode names fail me now). Lucien and Zimmermann’s communications escapades would naturally strain today’s bandwidth possibilities (especially if they take them one step beyond as hinted, nudge nudge wink wink). However, if we look back to the Internet’s achievements in this respect since 1996 and extrapolate them to the late 2380s, we may even consider Renegades to aim too low.

Last but not least regarding starships, the “Derelict Ship” (Tuvok’s infiltrator that meets the Icarus midflight) also reminds me of previous ships, but again I cannot quite identify which. Is it the scoutship from Insurrection with the addition of a Bird of Prey’s head? Will someone point it out to me? Thank you in advance.

Moving onwards to the cast, I was very much aware of Walter Koenig and Tim Russ making their comebacks as Chekov and Tuvok, but I intentionally remained ignorant of other cast members and rôles. It was a pleasure to see eyecandy Adrienne Wilkinson (from Star Trek Continues‘s “The White Iris”). My non-Brazilian readers would never know, but she looks like a clone of Brazilian actress Christiane Torloni when she was younger.

Now, Sean Young came as a total surprise to me. I did not realize it was she, though the face seemed familiar. When I saw the credits, my only reaction was that I had lived to see the day when Young would be in Star Trek. She looks beautiful (possibly more so than in the raving 80s) but it is a striking contrast to her early rôles that now she plays a more homely character, kind of “that aunt of yours whose job it is to prevent a space powderkeg from blowing up”. I wonder if it was intentional to have Dr. Lucien repeatedly put on and remove her glasses, reminding you that (1) Star Trek never had any after that infamous transporter chief’s from “The Cage” and Kirk’s Retinax 5 surrogate and (2) that is how Sean Young manages to focus on objects around her these days, so you live with it (not that I am complaining).

Regarding the plot twist on Fixer’s nature, it is a natural continuation of TNG’s Moriarty, the EMH’s achievements and Dr. Zimmermann’s research that an entire person’s brain pattern could be downloaded to the portable emitter, so this does not seem far-fetched, and was in fact a welcome surprise. Of course, the concept opens up new ethical frontiers, as a person could be repeatedly killed and brought back to life (of sorts) only to suit the convenience of those who would not release him from this mortal coil. I assume that, one day, Fixer will realize that he does not age and that he is able to rematerialize where he was not supposed to be able to, much like a Highlander when he finds out that death eludes him. Therefore it is also only a matter of time before an upcoming episode forces a guilt-stricken Lucien to explain to him what he really is made of now.

Speaking of which, the circle will then be complete. In a little-known sci-fi production from 1982, Sean Young played a character who had been assembled from parts made in a laboratory. The character was not a real human but thought she was, until someone came along who revealed to her where her artificial memories came from: the brain pattern of a deceased person who she replaced and gave continuation to. Now it will be her turn to reveal this condition to an artificial person of her own making…

Other notable cast members include the comeback of Icheb, from Star Trek: Voyager, and John Carrigan (Kargh from Star Trek: Phase II) as both a Klingon captain and a Starfleet officer.

Going back to the regular Starfleet crew, another good surprise was to see Captain Parker Lewis Alvarez played by Corin Nemec, whose face I had not seen on a screen since 1994 (yes, I know — I have not yet seen either The Stand or — shame on me — Stargate SG-1). Considering his persistence, his apparent backstory with Lexxa, the blood in his eyes as he battled wits and brawn with the Icarus, and his evident honest-to-goodness, died-in-the-wool loyalty to Starfleet’s mandate, it is obvious that we will see a lot of his chasing the Icarus around (as a matter of personal pride too) until a later episode where he will be forced to a truce and an alliance with the Renegades for the common good against betrayals from up high. Commissioner Gordon would be proud.

Still in Alvarez’s turf, the USS Archer disappoints me a little. In contrast to the Icarus and to the more recent designs from Star Trek: Voyager, the Archer is overly simple in its shape and her saucer is a throwback to the TNG era, with a lack of detailing that does not do justice to Renegades. It is almost as if this simplicity was made to reflect Starfleet’s naïveté before the dark forces manipulating it; as if the ship’s very design was made excessively simple to depict the simplicity of its officers’ mindset. What troubles me, though, is that the design seems ripped off from Bernd Schneider’s original projects from the EAS Fleet Yards or from the Advanced Starship Design Bureau. I cannot quite put my finger on which design, but it would be something like the Andromeda class or maybe a cross between that and some other class from therein.

I was going to comment that Renegades‘s makeup left something to be desired, what with their Nausicaan, Andorian and Syphonians, and that it looked amateurish and monochromatic. Before you agree with this hasty evaluation, though, may I remind you that I saw the episode in 960p resolution (was unable to download it in 1080p). This is twice the definition that Star Trek worked with for many years (576i). Now, if we looked at Renegades with the same definition as those TOS, TNG, DS9 and Voyager episodes, I am sure that we would find its makeup to be more detailed than what the artists achieved in the long-running canon productions. Therefore I withdraw my comment.

I had four gripes about the story. One is already covered by Bernd Schneider’s review, which is yet another villain intent on destroying the Federation in a fit of vengeance, as Shinzon and Nero before him. The other is the contrived dialogue between the Betazoid Ronara and former Borg Icheb. You would assume these two characters to have known each other for a while, since they have been crewmates for who knows how long. Therefore it makes little sense that they show the viewer their abilities in an angry bout of exposition as if they were making their acquaintances there and then. The whole dialogue stands apart from the rest of the episode and has no real relation to any scene or take before of after it. I understand the need to bring the explanations to the viewer in as short a time as possible, but maybe the script could have used some polishing there; for example if they disclosed their abilities to someone else.

The third minor misgiving I have is the casual fashion in which transporters are overused. When the transporter was invented by Gene Roddenberry back in 1964, it was a clever means to speed up screen time by avoiding the need to show the Enterprise landing on planets. Over the course of TOS, even though the transporter was taken for granted as a plot device, it was never brushed aside with a shrug. This was a technology to be treated with respect, which Bones McCoy grumbled about and which could still subject people to accidents of varying degrees of tragedy (“The Enemy Within”, “Mirror, Mirror”, ST:TMP). Then along came TNG, where the transporter became an easy escape to all sorts of trouble (“Up the Long Ladder”, “Rascals”), and the Abramsverse, where it made starships obsolete overnight. Now Renegades uses the transporters over distances of lightyears, and characters beam here and there on a whim to the point of the viewer nearly losing track. If you use it too much, you risk making your stories pointless or, at the very least, doing away with suspense.

(Although, as a fan, I keep paying attention to the clever ways to cheapen production where the transport is involved. When Lexxa beams over into the Icarus, you never see the effect, thereby saving on the CGI, but you hear the noise, so no explanation is needed. Star Trek has been playing this trick since “Where No Man Has Gone Before” and it never wears out.)

The final plot hole to deserve comment keeps popping up in Star Trek and would not need any additional beating if it were not so thrown in our faces: will the next crew please not leave the ship and stay all together waiting to be shot at and captured wholesale? Am I asking for too much? At least this time they took advice from the ill-fated crew of Ridley Scott’s Prometheus and sent some floating probes ahead (and we wonder why they have not done so before, seeing as that floating holocameras existed as far back as the christening of the Enterprise-B).

Last but not least, I disagree with Schneider’s view that there were not enough explanations of the episode’s backstory. Granted, this is a pilot and, as such, needs loads of exposition so the finished product makes sense to the viewer, who is thankful not to feel lost. However, pilots are also meant to tease the viewer’s curiosity. As stories progress, I assume that the backstories will be revealed, showing us why Lexxa is being chased since her childhood, what she did to land her into an Orion prison, what Lucien’s accident was that disgraced her, and what prickles me the most: how Starfleet’s advanced battlebrat Icarus came to be stolen by a bunch of Renegades!

Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Minha resenha bilíngue de JLA: Rock of Ages

I just finished reading JLA: Rock of Ages. Before I bought it, I read many reviews at Amazon and elsewhere saying that it was confusing and that a lot of it did not make sense. But they also said that the story dealt with timetravel. And I knew that it had been written by Grant Morrison, who I consider a genius. Being a scifi fan with a penchant for timetravel stories, I deduced that those readers had not been intelligent enough to follow Morrison’s wit. I thought that his work probably had a high level of ingenuity and that I would enjoy it no end, EXACTLY because so many were deriding it.

Was I wrong. The timetravel bit is not hard to follow, actually. The problems lie elsewhere. Morrison seems to have attempted to tell at least five stories in this so-called arc, so what was supposed to be one storyline becomes a disjointed sequence of mostly unrelated events. The supposed main tale revolves around (1) Lex Luthor attempting a takeover of the Justice League by weakening its members and exploiting those weaknesses. Besides that, however, there are (2) the need to match the story to DC’s contemporary crossover, Genesis; (3) the shoehorning of the heroes’ search for the Philosopher’s Stone, which might as well have been unrelated and was not necessary at all; (4) the unrelated, artificial insertion of a story with JLA members traveling to the end of the universe and to fantasy worlds; (5) the time-traveling, sidetracking story of the heroes confronting Darkseid in the future (as fascinating as it is to witness Batman engaging Darkseid without so much as a shiver). In the end the jigsaw is resolved, but at the expense of a long-winding succession of wasted blind alleys. Also, the epilogue is a lead-in to the then upcoming event DC One Million.

Characterization is weaker than in other Morrison works. Still, the thread that runs throughout the collection is a battle of minds between Luthor and Batman, and both of these get to shine in their chess-playing, foreplanning, cunning personas, which are marvelously written.

Overall a dumbfounding read, so I do not actually recommend it. However, you may be interested if you are keen on the Justice League, want to appreciate Morrison’s take on it and are willing to tolerate edits where scenes seem to succeed each other with no visible connection between them.

Acabei de ler JLA: Rock of Ages. Antes de comprar, eu havia lido várias resenhas na Amazon e alhures dizendo que era uma história confusa e que muito dela não fazia sentido. Mas as resenhas também diziam que a história lidava com viagem no tempo. E eu sabia que havia sido escrita por Grant Morrison, que considero um gênio. Sendo um fã de ficção científica com uma queda por viagens no tempo, eu deduzi que aqueles leitores não haviam sido inteligentes o bastante para seguir a inteligência de Morrison. Pensei que seu trabalho provàvelmente teria um alto nível de engenhosidade e que eu o aproveitaria de montão, EXATAMENTE porque tantos o depreciavam.

Rapaz, como eu estava errado. A porção de viagem no tempo nem é difícil de acompanhar, na verdade. Os problemas estão em outras partes. Morrison parece ter tentado contar pelo menos cinco histórias neste assim chamado arco, de modo que o que deveria ser uma linha de capítulos torna-se uma sequência disjunta de eventos mormente não relacionados. A suposta história principal gira em volta de (1) Lex Luthor tentando tomar a Liga da Justiça através do enfraquecimento de seus membros e da exploração dessas fraquezas. Ao lado disso, porém, há (2) a necessidade de ajustar esta história ao evento contemporâneo da DC, chamado Genesis; (3) o encaixe de uma busca dos heróis pela Pedra Filosofal, que poderia muito bem ser não relacionada e absolutamente não era necessária; (4) a inserção artificial e não relacionada de uma história com membros da Liga da Justiça viajando ao fim do universo e a mundos fantásticos; (5) a tergiversação de viagem no tempo dos heróis confrontando Darkseid no futuro (por fascinante que seja testemunhar Batman encarando Darkseid sem um tremor). No fim, o quebra-cabeças é resolvido, mas às expensas de uma sucessão tortuosa de becos sem saída. Também, o epílogo é uma introdução ao evento então iminente DC One Million.

A caracterização é mais fraca do que em outras obras de Morrison. Ainda assim, o enredo que corre através do encadernado é uma batalha de inteligênicas entre Luthor e Batman, e ambos conseguem brilhar em suas personas vulpinas, planejadoras e jogadoras de xadrez, que estão escritas maravilhosamente.

De modo geral, uma leitura que causa perplexidade, de modo que não chego realmente a recomendá-la. Entretanto, você pode se interessar se tiver predileção pela Liga da Justiça, quiser apreciar a abordagem de Morrison e estiver disposto a tolerar uma edição onde as cenas parecem suceder umas às outras sem conexão visível.

Minha inevitável pseudorresenha de Interestelar

Então seja bem-vindo a mais uma pseudorresenha do Senhor Atoz. Você sabe como é: eu vou ao cinema, eu venho aqui e conto.

Mais uma vez, não farei uma resenha. Já tem gente fazendo isso de montão por aí (nem pesquisei desta vez para saber se é verdade, mas sempre é verdade). Baste ver que há toda uma edição da Slate dedicada ao filme, inclusive com as minúcias científicas. Baste ver que o Bad Astronomer, Phil Plait, tem todo um mea culpa sobre o ponto específico de buracos negros com rotação.

Meu público-alvo são as pessoas que já viram Interestelar. Em respeito às que não viram, tomarei o cuidado de esconder o texto que revelaria conteúdo. Então, você já sabe como funciona: para ler o trecho escondido, você tem que selecioná-lo com o mouse, porque o escrevi com fonte branca.

Primeiro, vamos à parte não secreta.

– Em nenhum momento o filme diz quando se passa. Temos sugestões de que seja no futuro próximo, nas poucas décadas adiante de nós, mas nada categórico. Não há referência a NENHUM ano. A camioneta do personagem é um modelo recente, e o interior da casa dele poderia ser hoje, mas isso não quer dizer nada, porque, naquela região dos Estados Unidos, os anos passam e nada muda. Hoje vemos camionetas que estão rodando há quarenta anos; o interior das casas, exceto por um eletrodoméstico ou outro, conserva a mesma estética de cem anos atrás. Então, essa atemporalidade pode ser usada para a frente também, e não sabemos se o filme se passa em 2014, 2024, 2064 ou 2114. O tema de insustentabilidade é premente hoje, quando já sentimos os efeitos do aquecimento global nas colheitas e na falta de água, e é certamente por isso que é tão fácil nos identificarmos com os personagens.

– A trilha sonora é de Hans Zimmer. Naturalmente bem feita, como sempre. A mesma melodia é ouvida diversas vezes, ora devagar ao piano nas cenas de mais reflexão, ora acelerada no violoncelo nas cenas tensas. Dá pra reconhecer. Agora, tive a forte impressão de que as passagens ao piano têm uma semelhança intencional com a introdução de Space Oddity, de David Bowie.

– Matthew McConaughey melhorou muito como ator. Lá na época de Contato (1997), ele era só mais um descamisado (sabe como é: os galãs que só aparecem nos filmes para tirarem a camisa em algum momento). Agora ele atua e convence.

– Na estante de livros do personagem, alguns exemplares chamam atenção e certamente não estão lá por acaso: The Stand, de Stephen King, que versa sobre a resistência à extinção da humanidade; biografia de Lindbergh, pioneiro da aviação; e pelo menos um livro de Conan Doyle, mestre da dedução científica através de seu personagem Sherlock Holmes.

– Nos anos 60, 70 e 80, os filmes de espaço costumavam mostrar os interiores das naves como se estivessem décadas ou mesmo séculos no futuro. Era sempre aquela atmosfera limpíssima, estéril, mas também confortável. Pense em Mercenários das Galáxias (se você não via Sessão da Tarde, azar o seu), O Abismo Negro, Galactica, Buck Rogers ou mesmo o primeiro filme de cinema de Jornada nas Estrelas. Pense em Voyager: Rumo às Estrelas, da Disney (e não o confunda com Star Trek: Voyager, que é outro animal). Já dos anos 90 em diante, instalou-se uma tendência que a mim é bem-vinda: os filmes de espaço costumam mostrar o interior das naves, e a tecnologia toda, como se fossem exatamente os atuais, exceto que um pouquinho de nada mais avançados, como se estivessem apenas dez ou vinte anos no futuro. Veja Space Odyssey, da BBC; Gravidade; até mesmo Armageddon. Isso tem a relevante consequência de ter que explicar menos, porque o público (ou ao menos parte dele) já viu astronautas no telejornal, já viu o interior da Estação Espacial Internacional em notícias e documentários, já sabe o que esperar. Quando se fala em naves e astronautas, já sabemos mais ou menos que aparências as estruturas e seus interiores devem ter, já sabemos que cara têm os painéis, comandos e trajes. Em Interestelar, podemos ver detalhes da superfície da nave, e lá estão todos os tijolinhos que nos acostumamos a ver nos ônibus espaciais, o preto-e-branco de seu revestimento, os bocais de seus motores, os aneis de vedação etc. A estética é conhecida. Então, quando o contador de histórias quer nos dizer “nave espacial”, ou “astronauta”, ou “interior de uma estação”, o que ele nos mostra é isso que temos visto nos filmes, e já sabemos do que ele está falando, e nada mais tem que ser explicado, permitindo que ele se concentre na HISTÓRIA. Afinal de contas, é isso que interessa; um filme é bom ou ruim conforme bem ou mal conte sua história. Se você tirar o foco do cenário, estará tirando isso do caminho, e o enorme benefício é que a história pode ser contada com menos obstáculos. O filme pode andar na sua própria velocidade. E é isso que acontece em Interestelar.

– Vi nos créditos: produtor executivo e consultor de Ciência, Kip Thorne. Quem se amarra em Astrofísica sabe que Thorne é uma das grandes celebridades da Astronomia neste entorno do Milênio. Contemporâneo do planetarista Carl Sagan, Thorne é uma das maiores autoridades na especulativa Física dos buracos negros. De acordo com Phil Plait, ele fez toda a matemática para concluir que fossem válidos certos pontos mostrados no filme — justamente os que os nerds desafiariam — e até mesmo publicou The Science of Interstellar. Talvez eu leia…

– Não sei de onde vieram os nomes CASE e TARS, mas KIPP é claramente uma referência a Kip Thorne.

Agora, a parte escondida.

– O filme é longo. Com 160 minutos, ele é desnecessàriamente longo. Dá pra ver por quê: ele gasta uma boa meia hora na visita inútil ao planeta do Dr. Mann, gasta um tempo enorme na tentativa de homicídio e de sequestro de uma nave, e nas longas cenas de ação: em luta com Mann, tentando alcançá-lo e depois tentando acoplar o módulo de descida à nave. O que eu faria? Cortaria, sem pena, toda a passagem com o Dr. Mann e boa parte do conflito familiar entre Tom e Murphy Cooper. Só serviram para tornar o filme mais pesado.

– Um milhão de referências a 2001, intencionais ou não. Então a NASA encontrou uma anomalia em órbita de Saturno? Ora, 2001 (o livro, não o filme) tinha um monolito em órbita de Saturno. Então não temos Hal, mas temos KIPP: uma inteligência artificial que tudo controla, que conversa conosco — só não tem aquela maligna luzinha vermelha, mas eles até abordam isso diretamente. E aí o astronauta mergulha numa singularidade e tem uma viagem de luzes psicodélicas… Rapaz, eu estava vendo a hora que Cooper ia cair em um quarto de hotel, encontrar comida azul e encarar um monolito. Faltou pouco. E então o astronauta, dentro da singularidade, conversa com a inteligência artificial, que colheu dados… Isso não está em 2001, mas está nos livros que lhe dão continuidade; a saber, 2010, 2061 e 3001.

– Robôs que, apesar de terem uma personalidade, põem a segurança em primeiro lugar e, de resto, não têm escolha senão obedecer aos humanos? ASIMOV! Primeira e Segunda Leis da Robótica, que aparecem em todos os livros de robôs de Isaac Asimov e que são citadas a toda hora por todos os seus leitores que hoje fazem filmes de saifai.

– Aliás: o TARS, quando está simplesmente em pé, não é DIREITINHO o Monolito? 2001, múltiplo check.

– Não adianta, eu tenho mesmo o coração mole para voos espaciais. Uma das cenas que mais mexeram comigo, que mais me emocionaram, não foi nenhuma das cenas projetadas para isso. Ao contrário, foi uma cena feita mais para nos deixar boquiabertos mas, ao mesmo tempo, passando uma forte ideia de profissionalismo e objetividade, sem muito espaço para outra coisa a não ser a missão. É claro que estou falando da decolagem. No cinema IMAX, o som ficou tão alto, tudo que se ouvia eram os rugidos dos motores, o equipamento sacudindo e a música no último volume. Aquele close, com a câmera parada e o foguete subindo na frente dela enquanto caem partículas de tinta congelada, é intencionalmente evocativo das decolagens do Projeto Apolo. É ISSO que mexe comigo.

– Sensacional a representação do buraco de minhoca com forma esférica. Sensacional a explicação. Claramente influência de Kip Thorne.

– Aliás, pensando um pouco mais sobre o buraco de minhoca, foi depois que me ocorreu: em todas as descrições que os livros fazem do buraco, uma nave permanece em seu próprio espaço e seus ocupantes nem perceberiam que estão passando por ele. Para eles, o espaço parece normal. Veja no desenho — qualquer desenho — que acompanha uma dessas explicações; basta googlar: se você está no espaço 2D (como em todo desenho), você continua andando no espaço 2D até ver que, sem ter se dado conta, foi parar do outro lado. E mais: não existe essa história de furar o papel com o lápis e “atravessar”. Nos desenhos se vê que o contorno é suave, que a nave não “pula” de um lado para o outro, porque, justamente na passagem, o espaço é perfeitamente contínuo, não tem borda afiada. A formiga do exemplo não pula para fora do papel, não se lança no vazio para o outro lado; ela meramente continua andando até ficar de cabeça para baixo do outro lado.

Buraco de minhoca simplificado em espaço 2D

Formigas suicidas tentaram, mas não encontraram a beirada.

Por incrível que pareça, ESTA é uma representação muito mais realista do efeito do buraco em 3D, embora ainda peque por representá-lo em 2D.

Então, no filme, não veríamos os personagens “saltando para fora do espaço”. Eles olhariam para o buraco, veriam uma projeção 2D do buraco (a qual teria meramente a aparência de uma janela), da mesma forma como tudo que vemos está em 2D no nosso olho, e veriam o que tem do outro lado, tal como quem olha por uma janela. Atravessando o buraco como quem passa por uma janela, eles estariam o tempo todo em um espaço 3D, sem nenhuma lei da Física que lhes parecesse diferente, só que, ao olhar em volta, reconheceriam estar em um lugar diferente do lugar de antes da travessia. Em outras palavras: a viagem pelo buraco de minhoca só seria perceptível para quem estivesse prestando atenção, por causa da mudança do cenário em volta. Não haveria nada daquele efeito dramático, das acelerações, das maluquices sensoriais, nada disso. Porque a nave que atravessa o buraco não sai do espaço 3D, não entra em um espaço 5D nem coisa parecida.

– Se um planeta orbitasse um buraco negro tão de perto, ele estaria sujeito a um permanente banho de raios X, resultante da aceleração da matéria no disco de acreção. Você reparou na intensidade luminosa ali perto? Então. Os raios X são ainda mais abundantes, você só os não está vendo; de acordo com Plait, a luz no filme era até pouca. Portanto, se você fosse morar no Planeta de Miller ou no Planeta de Mann, você tomaria doses maciças de raios X a cada segundo. Deviam chamá-los de Planetas do Câncer. Só o tempo que os astronautas passaram nas proximidades do horizonte de eventos já seria suficiente para evaporar a eles e à nave, não sem antes você conseguir ver seus esqueletos na mais espetacular ferramenta de diagnóstico médico que o universo já teve o trabalho de acumular.

– E mais: supostamente há três planetas habitáveis orbitando um buraco negro, certo? OK, um deles é um mar inóspito, outro tem paisagens geladas e atmosfera de amônia, mas, em princípio, até dá para caminhar na superfície, não é isso? Muito bem. Só que, para você não morrer congelado a zero kelvin na superfície de um planeta que congelaria o AR à sua volta, é necessário que esse planeta receba bastante calor. Calor que viria, por exemplo, DA ESTRELA QUE ELE ORBITA. No nosso caso, a Terra só não é uma vastidão de gelo porque o Sol a mantém aquecida. Se, em vez de uma estrela, seu planeta orbita um buraco negro, então o calor que você recebe não é suficiente nem para você ter uma atmosfera, muito menos água líquida, céu claro ou, no caso extremo, habitabilidade. Portanto, só de ver que a “estrela” é um buraco negro, as esperanças para os três mundos acabariam ali.

– Faltou explicarem um pouco melhor este lance de que cada hora no Planeta de Miller corresponde a sete anos longe dele. Eles até pincelaram o motivo (distorção do espaçotempo na proximidade do buraco negro), mas o povo que assiste pode ficar um tanto confuso. É verdade que foram fartamente explícitos em dizer que é tudo por causa da relatividade, e até disseram que Cooper não teve tempo de explicá-la à filha de dez anos (leia-se: não vamos explicar a vocês que assistem; procurem um livro), mas, ainda assim, eu teria comentado.

– Quando Cooper e Brand retornam para Romilly e ele envelheceu 23 anos, você notou duas coisas? Uma são os modos dele: o gestual, o caminhar e os maneirismos de uma pessoa de mais idade. Ele já não era novinho quando a nave decolou, então certamente havia se tornado um senhor próximo da aposentadoria. A segunda coisa são as mãos dele: bem na postura de quem tem artrite, em forte sinal da idade. Parabéns à equipe e ao ator por isso.

– Eu não sei você, mas para mim foi uma total surpresa a aparição de Matt Damon. Não do personagem, mas do ator. Isso está fartamente comentado aqui (javisei: spoilers). Não é a primeira vez que ele faz isso: quem viu EuroTrip teve a oportunidade de se surpreender da mesma forma. Deve ser uma espécie de diversão para ele. Se bem que, em retrospecto, “Mann” soa como “Matt Damon” falado rápido, muito rápido, deixando apenas os dois fonemas iniciais e o último.

– Planeta de Mann = superfície interminável de gelo acumulado, com quilômetros de altura. Portanto: planeta de Mann = Islândia. Isso é óbvio. Quando os créditos reconhecem que o filme foi rodado lá, e listam todos aqueles nomes como “Gunnar” e “Olaf”, todos terminando com “…fsson” e “…dottir”, não há surpresa nenhuma. Quem viu Prometheus saberia.

– Astronauta mandando computador abrir a escotilha, não conseguindo e tentando entrar na marra? 2001, check.

– Explosão no espaço: silenciosa. Pronto, nerds, estão felizes? Pronto, taí. Tal como em Gravidade, vimos uma explosão e o som não se propagou no espaço.

– Quando a Endurance (ou o que restou dela) está completando a manobra de estilingue em torno de Gargântua, TARS comenta que, de acordo com a Terceira Lei de Newton, para ganhar velocidade você tem que deixar alguma coisa para trás. Algumas pessoas riram no cinema, porém a Terceira Lei de Newton é exatamente isso. Ele não estava brincando. Na verdade, a descrição foi um pouco imprecisa, porque não basta deixar massa para trás; é preciso que a massa tenha uma velocidade negativa em relação à sua. Se TARS for apenas abandonado, ele vai continuar acompanhando a nave até que, de acordo com a Segunda Lei, ela sofra alguma aceleração que ele não. Isso acaba acontecendo, mas, infelizmente, não chegamos a ver a Terceira Lei em ação.

– Ambiente artificial criado no fim do filme pelas criaturas avançadas para que os humanos consigam se comunicar? 2001 e Contato, check.

– Outra influência que não passou despercebida foi a de Star Wars: quando, nas últimas cenas, Cooper recruta a ajuda de TARS e sub-reptìciamente furta uma nave monoposta para encontrar Brand no planeta de Edmund, observe que seu embarque espelha aquela cena do Episódio V onde Luke se afasta de seus amigos para ir encontrar Yoda. Sua entrada no cockpit, mais o fato de que a inteligência artificial se acomoda no espaço apertado atrás dele (R2-D2 no X-Wing), mostram claramente de onde partiu a ideia original, mesmo que o diretor não tenha feito de propósito.

– Por último: os fãs de saifai, assim como outras mentes difíceis de se iludir, já devem ter percebido uma falha lógica gritante, extremamente comum neste tipo de filme, mas que mesmo assim continuam fazendo. Se os sinais de Cooper viajaram para trás no tempo e chegaram à adolescência de sua filha, isso só aconteceu porque os humanos-do-futuro criaram esse hipercubo com aparência de tridimensionalidade, de onde ele poderia enviar os sinais, certo? Bem. Mas esses humanos-do-futuro só são possíveis porque a missão deu certo, e a missão só deu certo porque Cooper encontrou a base secreta da NASA, e Cooper só encontrou a base secreta porque sua filha lhe trouxe os dados revelados pelo fantasma, e os dados só foram revelados pelo fantasma porque o fantasma teve um ambiente do qual enviá-los, e ele só teve esse ambiente porque os humanos-do-futuro lho forneceram. Ou seja, os humanos-do-futuro só se tornaram possíveis porque agiram. É um paradoxo temporal de predestinação, mais suave e mais sutil do que o outro, agressivo e gritante, da contradição que surge quando você volta no tempo e mata seu avô. Ainda assim, um paradoxo, e o filme sofre essa falha lógica insuportável, que rompe a relação de causalidade. Feito o loop temporal, nada deu causa ao sucesso da missão, ou ela só deu certo porque só poderia dar certo… Nunca houve dúvida sobre o sucesso da missão? (Desculpe, anos demais vendo filmes e séries de saifai.)

No geral, Interestelar teve o cuidado de não ser um espetáculo de efeitos visuais. Ao contrário: os efeitos, quando existem, são para promover a história, não para ficar no caminho dela. São uma forma de suprir uma expectativa no momento em que aparecem e então permitir que nos concentremos no que os atores fazem. Mas o filme é muito longo.

Para ler a resenha de Phil Plait, que recomendo enfàticamente, apenas clique aqui.

EOF

Conforme sabemos

Hoje falarei da palavra “conforme”.

“Conforme” pode ser usada como conjunção. Então, você diz “faça conforme lhe ensinei”. Veja que, sendo uma conjunção, “conforme” tem o poder de vincular uma oração a outra. Isso é fácil de identificar: toda oração gira em torno de um verbo, toda oração tem um verbo, todo verbo está em sua oração. Então, no exemplo acima, existe uma oração principal, que, aliás, só tem seu verbo (“faça”) e mais nada; e existe uma oração subordinada, que é “conforme lhe ensinei”, orbitando à volta do verbo “ensinei”. A palavra “conforme” é uma conjunção, pendurando uma oração à outra.

“Conforme” pode ser usada como advérbio. Por exemplo, “Fulano dança conforme a música”. Embora seja um advérbio, a palavra “conforme” não é usada sòzinha; ela faz parte de um conjunto, que é uma locução adverbial. Uma locução adverbial desempenha o mesmo papel de um advérbio, com a diferença de que são várias palavras atuando como uma só. Advérbios e locuções adverbiais costumam ter a mesma função sintática, que é a de adjunto adverbial. Ou seja, estão meramente ajudando a especificar o que se quer dizer com determinado verbo. No exemplo, “conforme a música” equivale a um advérbio só, como, por exemplo, “assim”: “Fulano dança assim”.

Quando “conforme” é usada como advérbio, observe que não precisa de preposição. Podemos dizer “conforme a música”, “conforme o combinado”, “conforme o exemplo”, “conforme o decreto”, “conforme a lei” etc. Em todos esses casos, observe que “a música” e “o combinado” são palavras que não vêm precedidas de preposição. Por isso, “a música” fica com sòmente esse um “a”, que é o artigo definido antes da palavra “música”. Sendo um só “a”, não caberia falar em crase, porque a crase só aparece quando dois “a” estão juntos.

Os vários usos da palavra “conforme” são essencialmente muito parecidos, e difìcilmente pensamos em classificações gramaticais quando a usamos, de modo que não costumamos reconhecer que está sendo usada ora como conjunção, ora como advérbio. Tenho certeza de que o Leitor nunca deve ter reparado que os usos de “conforme” na qualidade de conjunção e na qualidade de advérbio são diferentes, porque sempre veiculam a mesma ideia afinal de contas.

Agora, um uso menos frequente da palavra “conforme” é como adjetivo. Nestes casos, novamente “conforme” está traduzindo a mesma ideia (ou quase a mesma ideia), de modo que é difícil perceber que é um adjetivo. Mas acontece e há uma forma de identificar.

Quando “conforme” é um adjetivo, ela é usada como atributo de algo ou alguém; afinal, é isso que são os adjetivos. Então, você diz que “tal coisa é conforme a outra coisa”. Observe que há uma sutileza aí: quando é adjetivo, “conforme” costuma ser sucedida de uma expressão que vai completar seu sentido, que é o complemento nominal. O complemento nominal sempre é usado quando um adjetivo fica meio solto no ar, com seu sentido muito abstrato, sem ligação com nada. O complemento vem dar sentido ao adjetivo. Então, um exemplo do qual gosto muito é o dos tanques de combustível do tipo CFT do caça F-15C. “CFT” significa “conformal fuel tanks”, ou “tanques de combustível conformais”. Eles vão presos à fuselagem da aeronave de modo tal que o formato deles segue exatamente o formato da fuselagem. Veja na foto.

Tanque de combustível sendo empurrado

Tanque de combustível sendo empurrado para ser acoplado à fuselagem, embaixo da asa deste F-15D. No avião ao fundo, acima da cabeça do empurrador, vê-se outro tanque, já acoplado.

 

Fotografia mostrando o CFT quando o F-15E está em voo

Quando este F-15E é visto de frente, nota-se que o CFT se molda perfeitamente, como se fizesse parte da aeronave.

 

Em consequência, pode-se dizer que os tanques são conformes ao formato da fuselagem. Repare: “AO formato”. Não é “conforme O formato”, porque, agora, existe uma preposição aí. Da mesma forma, se usarmos “a fuselagem”, a frase dirá que os tanques são “conformes à fuselagem”: agora existem duas palavras “a”, sendo uma a preposição e a outra, o artigo definido antes de “fuselagem”; daí a crase.

Então, a presença da preposição (denunciada ora em “ao”, ora em “à”) indica que “conforme” é um adjetivo. Há outras situações onde “conforme” é adjetivo e nas quais não há complemento nominal, mas essas situações parecem até arcaicas, porque a gente não usa muito. Um exemplo clássico é este: “a escritura foi lida e achada conforme”. E a frase acaba aí. Conforme o quê? Pois é, nada. Conforme, ponto. Está implícito que seja conforme à vontade de alguém, ou ao que foi combinado. Note que “a escritura” é o sujeito da oração, “foi” é verbo de ligação, “lida” é um núcleo do predicativo do sujeito, “achada” é outro núcleo do predicativo do sujeito (aquilo que se diz que o sujeito seja), e “conforme” é complemento nominal de “achada” (porque teria que ser “achada alguma coisa”, senão não faz sentido; quando “achar” tem sentido de opinião, é preciso dizer que opinião é essa: então a palavra “conforme” está vindo responder justamente a essa pergunta).

Todo este artigo só foi escrito por isto: quero mostrar que existem casos em que “conforme” vem sucedida da preposição “a”. Essa preposição é a única forma de verificar que “conforme” é adjetivo. Veja, por exemplo, estas duas frases.

Fizeram o documento conforme o combinado.

Fizeram o documento conforme ao combinado.

As duas frases estão corretas. Na primeira, “conforme” é advérbio e indica como foi que fizeram o documento: de tal e qual maneira; de maneira adequada ao que fôra combinado. “Conforme o combinado” é adjunto adverbial, pendurado no verbo “fizeram”. Já na segunda frase, “conforme” é adjetivo. Fizeram o documento, e como podemos descrevê-lo? Podemos dizer que é um documento conforme ao combinado. Nesse caso, “o documento” é objeto do verbo “fizeram”, e a expressão “conforme” é predicativo do objeto: está descrevendo algum atributo do objeto. Claro que “ao combinado” entra como complemento nominal desse predicativo.

A ideia deste texto partiu da leitura de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Estava lendo a ADPF 54 e, no acórdão que encerrou o processo, página 33, vi que o Ministro Marco Aurélio escreveu: “… os referidos enunciados sejam interpretados conforme à Constituição”. Ora, “interpretados” é um adjetivo, de modo que o que lhe vai pendurado, “conforme”, é um advérbio. Nesse caso, mais apropriado seria dizer “conforme a Constituição”, com apenas um “a” (que é o artigo) e, portanto, sem crase. Não quero, com isso, dizer que o Ministro errou, porque o mesmo Ministro, noutras vezes, deixa de usar a crase; e, noutras vezes ainda, usa-a corretamente. Não estranhe quando encontrar a expressão “interpretação conforme à Constituição”, com crase, porque, nesse caso, “conforme” será um adjetivo, vinculado ao substantivo “interpretação” como se espera. Então, “interpretar conforme a Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de advérbio e “interpretação conforme à Constituição” tem “conforme” na classe gramatical de adjetivo.

Já se eu disser “deve-se dar interpretação conforme a/à Constituição”, qual é o certo? DEPENDE. Se “conforme” estiver sendo usada na qualidade de advérbio, vinculada a “dar”, então a frase deve ficar sem crase. Se como adjetivo, vinculada a “interpretação”, então a frase deve levar crase. O Leitor saberá se o Autor quis usar “conforme” com uma ou outra intenção conforme haja uma crase ou não. Logo, não é para ficar pré-julgando que a frase esteja correta ou errada só porque tem ou deixa de ter crase: permita que o Autor escolha e você saberá que emprego ele quis dar às palavras.

A lição que fica — e que não me passaram na escola, mas que estou transmitindo a você — é que não podemos ler um texto com a pretensão de sabermos mais do que o Autor. Se existir uma forma pela qual o Autor esteja certo em sua gramática, então em princípio ele está certo, e cabe a nós decifrar o que ele queria dizer de acordo com as regras, decodificar de acordo com o código que temos, que são as normas do português e nosso conhecimento de funções sintáticas. Na verdade, a análise sintática é uma ferramenta muito útil para entendermos o papel de cada palavra na frase e, assim, podermos saber o que quer dizer o quê.

Um dos erros muito comuns dos professores de português é quererem que só exista uma forma de dizer determinados conteúdos, ou quererem que determinadas palavras só possam vir em determinada ordem, ou que determinadas frases só possam ser construídas de determinado jeito. Aí, quando uma frase tem uma vírgula ou uma crase ou um plural onde não esperam, dizem que a frase está errada, sem procurar algum significado que pudesse estar expresso corretamente daquela forma. O certo é tomar a frase pelo valor de face, tal como está, e nela encontrar as indicações do papel de cada palavra. Desse modo, podemos descobrir que o que parece verbo pode ser sujeito, que o que parece adjunto adverbial é predicativo, e assim muitas outras coisas.

(É claro que, às vezes, o Autor está errado mesmo, e a gramática da frase está errada. Mas não é para partir dessa ideia como premissa só porque a frase parece errada.)

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Pequenos pontos prateados

Nos últimos meses, sempre que estou ao computador em casa, ligo no FlightRadar24. Centralizo na minha posição geográfica e fico acompanhando os voos que passam pela área, decolando ou pousando no Galeão, no Santos-Dumont, em Guarulhos. Na tela, cada avião é indicado por um símbolo, que vem acompanhado de estatísticas: que modelo de avião é esse (com a exata variante conforme a companhia aérea: não basta que seja um 737 nem basta que seja um 737-800; vemos que é um 737-8EH), que companhia aérea, indo de onde para onde, quais os horários programado e real de decolagem, programado e estimado de pouso, com quanto de viagem já percorrido, a que altitude atual, rumo atual, velocidade e razão de subida. Vemos o percurso feito até aqui, a rota programada, o número do voo, o registro da aeronave, e até qual é o radar que a está rastreando.

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

É muito comum, especialmente no fim de semana, ver algum voo que esteja vindo sem escalas de Istambul, ou de Joanesburgo, ou de algum lugar igualmente distante, sempre entre 35 e 40 mil pés, rumo a Guarulhos. Aí vou à janela e vejo a aeronave, parecendo estar tão mais baixo, ou vejo seu rastro discreto de condensação. Também é muito comum ver um Airbus vindo da Europa a caminho de Ezeiza ou de Guarulhos, sobrevoando o mar a várias milhas da costa, e parece tão pertinho, parece que sobrevoa o Leblon. Quando o dia está muito claro, vejo que há um voo da TAM no rumo Vitória a 40.000 pés, passando pertinho de mim; procuro-o no céu mas nada vejo: tão alto, é ofuscado pelo sol do fim de tarde.

Várias são as decolagens que vejo da TAM, da Gol, da Avianca, partindo do Santos-Dumont, quebrando a bombordo e então bruscamente se voltando para o Sudoeste enquanto ràpidamente ganham altura: curtos saltos até Congonhas, fàcilmente visíveis de minha janela nas tardes claras. Várias são as decolagens do Galeão, virando logo após para sobrevoarem a Mantiqueira, e então o Sudeste de Minas, e Bahia, e Europa.

Certa vez vi um Hawker 800 fazendo órbitas loucas a várias altitudes, desenhando sucessivos oitos no céu afastado do Galeão, sem ir a lugar nenhum: era um EU-93 do Grupo Especial de Inspeção em Voo, calibrando o radar do aeroporto. De outras vezes, vi modelos da Embraer, seus transponders emitindo o número de série da aeronave, decolando de São José dos Campos, dando várias voltas sobre Campos do Jordão à mais alta altitude e voltando para São José: voos de teste da fábrica, os aviões prontos para entrega, seus pilotos fazendo o último check para satisfação do cliente.

Nas noites de fim de semana, quase de madrugada, o 747 do voo Lufthansa 501 decola do Galeão no sentido Caxias, faz a volta para bombordo, passa sobre São Cristóvão e Centro do Rio, e então escuto seus inconfundíveis quatro motores, estridentes na saída de gases mas também rugindo como um trovão, acelerando, acelerando suas centenas de toneladas enquanto sobe, rápido e certo. Olho pela janela e consigo ver suas luzes a 11.000 pés, parecendo tão baixo e tão lento, já desaparecendo por trás do prédio vizinho. Em minutos a tela o mostra sobre Macaé, ganhando o rumo de Frankfurt.

Nessas mesmas noites, quando tudo está silencioso e o céu está claro de nuvens, escuto um trovejar distante, contínuo, e olho no FlightRadar: um Airbus da TAM decola agora para Nova Iorque, a saída de gases de seus motores voltada para cá. Embora eu esteja a 12 km da pista e haja tantos prédios no caminho, consigo nìtidamente escutar esses motores, que alçam trezentos passageiros, sua bagagem e todo o querosene necessário para um destino a 10.000 quilômetros daqui, a potência máxima sendo exigida para levantar tanto peso do chão, a decolagem lenta, a subida esforçada, o som vindo em linha reta até mim quando a aceleração joga a todos contra suas poltronas.

Vejo voos partindo da Europa continental, rumando para o Norte para chegarem a Los Angeles ou Vancouver. Vejo voos vindo da China ou do Japão, atravessando a Sibéria para chegarem a Londres. Vejo um corredor congestionado da Europa Oriental, passando pelo Mar Negro, Turquia e Golfo Pérsico, até Dubai. Vejo doze Airbus A380 no ar simultaneamente, o maior avião do mundo, agora já quase banalizado pelas rápidas entregas a Air France, British, Singapore, Emirates e Lufthansa. Vejo 25 aviões decolando na mesma noite do Brasil aos Estados Unidos, 7500 brasileiros e americanos indo passar férias, fazer cursos, voltar para casa, assumir novos empregos. Vejo dezenas de aviões entre Argentina e Centro-Oeste do Brasil, indo ou voltando da Europa e dos Estados Unidos, trazendo presentes e compras pela UPS ou pela FedEx ao grande terminal de carga de Campinas. Vejo voos panorâmicos no Sul da Flórida, pilotos treinando sua proficiência enquanto apreciam a paisagem.

Todos os pontos prateados que vejo em meu céu e todos os pequenos símbolos que vejo em minha tela, nenhum deles é para mim uma abstração. Quando vejo uma decolagem, ainda que para a curta viagem SDU-CGH, vejo ali centenas de pessoas com seus sonhos, centenas de pessoas acomodando-se para dormir pela longa e cansativa viagem até a Europa, centenas de homens e mulheres de negócios planejando o que farão ao chegarem a Buenos Aires. Vejo as comissárias começando a servir o jantar, vejo os pilotos recebendo e cumprindo instruções da torre. Vejo casais a caminho da lua-de-mel, jovens a caminho do intercâmbio, executivos preocupados com planilhas, turistas de grana apertada ansiosos pelas férias sonhadas por anos. Cada ponto, alto no céu, quase invisível, para mim são duzentos, trezentos viajantes cansados já em procedimento de descida, viajantes dispostos indo não sei para onde, seus futuros sendo escritos neste momento, novos destinos surgindo em suas vidas, circunstancialmente sobrevoando a minha enquanto simpatizo e compreendo suas experiências, e só me resta lhes desejar:

Boa Viagem.

Esquadrão 360 desativado

“À meia-noite de 31 de outubro, o esquadrão mais jovem da Real Força Aérea, o Esquadrão 360, da base RAF Wyton, Cambridgeshire, foi oficialmente desativado. Ironicamente, apesar de ser o esquadrão mais jovem, a unidade operava um dos tipos mais antigos que servem na RAF, o English Electric Canberra, e incluía a aeronave operacional mais velha das forças armadas do Reino Unido, o Canberra T.17 WD955, que está em serviço há 43 anos. Uma unidade conjunta da Real Força Aérea e da Real Marinha, o 360 exercia a função de treinamento em contramedidas eletrônicas, que será assumida pela Flight Refuelling Ltd em junho de 1995 com equipamento de ECM em casulos nos pontos rígidos sob as asas de seus Falcon 20. Seis dos oito Canberras T.17/T.17A remanescentes da unidade serão sucateados, dois foram oferecidos a leilões e os poucos PR.7 e T.4 não especializados serão transferidos ao Esquadrão 39 (1 PRU), em Marham.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Urupema

“Urupema” é o nome de um planador da EMBRAER, distribuído pela Força Aérea para uso dos aeroclubes do Brasil.

O nome é tìpicamente indígena e eu sempre acreditei que viesse de alguma ave. Sabe como é: por todo o mundo, os aviões frequentemente ganham nomes de pássaro, como no caso das diversas variações sobre os nomes “Hawk” e “Eagle” nos Estados Unidos e na Inglaterra, “Halcón” no Chile e na Espanha, “Gavião” e “Tucano” no Brasil, essas coisas.

Até que abri o Aurélio para procurar outra palavra e meu olho bateu em “urupema”: “espécie de peneira de fibra vegetal…”

Entendi na hora o porquê de se usar esse nome para um planador e pensei, “sacanagem!”

Tradicionalmente, o treinamento de pilotos militares tem três fases: primário, básico e avançado. O primário começa em planadores, que têm a aerodinâmica mais simples, sem as complicações trazidas por um motor. Só depois de dominar a essência dos comandos é que o aluno progride para um avião.

Em inglês, o treinamento primário, primary training, também é chamado sabe como? Screening: “peneiramento”!

… Porque é uma peneira mesmo: você joga um montão de candidatos, mas a maioria não passa dos primeiros voos. Só uma minoria chega ao treinamento básico (onde, aliás, a filtragem continua). Em inglês, o candidato rejeitado é chamado de wash-out ou washout: quando você joga na peneira, ficam retidos e você os joga fora na lavagem.

Então, o Urupema foi destinado, desde a origem, a filtrar os candidatos a pilotos… e isso está no próprio nome. Realmente, está bem escolhido. Veja que não devo ter sido o único a pensar que fosse o nome de um pássaro, com todas as seriemas, anunguaçus, araras, urutaus e outros nomes em tupi-guarani que ainda adejam por aí (quando não estão extintos). Para o entusiasmado e iludido mequetrefe que se mete a pilotar, é melhor que se convença disso, melhor do que vir a saber que está voando em um EMB-400 Peneira…

EMB-400 em voo

Peneira

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Recriando o passado

Nos últimos tempos andei postando narrativas e reflexões deprimentes. Então vamos variar um pouco hoje e falar de uma eterna fonte de alegria: SORVETE!

Lá nos sempre mui pranteados anos 80, havia no Rio de Janeiro uma rede de sorveterias chamada Sem Nome. Aliás o nome da sorveteria tinha sua própria história, que não consigo confirmar por absoluta falta de rastreabilidade de todas as coisas que antecedem a Web; mas a história era a seguinte: a marca havia sido criada como “Ébom”. Supostamente a Kibon teria percebido, aí, uma espécie de golpe de marketing, que a imitava. Então teria entrado com uma ação judicial e conseguido que o fabricante do Ébom abandonasse a marca. Nas sorveterias, os alvarás de funcionamento ainda mostravam a razão social como “Italiano Ébom” (disso me lembro bem), mas a marca já não era essa. Em um segundo e mais esperto golpe de marketing, tendo ficado sem um nome com que se apresentar ao público, o fabricante passou a se chamar Sem Nome. Quem se dispuser a investigar a versão, por favor, venha aqui depois me confirmar se é verdade.

As sorveterias Sem Nome estavam espalhadas pela cidade. Ainda que sob o risco de me lembrar de tudo errado, recordo-me de uma na Gávea, em uma bifurcação da qual se subia para o Parque da Cidade, presumìvelmente onde acaba a rua Marquês de São Vicente, começa a rua Mary Pessoa e hoje há um posto BR. Mas, principalmente, recordo-me de uma na rua Conde de Bonfim, 816, onde hoje funciona uma dessas padarias de luxo.

Até a arquitetura interna da sorveteria era atraente. A entrada ocupava toda a largura da loja. O piso eram lajotas da cor do sorvete de creme. O ambiente era todo muito limpo, a sorveteria estava sempre vazia (mau sinal?), o balcão era enorme, esticando-se ao longo da parede esquerda (para quem entra), e havia um sem-número de mesas com bancos de madeira e um poço de iluminação natural lá no fundo, com pedras redondas formando um fundo e, dispostas em volta, algumas plantas em grandes vasos de cerâmica.

Um dos principais argumentos publicitários da Sem Nome era que tinha mais de quarenta sabores. Só que, toda vez que eu ia lá, constatava duas coisas: (1) não chegava a haver quarenta sabores listados na parede e (2) NUNCA havia todos os sabores que estavam listados na parede. Na verdade, com o tempo, havia cada vez menos; e, à medida que a sorveteria foi declinando, os nomes deixaram de ser impressos e passaram a vir escritos a mão, em papeis, em menor quantidade. Minha teoria, formada na época mas que ainda sustento, é que jamais o fabricante teve a intenção de sequer criar receitas para alguns daqueles sabores, que só estavam listados para fazer número. Lamentei o dia em que a Sem Nome, de sorveteria, transformou-se em lanchonete, servindo até hambúrguer. Não estava longe o fim, que, àquela distorcida altura, nem cheguei mais a lamentar, como se fosse mera eutanásia comercial a poupar os olhos de sofrerem pela decadência da outrora digna e inovadora sorveteria carioca (aliás nem sei se era mesmo carioca).

Mesmo assim, os sabores eram realmente muitos e excelentes e, no auge da Sem Nome, eu a frequentava com entusiasmo. Em uma época em que a Kibon só fabricava a ubíqua rotina creme-chocolate-morango-flocos-napolitano, a saudosa concorrente oferecia o diferencial de certas novidades como laranja, manga, melão, ameixa, passas ao rum, doce de leite, coco queimado, doce de leite com coco, abóbora com coco, e um de meus favoritos: milho verde.

Também havia receitas próprias de sundaes. Além dos convencionais Colegial* e Banana Split**, praticados em outras sorveterias e restaurantes, a Sem Nome oferecia combinações batizadas com os nomes de cidades italianas. Assim, lembro-me de um sundae (infelizmente não lembro qual era a cidade) que tinha seis bolas de sorvete empilhadas! Seria um desafio que nunca encarei.

Em especial, até hoje continuo me lembrando muito bem do Copa Veneza: duas metades de um pêssego em calda, duas metades de uma banana, duas bolas de sorvete de sabores diferentes à escolha do freguês, duas coberturas diferentes (posso estar enganado quanto à quantidade de coberturas, mas é isso que lembro), castanha de caju, marshmallow (ou será que era chantilly?), uma cereja, e um tubete (que, na época, não se chamava “tubete”; e talvez não houvesse e eu o esteja trazendo da lembrança de outro sundae), tudo isso em uma taça alta e larga de vidro grosso. Invariàvelmente, meus dois sabores de sorvete eram coco e amendoim, inclusive porque a Kibon não os tinha; e as coberturas eram de caramelo e morango. Muitas foram as vezes em que tomei Copas Venezas e às vezes fico pensando como eu conseguia! Meu metabolismo atual jamais permitiria que eu deglutisse impune todas essas calorias, e mesmo essa deliciosa deglutição só será possível se eu estiver com a barriga totalmente vazia…

Nos tempos atuais, os sabores da sorveteria Itália ocupam dignamente o vácuo deixado pelos da Sem Nome. Infelizmente, as Itálias são minúsculas, mal tendo alguns banquinhos (nas ruas Santo Afonso, Visconde de Pirajá e Figueiredo de Magalhães e no Downtown), reduzindo-se a quiosques (no Shopping Tijuca) ou até mesmo consistindo apenas em geladeiras (nas franquias do Rei do Mate). Por isso, apesar de todos os deliciosos sabores, não creio que a Itália vá um dia ocupar o nicho deixado pela Sem Nome em matéria de espaço e experiência.

(Considerando que um dia a Itália possa tomar o mesmo caminho da Sem Nome — embora eu torça para que não –, fica aqui registrado que ela oferece ou já ofereceu, entre diversos outros, os sabores de limão, limão siciliano, manga, manga com gengibre, tangerina, abóbora com coco, amarena (creme de cereja), banana caramelada, biscoito (chocolate com pedaços de biscoito), brownie (chocolate com pedaços de bolo de chocolate), café puro, “café chips” (café com bolinhas de chocolate duro), canela com mel, “chocolate africano” (com amendoins), chocolate branco com maracujá, chocolate com amêndoas, chocolate com avelã, chocolate “de origem”, chocolate meio amargo, coco, cookie (creme com pedaços de biscoito de chocolate), doce de leite, doce de leite com chocolate, doce de leite com doce de leite, flocos, iogurte, iogurte com calda de goiaba, iogurte com limão siciliano, iogurte com pêssego, menta com flocos de chocolate, milho verde, morango com pedaços, nata, nozes, paçoca, passas ao rum, pistache com pedaços, queijo, romeu e julieta, “sonho de valsa”, tapioca, “torrone”, torta alemã (camadas de creme, chocolate e biscoito), torta de limão (com camadas de biscoito)… A Itália também tem diversos picolés, que têm bastante saída, com sabores que incluem alguns desses e também açaí e groselha.)

Pois bem. Esta postagem nasceu porque, por muitos anos, eu quis reconstruir o Copa Veneza, até que, em dezembro de 2013, comprei duas taças de vidro as que encontrei mais parecidas com as da Sem Nome (um requisito essencial), mais todos os ingrediente, e pus mãos à obra.

Infelizmente, a Itália não faz sorvete de amendoim, de modo que tive que recorrer à coisa mais próxima, que é o sorvete Sonho de Valsa, fabricado pela Kibon sobre a marca da Lacta. Não é idêntico ao de minha lembrança porque tem pedaços de chocolate na massa, mas haveria de servir. Também não se encontra mais sorvete de coco, que a Kibon fabricava até há pouco tempo e que eliminou na recente reformulação de sua complexa linha. Mas, nessa mesma reformulação, existem três potes que são compostos por trios de sabores, e um deles é dito de “frutas tropicais”: manga, abacaxi e coco. Então, tal como Homer Simpson, que só compra napolitano por causa do chocolate, comprei o trio por causa do coco (não que tenha jogado o resto fora depois, se é que me entende).

Além disso, percebi que, se eu usasse dois sabores de cobertura como no Copa Veneza original, eles formariam uma barafunda indistinta de gostos e eu não sentiria nenhum. Então, para maior curtição dos sentidos, um sabor estaria de bom tamanho. Escolhi caramelo, que é mais neutro do que morango e, assim, não interferiria no pêssego e na banana. Quanto à dúvida entre chantili e marshmallow, o primeiro foi escolhido sem discussão pelo simples fato de que não se encontra marshmallow nestas paragens subequatoriais. Pelo menos o resultado também fica mais leve.

A montagem de um sundae não é caótica. Tal como se constrói um edifício, existe uma ordem, um propósito na sucessão dos ingredientes. Então, de baixo para cima, fui adicionando as metades do pêssego e da banana, as bolas de sorvete, a cobertura de caramelo, as castanhas de caju picadas (não moídas, marque bem), o chantili e as cerejas. Sim, aS cerejaS, que já são idos os tempos em que garçons e sorveterias ficavam regulando cereja prà gente. Ora, se agora faço o sundae na minha casa e compro cereja a granel, com muito mais razão vou compensar o recalque e lançar logo uma porção delas, não é mesmo? Então são três cerejas para cada taça, e perdoe-me a falecida Sem Nome por adulterar a clássica receita.

Finalmente, lembrar que nunca fui entusiasmado por tubetes (será que não era biscoito Champagne? Tomara que não, porque esses são mais caros; e acho que não, porque são grandes também). Então, minha variação do Copa Veneza vai sem biscoito.

O resultado está aqui. Posso lhe assegurar que estava tão gostoso quanto aparentava!

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

* Colegial: uma bola de sorvete (geralmente de creme), cobertura de chocolate, castanha de caju e uma cereja, servido em uma taça baixa, de vidro. Sim, é simples mesmo.

** Banana split: uma banana grande, partida ao meio, com três bolas de sorvete dispostas horizontalmente entre as metades (geralmente de creme, morango e chocolate), cobertura, às vezes marshmallow ou chantilly, castanha de caju e uma cereja, servido em uma pequena travessa.

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Atribulados créditos junto à Oi

ESTA POSTAGEM FOI ATUALIZADA EM 04/05/2014.

Na verdade, o nome da operadora é Telemar. É que, por muitos anos, a Telemar foi campeã em reclamações de consumidores no Brasil. Então, um dia, decidiu apresentar-se ao mercado de telefonia fixa sob a marca que já usava para seu serviço de telefonia celular, na provável ilusão de que, com isso, afastaria a má fama.

É claro que essa tática infantil não haveria de prosperar: se o serviço não melhora, é o nome Oi que passa a ser tão mal visto quanto já era o nome Telemar, que foi o que aconteceu.

Eu poderia vir aqui narrar todo o mau serviço, ou ausência de serviço, que a Telemar já me prestou desde que me tornei vítima dela, em 2008. Seria fácil demais e, além disso, a história não deve ser diferente da que acontece há mais tempo e com mais gente neste Brasil. E ninguém quer ler mais do mesmo, das tristezas que já conhece e vivencia tão bem — ou pior — do que qualquer descrição que eu fizesse.

Então, em vez disso, decidi limitar meu relato a uma documentação, aliás para minha própria utilidade histórica, do dinheiro que a Oi me deve desde que passei a tomar nota dos centavos, que foi, mais ou menos, em agosto de 2013. Repare que o principal usuário desta narrativa sou eu mesmo, que admito o quanto ela é maçante com seus números. Vejamos.

De 8 a 12 de julho de 2013, a Oi cortou o serviço do Velox durante quatro dias e meio. O pagamento mensal era de R$ 67,62. Como fiquei quatro dias e meio sem serviço, pela regra da ANATEL seria justo não cobrarem (5/30) × 67,62 = R$ 11,27 [conforme apontado nos comentários pelo distinto @souculpado]. Então, a conta seguinte tem que valer R$ 11,27 menos do que o habitual.

Só que a Telemar me cobrou em agosto o valor cheio, que paguei. Então a Telemar passou a me dever em dobro (Código de Defesa do Consumidor, art 42, parágrafo): R$ 22,54. Interessante que, durante o mês de julho, eu pedira que não me cobrassem o valor cheio, e me disseram que, se reconhecessem a falta do serviço, cobrariam sòmente pelo serviço efetivamente prestado. OBÓVIO que isso não aconteceu.

Telefonei para reclamar, de modo que, na conta com vencimento em setembro, a Telemar reconheceu a falta do serviço e creditou R$ 13,98 (porque, na verdade, eles mesmos erraram a conta). Então, a Telemar ficou devendo 22,54 – 13,98 = R$ 8,56.

Na verdade isto sempre aconteceu com alguma frequência: toda vez que chove (veja bem: eu não disse “toda vez que chove FORTE”. Basta chover), toda vez que chove a Telemar corta a minha Internet. Como se, de algum modo, eu devesse ser punido pela tristeza que a chuva traz. Infelizmente foi só em julho de 2013 que comecei a correlacionar o corte do serviço a dinheiro; antes eu não fazia isso. Então, na verdade, sou credor de mais do que esses R$ 8,56, mas o valor não é líquido.

Agora vem a parte realmente divertida.

Certa vez, em 2008, contratei o Oi Fixo. Todos os meses, minha conta de Oi Fixo apresentava duas discriminações: “Fale 230 Residencial” e “Pacote Fale Digital”. A soma dos dois valores dava o valor contratado. Assim foi por cinco anos sem problemas.

Até março de 2013, minha conta de Oi Fixo era de R$ 61,29 todo mês. Aí, em 20/02/2013, recebi um telefonema da Telemar, que dizia que, durante os próximos seis meses, o valor da conta seria de R$ 34,90 e que, daí por diante, seria de R$ 54,90. Além disso, o número de minutos da franquia passaria de 230 para 350. A primeira cobrança, a vencer em março, seria pro rata dos dias de fevereiro sob os pacotes de 230 e de 350 minutos.

Essas condições nunca foram cumpridas. A cobrança de março (relativa a fevereiro) foi feita ainda no valor cheio de R$ 61,29. Na de abril, de fato veio um estorno, mas façamos uma breve conta. Quanto eu deveria pagar por fevereiro? Deveria pagar (19/28) × R$ 61,29 + (9/28) × 34,90 = 52,81. Mas paguei 61,29. Então, a Telemar ficou me devendo a diferença: R$ 8,48. Dobrado: R$ 16,96. Como eles tinham um débito (lembra?) de R$ 8,56, a Telemar ficou me devendo, líquidos, R$ 25,52. Isso era no momento em que paguei por fevereiro.

Como disse, em abril veio um estorno. Na verdade a conta de abril (relativa a março) veio toda confusa. Quanto deviam cobrar em abril? Deveriam cobrar simplesmente R$ 34,90 pelo mês de março. Mas cobraram R$ 29,94 por causa dos estornos. Então, estavam deixando de cobrar R$ 4,96. Diminuindo esse valor do débito mais antigo de R$ 25,52, no total ficaram me devendo R$ 20,56.

Esse parecia o fim da história. Mas vejamos: durante quanto tempo disseram que cobrariam R$ 34,90? Seis meses. Façamos a conta: tomando 20/02 como o primeiro dia, o último dia seria 19/08/2013. Só que, durante todo esse período, não cobraram R$ 34,90; cobraram R$ 36,94 nas contas que venciam em maio, junho, julho e agosto (por enquanto não comentarei a de setembro, relativa a agosto). Então, acumularam a diferença como uma dívida contra eles: 4 × (36,94 – 34,90) = 8,16. Dobrado, lembra? R$ 16,32. Mas já me deviam R$ 20,56, de modo que ficaram me devendo R$ 36,88 líquidos.

De todo modo, todos os meses passaram a trazer uma conta que discriminava duas linhas: “Fale 350 Residencial” e “Pacote Fale Digital”. Reparem que, ressalvada a diferença do número de minutos (que agora eram 350), a cobrança vinha da mesma forma de antes. O valor mensal de R$ 36,94, aliás acima do contratado, era a soma desses dois aí. E nem pense em alegar que era a porção “Fale Digital” que explicaria a diferença. A diferença mensal era de R$ 2,04, mas o “Fale Digital”, sòzinho, eram mais de R$ 10. Portanto, o “Fale Digital” era um componente do preço básico, não sendo a causa da diferença.

Até que veio a conta com vencimento em setembro. Qual deveria ser seu valor? Bem, seguindo o raciocínio da própria Telemar (de calcular pro rata), o valor deveria ser (19/31) × 34,90 + (12/31) × 54,90 = 42,64. Mas quanto foi que veio? Vieram R$ 42,79. Então, a diferença foi pequena, podemos atribuí-la a erros de arredondamento ou da maneira de se fazer a conta, e me cobraram 15 centavos a mais (dobrando: R$ 0,30), que eu perdoaria se não fosse o fato de que isso aumentava a dívida da Telemar para R$ 37,18.

Mas vejamos outubro. A conta com vencimento em outubro deveria vir no valor prometido, certo? De R$ 54,90. Mas quanto foi o valor cobrado? Tcharããã! Foram R$ 80,86! Claro que eu reclamei. Bem, primeiro tive que pagar, porque a Telemar é igual a cartão de crédito: uma fatura emitida deve ser paga, ainda que mais tarde se estorne. Então a dívida da Telemar comigo passou a ser de 37,18 + 2 × (80,86 – 54,90) = R$ 89,10.

Como eu dizia, reclamei em 02/10, de madrugada (olha só que divertido!). Três dias depois, a Telemar me vem numa cara-de-pau inacreditável, a dizer que, como eu não sabia que haveria aumento (não mesmo!), estornaria os excessos das contas de agosto e setembro. Bem, a esta altura estamos vendo que meu crédito era de R$ 89,10. E também a Telemar me informa que o plano Fale 350 já não está disponível e me oferece o Fale 300, por R$ 17,90 por um ano. Aceitei.

Atente para isto: todos os planos (o de 230 e o de 350 minutos) negociados até hoje continham duas metades: o “Fale X Residencial” e o “Pacote Fale Digital”. Sem mais informação, e sempre supondo que o serviço é sempre o mesmo embora variando o número de minutos da franquia, eu SÓ poderia entender que passariam a me cobrar R$ 17,90 por mês.

Então, a cobrança com vencimento em novembro deveria considerar um pro rata: pelo período de 01 a 04/10, o valor a pagar deveria ser (4/31) × 54,90, e o restante do tempo deveria gerar (27/31) × 17,90. Portanto, a conta com vencimento em novembro deveria ser de R$ 22,67. E isso manteria a Telemar como devedora de “apenas” R$ 89,10.

… Só que, aaaaah, tem uma coisa: durante o mês de outubro, a Telemar novamente cortou meu Velox, deixando-me sem Internet de 13/10, à noite, até 17/10, de manhã. Ou seja, três dias e meio. Òbviamente a conta com vencimento em novembro considerou o valor cheio do Velox, já então de R$ 69,90.

Então, vejamos essa conta. De um lado, em relação ao telefone, veio com valor NEGATIVO de R$ 14,07, ou seja, R$ 36,74 abaixo do que poderia ser. Já de outro lado, em relação ao Velox, veio com uma cobrança excessiva, cobrando por 31 dias de outubro quando deveria descontar os quatro dias de serviço não prestado. Ou seja, R$ 9,32 acima do que deveria ser; dobrando, isso dá R$ 18,64 acima do devido. Como me deviam R$ 89,10 antes disso, na hora em que paguei essa conta fiquei como credor de R$ 71,00 (está acompanhando?).

A propósito, em 10/11/2013 reclamei do valor excessivo da cobrança do Velox, mas em 18/11/2013 me retornaram que a contestação era “improcedente”. Como se fossem juízes.

Vamos à conta com vencimento em dezembro. O valor do telefone deveria ser de R$ 17,90, mas foi de R$ 28,76. Uma ligeira investigação descobriu o quê? Descobriu que, quando migrei para o plano de 300 minutos, a porção Fale Digital não veio junto para dentro do preço: passou a ser cobrada à parte. E ninguém me avisou de que isso ia acontecer! Não é uma gracinha? Boa sorte tentando explicar isso e reaver o valor devido. Mas veja que, com isso, na medida em que eu pago o valor cheio em dezembro (com excesso de R$ 10,86, que, em dobro, são R$ 21,72), passo a ser credor de R$ 92,72 acumulados até agora.

Na verdade, tentei contestar essa cobrança indevida em 27/11, de madrugada (sempre de madrugada, que é quando tenho tempo de examinar as contas), mas a Telemar teve a desfaçatez de me dizer que não poderia estornar os valores já pagos porque, como eu estava pagando, eu estava ciente. Por certo estava ciente! Não quer dizer que concordasse.

Bem. Cancelei o Fale Digital em 27/11, de madrugada. Não que isso devesse ser necessário. Repare que, a partir desse momento, fiquei com um serviço menor do que o anterior, pelo preço contratado. Com isso, a Oi estava dando o jeito dela de me prejudicar mais um pouquinho.

Veio a conta com vencimento em janeiro de 2014. O valor pelo telefone era de R$ 16,46, ou seja, estava abaixo do contratado por uma diferença de R$ 1,44. Então a dívida deles diminuiu um tantinho, e passei a ser credor de R$ 91,28.

Aliás o Velox subiu de preço nessa conta, passando de R$ 69,90 para R$ 73,96.

A conta paga em fevereiro foi normal. Se pudermos chamar essa barafunda de normal.

Então veio o mês de fevereiro. Meu telefone ficou mudo de 16 a 20/02/2014, ambos os dias à noite. Ou seja, quatro dias. Então a conta com vencimento em março deveria deixar de cobrar (4/28) × 17,90, ou seja, R$ 2,56. Isso aconteceu? Evidente que não! Portanto, quando paguei, a dívida da Telemar comigo acumulou para R$ 91,28 + (2 × 2,56) = R$ 96,40.

Desde então, já pedi estorno do período sem telefone em fevereiro de 2014 (protocolo 0015158-13032014). Também desde então, a Telemar me cortou o Velox de novo, no período de 07/03 à noite até 09/03 à tarde (o que dá dois dias) e depois no período de 23/03 de manhã até 24/03 à tarde (o que também dá dois dias) e, portanto, esses cortes valem R$ 9,86 somados. Mas a conta relativa a março, com vencimento em abril, cobrou o valor cheio do Velox; portanto, paguei esses R$ 9,86 e tenho direito a devolução em dobro, ou seja, R$ 19,72. A dívida acumulada da Telemar comigo chegou a R$ 116,12.

Além disso, permita-me documentar alguns detalhes que não sei se geram crédito ou não, mas precisarei da informação no futuro. Desde a conta com vencimento em janeiro/2014, o Oi Velox custa-me R$ 73,96 (tendo havido “reajuste” de 5,8% antes de completado um ano desde o “reajuste” anterior). Desde a conta com vencimento em abril/2014, o Oi Fixo custa-me R$ 18,13. Na conta com vencimento em maio/2014, o Oi Internet Banda Larga (provedor) passou dos vitalícios R$ 3,99 para R$ 4,22. Em 04/05/2014, de manhã, telefonei à Oi Serviços Digitais (dona do Oi Internet BL), que me disse que não tem nenhuma informação de que os R$ 3,99 fossem vitalícios. Lógico que não tem: pois interessa a ela suprimir essa informação. Provàvelmente, na estimativa dos analistas da Telemar, seis anos de vitaliciedade terá sido tempo suficiente para eu esquecer que o valor fosse vitalício. Exceto que não cumpri os planos deles nem me esqueci.

Bom. No mínimo a Oi passa a acumular mais R$ 0,46 por mês de dívida para comigo em razão do Oi Internet BL e não tenho nenhuma fé em conseguir vencer Golias neste ponto. Não abro mão desse direito, que ainda tenho, mas vou deixar a atualização desse cálculo por fora da dívida já constituída, porque, senão, nem o valor maior terei esperança de recuperar um dia.

Para atenuar a dívida da Oi, a conta com vencimento em maio/2014 fez uma devolução parcial de R$ 38,96, oriunda de créditos diversos das reclamações aí de cima (mas evidentemente ainda insuficiente). Com isso, a dívida da Telemar comigo está em R$ 77,16 (no mínimo — pendente eu descobrir se os aumentos de mensalidades foram lícitos).

Em tempo: não me venham sugerir que procure a ANATEL. O protocolo acima foi feito por intermédio dela. Ela tem se mostrado eficaz para religarem meu telefone quando suspendem o serviço, mas, quanto a valores de contas, tudo que consegui até agora foi essa devolução parcial aí no fim, que foi de apenas aproximadamente um terço do valor devido. Prossigo nas tentativas.

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Desta vez, acho que o papo é sério

Durante os anos 80, vivíamos em um período de recrudescimento da Guerra Fria. Reagan de um lado, Brejnev e depois Andropov do outro, e nunca se acumularam tantas armas nucleares e convencionais como naquele tempo (pode pesquisar). Exercícios eram conduzidos por uns na porteira do quintal dos outros, as Alemanhas eram um palco permanente de vigilância e intriga (pois eram a fronteira entre os dois blocos), os mares estavam coalhados de navios de superfície, submarinos, sonares e aviões de patrulha, e todos vivíamos em tensão. Filmes de espionagem eram mais abundantes que os de ação, e os soviéticos eram vilões temíveis, sempre tramando, sempre sorrindo sobre facas afiadas. Foi a época de grandes suspenses de sucesso no cinema como Jogos de Guerra e A Raposa de Fogo.

Naquele tempo, abundava a literatura sobre veículos de combate. Os interessados hão de se lembrar com saudade das inúmeras publicações que saíram traduzidas no Brasil, como Aviões de guerra, Guerra nos céus, Guerra moderna, Corpos de elite, Máquinas de guerra, os Guias de Armas de Guerra, as séries Aviões de Combate e Aero Militar, e assim por diante. Era um material ótimo, como nunca mais se viu. Endereçado mormente a um público curioso mas não realmente especializado no assunto, tinha uma certa redundância de texto e imagens, e foi ali que os atuais quarentões tiveram contato com um conhecimento de (por exemplo) aviões militares que já está bastante desatualizado, embora frequentemente achem que aquilo tudo ainda é verdade (dica: não é. A RAF planeja a aposentadoria do Tornado GR4 já faz um tempo, você que só conheceu Tornado GR1; e os Tornados F3, Harriers, F-4, seu querido F-14 de Top Gun e versões iniciais do F-16 já sumiram do mapa faz tempo).

Mas havia também uma literatura mais séria. Os dois lados da Cortina de Ferro passavam o tempo a traçar cenários, prever ações e planejar reações. Do lado de cá, vimos parte do resultado em livros de ficção como os de Tom Clancy (sendo o mais famoso o primeiro, A caçada ao Outubro Vermelho), mas havia também uns trabalhos de não-ficção, um dos quais saiu pelo Círculo do Livro: Terceira Guerra Mundial: agosto de 1985, organizado pelo General Sir John Hackett e lançado em inglês em 1979. O livro refletia a visão da OTAN sobre como se iniciaria a dita guerra, com uma invasão em massa de blindados soviéticos através dos campos alemães, seguida de todo o desdobramento do que as melhores previsões diziam que aconteceria. Não se tratava de mero romance; era realmente uma peça de doutrina militar, explicitando o pensamento mais atual e planejado da OTAN para sua política de defesa. O assustador O Dia Seguinte, de 1983, partia de uma premissa semelhante e bastante repetida na época: após muita tensão e diplomacia, forças soviéticas invadiam um país do Oriente Médio (agora não lembro se era o Irã; podia ser; não esqueça que o Afeganistão esteve ocupado pela URSS de 1979 a 1989, com resultados desastrosos para o país do Urso) invadiam a Alemanha (será que eu lembrei errado mesmo? Mas ainda me lembro nìtidamente de ser Oriente Médio). O resultado da invasão era uma escalada muito rápida de reações mútuas até o ponto em que os soviéticos, derrotados, retiravam sua tropa da área e, em um gesto de despeito supremo, soltavam ali um artefato nuclear tático. A consequência disso era o imediato disparo de mísseis intercontinentais de um lado a outro do Pólo Norte, uns caindo no Meio-Oeste dos Estados Unidos, outros em alvos siberianos ou similares.

As lições, bastante óbvias, alertavam para os riscos da permanente tensão entre as superpotências, com as sobrevivências dos dois lados tornadas dependentes de gatilhos muito sensíveis. Além dessa quase-platitude, há uma noção que o grande público às vezes não pega (mas tampouco os analistas esquecem): a Guerra Mundial tende a começar em um ponto próximo, mas não dentro de uma das superpotências. É sempre um Estado menor, um satélite de um lado, que é sùbitamente ameaçado ou invadido pelo outro lado. O primeiro, perdendo o território de amortecimento em seu entorno e naturalmente se percebendo acuado, ataca preventivamente com uma ogiva nuclear tática, localizada; e o precedente leva a uma imediata multiplicação de ataques nucleares de gravidade crescente, até a aniquilação. O mundo torna-se mais radioativo e a guerra é realmente bem curta, mesmo que ainda haja remanescentes dos países que a iniciam.

Então, quem passou a vida lendo sobre esses cenários chega a 2014 e se depara com quê? Com a Rússia atrás de qualquer pretexto para incorporar a Crimeia a seu território enquanto soldados russos ocupam postos estratégicos (militares ou não) na península e, do outro lado, os Estados Unidos enviam 6 F-15C de Lakenheath para defender o céu lituano (no que, aliás, não há qualquer novidade, pois faz anos que os países da OTAN se revezam para compor a força de caças no patrulhamento daquele pequeno espaço aéreo) e 12 F-16C de Aviano para desembainhar suas espadas na Polônia (onde, aí sim, há novidade). Cabe lembrar que, vinte anos após o fim da Guerra Fria, a OTAN cresceu e alguns países que compunham o Pacto de Varsóvia — notàvelmente a Polônia — agora fazem parte da OTAN. A Alemanha Oriental, fronteira do Pacto, foi absorvida para dentro da OTAN; a Lituânia também, ela que era parte da URSS. Então, vejam que o território sob domínio soviético encolheu, e a Crimeia pode ser interpretada como uma área em disputa… como era a Alemanha em 1983.

Esses caras estão brincando com fogo. A Rússia não é a Coreia do Norte, onde cão que ladra não morde. Não é a Venezuela, onde a venda de petróleo aos EUA prossegue tranquila longe dos olhos do público iletrado. A Rússia é comandada por um ex-agente da KGB que não tem medo de apertar o botão.

O que eu sei é que hoje meu sono não será tranquilo.

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Observações em A Identidade Bourne

Em The Bourne Identity (o filme de 2002, com Matt Damon, não o de 1988, com Richard Chamberlain), na marca de 1:35:30, vemos um jato executivo da CIA, onde embarca o Agente Conklin. O avião é claramente um Dassault Falcon trimotor branco, portando o símbolo do fabricante na deriva e o registro N-GIDE.

Ora. Qualquer Leitor acostumado a registros de aeronaves (“prefixos” no linguajar brasileiro) sabe que, nos Estados Unidos, os registros começam com a letra N mas continuam com algarismos, sem traço entre o N e os algarismos. Uma sequência de traço e quatro letras não faz sentido num registro americano.

Mas uma letra seguida de traço e quatro letras faz todo o sentido na Europa, onde são assim os registros britânicos, alemães, italianos e franceses. Além disso, podemos ver, no filme, que a letra N não está pintada diretamente na fuselagem como estão as outras; o N, e somente ele, está impresso em alguma camada adesiva que foi colada antes do traço.

Não é necessária muita intuição para se perceber que alguma outra letra ocupava o lugar do N. Sendo um avião da Dassault e ainda tendo o símbolo dela na cauda, podemos imaginar que a aeronave pertença à própria Dassault (e não a alguma empresa que a tivesse alugado ao estúdio). Portanto, o avião há de ser francês, com registro original F-GIDE.

Uma breve pesquisa por F-GIDE no Airliners.net revela que, de fato, o trimotor do filme é o primeiro exemplar do Dassault Falcon 900, apresentado em Farnborough em 1988. Pode-se ver aí uma espécie de product placement por parte da distinta fabricante francesa.

Além disso, Bourne Identity tem duas cenas com truques de desaparecimento. A primeira, aos 0:09:45, mostra Bourne caminhando no porto quando uma camioneta passa entre ele e a câmera. No exato instante em que os dois passam um pelo outro, dois sujeitos caminham da esquerda para a direita a centímetros de distância da câmera, òbviamente encobrindo Bourne e a camioneta. Assim que os dois sujeitos saem da frente, vê-se a camioneta, ainda fazendo seu percurso, mas… Bourne sumiu!

Essa cena tem a evidente intenção de simbolizar o desaparecimento de Bourne no terreno: sem identidade, sem cartão de crédito, sem passaporte, não é possível rastreá-lo, não é possível saber onde ele está até que seja encontrado a centenas de quilômetros dali. Mas, mesmo assim, a técnica é surpreendente. Nos comentários ao DVD, o Diretor Doug Liman esclarece que não houve edição de vídeo nem efeitos de computador; foi tudo feito realmente diante das câmeras. Nesse caso, onde está o truque?

Pausando e exercendo um quadro-a-quadro, podemos ver uma esperta sequência: antes que os dois sujeitos apareçam para encobrir sua visão, você consegue perceber que Matt Damon e a camioneta estão muito próximos um do outro e que o ator está apenas alguns passos além dela. Os dois caminhantes cobrem sua vista porque é aí que o diretor vai desempenhar seu pequeno truque de mágica; eles fazem o mesmo papel de uma cortina no palco. Mas, em um fotograma isolado, conseguimos perceber as pernas de Damon. Prestando muita atenção a seu casaco vermelho, e olhando através dos vidros da camioneta, podemos ver que Damon sobe no lado de fora dela mas fica escondido, abaixado por trás do motorista e da cabine. Nos fotogramas seguintes, a camioneta desloca-se para a direita da tela e ele vai junto; no fim da sequência, Damon até mesmo começa a se levantar. O truque funciona porque, no início, ele estava caminhando para nossa esquerda, e a ponto de cruzar seu caminho com o da camioneta, de modo que temos a expectativa de vê-lo na continuação desse movimento, quando, na verdade, ele e a camioneta avançam para nossa direita, onde não esperamos vê-lo. Tal como em todo truque de ilusionismo, o mágico rompe com nossas expectativas, fazendo com que tudo ocorra em uma direção diferente daquela para onde estamos olhando.

Outro pequeno truque de desaparecimento ocorre aos 1:49:29: Bourne vem caminhando da direita para a esquerda, a câmera acompanha-o de modo a mantê-lo centralizado, e então a câmera pára. Como Bourne continua caminhando, òbviamente ele avança para fora do campo de visão. A câmera continua parada e então volta-se lentamente para o lado onde ele sumiu, supostamente para acompanhá-lo — exceto que, novamente, ele desapareceu. Esta é outra cena intencionalmente simbólica, indicando que Bourne se tornou novamente irrastreável e que agora pode estar em qualquer lugar, abaixo dos radares. Também aqui o diretor informa que tudo foi feito diante das câmeras, sem mais tecnologia. Este caso é fácil, e Liman esclarece que bastou Matt Damon correr para fora do campo de visão, mais rápido do que se podia acompanhá-lo.

Uma última observação é que, aos 1:50:10, o Vice-Diretor Abbott menciona o projeto Blackbriar. Neste filme, essa é uma menção genérica; poderia ser qualquer outra palavra, indicando apenas que Abbott está descrevendo projeto atrás de projeto, sendo Blackbriar o próximo na fila depois de Treadstone. Porém, quando assistimos ao terceiro filme da sequência, The Bourne Ultimatum, aprendemos que Blackbriar é o projeto que sucedeu a Treadstone. Nenhuma fala é perdida.

Agora em inglês:

In The Bourne Identity (the movie from 2002, with Matt Damon, not the one from 1988, with Richard Chamberlain), at the 1:35:30 mark, we see a CIA business jet, which Agent Conklin boards. The airplane is clearly a white, three-engined Dassault Falcon, bearing the manufacturer’s logo on the fin and the registration N-GIDE.

Well. Any Reader who is accustomed to aircraft registrations will know that, in the USA, they begin with the letter N but continue with algarisms, without a dash between the N and the algarisms. A sequence with a dash and four letters does not make sense in the American registry.

But one letter followed by a dash and four letters makes every sense in Europe, where British, German, Italian and French registries follow such pattern. Besides, we can see in the movie that the letter N is not painted directly on the fuselage as the other letters are; the N alone is printed on some removable coating that had been glued before the dash.

One does not need much intuition to realise that some other letter occupied that spot under the N. This being a Dassault airplane and, on top of it, bearing the manufacturer’s logo on the fin, we can imagine that the aircraft belongs to Dassault itself (and not to some company that would have loaned it to the studio). Therefore the airplane must be French, with original registration F-GIDE.

A quick search for F-GIDE at Airliners.net reveals that, as a matter of fact, the movie’s trimotor is the first example of the Dassault Falcon 900, displayed at Farnborough in 1988. One could see some product placement by the noted French manufacturer there.

Also, Bourne Identity has two scenes with disappearing acts. The first one, at 0:09:45, shows Bourne walking on the harbour when a small cargo truck passes between him and the camera. At the exact instant when Bourne and the truck pass by each other, two men walk from left to right, centimetres away from the camera, obviously hiding Bourne and the truck. As soon as the two men get out from your face, you can see the truck, still making its run onscreen, but… Bourne has vanished!

This scene has the evident intent of symbolising Bourne’s disappearance into the terrain: without an identity, without a credit card, without a passport, it is not possible to track him, it is not possible to know where he is until he is found hundreds of kilometres away. Even so, the technique is surprising. In the DVD commentary, Director Doug Liman makes it clear that there was neither video edition nor computer effects; everything was made on-camera. In this case, where is the trick?

By freezing and stepping frame by frame, we can see a smart sequence of events: before those two men appear to cover your view, you can notice that Matt Damon and the truck are very close to each other and that the actor is just a few steps beyond it. The two walkers cover your view because this is where the director will perform his little magic trick; they fulfill the same function of a curtain on stage. However, in an isolated frame, we can see Damon’s legs. By paying a lot of attention to his red coat, and by looking through the truck’s glass panes, we can see that Damon climbs on the vehicle’s outside but stays hidden, lowered behind the driver and the cabin. In the following frames, the truck runs to the right of the screen and he goes along with it; at the end of the sequence, Damon even starts to rise. The trick works because, at first, he was walking towards our left, and about to cross paths with the truck, so that we expect to see him proceeding on this movement, when in truth he and the truck are moving towards our right, where we do not expect to see him. Just as in any illusionist’s trick, the magician breaks our expectations, making everything happen in a direction divergent from the one we are looking in.

Another minor disappearing act takes place at 1:49:29: Bourne comes walking from right to left, the camera follows him in order to keep him centred, and then the camera stops. Since Bourne is still walking, he obviously steps outside the field of vision. The camera remains where it stopped and then turns slowly towards the side where he went out of sight, supposedly to continue following him — except that, again, he has disappeared. This is another intentionally symbolic scene, pointing out that Bourne has again become untrackable and that now he may be anywhere under the radars. Here, again, the director advises us that everything was done on camera, without any further technology. This is an easy case, and Liman explains that it was enough for Matt Damon to run out of sight, faster than the camera could follow him.

A last observation is that, at 1:50:10, Deputy Director Abbott mentions project Blackbriar. In this film, this is a generic reference; it could have been any other word, just to show that Abbott is describing project after project, Blackbriar being the next in line after Treadstone. However, when we watch the third movie in the sequence, The Bourne Ultimatum, we learn that Blackbriar is the project that has succeeded Treadstone. So much for throwaway lines.

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É fácil de encontrar quando se sabe onde procurar

Muitas vezes, os iniciantes na apreciação da Arte têm a noção de que os artistas desenham imagens que já têm prontas na cabeça. De que os desenhos são feitos sem qualquer referência a objetos reais, obedecendo sòmente a abstrações. Dentro dessa ideia, a prova do talento do desenhista está no sucesso em representar um objeto real (ou que poderia ser real) sem nunca ter olhado para ele.

É por isso que, às vezes, o apreciador se decepciona quando vem a descobrir que o artista se valeu de um modelo, da observação de uma pessoa viva, ou de uma fotografia. É como se trapaceasse, como se o trabalho valesse menos, como se fosse uma “cópia”.

Porém, se o apreciador convive por tempo suficiente com o processo de criação — ou até se ele mesmo se dispõe a criar sua própria arte –, logo pode perceber que é assim mesmo que funciona. Difìcilmente o artista parte do zero, de uma imagem que não existe. Quando isso acontece, frequentemente o resultado é arte abstrata, que não tem qualquer compromisso com as impressões visuais da realidade. Mesmo Alex Ross, considerado um dos maiores desenhistas de quadrinhos desde os anos 90, usa modelos: o Padre McCay, personagem narrador da obra-prima Kingdom Come, tem sua aparência baseada na do pai de Ross. Boris Vallejo, conhecido por suas capas de livros e figuras de Conan, o Bárbaro, também se vale de modelos. A versão Ultimate de Nick Fury teve sua aparência baseada em Samuel L. Jackson — que veio a interpretar Nick Fury nos recentes filmes da Marvel –, assim como John Henry Irons, o Aço da DC, tem o rosto de Shaquille O’Neal, que interpretou o papel mais tarde, na bomba Steel, que nem apareceu nos cinemas daqui (mas que já foi exibido pela TNT).

Portanto, não é surpreendente o que encontrei. Estava eu lendo Astro City: inquisição, que é a versão brasileira da compilação de Kurt Busiek’s Astro City #4-9, quando cheguei ao capítulo que corresponde a KBAC #8, de abril de 1997, escrita por K. Busiek e desenhada por Brent Anderson.

Nas páginas 121 e 122, encontrei estas figuras.

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Não haveria nada de mais, e o Leitor que não se interessa por aviões passaria batido. Exceto que eu tenho uma memória terrível para as coisas de que gosto, porque de imediato reconheci as duas imagens. Acontece que tenho alguns livros da coleção Guias de Armas de Guerra, publicada pela Nova Cultural nos anos 80 a partir de originais da inglesa Salamander. Um desses livros é Aviões do futuro, que se divide em dois volumes.

A edição original e o volume I da traduzida

A edição original e o volume I da traduzida

No volume I, encontramos uma das várias representações de conceitos preparatórios para o ATF (que, anos mais tarde, viria a se tornar o F-22). Um deles é este aqui:

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Lamentàvelmente, não consigo ler a assinatura do artista original, bastante esmaecida e parcialmente cortada no livro.

Já no volume II, duas páginas são dedicadas ao helicóptero experimental S-69, do qual se vê a seguinte fotografia:

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Vamos facilitar a vida do distinto Leitor:

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Eu não sei você, mas não tenho a menor dúvida de que Anderson teve acesso aos livros dessa excelente coleção.

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Então furaram seu lugar na fila? Grandesm*rda

Aconteceu comigo em 10/01/2014.

Eu estava na fila do restaurante Delírio Tropical da Rua da Assembleia, uma fila que, notória e frequentemente, estende-se por vários metros ao longo da calçada, do lado de fora do restaurante. À minha frente, duas jovens profissionais conversavam animadas. Atrás de mim, um bocado de gente, e eu já estava razoàvelmente perto da porta.

Sùbitamente, às duas moças se reuniram outras duas, furando a fila na maior cara de pau, sem olhar para trás mas tornando a conversa ainda mais animada. Pensei que tivesse sido algum engano da parte das recém-chegadas: certamente não repararam que suas companheiras de fofoca não eram as últimas da fila; certamente não haviam olhado para trás nem, portanto, notado que a fila se estendia ainda por mais de uma dúzia de pessoas.

Além disso, considerando que sempre posso ser eu o errado, preferi abordar as recém-chegadas com uma pergunta simples.

— Com licença. Vocês estavam na fila?

— Não, a gente acabou de chegar, mas elas aqui estavam esperando a gente.

— Ah, tá, entendi. Só para eu saber: são só vocês ou tem mais gente vindo? Quantos ainda vão se juntar aí a vocês na fila?

A mocinha ainda foi debochada:

— Na verdade são vinte pessoas, mas —

— É. Ó, vocês lembraram de perguntar a essa gente toda aqui atrás (indiquei o povo) se eles concordavam com isso?

— Não, mas você fique à vontade para perguntar, tá?

Evidentemente, esse final eu mereci em razão de minha pergunta. E assim não falei mais nada, e a fila seguiu, e ainda houve um terceiro canalhinha juntando-se ao grupo das patricinhas furadoras de fila.

A primeira constatação é que eu fui um frouxo e um covarde, que deixei isso acontecer. A segunda é que eu fui um otário. Ambas estão corretíssimas — afinal é isso mesmo — e predominam sobre qualquer outra percepção que se tenha. O que é que eu esperava: que, com minha mera reclamação, baseada apenas na voz e desacompanhada de uma arma de fogo como estava, elas caíssem em si e fossem lá para trás? Ora, faça-me o favor. Então, passados dois dias, vamos a outras observações menos evidentes.

Atentemos à apresentação sócio-econômico-etária das cinco moças. Existe um estereótipo no qual se enquadram à perfeição, que é o de patricinhas entitled: moças crescidas em um ambiente onde ninguém nunca lhes negou nada (tripla negativa equivale a negativa única, certo?). O mundo sempre teve o dever de servir-lhes, dobrando-se diante de seus caprichos. Se a professora lhes dava nota baixa, lá estava Mamãe no dia seguinte, a exigir da diretora que corrigisse o abuso. Consequentemente, sempre tiveram direitos e nenhum dever. Nunca alguém lhes apresentou o conceito de fila, ou de direitos alheios: em face delas, ninguém tem direitos, pois todos devem render-se aos delas. O mundo é um passeio no parque onde têm automático direito a tempo bom e estão livres para defecarem no prato de comida dos outros.

Consequentemente, as patricinhas entitled não percebem que estão erradas ao furar a fila do Delírio Tropical na Rua da Assembleia. Na óptica delas — genuína! –, eu é que estou errado em interpelá-las, como se tivesse algo a reclamar por ocuparem o espaço que é delas por direito.

Outras observações podem ser feitas. Já não é a primeira vez que vejo isso. Nos últimos anos, tenho notado que, nos Delírios da Rua da Assembleia e da Rua do Rosário, é muito comum que mulheres estejam na fila e, sùbitamente, suas amigas venham juntar-se a elas, dobrando ou triplicando o grupo enquanto outras pessoas, atrás na fila, aceitam passìvamente a penetração de seus direitos.

Notem que eu digo isso mas não agi diferente: apesar da intervenção rabugenta, nada fiz de efetivo que defendesse minha posição. Tentei resistir na boa fé e me deparei com o reforço da ousadia: furamos a fila sim, e daí? O confronto e meu fracasso me fazem pensar se, na verdade, quem estava ali violando direitos não era eu: aparentemente, em matéria de fila do Delírio Tropical, o costume, jurìdicamente já assentado, é que mulheres esperem outras mulheres na fila e as recém-chegadas se incorporem à fila, sem qualquer consideração ao número de pessoas para trás. Pelo que estou entendendo, isso não se considera “furar fila”: é assim que funciona. (Até essa sexta, eu só havia visto mulheres fazendo isso. Foi a primeira vez que vi um homem aderindo à prática, que eu já estava considerando exclusivamente feminina. So much for sexismo.) Eu é que era um misantrópico perturbador da paz, querendo mudar a regra.

Também estive pensando em minhas alternativas. O que mais eu poderia ter feito: obrigado as recém-chegadas a irem lá para trás, na marra, em desforço necessário passível de enquadramento no Código Penal, artigo 345? E como fazer isso sem perder o lugar na fila? Deveria armar um barraco, iniciar uma gritaria que só poderia terminar com a minha remoção do lugar? Deveria chamar o vigilante do restaurante, o gerente? Nenhum dos dois tem qualquer responsabilidade sobre a fila. Deveria ligar 190, chamar o guarda? Boa sorte diante do silêncio (na melhor hipótese), da risada (na hipótese piorzinha) ou da acusação (justa) de tomar o tempo da autoridade com besteira, seguida de prisão em flagrante. Deveria alardear a quem estivesse atrás de mim, “estão furando a fila de vocês”? Isso seria a injusta terceirização do meu problema e um reforço da minha fraqueza, ou da do meu direito, que precisa do socorro dos outros para se afirmar.

Sejamos realistas: não havia NADA que eu pudesse ter feito, em termos práticos, que pudesse fazer valer meu lugar na fila. Tão cedo quanto eu perceba isso, tanto menor será o prejuízo. No momento em que as invasoras chegaram, deveria estar nítido para mim — desde cedo, desde antes — que o lugar era mesmo delas e que, portanto, delas era o direito de fazerem o que quisessem.

Aliás é cabível discutir que “problema” é esse de que falei aí em cima. Eu venho repetindo, já faz um tempo, que todos — TODOS — os males da humanidade decorrem do ego. Todas as guerras, todas as brigas e pecados, todas as frustrações, crimes e punições. Esse caso não foi exceção. Notem que fui o único integrante da fila a se importar com o furo das patricinhas, como se tivesse um grande direito, ó que importante, eu o centro do mundo, tendo meu espaço invadido. Acusei as patricinhas de atropelarem direitos alheios como se delas fossem, em total desconsideração, e ora veja, quem está se atribuindo demasiada importância sou eu, não elas. Eu é que estou aqui, tomando seu tempo de leitura com minhas insatisfações, enquanto elas estão por aí, usufruindo o serviço que o mundo lhes traz, todas pimponas.

Os praticantes do zen dirão que é uma questão de apego, ou de perdê-lo. Que estou me prendendo à agressão que sofri no meu passado, em um momento que, quanto mais se afasta de mim no tempo, mais cresce em minha memória em vez de diminuir, como devia. Que só me vejo agredido porque ainda insisto em me dar importância, com um ego ainda mais exagerado do que o delas. Que esses são os fantasmas que vão me corroendo e que um dia ainda vão me matar. Que eu devia deixar correr frouxo, que a longo prazo nada sofri, ainda consegui almoçar e voltar para o trabalho e agora estou aqui, e que eu é que estou errado em ficar remoendo essa história. E aliás não é a primeira que me acontece; já houve outra há uns meses, em outro estabelecimento, e não foi envolvendo fila, nem vou contar aqui qual foi.

Tudo isso pode ser. A sensação de ter sido lesado não vai embora, e é fácil falar tudo isso sobre ego versus zen quando não foi no calo do Mestre Yoda que pisaram mas no meu. Só que é verdade que há problemas muito mais graves no mundo; há fome na África, há presos políticos na China, há esgoto a céu aberto na maior parte do Brasil e da Índia, e aquecimento global e desmatamento e AIDS e corrupção. Diante de tudo isso, desaparece meu pseudoproblema, que é no mínimo ridículo.

Ao mesmo tempo, não posso deixar de reparar neste detalhe que acabei de mencionar: corrupção. As distintas senhorinhas certamente se julgavam em seu lugar natural, fila não vale para elas, e é exatamente aí que mora um dos vícios estruturais da sociedade brasileira. A invasão que sofri, tòpicamente, empalidece diante de sua causa, muito maior, que é a falta de uma visão cívica. Elas tomam o lugar dos outros na fila porque isso é o natural na sociedade brasileira, onde ninguém realmente tem direitos. Nem os ricos: eles de fato têm mais poder, e exercem esse poder e fazem valer seus desejos, mas nem eles nem os pobres têm direitos; as relações são meramente de força. Então, as jovenzinhas são exatamente as mesmas — as mesmas! — que fizeram passeata em junho do ano passado, exigindo o fim da corrupção, exigindo vergonha na cara, cansadas de serem pisoteadas pelos políticos e pleiteando educação e hospital público e enxovalhando os condenados do Mensalão… E agora não veem nada de errado em se enfiarem na fila alheia, em absoluta cegueira ao fato de que estão jogando para trás quem já tinha chegado antes.

… Não, não, eu me engano. É claro que elas repararam que havia mais gente. É justamente aí que está o exercício da função de patricinha entitled: só faz sentido, e só tem graça, quando já havia alguéns na fila. Senão não adianta. Não é que não percebam que prejudicam outras quinze ou vinte pessoas. É que isso não faz a menor diferença para elas. Elas são patricinhas entitled e entram onde quiserem.

Nada disso impede o fato de que este texto é a ruminação de um ego ferido, trabalhando o luto de sua dignidade. Eu poderia ser uma alma iluminada, transcendendo a ofensa, perdoando as ignorantes e percebendo que, a longo prazo, são pessoas infelizes, que vivem agressivamente e portanto se desgastam. Poderia construir uma ilusão de que, naquilo que importa na vida, eu já estivesse em melhor condição e tivesse mais curtição do que elas, “para que se importar com a fila se você tem mais qualidade de vida do que elas, coitadas?” Mas não é nada disso. Na verdade, não querendo mentir para mim mesmo e sabendo que wishful thinking não beneficia ninguém, sei muito bem que são, sim, pessoas mais tranquilas, mais resolvidas, com melhor conforto, mais e melhor entretenimento, melhor administração do tempo, com futuro financeiro já assegurado, sem nenhuma razão para qualquer dos temores ou incertezas que me afligem. É precisamente em razão de terem tudo isso, de estarem alguns degraus acima na escada social, que elas podem escolher o lugar que quiserem na fila que quiserem.

Então, se algum proveito essa experiência pode me dar, é que eu posso continuar na ilusão de um mundinho ordenadinho onde meu ego é preservado, ou posso largar a infância e vir ao mundo real das pessoas adultas, onde claramente ainda não sei agir mas onde claramente uma das medidas necessárias é passar por cima do cidadão ao lado. E onde, por enquanto e até onde enxergo adiante, o meu lugar é deixando que as patricinhas entitled tomem a frente. Eu tenho que saber o meu lugar. Se eu quiser começar a melhorar de vida, deveria já começar, isto sim, a seguir o exemplo delas. O primeiro passo para ser aceito como aprendiz e sonhar em ser aceito como um igual é reconhecer a própria ignorância e se render à regra verdadeira.

E não ficar alimentando um ódio que intensamente deseja que, onde quer que estejam, aquelas cinco patricinhas morram cruel, lenta e sangrentamente, em dor e desespero, como estou desejando agora.*

EOF

* É sério. Nem Premonição atenderia, porque morte súbita não dói. Tá mais pra Jogos Mortais.

Microconto de Berlim

Tudo isto eu vi

O ônibus parou em frente à atração turística.

De dentro saíram milhares de japoneses, uma parada militar de saúvas, todos ostentando câmeras, todas alinhadas a laser na mesma direção, o mesmo objeto, o mesmo olhar. Alguns astrônomos cogitaram de usar o resultado para interferometria, até que alguém observou que os comprimentos de onda visíveis requeriam uma separação microscópica entre os CCDs.

Feitas as fotos do monumento, os japoneses iniciaram uma estranha coreografia, onde, com coordenação impecável, conseguiram fotografar uns aos outros em todas as combinações possíveis, sem repetição.

Então voltaram para dentro do veículo, com tanta ordem e celeridade quanto houvera em sua chegada.

Naquela noite, derrubaram o servidor do Flickr.

Multiple contact points

Today I shall dabble in two different topics within the same overall subject, which is DC Comics’ super-hero comics. These two topics have a point of contact that deserves review, and this is why I have come here.

The first topic is the annuals. DC Comics issues its super-hero titles monthly. (Everything I say in this text is true as a rule in 2013, but the titles change over the years and my reading is still in 1996, so that the specific examples I give are from that year.) Thus, Superman’s continuing adventures are out in Action Comics, The Adventures of Superman and Superman; Batman’s in Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat and The Batman Chronicles; other heroes are published in Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman and many, many other titles that the lay public would not recognise, such as Nightwing, Azrael and Impulse.

Usually, each one of these series has twelve issues a year. The most popular of them are matched by other, yearly series, which are equivalent to special editions — as if they were thirteenth issues of the main title. These are the Annuals, as in Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. According to DC’s practice, the story that comes in an Annual is not a part of the storyline that is told over months in the main series; yet it is a part of the official chronology. Each Annual usually has more pages than the corresponding monthly title, and some have more than one story per issue.

In the 1990s, DC used to give the same theme to each year’s Annuals. For example, in 1991 all of them were interesting tie-ins to the Armageddon 2001 event. In 1994, all of them were Elseworlds stories. In 1996, all Annuals brought the subtitle “Legends of the Dead Earth”. Each one told a story that was not necessarily compatible with those of the other Annuals, but each writer was in charge of creating variations on the same theme: a distant future when planet Earth no longer exists. In this future, the hero from the regular title (not the one in the Annual) has been dead for centuries, but his or her memory lives on somehow, and another hero follows on his or her footsteps.

Batman Annual #20. Weak story.

Green Lantern Annual #5. Fun story.

Most of these Annuals turned out unimpressive. This is not exactly a surprise, seeing as that, according to Sturgeon’s Law, 90% of all cultural production is trash. It could not be otherwise: first, statistically it would not make sense that everything were good, and this is exactly why the word “mediocre” has ceased to mean just “average” and started to mean “bad”; second, by definition you will only notice that something is good because it stands out from the rest, and this is where the word “good” starts to have its meaning. If everything were good, you would not realise that it were good, nor would you, therefore, even be aware of the concept or have a name for it.

Precisely because of all this, when one of these Annuals turned out much better than the others, it drew my attention. I refer to Legionnaires Annual #3, which was one of the last Annuals of 1996, having been published along with December’s regulars. Differing from the other Annuals of 1996, this one had its story as an aftermath of another that took place in a main title.

This is where we hold the discussion of 1996’s Annuals and enter the second topic, which is the chronology of the many characters named “Flash”. As it is in the case of most any other DC super-hero, a full chronology would deserve lengthy explanations and due commentary. Unfortunately, because of the scope of this article, I will have to leave the treatment that the Flash deserves for a later date, because that would be too long an exposition, with too many details. Just you believe that everything I say hereunder has a fascinating, minutiae-ridden story behind it, and do yourself the favour of researching it, because there are lots of effort and creativity involved. For now, let us move on.

Follow me. Historically, the nickname “The Flash” was first attributed to a character called Jay Garrick who had acquired super-speed. This Flash’s stories were published from 1940 to 1949, during the Golden Age of comics, and then his monthly book Flash Comics ceased to be published. Maybe you still remember him: red shirt, blue trousers, helmet, maskless.

Jay Garrick, the first Flash. I tried to use Wikipedia’s image, but WordPress will not allow it. So go there and type “Jay Garrick”.

In 1956, DC Comics revamped the concept and launched a new character named Flash. This time, the runner was an often-late police chemist called Barry Allen, who was gifted with his superpower when struck by a lightning in the Chemistry lab. This second Flash gave continuity to Flash Comics and today is considered to be the character who gave DC’s Silver Age of comics its start.

The second Flash, Barry Allen

This is the Flash who became famous, whom readers came to love and whom the lay public is aware of. He is the epitome of the good-hearted hero willing to sacrifice his own life to save the others’ — in some cases even more so than Superman himself, who is considered the archetypal super-hero for all his physical and psychological traits.

In 1961, with the publication of The Flash #123 and its story “Flash of Two Worlds!”, writer Julius Schwartz brought forth the concept that, in my view, is the most ingenious and mind-stimulating idea in the whole DC Universe: the notion of parallel universes where the heroes have counterparts who are like different versions of the same person. With this issue, it was retroactively established that the old Flash (Jay Garrick) kept on existing despite no longer being published. It is just that his adventures took place in another universe, in so-called Earth-2. By jumping dimensions, Barry Allen meets Jay Garrick, declaring himself his admirer and follower.

The Flash #123, a classic issue. This story changed the whole DC universe. An original copy is worth more than a thousand dollars, but, fortunately, it is easy to find reprints.

In the following years of the Silver Age, we learned that all the heroes who had been published during the Golden Age (from 1938 to 1951), including Superman, Batman and Wonder Woman, were a part of Earth-2, while the heroes that were being published from 1955 were set in Earth-1 (in Brazil, “Active Earth”). Thus there were two Supermen, two Batmen, two Wonder Women, two Green Lanterns (one of them being Alan Scott, the other Hal Jordan), two Flashes etc., one of each on each Earth. The vast majority of DC’s regular titles told the adventures on Earth-1, but, in the 80s, some titles started to tell of adventures that continued on Earth-2, outside of DC’s main chronology. The meetings of heroes from the two universes were much celebrated, especially those in the anxiously anticipated stories that were out once a year in the regular issues of Justice League of America.

(Incidentally, the variety of Earths in many universes only became one of DC’s relevant topics in the miniseries [or so-called “maxiseries”] Crisis on Infinite Earths, in 1985-1986. This lengthy story, written by Marv Wolfman and wonderfully pencilled by George Pérez, redefined the whole DC Universe, with a fundamental impact on the chronology of every character and permanent effects that are discussed to this day. At the time, its purpose was to extinguish the multiverse, kill off many characters and gather the survivors in a sole, streamlined universe. Over the years, the idea of a multiverse has come back, since it was too good to be wasted, but it would only become a main theme of discussion again in the period 2006-2008, with Infinite Crisis and Final Crisis.)

In 1984-1985, the monthly The Flash threw Barry Allen to the 30th century, in a long and complex storyline where he never went back to his original time. When the Crisis on Infinite Earths came about, Barry made the final sacrifice to save the many Earths, but no one witnessed his death. According to George Pérez, Barry was chosen to be a martyr because the idea of a DC multiverse had begun with him, therefore also with him this multiverse would end.

Barry Allen’s final sacrifice, saving DC’s universes in his last race.

Then, in a turn of events which was very controversial at the time and which attracted the fury of many a fan, not only did Barry stay dead definitively(*) (which never happens to any comic book character, but finally happened to him) but also he was succeeded by Wally West, the nephew of his wife. Wally was an old acquaintance of the readers’, because he had undergone the same kind of freak accident as Barry had before him (yeah, writers could be less creative during the Silver Age) and, for a good time, followed in the footsteps of his beloved and admired uncle-by-marriage as Kid Flash, having, by the way, been a part of the Teen Titans and of the New Teen Titans. With Barry’s passing, Wally became the third Flash.

Kid Flash (Wally West during the Silver Age)

At the end of the Crisis, Wally takes on the legacy of his uncle-by-marriage.

Wally West as the third Flash, after the Crisis.

[Parenthetical: the 1990 short-lived TV series The Flash told the adventures of Barry Allen, whose origins and profession matched those of the Barry Allen from the Silver Age comics. However, the Flash from this TV series had the personal traits and metabolic characteristics of Wally West, who already was the Flash in the comics of the time. I assume that these choices were made to join Wally’s popularity to the knowledge by an older public of laymen in relation to the only Flash that they probably knew, who had been the longer-standing Barry Allen (who had been active for thirty years up to 1986), in comparison to then-upstart Wally West (active for only four years up to that point).]

In 1994-1996, the monthly The Flash was written by brilliant Mark Waid, Author of the masterpiece Kingdom Come and one of the writers who best understand and respect their characters. Waid wrote many stories where he rounded up the many super-speedsters of the DC universe, and I love stories that join up variations on the same character. In particular, Waid’s stories on this motif are excellent and inspired. Besides, at the time when he was writing the Flash, Waid raised this character’s superpower to something greater than him, inserting Wally into a continuity where a single force in the universe was the moving source of all the super-speedsters. Suddenly, the Flash’s superpower was no longer unique, and it was revealed that it was derived from an energy field which common mortals were incapable of reaching: the Speed Force. In Waid’s hands, the Flash became sort of a Jedi knight of speed, a privileged man who, just like Neo in The Matrix and Luke Skywalker in Star Wars, had access to understanding hidden meanings in reality and to perceiving universe, time and space with a zen sense of unity. The Speed Force has the effect of a power that is neither magical nor, however, understood or even noticed by humans, an energy that permeates the universe and which only the super-speedsters are able to explore. Therefrom spring some very interesting stories where we can see the world in slow-motion through the eyes of the scarlet racer as Wally gradually finds out that his speed power brings many side benefits, such as time travel and the possibility of giving other people a “ride” on his speed. Also, writer Waid treated Barry Allen’s memory with religious reverence, endowing Wally with the desire to better know the destiny of his uncle in the 30th century and to contact the expanded reality which had fed Barry and which only now became visible to himself.

At the beginning of 1996, The Flash told the many-part Dead Heat story arch, where Wally strove to stop the villain Savitar from disabling all heroes whose superpower is their speed: Wally himself, Jay Garrick, young Impulse (Bart Allen, a grandson of Barry’s, born in the 30th century), Johnny Quick, his daughter Jesse Quick, wise Max Mercury (a time-traveling speedster revamped by Waid, born in the Old West and, already at a certain age, a mentor for the other speedsters) and some others. In order to beat Savitar, Wally had to accelerate in a way that had never been demanded of him, entering the timestream and, out of control, traveling to the 64th century.

In the Race Against Time! story arch, after defeating Savitar and already in the second half of 1996, Wally tries to return to his time in successive jumps back the centuries. One character who helps him is John Fox, the Flash of the 27th century, heir to the mantle out of inspiration by the memory of both Barry and Wally.

Following the continuity of stories, I am now in (or at) December 1996, at the point where Wally manages to return to the 20th century. It just so happens that, when he was still fighting Savitar earlier in the year, Wally was helped by a racer codenamed XS, who, by the way, is also Barry Allen’s granddaughter born in the 30th century (and Bart’s cousin). In Dead Heat, XS had gone back in time, from her 30th to the 20th century, along with her colleagues from the Legion of Super-Heroes, and had become stuck here. Just like Wally resorts to using the Speed Force to come back from the future to the present (and ultimately succeeds), XS attempts to jump in the opposite direction, from the present to the future (which is “her present”). In the 1996 issues of the monthly The Flash, the young heroine XS is just a supporting character, and there comes a moment (in the first chapter of Race Against Time!, The Flash #112, April 1996) when John Fox and Jay Garrick give her a hand in time-jumping. XS disappears, the Reader is led to assume that she has managed to get home, and the story turns its focus back onto the Flash, his misfortunes and his own happy return.

And this is where, always in the effort to read everything in the original publication order, I arrived at Legionnaires Annual #3. This is where the two topics touch. Having read the other annuals of 1996, I had assumed this issue to be in the Sturgeon’s Law’s 90% portion. To my very grateful surprise, I then discovered that I had been wrong! The story starts out by showing what happened to XS when, with the help of Fox and Garrick, she launches into the timestream. Thereafter she feels attracted by a focal point, leaves the timestream and finds herself already in the 30th century, but still a long way from the point she was trying to reach. She realises that the point which attracted her was the assembly of a time-travel device by the hands of… Barry Allen! Ever since the stories published in 1986, I do not recall having seen any new story with Barry Allen that was not some retrospective or otherwise a story set in the Silver Age, when he was the titular Flash. As far as I know, this is the FIRST story where Barry appears while, for the reader, “today’s Flash” already is Wally West. Unfortunately for XS, Barry is still too young, does not even have any children and, therefore, does not recognise her. Still, this is a moving moment, because XS sees the opportunity to meet her grandfather, who was already deceased when she was born. The scene could even have been a tear-bringer, I would not mind. But the two of them do not know each other, so what remains is that deep admiration and XS’s feeling that she is beholding a historic icon, one of the greatest heroes of them all, in a lonely, introspective moment — and he is her grandfather!…

Barry gives XS the privilege and the honour of running along with him and then works as a catapult for her, sending her again into the timestream. This time, XS ends up in the 100th century, where she learns that Earth is no longer (this being the common point with the other annuals of 1996, Legends of the Dead Earth), as the Legion of Super-Heroes is no longer either. On the planet Almeer-5, humanity is oppressed by the villain Nevlor, who has imprisoned the few remaining metahumans. One of the heroes in jail is Avatar, who wields the ancient Spear of Destiny, which can only be raised by those worthy of it. Her outfit resembles those of Jack Kirby’s gods, particularly that of Marvel’s Thor, whose hammer Mjölnir only those worthy are able to raise. Another heroine is Melissa Trask (an anagram of “Stark”, get it?), who is a brilliant electronics engineer and has crafted a flying armour that fires bolts from its hands (just like Iron Man’s armour…). The third hero is Robert “Bob” Brunner (just as Robert Bruce Banner, right?), who, thanks to an energy transfer (gamma rays?), has transformed into a megamuscular blue giant (not green, OK?). His clothes are torn and he is left in his shorts as he throws puny humans about. The last hero, said to be the greatest of all in the 100th century, does not have any superpower, but has arrived there in suspended animation to lead them with his winged helmet and his star-chested uniform (just like, let us see, a certain Captain America…). With XS’s help, the heroes escape and regroup in a new secret base built by Stark Trask, the Avengers Mansion. You may note that the words “Almeer” and “Nevlor” contain the letters of “Marvel” and (Stan) “Lee”.

Receiving new assistance from this “Avenger” Legion of the 100th century, XS again enters the timestream, but, instead of getting home, she ends up at the Vanishing Point, the Linear Men‘s space base, located statically in a parallel dimension during the last time instant before the end of the universe. Sometimes the Vanishing Point appeared in DC’s stories from the 90s, including the miniseries Zero Hour. There XS meets the Time Trapper, a villain from the Legion of Super-Heroes’s stories — whom she did not know of, since there were no confrontations with him after she joined the Legion. The Time Trapper commands the timelines, which he often manipulates in order to change events in his own favour, but, in this brief encounter, he introduces himself to XS as someone who behaves as such to the benefit of the human race, as opposed to the Linear Men, who patrol timelines against interference and, among other things, stop planet Earth from being saved from destruction. Under this point of view, the Time Trapper is the hero! Before he sends her back to the 30th century, XS gets to witness the events of Zero Hour from the Linear Men’s perspective. Though she does not understand what is going on (as she is a character created by Mark Waid after the publication of Zero Hour), the Reader can recognise several speeches by the Linear Men, by Waverider and by the Atom, as well as the Atom’s death, which was one of the outcomes of that miniseries. The writer never makes it explicit that what we are looking at is Zero Hour, but leaves the conclusion very much available whilst we can observe the same happenings from a different viewpoint.

Curiously, the story in Legionnaires Annual #3 was scripted not by consistent, careful Mark Waid, but by Roger Stern. It is so coherent, so well fitting in the DC universe, so in line with the Flash’s tales to which it connects, so perfectly elegant before the chronologies of Zero Hour and of the Legion of Super-Heroes, that one would think that Waid were its true Author. The adherence to continuity and the respectful (as opposed to mocking) treatment of Marvel’s heroes indicate a connection of affection to the comics that we typically see in Waid’s work. Here I leave my compliments to the excellent job accomplished, not only by him who wrote but also by those who drew (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz and Dan Jurgens, the last of whom pencilled the “Zero Hour” sequence and had also been the penciller for the original Zero Hour miniseries) and especially those who edited (Ruben Díaz and KC Carlson, who had been one of Zero Hour‘s editors).

(*) Yes, I am partially aware of the effective return of Barry Allen after the Final Crisis. As I said, my reading is in 1996 and, at this point, DC stands by its intent to keep Barry definitively dead.

EOF

Múltiplos pontos de contato

Hoje tratarei de dois tópicos diferentes dentro de um mesmo assunto, que são os quadrinhos de super-heróis da DC Comics. Os dois tópicos têm um ponto de contato que merece resenha, e foi por isso que vim aqui.

O primeiro tópico são edições anuais. A editora DC Comics publica mensalmente os títulos que trazem as histórias com seus super-heróis. (Tudo que digo neste texto é verdade como regra em 2013, mas os títulos mudam com o correr dos anos e minha leitura ainda está em 1996, de modo que os exemplos específicos que dou são daquele ano.) Então, as contínuas aventuras do Super-Homem saem em Action Comics, The Adventures of Superman e Superman; as do Batman, em Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat e The Batman Chronicles; outros heróis saem em Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman e muitos, muitos outros títulos que o público leigo não reconheceria, como Nightwing, Azrael e Impulse.

Normalmente, cada uma dessas séries tem doze edições por ano. As mais populares são acompanhadas de outras séries com periodicidade anual, que, na prática, equivalem a edições especiais — como se fosse uma décima-terceira edição do título principal. São os Annuals, como Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. Pela prática mais comum da editora, a história que vem em um Anual não integra a sequência da história que está sendo contada ao longo dos meses na série principal; mas, mesmo assim, faz parte da cronologia oficial. Cada Anual costuma ter mais páginas do que o título regular correspondente, e alguns têm mais de uma história por edição.

Nos anos 90, a DC costumava dar um mesmo tema aos Anuais de cada ano. Por exemplo, em 1991, todos foram interessantes histórias vinculadas ao evento Armageddon 2001. Em 1994, todos foram histórias do tipo Elseworlds. Já em 1996, todos os Anuais traziam o subtítulo “Legends of the Dead Earth”. Cada um contava uma história que não era necessàriamente compatível com as dos outros Anuais, mas a cada roteirista a editora incumbiu de criar uma variação sobre o mesmo tema: um futuro distante onde o planeta Terra não existe mais. Nesse futuro, o herói publicado pelo título regular (não o do Anual) já morreu há séculos, mas sua memória sobrevive de algum modo, e outro herói segue sua tradição.

Batman Annual #20. História fraca.

Green Lantern Annual #5. História divertida.

Na sua maioria, esses Anuais ficaram ruins. Isso não é exatamente uma surpresa, já que, de acordo com a Lei de Sturgeon, 90% de toda a produção cultural é lixo. Não poderia ser de outro modo: primeiro que, estatìsticamente, não faria sentido que tudo fosse bom, e é justamente daí que a palavra “medíocre” deixou de significar apenas “médio” e passou a significar “ruim”; segundo que, por definição, você só repara que alguma coisa é boa porque ela se destaca do resto, e é daí que a palavra “bom” passa a ter significado. Se tudo fosse bom, você não perceberia que fosse bom, nem, portanto, teria sequer o conceito ou um nome para ele.

Justamente por tudo isso, quando um desses Anuais ficou bem melhor do que os outros, ele chamou minha atenção. Refiro-me a Legionnaires Annual #3, que foi um dos últimos Anuais de 1996, tendo sido publicado junto com os regulares de dezembro. Diferente dos outros Anuais de 1996, este fez sua história como continuação de outra que acontecia em um título principal.

É nesse momento que suspendemos a discussão dos Anuais de 1996 e entramos no segundo tópico, que é a cronologia dos vários personagens chamados “Flash”. Tal como no caso de qualquer outro super-herói da DC, uma cronologia completa mereceria extensas explicações e os devidos comentários. Infelizmente, diante do escopo desta discussão, vou ter que ficar devendo o tratamento que o Flash merece, porque seria uma exposição muito longa, com muitos detalhes. Apenas acredite que tudo que eu digo a seguir tem uma história fascinante e minuciosa por trás, e faça a si mesmo o favor de pesquisá-la, porque há muito esforço e muita criatividade envolvidos. Por ora, prossigamos.

Acompanhe. Històricamente, o epíteto “The Flash” foi atribuído a um personagem chamado Jay Garrick que havia adquirido supervelocidade. As histórias desse Flash foram publicadas de 1940 até 1949, durante a Era de Ouro dos quadrinhos, e então sua revista Flash Comics deixou de ser publicada. Talvez você ainda se lembre dele: camisa vermelha, calça azul, capacete, sem máscara.

Jay Garrick, o primeiro Flash. Tentei usar a imagem da Wikipedia, mas o WordPress não aceita. Então vá na Wikipedia (em inglês, por favor) e jogue “Jay Garrick”.

Em 1956, a DC Comics reformulou o conceito e lançou um novo personagem com o nome de Flash. Desta vez, o corredor era um químico forense e atrasildo contumaz chamado Barry Allen, que adquiriu seu superpoder ao ser atingido por um raio no laboratório. Este segundo Flash deu continuidade a Flash Comics, sendo hoje considerado o personagem que inaugurou a Era de Prata dos quadrinhos na DC.

O segundo Flash, Barry Allen

Esse é o Flash que ganhou fama, que os leitores passaram a amar e que o público leigo conhece. Ele é a epítome do herói de bom coração disposto a sacrificar a própria vida para salvar a dos outros — em alguns casos mais do que o próprio Super-Homem, que é considerado o arquétipo do super-herói por todos os seus aspectos físicos e psicológicos.

Em 1961, com a edição The Flash #123 e sua história “Flash de dois mundos”, o roteirista Julius Schwartz trouxe o conceito que, a meu juízo, é o mais genial e estimulante de mentes em todo o Universo DC: a noção de universos paralelos onde os heróis têm contrapartes que são como diferentes versões da mesma pessoa. Com essa edição, ficou retroativamente declarado que o antigo Flash (Jay Garrick) continuava existindo apesar de ter deixado de ser publicado. É que suas aventuras aconteciam em outro universo, na assim chamada Terra-2 (no Brasil, “Terra Paralela”). Exercendo um salto dimensional, Barry Allen encontra Jay Garrick, declarando-se seu admirador e imitador.

The Flash #123, uma edição clássica. Esta história mudou todo o universo DC. Um exemplar original custa mais de mil dólares, mas, felizmente, é fácil encontrar reimpressões.

Nos anos subsequentes da Era de Prata, aprendemos que todos os heróis que haviam sido publicados durante a Era de Ouro (de 1938 a 1951), inclusive Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, faziam parte da Terra-2, enquanto os heróis que estavam sendo publicados desde 1955 estavam ambientados na Terra-1 (no Brasil, “Terra Ativa”). Logo, havia dois Super-Homens, dois Batmen, duas Mulheres-Maravilhas, dois Lanternas Verdes (sendo um deles Alan Scott e o outro Hal Jordan), dois Flashes etc., um de cada em cada Terra. A grande maioria dos títulos regulares da DC contavam as aventuras da Terra-1, mas, nos anos 80, alguns títulos passaram a contar as aventuras que continuavam na Terra-2, fora da cronologia principal da DC. Eram muito comemorados os encontros de heróis dos dois universos, especialmente nas ansiosamente esperadas histórias que saíam uma vez por ano nas edições regulares de Justice League of America.

(Incidentalmente, a variedade de Terras em vários universos só veio a se tornar um dos pontos relevantes da DC na minissérie Crise nas infinitas Terras, em 1985-1986. Essa extensa história, escrita por Marv Wolfman e maravilhosamente desenhada por George Pérez, redefiniu todo o Universo DC, com um impacto fundamental na cronologia de todos os personagens e efeitos permanentes que são discutidos até hoje. Na época, seu propósito era extinguir o multiverso, matar vários personagens e reunir os sobreviventes em um universo único e simplificado. Com o correr dos anos, a ideia de multiverso voltou, já que era boa demais para ser desperdiçada, mas ela só voltaria a ser tema principal de discussão no período 2006-2008, com Crise infinita e Crise final.)

Em 1984-1985, a revista The Flash lançou Barry Allen ao século 30, em uma longa e complexa história onde ele nunca mais voltou a sua época original. Quando houve a Crise nas Infinitas Terras, Barry fez o sacrifício final para salvar as várias Terras, mas ninguém testemunhou sua morte. De acordo com George Pérez, Barry foi escolhido para mártir porque com ele havia começado a ideia do multiverso na DC, portanto também com ele se extinguia esse multiverso.

O sacrifício final de Barry Allen, salvando os universos da DC em sua última corrida.

Então, em uma reviravolta que foi bastante controversa na época e atraiu a fúria de vários fãs, não apenas Barry ficou morto definitivamente(*) (o que nunca acontece com personagem nenhum de quadrinhos, mas finalmente aconteceu com ele) como foi sucedido por Wally West, sobrinho de sua esposa. Wally já era conhecido dos leitores, porque havia sofrido o mesmo tipo de acidente de Barry (pois é, os roteiristas eram menos criativos na Era de Prata) e, durante um bom tempo, seguiu os passos de seu amado e admirado tio-afim como Kid Flash, tendo, aliás, feito parte dos Titãs e dos Novos Titãs. Com a morte de Barry, Wally passou a ser o terceiro Flash.

Kid Flash (Wally West durante a Era de Prata)

Ao fim da Crise, Wally assume o legado do tio-afim.

Wally West como o terceiro Flash, após a Crise.

[Parêntese: a série de TV The Flash, que teve vida curta em 1990, contava as aventuras de Barry Allen, cujas origem e profissão coincidiam com as de Barry Allen nos quadrinhos da Era de Prata. Entretanto, o Flash dessa série de TV tinha as características pessoais e o metabolismo de Wally West, que já era o Flash nos quadrinhos da época. Suponho que essas escolhas tenham sido feitas para aliar a popularidade de Wally ao conhecimento do público mais velho e mais leigo em relação ao único Flash que provàvelmente conheciam, que era o mais duradouro Barry Allen (ativo por trinta anos até 1986), em comparação com o então novato Wally West (ativo por apenas quatro anos até ali).]

Em 1994-1996, o título The Flash era escrito pelo brilhante Mark Waid, Autor do clássico Kingdom Come (Reino do amanhã) e um dos roteiristas que mais compreendem e respeitam seus personagens. Waid escreveu várias histórias onde reuniu os diversos supervelocistas do universo DC, e eu adoro histórias que reúnem as variações do mesmo personagem. Em particular, são excelentes e inspiradas as histórias que Waid escreveu com esse mote. Além disso, no tempo em que escreveu o Flash, Waid elevou o superpoder do personagem a algo maior do que ele, inserindo Wally em uma continuidade onde uma só força do universo era a fonte motora de todos os supervelocistas. Sùbitamente, o superpoder do Flash deixava de ser único, e revelou-se que era derivado de um campo de energia que os mortais comuns não seriam capazes de atingir: a Speed Force. Nas mãos de Waid, o Flash tornou-se uma espécie de cavaleiro Jedi da velocidade, um privilegiado que, tal como Neo em Matrix e Luke Skywalker em Star Wars, tinha acesso a compreender significados ocultos na realidade e a perceber universo, tempo e espaço com um senso zen de unicidade. A Speed Force tem o efeito de uma força que não é mágica mas tampouco é compreendida ou sequer percebida pelos humanos, sendo uma energia que permeia o universo e que sòmente os supervelocistas conseguem explorar. Saem daí algumas histórias interessantíssimas onde conseguimos enxergar o mundo em câmera lenta através dos olhos do corredor escarlate à medida em que, aos poucos, Wally descobre que seu poder de velocista traz várias utilidades colaterais, como a viagem no tempo e a possibilidade de dar “carona” em sua velocidade para outras pessoas. Além disso, o roteirista Waid tratou a memória de Barry Allen com uma reverência religiosa, criando em Wally o desejo de conhecer melhor o destino de seu tio-afim no século 30 e de ter contato com a realidade ampliada que havia alimentado Barry e que sòmente agora se fazia visível para ele.

No início de 1996, The Flash contava o arco Dead Heat, em várias partes, onde Wally se esforçava por impedir que o vilão Savitar desabilitasse todos os heróis cujo superpoder é a corrida: o próprio Wally, Jay Garrick, o jovem Impulso (Bart Allen, neto de Barry, nascido no século 30), Johnny Quick, sua filha Jesse Quick, o sábio Max Mercúrio (um velocista revitalizado por Waid, nascido no Velho Oeste, viajante do tempo e, já com uma certa idade, mentor dos outros velocistas) e alguns outros. Para vencer Savitar, Wally teve que acelerar de um modo que nunca lhe fôra exigido, entrando na correnteza do tempo e, sem controle, viajando para o século 64.

Na sequência Race Against Time!, após a vitória sobre Savitar e já no segundo semestre de 1996, Wally tenta voltar para sua época em sucessivos saltos que vão retrocedendo ao longo dos séculos. Um dos personagens que o auxiliam é John Fox, o Flash do século 27, herdeiro do manto inspirado na memória de Barry e de Wally.

Na continuidade das histórias, estou em dezembro de 1996, no ponto em que Wally consegue voltar ao século 20. Acontece que, ainda na luta contra Savitar no início do ano, Wally havia sido auxiliado por uma corredora de codinome XS (lê-se “excess”), que aliás também é uma neta de Barry Allen nascida no século 30 (e prima de Bart). Em Deat Heat, XS havia voltado no tempo, de seu século 30 para o século 20, juntamente com seus colegas da Legião dos Super-Heróis, e havia ficado presa aqui. Assim como Wally passa a usar a Speed Force para voltar do futuro para o presente (e afinal consegue), XS tenta saltar em sentido contrário, do presente para o futuro (que é o “presente dela”). No título The Flash, nas edições de 1996, a jovem heroína XS é apenas um personagem coadjuvante, e chega um momento (no primeiro capítulo de Race Against Time!, The Flash #112, abril de 1996) em que John Fox e Jay Garrick a auxiliam a dar um salto no tempo. XS desaparece, o Leitor é levado a presumir que ela tenha conseguido voltar para casa, e a história volta seu foco para o Flash, suas desventuras e seu retorno feliz.

E foi aí que, sempre tentando ler tudo na ordem de publicação original, cheguei a Legionnaires Annual #3. É aqui que os dois tópicos se tocam. Tendo lido os outros anuais de 1996, eu havia presumido que esta edição estivesse na porção de 90% da Lei de Sturgeon. Para minha gratíssima surpresa, descobri que estava enganado! A história começa mostrando o que aconteceu a XS quando, auxiliada por Fox e Garrick, consegue projetar-se à correnteza do tempo. Na sequência, ela se sente atraída por um ponto focal, sai da correnteza e descobre-se já no século 30, mas ainda muito antes do ponto aonde queria chegar. Ocorre que o ponto que a atraiu foi a construção de um dispositivo de viagem no tempo pelas mãos de… Barry Allen! Desde as histórias publicadas em 1986, não me lembro de ter visto nenhuma história nova com Barry Allen que não fosse alguma retrospectiva ou, de outro modo, alguma história ambientada na Era de Prata, quando ele era o Flash titular. Até onde sei, esta é a PRIMEIRA história onde Barry aparece ao mesmo tempo em que, para o leitor, o “Flash atual” já é Wally West. Infelizmente para XS, Barry ainda é muito jovem, não tem sequer filhos e, portanto, não a reconhece. Mesmo assim, o momento é emocionante, porque XS se vê na oportunidade de conhecer seu avô, que já era falecido quando ela nasceu. A cena poderia ter sido até pungente, eu não me importaria. Mas os dois não se conhecem, então o que fica é aquela profunda admiração e o sentimento de XS de que está diante de um ícone histórico, um dos maiores heróis de todos, em um momento solitário de introspecção — e ele é seu avô!…

Barry dá a XS o privilégio e a honra de correr com ele e então consegue servir como catapulta para ela, novamente a lançando na correnteza do tempo. Desta vez, XS vai parar no século 100, onde descobre que a Terra já não existe (é aqui o ponto em comum com os outros anuais de 1996, Legends of the Dead Earth), assim como já não existe a Legião dos Super-Heróis. No planeta Almeer-5, a humanidade é oprimida pelo vilão Nevlor, que aprisionou os poucos meta-humanos restantes. Um dos heróis presos é Avatar, que empunha a milenar Lança do Destino, a qual só pode ser levantada pelos dignos. Seu traje assemelha-se aos dos deuses de Jack Kirby, em particular ao de Thor, da Marvel, cujo martelo Mjölnir sòmente os dignos podem levantar. Outra heroína é Melissa Trask (anagrama de “Stark”, pegou?), que é uma brilhante engenheira eletrônica e criou uma armadura que voa e dispara raios das mãos (tal como a do Homem de Ferro…). O terceiro herói é Robert “Bob” Brunner (como Robert Bruce Banner, certo?), que, graças a uma transferência de energia (raios gama?), transformou-se em um megamusculoso gigante azul (e não verde, OK?). As roupas se rasgam e ele fica só de calção e arremessa homenzinhos. O último herói, dito o maior de todos do século 100, não tem superpoderes, mas chegou ali em animação suspensa para liderá-los, com seu capacete com asinhas e seu traje com uma estrela no peito (tal como, vejamos, um certo Capitão América…). Com a ajuda de XS, os heróis escapam e se reúnem em uma nova base secreta construída por Stark Trask, a Mansão dos Vingadores. Observe que as palavras “Almeer” e “Nevlor” contêm as letras de “Marvel” e (Stan) “Lee”.

Recebendo nova ajuda dessa Legião “Vingadora” do século 100, XS consegue entrar novamente na correnteza do tempo, mas, em vez de voltar para casa, vai parar no Ponto de Fuga, a base espacial dos Homens Lineares, situada estàticamente em uma dimensão paralela durante o último instante de tempo antes do fim do universo. Às vezes o Ponto de Fuga aparecia nas histórias da DC dos anos 90, inclusive na minissérie Zero hora. Ali, XS encontra o Senhor do Tempo (Time Trapper), um vilão das histórias da Legião dos Super-Heróis — que, porém, ela não conhecia, porque não houve confrontos com ele depois que ela passou a integrar a Legião. O Senhor do Tempo tem domínio das linhas de tempo, que muitas vezes manipula para alterar eventos a seu favor, mas, neste breve encontro, ele se apresenta a XS como alguém que age assim a benefício da raça humana, em contraposição aos Homens Lineares, que patrulham as linhas de tempo contra interferências e, entre outras coisas, impedem que o planeta Terra seja salvo da destruição. Sob essa óptica, o Senhor do Tempo é que é o herói! Antes que ele a envie de volta ao século 30, XS consegue testemunhar os eventos de Zero Hora sob a perspectiva dos Homens Lineares. Embora ela não entenda o que está acontecendo (pois é uma personagem criada por Mark Waid após a publicação de Zero hora), o Leitor consegue reconhecer diversas falas dos Homens Lineares, de Waverider e do Átomo, assim como a morte do Átomo, que foi um dos desdobramentos da minissérie. O roteirista nunca explicita que é o Zero Hora que estamos vendo, mas deixa a conclusão bem disponível enquanto conseguimos observar os mesmos acontecimentos sob uma perspectiva diferente.

Curiosamente, a história de Legionnaires Annual #3 não foi escrita pelo consistente e cuidadoso Mark Waid, mas por Roger Stern. É uma história tão coerente, tão bem encaixada no universo DC, tão alinhada com as histórias do Flash às quais está ligada, tão perfeitamente elegante diante das cronologias de Zero Hora e da Legião dos Super-Heróis, que você pensaria que Waid fosse o verdadeiro Autor. A obediência à continuidade e o tratamento respeitoso (e não debochado) dos heróis da Marvel mostram um vínculo afetivo aos quadrinhos que tìpicamente vemos na obra de Waid. Fica o elogio ao excelente trabalho, não só de quem escreveu como de quem desenhou (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz e Dan Jurgens, o último dos quais foi quem desenhou o trecho “Zero Hora” e fôra também o desenhista da minissérie Zero Hora original) e, especialmente, de quem editou (Ruben Díaz e K.C. Carlson, que fôra editor de Zero Hora).

(*) Sim, estou parcialmente ciente do efetivo retorno de Barry Allen após a Crise Final. Como eu disse, minha leitura está em 1996 e, neste ponto, permanece a intenção da DC de manter Barry morto definitivamente.

EOF

Tiro pela culatra — ou isso é o que eles querem que você pense

Acabo de descobrir as tais propagandas “subliminares” (não são) no SBT. Você tá lá assistindo a algum filme PERFUMES NÃOSEIQUÊ e de repente o anúncio pisca durante, sei lá, meio segundo, em silêncio, interrompendo o filme apenas pelo tempo que você leva para perceber o que acabou de acontecer.

FILHOS DA P*TA.

EU MAL TIVE TEMPO DE LER METADE DO ANÚNCIO. Mas sei que devo ter lido a outra metade. Acho que era “perfumes Jequiti”. Pode não ser. Sei que estou propagando a mensagem, possìvelmente porque essa era a ordem deles. (Ó-bê-ésse: editei o texto para dizer que era da Jequiti. Achei que fosse outra marca, mas Google me ajudou. Tá vendo, Jequiti? Não funcionou — pensei que fosse o seu concorrente. OK, funcionou pela metade, porque me fez pesquisar. Mas, se eu não quisesse escrever a respeito, teria entendido outra marca! (E teria ódio da outra marca — ponto para você, Jequiti.))

Isso acontece porque é tevê gratuita: você não paga para assistir. SE VOCÊ NÃO ESTÁ PAGANDO, ENTÃO VOCÊ É A MERCADORIA. Se é de graça, pode ter certeza de que vão dar um jeito de obrigar você a engolir. Porque, veja bem, se fosse pago era fácil: você parava de assistir ao canal, parava de pagar ao fornecedor. Mas é de graça. Você não tem com quem reclamar, nem do quê. Então aguenta.

Então agora tenho MAIS UM motivo para não assistir à m*rda da tevê aberta.

Update. Aliás acabo de ver que o WordPress está pondo anúncios embaixo do meu texto. Claro: eu não pago para publicá-los, nem você para lê-los. QUE QUE EU ACABEI DE DIZER, Ó MERCADORIA?

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As séries amadoras de Jornada nas Estrelas: status em 2013

Esta postagem é a atualização de uma outra que publiquei em 2009. Update: ao final, há uma pequena nova atualização, feita em 2016.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web. O que me surpreende (mas não deveria) é que a quantidade dessas produções tem aumentado.

O resultado tem chamado minha atenção. São obras amadoras, mas apresentam valores de produção que estão ao mesmo nível do que era produzido nos anos 60 ou que é produzido hoje. Em vários casos, os atores são de fato profissionais, e as filmagens acontecem no interior de estúdios, em cenários que são reconstruções impressionantes da ponte de comando da Enterprise original. Os efeitos sonoros e a trilha musical estão perfeitamente sincronizados com a ação. Com as câmeras e computadores atuais, os episódios são rodados em HD e contam com tomadas espaciais que fariam inveja às equipes de produção da série original naqueles tempos de barro fofo e pedra lascada. Esse é o caso, especìficamente, de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Farragut e Star Trek: Phase II, que me parecem as mais célebres (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Nos Estados Unidos, é muito comum que os fã-clubes de Jornada nas Estrelas se organizem no formato de naves espaciais. Em 1999-2000, o fã-clube USS Angeles, situado em Los Angeles, produziu cinco episódios de uma série à qual deu o nome Voyages of the USS Angeles e que contava as aventuras de uma tripulação da mesma época de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração. Os personagens tinham os mesmos nomes dos atores e a produção era tosca, mas você via que estavam se divertindo. Mais tarde, houve uma dissensão no grupo, e alguns integrantes, sob a liderança do cineasta iniciante Rob Caves, iniciaram uma série que era continuação de Voyages, repetindo vários personagens e aproveitando a linha de histórias que havia sido iniciada ali. A nova série ganhou o nome de Star Trek: Hidden Frontier.

Em Hidden Frontier, o cenário é a nebulosa em torno do planeta Ba’ku, do filme Star Trek: Insurrection. Como premissa da série, a Federação instala a base estelar Deep Space 12 na fronteira da nebulosa e designa algumas naves estelares para patrulharem a região, entre elas a USS Independence e a USS Excelsior — não a mesma do Capitão Sulu, mas uma integrante da classe Galaxy com três naceles. O comando de DS12 é passado para um comodoro veterano da guerra contra o Dominion. Entre os muitos personagens da série está Shelby, a ousada tenente-comandante de “The Best of Both Worlds”, que, interpretada pela estudante de teatro Risha Denney, vai sendo promovida, primeiro a capitão (comandando a Excelsior) e depois a almirante. Também é recorrente a Almirante Nechayev, velha conhecida do Capitão Picard em diferentes episódios da Nova Geração, e um dos personagens fixos é Robin Lefler, que era alferes e havia sido interpretada por Ashley Judd em dois episódios daquela série. Passados tantos anos, Lefler (agora interpretada por duas diferentes atrizes) é tenente-comandante e engenheira-chefe da Excelsior.

Hidden Frontier durou sete temporadas, ganhando sua própria mitologia, complexidade crescente e valores de produção em aprimoramento contínuo. Com tanta longevidade, é compreensível que tenha havido um certo entra-e-sai de atores e personagens. As histórias tomaram diferentes rumos com a passagem do tempo, formando arcos onde se enfrentaram diferentes arqui-inimigos e onde se pôs foco no desenvolvimento ora de um personagem, ora de outro.

A equipe de produção de Hidden Frontier (ou ao menos parte dela) mantém contato com um fã-clube situado em Dundee, na Escócia, o qual, sob a liderança do ator amador (e enfermeiro em seu emprego diurno) Nick Cook, produz a série Star Trek: Intrepid, até agora com sete episódios. Dessa proximidade nasceram três crossovers, episódios que mostram a interação entre personagens de Hidden Frontier e de Intrepid. Um desses crossovers, chamado Operation Beta Shield, é um filme de duas horas de duração, bastante complexo por depender de conhecimento de boa parte do que aconteceu em Hidden Frontier, mas impressionante na qualidade narrativa e nos valores de produção, com especial destaque para as cenas espaciais. Um aspecto particularmente curioso de Intrepid é ver como toda a tripulação da nave fala com forte sotaque escocês… Aqui, um trailer de Beta Shield.

Os cenários de Hidden Frontier são telas de videogames de Jornada, e a música de abertura é ripada do filme Galaxy Quest. Fora isso, os diálogos e a atuação melhoraram contìnuamente ao longo das sete temporadas, atraindo novos atores amadores e profissionais e gerando duas spinoffs filmadas com esses atores — nominalmente, Star Trek: Odyssey e Star Trek: the Helena Chronicles, ambas as quais prosseguem na história de Operation Beta Shield. Essas duas séries contam uma mesma história, sendo uma (Helena Chronicles) ambientada nesta Galáxia enquanto seus personagens tentam resgatar os personagens da outra (Odyssey), que ficaram isolados em Andrômeda. Após três temporadas, essas duas séries terminaram em 2012, com um episódio final de 127 minutos que reúne atores e personagens de Voyages of the USS Angeles (retomada como série de áudio em determinado momento anterior), Hidden Frontier, Intrepid, Odyssey e Helena Chronicles.

Outras spinoffs de Hidden Frontier prosseguem, incluindo (até hoje) Henglaar, M.D. (apenas em áudio) e Star Trek: Federation One (uma temporada em áudio, outra em vídeo). A mesma equipe produz Star Trek: Diplomatic Relations (contando histórias dos diplomatas da Federação, que atuam depois que a Frota Estelar vai embora, e novamente com a participação do elenco de Intrepid no primeiro episódio); Star Trek: Grissom, que relata as aventuras da navezinha exploradora de Jornada nas Estrelas III antes de ela ser explodida pelos klingons; e Frontier Guard, a única não relacionada ao universo de Jornada nas Estrelas.

Falei bastante de Hidden Frontier, mas ela não é a série amadora de maior ou mais famoso impacto no fandom. Essas honras cabem a Star Trek: Phase II, produzida sob a liderança do ator James Cawley. Profissionalmente, Cawley segue carreira como imitador de Elvis Presley em Las Vegas. Aparentemente essa função lhe rende um bom dinheiro, que ele gasta em um estúdio onde produz sua própria continuação da série original de Jornada nas Estrelas.

Tendo estreado em 2004 sob o nome de Star Trek: New Voyages (o nome atual Phase II veio só depois), esta série tem o propósito de contar as aventuras da Enterprise após o terceiro ano de Jornada nas Estrelas, em um quarto ano que a série não teve — ou não tivera até agora, porque isso está mudando. Para tanto, Cawley reconstruiu os cenários da série original, inclusive uma réplica minuciosa da ponte de comando, e tem contado com a colaboração de diversas pessoas que participaram das séries oficiais, como os atores Walter Koenig (realmente como Chekov), Malachi Throne, William Windom (Comodoro Decker), Barbara Luna, J.G. Hertzler e Tim Russ, o ilustrador Doug Drexler, a consultora Denise Okuda, a roteirista D.C. Fontana, o produtor de efeitos visuais Ronald B. Moore e vários outros. O próprio Cawley faz o papel do Capitão James Kirk, com diferentes atores tendo assumido os papéis de Spock, Sulu, Uhura e Chekov ao longo dos oito episódios já lançados, mas sendo constantes os atores que têm feito McCoy e Scott. Se, de um lado, todos associamos Kirk ao desempenho paradigmático e exagerado de William Shatner, de outro a atuação de Cawley é notável, seguindo até os trejeitos e entonações de Shatner nos mais minuciosos detalhes.

É impressionante como Phase II consegue emular a série Clássica à perfeição. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas. O colorido dos cenários é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas, os mesmos tons de maquiagem, os mesmos filtros nas lentes. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty. Provàvelmente o detalhe que mais dá a sensação de se estar assistindo à série original é a iluminação, que define todo um clima mas que é sempre um componente sutil, de cuja importância frequentemente não nos damos conta, o que bem mostra o quanto a equipe de Cawley estudou a série Clássica. Em contraste, o detalhe que mais se percebe é a música incidental, que é usada exatamente nos mesmos momentos e com as mesmas partituras a que nos acostumamos na série Clássica: os temas de introspecção vulcana, de luta animada, de suspense antes do intervalo, de contraponto cômico, todos esses são empregados como esperamos.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio de Phase II, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare. A produção visual é perfeita e começa com George Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior em companhia de Janice Rand, novamente interpretada por Grace Lee Whitney. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise cai vítima de um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e Kirk envia o Tenente Sulu aos destroços de uma nave inimiga. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte, e quem emerge é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto o hoje idoso Takei.

Star Trek: Phase II” é o nome convencionalmente adotado para a série de Jornada nas Estrelas que a Paramount preparou mas afinal não produziu no fim dos anos 70 e que acabou se materializando como Jornada nas Estrelas: o Filme, com parte de suas ideias reaproveitada na Nova Geração. Fazendo uma espécie de ponte retroativa entre a série original e as produções oficiais que a sucederam, a Phase II de James Cawley inclui o vulcano Tenente Xon (que substituía Spock na Phase II dos anos 70, mas aqui o complementa, interpretado por Patrick Cawley, filho do produtor) e uma promoção de Sulu a tenente-comandante (da qual decorre o cômico curta-metragem “Center Seat”). Além disso, o traje antirradiação de sua Engenharia é o mesmo que vemos nos filmes de cinema.

Entre os episódios da Phase II de Cawley estão as duas partes de “Blood and Fire”, uma história que o escritor David Gerrold propôs para a Nova Geração mas não foi aceita naquela época. Agora, o roteiro ganha vida com as participações de Denise Crosby, Bobby Rice como Alferes Peter Kirk (um veterano de Hidden Frontier e Odyssey, que comentei acima, aqui fazendo o papel do sobrinho do capitão), e Nick Cook (o escocês que normalmente faz o capitão da Intrepid, mas que, aqui, é um camisa-vermelha). A adaptação para esta filmagem é de Carlos Pedraza, um colombiano que também escrevia Hidden Frontier, e a direção é de Gerrold, que recentemente se tornou um dos produtores de Phase II.

O episódio mais recente de Phase II é “The Child”, que foi escrito por Jon Povill para a Phase II dos anos 70, realizado como episódio da Nova Geração em 1988 mas, agora, refilmado pela equipe de Cawley sob a direção de Povill e relançado em 2012 como o episódio da série Clássica que poderia ter sido. Neste episódio vemos o Tenente-Comandante Sulu ser interpretado por J.T. Tepnapa, um dos atores mais importantes de Hidden Frontier e The Helena Chronicles. O próximo episódio, a ser lançado em outubro de 2013, é “Kitumba”, outro que foi escrito para a Phase II original mas que até hoje não havia sido filmado. Já vi um dos trailers de “Kitumba” e percebi que o “Comodoro Probert” é interpretado por Andrew Probert, o artista que desenhou as Enterprises dos filmes de cinema e da Nova Geração. Outros quatro episódios estão em filmagem ou pré-produção.

Uma grande diferença de Phase II em relação à série Clássica são os efeitos visuais, especialmente as tomadas externas de naves espaciais. Os produtores sabem resistir à tentação de abusar do CGI, que se mantém como ferramenta a serviço da história (em vez do contrário, tão comum em filmes amadores). Mesmo assim, são empolgantes os movimentos da Enterprise e de seus rivais klingons no espaço. Dê só uma olhada nas primeiras tomadas de “Blood and Fire” Part Two.

Outras produções recentes foram bem sucedidas em trazer de volta a sensação de se estar assistindo a um episódio da série original de Jornada nas Estrelas. Um bom exemplo é Starship Farragut, que começou tão tosca quanto todas as demais porém se aperfeiçoou e hoje tem quase a mesma qualidade de Phase II, com exibição em alta definição e cenários que replicam os da série Clássica. Em Farragut, o produtor John Broughton atua como o Capitão Carter, comandando a nave estelar de mesmo nome, e os produtores Michael e Holly Bednar fazem o oficial de ciências e a chefe da Engenharia. Nesta série já vimos a participação especial de James Cawley como Capitão Kirk e podemos ver o ator Paul Sieber como o chefe de segurança Henry Prescott. Conforme uma rápida consulta ao IMDB poderá lhe mostrar, Sieber já apareceu em Phase II no papel de um alienígena e em breve deveremos vê-lo novamente como Prescott, mas em “Kitumba”, mostrando o grau de intercâmbio entre os estúdios e suas produções. O próprio Cawley já havia aparecido em Hidden Frontier no papel do Capitão Mackenzie Calhoun, um personagem que, na série de livros New Frontier, comandava a USS Excalibur e tinha a Comandante Shelby como sua imediata.

Aliás, essa mistura de elencos e equipes pode render bons momentos de diversão. Em 2010, a FedCon (grande convenção europeia de Jornada nas Estrelas) foi brindada com este maravilhoso vídeo produzido por James Cawley e por seu colaborador Tobias Richter. Trata-se de uma brincadeira que trata os filmes de J.J. Abrams como muitos trekkers gostariam de ver, inclusive enfatizando a diferença de tamanho entre a Enterprise original e a do jovem diretor. Outra brincadeira, produzida pela equipe de Farragut, encontra-se aqui, onde o Presidente Nixon tem um delírio que somente o Agente Smith (de Matrix) poderia abordar.

Em mais um recente e excelente caso de homenagem extra-oficial à série Clássica, eu não poderia deixar de mencionar o filme em três partes intitulado Star Trek: Of Gods and Men. Trata-se de uma história de viagem no tempo produzida por Tim Russ que tem o próprio como Tuvok, mais as participações de Nichelle Nichols como Uhura, Walter Koenig como Chekov, Alan Ruck novamente como Capitão Harriman (bem melhor do que quando comandou a Enterprise em Generations), Garrett Wang, J.G. Hertzler, Ethan Phillips, Chase Masterson e Cirroc Lofton.

Uma característica comum a todas estas séries feitas por fãs — além da paixão de quem as faz — é sua qualidade artesanal. Os créditos finais mostram a sintomática repetição de nomes: é muito frequente vermos a mesma pessoa como ator, produtor, editor, supervisor de roteiro, figurinista, carpinteiro, motorista, pintor, eletricista e artista de CGI; enquanto algum colega é ator, produtor, marceneiro, supervisor de efeitos visuais, maquiador, fotógrafo e continuísta; e uma terceira pessoa participa como atriz, produtora, roteirista, iluminadora, eletricista, maquiadora e operadora de som… E por aí vai.

A mais recente fanseries a seguir os passos da série original é Star Trek Continues, produzida pelo mesmo estúdio de onde sai Starship Farragut. O ator Vic Mignogna (que já atuara em Phase II) faz James Kirk ao comando da Enterprise (já tendo aparecido nesse papel em “The Price of Anything”, o mais recente episódio de Farragut), tendo a seu lado Todd Haberkorn (ator e diretor veterano de Farragut e de Phase II) como Spock, Larry Nemecek como McCoy e Chris Doohan como Scotty. Permita-me enfatizar: Nemecek é um dos mais ativos fãs antigos de Jornada, tendo publicado vários trabalhos, dos quais o mais famoso é seu ST:TNG Companion. Já Chris Doohan é filho do Scotty original, James Doohan. Todos os atores do elenco principal de Star Trek Continues são profissionais, embora a produção não seja oficial. No primeiro episódio, “Pilgrim of Eternity”, o ator Michael Forest retorna ao papel de Apolo, que desempenhara na série Clássica em “Who Mourns for Adonais?”.

A próxima grande produção deve ser Star Trek: Renegades, que promete trazer em 2014 uma nova história com Walter Koenig, Tim Russ, J.G. Hertzler e outros experientes atores de Jornada nas Estrelas. Recomendo observar o trailer e acompanhar as notícias.

Outras séries amadoras há, embora sem a mesma qualidade. Posso enumerar a extinta Starship Exeter e ainda Star Trek: the Romulan Wars, Enterprise: the Next Generation, Tales of the Seventh Fleet, Starfleet Renegades, Star Trek: Aurora, Star Trek: Encarta, … A lista é longa.

Atualização de 2016:

Star Trek: Phase II voltou a se chamar “Star Trek: New Voyages”. O produtor executivo James Cawley emitiu um comunicado no sentido de que havia se tornado insuportável o assédio de pessoas criticando, atacando e agredindo seu trabalho. Essas pessoas desgastam, não agregam e, por fim, venceram o ânimo de Cawley, que preferiu dedicar sua atuação a projetos que, ao menos, rendem dinheiro. Então, quanto a Phase II/New Voyages, ele se mantém como produtor executivo, mas deixou a atuação como Kirk a cargo do ator profissional Brian Gross. Os episódios recentes incluem “Kitumba”, um dos que foram escritos para a Phase II dos anos 70 e não filmados então, com uma perspectiva inovadora sobre o Império Klingon (que, lembre-se, não havia sido exibido na época; tudo que vimos em TNG ainda estava por vir) e a participação de atores de Star Trek Continues no papel de Klingons e de Gil Gerard (o Buck Rogers dos anos 70) como almirante; “Mind Sifter”, com a experiente atriz Rebecca Wood, veterana de Hidden Frontier, onde fizera a ardilosa Presidente Vindenpawl, agora no papel de uma enfermeira, em um episódio com duas referências internas ao clássico “Nightmare at 20,000 Feet” e James Cawley em uma rápida ponta como maluco em um hospício; e “The Holiest Thing”, com a esposa de Brian Gross no papel da Dra. Carol Marcus, testando seus primeiros passos na terraformação e tendo-os desafiados pela protomatéria. Os últimos episódios tiveram uma colaboração mais intensa de Ralph Miller e do alemão Tobias Richter, mago das belas visões da Enterprise em CGI. Aliás, com a chegada de Gross, a Enterprise passou por uma pequena reforma, que lhe deu a aparência que teria na abortada série Phase II dos anos 70 (uma espécie de visual intermediário entre o da série Clássica e o do primeiro filme de cinema).

Infelizmente, ST:NV acabou. Em razão das novas regras da CBS para filmes amadores de Jornada nas Estrelas (q.v. mais detalhes abaixo), Cawley decidiu fechar o website americano, mantendo apenas seu espelho alemão. Foi definitivamente interrompida a elaboração de novos episódios, nem sequer se concluindo aqueles que já estavam em pós-produção, embora os financiadores vão ter acesso ao próximo episódio, que estava quase pronto.

Star Trek Continues segue de vento em popa. A série está ainda mais próxima da Clássica a cada episódio, assemelhando-se em mínimos detalhes que às vezes nem reparamos: as cores, a iluminação, as tomadas de câmera, a música incidental, até as sombras ao fundo. Em qualidade, considero que ela conseguiu a incrível proeza de superar ST:NV. Entre os personagens fixos, há uma conselheira, em uma espécie de pioneirismo retroativo da função que, cem anos depois, será desempenhada por Deanna Troi. Esta série costuma fazer menos referências a episódios de Star Trek (seja a original ou outras séries) do que ST:NV, evitando o que se convencionou chamar de continuity porn.

Star Trek: Renegades afinal lançou seu episódio piloto em 2015. Sobre ele já publiquei uma resenha em inglês. Em síntese, a série ambienta-se no futuro após Star Trek: Voyager, quando traidores assumiram posições importantes no Comando da Frota Estelar. O Almirante Chekov (interpretado por Walter Koenig), auxiliado pela Almirante Uhura (interpretada por Nichelle Nichols e só vista no segundo episódio) e pelo Comandante Tuvok (interpretado pelo produtor Tim Russ), estabelece uma aliança entre a Segurança da Frota Estelar e um grupo de renegados que tomaram posse de uma nave da Frota, a Icarus, com o propósito de combater a ameaça através de canais pouco ortodoxos. Entre os atores, Robert Picardo retoma seu papel de Lewis Zimmermann, Edward Furlong faz um personagem que nos traz uma surpreendente revelação nas últimas cenas do piloto, e a bela Sean Young é a ciberneticista da tripulação. Em razão das regras da CBS, recentemente Renegades abandonou o rótulo e o universo de Star Trek, e seu segundo episódio, “Requiem”, tomará lugar em um novo e autônomo ambiente.

Outra série que merece comentário é a abortada Star Trek: Axanar. A intenção de seus produtores era mostrar a Guerra dos Quatro Anos, que, de acordo com a literatura trekker, aconteceu entre a Federação e o Império Klingon pouco antes da série Clássica. O protagonista seria o Capitão Garth de Izar, célebre herói que tinha a admiração de James Kirk em razão de seu desempenho na Batalha de Axanar, interpretado pelo produtor Alec Peters. Após o episódio piloto Prelude to Axanar, o estúdio tornou-se réu em uma ação judicial promovida pela CBS/Paramount. Esta ação vem sendo acompanhada de perto e discutida por todos os websites com algum interesse nas produções amadoras de Jornada nas Estrelas. Na minha interpretação, ela é motivada pela percepção (errada) da CBS no sentido de que essas produções amadoras esvaziariam o mercado para a iminente série oficial Star Trek: Discovery. De fato, as séries amadoras que destaquei superam a qualidade das produções oficiais, e a CBS estaria, com a ação, inibindo aquilo que percebe (erradamente) como uma concorrência. Essencialmente, a CBS nivela por baixo. Por enquanto, Axanar está perdendo o processo.

(Interessante observar que Alec Peters chegou a aparecer como o Capitão Garth também em Star Trek: Phase II, na vinheta “Going Boldly”, que introduz a nave após sua reforma e temporàriamente muda o nome da série. É de se notar a frequente participação, em uma série amadora, de atores de outra série amadora, às vezes no mesmo papel, às vezes não. Phase II/New Voyages e Farragut compartilham estúdios e equipes, e um dos personagens de Farragut, o chefe de segurança Prescott, interpretado por Paul Sieber, aparece tanto em Farragut como em Phase II.)

Uma consequência particularmente desastrosa do processo de Axanar foi a emissão pela Paramount, no início de 2016, de suas draconianas regras para a criação de filmes amadores. Em síntese e em termos práticos, a CBS proibiu a criação de novos filmes de fãs. Por causa dessas regras, alguns estúdios escolheram suspender suas produções enquanto aguardam o resultado do processo (como é o caso de Star Trek: Phoenix, sobre a qual não escrevi), outros as cessaram, conforme comentei acima sobre New Voyages, e outros, ainda, decidiram por outros rumos, como Renegades.

Neste fim de 2016, tudo permanece em um estado incerto, contrastando com o clima animador de apenas um ano atrás. Todavia, as produções nunca tiveram tão boa qualidade como temos visto, mostrando que o espírito criativo dos trekkers permanece tão vivo quanto sempre foi nossa apaixonada tradição.

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Minha pseudorresenha de Man of Steel

Tal como no caso de Into Darkness (q.v. abaixo), não vou resenhar o filme do Homem Que Avoa (Agora Com a Cueca Para Dentro da Calça), porque muita gente já está fazendo isso e com mais habilidade do que eu. Vim apenas relatar alguns detalhes que me chamaram a atenção. Há spoilers, de modo que, novamente, a fonte do texto é branca. Você tem que selecionar para lê-lo.

Logo ao começo do filme, os kryptonianos golpistas são condenados à Zona Fantasma. Já tínhamos visto essa cena, embora de outro modo, em Superman II, de 1980. Naquela ocasião como nesta, a Zona Fantasma acaba servindo mais como salvação do que como punição. Pense bem: o planeta é destruído, todos os kryptonianos morrem — exceto Kal-El e os ocupantes da Zona Fantasma. Neste filme de 2013, o prêmio é ainda mais evidente, porque, assim que o planeta se acaba, cessa também o efeito da Zona Fantasma, e os criminosos estão livres! Você poderia argumentar que, com o fim de Krypton, vão-se também suas leis e toda a importância que poderia ter seu sistema penal. Seria como libertar todos os prisioneiros em um país que se revoluciona e arruína, já que não faria sentido continuar a punir alguém segundo regras que já não têm relevância ou vigência. Só que eu tenho certeza de que não foi essa a intenção dos roteiristas, assim como tenho certeza de que não faz o menor sentido privilegiar os criminosos e deixar que morra o restante da população.

Vários personagens do filme são velhos conhecidos de quem conhece os quadrinhos. Falar em Jor-El, Lara, Lois Lane e Perry White é um tanto óbvio, mas também estão presentes o robô flutuante Kelex — com bàsicamente a mesma aparência que lhe deu John Byrne –, Pete Ross, Lana Lang e até mesmo Ken Braverman, o valentão que descobriu a identidade secreta de Kal-El/Clark Kent na história A morte de Clark Kent, de 1995. Braverman é aquele moleque ruivo que desafia Clark, jogando-o ao chão em frente a uma oficina mecânica, e afinal se afasta quando vê que os adultos estão olhando.

Aliás, estudando os créditos do filme no IMDB, descubro que há alguns extras (nem sequer são personagens secundários) chamados Byrne e Sekowski. John Byrne foi o roteirista e desenhista do reboot do Super-Homem na minissérie The Man of Steel, de 1986, sucedida por um período em que foi ele o principal Autor por trás do personagem. Mike Sekowski foi o principal desenhista da Liga da Justiça nos anos 60.

No filme, o ruivo Pete Ross é um gordinho que começa provocando Clark Kent no ônibus escolar, é salvo de afogamento e, quando adulto, é gerente de uma IHOP. As IHOPs são lanchonetes sub-McDonald’s, bem fuleirinhas, onde só trabalham pessoas de pouca qualificação. Creio que a ideia fosse mostrar um emprego bem medíocre para o ex-colega de Clark. Em contraste, nos quadrinhos, Pete Ross é um bom e velho amigo de Clark Kent, não tem nada de gordinho, casa-se com Lana Lang e, bem mais tarde, chega a senador e vice-presidente dos Estados Unidos na década de 90, ao ponto de exercer a presidência.

Ainda em Smallville, Jonathan Kent foi um idiota de escolher a morte. Pense bem: independente de superpoderes, o que você tem na estrada é um jovem de dezessete anos, na flor da idade e no máximo de sua capacidade física, e um cansado agricultor que já está entrando na senectude. QUEM você envia para resgatar um cachorro preso na camioneta? QUEM teria mais possibilidades diante de um tornado? E quem teria que ficar abrigado embaixo do viaduto? Aliás, pensando bem, seria uma EXCELENTE oportunidade para se usarem os superpoderes, já que, no meio da ventania, não daria para ver que estivessem sendo usados. Mesmo que Clark não voasse nem usasse superforça, ele não seria ferido, nem ninguém perceberia que o normal seria não sobreviver. Portanto, Jonathan Kent foi um idiota que buscou a própria morte e por isso mereceu morrer.

Na minissérie Man of Steel, de Byrne, assim como na divertida série Lois & Clark, o uniforme de Super-Homem foi criado e costurado por Martha Kent, com acréscimo do S por Jonathan Kent. Neste filme, o uniforme tem origem kryptoniana, aproximando-se do retorno às origens proposto em The Adventures of Superman #455, de junho de 1989 (publicada em Super-Homem no. 85 em julho de 1991). Além disso, tal como no filme de 1978 e nos quadrinhos pós-Byrne, agora o símbolo de S já era usado pela Casa de El em Krypton. Absolutamente não há erro nem criatividade nisso; é uma questão de escolha do roteirista, que dará preferência à versão que mais combina com a história que quer contar. Pessoalmente, prefiro esta versão usada no filme, por mais que haja a incrível coincidência de que o símbolo de esperança em Krypton coincida com a letra S.

Aliás, você reparou como a insígnia de Zod lembra um pouco a foice-e-martelo usada por Kal-El na minissérie Superman: Red Son?

Neste filme de 2013, ficamos sabendo que Krypton explorou o espaço no passado, tomando conhecimento da Terra entre muitos outros planetas, e que depois optou pela reclusão. Fica evidente que os kryptonianos erraram ao abandonarem seu programa espacial e se concentrarem no próprio umbigo, já que, no fim, causaram a condenação de Krypton sem terem para onde fugir. A meu juízo, essa solução aproveita a parte dramática, melancólica e inteligente das histórias de John Byrne dos anos 80, sem seu lado ligeiramente estúpido. De acordo com Byrne na minissérie World of Krypton, de 1987-1988 (Super-Homem especial no. 1, de agosto de 1988), e com Jerry Ordway e George Pérez em Action Comics Annual #2, de 1989 (Super-Homem no. 84, de junho de 1991), foram os próprios kryptonianos quem usaram uma arma de guerra para iniciar uma reação em cadeia no núcleo de seu planeta, milênios antes do nascimento de Jor-El. A reação desenvolveu-se lenta mas contìnuamente, enquanto, na superfície, a sociedade evoluía para repudiar as guerras mas, ao mesmo tempo, hipervalorizar tradições, abrir mão de todo contato entre pessoas e estagnar, mais ou menos como a civilização de Solaria e Aurora nos livros The Naked Sun, The Robots of Dawn e Robots and Empire, de Isaac Asimov, e o planeta Vulcano, de nosso querido Sr. Spock. Com o tempo, o gradual envenenamento radioativo causou esterilidade não apenas das ideias mas também dos corpos dos kryptonianos, que já não se reproduziam quando o planeta finalmente explodiu, deixando uma amarga lição sobre o efeito de longo prazo das armas nucleares — muito pertinente naquele fim dos anos 80, quando a Guerra Fria, atingindo o clímax, entrava em sua corrida armamentista final antes de terminar para alívio de todos os terráqueos. A parte estúpida da História de Krypton veio em ACA #2, quando ficou revelado que os kryptonianos tinham um defeito genético que os impedia de deixar o planeta. Ora, em razão de tudo que já foi exposto, é muito mais coerente, trágico e didático supor que eles tenham optado por abandonar suas excursões espaciais, em lugar de dizer que haviam sido impedidos por alguma causa inerente a sua constituição. Além disso, novamente fica a mensagem do preço que se paga por se agredir irresponsàvelmente o planeta onde se vive: os kryptonianos deste filme de 2013 estão usando o núcleo de Krypton como fonte de energia e, com isso, causando a destruição de seu mundo, tal como os terráqueos humanos de 2013 fazem ao queimarem combustíveis fósseis como fonte de energia e, com isso, causarem o aquecimento global e o fim de várias espécies — inclusive sua própria. A solução correta, para eles como para nós, seria abandonar as práticas destrutivas; a paliativa, para eles como para nós, será procurar um novo e acolhedor planeta — exceto que nossa exploração espacial nem de longe está adiantada como a deles.

… Pelo menos a representação de Krypton está coerente com o cenário demonstrado nas histórias de Byrne: desolado, desértico e pontiagudo, contribuindo para isolar as pessoas umas das outras, mas sem aquele aspecto polar de espigões cristalinos contra um céu negro como se vê nos filmes de 1978 e 1980.

Um detalhe que faz TODA a diferença na mitologia do Homem de Aço: neste filme, Lois Lane descobre sòzinha que Clark Kent é o Super-Homem — e cedo! O fim do filme mostra que haverá uma convivência entre eles dali em diante, mas, diferentemente do que aconteceu nos quadrinhos durante décadas, Lois SABE o segredo de Clark, e nem foi ele quem contou.

Repare que, quando Zod discursa para o mundo exigindo a entrega de Kal-El, uma das versões do texto “you are not alone” está em português. Aqui houve um erro de tradução lá em Roliúdi: em português, no contexto em que a frase foi usada, o certo não seria “vocÊ não estÁ sòzinhO”, mas “vocÊS não estÃO sòzinhOS”. Em tempos de salas de projeção digitais, não sei se isso foi só no Brasil ou se também está assim nas exibições de Man of Steel pelo resto do mundo. Na segunda hipótese, suponho que o Brasil tenha passado a chamar a atenção do mundo com todo o petróleo, o ressurgimento da economia e os recentes e futuros eventos de esporte e visita do Papa.

Por falar em Papa, há diversas semelhanças entre Kal-El e Jesus Cristo, certamente intencionais. Este paralelo já foi enfatizado em múltiplos momentos ao longo da História da DC, com o maior e mais notável exemplo na minissérie Kingdom Come (O reino do amanhã na tradução). A noção geral é, naturalmente, a de um deus que caminha entre humanos com aparência de pessoa comum enquanto desempenha diversos milagres sem querer chamar atenção para si. No caso particular, o foco do filme e de Kingdom Come está no papel de Kal-El como salvador da humanidade. No caso do filme, Kal-El está disposto a se sacrificar para conseguir essa salvação, na mesma rendição que é o clímax do Evangelho. Para deixar isso ainda mais evidente, há uma cena onde Kal-El procura um padre numa igreja, aflito e em dúvida: se deve ou não deve assumir o sacrifício. Atrás dele, vê-se um vitral que representa Jesus Cristo no Getsêmane, na mesma passagem do Evangelho onde está em dúvida e pede para, se possível, ser dispensado da função de Cordeiro de Deus, logo antes de ser capturado pelos soldados romanos. O padre fala em esperança e, atrás dele, vê-se outro vitral, onde Jesus Cristo ressuscita. Aliás essa é a mesma justaposição que foi praticada por Kingdom Come perto do fim do capítulo 4, quando o Padre McCay prega em sua igreja com os mesmos vitrais ao fundo.

Outra semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é que, no filme, no momento em que é chamado a salvar a humanidade, Kal-El tem 33 anos de idade. Nos quadrinhos, o Azulão apresenta-se ao mundo antes dos trinta.

Uma terceira semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é o momento em que os militares estão reunidos no deserto e Kal-El desce em pé, braços abertos na posição de crucifixão, a capa esvoaçando e o Sol por trás. É uma visão bem religiosa e dramática de um ser òbviamente superior. Por sinal, Kingdom Come tem essa mesma cena, apenas um pouco diferente.

Durante a luta em Metrópolis, tenho certeza de que todos viram, enormes, as letras “LEX CORP” no caminhão trailer de combustível que é jogado em cima de Kal-El. Ele passa por cima do engate e o caminhão explode no térreo de um prédio, atrás dele. Só que, além disso, há um determinado momento anterior no filme em que Clark chega para visitar a mãe. Fica claro que ele pegou carona em um veículo que vemos acelerar ao fundo. O que algumas pessoas podem não ter visto é que esse veículo não é um ônibus, mas outro caminhão da Lexcorp. Esses dois detalhes minúsculos evidenciam que, embora Lex Luthor não esteja em pessoa neste filme, a Lexcorp é uma entidade onipresente.

A respeito do Coronel Hardy (Christopher Meloni, de Law and Order: Special Victims Unit), o filme cometeu o mesmo erro da série Space: Above and Beyond. Na série (que de outro modo é excelente e recomendo), jovens pilotos de caças espaciais têm a dupla função de atuar como infantaria móvel ao estilo de Starship Troopers. Minha maior crítica a S:AAB é justamente essa impossível dupla especialização. Ou bem se é um piloto (uma profissão que exige dedicação 24/7, inclusive quando se está em terra), ou bem se é um socador de barro (como os chamou Garibaldi em Babylon 5). As duas coisas não dá! Em Man of Steel, Hardy é responsável pelas escavações no Ártico, mas também é o encarregado da infantaria que vai receber Faora-Ul no deserto e, finalmente, é visto aos controles de um C-17… Não dá pra fazer tudo!

Na estação de trem, vemos Zod tentando matar um grupo de terráqueos assustados, que se encolhiam a um canto, enquanto Kal-El tenta impedi-lo. Ao fim, Kal-El mata Zod, para seu grande lamento. O filme não foi específico em expressar o principal valor moral de Clark Kent, que é a preservação da vida — toda e qualquer vida, inclusive a de um criminoso kryptoniano. Mesmo assim, chegou a mostrar (sem explicar) que Kal-El só matou Zod por uma razão, que era a total impossibilidade de detê-lo de outro modo. Ficou muito claro que, enquanto Kal não o matasse, Zod estaria o tempo inteiro tentando acabar com os humanos; a única forma de interromper a matança seria pôr fim ao próprio Zod: uma vida sendo interrompida para salvar bilhões. Essa é a mesma escolha difícil com que Clark se depara, e que Kal-El pratica, em Superman #22, de outubro de 1988 (Super Powers no. 17, de maio de 1990). Nos quadrinhos, foi uma experiência traumática cujos efeitos se estenderam e ramificaram por todo o universo DC por um longo tempo. No filme — veremos. Mas ele me pareceu curado depois de um mero grito de desespero e lamúria.

É claro que, morto Zod, você não ouviu vozes, suspiros aliviados nem agradecimentos dos terráqueos que estavam acuados no canto, nem os viu rodeando o Homem de Aço diante do general inerte. Ao contrário: só o que se vê é uma pequena e densa nuvem de fumaça preta, vindo justamente de onde Zod os encurralara. Alguma dúvida de que foram efetivamente torrados a despeito dos esforços do Azulão? Imagino que uma das intenções dos roteiristas, ostensiva ou mesmo subconsciente, fosse ter Kal-El punindo Zod com a pena capital em razão desse específico homicídio.

E isso era o que eu tinha para comentar. Sua vez.

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Mais boçais e ladinos

Algum tempo atrás, neste belogue, reproduzi uma nota da Revista de História da Biblioteca Nacional sobre a diferença entre escravos boçais e escravos ladinos. Estava ali, não a origem dessas palavras, mas ao menos do uso que temos feito delas nos últimos duzentos anos, ou por aí.

Para meu total e sincero espanto, a cada vez em que vou analisar as estatísticas deste belogue, descubro que tem sempre uma cabeçada de gente que chegou a ele através do Google, justamente digitando “boçais e ladinos”, “escravos boçais e ladinos”, “diferença entre boçais e ladinos” e expressões similares. É incrível, é inexplicável, é sensacional a quantidade de pessoas que vêm parar aqui com essas expressões de busca, todo dia. De todas as minhas postagens, essa é, de longe, a que angaria mais hits, descontada a tela de entrada da vez. Nunca vi tamanho sumidouro de atração gravitacional webiana feito meu minúsculo comentário sobre os dois tipos de escravos, verdadeira lâmpada onde vêm orbitar todos os insetos que vagueiam na escuridão digital.

Não estou isolado em escrever sobre o tema. Eu mesmo fiz a busca e descobri várias páginas da Web brasileira diferenciando os dois grupos de escravos. Só que fico intrigado com a motivação por trás das buscas. Até há três anos, eu nem sabia de onde vinha esse uso de “boçais” e “ladinos”, nem jamais havia tido razão para me preocupar com isso. Então, de repente, dezenas, centenas de pessoas começam a procurar a distinção, certamente porque nunca haviam visto essas palavras na vida. Fico me perguntando: estão ensinando isso na escola agora? faz parte do programa do MEC? Tem algum discurso político “de base” usando isso? Está caindo em algum concurso, no ENEM ou no supletivo? De onde o interesse, por que a específica curiosidade? Ainda existe supletivo?

Então esse foi o mistério de hoje. Boa noite.

Falsa resenha de Star Trek: Into Darkness (Jornada nas Estrelas: Além da Escuridão)

Não vou resenhar o filme. Já tem gente demais fazendo isso pela Internet e, a bem da verdade, nunca dei muita relevância às resenhas dos outros: são impressões subjetivas de quem gostou ou não gostou, e terei minhas próprias impressões, gostando ou não gostando eu mesmo. Se tenho essa atitude em relação às resenhas dos outros, com mais razão hei de considerar justo quem a tenha em relação às minhas.

O que vou fazer, isto sim, é relatar detalhes que chamaram minha atenção e que podem passar despercebidos para parte da audiência. Tal como fiz com outros filmes, minha esperança é ajudar a digestão dos trekkers que já foram ver, ou, nos casos de quem não se importa com spoilers, preparar para a curtição que poderia não acontecer.

Aliás não sei se esta exposição será útil. A esta altura, os dois meses de pré-estreia já foram suficientes para todos os trekkers que estavam ansiosos, e já se passaram duas semanas e dois dias desde a estreia. Todomundo a quem aproveitaria meu texto já teve sua oportunidade de gastar R$ 37 no ingresso e duvido que vá ver de novo. Mesmo assim, fica este registro para escarmento do futuro e, quiçá, aproveitamento no Blu-ray.

Portanto, prepare-se: mega spoilers abaixo! Para não causar dano inadvertidamente, estou mudando a cor da fonte para branco e pedindo a você que, se realmente quiser ler, dê um copia-cola e leve o texto para o Word, o bloco de notas, sei lá.

Segue o relato.

O filme começa no planeta Nibiru. Esse é o nome que os babilônios davam a Júpiter, e os lunáticos de hoje dizem que é o nome do (inexistente) planeta que extinguirá a raça humana por meio de distúrbios gravitacionais quando entrar sùbitamente no Sistema Solar.

Na cena de abertura, a correria de Kirk e McCoy é totalmente reminiscente das cenas de abertura nos filmes de James Bond. Supostamente somos apresentados a mais um dia rotineiro na vida do herói aventureiro, sem nenhuma ligação com a história principal porém suficiente para sermos apresentados aos personagens.

Enterprise debaixo d’água?!?! Deixando de lado as queixas do Sr. Scott sobre os efeitos da água salgada (em princípio desprezíveis, já que o casco é feito de durânio), essa nave foi projetada para aguentar pressão de dentro para fora — não o contrário! Se não deveria sequer voar dentro de uma atmosfera (o que fez duas vezes neste filme), menos ainda dentro do oceano!

Se eu visse a Enterprise saindo da água na minha frente, eu também ia cair de joelhos no chão feito os nativos de Nibiru, mas por diferentes razões. #coraçãodetrekker

Não tenho a menor dúvida de que o uniforme de almirante de Pike (cinza e branco) é uma referência ao uniforme que Kirk usava em ST:TMP. Eu só gostaria de que o filme não fosse um desfile de moda dos uniformes. No caso de Kirk, por exemplo, tem a camisa amarela, a túnica cinza e o macacão azul escuro. Convinha usarem UNIformes. Da mesma forma, Chekov não mudaria de especialidade só porque foi para a Engenharia. Na verdade, talvez até estivesse errado em usar amarelo em primeiro lugar, já que era o pequeno gênio do teletransporte no filme anterior.

Então Kirk violou a Diretriz Primeira. Grandesm*rda. Pela “evolução natural” daquela sociedade de pigmeus espaciais, o vulcão ia explodir e MATAR TODOMUNDO. Se quer falar em Diretriz Primeira de não interferir, o “natural” era não haver mais sociedade nenhuma. No momento em que salvou os nativos, a Enterprise já interferiu demais e, desse ponto em diante, já que não tinham morrido, a meu juízo eles até poderiam idolatrar nossos bravos tripulantes. É melhor isso do que estarem mortos.

Quando Pike diz a Kirk que ele despreza regras, está descrevendo nosso bom e velho Capetão e, ao mesmo tempo, abordando um ponto que ficou pendente ao fim do filme anterior. Como se aceitaria que, desde o fim do filme anterior, a Frota Estelar mantivesse um moleque impulsivo e imaturo como capitão de uma nave estelar? Resposta: não aceitaria. Foi bom encarar isso neste filme aqui, de modo absolutamente explícito. Embora, a meu juízo, tenham cometido um erro no roteiro: Kirk não cometeu nenhum crime, de modo que não se justificaria que fosse rebaixado a comandante. Observe que isso não acontece nas forças armadas do mundo e certamente não acontece em Star Trek. Mesmo em ST IV, foi necessário que ele cometesse crimes militares e fosse julgado pelo próprio Conselho da Federação para ser rebaixado de almirante. Aqui não poderia ser diferente. Não é por conveniência do serviço ou por prerrogativa disciplinar que se rebaixam oficiais. Nomeou mal? Agora conviva.

Ao mesmo tempo, a preocupação de Pike com regras tem relação com o homem que vimos em “The Cage”.

É interessante que o Kirk da série não seja impulsivo como este moleque interpretado por Chris Pine. Mas também é interessante que, no piloto “Where No Man Has Gone Before”, Kirk não é sequer o aventureiro descumpridor de regras, espada em punho na proa do navio, que viríamos a conhecer. Ele era muito mais cerebral, filosófico, “enciclopédia ambulante” (ou algo assim) como o descreveu Gary Mitchell. Foi só a partir do episódio seguinte que pudemos vê-lo como o popular jogador de pôquer e enganador da morte, fruto, sem dúvida, de uma deliberada mudança no modo de se escrever e interpretar o personagem.

“John Harrison?” você pensa. Já viu alguém com esse nome em todos os 46 anos da franquia? Claramente era pseudônimo.

Na sala onde Kirk vai pedir a Marcus que lhe restitua o comando, consegui identificar alguns modelos de naves sobre a mesa. O primeiro é o Wright Flyer; depois vêm o Spirit of St. Louis, o X-15 (até hoje recordista de velocidade para aviões, pilotado por alguns candidatos a astronautas, como Scott Crossfield e Neil Armstrong, e um dos integrantes da abertura da malfadada série Enterprise), uma cápsula Mercury, uma Vostok, a space shuttle Enterprise, a XCV-330 Enterprise (a nave civil em forma de anel que aparece em Star Trek: the Motion Picture e que foi vezes demais ignorada pela cronologia), a Phoenix, de Cochrane, o protótipo de “First Flight” e a NX-01. Veja detalhes dos modelos aqui.

Perdi a fala do Almirante Marcus onde ele defere o pedido de Kirk para reassunção da Enterprise. A cabeça dele deu um pulo e uma frase não era continuação da outra. É que o Cinemark fez a gentileza de trocar os rolos de fita (ainda existe isso?) e cortar o discurso do ator. Acho que, agora, só no Blu-ray.

Como assim o Alte. Marcus revela a existência da Seção 31? Certamente os caras têm backups em algum lugar, certamente os agentes deles estão por aí. Não era para revelar nada! Referência gratuita para quem já conhece e inútil para quem não conhece. E agora Kirk e Spock estão a par da pouco querida Seção.

Quando a Tenente Wallace se apresentou, logo pensei, “Janet Wallace” (“The Deadly Years”)? Mas era Carol. Aí, claro, descobrimos que era a jovem que, mais tarde, criaria o Dispositivo Gênesis. De certo modo, a fala de Spock dentro do vulcão (“as necessidades da maioria se impõem às necessidades da minoria”) e a presença de Carol no filme foram duas introduções que nos disseram quem realmente seria o vilão, embora só depois de uma cola da Mãe do Movimento Trekker Brasileiro (descubra você quem é) eu tenha reconhecido a primeira como uma dica.

A cena da lingerie da Ten. Marcus foi injustificada, gratuita. Para as mulheres, ofensiva; para os homens, mostrou muito pouco. Se era para fazer só isso, melhor seria não ter feito nada. Parece até que era para cumprir alguma cota (como foi o caso no filme anterior).

Quando a Enterprise chegou a Qo’noS, você viu Praxis explodida? Eu vi. É uma semi-esfera no céu, com uma nuvem de detritos espalhando-se para a direita. A paisagem está lá para quem quer vê-la.

Vá lá que os diálogos abordam a preocupação com a Enterprise ser detectada pelos klingons enquanto está no espaço deles. Mas fico espantado em ver que longo tempo se passa sem que eles a detectem.

Quando Kirk retoma o comando do Ten. Sulu, o jovem oriental observa que é difícil largar a cadeira. A uma, creio que uma frase muito parecida já tenha sido usada em ST V; a duas, parece-me uma premonição em referência ao estimado Capitão Sulu, um dos favoritos dos fãs.

Questões tecnológicas. A nave do Alte. Marcus não deveria ser capaz de disparar os phasers enquanto estava em velocidade de dobra. Vários episódios da TNG (que acontece em uma era de tecnologia mais avançada) deixam claro que isso não é possível. Por outro lado, a tecnologia desta versão de Jornada avançou mais rápido do que a do universo Prime, ainda mais com ajuda de Khan, de modo que tudo é possível.

Quando a nave do Alte. Marcus — maior, mais poderosa, mais veloz do que a Enterprise — vai disparar o tiro de misericórdia, descobre-se que o Sr. Scott a sabotou. Ao apertar do botão, os sistemas caem e o Sr. Scott revela sua pequena intervenção. Ecos da Excelsior em ST III.

Khan menciona que o sistema de suporte de vida fica na parte de trás de uma das naceles. Isso não faz o MENOR sentido. Tem toda a cara de que foi enchimento de diálogo feito com o propósito de ser substituído na revisão técnica, mas que passou.

Nimoy-Spock volta a aparecer. Mas J.J. Abrams não disse que não ia mais fazer isso? Veja bem: é sempre agradável rever o Marmitão da Galáxia, mas há uma hora em que se deve largar as muletas. A passagem da tocha foi feita no filme anterior e com muita legitimidade por sinal, mas não se pode depender dessa conexão para sempre. Se era para ser reboot, era para ser reboot.

“Conseguiram derrotar Khan?” “Yes — at great cost.” Tell me about it. Se tem alguém que sabe do custo, é ele, não é mesmo?

Quando Kirk dialoga com Scott pouco antes de entrar no reator, os trekkers atentos à tradição podem contar com o iminente ato heróico. Quando pôs Scott para dormir, podia-se ter plena certeza. Nesse instante, meu pensamento foi, “mas sem mind meld, como que ele vai sobreviver?!”

Então Kirk entra no reator. Não sei nem por onde começar a criticar isso. Dentro do reator, matéria e antimatéria encontram-se no vácuo; nosso bravo Capetão não deveria ser capaz de respirar ali dentro. Além disso, não é que a radiação fosse envenená-lo: a intensa produção de energia deveria transformá-lo em átomos saltitantes imediatamente. Também muito me admira que um componente feito para lidar com potências da ordem das usadas pela Enterprise, uma vez desalinhado, vá voltar para o lugar com alguns chutes. Ainda que volte: todo o aspecto das peças mostra que são componentes de alta precisão. O tratamento ministrado por nosso nobre desbravador do espaço não deveria ser exatamente um exemplo de eficácia.

Outra questão tecnológica. Quando Kirk põe o reator para funcionar, a energia retorna e Spock ordena o acionamento dos manobradores (thrusters). Do modo como se conduziu o diálogo, fica evidente que o reator era necessário para que os manobradores funcionassem; do contrário, Sulu já os teria operado bem antes. Pois bem. Inúmeros episódios (TNG “Booby Trap”, Voyager “The Cloud”) já deixaram muito clara a noção de que os dois sistemas são completamente independentes. Os manobradores funcionam com seus próprios reatores de fusão, que não são afetados pelo que ocorre ao reator de dobra. Então, com todo o efeito dramático, a cena contrariou uma consistência já estabelecida.

Quando a nave estava novamente funcionando e a voz de Scott veio da Engenharia à ponte chamando Spock com urgência, posso afiançar a vocês que as falas de Scott foram as mesmas, e todas as falas de Scott (“You will flood the whole comparment!”), Spock e Kirk, até certo ponto, também foram as mesmas da morte original de Spock, lá em 1982. O vidro separando os dois e a saudação vulcana final foram os detalhes mais marcantes. Mas isso você também já sabia. De meu lado, se o diálogo teve a intenção de ser o mesmo, penso que deveria ter sido o mesmo até o fim, com exatamente as mesmas falas.

Bem perto do fim do filme, Spock comenta que nunca houve uma missão de cinco anos. Não??! De acordo com a literatura, “The Cage” aconteceu justamente durante a missão de cinco anos de Pike. Até o equívoco chamado Enterprise lançou a nave em uma prolongada missão de exploração do espaço. Não dá pra acreditar que, em quase cem anos de existência da Frota Estelar (mais, se contarmos o tempo antes da fundação da Federação), ninguém tenha tentado uma missão desse tipo.

Ao fim de tudo, reparo que os personagens estão mais entrosados e que os atores estão mais próximos desses personagens do que no filme anterior, em particular McCoy (Karl Urban perfeito nos resmungos e perdas de paciência) e Scott, que é mais do que um sotaque de Aberdeen.

Há um detalhe que me chamou atenção no filme anterior e que continua presente neste, que é o nível de detalhe com que Zachary Quinto conseguiu reconstruir o desempenho de Leonard Nimoy. Na série original e em seus filmes, Nimoy sempre apareceu caminhando de um modo peculiar, deliberado, típico de um idoso. Pode-se ver que levanta bem os pés, realçando sua magreza. Provàvelmente de modo intencional, Quinto emula o caminhar de Nimoy e, com isso, traz Spock de volta sem que a audiência média consiga apontar o dedo para onde, exatamente, está a semelhança.

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Nomenclatura: motores a jato

Em uma postagem de utilidade pública, venho aqui ensinar um pouco de nomenclatura.

Avião a jato não é propelido por TURBINA, mas por MOTOR a jato.

Em um motor a jato, a propulsão acontece da seguinte forma: primeiro, o ar é admitido pela frente do motor, onde entra no compressor. Ali o ar é comprimido a uma pressão e uma temperatura muito superiores às da atmosfera. Em seguida, o compressor empurra o ar para dentro da câmara de combustão (ou “combustor”), onde bicos injetores pulverizam combustível (que, em geral, é querosene). Por causa da pressão e temperatura da câmara de combustão, o combustível reage com o oxigênio do ar, queimando violentamente e causando uma violenta expansão desse ar e dos gases resultantes da queima. O volume do combustor é limitado, de modo que o ar aquecido fica sob alta pressão; e, não podendo sair pela frente (pois é dali que está vindo o escoamento), ele vai direcionar-se para trás, para a saída de gases. Assim, é da queima do combustível que vem a energia para a propulsão funcionar.

Esquema simplificado de um motor turbojato

Esquema simplificado de um motor turbojato

A energia contida no combustível converte-se em energia mecânica, que se manifesta como uma enorme pressão do ar aquecido contra a parede dianteira da câmara de combustão e contra o compressor. É isso que empurra o avião adiante.

Naturalmente, como em TUDO no universo onde há forças atuando, aplica-se a Terceira Lei de Newton. Então, outra forma de se apreciar o que acontece é ver que, assim como os gases se deslocam para trás a determinada velocidade, da mesma forma o avião se desloca para a frente com outra determinada velocidade, de acordo com as proporções aplicáveis. É o que se chama de Lei da Ação e Reação. Essa lei é sempre verdadeira, e aplica-se perfeitamente, mas, a meu juízo, a propulsão a jato não é o melhor dos exemplos para se tentar enxergá-la. Isso porque o sistema “avião + gases” não está no vácuo, mas na atmosfera, onde outras forças estão influindo; e também porque o avião não empurra os gases para trás no sentido comumente imaginado. É certo que, se os gases vão para trás, é que o avião os empurra, mas isso não é imediatamente visível no fenômeno que ocorre dentro da câmara de combustão. É mais fácil simplesmente perceber a lei da conservação da quantidade de movimento (que é outra forma de se interpretar a lei da ação e reação, mas que se apresenta sob uma equação diferente e se enxerga de modo diferente).

De todo modo, como se costuma pretender visualizar a lei da ação e reação no avião a jato, em Portugal ele costuma ser chamado de “avião a reacção”, e o motor é dito “reactor” ou “turborreactor”.

Observe que o ar e os gases da queima saem por trás do motor a alta temperatura e alta pressão. Isso é a própria propulsão, e é assim que se está usando a energia do combustível. Enquanto isso, lá na frente do motor, o compressor deve continuar girando para jogar o ar para dentro, e alguma coisa deve mantê-lo a girar. Em um dos primeiros aviões a jato construídos, o Caproni-Campini N.1, de 1940, o compressor era acionado por um motor a pistão convencional, movido a gasolina. Entretanto, essa é uma solução pesada, custosa e complexa. Exceção feita a algumas aeronaves experimentais da mesma época, todos os aviões a jato funcionam de um modo que é mais elegante e mais eficiente: antes que os gases saiam por trás do motor, eles devem atravessar uma turbina. Ao fazer girar a turbina, os gases perdem parte de sua energia e efetivamente estão agindo contra a propulsão da aeronave. Forçada a girar, a turbina está subtraindo energia dos gases e transmitindo-a ao compressor mediante um eixo. Daí se conclui, não apenas que não é da turbina que vem a propulsão, mas, também, que a turbina atua CONTRA a propulsão.

Possìvelmente, a falsa noção de que “a propulsão venha da turbina” nasceu de outros tipos de situação, onde efetivamente uma turbina aproveita a energia de alguma fonte e a transforma em energia útil. Os melhores exemplos são as usinas hidroelétricas e termoelétricas, onde a água (no caso das hidroelétricas) ou o vapor (no caso das termoelétricas) faz girar uma turbina e daí se gera eletricidade. O mesmo acontece nos navios movidos por turbina a vapor, onde a turbina faz girar um eixo para propulsão. Observe, porém, que há uma diferença fundamental. Nas usinas, nós não estamos interessados na água ou no vapor que já passou pela turbina, nem eles dão qualquer propulsão direta. Ao contrário, estamos interessados é na energia que a turbina subtrai do escoamento, e queremos que seja a maior proporção possível da energia disponível, para que o máximo se transmita pelo eixo. Já no avião a jato, é o contrário; queremos subtrair o mínimo possível para manter o compressor funcionando, para que o escoamento principal conserve sua energia, que é onde está seu principal uso.

Conforme se vê, em um avião a jato, a turbina é apenas um componente do motor e não fornece NENHUMA propulsão.

Além de tudo isso, caberia observar que essa foi uma explicação supersimplificada. Eu poderia esclarecer que, hoje em dia, cada vez menos se usam motores do tipo turbojato, que foi o tipo que descrevi aí em cima; e que, cada vez mais e mais e mais, o que se vê são motores do tipo turbofan, onde um grande ventilador é posto à frente do compressor, admitindo ar mas jogando-o para trás sem que esse ar realmente entre no motor pròpriamente dito, o que aumenta em muito a eficiência e, dessa forma, economiza combustível. Eu poderia observar que os motores do tipo turboélice também são classificados como motores a jato, mas, diferente do que acontece nos outros motores a jato, eles, sim, destinam-se essencialmente a mover uma turbina, que aproveita o máximo possível da energia dos gases para movimentar a hélice — e, no entanto, neste único caso de avião realmente movido a turbina, ninguém chama assim. Eu poderia lembrar o caso da grande maioria dos helicópteros modernos, que são movidos por turboeixos — essencialmente, motores turboélice onde, em vez de uma hélice, o eixo movimenta o enorme rotor acima da fuselagem. Eu poderia comentar que a maioria dos aviões supersônicos precisa, para o regime supersônico, fazer uso de um componente que só eles têm, que é o pós-combustor (o tão querido afterburner dos nerds). Eu poderia explicar que uma antiga técnica para aumentar a potência dos motores a jato, especialmente na decolagem, era injetar água no ar comprimido antes da combustão, o que aumentava a massa de vapor e reduzia a temperatura, embora gerasse aquelas gigantescas nuvens de fumaça. Eu poderia, finalmente, discriminar que, hoje em dia, a maioria dos motores a jato tem não um, mas dois compressores em sequência (o de baixa e o de alta pressão) e não uma, e sim duas ou até três turbinas, sendo uma para levar rotação ao compressor de baixa pressão e a(s) demais para levar rotação ao compressor de alta.

Poderia, mas não vou. Prefiro deixar todas essas indicações para meu querido Leitor pesquisar por conta própria, o que é sempre muito mais divertido e mais recompensador para ambas as partes.

De tudo, o que deve ficar é o que peço a meu querido Leitor que porventura tenha tido a paciência de chegar aqui: por favor, pare de usar a palavra “turbina” para se referir ao MOTOR de um avião a jato. NUNCA está certo usar “turbina”. Não importa o que diga a repórter da televisão, SEMPRE está errado dizer “turbina”. O certo é MOTOR.

Obrigado.

Genesis, surpresas e memórias

Comecei a gostar de Genesis no início dos anos 90, ou por aí. Provàvelmente em 1989. Na época, as músicas da banda com que eu tinha contato eram as que tocavam no rádio: That’s All, publicada no álbum Genesis, de 1983; In Too Deep, Throwing It All Away e Invisible Touch, do álbum Invisible Touch, de 1986; Follow You Follow Me, de …And Then There Were Three…, de 1978; e No Reply At All, de Abacab, 1981. Em todas essas, o vocalista era Phil Collins, que também fazia muito sucesso em sua carreira solo.

Um dia, meu colega Luiz Otávio me contou que o cantor Peter Gabriel havia sido integrante do Genesis muito tempo antes. Claro que isso não fazia o menor sentido para mim. Como assim?!? Eu nunca havia ouvido nada com Peter Gabriel, que era conhecido pelo recente sucesso Sledgehammer.

Mais tarde, na casa do meu tio, encontrei uma coleção de LPs lá dos anos 70. Títulos como Nursery Cryme, Foxtrot e Selling England By the Pound. Todos do Genesis, mas era muito estranho! As capas não tinham nada a ver com a apresentação visual que eu conhecia, as músicas eram muito diferentes, não parecia haver qualquer relação entre o estilo quase orquestral dessas antigas gravações e o rock técnico a que estava habituado, e duas constatações eram inacreditáveis para mim: uma, que a voz não era de Phil Collins (quem era então?); outra, que os álbuns eram incrìvelmente velhos: como assim, anos 70??

Não era possível — havia toda uma carreira de mais de dez anos do Genesis que era pré-existente (é assim que se escreve agora?) …pré-existente a tudo que eu conhecia, como se fizesse parte de alguma história oculta, algum universo paralelo que emergia em minha realidade…

Naturalmente, eram tempos anteriores à Internet. Tudo que se viesse a saber era uma descoberta surpreendente, eram tesouros súbitos, eram revelações. História do rock não era o tipo do assunto sobre o qual você encontrasse livros em qualquer biblioteca, e mesmo aquilo que encontrávamos era muito fragmentário. Ainda estavam muito distantes no futuro os grandes trabalhos de pesquisa do início da Web e os agregados de factóides da Web 2.0.

Hoje tenho 23 anos de ouvinte de Genesis. Acostumado a ouvir e reouvir os álbuns mais antigos, conhecedor da história e da carreira do grupo, às vezes me esqueço de como era o tempo em que eu não sabia nada, em que tudo era uma grande novidade, em que cada novo disco comprado era uma exploração.

Na verdade, assim a gente vai progredindo na vida com tudo mais. Chega um ponto em que você já domina determinado assunto, o que é inevitável quando esse assunto apaixona. Com o tempo, perde-se a perspectiva que se tinha no início, quando tudo era território inexplorado. Porém ainda ficam as memórias daquele deslumbramento inicial, e são memórias que se guardam com especial afetividade, em um lugar reservado da história pessoal, sempre vivo, seguro e preservado.

E passamos a novas explorações, que não se pode ficar estático, nem se pode para sempre perder aquele senso de descortinamento de um universo à espera. Novos assuntos nos ocupam, novos aprendizados. E no entanto levamos conosco aquela velha amizade, que sempre nos pode confortar pelo caminho, daquilo que um dia viemos a dominar e que hoje faz parte de nós.

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A Serra Gaúcha e o limite de número de garrafas

Em 2007, entrou em vigor uma norma internacional que limita o transporte de líquidos na bagagem de mão: somente embalagens de até 100 ml, dentro de um saco plástico de até um litro. Segundo a formulação original, essa norma só se aplica a voos internacionais, mas já a vi aplicada a voos domésticos no Brasil, o que não sei se é legal mas vou presumir que seja.

Pois bem. Atente a isto: para voos domésticos partindo do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, neste ano de 2012, você não pode incluir bebidas na bagagem despachada, e sua bagagem de mão só pode conter até cinco garrafas de até um litro cada uma. Essa segunda regra faz sentido em razão do limite de 5 kg da ANAC para a bagagem de mão, mas a primeira é uma completa novidade para mim, e não encontrei orientação sobre ela no saite da ANAC.

Não adianta espernear, e é melhor conhecer as regras de antemão. Não sei se a proibição quanto à bagagem despachada é sòmente para garrafas de vidro, mas sei o que vi: a moça do checkin perguntou se eu tinha bebidas nessa bagagem; e a moça do raio X viu que havia duas garrafas na bagagem de mão e pediu para vê-las em detalhe. Vendo-as, deteve-se no volume relatado pelos rótulos.

Aparentemente, a regra que limita a bagagem despachada é da Infraero. Não a vi sendo praticada em Curitiba nem no Rio, de modo que presumo que seja específica de Porto Alegre. Não vi divulgação em nenhum lugar; você só fica sabendo dela no ato do checkin. Vi pessoas com caixas de seis garrafas de vinho; não sei como fizeram para embarcarem, já que tampouco poderiam levá-las na mão.

As razões podem ser várias, mas só nos cabe especular. Uma possibilidade é que os carregadores de bagagem, com a gentileza que lhes é peculiar, tenham arremessado algu’a mala e inevitàvelmente quebrado as garrafas que estavam soltas ali dentro. Certamente o proprietário da mala não deve ter tomado nenhum cuidado de acolchoar e isolar o conteúdo, recebeu um monte de cacos e manchas de vinho na esteira ao fim da viagem e entrou com ação em face da Infraero, que deve ter sido condenada. A empresa deve ter imposto a regra a fim de evitar novos danos: “ah, é, eu sou responsável? Então, se sou responsável, ninguém mais pode levar garrafa nenhuma na bagagem, pronto” — no que não estaria de todo errada. Se alguém é responsável por alguma coisa, a esse alguém deve ser reconhecido o poder de impedir essa coisa.

Junte-se a isso o limite de 5 kg na bagagem de mão. Como o vinho tem densidade pràticamente igual à da água, quem levar cinco garrafas de um litro estará certamente violando o limite de peso (não se esqueça do peso do vidro). Daí a implicação mais refinada da regra da bagagem despachada: você tem pouca alternativa.

Não deve ser coincidência com o fato de que os brasileiros viajam cada vez mais de avião e cada vez mais vão à Serra Gaúcha, de lá trazendo bonsdrink. Ora, o vinho é o produto mais famoso daquela região e um dos que mais motivam o turismo por lá. Assim, a nova norma aeroportuária é uma boa forma de coibir o comércio de vinhos do Rio Grande do Sul para turistas, induzindo às vendas por atacado, que seguem por caminhão. Isso vai ser particularmente interessante por ocasião do Natal: em Gramado, essa temporada é tão importante quanto o inverno, e aumentam as vendas no comércio local.

A consequência prática é que ninguém pode trazer mais do que cinco garrafas de vinho da Serra Gaúcha se pretende voltar para casa de avião. Faz TODO o sentido, especialmente se só se avisarem os compradores sobre a bagagem despachada quando estiverem fazendo checkin.

Pelo menos, é o que eu faria, porque assim é muito mais divertido.

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A divisão de classes em tempos de crise

O conteúdo deste vídeo é uma constatação a que eu já havia chegado independentemente, por observação dos aviões, dos anúncios, dos websites e das notícias.

http://live.wsj.com/video/say-goodbye-to-first-class-on-us-airlines/3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055.html?mod=wsj_blog_tboleft#!3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055

Em síntese: as companhias aéreas estão deixando de operar a primeira classe. O motivo é a falta de procura. Os passageiros pagantes simplesmente não estão interessados em pagar o dobro da executiva, considerando que a primeira classe não oferece vantagem significativa sobre uma executiva que já é bem confortável, aparelhada e luxuosa. E os não pagantes, usando milhas, são três quartos dos que voam na primeira classe. Consequência: a primeira classe deixou de ser rentável.

As companhias aéreas criaram os programas de milhagem e, com isso, entraram em um caminho sem volta: graças à concorrência, nenhuma delas ousa deixar de manter seu programa. Tendo que cumpri-los, veem-se vítimas de seus próprios esquemas, porque a primeira classe acabou invadida pelos não pagantes e elas ficaram presas com isso. A solução? Extinguir a primeira classe: transformar esses assentos em executiva e, assim, passar a extrair dinheiro deles.

Além disso, o passageiro que tem um pouco mais de dinheiro e quer fugir da econômica, esse passageiro contenta-se com uma classe que surgiu há não mais do que cinco anos: a “econômica premium”, ou “econômica plus“. O tráfego aéreo está bem maior do que há vinte anos, e os aviões estão maiores também: veja o surgimento do mastodôntico A380, do recém-lançado 747-8I, do 777, do A340 (esses dois, inclusive, em versões mais longas, o 777-300 e o A340-600). Veja como as versões recentes do 737, que é um avião de curto alcance, têm pràticamente a capacidade dos 707 intercontinentais de há cinquenta anos; veja como os jatos regionais de cem lugares substituíram os turboélices de cinquenta. Há mais gente viajando e a passagem econômica ficou mais acessível. Com isso, as pessoas mais afluentes dentre essas da econômica acabam migrando para a econômica plus.

Assim, gradual (mas ràpida) mente, deixa de existir o trio primeira-executiva-econômica e passa a haver o trio executiva-econômica(plus)-econômica. No geral, que vemos? Afora os nomes, uma redução na qualidade oferecida nas duas classes superiores. Mas também um aumento de receita para a empresa aérea: o passageiro deixa de viajar na primeira classe (onde não pagaria) e passa a viajar na executiva (onde paga e, além disso, o custo é um pouco menor). Outros passam a viajar na econômica plus, onde há pouco acréscimo de qualidade mas o preço é 50% maior — tal como na executiva de bem antigamente.

A matéria fala de empresas americanas, mas veja só: em 2010, viajei à Inglaterra. Em um voo intercontinental como era aquele, NÃO HAVIA primeira classe; nem na ida nem na volta. O mais luxuoso que havia eram cerca de trinta lugares de executiva.

Claramente isso é uma consequência da crise financeira mundial, porque começou a acontecer aproximadamente em 2008, justamente um ano após o início das quebras de grandes bancos e do encolhimento das economias.

Mas não nos queixemos: como diz o analista do vídeo, em TODAS as classes que permanecem o conforto e o serviço estão muito mais evoluídos do que há quinze anos (ele disse dez, mas divirjo). Realmente, na executiva os assentos passaram a descer até a horizontal e a ter mais privacidade do que tinha a primeira classe de então; e o cardápio também se tornou mais variado e em pratos de porcelana, tal como era na primeira classe. Enquanto isso, na econômica, já faz uns cinco anos que cada passageiro tem sua própria tela de TV — algo que, há quinze anos, só existia da executiva para cima. Na econômica também passou a haver muito mais canais de áudio e vídeo dos quais escolher, e outras vantagens vieram também. Por sinal que os canais de áudio e vídeo são benefícios da econômica atual que não existiam nem na primeira classe daqueles tempos.

Tudo graças à concorrência, que se torna mais acirrada em tempos de crise.

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Nomenclatura: aviões de caça

Em todo o mundo, “caça” é o nome que se dá a um tipo de avião de combate especializado em derrubar outras aeronaves do céu. Existem vários sub-tipos: interceptadores de longo alcance, interceptadores de defesa de ponto, interceptadores de defesa de frota, caças de combate aéreo, caças de escolta, caças multifuncionais, caças de duplo emprego, de superioridade aérea… Mas todos têm em comum que seu alvo são aeronaves que estão voando.

Em quase toda a literatura sobre aviação, há uma tripartição que é clara a respeito de aviões de combate: aviões de caça contra alvos que estão no céu (em inglês, chamados “fighters”); bombardeiros, para voo nivelado despejando bombas sobre alvos distantes; e aviões de ataque contra alvos na superfície em uma zona de combate (em inglês, “attack” ou “strike”). Parte dos livros inclui os aviões de ataque entre os bombardeiros, dividindo os aviões de combate em apenas dois desses grupos. Para aumentar a confusão, os caças-bombardeiros não são caças nem bombardeiros, mas justamente aviões de ataque.

Nos Estados Unidos, nem sempre essa distinção foi seguida. Em 1948, a nascente Força Aérea daquele país extinguiu a designação “A” para aviões de ataque. Todos os aviões com A existentes foram redesignados como bombardeiros, com B, como no caso do A-26, que se tornou B-26 (gerando uma confusão que persiste ainda hoje, porque havia outro bombardeiro, contemporâneo dele, que também se chamava B-26 e que tinha acabado de ser aposentado). Os novos aviões de ataque surgidos em anos subsequentes foram designados como caças, com a letra F — como, por exemplo, o F-105, o F-111 e, bem recentemente, o F-35 (embora o F-111 e o F-35 tenham, de fato, sido concebidos com o propósito de também serem usados como caças). Já a Marinha fez o contrário, designando com A um conjunto de aviões que claramente eram bombardeiros, como o A3D Skywarrior, o AJ Savage e o A3J Vigilante. Em 1962, a nomenclatura A voltou a ser usada pela Força Aérea, mas o F-105 até hoje é chamado de “caça” sem realmente nunca ter sido destinado a combater outros aviões e apesar de ter um compartimento de bombas.

Não é um caça.

Não é um caça.

No Brasil, por um vício de linguagem, costuma-se chamar de “caça” qualquer avião de combate com apenas um ou dois tripulantes, o que acaba incluindo tanques* voadores feito o americano A-10, que não tem qualquer dos atributos necessários a essa categoria. A Força Aérea Brasileira contribui para o equívoco na medida em que inclui na aviação de caça os esquadrões que operam o AMX (uma aeronave desenvolvida e operada somente contra alvos terrestres) e o Xavante (no qual os pilotos treinavam ataque a alvos terrestres). Então, os aviões de ataque são tratados indistintamente como caças, e até chamados assim.

No caso da FAB, a confusão pode ser decorrente de uma frustração histórica. Em 1944-1945, os pilotos do 1o. Grupo de Aviação de Caça foram treinados pelos americanos para eliminarem aviões alemães dos céus europeus. Chegando à Itália, depararam-se com um cenário bem diferente daquele para o qual haviam sido preparados: a Luftwaffe já havia sido varrida do mapa, e os únicos alvos que restavam eram blindados, caminhões, pontes e depósitos. Com isso, a FAB teve de mudar o foco de sua atuação, e nossos bravos pilotos destacaram-se em arriscadas missões de ataque, a ponto de o Grupo ser uma de apenas três unidades não americanas a terem merecido a Presidential Unit Citation pela bravura de suas ações. Hoje, na FAB, o dia 22 de abril é celebrado como Dia da Aviação de Caça porque, naquela data de 1945, nossos pilotos cumpriram um número extraordinário de missões, em circunstâncias penosas, contra um número significativo de alvos alemães em terra.

Em terra. O vício de linguagem consiste em tratar como “aviação de caça” todo tipo de aviação de combate, e como “caça” todo tipo de avião de alto desempenho, inclusive os de treinamento.

O que me motivou a vir escrever isto é que acabo de ver uma fotografia de vários A-29 da FAB no 7 de Setembro, com a legenda “caças da FAB sobrevoam Brasília”. O nome “A-29”, com A, indica não serem caças. Um dos principais empregos deles é o ataque a pistas clandestinas na Amazônia e similares alvos terrestres. A maior indicação de não serem caças é o fato de serem movidos a hélice: antes dos A-29, o último caça com motor a hélice saiu das linhas de montagem nos anos 50; o último novo caça a hélice data de 1946. Històricamente, os caças sempre foram o tipo de avião de combate de mais alto desempenho, o que decorreu naturalmente da evolução de terem sempre que superar alvos desenvolvidos justamente para fugirem deles, com mais velocidade, mais altitude e mais agilidade.

… E, no entanto, excepcionalmente a legenda da fotografia está certa. Outro dos principais empregos do A-29 da FAB é a derrubada de aeronaves clandestinas do céu do Brasil, com metralhadoras e mísseis ar-ar. Após quase cinquenta anos, a Força Aérea Brasileira realmente pôs em serviço um novo avião de caça movido a hélice, com uma aerodinâmica semelhante à dos caças da II Guerra Mundial, e não há nada de errado nisso.

É um caça.

É um caça.

Mas que fique bem claro: o A-29 é exceção. Estou entendendo que o acerto tenha sido circunstancial, porque a expressão foi usada ainda dentro daquela mentalidade de que todo avião agressivo seja um caça. Em todos os casos, chamar um avião de ataque de “caça” está errado.

* Na verdade, “tanque” é tradução do inglês. O certo em português é “carro de combate”. Mas aí não tem a mesma graça.

Vendo a velocidade da luz

Não é “vendo”, presente do indicativo de “vender”, mas “vendo”, gerúndio de “ver”.

Este vídeo está correndo a Web feito fogo na palha, e merecidamente.

Mas todos os rápidos (e ingênuos) textos que já vi têm um defeito em comum: passam a ideia errada de que você “vê a luz se deslocando”, igual àqueles raios laser de filmes de scifi. Não é isso que você vê. A explicação do cientista-engenheiro está correta (ÓBVIO), mas está em inglês. Então, abaixo ofereço meu próprio texto sobre o que acontece.

Ninguém filmou “a luz se propagando”. É assim: primeiro, um raio de luz avança e bate num grão de poeira, ou numa molécula de plástico, ou no que for. Aí, esse raio reflete, vai noutra direção, e acerta (por exemplo) a câmera, que está ali do lado. Nesse momento, a câmera vê a luz pela primeira e única vez; a luz marca o filme; a câmera registra uma centelha. Para a câmera, tudo se passa como se o raio tivesse vindo originalmente daquele grão de poeira que havia no meio do caminho, porque veio mesmo. Para a câmera, o que aconteceu foi uma centelha, ali onde está o grão de poeira, vindo na direção da câmera. Mas sabemos que essa centelha é um raio que veio ali do grão de poeira, que estava se intrometendo no começo do percurso original do raio. Fim.

Agora, junto àquele primeiro raio, havia outro, paralelo, emitido ao mesmo tempo. Esse outro fez um percurso mais longo do que o primeiro sem ser perturbado. Até que, cerca de 0,00000000003 segundo depois, também encontrou um grão de poeira. Como seu percurso durou 0,00000000003 segundo a mais, esse encontro aconteceu 1 cm adiante do encontro anterior. Mas também esse raio foi forçado a refletir noutra direção. E encontrou a câmera, e fez a câmera “acreditar” que estava vindo do segundo grão de poeira, tendo saído dali 0,00000000003 segundo depois e 1 cm adiante do primeiro raio. Então, a câmera registra uma centelha em um ponto que fica 1 cm adiante da primeira centelha.

E assim sucessivamente. São milhares, milhões de raios. À medida que avançam, vão trombando na poeira, refletindo, e alguns atingem a câmera. O que a câmera vai registrando são sucessivas colisões entre luz e poeira; somente aquelas cujas consequências são raios apontados para a câmera. Naturalmente, essa sucessão de colisões vai acontecendo ao longo do caminho que os raios tentam percorrer desde o começo. Então, vemos os impactos acontecendo, um depois do outro, ao longo do caminho que a luz está percorrendo.

Claro que, enquanto um raio de luz está avançando pela garrafa sem colidir com nada, ele é invisível: você só o veria se ele batesse na câmera, mas ele está lá, percorrendo a garrafa, sem bater em nada. Até que ele colide com a poeira. Nesse momento, pronto: aquele raio de luz não está mais fazendo o percurso; ele está colidindo com a poeira e refletindo, e sofrendo o fenômeno que acabei de descrever. Então, de certo modo, o que você vê não é o “percurso” da luz. Ao contrário: é uma sucessão de colisões onde a luz foi impedida de fazer seu percurso. São sucessivas interrupções ao percurso. Cada raio que colide (e assim se torna visível) é menos um raio que está fazendo o percurso, e com isso há cada vez menos raios fazendo a corrida. Os raios que chegam à tampa da garrafa estão em menor quantidade do que os que partiram do emissor.

São diferentes grãos de poeira, espalhados ao longo do caminho, e cada um gera sua centelhinha. Por isso, cada ponto de impacto é diferente do outro. Mas a sucessão de impactos dá a impressão de ser um ponto só que avança. Essa impressão-de-avanço vai andando à medida em que novos impactos surgem. E com que velocidade a impressão-de-avanço vai avançar? Com a mesma velocidade com que os raios vão avançando, sem serem detidos, até afinal serem detidos pela poeira: a velocidade da luz.

E é isso que vemos no vídeo.

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Resumo da História do Harrier

No fim dos anos 50, a Real Força Aérea tinha uma especial preocupação. A Inglaterra fica perigosamente próxima das bases alemãs de onde se acreditava que viriam os ataques aéreos iniciadores da III Guerra Mundial. De acordo com a doutrina militar da época (e, na verdade, de hoje também), o primeiro ataque deveria eliminar o poder do país atacado de lançar seus próprios aviões ou mísseis. Então, muito da estratégia de defesa do Reino Unido estava voltado a evitar que a URSS pudesse eliminar a RAF com o primeiro golpe.

A primeira consequência desse raciocínio foi a dispersão dos aviões, aumentando o número de bases aéreas e, em cada uma, espalhando os aviões em abrigos individuais o mais isolados possível (sim, meu português está certo). Assim, um bombardeio teria possibilidade de atingir menos aviões de cada vez, no mesmo princípio de evitar pôr todos os ovos na mesma cesta. Se observarmos as bases aéreas britânicas no Google Earth, veremos inúmeros abrigos individuais, com os aviões espalhados em torno da pista; os hangares, quando há, são pequenos. Grandes exemplos são Lakenheath, Leuchars, Lossiemouth e as já desativadas Alconbury e Wyton.

Considerando a extrema vulnerabilidade das bases aéreas, com suas gigantescas superfícies expostas e visíveis de longe, outra consequência foi o esforço de criar aviões de combate que não precisassem delas. Para os estrategistas, seria ótimo poder esconder suas aeronaves em clareiras, tornando-as difíceis de detectar e ainda mais dispersas. Naturalmente, para que um avião não precise de pista, ele deve ser capaz de decolagem vertical — uma tecnologia que, no fim dos anos 50, já tinha sido objeto de vários experimentos mas ainda não estava dominada.

Por isso, os engenheiros da Hawker desenvolveram o P.1127. Não se tratava de um avião de combate, mas de um demonstrador de tecnologia, um jato minúsculo e subsônico, com um motor, um tripulante e uma capacidade muito limitada de carga útil, destinado a avaliar o comportamento e a utilidade de um jato de decolagem vertical. Através dos avanços obtidos com o P.1127, pretendia-se verificar quais eram os requisitos e limitações de um verdadeiro e supersônico avião de combate, que seria o P.1154, a ser utilizado como um pequeno e veloz bombardeiro que deveria decolar de bases avançadas.

Logo se percebeu a principal limitação deste tipo de aeronave: os dispositivos de decolagem vertical eram exageradamente pesados em comparação com o peso da aeronave e com a potência do motor, limitando o quanto se poderia levar em combustível e armamento. Difìcilmente se conseguiria um avião supersônico, que requereria um motor ainda maior, capaz de levar uma quantidade apreciável de bombas até o coração do inimigo. Então, os severos cortes sofridos pela indústria de defesa britânica, mais os avanços na tecnologia de mísseis, levaram ao cancelamento do P.1154.

Entretanto, esse não foi o fim da tecnologia empregada no P.1127. A pedido da RAF, o pequeno demonstrador seguiu em seu desenvolvimento e evoluiu para um dos aviões de combate exóticos e famosos do fim do século XX: o Hawker Siddeley Harrier (mais tarde, British Aerospace Harrier). Não era mais um avião estratégico de ataque nuclear como se imaginara, mas um pequeno jato de apoio a combates em terra. A versão inicial, Harrier GR.Mk 1, estava complementada pelo biposto T.Mk 2 e foi sucedida pelos aprimorados GR.Mk 1A, T.Mk 2A, GR.Mk 3 e T.Mk 4. Cabe observar que o Harrier só tem capacidade de decolagem vertical quando está quase vazio. Se dotado de combustível e armamento, requer decolagens curtas, embora bem mais curtas do que as dos outros jatos de combate.

Em 1978, entrou em serviço embarcado na Real Marinha o Sea Harrier FRS.Mk 1, o primeiro caça subsônico após já vinte anos em que a História da aviação só conhecera novos caças supersônicos. O Sea Harrier foi largamente utilizado na Guerra das Malvinas no seu típico papel de defensor de porta-aviões, dando cobertura a desembarques, defendendo navios e fazendo uso de sua capacidade de decolagens bem curtas a partir de conveses dotados de rampa. No início dos anos 90, o FRS.Mk 1 foi substituído pelo Sea Harrier FA.Mk 2, com radar e armamento atualizados.

O Harrier GR.Mk 3, produzido sob licença pela McDonnell Douglas, foi adotado pelos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos como AV-8A. Fez tanto sucesso embarcado nos porta-helicópteros de assalto que, a pedido dos Fuzileiros, o fabricante americano iniciou o desenvolvimento de um novo avião, essencialmente baseado no Harrier original mas já suficientemente diferente para ser considerado outro modelo. O interesse da British Aerospace levou ao desenvolvimento conjunto, e este sucessor do Harrier entrou em serviço em meados dos anos 80 com os nomes de AV-8B Harrier II (nos Estados Unidos) e Harrier GR.Mk 5 (na RAF), havendo pequenas diferenças de equipamento eletrônico entre as versões americana e britânica. Posteriores versões foram denominadas AV-8B+ e Harrier GR.Mk 7 e Mk 9. Desde 1991, esses aviões têm sido largamente utilizados nos conflitos do Iraque, dos Bálcãs e do Afeganistão, sendo bastante adequados a bases aéreas próximas dos locais de conflito.

No Reino Unido, o Harrier saiu de serviço em 2011 (os Sea Harriers, pertencentes à geração anterior, já haviam sido desativados antes). Os exemplares restantes foram vendidos aos Estados Unidos, para canibalização de suas peças na frota de AV-8B. Em ambos os países, está programado que os Harriers serão substituídos pelo Lockheed Martin F-35, que também deverá substituir os A-10, F-16 e F/A-18 na Força Aérea, na Marinha e no Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos. De acordo com os propósitos de britânicos e americanos, o F-35 será o principal avião de combate dos Estados Unidos e do Reino Unido no século 21. Supersônico, ele também é dotado de apenas um motor e, apesar da nomenclatura começando com F, não é um caça, mas um avião de ataque e apoio cerrado. Estará disponível em três versões: F-35A, para bases terrestres, de decolagem convencional; F-35B, para decolagem vertical; e F-35C, para decolagem convencional de porta-aviões.

O F-35 nasceu como um demonstrador de tecnologia chamado X-35, participando de uma disputa com o Boeing X-32. Os dois projetos seguiam diferentes arranjos de motores para a decolagem vertical, e o vencedor formaria a base para o futuro projeto de avião de combate, na época denominado JSF (Joint Strike Fighter). Em determinado momento, considerações de custo fizeram com que os Estados Unidos abandonassem a intenção de desenvolver o JSF como um novo avião, preferindo aproveitar o concorrente vencedor, e o X-35 foi transformado no F-35, pulando onze números na nomenclatura dos caças dos Estados Unidos (já que o último modelo anterior havia sido o YF-23).

O Harrier teve um início modesto seguido de uma história de sucesso em 44 anos de operação. Do F-35 é cedo para se prever o resultado, mas o início da história é certamente ambicioso. Em outros países da Europa, os projetos tiveram menos sucesso. Na França, o Mirage IIIV foi cancelado; na Alemanha Ocidental, o EWR VJ 101 e o VFW VAK 191B apresentaram-se pràticamente inúteis como aeronaves de combate e foram cancelados; na URSS, o MiG-23PD foi incapaz de decolagens verticais, enquanto o Yak-38, genèricamente equivalente ao Harrier, foi um dos jatos de combate de desempenho mais fraco da História da aviação. Em comum a todos eles, as decolagens verticais demandavam potências que tornavam os equipamentos de decolagem vertical proibitivamente pesados e volumosos, limitando severamente a autonomia e a carga útil e eliminando a aplicabilidade dessas aeronaves em combate. Passados mais de sessenta anos do início dos projetos, a indústria aeronáutica ainda não conseguiu desenvolver um avião de combate de alto desempenho capaz de decolagem vertical.

Este texto só foi escrito porque notei uma similaridade entre as histórias do Harrier e do F-35 que, até hoje, não vi destacada em nenhum texto. A esta altura você também já observou: apesar de ter seu primeiro voo separado do do Harrier por quarenta anos, o F-35 também nasceu como um mero demonstrador experimental sem propósito de produção em série e também é resultado da desistência de se criar o jato de ataque definitivo, adaptando-se o demonstrador para uso operacional. Um é sucessor do outro nas forças armadas que os empregam, perpetuando a solução interina enquanto se mantém irrealizado o sonho.

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“Frango já nasce assim”

Verificando as estatísticas do WordPress para este belogue, acabo de descobrir que alguém jogou a seguinte expressão de  busca no Google: “calendario maia e o fim do mundo resumo para a escola”.

Sério.

Vamos deixar uma coisa bem clara: se a sua escola está jogando fora o seu precioso tempo em pretender dizer que o fim do mundo esteja iminente por QUALQUER razão, ela está ENSINANDO ERRADO. Se alguém teve que fazer resumo prà escola relacionando os dois assuntos, então alguém tinha que cassar o diploma desse professor, que está ensinando obscurantismo em vez de dar aula séria.

… A menos que o propósito seja justamente dizer que não faz sentido. Aí pode.

Aliás, peraí! Se a expressão de busca foi essa, é que tem alguém querendo vir à Internet pra pegar o resumo PRONTO, né! Alguém aí tá querendo levar nota sem ter tido trabalho! O nome disso é ESTELIONATO.

Outra expressão de busca com que vieram parar aqui: “quais sao os tipo de embalagem utilizada na exportaçao de cachaça e como sao tranportadas”.

Vamos deixar de fora os erros de digitação, que não são o foco.

O foco está no seguinte: NÃO É ASSIM QUE SE PESQUISA. Aparentemente, o usuário se dispôs a consultar o Grande Oráculo da Internet escrevendo a pergunta, para que o Oráculo lhe trouxesse a resposta pronta: “veja, os tipos são estes; e elas são transportadas assim” — mais uma vez, sem querer ter o TRABALHO de pesquisar, de olhar mais de uma página, de MONTAR SEU PRÓPRIO TEXTO.

Cada vez tenho menos paciência com quem quer receber tudo pronto. E tem uma geração inteira assim, querendo receber tudo de bandeja. Para eles, frango já vem ao mundo daquele jeito: depenado, sem cabeça, com as patas e asas dobradinhas, congelado. E ainda reclamam de terem que temperar.

Que m*rda de mundo, esse em que viverei minha senectude.

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Isto não é uma resenha dOs Vingadores

Cada vez parece que tenho menos tempo, então não vou fazer uma resenha do filme dos Vingadores. Vou só fazer o que já fiz para Homem de Ferro 2 e As Aventuras de Tintim: comentar de algumas coisas em que reparei.

O filme é muito bom. Muito divertido. Vale a grana do ingresso.

Filme em 3D fica escuro.

Explosões! Efeitos! Essa parte está MUITO boa.

Aeronaves utilizadas no filme:
– helicóptero Agusta A109, provàvelmente o modelo civil mais usado em filmes de ação desde os anos 90. Não sei por quê, já que é pequeno e não muito agressivo. Pode ser (1) por causa da aerodinâmica que lhe dá uma aparência de veloz ou (2) porque é sempre a mesma locadora que os cede para filmagens;
– Quinjets da S.H.I.E.L.D.: fictícios e me lembrando os APC da excelente e saudosa Space: Above and Beyond;
– jatos de treinamento Alpha Jet, do modelo francês (não do modelo alemão), fornecidos pela Air USA (como dizem os créditos do filme) e usados em cima do Helicarrier;
– jatos de ataque Harrier, em forma de maquetes sobre e dentro do Helicarrier;
– jato de caça F-35, usado como escolta do Helicarrier;
– jato executivo da Stark Industries, fictício, o mesmo de Homem de Ferro 2, lembrando o projeto conjunto de jato executivo supersônico que a Gulfstream e a Sukhoi iniciaram e abandonaram nos anos 90.

A parte de baixo do Helicarrier lembra muito a Enterprise-E.

Como sempre, Tony Stark, maior do que o mundo, domina a cena, mesmo em presença de deuses e monstros verdes. Inclusive por causa da atuação de Downey Jr., mais uma vez perfeita, maior do que o mundo e dominando a cena. Pergunto-me se ele não faz como Shatner, que não atua, simplesmente é ele mesmo diante das câmeras.

Mark Ruffalo, o ator que faz Bruce Banner, é muito bom em representar o estado emocional de permanente controle de uma raiva que está sempre querendo emergir.

Tudo a ver com Tony Stark: o momento em que ele espeta Banner pra ver se vira monstro.

As falas de Downey/Stark são engraçadas.

Os diálogos do filme são todos previsíveis, óbvios, ralos. Mas que se dane; se eu quisesse ouvir diálogos, teria procurado algum “filme de arte” europeu. Fui ver o filme por causa dos efeitos e esses, sim, corresponderam ao ingresso que paguei.

Excelente a representação do Hulk, bem conforme os quadrinhos: uma força incontível e indiscriminante.

Engraçada a referência: “Hulk — smash.”

Participação de Stan Lee: não vou estragar para quem prefere procurá-lo. Já se você prefere que eu conte, basta selecionar o texto na linha abaixo, que escrevi com fonte branca:
Stan Lee aparece após o clímax, quando as televisões estão mostrando o povo nas ruas a comemorar a atuação dos Vingadores. É o velho que vira pra trás e diz que não acredita em super-heróis em Nova Iorque (o que é uma tremenda ironia, já que o que ele mais fez em sua carreira foi criar super-heróis em Nova Iorque).

Desta vez você não precisa ficar até o final dos créditos. Eu fiquei, não tem nada. Mas tem que ficar até acabar a parte inicial dos créditos, que tem animação.

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O Whole Foods Market e o mapeamento do conservadorismo por contraste

Quando minha amiga Carolina Matoso esteve em Nova Iorque, ela serendìpicamente descobriu um mercado, de tamanho descomunal segundo ela, especializado em comida orgânica. Diz que tinha uma enorme praça de alimentação, só desse tipo de comida. Que ficava aberto, com comida quente, 24 horas. Chama-se Whole Foods Market. A loja que Carolina Matoso conheceu fica em TriBeCa, na esquina de Greenwich com Warren.

Mesmo sem nunca ter estado lá, já indiquei o estabelecimento a duas pessoas. Para a segunda, indiquei-o alguns minutos atrás. Mas esta última pessoa me disse que ficaria hospedada na rua 42, ou seja, ao Norte do Central Park, o que é bem longe de TriBeCa. E o saite do WFM tem um store locator, de modo que me pus a ver se não havia lojas mais próximas. E há.

Como fazem inúmeras outras empresas, na verdade qualquer empresa mìnimamente sensata, o saite do WF tem uma API do Google Maps para localização das lojas. À medida em que tirei o zoom, fui descobrindo algumas coisas muito interessantes.

Primeiro, que a concentração de WFM é bem grande junto ao litoral Nordeste dos EUA, particularmente nas cidades mais próximas a Nova Iorque. Faz todo o sentido: não só a densidade populacional é a maior do país como também é ali que se concentram as pessoas mais endinheiradas e mais instruídas. É ali que você encontra mais hipsters, mais frequentadores de Starbucks, mais pessoas preocupadas com alimentação saudável, que leem sobre e preferem alimentos orgânicos, e que (1) têm o dinheiro e (2) estão dispostas a pagar por isso.

Afastando-se daquela área, você vê outras grandes concentrações na Flórida, em São Francisco e em Los Angeles. Novamente, são centros de riqueza, de gente instruída, de hipsters e de Starbucks, de gente que vota em Obama, de artistas e outros progressistas descolados.

Que têm essas regiões em comum além da riqueza e da instrução? Também são regiões de intenso movimento marítimo; são as cidades mais cosmopolitas dos Estados Unidos. Estão em contato intenso com outras civilizações, com imigrantes, com gente de variadas formações e opiniões políticas e religiosas; há uma enorme diversidade cultural. Você vai lá e vê isso. É onde estão fatores de renovação de percepções, é onde as pessoas têm mais tolerância ao diferente.

Em contraste, o Sul dos Estados Unidos é sabidamente uma área onde impera um certo radicalismo de valores: é onde se encontram tantos daqueles protestantes extremados, daqueles racistas mais ostensivos, daqueles defensores da guerra. Pois bem, nesses estados é bem pequena a concentração de lojas do Whole Foods Market.

Há o Texas. A densidade populacional e a riqueza tendem a ser maiores em Houston e Dallas, mas, tanto ali como no resto do estado, o que se vê muito são comedores de churrasco que se orgulham de sua independência, que se veem como vitoriosos supremacistas contra o pobre vizinho México, que desfilam em carrões com fálicos chifres de touro sobre os radiadores. Para muitos texanos, “esse negócio de ‘comida orgânica’ é para v*adinhos”. Voilà: comparativamente poucas lojas do WFM em Dallas e Houston e quase nenhuma no resto do estado.

Também há o Meio-Oeste: a região que disputa em conservadorismo com o Sul, onde você encontra extensas plantações de cereais, rednecks comedores de milho, religiosos fervorosos, defensores da manutenção de tropas no Iraque. Ali a concentração das lojas de WFM é mínima — exceto em Chicago, que é um centro industrial, financeiro e comercial, também cosmopolita, mantendo contato com várias partes do mundo. Ali a concentração de WFM é como nas cidades ricas do Texas.

Finalmente, nos estados do Noroeste, Seattle e Portland são centros industriais e comerciais, com várias lojas do WFM. No resto da região, você encontra enormes extensões florestais e montanhosas, onde a densidade populacional é a menor do país. Só o que se vê são cidades pequeninas a enormes distâncias uma da outra; esparsas cabanas de milicianos paranoicos com camisas de xadrez vermelho, gorro, espingardas de dois canos e delírios de serem perseguidos pelo governo federal; alimentação à base de carne; isolamento completo de toda modernidade; e uma genérica disposição de achar que comida orgânica é coisa de gente fresca. Quantas lojas do WFM nessas grandes extensões vazias? Nenhuma no interior de Washington e nenhuma por toda a extensão de Montana, Wyoming e Dakotas do Norte e do Sul.

Quem gostaria de fazer esse levantamento seria Rodger Doyle. Esse colunista da Scientific American costuma comparar mapeamentos de diversas grandezas nos Estados Unidos (consumos de água e energia, ocorrências policiais e de saúde etc.) com os fatores socioeconômicos subjacentes, em sua seção mensal intitulada By the Numbers. Enquanto ele não faz isso para o Whole Foods Market, fica você, Leitor, com esse pequeno factoide analítico.

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Metodologia e comprometimento

Vamos fazer o seguinte: ficam proibidas as palavras “metodologia” e “comprometimento”. Até hoje, em TODAS as instâncias em que vi essas palavras, seriam igualmente cabíveis “método” e “compromisso”.

Vou além: “metodologia” seria o estudo do método, nunca o próprio método. Mas não vemos ninguém elaborar uma verdadeira metodologia; só o que vemos são métodos ou suas descrições. Toda vez que alguém vem me falar de uma “nova metodologia” ou perguntar “qual é a metodologia”, pode ver: é sempre de um método que estão falando.

A mesma coisa no caso de “comprometimento”. Analisemos: “meter” é um verbo que não se limita ao significado a que estamos habituados. Também significa “enviar”, mas por vias um tanto ocultas. A saber: “remeter” (“enviar novamente”, ou “enviar na direção de algo já visto anteriormente”), “prometer” (“enviar para adiante”, ou “não fazer agora mas deixar para um momento futuro”), “arremeter” (“enviar novamente para cima”, como fazem os pilotos ao desistirem de pousar), “submeter” (“enviar para debaixo”, ou “propor a alguém que estará por cima”). Etc.

Existem outras manifestações desse verbo, já não tão fàcilmente reconhecíveis, em outras classes gramaticais: “missão”, que significa “ato de enviar alguém para cumprir determinada tarefa”, “míssil”, que significa “objeto que se pode lançar/enviar”.

Na mesma linha, “comprometer” significa “prometer conjuntamente”. É quando duas pessoas prometem uma à outra, cada uma prometendo uma coisa. Diz-se que as duas partes se comprometem a alguma coisa. Então, o que fizeram é um compromisso. Quando você diz que já se comprometeu, isso implica que tanto você prometeu a alguém como esse alguém prometeu a você. Entende-se que o compromisso diminua um pouco a liberdade de quem prometeu.

Às vezes me deparo com a palavra “comprometimento”, significando dedicação: a pessoa mostra comprometimento com um emprego, com uma causa, com uma comunidade. Dela se espera isso porque haverá alguma espécie de recompensa: salário, honras, reconhecimento. Agora me diga: existe alguma ocasião em que se use essa palavra que NÃO admita “compromisso”?

Não. Portanto, rogo a você, Leitor, que pare já o uso desses neologismos odiosos. Um porque usado erradamente (“metodologia”), o outro porque supérfluo (“comprometimento”) diante de outra palavra que significa a mesma coisa mas que é muito mais elegante, pura, curta e antiga.

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O calendário maia e o fim do mundo

Então dizem que o mundo vai acabar em dezembro de 2012. Supostamente porque o calendário maia acaba em dezembro de 2012.

Imagine a cena: dois calendaristas maias seminus, andrajosos, barbão imundo, trabalhando numa parede de pedra. Cipós no lugar de cintos, botas de pele de urso. Entalhando o calendário com cinzel contra o granito, fazendo a maior força, as mãos calejadas e cansadas. Estão há dias ocupados, sem comer, incumbidos pelo imperador de registrar o calendário completo. Só podem sair quando terminarem.

De repente…

— Ô Fulano, acho que já tá bom, não tá não?

— Cê acha? A gente ainda não acabou!

— Rapaz, a gente não vai acabar nunca! O calendário não tem fim!

— Ué, mas por que é então que o imperador botou a gente aqui, fazendo calendário?

— Eu sei lá. Acho que ele queria dar alguma coisa pra gente fazer. Sabe como é, tem a crise, o desemprego, e coisa e tal. Vai ver que ele não queria deixar a gente por aí, de bobeira.

— Mas será que ele sabe que o calendário não acaba?

— Acho que ele nem pensou nisso! Deixou a gente aqui, fazendo, e esqueceu. Olha lá o pessoal brincando. Tá todomundo lá, na beira do rio, e só nós aqui, feito dois otários, entalhando calendário nessa pedra dura que nem a cabeça do imperador.

— E se a gente largar como tá agora e disser pra ele que já acabou?

— Mas ele vai acreditar na gente? Vai nada. Ele vai perguntar, “que que cês tão fazendo aqui? Volta lá e acaba, senão eu solto os cachorro em cima de vocês!”

— Ah, a gente diz pra ele que o mundo vai acabar em 2012. Até lá vai tá todomundo morto mêmo, cê acha que ele vai conferir? Ele nem vai se importar. Qualquer coisa, a gente diz que foi profecia.

Mas eu tenho outra teoria. Aliás, tenho duas.

Conforme é bem sabido, o México é um lugar propenso a terremotos. Não faz nem cem anos, surgiu um vulcão lá, no meio duma plantação de milho! Então, foi assim:

Em 1848, o famoso arqueólogo Arne Saknussem encontrou a caverna maia em cuja parede estavam registrados os números de todos os dias até o fim dos tempos. O último número era 12/12/2012. Então ele saiu da caverna e anunciou aos jornais que o fim do mundo seria em 2012. Seu assistente, Otto Lidenbrock, expressou preocupação:

— Professor Saknussem, não é meio imprudente anunciar que o mundo acaba em 2012 só porque os números acabam em 2012? Isso pode causar pânico!

— Meu caro Lidenbrock, eu quero mais é que se dane. Em 2012 já estaremos todos mortos. Se eu estiver errado, o problema não será mais meu.

Mal sabia o distinto arqueólogo que, no ano anterior, um terremoto havia afundado a entrada de uma caverna ao lado. A continuação do calendário estava lá. É por isso que os estranhos caracteres no final do calendário diziam “continua na caverna ao lado”, embora o professor tivesse entendido “aqui é o fim do mundo”.

De acordo com outra teoria, o final do calendário estava gravado em uma pedra cujos caracteres tinham mais ou menos a forma que reproduzi abaixo:

…20052006200720082009201020112012ACABOU

Todos sabemos que, tal como os romanos, os maias acreditavam que a correta pontuação das frases tivesse poderes sobrenaturais maléficos e por isso a evitavam de todas as formas. (Ainda hoje essa crença é compartilhada pelas tribos de lusófonos que habitam as maiores aldeias sul-americanas.)

Depois de um grande esforço para decifrar essa inscrição, o famoso explorador Henry Jones Jr. percebeu que ela trazia a seguinte mensagem:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU

E assim ele divulgou sua teoria de que o fim do mundo seria em 2012. Entretanto, o Professor Jones nunca conseguiu explicar por que havia uma lasca na pedra, logo após essa famosa e assustadora inscrição.

A verdade é que, no chão da caverna, havia um pedaço de pedra que se encaixava perfeitamente na parte onde estava faltando um pedaço. Virada para o chão, a face lisa da pedra trazia a continuação da mensagem, que ficou inédita até hoje. Agora, o famoso pesquisador Dr. Satipo Molina revelou-me com exclusividade a continuação da misteriosa inscrição. Após decifrá-la, ele descobriu que o texto diz o seguinte:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU O ESPAÇO NESTA PEDRA MAS O MUNDO CONTINUA PARA SEMPRE

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Boa fé objetiva

Quando comecei a ter aula de Direito Civil, vigorava o velho Código de 1916. Aquele Código havia sido escrito no tempo do Estado liberal, quando legalmente se presumia que as partes de um contrato sempre estivessem em situações de igualdade. Naquele tempo, também imperava a máxima caveat emptor (“que o comprador se acautele”). Bàsicamente, as relações contratuais eram vistas como um território onde o Estado não entrava e onde o homem era lobo do homem: se você não tomasse cuidado, se não lesse as entrelinhas e não examinasse muito bem o produto, você entrava numa roubada e não tinha defesa. Essencialmente, todomundo é adulto, todomundo tem e exerce autonomia da vontade, só entra num negócio porque quer e, se não sabe brincar, não desça pro play. Presume-se todomundo igual, em pleno exercício das faculdades. O mundo era visto como um grande mercado Ferengi.

É claro que, em boa parte, é assim. Aliás, não seria exagero dizer: é exatamente assim, em tudo. Mas os anos passaram, o Estado passou a interferir na economia, surgiram os direitos sociais, houve a II Guerra Mundial e a criação da ONU, passou-se a falar em dignidade da pessoa humana, e passou a haver um reconhecimento de que, na prática, as pessoas não conseguem ter todas o mesmo âmbito de liberdades. Surgiram teorias para justificar a nulidade de contratos flagrantemente nascidos injustos e o restabelecimento do equilíbrio em contratos tornados injustos com o tempo. Surgiram o Direito do trabalho e o Direito do consumidor, com regras que tentam compensar desequilíbrios de forças. Não se engane: ainda temos que ter todos os cuidados antes de entrarmos num negócio. Mesmo quando estamos certos, ainda é melhor prevenir do que remediar: você nem entra se perceber que vai precisar recorrer à Justiça mais tarde (eu, pelo menos, não; embora tenha gente por aí que já entra de maldade, feito caçador de indenizações). Mas, pelo menos, quando você é realmente enganado e acaba tendo que procurar o Poder Judiciário, já passa a contar com o amparo estatal para compensar o prejuízo.

E aí veio nosso Código Civil de 2002. Em linhas gerais, você olha e vê muitos artigos iguais ao antigo em redação. De fato, as mudanças não estão tanto no texto, mas na maneira de interpretar e, principalmente, na importância que se dá às pequenas novidades. Hoje em dia, acabou aquele tempo em que o juiz devia ficar cego para a desigualdade entre as partes de um contrato. Nos últimos cinco anos, já fui a inúmeras aulas de Direito civil onde o principal assunto era a exigência de boa fé objetiva nos contratos.

Antigamente, era assim: para estar de boa fé, bastava que você não estivesse mentindo ou forçando a outra parte no contrato contra a vontade dela. Hoje em dia, já não é mais só isso. A boa fé objetiva passou a ser sempre uma exigência, como um dever de atuação justa em tudo. Quando se fala em boa fé objetiva, evoca-se aquele dever de revelar à outra parte todos os fatos relevantes, até quando prejudicam quem revela. Por exemplo: você está vendendo um carro? Tem que dizer que ele sofreu aquela batida, que nunca mais o alinhamento foi o mesmo. Está vendendo um apartamento? Revele que tem feira em frente ao prédio, toda quarta, de manhã cedo. Não se pode mais convenientemente omitir o que não interessa. Estava negociando um contrato mas mudou de ideia? Avise o mais cedo possível, antes de a outra parte enviar a minuta para sua assinatura. Tudo tem que ser falado assim que acontece, para nunca a outra parte ser mantida no escuro.

Tudo isso parece óbvio, mas não é. No senso comum das pessoas, essas pequenas desonestidades são consideradas toleráveis. As pessoas acham mesmo que têm o direito de cometer pequenas omissões de informação, ou de mudar de ideia a qualquer tempo sem avisar ao outro, ou etc., e que “é problema dele”. Acham que, se não mentiram mesmo, não há problema em perceber que o outro está enganado e omitir o esclarecimento. Falam mal do atendente que erra no troco para menos, mas não veem problema nenhum em verem que ele deu troco a mais e ficarem caladas. Sim, é problema dele, não seu, mas ele não sabe do problema; você, que está criando ou transferindo o problema a ele, tem que avisar.

Confesse que, se pudesse, você também cometeria essas pequenas vilanias. E, no entanto, não pode mais. Antigamente, bastava não descumprir o que estivesse no Código, e você estava bem; podia armar e se dar bem contanto que não violasse a lei. Hoje em dia, isso não basta. Justamente a fim de matar na origem essas tentativas de se dar volta sem ferir a literalidade, o próprio Código incorporou alguns artigos obrigando as partes à boa fé objetiva:

Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato.

Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.

Por causa deles, o negociador tem que cooperar para o bem comum, não só o seu próprio; tem que fazer de cada contrato a realização dos objetivos para os quais o Direito e os conceitos sociais o conceberam. Se você quer um contrato que saia do óbvio, do que normalmente se esperaria dele, tem que declarar ao outro, não pode mais ficar calado, porque não se espera só o cumprimento das formalidades, mas também do conteúdo normalmente esperado — e que cada parte *sabe* (ou deveria presumir) que a outra espera.

Não se pode mais fazer o que vi outro dia: a espertona anuncia a fotografia de um telefone celular pelo preço do próprio telefone. A vítima compra, e a vendedora envia a fotografia, dizendo que era isso que estava anunciado. Não é à toa que a Juíza Judy (ali na verdade atuando como árbitra, embora não pareça) ficou uma fera com a vendedora.

De certo modo, isso é a incorporação do polìticamente correto às relações comerciais, mas não vejo nada de errado. Porque é o seguinte: não havia quem tivesse autoridade para impedir os óbvios abusos que ainda vemos por aí. Então o Estado finalmente está assumindo o papel que é seu, para o qual se destina, de fazer cessar o estado de guerra sobre o qual escreveu Hobbes. Se as pessoas não se comportam, mas claramente existe uma noção socialmente aceita do que é justo, então o Estado, através de suas decisões legislativas e judiciais e de seu braço forte, vai moldando o comportamento social, vai direcionando-o para aquilo que se considera que deva ser.

Quero crer que seja isso o que temos testemunhado pelo mundo ao longo dos anos. Havia escravidão; a escravidão passou a ser ilícita nos países, e a pressão de uns contra os outros levou a seu banimento. Havia guerras, e a ONU repudiou-as, e hoje se condena o país que provoca outro à guerra. Há racismo, e exclusão social, e os Estados já são forçados a medidas políticas que os contrariem e sofrem sanções internacionais. Em todos esses exemplos, é claro que a motivação não é o coração de ouro dos políticos. Evidentemente o dinheiro é um grande motivador, e as pessoas continuam sendo todas hipócritas. Mas, felizmente, cada vez mais se vê o repúdio ostensivo a certas condutas, de modo que quem as pratica já não se sinta socialmente encorajado. Hoje, no Brasil, existe Lei Maria da Penha, e já não é socialmente tolerado bater em mulher. Ainda que, individualmente, muitas pessoas considerem isso aceitável, já não admitem tanto abertamente.

E assim com tudo. A exigência de boa fé no Direito civil é um resultado, disseminado com sucesso, da opção política de certas pessoas, que tiveram a franqueza de demandar o cumprimento daquilo que deveria parecer óbvio. É uma forma de se aperfeiçoar a sociedade e, na pequena escala, um negócio após o outro, ir moldando e aproximando o Brasil de um ideal, ainda utópico mas verbalizado na Constituição de 1988:

Art. 3o. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

E mais: sem enfiar a cabeça na areia feito avestruz, você só consegue o segundo objetivo se atender ao primeiro. Não é com o egoísmo cego de uma Lei de Gérson que você promove a pujança e a soberania nacionais. Enquanto cada um continuar só olhando o próprio umbigo, vai continuar este horror de sujeira e ladroagem. Se não houver o senso de cooperação entre os cidadãos, se houver sempre aquelas pequenas e mesquinhas tentativas de “se dar bem”, o desenvolvimento será impossível.

Infelizmente, não se conscientizam as pessoas com campanhas; é necessário que eventualmente o Estado reprima excessos com seu tacape. Mas isso tem o condão de criar um ambiente propício às atividades de quem prefere levar os negócios a sério, porque dá segurança: a parte negocia sem medo de estar sendo enganada (porque, se for, o Estado está aí para ampará-la) e, com isso, efetivamente celebra o negócio de maneira aberta e produtiva. Portanto, a segurança jurídica propiciada pela nova óptica do Direito tem o poder de criar um ambiente onde se promovam mais trocas, onde se realizem mais potenciais, onde haja mais envolvimento das pessoas em lidarem umas com as outras. Cada negociante passa a ter a tranquilidade de poder se comportar como adulto, por ter a certeza de estar lidando com outro adulto.

Problemas há, e muitos. Os outros e melhores belogues poderão fàcilmente lhe mostrar. Problemas de saúde, educação, segurança; excessos de corrupção, de crime, de doenças e analfabetismo. Mas, se cuidarmos deste pedacinho de valores sociais que é a mera honestidade nas relações privadas, será mais um que poderemos tirar da frente para tratarmos dos outros.

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Rumores exagerados

Montando planilha das contas do condomínio, tenho uma aba relativa aos empregados. Um deles tem problema de saúde sério, acaba de ser licenciado, INSS etc., pode ser que nunca volte a trabalhar. Na linha relativa a ele, formatei a fonte em cinza claro — mais ou menos como o Windows faz com os botões quando não estão disponíveis — para lembrar que não é para mexer nessa linha. Isso foi ontem. Mas, hoje, editando novamente o arquivo, pensei: está afastado pelo INSS e todo ferrado, mas ainda é gente, não se anula, não é para ser esquecido, deixado de lado. Eu já não encontro com ele; não vou me dar mais um argumento para transformá-lo em fantasma, para empurrá-lo um pouco mais ao esquecimento. Então formatei a fonte de volta para preto.

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As Aventuras de Tintim, uma preciosidade para connoîsseurs e para novatos

Depois de tanto tempo em silêncio neste belogue, depois de ter pensado e iniciado inúmeros textos candidatos a serem o próximo, eu não imaginava que esta postagem fosse tratar justamente do filme do Tintim.

Eu vinha acompanhando as notícias sobre o filme com uma certa apreensão, que aumentou quando vi o trailer. Depois do fracasso do Expresso Polar e de sua perturbadora imitação da vida real, minha expectativa era que Spielberg e Peter Jackson desperdiçassem o potencial aventuresco do personagem. Mas os nerds andaram confiantes e a propaganda foi favorável antes da estreia, então decidi arriscar meus R$ 17 — embora tenha preferido ver a versão 2D depois da má experiência e do desperdício de dinheiro no filme escuro e sem graça do Capitão América 3D.

Senhoras e Senhores, não me arrependi. O filme é divertido! Especialmente para os fãs de Tintim, que vão se deliciar com a adesão ao espírito do personagem e de suas histórias. Já na abertura, somos brindados com créditos escritos com a mesma fonte das capas dos livros. Ao fundo, quadrinhos sortidos e referências diversas sucedem-se para deleite dos fãs: a Ilha Negra, o foguete de Rumo à Lua, a estátua de astronauta de Vôo 714 para Sidnei

Ainda que não houvesse as referências, a própria abertura já teria seu valor. É uma animação de cores fortes, acompanhada de jazz, remetendo às aberturas de filmes dos anos 60 como os de Blake Edwards. Ela mesma já conta uma história e apresenta o teor elaborado das aventuras de Tintim.

Na primeira cena, Tintim está em uma feira de antiguidades enquanto seu retrato é pintado por ninguém menos do que o próprio Hergé, desenhista e Autor de todos os seus livros. Atrás dele há vários outros retratos, saídos diretamente da contracapa das edições clássicas. Nessa mesma linha, para nós que lemos esses livros na desde a infância, o filme traz uma sucessão de referências deliciosas:

– durante os créditos de abertura, vemos um letreiro de aeroporto com localidades como Ilha Negra e Sildávia;

– os recortes de jornal nas paredes do apartamento de Tintim são manchetes correspondentes a aventuras anteriores (especìficamente Os charutos do faraó, O loto azul, O ídolo roubado e O cetro de Otokar);

– o jornal Le Petit Vingtième faz uma breve aparição: esse é o suplemento do jornal Le XXe Siècle onde eram publicadas as aventuras de Tintim até 1940;

– o uísque do Capitão Haddock é Loch Lomond (de Tintim e os Tímpanos);

– as bolas de uísque em queda livre são reminiscentes de Explorando a Lua;

– entre as estátuas do palácio de Omar Ben Salaad, encontra-se a de Shiva, de Os charutos do faraó.

A história avança rapidamente, sem alguma longa exposição do personagem, o que é muito bom, não apenas porque não perde tempo mas também porque os próprios livros não se detêm nisso. O roteiro é uma fusão de O caranguejo das tenazes de ouro com O segredo do Licorne, embora eliminando partes de um e de outro. O resultado ficou bem mais simples do que a soma das duas histórias, mas bem mais complicado do que cada uma individualmente. Então, não há nem menções aos traficantes do primeiro livro, nem aos irmãos Pardal, do segundo. E há algumas outras diferenças, criadas para unir as duas histórias.

CUIDADO: SPOILERS APÓS OS ASTERISCOS. PARA CONTINUAR SEM SPOILERS, PULE PARA OS OUTROS ASTERISCOS.
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Embora a história principal de O caranguejo não tenha sido usada, algumas referências permaneceram, como o gigantesco ornamento em forma de caranguejo dourado no palácio marroquino e a derrubada de uma grande caixa com latas de caranguejo no duelo final entre Sacarina e Haddock.

São de O caranguejo o sumiço da lupa, a promoção de bengalas, o Karaboudjan, a fuga do porão com garrafas de champanha, a bebedeira de Haddock e seu primeiro encontro com Tintim, o imediato Allan, a fuga e o fogo no escaler, o hidroavião metralhador, sua tomada e sua queda, a caminhada no deserto, o resgate pela Legião Estrangeira e o poderoso Omar Ben Salaad. Tudo mais é de O segredo, exceto que o Capitão Haddock não ouviu nem esqueceu segredo nenhum de seu avô: ele leu as memórias de Francisco, Cavaleiro de Hadoque, e ficou empolgado em reconstituí-las, não no deserto, mas dentro de sua própria casa. Já o personagem Barnaby Dawes é a fusão de um personagem chamado Barnabé, de O segredo, com o marinheiro Dawes, de O caranguejo.

Houve um acréscimo divertido porém desnecessário, que foi toda a sequência rocambolesca ambientada na cidade marroquina de Bagar. Já o parentesco entre o Professor Sacarina e Rackham, o Terrível, não existe nos livros e, portanto, enriqueceu a história. No fim do filme, a busca de Sacarina por vingança proporcionou um duelo que espelha a luta entre o Cavaleiro de Hadoque e o pirata. (Se bem que um detalhe talvez tenha escapado aos roteiristas: se o Cavaleiro de Hadoque foi o único sobrevivente do Licorne e do navio pirata, então ninguém mais soube dos detalhes de seu encontro com Rackham. Como se explica que Sacarina tivesse obsessão por vingança ou conhecimento da maldição?)

De um certo modo, eu tinha a expectativa de encontrar o Professor Girassol. Entretanto, chegando ao meio do filme, o segredo do Licorne não havia sequer sido desvendado, de modo que percebi que o filme não mostraria a continuação que é O tesouro de Rackham, o Terrível. De fato, desse livro só o final foi usado, coincidindo com os últimos cinco ou dez minutos de filme.

(Outro detalhe que escapou, este jurídico: se Sacarina se havia tornado legítimo proprietário de Moulinsart, então lhe pertencia o tesouro encontrado na cripta, que veio junto com o imóvel. Não é para Haddock ficar todo animadinho achando que é dono.)

A última tomada de As Aventuras de Tintim convenceu-me de que Peter Jackson e Spielberg estão pensando em fazer o segundo filme; possìvelmente estão só esperando os resultados de bilheteria do primeiro. Se for isso mesmo, certamente será uma adaptação de O tesouro, exibindo o conteúdo principal do livro depois de já ter mostrado o final. A seguir o raciocínio do filme atual, terão de complicar o próximo com a adição de vilões. Nesse caso, aposto que O tesouro será fundido à aventura A estrela misteriosa, onde Tintim e Haddock, a bordo do Aurora, concorrem com a expedição do navio rival Peary para alcançar uma riqueza sem dono em alto mar.

Se Girassol não apareceu, por outro lado tivemos a participação especial da famosa cantora Bianca Castafiore, representada com aparência idêntica à dos quadrinhos e com o sotaque italiano que deveríamos esperar. Inevitàvelmente, ela também tinha que trocar alguns nomes, chamando Sacarina de Aspartame e Salaad de Salada. Todavia, apesar do uso engenhoso que foi dado à personagem, considero que não tenha contribuído para a história senão com algumas gracinhas, confirmando a desnecessidade da sequência em Bagar.
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Dois excelentes toques do filme (e que os livros difìcilmente teriam) foram o sotaque escocês do Capitão Haddock e o sotaque inglês de Nestor, absolutamente compatíveis com seus personagens. Outra preciosidade* foram as magníficas tomadas do choque dos navios em alto mar, que não estavam detalhadas em O segredo do Licorne. Aqui e aqui, você encontra, respectivamente, uma prévia e uma entrevista sobre a criação de As Aventuras de Tintim.

Uma diferença especial entre o filme e os livros é a menção ao Rouxinol de Milão, que normalmente estaria um pouco fora de contexto. É claro que, no momento em que esse nome é usado, os fãs logo sabem quem aparecerá. E, sabendo quem é, também é claro que, no momento em que vemos que há uma proteção em volta da terceira miniatura, já percebemos como ela será vencida!…

Já em matéria de tradução, há um detalhe muito bem-vindo aos fãs de longa data. No som original em inglês, o filme dá aos personagens os nomes que ganharam nas traduções dos livros para o inglês (Milu é Snowy; Dupond e Dupont são Thomson e Thompson; Moulinsart é Marlinspike Hall). Mas as legendas respeitam os originais em francês, mais conhecidos no Brasil. Não sei como ficou a dublagem; quem souber, é fineza comentar abaixo. Grato.

Ainda quanto a traduções, o Capitão Haddock tem uma característica onde as versões brasileiras dos livros aperfeiçoaram os originais. Em francês, ele sempre se enraivece invocando “millions de sabords” (milhões de escotilhas), mas a versão brasileira traz o célebre MIL RAIOS E TROVÕES e sua versão mais contundente, COM MIL MILHÕES DE RAIOS E TROVÕES. Aparentemente, a versão inglesa aproxima-se disso, porque, ao longo do filme, Haddock frequentemente esbraveja “milhares de borrascas”. Já os célebres insultos do Capitão, esses aparecem uma ou duas vezes, como não poderia deixar de ser.

Em síntese: As Aventuras de Tintim é diversão garantida para quem conhece e para quem não conhece o personagem — tanto que estou até cogitando ir ver de novo, desta vez em 3D…

* Preciosidade: minha pequena homenagem a Andy Sirkis, que muito bem interpretou o Capitão Haddock em As Aventuras de Tintim e que, há alguns anos, emprestou sua reconhecível voz a outro personagem, quase tão célebre quanto, obcecado com determinado Anel…

2011 in review

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2011 annual report for this blog.

 

Here’s an excerpt:

A New York City subway train holds 1,200 people. This blog was viewed about 4,500 times in 2011. If it were a NYC subway train, it would take about 4 trips to carry that many people.

Click here to see the complete report.

De ilusões de óptica

Na minha adolescência, muito ouvi meu pai se queixar de um colega de trabalho, que supostamente era arrogante e inflexível. Após meses e anos ouvindo os resmungos, houve uma curta transição após a qual meu pai reconheceu que, afinal de contas, o colega não era tão arrogante ou inflexível assim; que tinha havido uma falha de comunicação todo esse tempo e que o colega até tinha virtudes e dificuldades com as quais ele se solidarizava.

Disso retive a lição de que não temos que fazer para sempre a mesma imagem das pessoas próximas. Que, mesmo que elas não mudem, ainda podemos mudar nossa percepção sobre elas. Que, às vezes, a distorção (se for distorção) está em nossos olhos, não no objeto observado.

Na vila onde eu morava, sempre tive certa impressão do proprietário de uma das casas: parecia-me agressivo, prepotente e precipitado. Um dia, foi necessário reunir-me com ele em razão de questões exclusivas da vila. Eu, que nunca conversara com ele, fui tratado com educação. Comigo não foi agressivo nem prepotente, nem me pareceu precipitado.

Em outra história, não relacionada, era uma vez o General Guilherme, comandante da 1a. Divisão de Exército em meados dos anos 90. Jogue o nome “General Guilherme” no Google e o autocompletamento já segue com “… toquinho da maldade” — que era o apelido como era conhecido, e tão comum que foi parar no autocompletamento do Google. Na Vila Militar, todos o temiam e dali se espalhou sua fama de implacável, de que punia a todos por tudo, de que mandava prender e punha ordem etc. Vários anos depois, ouvi de um colega, que serviu sob seu comando, que o Gen Guilherme era apenas um militar que cumpria o regulamento, não mais rigoroso do que as previsões normativas. Mas que as pessoas sempre estão erradas e sabem que estão, então o temiam. E que quem andasse na linha não tinha o que temer.

Não sei qual versão é verdadeira, se é que alguma. Mas a lição aqui foi outra: a de que, toda vez que escuto que alguém em alto cargo é intolerante, rigoroso ou trovejante, tenho que interpretar que, na verdade, a pessoa age certo e quer que seus subordinados ajam certo. Atentar para os fatos de que, na maioria das vezes, as pessoas são preguiçosas, negligentes, acomodadas, indispostas a aprender, fazem corpo mole e carecem de iniciativa; e de que reagem à chefia que não tolera esses vícios. Então, sempre que ouço acusarem a diretora de que é exageradamente durona, eu, que nunca a encontrei, desconfio fortemente do que escuto, porque a impressão está sempre vindo de terceiros, e as pessoas são falhas; só terei uma impressão fidedigna quando EU mesmo a tiver. E, em princípio, cresce minha admiração por ela, e mais a respeito — quer dizer, a mensagem acaba funcionando ao contrário.

Tudo isso me confirma a lição que meu pai me transmitiu e vai além: em princípio, não é para pressupormos nada a respeito das pessoas com quem lidamos. Você sofre por antecipação (ou se decepciona, dependendo do caso) desnecessàriamente.

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Breogan, um restaurante galego em Bariloche

Antes de viajar à Escócia em 2008, pesquisei um bocado sobre os celtas. O povo celta ainda existe miscigenado como parte dos povos da Europa Ocidental, mas sua cultura foi bastante sufocada e diluída desde as invasões germânicas a partir do século V. Em consequência, não são muitos os lugares onde se falam línguas derivadas das antigas línguas celtas.

Não são muitos, mas são notáveis. Hoje em dia, os exemplos mais marcantes de culturas celtas são a Irlanda (onde ainda se fala Gaeilge, gaélico irlandês), as Terras Altas da Escócia (onde se fala Gàidhlig, gaélico escocês), a Ilha de Man (onde se fala Gaelg, gaélico de Man), Gales (onde se fala galês), Cornualha (onde se fala córnico), Bretanha (península da França, não confundir com a Grã-Bretanha), e Galícia, na Espanha, onde se fala galego. Observe que todas essas localidades são extremidades ocidentais de territórios tomados por tribos germânicas.

(Você notou a recorrência de certos fonemas? A Escócia era chamada de “Caledônia” pelos romanos. Caledônia, gaélico, Gales, Galícia, Gália (território celta onde hoje é a França). E tem a Galácia, a mesma da Epístola de Paulo aos Gálatas, também celtas. Isso não é coincidência. Os celtas adoravam divindades femininas da fertilidade que eram avatares da terra e das florestas; uma delas era a deusa-mãe Caillaech ou Calleach, cujo nome teria originado todos esses nomes de povos celtas começando com “cal-” ou “gal-“. Mais sobre isso aqui: http://usuarios.multimania.es/Celtic_Galiza/origin.html

Por outro lado, todas as fontes dizem que o nome de Gales vem do germânico “wehlas”, que não se relaciona a essa etimologia. Além disso, as páginas da Wikipedia apontam para uma complexidade muito maior na origem dos vários nomes de povos celtas, que teriam convergido para uma semelhança sem terem partido de uma origem comum. Então fica esse contraponto, mostrando que não necessariamente todas essas palavras eram uma só.)

As línguas celtas têm uma certa sonoridade que é perfeitamente reconhecível, mesmo que você não as entenda. Por exemplo, têm encontros consonantais com R como os nossos, em português: BRasil, CRime, PRoGResso, TRanquilo. Também tendem a ter ditongo, como EO, EA. Finalmente, há muitos casos de palavras terminadas com G ou com CH.

Então, no domingo, 22 de maio de 2011, caminhando pela avenida San Martín, em Bariloche, deparamo-nos com o cartaz do restaurante Breogan. Em razão da pesquisa que eu fizera em 2008 e que comentei acima, imediatamente percebemos que o nome “Breogan” era vigorosamente celta. Dito e feito: o estabelecimento anunciava comida galega e comida espanhola.

(Atenção: eu disse “comida galega”. Nunca chame de espanhol a um galego, a um catalão ou a um basco. Várias culturas regionais da Península Ibérica foram sufocadas pela formação do Estado nacional centralizador da Espanha a partir do século XV e até a época do Generalíssimo Franco, mas o sangue delas ainda é quente. Então, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Embora hoje a Galícia, a Catalunha e o país basco façam parte da Espanha, as culturas tradicionais galega, catalã e basca não são a cultura tradicional espanhola.)

Imediatamente determinamos que TÍNHAMOS que jantar no Breogan antes do fim da viagem. Então, na noite de terça, 24/05, fazia um frio desgraçado (como, aliás, por toda a semana) quando lá entramos e logo o ambiente nos aqueceu. Não apenas pela temperatura, mas porque estava cheio (destoando dos outros e vazios restaurantes de Bariloche) e as cores internas puxavam para amarelo e marrom.

Não foi difícil conseguir mesa. Enquanto escolhíamos os pratos, chamou-nos atenção a decoração, espanhola na sua pujança: as paredes estavam forradas de cartazes, fotografias, cartões postais, flâmulas, leques e outros adereços remontando à Espanha. No cardápio, vários pratos espanhóis além das especialidades locais. Os pratos galegos eram de frutos do mar, quase todos com mexilhões, que não posso comer (mas recomendo o polvo à galega, uma delícia grelhada com batatas, azeite e açafrão, que por duas vezes comemos na Espanha; não conheço o do Breogan). Como estávamos longe do mar, preferimos alguma coisa menos ambiciosa. Quando fomos atendidos por um garçom cheio de serviço mas prestativo, pedimos um cervo com cogumelos do Sul (56 pesos) e um salmão ao champanha (51 pesos). Uma cerveja local (17 pesos) completou o pedido.

O cervo e o salmão estavam excelentes, mas foi depois disso que a noite ficou mais pitoresca. Bariloche está a menos de cem quilômetros do Chile, de modo que, como o cardápio mencionava pisco sour (19 pesos), não pude deixar de pedir um. Como é feito com pisco e a dose seria de uns 200 ml, pedi ao garçom que o fizesse fraquinho, e deu vontade de pedir outro e mais outro até não conseguir mais levantar. O cardápio tinha outro item que aguçou nossa curiosidade: a queimada. Quando perguntei por ela, o garçom explicou que era feita com grappa, açúcar, laranja e café. Tentador, não?

Antes de irmos embora, Esposa quis fotografar os fundos do restaurante, então aproveitei para elogiar a comida ao jovem proprietário Santiago, e ocorreu-me perguntar-lhe o porquê do nome “Breogan”. Animadíssimo, ele me explicou ser esse o nome do lendário herói fundador da nação galega. Comentei genèricamente de meu interesse em cultura celta, ao que Santiago me respondeu que, na verdade, o proprietário é seu pai, galego migrado para a Argentina, que abriu o restaurante tendo o propósito de divulgar essa cultura. Nisso enfrentou alguns desafios, como, por exemplo, na receita da queimada (que, segundo a explicação do jovem, consiste em rum, raspa de laranja, raspa de limão, café e açúcar). Aprendi que, tradicionalmente, o processo de elaboração dessa bebida requer a pronúncia de um conjuro, que já estava esquecido. Então, naquele tempo em que não havia Internet, o fundador do restaurante escreveu a sua família na Galícia, pedindo-lhes o texto do conjuro, que hoje adorna uma das paredes do estabelecimento. Santiago deu-me algumas folhas xerocadas, com a história do nome “Breogan” e o conjuro.

O galego é uma língua muito parecida com português antigo. Você até consegue ler sem dificuldade, não é mesmo? Isso, naturalmente, é porque as duas eram uma só língua até o século XII. Mesmo após o início da divergência, é de se notar que Portugal e Galícia sempre foram vizinhos. O próprio nome “Portugal” vem do latim “Portus Cale”, ou seja, “porto de celtas”, que era a referência dos romanos à cidade portuguesa que hoje se chama “Porto” e que fica bem perto da Galícia.

A ideia da queimada não nos saiu da cabeça. Por isso, na noite de sexta-feira, 27/05, o frio continuado foi apenas a desculpa necessária para voltarmos ao Breogan embora não tivéssemos fome suficiente para jantar. O lugar estava ainda mais cheio, e percebemos, pela atitude de algumas pessoas, que muitas eram prováveis habitués (espanhóis saudosos?). Mas também havia turistas anglófonos.

Qual não foi nossa decepção ao descobrirmos que a porção mínima de queimada seria de meio litro. Imagine você tomar meio litro de destilado alcoólico quase puro! Tivemos que desistir, mas, como prêmio de consolação, o garçom nos trouxe um licor de autoria da casa, à base de ervas. Absolutamente perfeito.

Para comer, pedimos só uma sopa de vegetais (20 pesos) e uma empanada de queijo e presunto (7 pesos). A sopa foi a única fibra que comemos a semana toda e estava bem feita, parecida com um minestrone só que sem o macarrão. Já a empanada, que é simplesmente um pastel, tem sobre os pastéis brasileiros a imensa vantagem de vir com muito recheio em vez de vento. Alimenta de verdade.

Na sequência, pedimos uma crema catalana (19 pesos). Essa sobremesa lembra uma cremogema com cobertura de caramelo e já a havíamos provado em Valencia em 2008. Só que, no Breogan, a receita inclui uma porção generosa de caramelo, canela e biscoito Champagne e, o melhor de tudo, estava temperada com uma raspa de limão que dá vontade de comer esse negócio até estourar.

Antes de irmos embora, o garçom veio nos avisar que uma queimada seria feita para uma das mesas e que ficássemos para observar o uso do conjuro. Depois de uma certa espera, notamos que a música ambiente havia parado. Então, entrou o tema de “parabéns pra você” em espanhol e o próprio Santiago veio com um carrinho e um pequeno tacho de cerâmica. Parou diante da mesa da aniversariante e começou a explicação sobre o contexto da queimada, contando como as pessoas se reuniam para beberem juntas e queimarem maus espíritos. É por isso que o conjuro é importante e foi nesse ponto que começamos a filmar.

Primeiro, põe-se fogo à grappa (ou ao rum que a substituir). A garotinha que estava à mesa ficou assustada com as chamas desse ponto em diante. Não sei por quê, mas a mim o fogo azul do álcool também sempre pareceu mais assustador do que o amarelo dos incêndios. De todo modo, à medida em que o preparador remexia com a concha e levantava o rum, era belíssimo como um halo azul circundava a cascata incendiada que se formava.

Na sequência, foram adicionados café, aquele licor de ervas da casa, e pedaços de casca de laranja. O fogo reclamava de cada ingrediente, levantando-se e mudando de cor, até que foi sumindo à medida em que o álcool era consumido e diminuía sua participação na solução aquosa para além da capacidade de sustentar a queima.

Ao fim da cerimônia, ainda ganhamos um copim de queimada cada um e fizemos um brinde com o empolgado proprietário do Breogan.

V11-2084 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, restaurante Breogan, 27 de maio de 2011 - brinde com queimada

Em Bariloche, o restaurante Breogan é especializado em culinária espanhola e galega e divulga a cultura céltica da Galícia. O jovem Santiago, filho do proprietário, preparou uma queimada para uma mesa onde havia um aniversário. Explicou o significado cultural da bebida e demonstrou o modo de preparo: incendeia-se uma tigela de grappa e, enquanto se remexem as chamas para queimar bruxas e maus espíritos, recita-se o conjuro tradicional e acrescenta-se laranja e café. O resultado é excelente.

Bariloche em maio de 2011 — antes das cinzas do vulcão!

O propósito deste texto é apresentar dicas para quem cogita viajar a Bariloche depois que o vulcão liberar o espaço aéreo. Não vou simplesmente contar o que fiz nem onde estive, mas descrever o que se encontra e a que preço. É minha forma de retribuir e complementar os textos muito úteis onde pesquisei antes de viajar, com especial destaque para os do Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, e para este tópico aqui, do Mochileiros.com.

Este ano estava cheio de compromissos na época das férias, de modo que, se eu reservasse (ou, pior, pagasse) qualquer viagem com antecedência, seria grande o risco de ter que desmarcar. Por isso não programei nada. No fim de abril, já não havia vagas nos resorts do Nordeste, e passagens para a Europa estariam muito caras em razão das apenas três semanas de antecedência. Então me ocorreu: todos dizem que a Argentina está barata para brasileiros, e Bariloche já devia estar mais fria na segunda metade do outono.

O suposto baixo custo também nos atraiu. De fato, nos dias em que lá estivemos, vendemos reais por 2,40 pesos, com as favoráveis consequências que aponto adiante.

Não gosto de montar viagem com trechos diferentes voados por empresas diferentes. Por isso procurei passagem para Bariloche pela Gol e pela TAM, mas só Aerolineas e LAN Chile tinham voos inteiramente próprios saindo do Rio, a primeira delas com conexão em Buenos Aires, até Bariloche. (A vantagem de fazer os dois trechos numa companhia só é que, em caso de atraso na conexão, a companhia responsável pelo segundo voo não pode alegar que seu atraso no primeiro não é culpa dela. Não pode a do primeiro voo alegar dificuldade de te alocar no segundo, nem a do segundo se isentar de responsabilidade. Uma teoria que me parece muito prática, mas confesso que nunca tive que testá-la. Quem tiver algum exemplo ou contra-exemplo, agradeço que comente a seguir.)

Buenos Aires tem dois aeroportos: Ezeiza — grande, usado por 747 e A340, como se vê no Google Earth — e o Aeroparque Jorge Newbery, que é bem parecido com Santos-Dumont, Congonhas e Pampulha. O Aeroparque é usado para voos regionais por bimotores a jato e turboélice, predominando a Aerolineas e sua subsidiária Austral. Ali se veem muitos A320 da TAM e da LAN (estes últimos, curiosamente, com registro LV, da Argentina, e não com registro chileno. Alguém me explica?, conforme gentilmente explicado nos comentários). Também se veem muitos MD-88 DC-9 e Embraer 190 da Austral e 737 da Aerolineas. É um aeroporto arrumado, aparentando ter recentemente passado por reforma.

V11-2363 (nome provisório) - Argentina, Buenos Aires, Aeroparque Jorge Newbery, 28 de maio de 2011 - pista - aviões

Aeroparque Jorge Newbery, Buenos Aires, 28/05/2011, 16:47 h, visto do assento 8F de um 737-700. O avião mais próximo é um Embraer 190; o do fundo, um DC-9. Desculpe o sol na cara, mas é a foto mais abrangente que tenho.

Chegando ao Aeroparque, o primeiro desaforo que ouvi em solo argentino veio de um brasileiro que, despreparado, não tinha uma reles caneta para preencher o formulário da imigração e cismou que tinha direito à minha. Um idiota.

Um hambúrguer, um peito de frango no pão francês, fritas e dois refris no Aeroparque custam 75 pesos. Um expresso duplo, 15 pesos. Pelo menos os argentinos sabem fazer café direito.

O avião da Austral que nos levou no trecho AEP-BRC era um MD-88 DC-9 mal conservado por dentro, sujo em alguns pontos e indicando a idade na medida em que meu assento tinha cinzeiro.

Nota aeronáutica: não se deixe iludir pelo nome “MD-88”. Os aviões de passageiros da McDonnell Douglas seguiam a nomenclatura DC, da antiga Douglas. No DC-9, as sucessivas versões eram DC-9-10, DC-9-20 etc., até que os últimos modelos foram batizados de DC-9-81 em diante. Comercialmente, a fabricante divulgava essas versões tardias não como DC-9-81, DC-9-82 etc., mas como MD-81, MD-82 etc. São aviões fabricados do fim dos anos 80 aos meados dos anos 90, mas, apesar da aparente mudança de nome perante o público, continuam sendo DC-9 perante as autoridades certificadoras. Para mais detalhes, http://en.wikipedia.org/wiki/McDonnell_Douglas_MD-88#Model_designation

O aeroporto de Bariloche tem apenas três portões, e, com duas fotos, cobri todo o pavimento do embarque. Pronto, o parágrafo já ficou maior do que ele. Mas, pelo menos, é muito mais arrumadinho e moderno do que aquele muquifo que é o aeroporto de Beauvais, ao norte de Paris, onde estive em 1998 e onde, com a ajuda do Monstro de Espaguete Voador, jamais hei de novamente pôr os pés.

V11-0154 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, aeroporto, 22 de maio de 2011 - desembarque

Esta é a vista de dentro de uma das pontes ao desembarcar de um DC-9 da Austral. Um frio de rachar lá fora, com a vista para oeste mostrando os Andes e a torre antiga do aeroporto. A fotografia foi feita às 15:14 h. Pronto, você já viu metade do pátio de aeronaves. A torre de controle não é a atual.

Ao reservar o hotel Panamericano, eu havia solicitado o traslado desde o aeroporto, e o hotel confirmou. Entretanto, chegando ao aeroporto, descobri que ninguém esperava por nós. Telefonando ao hotel, descobri que ninguém sabia de traslado nenhum, nem tinha como verificar. Azar o deles: pegamos uma van que cobrou 20 pesos por pessoa — resultando em 38% menos gasto do que no transporte do hotel.

O Panamericano aparece em todas as referências como um luxuoso cinco estrelas e, em todas as listagens, está acima de todos os mais de quinhentos hotéis de Bariloche, ressalvados apenas outros dois. Novamente, não se engane: certamente é limpo e confortável, com quartos espaçosos, um café da manhã bem farto e variado e um atendimento prestativo 24/7, mas, de cinco estrelas, só tem a entrada suntuosa. Enfim, a 620 pesos de diária, minha única queixa é uma lâmpada queimada no quarto.

Bariloche está diante do magnífico lago Nahuel Huapi, então naturalmente você quer um quarto com vista. Isso certamente o Panamericano oferece, assim como um sem-número de outros hotéis. Porém a cidade está construída em um declive, com avenidas paralelas ao lago e ruas transversais em ladeira. Os hotéis estão nas avenidas. Das de cima (Elflein, Mitre, Moreno e San Martín), quem chega à janela tem os quarteirões abaixo em primeiro plano antes do lago, como vimos do Panamericano, que fica na San Martín.

V11-0173 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado esquerdo da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h.

V11-0174 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado direito da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h. À direita, a passarela sobre a rua e o cassino são parte do hotel. Ao fundo, acabam os Andes e as nuvens e começa a Patagônia. Perdoe-me o arranjo esquisito da página, mas é que esta M*RDA de WordPress não obedece quando se tenta pôr as fotos uma ao lado da outra nem, às 01:55 da manhã, tenho saco de fazer a colagem eu mesmo. Vai assim.

Para ver só o lago, as montanhas e o céu, é preciso dar alguns passos para trás. Para se ter sòmente a vista desobstruída do lago, o melhor é um hotel na avenida mais próxima dele (a 12 de Octubre, Bustillo ou Rosas, conforme o trecho), como, por exemplo, o Cacique Inacayal ou El Candil. Nessas horas, como sempre e especialmente ao pesquisar para viagens, Google Earth é seu amigo.

Chegamos no domingo, 22/05, e saímos no sábado, 28/05. Eu esperava que a temperatura não tivesse caído a ponto de nevar, e de fato não nevou. Mas a previsão do www.foreca.com, extraída em 20/05, era de mínimas de zero a 1 grau e máximas de 7 a 10 graus. Realmente, fazia muito frio para um carioca. À noite, òbviamente fazia mais frio, tolerável se não ventasse.

Apesar da proximidade da muito seca Patagônia, Bariloche situa-se em uma faixa bem estreita de terra cujo clima é influenciando pelos ventos úmidos que sopram do Pacífico, ultrapassam os Andes e fazem chover deste outro lado. Portanto, é um dos lugares onde mais chove na Argentina, e sempre com vento gelado descendo das montanhas a oeste. Nas duas vezes em que ventou e nas duas vezes em que choveu, o frio entrou até os ossos, os olhos ficaram secos e os pés e dedos começaram a doer.

Até que não usamos muita roupa, mas anote aí a referência: eu, que nunca me considerei friorento, vesti sobre o peito uma camisa quente, um pullover de lã irlandês (quente!) e um casaco impermeável de lã (quente). Por baixo dos jeans, uma calça térmica de tecido sintético. Dois pares de meias grossas, um gorro de lã, e luvas de couro forradas de feltro. Já a pequena Esposa precisou de cinco camadas: camiseta, blusa térmica, pullover e dois casacos, além da calça térmica por baixo dos jeans. Meias quentes, cachecol, gorro, luvas e sapato impermeável são indispensáveis. Tudo isso pode ser comprado na cidade, com preço menor do que no Brasil (graças ao câmbio favorável), variedade e qualidade adequada ao uso (aqui no Rio é raro encontrar roupa de frio digna desse nome). Como se entra e sai de ambientes aquecidos, é bom usar várias camadas de roupa em vez de só uma camisa e um casaco pesado.

Por uma questão de simplicidade, a Argentina escolheu seguir um só fuso horário, que aliás é o mesmo de Brasília. Isso é muito conveniente, mas, em Bariloche, é extremo o deslocamento da longitude local em relação à longitude referencial do fuso. Com isso, no inverno a alvorada é às nove da manhã.

O comércio frequentado por turistas está concentrado na avenida Mitre, com inúmeras lojas de roupas de frio e de chocolates, restaurantes, sorveterias e lanchonetes. Em quase todos os estabelecimentos, o atendimento foi excelente. A grande quantidade de brasileiros há de ser a causa de tantos profissionais se desdobrarem para usar palavras do português mescladas ao espanhol. Em toda parte, brasileiros só falavam português e eram prontamente atendidos. Ademais, mui peculiarmente, os argentinos pronunciam todos os LL e Y como nosso J. Difícil entender, mais difícil ainda se acostumar.

A presença brasileira também se nota pela seleção musical nas rádios, que tocam Ritchie, Djavan, Tribalistas, Adriana Calcanhoto e música baiana. Também se ouve muito pop e rock dos anos 80: Alphaville, Blondie, Chris Isaac, New Order, The Police, muito Guns N’ Roses e a predominância de Bon Jovi.

Outra peculiaridade linguística: há uma fruta de polpa rosada e suco cor-de-rosa que, em inglês, chama-se “grapefruit” e, em português, “toranja”. Seu nome científico é Citrus paradisi. Em espanhol, essa fruta chama-se “pomelo”, mas não deve ser confundida com a fruta que chamamos de “pomelo” em português, que é a Citrus grandis. Fácil lembrar, já que, no Brasil, ninguém parece saber que grapefruit tem nome em português. De todo modo, é do grapefruit/toranja/pomelo que os argentinos fazem um dos sabores do refrigerante Paso de los Toros. Azedo e pouco doce, recomendo.

As únicas exceções ao excelente e cordial atendimento que recebi em Bariloche foram as lojas de chocolates Rapa Nui e del Turista, onde o tratamento era mais industrial, impessoal e rápido em despachar. Também, com o comércio vazio (já que a temporada ainda não havia começado), os seguranças armados de ambas as lojas ficaram ostensivamente nos seguindo enquanto examinávamos os produtos. E as moças do caixa da Rapa Nui foram as únicas pessoas argentinas a me tratarem com grosseria.

Essas duas lojas são as maiores e vendem não apenas uma enorme variedade de chocolates em barra e bombons, senão também sorvetes de vários sabores leitosos (chocolate ao leite, meio amargo, com nozes, biscoito, amendoim, doce de leite, framboesa etc.) e produtos regionais, como alfajores, licores, geleias de frutas típicas da Patagônia, carnes de caça defumadas e seus patês, cogumelos locais, cervejas fortes locais e até cosméticos.

A sorveteria Jauja (esquina de Mitre com Quaglia) revelou o melhor atendimento e o sorvete mais variado e mais barato: diferentemente das outras sorveterias, apresenta sabores como banana com doce de leite, boysenberry, laranja com gengibre, calafate com leite de ovelha, sauco com maracujá, arándano (variedade de arando, mirtilo, cranberry), mascarpone com framboesa e mate queimado.

O chocolate da Jauja era mais barato do que os de cinco lojas (Jauja, del Turista, Rapa Nui, Fenoglio e Abuela Goye), saindo por 120 pesos/kg em quantidades pequenas ou 96 pesos/kg na compra acima de 250 g. Em contraste, a Rapa Nui cobra 142 pesos/kg, ou 115 pesos/kg na promoção com o cupom que nos deu a Turisur (agência de turismo sobre a qual comento mais adiante) e pagando em dinheiro. Na del Turista, chocolate a 113 pesos/kg.

Todos os saites onde pesquisei mencionavam os baratos táxis de Bariloche e também os remises (“aluguel de carro com motorista”), mas não explicavam a diferença. Pois é a seguinte: o remise é um táxi, mas, em vez do taxímetro, usa preço pré-fixado para o percurso. Esse preço não é padronizado, de modo que é bom perguntar antes. Táxis e remises são fàcilmente identificados como tais. Outra diferença é que o táxi você pega na rua, mas para o remise você telefona, ou passa na loja para acertar, para que ele pegue você em tal lugar e hora. Além disso, diz a moça do hotel que, de modo geral, os remises têm melhor apresentação e profissionalismo, mais ou menos como um táxi chamado por telefone em comparação com os que você chama na rua no Rio de Janeiro (òbviamente, se você, Leitor, dirigir um dos que a gente chama na rua, ou tiver parente que faça isso, seu táxi é uma exceção). Os remises são indicados para percursos longos, para fora do centro da cidade.

Na avenida San Martín, existem pelo menos duas agências de remises que são 24 horas, assim como a da Autojet, que fica numa esquina bem perto da prefeitura e que é mais barata para ir do centro ao aeroporto (55 pesos) do que se o hotel a chamar para você (65 pesos).

Já que falo do comércio, observo que entramos em quatro livrarias no centro de Bariloche, uma cidade de 100.000 habitantes. Entende agora por que se diz que argentino lê muito mais que brasileiro?

Chegamos antes do inverno e, portanto, da temporada turística. A pequena desvantagem foi encontrar alguns estabelecimentos fechados, especialmente restaurantes. Mas muitos estavam abertos e tivemos a grande vantagem de estarem todos vazios, o que proporcionou atendimento rápido, garçons tranquilos e várias ofertas de tirarem fotos de nós. No Familia Weiss (o restaurante mais famoso e referido, grande e tìpicamente turístico) e no La Alpina, os respectivos garçons estavam sòzinhos, mas nos atenderam muito bem. Em Bariloche o que mais se come é carne, e a carne de Barilocha é realmente deliciosa. Um detalhe interessante é que a maioria dos restaurantes e chocolaterias que visitamos têm fotos históricas da cidade, indicando os nomes das ruas e um “você está aqui”.

Recomendo todos os lugares onde comemos. Em todos a comida estava ótima e o atendimento foi personalizado e simpático. A saber:

– Rapa Nui — esta cafeteria funciona nos fundos da loja de chocolate, mas as duas atuam como se não fossem ligadas. Estivemos várias vezes, e foi o único lugar que vimos sempre cheio. O motivo provável é que parece ser o local de reunião dos barilochenses (é assim que se diz?). As pessoas ficam horas digitando em seus notebooks enquanto saboreiam chocolate quente, café e milkshake. Por causa disso, o atendimento é lento.

– El Boliche de Alberto — São quatro filiais, sendo três concentradas em dois quarteirões vizinhos. Dessas três, só uma faz parrilla (churrasco na grelha, o tipo de comida que mais se vê por ali, pronunciado “parrija”). Onde comemos, o cardápio não poderia ser mais simples: você escolhe a carne e vem só ela, grelhada com sal grosso. A variedade de acompanhamentos e bebidas é espartana. O churrasqueiro também é o cumim. Cordeiro assado para duas pessoas, garrafa de vinho e porção (generosa) de excelentes e fininhas fritas saem por 120 pesos.

Breogan — restaurante galego tão interessante que ganhou um texto só para ele.

– Aire Sur — fica na Colônia Suíça, muito longe do centro da cidade. Uma casinha supersimpática, de madeira, com aquecedor a lenha espalhando calor pelo ambiente. Havia sòmente duas moças trabalhando, com ares de serem as proprietárias. Uma truta ao molho de amêndoas, um chucrute à moda da casa (com bacon, duas salsichas defumadas, batatas ao molho de azeite e purée de maçã), uma cerveja e um café suíço (com creme, espuma de leite, canela e licor de guindas) custam 130 pesos.

– La Alpina — Ao centro do restaurante há uma lareira a lenha, e as mesas têm bastante privacidade, mas também têm contato visual com o garçom. Aqui se destacam os fondues. Comemos um de queijo com cerveja preta, que aliás o garçom nos conta ser bem comum na região. (De todo modo, fondues são comuns sim, especialmente a título de sobremesa.) Acompanhado de um suco e um refri, deu 164 pesos.

– Friends — Este é uma lanchonete melhorada, de sanduíches e pizzas retangulares. Uma pizza de javali e outra de cogumelos, que vieram cada uma sobre uma tábua, mais uma cerveja, por 126 pesos.

– Familia Weiss — Aqui o Ricardo Freire, Autor do Viaje na Viagem, relatou ter comido “bem médio”. Atribuo isso ao estado do restaurante quando ele foi; mais de um saite relata que o lugar enche muito na alta temporada. Entretanto, pudemos aproveitar um almoço supertranquilo num restaurante silencioso, com arquitetura aconchegante e excelente iluminação natural (porque sentamos à janela, senão não). Um bife de chorizo e um Spätzle (mininhoque) com picadinho de cervo, mais a garrafa de vinho, saíram por 163 pesos. O bife estava sensacional; já o picadinho… bem médio. OK, o Ricardo tinha razão, e quem comentou a matéria dele também.

V11-1869 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 27 de maio de 2011 - restaurante Familia Weiss

Chegamos para almoçar cerca das 16:20 h. Havia uma mesa ocupada e um garçom. O atendimento foi excelente, a comida também. Dizem que na alta temporada fica muito cheio...

Vários estabelecimentos fecham na hora da siesta, de umas 13:30 às 16 horas. Pelo menos a maioria tem o salutar costume de pôr seus horários de funcionamento na porta, como se faz na Europa.

Outro inconveniente grave: em Bariloche, o cartão de débito internacional Visa Travel Money não foi aceito. Cuidado, quem contava com ele!

Sempre se associa Bariloche a neve e esqui. Mas, quando não neva, ainda há diversos passeios que se podem fazer pelos arredores da cidade. No Centro Cívico, onde fica a prefeitura, há a Oficina de Informes Turisticos (“oficina” = espanhol para “escritório”), que fica aberta de 8 às 21 horas, inclusive aos domingos. O atendimento é excelente, os servidores municipais são atenciosos e vão te dar vários panfletos ricos em informação, que vão complementar com o tanto que sabem de útil.

Para explorar esse mercado, existem várias agências de turismo em Bariloche. Aliás, a cidade vive bàsicamente de turismo. Como chegamos em um domingo à tarde, só encontramos uma agência aberta, a Turisur, bem localizada no começo da avenida Mitre. Seu atendimento foi muito bom e os preços eram compatíveis com a faixa que nos havia sido estimada na Oficina de Informes. Por esses motivos, fizemos três passeios com eles, a saber:

– Cruzeiro de barco pelo lago Nahuel Huapi e visita ao bosque de arrayanes (que eles pronunciam “arrajanes”), por 230 pesos por pessoa (mais ingresso no Parque Nacional Nahuel Huapi, 61 pesos por pessoa). Você entra em um catamarã com dezenas de outros turistas e ràpidamente percorre o belíssimo lago, observando paisagens sensacionais abrigado do vento congelante lá de fora. Infelizmente, para melhor apreciá-las, é preciso tirar a bunda enorme da cabine bunda da enorme cabine e ir pro tombadilho lá fora, onde é preciso se lembrar de tirar o pingente de gelo do nariz antes de posar para foto.

V11-0269 (nome provisório) - Argentina, lago Nahuel Huapi, 23 de maio de 2011

Olhando para o Norte do lado de fora de um catamarã da Turisur às 14:39 h. No lado esquerdo da foto, ao fundo, os Andes.

(Em tempo: quem estuda Direito tributário brasileiro logo perceberá que, se o Direito tributário argentino for igual ao nosso, o que paguei não foi “ingresso” ao parque, mas uma taxa pelo exercício do poder de polícia de fiscalização contra predação do parque — regulado, no Brasil, pelo Código Tributário Nacional, arts 77 e 78.)

A visita ao bosque é interessantezinha, mas os guias fazem um escarcéu como se fosse o parque mais incrível do mundo. Meu, é só um pouco de reserva florestal, que você percorre num caminho todo delimitadinho em cima do calçamento de madeira. Aí a Turisur tem um fotógrafo que explica como a agência fez uma lanchonete numa cabana de madeira, pôs-lhe o nome de “casa do Bambi” e tira sua foto na frente, cobrando extorsivamente. Ridículo. Foi o primeiro dos casos que vi de turismo um-sete-um da Turisur. Se bem que me deram um cupom para desconto na chocolateria Rapa Nui, de 20% à vista ou 10% no cartão.

O passeio se completa com a visita à ilha Victoria, onde um magnata com preocupações ecológicas iniciou um jardim botânico em 1924 (dez anos antes da criação do Parque Nacional, que inclui a ilha). O jardim tem árvores de vários lugares do mundo, inclusive um bosque de sequoias.

Olha só. A guia explicou que as mudas de sequoias vieram da Califórnia. Necessàriamente isso aconteceu após o início do plantio do jardim em 1924, certo? Ao lado de uma dessas altíssimas árvores, há uma fotografia, feita em 1868, de uma sequoia do parque Yosemite. Pois saiba que esta brasileira do grupo, nova-rica deslumbrada sem cultura, logo me perguntou se era a mesma árvore. Expliquei-lhe que não, que as sequoias da ilha Victoria tinham sido plantadas sessenta anos depois da sequoia da foto. Ela contestou que as sequoias da ilha Victoria eram altíssimas, mas aí a informei de que as sequoias crescem um metro por ano, tornando perfeitamente possível que, de 1924 a 2011, as da ilha Victoria tivessem chegado à altura enorme que estávamos vendo. Expliquei-lhe que o Yosemite ficava na Califórnia, que não era ali por perto e que, portanto, as duas não eram a mesma árvore, mas a mulher não acreditou em mim. Estava convencida de que as sequoias tinham sido trazidas inteiras da Califórnia e replantadas ali na Argentina e que aquele ali era o parque Yosemite.

Gente ignorante exerce um paradoxo interessante. Em geral, não têm imaginação nenhuma; porém, quando se metem a duvidar da realidade, acreditam em absurdos que desafiam Tolkien, Asimov e Clarke. Não sei como a mulher concebeu que as árvores tivessem sido transportadas. Certamente algum lenhador as teria posto nos ombros e trazido de navio, lá da costa Oeste dos EUA até o interior mais austral da Argentina, subindo até Bariloche de caminhão numa época em que não havia nem luz elétrica na área. Porque a moça ficou atrás da guia, querendo se certificar de que não fossem rigorosamente as mesmas árvores que se viam na fotografia antiga.

– Cerro Tronador. Esta foi a melhor excursão, custando 143 pesos por pessoa. Partimos às oito da manhã, quando ainda estava escuro, numa van que tomou o rumo sul, contornando o lago Mascardi até uma das entradas do Parque Nacional (ingresso: 50 pesos por pessoa). A estrada só é asfaltada até certo ponto; como disse o guia Raúl, “… después: Patagónia!”. O passeio dura o dia inteiro e você vê paisagens magníficas de lagos, montanhas e floresta temperada.

V11-0493 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é a bifurcação central do lago Mascardi, vista de uma praia de cascalho às 09:19 h. Chegamos ali levados na van da Turisur. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

V11-0504 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é outra vista da mesma praia. Por incrível que pareça, esta imagem não recebeu nenhum tratamento; a cor é natural (ou: tão natural quanto u'a máquina fotográfica digital consegue interpretar). Às 09:23 h, a manhã estava muito fria.

V11-0598 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Este é o braço ocidental do lago, visto de um mirante às 12:11 h. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

Para o almoço, a van pára no único restaurante que você vai ver dentro do parque. O lugar é simplesinho e não tem concorrência, mas o que importa é combater o frio de rachar lá de fora, e nisso a comida e o chocolate quente são eficazes. E saborosos também. Uma sopa, um guisado de lentilhas, uma empanada (pastel) de queijo e presunto e uma cerveja saem por 113 pesos.

Depois do almoço, vem a cereja do bolo que é o cerro Tronador: um vulcão de 3.500 metros que separa Chile e Argentina e do qual desce uma impressionante geleira. Não se impressione com a altitude, porque Bariloche está a 800 metros acima do nível do mar e você sobe de carro só até uns mil metros. Descendo do carro, caminha quinze minutos, com cuidado para não escorregar no gelo, e logo chega a uma esplanada (que, trinta anos atrás, estava embaixo de vários metros de gelo, cortesia do aquecimento global). Enquanto a montanha está escondida pelas nuvens, dali se descortina esta vista do limite inferior da geleira:

V11-0741 (nome provisório) - Argentina, cerro Tronador, 24 de maio de 2011

Esta é a base da geleira no lado argentino do cerro Tronador, que faz a fronteira com o Chile. O vulcão eleva-se acima de 3500 metros, mas a fotografia foi feita de cerca de 1000 metros, às 15:10 h.

O nome “Tronador” deve-se aos blocos de gelo que se soltam e despencam centenas de metros até se esborracharem cá embaixo. O ruído é idêntico ao de detonação de explosivos trovão.

Circuito Chico (“circuitinho”). Por 57 pesos por pessoa, a Turisur leva você aos mirantes ao longo do lago Nahuel Huapi. Uma subida de teleférico ao cerro Campanario (40 pesos por pessoa) mostra 360 graus desta paisagem.

V11-1265 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Cerro Campanario, 26 de maio de 2011

Em dez minutos de teleférico, chegamos ao alto do Cerro Campanario, de onde se tem uma vista de 360 graus dos arredores de Bariloche. Às 10:28 h, fazia frio. Esta é a vista para Noroeste. À esquerda, o Cerro López e, atrás dele (não visível), o Cerro Tronador e os Andes. Ainda na esquerda, os dois braços do lago Perito Moreno. À direita, em primeiro plano, o lago Nahuel Huapi; em direção ao fundo, uma península, novamente o Nahuel Huapi e a ilha Victoria.

O resto do passeio é interessante, mas tem mais turismo um-sete-um. Primeiro, porque, por alguma razão que ainda hei de entender, alguém cismou que é atração turística levar você a percorrer o jardim diante do hotel Llao Llao, o mais antigo e sofisticado de Bariloche. Patèticamente, ninguém pode descer da van, que circula em baixa velocidade à frente da imponente construção. Parece até aquele episódio dos Simpsons onde as crianças vão visitar uma fábrica de caixas. Segundo, porque, depois de você ter tido APENAS QUINZE MINUTOS para apreciar o momento mais bonito da semana no cerro Campanario, a Turisur te põe durante MEIA HORA DENTRO DE UMA LOJA de cosméticos que só existem à venda ali, como se isso fosse atração turística. Cabe lembrar que todos os cosméticos são feitos de rosa mosqueta, uma plantinha que, no discurso da vendedora, resolve todo problema de pele, de remoção de manchas a queimaduras de terceiro grau. Ela só se esquece de dizer que a rosa mosqueta não é típica dali, mas veio da Europa meridional e se adaptou tão bem que hoje é uma praga na Patagônia.

Com o pouco trânsito de Bariloche e apesar de os argentinos serem latinos como nós, impressionou-nos que os ônibus cumprissem os horários da tabela que o servidor da Oficina de Informes nos deu. Pegamos a linha 10, que, ao preço de 6 pesos por passageiro e após cinquenta minutos na estrada que segue o lago, deixou-nos na Colônia Suíça.

A Colônia Suíça é mais um caso de turismo um-sete-um. Fontes escritas e faladas nos indicaram a localidade como um povoado histórico onde, todas as quartas-feiras, um festival traz artesanato e comidas típicas, inclusive curanto (carne assada em fogo enterrado durante várias horas — barreado, alguém?). Só que tudo que encontramos foi uma rua de terra que se percorre em cinco minutos, as barraquinhas e restaurantes quase todos fechados à espera da alta temporada, e uma meia dúzia de malucos-beleza vendendo um artesanato mequetrefe que qualquer maluco-beleza te vende em qualquer praça de cidade grande. Tem uma capela e uma casa antiga preservadas, mas a “colônia” acaba aí. A observação mais notável foi o posto da polícia, com um carro velho e batido que só dá mesmo é pena do policial.

As partes boas da visita à Colônia Suíça foram o restaurante Aire Sur, a vista de um lago próximo porém escondido atrás de algumas árvores e a própria viagem no ônibus, que não só é sempre um divertimento em terra estrangeira como nos ofereceu farta vista de paisagens do lago Nahuel Huapi. Na volta, o ônibus foi enchendo, inclusive de um grupo de mochileiros jovens e anglófonos. Desceram no mesmo ponto nosso e perguntei de onde eram. Um deles era de North Yorkshire. Embora muito novinho, tinha, à guisa de cachecol natural, uma barba de fazer inveja ao Alan Moore.

Por último, duas visitas a museus que recomendo sem reservas. Um é o Museu do Chocolate, integrado à fábrica da Fenoglio, que, entretanto, não está aberta a visitação (embora visível através de janelões). Sua exposição está muito bem montada, explicando vários fatos sobre o cacaueiro, o cacau e seu aproveitamento econômico, sobre a história da indústria do chocolate desde os astecas, passando pelos conquistadores e pela nobreza europeia, sobre a evolução do significado social do chocolate, sobre o contexto em que era bebido… Tudo com ilustrações pertinentes e objetos de época. A explicação do guia era dispensável, porque há bastante texto junto às imagens, contendo tudo que ele disse; mas a visita valeu os 16 pesos do ingresso.

V11-1733 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Museu do Chocolate, 27 de maio de 2011

Em Bariloche, a fábrica de chocolate Fenoglio mantém este museu, cuja exposição está muito bem montada e é rica em informação e ilustrações sobre a evolução do uso social do chocolate desde os astecas, passando pela nobreza europeia, até o final do século XX. A fotografia mostra aproximadamente 2/3 da mostra. Atrás da parede à direita, o primeiro terço é sobre o cacaueiro, a composição orgânica do chocolate e os primeiros usos entre os astecas. À direita, o uso pelos astecas conforme testemunhado pelos Conquistadores e a adoção inicial pelos espanhóis. À esquerda, a propagação do chocolate na Europa durante os séculos XVII a XIX e o início da fabricação em massa durante a Revolução Industrial.

O outro museu é o paleontológico, aonde chegamos quando faltava meia hora para fechar. O museu não recebe dinheiro estatal, mas apenas dos ingressos (8 pesos) e da venda de produtos como camisetas. Funciona em um galpão que não deve ter mais de 100 metros quadrados e agrupa um excelente sortimento de fósseis. Apesar do espaço apertado, os fósseis estão dispostos de modo bem visível e didático. Nas paredes, paineis ilustrativos mostram a deriva continental, a formação dos fósseis, a genealogia evolutiva dos tipos de animais, a evolução das glaciações na Patagônia e os locais de onde vieram os fósseis. Estão presentes a mandíbula de um Charcharodon megalodon (versão gigante do tubarão-branco), a réplica dos ossos de um ictiossauro e centenas de fósseis de palmeiras, moluscos, insetos, aracnídeos, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, dispostos em ordem cronológica. O museu está quase escondido entre o lago Nahuel Huapi e a avenida 12 de Octubre, em frente a uma escola e a uma das sedes do órgão que fiscaliza parques nacionais.

E foi isso. Não há muito mais a contar, e espero ter sido útil. Nos vemos na próxima postagem, quando detalharei o excelente restaurante Breogan.

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Em tempo: sabe a postagem anterior a esta? Pois fiquei sabendo que o seriado da Mulher-Maravilha foi cancelado. Ótimo. Assim ninguém passa vergonha.

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“Eu tô aí com um projeto…”

Aí, né, tem este seriado novo da Mulher-Maravilha. Amigo meu, fã da personagem, resumiu sua crítica:

PROXIMO SERIADO A SER CANCELADO RAPIDAMENTE
A NOVA MULHER MARAVILHA É HORROROSA
O UNIFORME ( NINGUEM MAIS RESPEITA PORRA NENHUMA) É RIDICULO…LEMBRA UM DESTAQUE
DA UNIDOS DA TIJUCA…
TOMARA QUE AFUNDE…PARA ESSES BABACAS APRENDEREM…
http://www.youtube.com/watch?v=r9swHb3v0XU&feature=relmfu

Eu não podia ser mais ponderado, simplesmente porque concordava com ele. Mas acrescentei o seguinte:

Eu concordo…

A atriz não tem presença, não tem porte, não tem garbo, não tem tamanho, NÃO PARECE UMA AMAZONA, o uniforme está errado (CALÇAS? AHSIFUDÊ), …

A Lucy Lawless teria sido uma Mulher-Maravilha muito melhor.

Pelo visto, eles acham que qualquer baixinha de peito grande servia. Então que se afundem.

Mas demos também o benefício da dúvida. Smallville consta que era uma m*rda no início, mas que depois ficou boa… Não sei, não vi. Vai que a moça é boa atriz?…

De todo modo, ouvi no YouTube: “… at least it’s not Beyoncé… Enough of that Halle Berry Catwoman fiasco…”

Realmente, né. Eu não sei o que há que a DC, pra cada um que acerta, tem errado outros tantos. O filme do Superômi ficou parecendo um emo com a cueca pra fora da calça, que até Kevin-Coisa fez um Lex Luthor mais interessante do que o herói. Depois é esse tal filme do Lanterna Verde onde o intrépido piloto se comporta feito um geração-Y deslumbrado, com uma roupa brilhante que mais parece anúncio de sabão em pó para sapos. Por enquanto, só se salvou o Why-So-Serious das Trevas, e mesmo assim não foi incólume.

Enfim. Não quero ser um hater reclamão, não. Se o filme do Lanterna passar no Brasil, eu vou (parece que não vai mais passar, que a DC entendeu que não tem público Update: Esse “parece que” foi relato trazido por um colega meu que não tem Jesus no coração. Resulta que ele confessou ter mentido para mim. Ora, gato escaldado não dá crédito a versão ouvida na feira: eu só escrevi “parece que”, disclaimers apply, o Leitor tem que pesquisar sempre).

Mas é que o próprio estúdio não ajuda no discurso de fanboylagem. Por exemplo: outro dia, saiu matéria no Los Angeles Times sobre a suposta intenção da Warner de fazer um filme da Liga da Justiça.

O Globo On traduziu a matéria e a ela acrescentou alguns comentários bem típicos de fanboy:

DC Comics desafia Marvel

a Marvel corre na frente

E outra que vi por aí na Web, “DC bate de frente com a Marvel…”

Mas que infantilidade. Não há desafio nenhum, nem corrida, nem disputa. Imagina só: o bilheteiro põe o dedo na sua cara, “Escutaqui! Você só pode gostar de um! Ou Marvel ou DC! Se for pego entrando no filme da outra, vai ficar de castigo!”

Ou, então, você imagina dois trens, um da Marvel, outro da DC, numa colisão em alta velocidade, BUM, e só sai uma da poeira, e a outra fica proibida PARA SEMPRE de fazer seus filmes… Porque perdeu a disputa…

Não faz sentido! É uma disputa que não existe! Fã de um não deixa de ser fã do outro, é igual àquelas disputas idiotas de “quem é o melhor capitão de Star Trek, Kirk ou Picard” (Kirk é melhor, óbvio), ou “qual é melhor, Star Trek ou Star Wars“… É a velha visão com antolhos daqueles haters que o @Cardoso tanto comenta, que só conhecem o mundo em preto-e-branco e não admitem que se possa gostar de duas coisas diferentes; você só pode gostar de uma, uma só, e tem que ODIAR tudo mais. Fãs da Marvel e fãs da DC não poderiam encontrar-se na porta do cinema, que seria igual àquelas brigas de gangue de rua de filme americano — com as óbvias diferenças de que só poderiam brigar até a hora em que a mamãe os quisesse em casa, e que as armas seriam anéis de Lanterna Verde da caixa de sucrilhos.

Mas olha só. A reportagem é só hype mesmo, é só para agitar as águas turvas, para que gente como eu fique dando visibilidade. Porque ela mesma deixa pistas de que não há nenhum projeto de filme da Liga da Justiça. Parece ser só uma tentativa do entrevistado de roubar atenção da Marvel, que está com filme do Capetão América, do Thor e dos Vingadores saindo do forno, enquanto a DC tem só esse Lanterna verde-novato e o terceiro Voz Rouca da Escuridão bem mais para a frente.

(Em um aparte, isso me lembra muito uma sequência que o Pânico na TV! fazia: chegava para um ex-BBB numa festa, “e aí? O que você está fazendo depois que saiu do BBB?” “Ah, eu tô aí com um projeto…” “Ah, mais um que tá com um projeto… Quer dizer, não tá fazendo p*rra nenhuma, nem tem projeto nenhum… Tá legal.”)

Se duvida, preste atenção em algumas frases:

“But Robinov said a new Justice League script is in the works.” (Desnecessário enfatizar para assegurar de uma verdade se ela fosse mesmo verdade: transpareceria por si só e inevitàvelmente com o correr do tempo.)

“Also being written for Warner are scripts featuring the Flash and Wonder Woman, who could be spun off into their own movies after Justice League.” “Roteiros sendo escritos” é o mesmo que dizer “não existe nem o cheiro de um projeto ainda”. Além do mais, “could” é expressão muito vaga, e a frase mostra bem que não sabem mesmo se querem fazer algo com os personagens… Como se fizesse sentido haver um Flash ou uma Mulher-Maravilha quase como elenco de apoio em um filme cheio de astros, sem investimento próprio — logo eles, que nunca foram meros figurantes.

“Though Wonder Woman is also in the works as a television pilot for NBC produced by Warner, Robinov dismissed that as a sticking point.” Certo. Como se o estúdio estivesse mesmo disposto a ver fãs comparando, medindo e, afinal de contas, não entendendo nada se o filme não bater com a série.

“We have the third Batman, but then we’ll have to reinvent Batman…” Quer dizer: ele nem lançou o filme de 2012 (que faz parte da atual reinvenção do Batman) e já está dizendo que vai ter que reinventar o personagem de novo. Sei. Excelente maneira de dizer que o investimento atual não vai ter continuidade. Realmente é isso que gostam de ler as pessoas que vinham gostando do resultado (que, aliás, hoje são maioria).

Afinal de tudo isso, fã de DC que sou, não me preocupo não. Essa palhaçada está sendo cogitada para 2014. Até lá, muitos fracassos de bilheteria ainda podem acontecer.

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Reencarnação

Você já reparou que quem acredita em reencarnação sempre diz que foi príncipe, princesa, nobre, artista, …? Ninguém nunca diz que foi escravo, operário ou camponês.

Pois eu era escravo. Quando fui reencarnar, aproveitei um descuido de quem controlava a pranchetinha e vim parar aqui. Através de uma psicografia, fiquei sabendo que haviam descoberto o engano e que eu estava sendo chamado de volta. Claro que me neguei, né: comparado com a vida que eu tinha, aqui está muito bom! Aqui tenho água encanada, luz elétrica, só tenho que trabalhar dezesseis horas por dia…

Só que, enquanto eu estiver nesta vida, serei considerado foragido, e mais: para cada minuto adicional, não só a Claro me cobra R$ 0,53 como está aumentando o número de chibatadas que terei de receber como punição pelo golpe que apliquei.

Por isso um de meus objetivos é não morrer nunca. Porque, se eu morrer, sei bem o que está me esperando. E depois terei que reencarnar como um ornitorrinco manco!

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Cronologia do Lanterna Verde até maio de 1994

A história do Lanterna Verde dos Lanternas Verdes é extensa e complexa. Recentemente, um colega fez-me diversas perguntas, que resolvi responder pesquisando e enviando-lhe um email. Mas por que ele tem que ser o único beneficiário? O trabalho já está pronto, então posso dividir com você, com quem googlar e comigo mesmo — já que é referência à qual eu mesmo posso querer voltar.

A cronologia abaixo é intencionalmente supersimplificada. Há farto material na Web, em saites como glcorps.dcuguide.com e todos os de quadrinhos indicados aí ao lado. A Wikipedia é suficientemente boa, e o Google vai te trazer ainda um montão de informação sobre inúmeros personagens, planetas, histórias, poderes, características… Não pretendo suplantar nada disso. Esta cronologia é só para ajudar o nobre Leitor a contextualizar as histórias que ler e que sejam ambientadas no período coberto.

De 2006 até agora, aconteceu MUITA coisa em torno do Lanterna Verde. O título ganhou enorme destaque nos EUA sob a batuta de grandes artistas (inclusive Ivan Reis, premiado por isso) e atualmente, no Brasil, com retardo de um ano, está passando de um abrangente arco (Blackest Night, A noite mais densa) para outro (Brightest Day, O dia mais claro). Não estou cobrindo nada disso, porque não li nada disso. Nem o período 1994-2005, onde também aconteceu muita coisa na vida de Hal Jordan. Neste momento estou em junho de 1994 e é só até aí que vou. Intencionalmente, estou omitindo referências a Alan Scott, zamorianas, e vilões além de Sinestro. Para manter simples.

CRONOLOGIA DO LANTERNA VERDE DA TERRA-1 (DEPOIS TERRA ÚNICA) ATÉ JUNHO DE 1994

Showcase #22 (Oct 1959) – Primeira aparição do Lanterna Verde Hal Jordan.

Green Lantern #1 (Aug 1960) – Primeira aparição dos Guardiões.

GL #6 (Jun 1961) – Primeira aparição de outro LV (Tomar-Re, do planeta Xudar).

GL #7 (Aug 1961) – Primeira aparição e origem de Sinestro: LV que usava o anel para dominar, humilhar e explorar os habitantes de seu planeta, Korugar. Julgado, perdeu o anel, foi banido para Qward e tornou-se renegado.

GL #9 (Dec 1961) – Primeira aparição do anel amarelo de Sinestro, que extrai energia dos anéis verdes.

GL #40 (Oct 1965) – A história de Krona, que investigou a origem de tudo, espalhou o Mal no universo e foi banido. Os oanos, tentando compensar o dano causado ao universo, tornaram-se os Guardiões e criaram a Tropa dos Lanternas Verdes.

GL #59 (Mar 1968) – Primeira aparição de Guy Gardner, destinado a ser substituto eventual de Hal Jordan.

GL #76 (Apr 1970) – Primeira história de Dennis O’Neil: Hal Jordan questiona a ordem sem justiça dos Guardiões.

Nas histórias de Dennis O’Neil, a parceria de LV e Arqueiro Verde inicia a Era de Bronze dos quadrinhos, questionando a ética dos super-heróis.

GL #81 (Dec 1970) – Dennis O’Neil conta como os Guardiões saíram de Maltus para Oa.

GL #87 (Jan 1972) – Guy Gardner incapacitado por acidente com ônibus. Primeira aparição de John Stewart como LV substituto eventual.

1972-1976 – Com baixas vendas, a revista GL é suspensa em 1972 mas retomada em 1976, seguindo normalmente a numeração.

GL #123 (Dec 1979) – Culminando uma linha de histórias, Guy Gardner entra em coma.

GL #151 (Apr 1982) – Hal Jordan exilado no espaço por dar atenção demais à Terra. Continua LV, cumprindo missões por um ano. John Stewart fica como LV da Terra?

GL #181 (Oct 1984) – “Take This Job — and Shove It”: Hal Jordan pede as contas. Guardiões nomeiam John Stewart o LV permanente da Terra.

John Stewart casa-se com Katma Tui (sucessora de Sinestro em Korugar e sua treinadora). Durante a Crise nas Infinitas Terras, John Stewart é o LV da Terra.

Crisis on Infinite Earths revela que, quando investigou a origem de Tudo, Krona criou o multiverso. Que os oanos ficaram divididos sobre a forma de mitigar o mal. Os mais passivos tornaram-se os Guardiões; os mais intervencionistas foram embora de Oa e tornaram-se os Controladores.

Crisis on Infinite Earths #9 (Sep 1985) + GL #195 (Dec 1985) – Guy Gardner curado e convocado pela facção brigona dos Guardiões.

GL #198 (Mar 1986) – Tomar-Re morre em combate; Hal Jordan fica com seu anel e volta a ser LV.

Millennium (Jan-Fev 1988) – Guardiões vão embora do Universo, e a Tropa fica abandonada à própria sorte. Só fica para trás um Guardião, Appa Ali Apsa, que havia perdido a imortalidade como punição por seu comportamento nas histórias de Dennis O’Neil. Em Maltus, A.A. Apsa começa a treinar Guy Gardner, que se rebela. Apsa tenta retomar o anel de Gardner, mas Jordan livra a cara dele.

Secret Origins #22 (1988) – Revelado que, antes do GLC, os Guardiões haviam criado os robôs Manhunters. Quando os MH se rebelaram, os Guardiões fundaram o GLC.

O título GL torna-se Green Lantern Corps. Arisia, Ch’p, Kilowog, Katma Tui e Salakk vêm morar na Terra.

GLC #222-223 (Mar-Apr 1988) – A Tropa decide matar Sinestro. Em reação à morte de Sinestro, a Bateria Central é destruída. A maioria dos anéis perde o poder. (Na verdade, Sinestro não morreu; sua essência foi parar dentro da Bateria.)

GLC #224 (May 1988) – Último número da série. Lanternas Verdes passam a aparecer em Action Comics Weekly.

Action Comics Weekly #601 (Jul 1988) – Safira Estrela mata Katma Tui.

ACW #635 (Jan 1989) – Última aparição do GLC em ACW.

GL: Emerald Dawn #1-6 (Dec 1989 – May 1990). Reconta a origem do LV. Reboot do personagem.

GL: Emerald Dawn II #1-6 (Apr-Sep 1991) é continuação imediata de Emerald Dawn conforme a cronologia dos personagens, contando do treinamento do novato Hal Jordan pelo experiente Sinestro. Também reconta o banimento de Sinestro, que, nesta versão, é um tirano em Korugar, mas por ser obcecado com ordem e achar que está fazendo a coisa certa.

GL #1 (Jun 1990) – Imediatamente após o reboot de GL:ED, a DC inicia novo título do LV. A história continua do ponto onde havia parado ACW.

Os oito primeiros números de GL compõem a história GL: the Road Back, onde Hal Jordan, não mais LV, está em busca de uma finalidade na vida. Enquanto isso, A.A. Apsa enlouquece e começa a sequestrar para Oa as cidades que visitou em vários planetas. Jordan, Gardner, Stewart e outros vão combatê-lo. Entre os voluntários que auxiliam os LV está Tomar-Tu de Xudar. Quando os LV estão a ponto de ser derrotados por A.A. Apsa, os Guardiões retornam (GL #8, Jan 1991).

Em GL #8, a Bateria Central é restaurada e os Guardiões distribuem tarefas:
– Guy Gardner passa a ser o LV da Terra;
– Hal Jordan vai recrutar novos membros para recompor a Tropa;
– John Stewart fica incumbido de cuidar das cidades trazidas a Oa.

Após GL #15, inicia-se a série GL: Mosaic, onde Stewart é o protagonista e que dura 18 edições. Ao fim da série, Stewart torna-se o primeiro Guardião mortal.

GL #25 (Jun 1992) – Hal Jordan retorna à Terra para reassumir a antiga função. Guy Gardner desafia-o e perde o anel na porrada.

Guy Gardner Reborn #1-3 (1992) – Gardner recruta o auxílio de Lobo e recupera o anel amarelo de Sinestro em Oa.

Guy Gardner #1 (Oct 1992) – Início da série, que foi até o #44 (Jul 1996).

Superman #80 (Aug 1993) – Coast City destruída.

GL #48-50 compõem o arco Emerald Twilight.

GL #48 (Jan 1994) – Hal tenta recriar Coast City para trabalhar seu luto, mas é convocado a Oa para ser julgado por abuso do anel.

GL #49 (Feb 1994) – Jordan matando LV diversos, tomando seus anéis.

GL #50 (Mar 1994) – Hal mata Kilowog e Sinestro, destrói Bateria Central, mata os Guardiões. O último Guardião deixa anel para Kyle Rayner.

GL #51 (May 1994) – Primeira história onde Rayner é o novo LV.

Darkstars #21 (Jun 1994) – Com o fim do GLC, Stewart torna-se um Darkstar. Os Darkstars foram criados pelos Controladores.

A SEGUIR: ZERO HORA!

Minha resenha sobre os primeiros números de GL desde 1959 estava publicada no falecido Geocities e não fiz nenhum esforço para preservá-la. Algumas almas caridosas, porém, fizeram. Várias páginas estão recuperadas nos domínios http://www.reocities.com e http://www.geocities.ws, inclusive esta, que é minha: http://www.geocities.ws/jpcursino/ScPGLv1.htm

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Plantões histéricos, quase nunca históricos

Às vezes você está lá, tranquilo, sem p*rra nenhuma pra fazer assistindo à Sessão da Tarde, quando o filme é interrompido por aquela música escandalosa do Plantão da Globo. “Pã pãpã pãpã pãpãpãpããã… Pã pãpã pãpã pãpãpãpã pãpããããã… tem tem temtemtem…” Por todos esses anos, sempre que eu era interrompido por essa música, só pensava em uma coisa: “f*deu, Angra explodiu”. Sério. Juro.

Aí, depois, não era nada disso, era para dizer que o Mubarak tinha renunciado, ou que o Zé Alencar tinha finalmente parado de fazer c* doce e abraçado a noite gentil… Minha reação sempre foi a mesma: p*rra, vocês me estressam, me apavoram, me acordam daquela morgada básica de depois do almoço interrompem meu filme, e tudo isso pra quê? Pra me contar de uma notícia que acabou de acontecer do outro lado do mundo e que podia muito bem esperar até o jornal da noite!

Não, sério: meu raciocínio é sempre o seguinte. Para alguma coisa interromper o meu filme, para ser tão urgente a ponto de não dar para esperar até o Jornal Nacional, só pode ser que a urgência exige que eu corra para salvar minha vida. Tipo, tem que ser uma m*rda estratosférica mesmo, de nível nuclear, algo cuja única resposta adequada seja “salve-se quem puder”, “corram para as colinas”… Tem que ser alguma coisa tão séria, mas tão séria, que a Globo entenda, olha só, vou ter que interromper o seu filme, mas é que isto NÃO PODE ESPERAR, é sério demais, é para salvar a sua vida, serviço de utilidade pública, sabe?

Mas não, é para dizer que determinado ditador caiu lá naquele lugar do outro lado do meridiano de Greenwich. Como se eu fosse sair correndo em seguida, “ó meu Deus! Preciso ir já para o aeroporto, pegar o primeiro voo para o Egito, achar que sou o Chuck Norris e restaurar o pobre ditador no poder single-handedly”… Ou então, “caramba! O papa acabou de morrer! Preciso ligar para meu corretor AGORA para vender minhas ações da Santa Sé antes que despenquem mais!” Não, né. Então, você que está estudando produção de TV e que sonha um dia interromper o Vale a Pena Ver de Novo dos outros com o Plantão da Globo: não é pra fazer isso. Combinado? Pode ser?

E mais: quando for acidente mesmo em Angra (pédepatomangalôtresvezes, bate na madeira), DUVIDO que a reação seja assim instantânea. Dá uma olhada nisto aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki#Japanese_realization_of_the_bombing. P*rra, cai uma BOMBA NUCLEAR na cabeça dos infelizes, a nuvem é visível a centenas de quilômetros, e ninguém se toca durante vários minutos! (Claro que, para mim, é fácil falar. Eu já ficaria APAVORADO só de perceber que a linha telefônica ficou muda, que o quartel-sempre-em-contato não responde e que, estranhamente, não tem nenhum avião americano na área.  Quebra-cabeça não difícil de montar, esse.)

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“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”

Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.

Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).

Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.

Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.

Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)

Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.

Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.

O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.

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Servidores públicos, escândalos e falácias

Fica-se dizendo que funcionário público servidor público ganha bem, que servidor público tem aposentadorias e pensões nababescas, que tem privilégios, que ganha verba pra tudo, que desvia dinheiro público, que faz negociatas…

Toda vez que aparece um nome de servidor público envolvido em escândalo, o que é que se verifica? Que é assessor. Que detém cargo em comissão. Que não é concursado nem efetivo. Que é dirigente, diretor de algum órgão. A gente quase nunca vê servidores efetivos envolvidos em maracutaias. Às vezes tem, tanto quanto tem criminoso comum. Mas, quase sempre, os líderes dos esquemas, os servidores que estão levando um por fora, quase sempre é gente que foi nomeada para cargo em comissão, gente que não tem nenhum vínculo com o serviço, nem preparo, gente que é apadrinhada política daquele nosso clássico clientelismo. Essa gente (bem entendido: os criminosos. Não estou falando dos outros, tome nota) sabe que vai ficar no cargo só pelo tempo que ficarem aqueles que os nomeiam. Sabe que essa é sua oportunidade para enriquecimento rápido e fácil. Em regra, é gente que não trabalha, não chega realmente a exercer o cargo no sentido de trabalhar como se espera do ocupante do cargo, às vezes nem dá as caras no local de trabalho. É gente que faz pouco dos servidores efetivos com quem convive e a quem humilha quando pode, gente que tem uma percepção de cargo público bem diferente da de quem fez concurso.

Enquanto isso, os servidores efetivos, que são maioria, continuam ganhando pouco (especialmente no Poder Executivo e suas autarquias), sofrendo com péssimas condições de trabalho, sem ar condicionado nem a aguinha gelada ou o cafèzinho que vemos para os assessores e secretários.

Então, peço ao Leitor que preste atenção: toda vez que sai uma notícia de servidor público ganhando comissão para liberar obra irregular, preste atenção se não é um assessor, diretor, secretário de alguma coisa. Não são esses os representantes da classe, tá? Não são esses os trabalhadores, nem são maioria, que a maioria são servidores efetivos, concursados. Vampará de ficar demonizando os servidores públicos como se fossem os responsáveis pelos problemas do Estado brasileiro.

Aliás, é curioso. Todomundo falando mal de servidor público, todomundo criticando que é uma boca, mas todomundo querendo ser um, estudando pra concurso… Parece contraditório, né? É que, muitas vezes, a indignação não é pelo desvalor ético, não é uma crítica à conduta em tese. É, isto sim, uma queixa: “também queromeu, por que só eles têm e eu não?”, puro fruto de egoísmo mesquinho.

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Em outra notícia, vejo que, esses dias, em Belo Horizonte, uma carreta trazia XYZ mil toneladas de trigo a duzentos mil quilômetros por hora no meio do trânsito movimentado — o que, em si mesmo, já é uma insanidade de punir com marretadas na canela — quando, depois de uma curva, não viu o trânsito parado e saiu atropelando quinze veículos, o que resultou em cinco mortos e vários feridos, com direito a caminhão sendo jogado na vala entre pistas. A alegação do mentecapto motorista foi ter perdido o controle do veículo.

Putaquepariu. É nisso que dá entregar uma carreta na mão de um energúmeno analfabeto. A alegação é sempre essa, você já percebeu? A mais comum é ter “perdido o freio”. O paramécio oligofrênico não percebe que não dá pra parar uma carreta carregada até em cima com tijolos, vindo a duzentos por hora, na mesma distância em que se pára um caminhão vazio que venha a quarenta. Não estou pretendendo que esse animal tenha estudado Física básica, não é isso. Mas, se tivesse um mínimo do treinamento necessário pra subir no veículo, esse aborto viciado em anfetaminas perceberia que o freio, ao contrário do que supõe, não é mágico! Ao contrário do que se possa pensar, não é só pisar no pedal que o caminhão, pronto, instantaneamente pára.

Agora, uma sugestão. Se você olhar pelo espelho retrovisor e vir um mastodonte desses vindo na sua direção, sem ter para onde escapar, solte o freio de mão. Você reduzirá a transferência de energia cinética e ganhará uma minúscula chance a mais de sobrevivência.

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Por que não vou renovar minha assinatura de Scientific American Brasil

Em abril de 2010, encerrava-se minha assinatura da revista Scientific American Brasil, editada pela Duetto. A editora enviou-me a proposta de renovação, eu podendo parcelar em quatro ou seis vezes, sem desconto para pagamento à vista.

Já que não tinha desconto, escolhi manter meu dinheiro rendendo juros no banco por mais tempo até o fim do pagamento, em vez de entregá-lo todo à editora e deixá-lo rendendo juros COM ELA. Afinal, a prestação do serviço da Duetto (entregar doze edições da revista) seria parcelada — faria todo o sentido que a minha contraprestação (pagar pelas doze edições) também fosse.

Só que eu pedi para parcelar em seis vezes de R$ 19,83 no cartão de crédito. Seis vezes, marque bem. Foi aí que meus problemas começaram.

Comprei a nova assinatura em 20 de abril, e a operadora do cartão tomou ciência em 22 de abril. A fatura para vencimento em maio já estava fechada, de modo que a primeira cobrança, lançada em 22/04, venceu em junho.

Então faça aí a conta: seis prestações, a primeira vencendo em junho; então, as demais venceriam em julho, agosto, setembro, outubro e novembro. Certo?

A prestação seguinte foi lançada em 24/05 (ou seja, um mês depois da anterior) e venceu normalmente em julho. Em agosto não veio cobrança. Aí, em setembro, apareceu uma parcela com lançamento em 21/07 e descrita como “01/05”. A de outubro, também lançada em 21/07, veio como “02/05”.

Mas peraí. A parcela de setembro não era a primeira, era a terceira. A de outubro era a quarta. A continuar assim, eu acabaria pagando a quinta (“03/05”), a sexta (“04/05”) e uma sétima (“05/05”).

O que que eu podia ter feito em outubro? Podia ter ligado para a operadora do cartão e dito que a descrição das parcelas estava errada. E eu, que vivo defendendo a pró-atividade proatividade, não fiz isso. Verdade que não tinha o dever de fazê-lo. Verdade que, até dezembro, eu ainda estava pagando o que devia; e que não necessàriamente deveria presumir que estivesse por vir uma sétima e indevida parcela. Vamos tomar o cuidado de não culpar a vítima. Eu vivo dizendo que você tem que tomar sua vida nas suas mãos em vez de contar com, ou esperar, que os outros façam certo, mas isso não dá à Duetto ou à operadora do cartão o direito de me cobrar a mais.

Bom. Até que veio a cobrança de janeiro (a sétima). Não adianta eu simplesmente não pagar. Se eu não pagar integralmente uma fatura, estou criando um problema ainda maior, porque a operadora vai começar a cobrar juros, vai bloquear meu cartão, e eu vou acabar tendo que me aborrecer por muito mais do que uma simples parcela de R$ 19,83. Eles têm, sim, o poder de ferrar com a minha vida sem nem saberem que eu sequer existo (e sem se importarem com isso, o que é bem mais divertido de se fazer com seres desprezíveis do que dar a eles tanta importância a ponto de fazer questão de prejudicá-los). Se eu tenho um problema de cobrança a mais, tenho que resolvê-lo independentemente do pagamento: a operadora não tem como diminuir o valor da fatura já emitida. Se concordar com minha eventual alegação de que a cobrança não seja devida, o que ela vai fazer vai ser estornar o valor em outra fatura, independentemente do pagamento desta que está comigo.

Você, especialista em Direito do consumidor, a esta altura deve estar pensando em mil direitos que eu tenho, pensando que o consumidor é forte, que hoje em dia a lei nos protege, que é só eu não pagar, que posso mover ação por dano moral, que seria bom me negativarem no SPC para eu ganhar uma indenização polpuda… Mas tudo isso dá muito trabalho. Antes de se discutir o Direito, há uma questão prática, meramente econômica, que é: será que eu quero me aborrecer com a discussão? Observe que, antes de tudo isso ser uma relação jurídica, é uma relação de poder. O poder é desigual, e eles já começam ganhando. Mesmo que eu vença no final, o custo da vitória é muito alto. Uma das coisas fundamentais que a gente aprende sobre Direito é que ele existe justamente para que o Estado compense a desigualdade de forças e obrigue a parte forte a devolver o que tomou da parte fraca, que não conseguiria recuperar o que foi tomado. Então, antes de existir a relação de direito, existe a relação de poder; e aliás é por causa desta que existe aquela.

Mesmo assim, antes do vencimento da fatura de janeiro, telefonei para a editora Duetto, que não tem um zero-oitocentos e que só atende em horário comercial. Expliquei o caso, mas a editora me relatou que havia recebido um só pagamento, no valor cheio correto, lá em abril; que, daí por diante, o parcelamento havia sido repassado à operadora do cartão de crédito; e que, conforme seus registros, desde abril eu não devia mais nada à editora.

Faz sentido (afinal, é assim mesmo que funciona o financiamento por cartão de crédito), mas você pode observar que aí começa o pingue-pongue, muito comum em relações envolvendo mais de uma pessoa, onde cada uma diz que o problema foi com a outra e que você tem que procurar essa outra. “Se vira aí com ele, eu não tenho nada com isso.” Tenho certeza de que você já passou por uma dessas na vida. De certo modo, a Duetto até tinha razão. Se ela não me entregasse algum exemplar da SciAm BR, minha reclamação seria com ela. Só que, se alguma cobrança vem errada, eu tenho que reclamar com quem me cobra mesmo, que é a operadora; e elas que se entendessem depois (não dá razão à operadora o fato de ela, cobrando-me errado, dizer que eu tenho que me entender com a editora). Talvez nesse ponto eu tenha mesmo errado, não sei. Mas continuo sendo a vítima; o fato de eu não ter reclamado cedo NÃO DÁ à operadora o direito de me cobrar a mais.

Hoje, telefonei à operadora do cartão. No primeiro telefonema, a atendente disse, na minha cara remotamente, que não tinha acesso a nenhuma fatura mais antiga do que seis meses atrás; que, portanto, não podia averiguar nada do que eu dizia; que eu tinha que ter reclamado quando veio a primeira cobrança (!); e que agora não estornariam mais nada. Olhe como terminou o diálogo:

— Quer dizer, o que você está me dizendo, bàsicamente, é que eu perdi? ‘Cê tá me dando um perdeu, é isso?

— … Sim, é isso.

— Caraca. Que belo atendimento esse, hein!

(tu tu tu…)

Claro que fiquei uma fera com a atitude sonsa e mais a desligada na cara. A pressão subiu, meus olhos ficaram verdes, depois minha pele ficou verde, comecei a ficar musculoso, minha camisa rasgou, e meu calção roxo foi dilatando junto comigo.

Fiquei perdido, irracional, ia dar-me por vencido. Senti-me sòzinho diante de uma força invencível. Mas não é essa minha ética. Aprendi com o Capetão Kirk a nunca desistir, nem em face da própria morte: enquanto eu estiver vivo, há esperança de solução. Ou, como disse outro Capitão, Quincy Taggart, “never give up – never surrender”.

No segundo telefonema, comecei a explicar o problema e o atendente desligou na minha cara antes que eu terminasse. Nem fiquei com tanta raiva, porque, com o tempo, essas centrais de atendimento têm o dom de ir sugando sua energia vital. Você vai ficando fraco e cansado, e cai na poeira no meio da maratona. Os abutres vêm jantar em seu cadáver, os corvos comem seus olhos e a equipe do Grissom te encontra dias depois.

No terceiro telefonema, a moça teve mais paciência e disposição. Ouviu tudo, digitou, esperou enquanto eu ia buscar documentos para lhe dizer datas. Mas, afinal, também “não pôde fazer nada”, por supostamente não ter o poder de corrigir falhas cometidas mais de noventa dias antes. Meu “prazo” começara a contar em 21/07, quando fôra feito o primeiro lançamento errado, de modo que, faça a conta, eu devia ter telefonado até 18/10.

Na Faculdade de Direito, a gente aprende que “o direito não socorre os que dormem”, ou seja, você tem que se manter ligado e atuante para não perder o que é seu. Sempre achei esse princípio uma bruta duma sacanagem, porque equivale a dizer que tudo que é meu está à disposição dos outros para virem pegar, em um total desequilíbrio onde não me dão nada em troca, e, se eu quiser que ainda seja meu, tenho que lutar! Quer dizer, eu trabalho de escravo para dar aos outros o que tenho, ou, no mínimo, saio no prejuízo.

Entendo a necessidade de uma tal regra, que é o fundamento da prescrição e serve para dar segurança às situações consolidadas no tempo. O lance é que o prazo que a operadora admitiu para meu direito foi exíguo! E mais: ela não foi clara nem unívoca quando manteve a data de 21/07 nos lançamentos das prestações seguintes; ou seja, eu não tinha razão para afirmar, com certeza, que meu direito estivesse sendo violado.

De acordo com a operadora do cartão, eu ainda tinha uma solução: reclamar junto à editora, que havia recebido a mais. Pingue-pongue, alguém? Aliás, não é pingue-pongue não: lembra uma brincadeira, sem graça pra caramba, que os garotos mais velhos faziam com você na escola, chamada “bobinho”? Pois é. Bobinho. É disso que Duetto e operadora estão brincando comigo.

Olha só. Não sei quem foi que errou. Tanto pode ter sido a editora, informando erradamente que ainda faltavam cinco parcelas, como pode ter sido a operadora do cartão. Mas não me interessa; não quero identificar culpados, que isso não é incumbência nem problema meu; quero é meu dinheiro. De todo modo, o primeiro telefonema à editora, que não tem zero-oitocentos, custou-me cerca de nove reais. A operadora do cartão também não tem zero-oitocentos, de modo que esses três telefonemas também não foram de graça. Se eu telefonar de novo à Duetto, vou acabar tendo gasto no mínimo R$ 18 (e provàvelmente mais) para reaver R$ 19,83. Òbviamente, isso não é sensato do ponto de vista econômico.

Por isso não vou ligar à Duetto não. Tentei dar uma de esperto aceitando o parcelamento, sem perceber que estava caindo numa armadilha, e já perdi R$ 19,83 mais os telefonemas (que, juntos, devem ter superado R$ 9) e muito tempo e aborrecimento. Qualquer coisa que eu faça vai aumentar meu prejuízo. O que tenho que fazer agora é limitar minhas perdas, igual aos apostadores da bolsa de valores que sofrem prejuízo e têm que se livrar das ações podres antes que o preço caia mais ainda.

“Por que você não entra na Justiça?” Por causa de trinta reais? Fala sério. Eu já soube de juiz que se recusou a deferir o pedido porque o valor era irrisório, confirmando que as empresas podem tomar quanto quiserem dos clientes contanto que seja “irrisório” (irrisório pro tal juiz, que certamente ganhava vinte vezes o salário líquido do infeliz que confiou no sistema). Mesmo que meu pedido fosse deferido, olha quanto tempo e dinheiro eu ainda gastaria em transporte até o fórum, xerox dos documentos, impressão da petição inicial… Tudo isso parece pouco, mas já supera o valor a pedir. Um táxi até o fórum pode custar R$ 15. E isso se fosse pleitear sem advogado, o que me faria consumir ainda MAIS tempo. Com advogado, ainda teria que pagar os honorários, sem ser ressarcido pela parte contrária.

Então, como sempre, o sistema venceu. Especìficamente, as empresas venceram. Elas fazem muito isso, né: boa parte do lucro vem desses “errinhos”, onde vão comendo alguns reais de cada vez, às vezes centavos, às vezes dezenas de reais… No somatório, é um bocado de dinheiro. Elas sabem que a gente não vai reagir, sabem que nós fazemos a conta e percebemos que a tentativa de ressarcimento dá mais prejuízo. Para elas é um excelente negócio. Sabem que já começam ganhando e contam com isso.

Quanto a mim, já tive outras dificuldades com a Duetto. Primeiro, comuniquei mudança de endereço por correio eletrônico. Aí, pararam de entregar a revista. Depois de três meses sem receber, fui averiguar por quê. É que tinham o endereço errado. PQP! Eu ESCREVI o endereço; em princípio, estava certo, não? Presume-se que eu saiba meu endereço! Então, era só copiar-colar! Mas não. Quando não é pra copiar-colar, esse povo copia-e-cola, sem olhar o que está fazendo; mas, quando É pra copiar-colar, não fazem isso — e erram.

Depois, comprei deles um DVD, que só chegou depois que telefonei, quase um mês depois de pagar, dizendo que não queria só pagar por ele; queria recebê-lo também. Foi só aí que enviaram.

Agora me acontece essa que narrei: pague catorze edições e leve doze. Então agora chega: não hei de renovar a assinatura. Depois que esta expirar em abril, cada vez que sair SciAm BR, vou ficar sabendo pela banca. Se não me interessar, não compro — diferente do que acontece na assinatura, quando a editora já recebe o pagamento antes, mesmo que a edição do mês não venha a me interessar. Não dá, é muito desgastante isso. A revista pode ser boa, mas o preço que pago pela assinatura está muito alto.

Agora levanta a mão quem acha que é bem-feito. o/

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Os números de 2010

ABRE ASPAS

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog é fantástico!

Números apetitosos

Featured image

Um duende das estatísticas pintou esta imagem abstracta, com base nos seus dados.

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 4,200 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 10 747s cheios.

Em 2010, escreveu 64 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 302 artigos. Fez upload de 13 imagens, ocupando um total de 2mb. Isso equivale a cerca de uma imagem por mês.

O seu dia mais activo do ano foi 3 de Abril com 39 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Acidente da Fumaça em Lages.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram leilakalomi.wordpress.com, trekbrasilis.org, search.conduit.com, google.com.br e sratoz.blogspot.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por acianotico, escravos ladinos e escravos boçais, posters sratoz wordpress, acianótico e boçais e ladinos

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Acidente da Fumaça em Lages Abril, 2010

2

Boçais e ladinos Março, 2010

3

Pessoa jurídica comete estelionato? Fevereiro, 2010

4

Tragédias cariocas e proibição do fanque Setembro, 2009

5

Sobre a experiência de ir assistir a Homem de Ferro 2 Maio, 2010
3 comentários

FECHA ASPAS

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Vivendo de imagens

Aí você recebe uma daquelas propagandas de lançamento imobiliário. Como o prédio ainda não existe, eles publicam fotos virtuais, quer dizer, uma espécie de previsão de como vai ser.

Só que, é claro, as “fotos” são computação gráfica. Então, atrás do prédio, onde tem um morro, aparece a mata, ou o céu. Na rua, aparecem árvores onde não tem árvore nenhuma. No condomínio, há sempre palmeiras, nenhuma peça de roupa pendurada, nenhum brinquedo de criança esquecido na varanda…

O prospecto também mostra os ambientes interiores. Aparece a piscina: com iluminação noturna indireta, águas translúcidas de um azul safíreo (essa palavra existe?), cadeiras perfeitamente alinhadas e ninguém por perto. Na vida real, não vai ser nada disso, né. A água vai ser turva, talvez mal dê para ver o fundo, e vai ter um bocado de sujeira em volta, trazida pelo vento e pelos usuários. Vamos ver um bocado de limo e encardido entre os azulejos, a madeira vai ficar toda manchada. Então, você imagina aquela área de recreação toda arrumadinha, com todas aquelas luzes; a “cave” (que nome mais fresco para “sala de jantar”) com uma grande TV de LCD, garrafas de vinho — completamente irreal. Sempre haverá desgaste, sujeira, muita poeira depositada, desarrumação… Você imagina o cenário tal como no prospecto, com as luzes permanentemente acesas e uma certa tranquilidade no ar… Tudo falso, né. Porque, vem cá, a construtora vai pôr a TV de LCD lá? Não vai, né. Nem o vinho. Alguém vai ter que comprar. E, quando a LCD der defeito, quem é que vai consertar? Vai ficar lá, quebrado. Até porque, sabemos, aquilo que é de todos acaba sendo tratado como se não fosse de ninguém; sempre vai quebrar relativamente cedo, porque esses condôminos (ou, mais ainda, seus convidados) às vezes se comportam feito animais. Feito quem realmente são.

Aí o vídeo mostra uma “brinquedoteca”, uma lanhouse comunitária, salões de festas, “espaço teen“… Tudo muito bonito. Aí você compra, achando que vai morar num resort que já vem com tudo, praticamente uma gigantesca área de lazer, um transatlântico estacionário… Vem cá, quem é que vai ter que pagar para isso tudo ficar funcionando? Hm? E quer apostar quanto como o “espaço teen” logo vai estar com tudo quebrado, que só vai ter uma raquete (a outra vai sumir misteriosamente)… E é você quem vai ter que comprar a mesa de pingue-pongue, véi.

Aliás, uma coisa me chamou atenção. As construtoras podem dizer que estão promovendo a convivência, as pessoas se encontrando fora de suas casas, no espaço comunitário, espaço de festa de adulto, espaço de jogar poker buraco, espaço zen… É, porque dentro de casa não tem espaço, né. Nem vi o vídeo todo: ele mostra a planta dos apartamentos? Você vive fora de casa, faz festa fora de casa, criança brinca fora de casa, tudo isso porque não tem espaço DENTRO de casa. Então, você vive do lado de fora do seu apartamento, você vai usar o computador da lanhouse (valendo quanto como vai estar cheio de vírus, sem espaço em disco, cheio de pornografia, isso se tiver computador, se não for só um monte de gabinetes quebrados, de monitores quebrados, ou, então, nem isso; e ninguém vai configurar nada na instalação, vem cheio de aplicativos inúteis que o filho do vizinho é que instalou, todos aqueles aplicativos de monitoramento que ninguém nem sabe para que é que servem), você vai assistir a televisão na lanhouse (aliás, a TV só vai ficar mostrando Globo ou então Record — sim, porque quem é que vai pagar TV a cabo do condomínio? Aliás, mesmo com TV a cabo, o povo quer ver mesmo é Globo, é Record, é Band. E imagina a disputa pela escolha do que assistir, e imagina o barulho que vai ser dentro dessa lanhouse, do jeito que os jovens são, cheios de hormônios violentos)… Aliás você reparou quantas LCD esse decorador imaginou no condomínio? Quero só ver quem é que vai pagar isso. E, na “brinquedoteca”, não dou uma semana para aparecerem diversos brinquedos de plástico quebrados, boneca sem cabeça, Playmobil sem braço, carrinho sem roda, peças de quebra-cabeça de plástico espalhadas e extraviadas, bola murcha no canto. Parece que ninguém esteve na vida real, ninguém nunca viu uma sala que criança usa de verdade.

Em outra nota não relacionada, a Piraquê acaba de lançar mais um biscoito. Como sempre que a Piraquê lança um biscoito, este veio ao mundo sem alarde, sem propaganda. Com seu público cativo do Estado do Rio (existe Piraquê no resto do Brasil? Ao que eu saiba, não, né), a Piraquê nunca precisou de propaganda. Feito Monteiro Lobato com a campanha para vender seus livros (punha livro à venda na quitanda, na padaria, na farmácia), a Piraquê não põe seus biscoitos só em supermercado: você encontra biscoito Piraquê em qualquer boteco buteco, lanchonete, loja de conveniência.

Pois agora a Piraquê acabou de lançar um cream cracker amanteigado. Sabe o cream cracker da Piraquê? Aquele da embalagem vermelha-e-branca? Então. Tem os outros, né: o integral (embalagem branca), o de gergelim (embalagem verde), pois agora tem um amanteigado.

Eu detesto biscoito amanteigado. Só como casadinho por causa da goiabada; a manteiga é o preço que eu pago para comer aquela goiabada. Detesto gosto de manteiga. Não ponho manteiga na pipoca, òbviamente não ponho manteiga no pão, tenho nojo de manteiga em biscoito, no macarrão, onde quer que seja. Estranhamente, eu admito manteiga na torrada, vê se pode. Pois agora a Piraquê me lança um biscoito ostensivamente amanteigado.

Pode não ser. A embalagem bem que mostra uma colher pegando manteiga, mas pode ser só encenação. Pode ter só o gosto artificial da manteiga, e o biscoito ser até light. Mas, se for amanteigado mesmo, tenho tremores só de pensar: aquela gordura que vai ficar na mão, aquele cheiro de manteiga.

Mas eu gosto da Piraquê. Pode parecer que estou fazendo propaganda para a Piraquê, mas não estou não: para quem não é do Rio, não adianta nada ler isto aqui; para quem é, não faz diferença, porque já come biscoito Piraquê. No dia em que a fábrica da Piraquê pegar fogo, igual à da Mabel, não pense a Bauducco ou a Tostines que vai conseguir penetrar no mercado, não. Não pense a Triunfo ou a Nestlé São Luiz que vai conseguir tomar a fatia de mercado. No Rio de Janeiro, biscoito maizena, cream cracker ou goiabinha é sempre da Piraquê. Vai ser um chororô que vocês vão ver só, vai haver uma fileira de viúvas da Piraquê para chorar o morto. Queira o Grande Monstro de Espaguete Voador que isso nunca aconteça.

Vocês sabem onde é a fábrica da Piraquê? Pois fica em Turiaçu, perto de Madureira, no Rio de Janeiro. Vai lá no Google Earth e procura: 22°51’51”S 43°20’30”W.

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Apidêite: estive em Natal, RN, em outubro de 2011. Para meu espanto, encontrei vários biscoitos Piraquê nas prateleiras do supermercado! Antigamente (e nem faz tanto tempo assim), Piraquê era só no Estado do Rio, mas agora, pelo visto, tem no Brasil inteiro. Que alegria! Dia de júbilo e regozijo!

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Um falso sinal de socorro, como tantos vemos nos episódios

É tanto spam maldito vendendo remédio, vendendo alongamento de membro, prometendo dinheiro nigeriano, prometendo dinheiro fácil para trabalho em casa, anunciando promoção, vendendo diploma… Apago todos sem olhar.

Só que os argutos olhos atozianos sempre perpassam o conteúdo de qualquer texto antes de lhe dar destino. [Pausa: essa última frase tem métrica?] Além disso, os argutos olhos atozianos alimentam um aplicativo de reconhecimento de expressões que passa correndo pelo texto sem realmente decifrá-lo, uma espécie de radar de busca que, ao detectar expressão familiar, aciona uma segunda leitura, mais precisa. Daquele tipo: “peraí, eu li isso mesmo?”

Assim foi que um dos spams malditos que recebi identificava seu emissor como Jonathan Archer.

Uquê. O capitão da NX-01! Jonathan Archer escreveu para mim! Precisa da minha ajuda em algum planeta? Precisa que eu conserte o inovador motor de dobra 5?

“Oquei,” pensei eu, dando override após a segunda leitura, “boa tentativa”. Durou menos de um segundo. E apaguei o spam maldito.

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A quem tem pouco conteúdo só resta comentar no saite alheio

Agora há pouco, visitei o saite de Jana Lauxen (pseudônimo?) e me interessei pelo livro anunciado ali. Então, escrevi-lhe este email. Como tem um poquito de conteúdo original, resolvi dividi-lo com você.

(…) Li parte do seu belogue. Há anos eu defendo seus argumentos contra o voto nulo, inclusive seu raciocínio é o mesmo meu. Sobre ser a única escolha que ainda há, sobre escolher o menos ruim, sobre escolha ruim ser melhor do que nenhuma. Em síntese eu digo aos outros: é minha vida, não vou deixar que os eleitores de cabresto, os analfabetos, os iludidos, os deslumbrados e os de má fé a decidam por mim. Cada voto contrário ao meu é um voto contrário a minha vontade, a minha vida. Então tenho que lutar contra e votar sim.

Idem seu texto sobre você colher o que plantou [embora eu discorde fundamentalmente do mau uso da Terceira Lei de Newton para exemplo, porque ela não tem nada a ver com isso]. Bàsicamente é algo em que não paro de pensar desde 1989, quando li Ilusões, de Richard Bach, que me mostrou que TUDO que acontece na minha vida é decorrência de minhas decisões, e minhas apenas. Inúmeros desdobramentos dessa ideia, inclusive o seu — afinal, são 21 anos pensando nisso, não é tudo repetição do mesmo não. Adendo: Ilusões também me trouxe as ideias de que é fìsicamente impossível forçar uma pessoa a fazer alguma coisa e de que é impossível eu fazer algo que não queira.

Idem seu texto sobre censura. Penso muito em censura. Penso muito em como a imprensa manipula a ideia de censura em interesse próprio, em como diz que tem quando não tem e em como diz que não tem quando tem.

Juízo e bom trabalho!

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Uma coisa que me irrita

… no ambiente de trabalho: de vez em quando, alguém é cobrado. “Já fez tal coisa?” E responde que não: “estou esperando que Fulano faça tal outra coisa”.

Muito cômodo, não é mesmo? O carinha não faz o que lhe cabe, nem o serviço anda, porque ele está dependendo da atuação de outra pessoa, sobre a qual não tem nenhum poder de exigir resultado.

Fico p$%o da vida com isso. É uma intencional falta de iniciativa, pràticamente uma sabotagem. O sujeito simplesmente senta em cima da tarefa, quase que esquece o assunto até ser novamente provocado, ou melhor, tangido sob vara. Pombas, sempre tem outro jeito! Sempre dá pra telefonar perguntando se o tal Fulano precisa de ajuda, ir fazendo outra coisa paralela enquanto aquela etapa não sai… (caminho crítico, alguém?). Aliás, em geral, quando a resposta de Fulano está demorando muito, pode ir atrás que você vai descobrir que Fulano nem estava sabendo que a bola estava na quadra dele. Às vezes, a mensagem nem chegou a ele; outras vezes, ele não entendeu a mensagem… Cabe a você, interessado (quer dizer: supostamente interessado, porque, quando o que se tem é preguiça, é óbvio que não há ninguém interessado), mas eu dizia, cabe ao interessado procurar Fulano, ir dando andamento ao processo, e tudo mais.

Meu pai costuma dizer, com razão, que quem “faz a sua parte” na verdade não faz. Porque só acaba quando termina: enquanto ainda houver alguma coisa para fazer, qualquer coisa, sua atuação ainda é necessária. Mesmo que a próxima etapa não seja sua, mesmo que ela dependa de outra pessoa em quem você não manda, mesmo que supostamente a “sua parte” já tenha acabado — mesmo em todas essas circunstâncias, se o serviço ainda não estiver concluído, então você ainda tem que atuar. Se o final é algo que você tem que atingir, então, enquanto você não chegou a ele, é você quem tem que atuar. Se é você quem vai ter que apresentar resultado no final, não vai adiantar dizer que “fez a sua parte” ou que “foi Fulano quem atrasou”: foi você quem não entregou resultado, e Fulano não vai ser cobrado nem tem interesse nele. A “sua parte” não é aquele pedacinho onde você consegue atuar sòzinho ou fàcilmente; ela é TUDO.

Em suma: tem que haver menos princípio da inércia e mais Geraldo Vandré.

P.S. É claro que, na época da avaliação de equipe e da concessão de aumentos remuneratórios, os preguiçosos vão reclamar que não foram contemplados, que “trabalharam muito” e não estão sendo reconhecidos… Só que “trabalhar muito”, para mim, não é ficar sentado à mesa oito horas por dia, jogando Paciência no computador refazendo tarefas porque ficaram mal feitas na primeira vez. Para mim, “trabalhar muito” é entregar os resultados esperados ou mais.

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Quem cair nesta aqui é porque MERECE

Sabe o Nigerian scam? Pois então. Muita gente já caiu, né. Muita gente. Nesta era de absoluto analfabetismo digital, muita gente continua grosseiramente pedestre em sutileza e malícia, e ainda achando que é malandro. Então, o povo continua caindo no Nigerian scam.

O golpe é simplíssimo e meu sobrinho de quatro anos já não cai nele. Funciona assim: você recebe um email em um inglês tosco, supermal escrito, de uma pessoa que começa já sabendo que o email é inesperado para você. Prossegue explicando que encontrou você após uma desesperada busca por alguém honesto e confiável e que você tem o perfil desejado. Pede completo sigilo e conta que, em seu país da África ocidental (é sempre por lá: às vezes Nigéria, às vezes Burkina Faso, às vezes Gana… o país varia), determinada pessoa caiu vítima da guerra civil (ou de bandidos, ou de acidente de avião – a circunstância é sempre trágica). Que essa vítima tinha acumulado uma fortuna gigantesca, sempre algo acima de alguns milhões de dólares. Que ninguém apareceu para reclamar o dinheiro, que o dinheiro está seguro mas sem dono em algum banco. Que essa pessoa é gerente do banco (ou de outro modo tem acesso ao dinheiro), mas não consegue sacar o dinheiro sem algumas mirabolâncias e precisa da ajuda de alguém de fora.

É aí que você entra. O estranho oferece a você um percentual vultoso (algo entre 10 e 20%) para usar a SUA conta bancária para transitar o dinheiro para fora de seu país. Às vezes, vem a garantia de que a operação toda é perfeitamente legal, mas que a ditadura, se souber, vai matar ou confiscar ou algo otherwise bem ruim. Em geral, essa garantia não vem. Frequentemente, o que vem é uma história triste, onde o estranho alega ser filho do dono da grana, às vezes até príncipe real, e que é vítima da guerra civil, já tendo perdido a família.

Enfim, a história é ótima para convencer quem já quer ser convencido mesmo, quem já tem a moral fraca e está só atrás de uma desculpa para, sendo pego com a mão no pote, poder dizer que também foi enganado. É óbvio que seria só uma desculpa, porque, conforme também já está óbvio para o gentil Leitor, o golpe está apelando para o senso de malandragem de quem só quer sidarbem. O receptor do email sabe muito bem, e percebe muito bem, que, se o dinheiro existir mesmo, só pode ter origem ilegal, e que está sendo transferido a suas mãos de maneira mais ilegal ainda.

Mas é óbvio que não existe dinheiro. O email termina pedindo seus detalhes (endereço, telefone, conta de banco) e dizendo que revelará mais após sua resposta. Insiste no pedido de sigilo.

O que ele não diz é que, quando você manifestar interesse, ele vai pedir uma grana adiantada para molhar a mão das autoridades, depois mais grana para pagar uns tributos de última hora, depois mais grana para facilitar o escoamento através do banco, depois mais grana… Captou? Como você vai receber mais de um milhão de dólares, não se importa em adiantar alguns milhares para as despesas, não é verdade? E assim a sua conta bancária vai sendo depletada, para usar uma expressão bem apropriada aqui.

Pois é. Já recebi diversas variações do Nigerian scam, cada qual mais óbvia do que a outra. Então, foi dando muita risada que acabei de receber este email:

UNITED NATIONS COMPENSATION COMMISSION, IN AFFILIATION WITH THE KOELNER
BANK DE

Our Ref: WB/NF/UNCC/KB027

ATTN:Sir/Madam,

How are you today? Hope all is well with you and family?, You may not
understand why this mail came to you.

We have been having a meeting for the passed 7 months which ended 2 days
ago with the secretary to the UNITED NATIONS. This email is to all the
people that have been scammed in any part of the world.

The UNITED NATIONS have agreed to compensate them with the sum of
US$500,000.00.
.
This includes every foreign contractors that may have not received their
contract sum, and people that have had an unfinished transaction or
international businesses that failed due to Government problems etc.

We found your name in our list and that is why we are contacting you, This
have been agreed upon and have been signed Therefore, we are happy to
inform you that an arrangement has perfectly been concluded to effect your
payment as soon as possible in our bid to be transparent.

However, it is our pleasure to inform you that your ATM Card Number; 5490
9957 6302 4525 has been approved and upgraded in your favor. Meanwhile,
your Secret Pin Number will be available as soon as you confirm to us the
receipt of your ATM CARD.

The ATM Card Value is $500,000.00 USD Only. You are advised that a maximum
withdrawal value of US$10,000.00 is permitted daily.

And we are duly inter-switched and you can make withdrawal in any location
of the ATM Center of your choice/nearest to you any where in the world.

We have also concluded delivery arrangement with our accredited courier
service Company to oversee the delivery of the ATM Card to you without any
further delay.

So you are hereby advice to forward to this office Director ATM SWIFT CARD
Department. Therefore, you should send him your full Name and Telephone
number/your correct mailing address where you want him to send the ATM to
you.

Contact Dr.Henry Cole, immediately for your ATM SWIFT CARD:

Person to Contact Dr.Henry Cole.

Email : dr.henrycole@mail.mn

Thanks and God bless you and your family.

Hoping to hear from you as soon as you receive your ATM Card.

Making the world a better place

Regards,

Mr. Ban Ki-moon.

Secretary General (UNITED NATIONS)

Viu só essa? É o metagolpe! É o golpe que consiste em dizer que vai indenizá-lo pelo golpe! “Ah, finalmente alguém se sensibilizou com minha perda! Alguém vai me indenizar! O maná vai cair do céu para mim!” Para esse imbecil incorrigível, que vai cair no golpe DE NOVO, não adianta nem dizer “não existe almoço de graça, ANIMAL!”

A perguntinha que fica é: se, lá no começo, ele dizia que tinha negociado com o secretário-geral da UN, como é que, no final, assina como o próprio?

EOF

Presidente Dilma ou Presidenta Dilma? A falsa dúvida

Joguei isto agora há pouco como comentário ao belogue http://www.tradutorprofissional.com e repito aqui.

Ó Danilo, eu sempre achei que "presidente" fosse particípio presente de "presidir". “Estrela cadente", porque cai; "tenente", porque tem (tem um lugar, detém um lugar, lieu-tenant) etc. Daí que "presidente" se torna comum de dois gêneros e admite artigo masculino ou feminino, sem se queixar. "A PresidentE Fulana".

Engraçado que, quando foi a Violeta Chamorro na Nicarágua ou aquelas outras moças no Chile e na Colômbia (era Colômbia ou Venezuela?), ninguém questionou; a imprensa só dizia "presidentE Fulana". Agora que é Dilma, surgiu uma enorme novidade! Óóóóóh!

Hipócritas todos.

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Os rótulos supersimplificadores

Hoje cedo, tou eu lá no elevador, aquele papo de vizinho só esperando a hora de chegar no térreo para não ter que ouvir mais besteira, e a vizinha me conta que, de acordo com o médico de seu genro, torcer o pé é pior do que quebrar. “É mesmo?”, pergunto, “por quê?” Ela me responde que não sabe, porque não perguntou. Aí eu digo, “por que não? Eu pergunto sempre, sabe por quê? Porque, em geral, depois vou acabar tendo que responder pela coisa, então é bom conhecer bem a ideia, antes de comprá-la”.

Aí ela me pergunta se eu sou advogado.

Ora, pombas, eu não sou minha profissão! Por incrível que pareça e a despeito do que falam de mim, eu sou (infelizmente) um ser humano, com toda uma formação, experiências, gostos diversos, já li sobre todo tipo de assunto, já viajei a alguns lugares, já vi vários filmes, li vários livros, e só trabalho durante dez das 24 horas do dia. O resto do tempo eu passo fazendo outras coisas. Sei fazer ovo frito, sei instalar um drive de CD com conector SATA, sei comandar rolamento num Cessna 172, e fico um tanto ofendido com essa abordagem minimalista e, principalmente, rotuladora: “você pensa assim, logo você é advogado”. “Você sabe que máquina de calcular também erra, logo você é engenheiro”. Essa última veio do professor de Contabilidade, que, aliás, não é contador e, portanto, devia saber como dói o rótulo.

Pois saiba a Dona Vizinha que eu comecei a pensar assim mais ou menos no tempo do pré-vestibular e que o que sedimentou esse pensamento foi o serviço militar, onde regularmente te chamam à responsabilidade, de modo que você logo aprende que devia ter feito várias perguntas antes de abraçar a missão porque, depois, quem vai ter que respondê-las é você. Não é à toa que, ao fim de uma instrução, o instrutor sempre pergunta, bem alto e demarcado, “Dúvi-DÁS?” e não há vergonha nenhuma em responder “Sim, SeNHOR!” Não é burrice, é prevenção e, acredite, isso não é mal visto. Porque, depois, já não é dúvida, é dívida. E pode ter certeza de que alguns superiores têm um desejo secreto de que nenhum subordinado queira ser aquela única voz a dizer “sim, senhor”, porque aí vão poder cair em cima depois, sabendo, de antemão, que a missão é muito mais difícil do que parece. Alguns, não todos.

Aliás, esta tem sido uma política de grande sucesso na minha vida e contribui, em muito, para reduzir minha responsabilidade sob a aparência de aumentá-la: sempre pergunto tudo que não entendi. Prefiro, sim, passar por burrão uma vez, ser aquele único cara que não entendeu. Porque a verdade é que tem muito mais gente que também não entendeu e que está morrendo de vergonha de perguntar; aliás, não sabe nem que pergunta fazer, porque entendeu ainda menos do que eu. Como diz meu pai: o sinal de inteligência não está tanto em responder certo quanto em perguntar certo. Só tem dúvida quem entendeu alguma coisa; quem não entendeu nada não tem nada a perguntar. Então, não vou ficar inerte feito os demais idiotas; como dizia Titio Roquete, “cobra que não se mexe não engole sapo”. Se eu pergunto, pelo menos eu saio dali sabendo alguma coisa; dos outros não sei.

Então, vou eventualmente passar por burrão uma vez (ou nem isso), mas vai ser a última vez, porque, daquele ponto em diante, serei aquele cara que sabe e nunca mais perguntarei aquilo. Essencialmente, mudarei de lado. Desse jeito é que pergunto tudo: pergunto ao médico, porque preciso saber o que fiz que me causou o problema; pergunto à chefe, porque depois vou ter que trazer resultados, então preciso entender bem o que ela espera de mim; pergunto ao professor, porque vou fazer prova e preciso saber como ele pensa; pergunto ao vendedor, porque quem vai ficar com um produto que afinal não me atende sou eu.

É claro que, às vezes, minha pergunta, feita com toda a boa fé (juro!), pode acabar, sem querer, desmascarando a ignorância de quem estava lá bostejando na esperança de ninguém perceber. Aí eu pergunto e o cara se irrita. Felizmente, com o correr dos anos fui aprendendo a detectar, bem cedo, quando é que o falsário não sabe do que está falando, e aí nem perguntar nada, ou só perguntar uma vez para já entender o que está acontecendo.

E isso mostra que sou advogado? Se mostra, então quem não entendeu nada fui eu. Há quem me diga que advogado é assim mesmo, questionador, sempre se insurgindo contra as regras, sempre combativo. Ora, mas eu só pergunto! Raramente começo ou sequer termino dizendo que “está errado”, raramente digo que não vou cumprir a regra. Ao contrário: no meu tempo de vida já encontrei vários advogados idiotas, muitos dos quais se limitam ao positivismo míope de que “está escrito, então tem que cumprir”, como se a regra fosse uma espécie de inevitabilidade sagrada, escrita na pedra, a ser fiscalizada por um ser onisciente que vai derramar enxofre e cinzas sobre quem for pego mijando fora do penico. Aliás, mais comuns são aqueles que pensam que as leis se cumprem sòzinhas, como se não fosse necessária uma vontade e uma atuação humanas para as regras se materializarem. O cara acha que, só porque alguém, sei lá, cometeu alguma improbidade funcional, automàticamente vai estar demitido do serviço público no dia seguinte, por milagre, ignorando o fato de que ainda é necessário (1) ser pego, (2) haver provas, (3) seguir-se um processo administrativo etc. etc. Ou, então, assim: “põe aí uma cláusula de que eles prometem que, se houver desconto, vão ter que devolver o dinheiro”. “Tá. Mas, e se não devolverem? As pessoas fazem o que querem mesmo, você sabe. E aí como faremos para cobrarmos? Aliás, como faremos para sequer descobrirmos que descumpriram?”.” “Ah, não, mas aí vão estar descumprindo, e aí não pode! Então, põe aí a cláusula, que vai dar tudo certo”, como se a outra parte morresse de medo de descumprir o contrato por, com isso, incorrer na ira do Olimpo. Como se, a partir daí, o cara, que não ia pagar, passasse a ter a iniciativa de pagar, só porque eu disse que é feio se omitir, mesmo sabendo que eu não tenho como fiscalizá-lo.

Fico revoltado com isso. Eu construo minha personalidade a duras penas, sendo elogiado e censurado, pagando em dinheiro ou em credibilidade, tomando decisões difíceis, observando os resultados, tentando fazer melhor na vez seguinte, incorporando a experiência – e Dona Vizinha simplifica tudo sob o abrangente rótulo de que é porque sou advogado. Eu não sou o que eu faço! Eu sou eu, eu sou muito mais do que minha carteira da Ordem!

Quinem a velha a quem ofereci lugar no ônibus. Na época, eu estava no Exército, mas, naquele dia, estava sem farda. “Você é militar, né?” “Sim, senhora, como percebeu?” “É que foi tão educado…” Ah, p#$%a, TNC a velha! Meus pais não me deram educação, não? Teve que ser o Exército? If anything, o Exército me ensinou que as praças deveriam ser tratadas como uma espécie de sub-estrato que não merece respeito, contrariando tudo que aprendi em casa sobre profissionalismo e urbanidade. Mais de um soldado me disse ter ficado espantado que eu os tratasse feito gente. Voticontar, não é fácil nem intuitivo ter que tratar por “você” um sargento com o dobro da minha idade.

Mas, enfim, tudo isso são apenas rabugices, não é verdade? Eu devo ser é um covarde, que vim resmungar aqui em vez de espinafrar Dona Vizinha.

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DC annotations, January 1994

Superman: the Man of Steel #29 (Jan 1994), page 15 (as translated in Brazil in Super-Homem no. 128), panel 1, shows a lighted panel with the name “Mignola” on it. This is certainly a reference to penciller Mike Mignola, who had worked on Superman before.

EOF

Quem copia-e-cola tem consciência cívica?

Vários dias atrás, saiu no El País que houvera um incêndio em um depósito na Nova Zelândia. Em decorrência do sinistro, havia sido perdido o equipamento destinado à filmagem de O Hobbit — que é aquela prequel do Senhor dos Anéis, tão aguardada pelos fãs dos livros. Uma pena.

Poucos dias depois disso, saiu nO Globo On que a Warner havia autorizado a execução do filme. Só. Meu primeiro pensamento foi que a Warner estava atrasada, “será que não sabem do incêndio?” Meu segundo pensamento foi que, se o jornalista dO Globo On tivesse tido alguma proatividade (é junto ou separado?) e querido agregar valorTM à reportagem, teria ressalvado o incêndio e comentado que a filmagem não fosse (“fosse” do verbo “ir”, acerte aí a gramática) … que não fosse acontecer tão cedo. Mas assim não fez. Não fez porque, tal como tenho constatado, cada vez mais este é um País de repassadores, de gente que, quando pergunto detalhes do que me entregam, responde com a clássica frase “aaah, não sei, estou só repassando”. São situações onde o intermediário não contribui; ao contrário, só retarda o processo. É só mais um consumindo recursos, então a vontade que me dá é de suprimi-lo, de tirar uma etapa que não acrescenta nada, de enxugar o procedimento, de ir direto na fonte onde se originou a informação que está sendo repassada.

E meu ódio cresce, sabe? Porque eu não simplesmente-repasso nada. Se me vejo intermediário em algum processo, logo crio meu próprio filtro, tento eu mesmo entender antes de mandar adiante, torno-me substituto da etapa anterior, não passo adiante enquanto não vier certo a mim. Assim no ambiente de trabalho, assim em tudo.

Eu não ia escrever sobre nada disso, mas, no domingo, 10/10/2010, deparei-me com notícia, aliás no mesmo Globo On, sobre evento de aviação em Santa Maria (cidade que abriga uma base da FAB de onde decolam AMX). Um dos parágrafos terminava assim:

Trata-se do maior evento aeronáutico da Região Sul do Brasil, que tem por objetivo incentivar a mentalidade aeronáutica e despertar a consciência cívica para o papel da Força Aérea Brasileira.

Mais adiante,

Durante o show aéreo, o público tem a oportunidade de conhecer as aeronaves militares e os demais equipamentos aéreos disponíveis, além do adestramento operacional do efetivo.

Na verdade, o que primeiro me chamou atenção foi esse “adestramento operacional do efetivo”. Esse linguajar lhe parece estranho? No mínimo incomum, não? Pois é. A mim não, porque o conheço bem. Essa forma de expressão é típica de nossos militares. Não gosto dela: é artificial, veiculando uma erudição que em geral não está presente. Mas isso não importa agora. O que importa é que jornalista não escreve assim; militar é que escreve. Outros exemplos são as expressões “tem por objetivo” (que militar sempre usa na abertura de qualquer texto sobre algum evento, como se fosse uma locução verbal), “mentalidade aeronáutica” e “consciência cívica”. Tenha certeza de que, toda vez que militar faz uma ACISO (ação cívico-social), vão aparecer essas palavras. A exposição é gratuita, mas tem sempre o propósito de aproximar o público civil (e não vejo problema nenhum nisso). Então, no contexto, “mentalidade aeronáutica” será aquele ânimo, incutido no jovem, de ele se manter pensando nas coisas da aviação militar, para mais tarde ingressar nos quadros da Força. Já “consciência cívica” é outra expressão-chave, de significado meio difuso, mas sempre ligado àquele positivismo nacionalista com o qual o indivíduo se sente, de algum modo, ligado a uma Pátria, cheio de deveres. Militares usam muito a palavra “cívica” para cerimônias que eles executam mas às quais o público civil também comparece. Tudo muito bonito, mas eu como meu chapéu se o jornalista tiver concebido esses termos ele mesmo. E olha que nem tenho um chapéu.

Você já entendeu o que houve, né? Essa é mais uma ocorrência do clássico copia-e-cola. Quando copiei o texto para vir comentá-lo aqui, a página dO Globo On mandou o popup de sempre: “é proibido copiar este texto para fins comerciais, senão você vai ser processado, preso e chicoteado” etc. e tal. Só que isso foi exatamente o que fizeram com o press release da Força Aérea! ObÒviamente, o estagiário (sempre ele, não é verdade?) …o estagiário deu um básico copia-e-cola no texto da FAB. Provàvelmente nem sabe o que é adestramento nem o que é efetivo.

Em tempo: no contexto, “efetivo” é o pessoal da Força Aérea. O evento serviria para demonstrar o quanto estivessem bem treinados.

EOF

De leis e salsichas

O Código de Processo Civil, artigos 267 e 269, diferencia as sentenças judiciais em dois tipos: terminativas (art 267) e definitivas (art 269). Mediante uma sentença terminativa, o juiz decide que o caso não pode ser julgado por alguma de diversas razões: ou porque o processo é repetição de outro igual, que já está tramitando ou até já foi decidido (é o que se chama, respectivamente, litispendência e coisa julgada), ou porque é juridicamente impossível atender ao pedido (p.ex. se o pedido é de que o juiz condene o réu a entregar uma parte de seu corpo), ou porque o autor (a pessoa que iniciou o processo) desistiu do pedido, ou por qualquer uma de diversas outras razões mencionadas pelo mesmo artigo.

Já em uma sentença definitiva, diz-se que o juiz resolve o mérito da ação, ou seja, resolve-se a questão. Em geral, o juiz decide (“julga”) o mérito, mas há casos onde o mérito se resolve sem que o juiz decida. Por exemplo: autor e réu entram em um acordo, que é homologado (ou seja, o juiz verifica que o acordo não contraria a lei, mas não se ocupa mais de ver quem tinha razão antes dele). Ocorre outro exemplo de resolução sem julgamento do mérito quando o juiz declara que o direito do autor, se existia, está prescrito (ou seja, tanto tempo já se passou que, por lei, não pode mais ser cobrado). Também neste caso, o juiz não precisa verificar se o direito existia ou não.

A diferença não é meramente acadêmica. No caso das sentenças definitivas, se não houver recurso, o que vai ficar estabelecido será o que constar da sentença, que o réu vai ter que cumprir. No caso das terminativas, não há nada a ser cumprido e, em alguns casos, o autor pode propor novamente a mesma ação, já que a questão ainda não ficou resolvida. Também são diferentes os rumos que o processo pode tomar dependendo de a sentença ter sido de um tipo ou do outro.

Até 2005, os artigos 267 e 269 tinham a seguinte redação:

Art. 267. Extingue-se o processo, sem julgamento do mérito:

(seguem-se as hipóteses)

Art. 269. Extingue-se o processo com julgamento de mérito:

(idem)

Conforme se vê do que eu disse acima, a palavra “julgamento” não era apropriada, porque havia casos onde havia resolução do mérito sem que houvesse seu julgamento.

Então, em 22/12/2005, foi sancionada a lei 11.232, que, alterando diversas passagens do Código, deu a esses dois artigos suas formas atuais:

Art. 267. Extingue-se o processo, sem resolução de mérito: (…)

Art. 269. Haverá resolução de mérito: (…)

A redação atual parece-me adequada. Mesmo assim, desde que tive meu primeiro contato com ela, fiquei curioso: após 32 anos de vigência do CPC, quais teriam sido as razões do legislador para adequar o texto? Será que algum deputado se deu conta da impropriedade da redação original e propôs a alteração? Será que algum professor de Direito processual integrou a comissão que redigiu o anteprojeto da lei 11.232?

Então, na noite de 3 de outubro, enquanto o Brasil inteiro acompanhava ansioso a consumação da catástrofe apuração dos votos da eleição, eu gastava meu tempo de modo igualmente inútil porém mais divertido, investigando, nos saites do Congresso Nacional, a tramitação do projeto que se tornaria a lei 11.232. Lá, normalmente, você encontra muito do que aconteceu na evolução dos projetos de lei: por onde passaram, quais comissões examinaram, justificativas e conteúdo das emendas, conteúdo dos pareceres e outras perdas de tempo.

Tudo começou com um anteprojeto de lei apresentado ao ministro da justiça. Esse anteprojeto foi acompanhado pela exposição de motivos EM no. 00034–MJ, que apresentava as razões que o justificavam. O texto desse anteprojeto não alterava os artigos 267 e 269 do Código, nem a Exposição de Motivos tocava no assunto deles.

Então, o anteprojeto chegou ao presidente da república. Com a palavra, a Constituição da República:

Art. 64. A discussão e votação dos projetos de lei de iniciativa do Presidente da República, (…) terão início na Câmara dos Deputados.

Portanto, na sequência, o presidente encaminhou o anteprojeto à Câmara dos Deputados, que o numerou como o projeto de lei 3253/2004. Até ser aprovado pela Câmara, esse PL sofreu emendas. Certamente eu encontraria a emenda que lhe inseriu o artigo mediante o qual se alterava a redação dos artigos 267 e 269 do CPC.

Não achei tal emenda. Aliás, a redação final do PL 3253, conforme a Câmara a aprovou, não menciona alguma alteração dos artigos 267 e 269. E, com essa aprovação pela Câmara, passa-se à etapa seguinte, determinada pela Constituição:

Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, (…)

A tramitação do PL na Câmara pràticamente termina em sua remessa ao Senado em 05/08/2004. Depois disso, o único lançamento é de 22/12/2005, comunicando sua transformação na lei 11.232, o que implica que, nesse 1 ano, 4 meses e 17 dias de diferença, havia sido aprovado pelo Senado e sancionado pelo presidente da república. Porque, continuando a ler a Constituição,

Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, (…)

Aí, pensei, peraí! Se o texto do PL aprovado pela Câmara não alterava os artigos 267 e 269, e a lei altera, é que, no meio do caminho, houve alteração ao texto por parte do Senado.

Então, toca a procurar os andamentos no saite do Senado, onde você descobre que o PL 3253 foi denominado Projeto de Lei da Câmara 52/2004. Verificando a tramitação, encontrei o parecer do relator, comentando catorze emendas ao PLC 52 oferecidas por senadores (embora o saite não identifique quem ofereceu o quê). Entre elas, as emendas 3–CCJ e 4–CCJ propunham alteração dos artigos 267 e 269, e o parecer concordava com elas nos seguintes termos:

(…) a alteração do art. 269 é bastante pertinente, pois revela a possibilidade de julgamento do mérito sem que o processo se tenha encerrado, como pode ocorrer em decisão interlocutória (…) ou em decisão monocrática de relator (…). Todavia, cabem duas ressalvas:

1ª) já que se pretende alterar a redação, seria de boa técnica seguir a orientação de ADROALDO FURTADO FABRÍCIO e empregar a terminologia “resolução de mérito”: “… a expressão ‘resolução de mérito’ traduziria melhor a idéia que aí se contém do que a locução utilizada. Com efeito, aí [art. 269 do CPC] se agrupam duas classes bem distintas de sentenças: as que efetivamente contêm julgamento, verdadeira heterocomposição jurisdicional do litígio, e as limitadas à constatação e certificação de seu desaparecimento por ato de parte ou das partes” (Extinção do processo e mérito da causa, in Saneamento do processo, p. 20);

2ª) para manter a coerência e a harmonia da reforma, seria também de boa técnica alterar a redação do art. 267 do CPC, pois não há sentido alterar um e manter o outro, visto que são simétricos.

Pronto! Está aí o motivo que eu buscava: o Senado seguiu a opinião do famoso processualista Adroaldo F. Fabrício (à qual aderem outros ilustres Autores, como o Prof Alexandre F. Câmara — q.v. Lições de Direito processual civil, 7. ed., v. I, p. 374-375) no sentido de adequar o texto do Código ao que realmente acontece no processo.

Em 07/12/2005, foram aprovados o PLC 52, aquelas catorze emendas do Senado e, no dia seguinte, a redação final que decorria de tudo isso.

Recapitulemos: o anteprojeto do ministro da justiça se transformou no PL 3253 do presidente da república, que foi emendado e aprovado pela Câmara, e no PLC 52, que foi assim emendado novamente e aprovado pelo Senado. Vejamos o que diz a Constituição a respeito dessa situação.

Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, ou arquivado, se o rejeitar.

Parágrafo único. Sendo o projeto emendado, voltará à Casa iniciadora.

Art. 64. (…) § 3o. A apreciação das emendas do Senado Federal pela Câmara dos Deputados far-se-á no prazo de dez dias (…).

Mas… mas… do Senado, o texto final foi encaminhado a sanção presidencial em 14/12/2005. Houve até ofício do Senado à Câmara no mesmo dia, “comunicando a aprovação, em revisão, do presente Projeto e o seu encaminhamento à sanção presidencial”.

Não era para ter voltado?! Você leu: a Constituição é taxativa quanto a isso, não prevendo exceções. Mesmo assim, fui aos Regimentos Internos do Congresso Nacionalda Câmara dos Deputados, na esperança de que o texto constitucional tivesse alguma brecha à interpretação e de que esses regimentos se aproveitassem dela. Mas não tem, nem se aproveitam. (O regimento do Senado nem olhei, porque ou aprova ou não aprova o procedimento adotado. Se aprova, não importa, porque quem se prejudica é a Câmara, não ele; e um velho brocardo jurídico é o de que a ninguém aproveita sua própria torpeza).

Espremendo o céLebro, encontrei uma possibilidade mediante a qual o procedimento do Senado tenha sido aceitável: neste caso, quem iniciou o processo legislativo foi o presidente da república. Com isso, não houve “Casa iniciadora”, como há nas vezes em que o processo começa com projeto de lei de autoria de algum parlamentar. Mas não sei se é isso.

O PLC 52 foi sancionado pelo presidente da república em 22/12/2005, convertendo-se na lei 11.232. Por mais que Fabrício, Câmara e eu concordemos com as emendas 3–CCJ e 4–CCJ, nenhuma medida corretiva foi tomada quanto às aprovações daquelas catorze emendas, que nunca foram submetidas à Câmara dos Deputados.

Depois, o próprio saite do Senado revela que houve a ação direta de inconstitucionalidade no. 3740, proposta perante o Supremo Tribunal Federal para que se declarassem nulos alguns artigos trazidos ao CPC pela lei 11.232. Pensei, finalmente alguém se insurgiu! Alguém percebeu que a Câmara não fôra ouvida e que, portanto, são inválidos os artigos da lei 11.232 que decorrem de emendas senatoriais…

Mas não. No saite do STF, encontrei a petição inicial da ADIn 3740, apresentada pelo Conselho Federal da OAB. O documento ataca algumas alterações trazidas pela lei 11.232 que, no entendimento da OAB, violam certas garantias relativas a decisões judiciais. Entretanto, nenhuma menção é feita ao descumprimento do trâmite previsto pela Constituição.

Pelo que li até agora e ressalvado o parágrafo acima onde dou interpretação restritiva à expressão “Casa iniciadora”, estou entendendo que o Senado Federal tenha violado o processo legislativo, deixando de submeter à Câmara o projeto de lei que aprovara com emendas. Também estou entendendo que a Câmara tenha comido mosca e que, de dezembro de 2005 até agora, tenham vigorado certos artigos do Código de Processo Civil que não seguiram o processo que lhes daria legitimidade. Em outras palavras: a lei 11.232 é inconstitucional em tudo aquilo que a Câmara não teve oportunidade de apreciar e, portanto, são inconstitucionais alguns artigos atuais do CPC (e não apenas as redações atuais dos artigos 267 e 269) quanto à forma seguida para sua promulgação.

Posso perguntar-me o porquê de tudo isso. Terá sido negligência? Terá sido intencional? Haverá alguma alteração do Senado que não se quisesse potencialmente rejeitada pela Câmara? Não sei. Tudo que sei é que permanece válida a velha máxima sobre as leis e as salsichas, erroneamente atribuída a Bismarck.

Ou não. Quem encontrar falha nas minhas premissas ou no meu raciocínio, por favor, avise-me, que vai me deixar mais tranquilo.

[Apideite do apedeuta em 04/10/2010: aparentemente, isso vem acontecendo direto. Fui fazer uma pesquisa rasteira, andando para trás no tempo, e encontrei a tramitação da lei 12.304/2010, que autoriza o Poder Executivo a criar a Pré-Sal Petróleo S.A. Foi a mesma coisa: depois que saiu da Câmara dos Deputados, o projeto de lei sofreu uma emenda no Senado, ganhou nova redação e foi a sanção sem voltar à Casa de onde saíra. Eu poderia pensar que fosse um grande complô conspiratório para minar a autoridade da Câmara, mas estou mais inclinado a acreditar que seja mera desídia neste país de repassadores, de gente desatenta que não está nem aí pra nada.

Além disso, em debate com uma colega, percebi que não tem jeito, é inconstitucional mesmo. Veja a redação da Constituição, artigo 64, que reproduzi aqui em cima: a iniciativa pode ser do presidente da república, mas o início é mesmo na Câmara dos Deputados.]

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Só para minha própria referência de minha participação na Web, porque deixo comentários por aí e depois não lembro.

http://www.amazon.com/gp/cdp/member-reviews/ARI7YA10QL9GM/ref=cm_cr_pr_auth_rev?ie=UTF8&sort_by=MostRecentReview

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http://www.amazon.com/review/R1QC9PWSHV709H/ref=cm_cr_pr_cmt?ie=UTF8&ASIN=0671536095&nodeID=#wasThisHelpful (onde respondi a uma resenha)

http://www.baxt.net/blog/2010/04/13/seria-muito-seria/#comment-27779

http://www.baxt.net/blog/2010/04/21/o-conhecimento-da-ignorancia/#comment-27791

http://www.baxt.net/blog/2010/07/05/mordendo-a-lingua-parto/#comment-27831

http://www.baxt.net/blog/2010/08/10/como-foi-o-seu-parto-le-ai/#comment-27916

http://www.baxt.net/blog/2010/09/15/as-pessoas-mal-informadas/#comment-27986

https://www.blogger.com/comment.g?blogID=1486619705951395295&postID=1605094035426037004 01/08/10, 02:59 h.

http://www.interney.net/blogs/lll/2009/08/20/nosso_lar_e_onde_eles_tem_que_nos_aceita/#c452818

http://www.interney.net/blogs/lll/2009/08/20/nosso_lar_e_onde_eles_tem_que_nos_aceita/#c452820

http://www.interney.net/blogs/lll/2009/08/20/nosso_lar_e_onde_eles_tem_que_nos_aceita/#c452823

http://www.interney.net/blogs/lll/2010/09/09/ideologia/#c642135: “em princípio, o crente-na-ideologia não está mentindo. A ideologia surge quando o sujeito vê a vida a sua volta, só conhece isso, então acha óbvio, e acaba gerando alguma explicação que acomode esse óbvio. // Lembra quando você discutiu o cabimento daquela frase ‘Alex, você está fora da realidade’ ? Aquele discussão foi ótima e tem TUDO a ver com isto aqui, não acha? Minha ideologia é a expressão do que é minha ‘realidade’.”

http://www.interney.net/blogs/lll/2010/09/09/termotecnico/#c642141: “Uma vez eu defendia dissert. de mestrado. Virou um membro da banca e perguntou de que fonte eu tinha tirado determinada tabela. // Fiquei olhando pro cara, tentando entender se a pergunta era mesmo o que eu pensava que fosse, quando meu orientador foi mais rápido: // — Foi ele mesmo que calculou a tabela, ué. // E pior que tinha sido mesmo. Tinha dado um trabalhão! // Pois, né, se não indiquei a fonte… é que fui eu! Raios! // (Detesto quando as pessoas, na falta de atribuição de crédito, presumem que o autor NÃO seja eu.)

http://www.interney.net/blogs/lll/2010/10/02/por_que_tantos_brasileiros_pobres_e_anal_2/#c652528

http://www.starshipintrepid.net/companel/index.php?showtopic=592&view=findpost&p=67018

http://www.starshipintrepid.net/companel/index.php?showtopic=5094&view=findpost&p=67019

http://www.starshipintrepid.net/companel/index.php?showtopic=177&view=findpost&p=67021

http://forums.hiddenfrontier.com/index.php?showtopic=10711&st=240&gopid=271392&#entry271392 e concordo com a opinião logo acima da minha.

http://diariodeumdoentedosnervos.blogspot.com/2010/09/porque-as-pessoas-sao-pobres.html?showComment=1284700320376#c8660850505015023791: “O mais interessante é que o título da postagem fica mais correto, e faz mais sentido, do que se fosse ‘por que as pessoas são pobres’. Mesmo que possa ter sido sem querer. // Eu sempre soube que apartamento, comprado novo, tendia a desvalorizar, igual carro. Se compro, compro APESAR do que vai acontecer ao valor, e não POR CAUSA do que vai acontecer ao valor. // Mas as pessoas nunca fazem conta mesmo. Nunca raciocinam objetivamente sobre o que vão fazer a seu dinheiro. As decisões de investimento deveriam ser as mais frias, mais maquiavélicas, objetivas, Realpolitik, pragmáticas. Mas são as mais emocionais. Cheio de pesquisa pra dizer isso, mas nem precisava.”

O princípio da anualidade fazia sentido na medida em que o Direito tributário era subdivisão do Direito financeiro, conforme explicitado pela CF/1946, artigo 5o., que menciona o Direito financeiro mas não menciona o tributário. O próprio CTN, de 1966, cita esse artigo como a norma da qual extrai sua constitucionalidade. Naquele tempo, o planejamento tributário do Estado estava inserido na composição orçamentária (era a parte onde o dinheiro entrava), e o Direito tributário era compreendido como estando a serviço da composição do orçamento. Quando o Direito tributário ganhou autonomia, deixou de haver um ‘planejamento anual dos tributos’ e o princípio da anualidade desapareceu. Apesar disso, o Direito tributário é tratado como metade do curso de Direito financeiro na UERJ. (30/08/2010, 21:19 h)

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Propulsão de dobra com uma nacele a menos

Advirto ao preclaro Leitor que este texto só faz sentido para trekkers. Quem não for trekker também pode ter a aprender, mas não se espante se não souber do que estou falando.

Recentemente, minha colega Leila Kalomi consultou-me a respeito de propulsão de dobra, que é a utilizada pelas naves de Jornada nas Estrelas. Considerei que nossa troca de emails poderia ser guardada para referência futura, não só por nós dois, mas por eventuais googladores. Então, com autorização dela, segue abaixo.

1 – Sei que é possível uma nave voar(?) com apenas uma nacele, mas qual seria o desempenho da que está funcionando? 50%? Seria possível uma velocidade de dobra muito grande?

Se uma nave foi feita para voar com duas naceles, em princípio ela não será capaz de voar com uma só. Para dar forma ao campo de dobra, ela precisa da configuração das duas. Com uma só nacele, o campo será só o campo gerado por ela, que é assimétrico, incompleto. Só seria simétrico se tivesse as duas. É diferente do caso de quando a nave já foi feita para voar com uma nacele só.

Os detalhes por trás vêm daqui: http://www.ex-astris-scientia.org/treknology/treknology-w.htm (… descer até Warp nacelle).

É claro, isso sou eu deduzindo. Ou inventando. O bom da treknologia é que é igual a Direito: cada um diz uma coisa, porque ninguém sabe nada. E todas as versões são aceitáveis, porque você não tem um paradigma “real” para contrastar.

2 – Em teoria, seria o seguinte: a nacele danificada está com um rombo. Daí, deduzo que o combustível deve vazar, certo? Seria possível criar um campo de força para conter esse vazamento?

Não é o combustível que está vazando. É plasma de dobra (isso, pelo menos, é certo; já foi falado diversas vezes em DS9/Voyager). Se você pegar o capítulo 5 do ST:TNG Tech Manual, o plasma de dobra é o que resulta quando você combina matéria e antimatéria no reator de dobra.

Esse vazamento pode ser contido por um campo de força, porque estamos tratando de um gás quente a ser recolhido no espaço como tantas vezes se faz, tanto para recolher como para evitar que entre ou saia de algum lugar. Por exemplo, os extintores de incêndio de bordo funcionam assim: bloqueiam o acesso do oxigênio ao fogo por meio de um campo de força local. Também as portas dos hangares da Enterprise-D têm um campo de força para evitar que o ar escape, mantendo as portas abertas com atmosfera lá dentro. Outros exemplos: em Generations, o campo de força que evita a despressurização na Enterprise-B, permitindo que Scott e Chekov fiquem perto do rombo no casco; e em First Contact, quando Pituquinha abre uma escotilha e mostra a Lily Sloane que é uma longa queda até Montana.

Mas não seria desejável conter o plasma de dobra que vazou. Ele é muito quente, e qualquer nave que esteja vazando plasma de dobra está arriscada a uma falha de contenção em pouco tempo. O ideal é interromper o vazamento o mais cedo possível e deixar que o plasma já vazado se perca no espaço — que é o que eles costumam fazer se você reparar. Para interromper o vazamento, há de se parar a produção do plasma (i.e. desligar o reator) e fechar o buraco.

Você pode pensar em usar um campo de força para “tapar o buraco”, mas isso equivale a tomar remédio para diarreia. O objetivo não é segurar dentro de você aquilo que é ruim. O objetivo é deixar ir embora e parar de produzir mais — ou seja, desligar o reator (assim parando de produzir mais), deixar o plasma escapar evacuando os conduítes, e fechar os conduítes, ou com campo de força ou com algum anteparo. Eu presumo que as naves sejam equipadas nesse sentido, de preferência com anteparos porque não gastam energia para se manterem.

3 – Em caso afirmativo, como seria esse campo de contenção? Alguma ideia?

Os campos de contenção são os mesmos campos de contenção que são usados para muita coisa. Existem dois tipos: os gravitacionais e os magnéticos. Os gravitacionais são os campos obtidos por geração artificial de gravidade; são campos de gravidade, mais intensos ou menos intensos, gerados pela nave com tecnologia que só foi inventada em algum momento lá pela década de 2060. É a mesma tecnologia dos diversos campos de força que servem como barreiras ou suportes, p.ex. o SIF (Structural Integrity Field), que ajuda a manter a nave inteira durante manobras; o IDS (Inertial Damping System), que segura os ocupantes para eles não virarem pizza quando a nave acelera; o defletor navegacional; os escudos; e o raio trator.

Já os campos magnéticos — que me parecem os mais indicados no seu caso — são tecnologia das décadas de 1940-1960. São campos que contêm, feito garrafas, a matéria que quer escapar feito um gás. São exemplos o campo de contenção do teletransporte e o campo de contenção de plasma de dobra (que é gerado dentro do reator e dos conduítes para evitar contato do plasma com as paredes).

Campos gravitacionais também serviriam no seu caso, mas eles são mais indicados para objetos sólidos e força bruta. Para controles refinados e objetos fluidos, campos magnéticos são mais apropriados. Especialmente se for plasma, por razões que a Física do século 20 explica perfeitamente: o plasma é eletricamente carregado, e todo campo magnético só se presta a aprisionar um gás se ele estiver eletricamente carregado.

Não acredito que, passados dezesseis anos, eu ainda consiga dizer tanta bobagem com coerência e, pior, dominando o assunto. Eu e Senhora temos assistido a episódios feitos por fãs e, de vez em quando, algum personagem manda uma dessas, tipo assim: “vai ter que trocar os injetores de plasma”, ao que eu digo na hora para ela: “pô, mas essa manutenção é demorada pra burro, vai ter que estacionar numa base estelar para fazer o serviço, e ainda vai ter que calibrar os injetores novos”. Em seguida, o outro personagem responde: “mas isso só vai poder ser feito na base tal, e vamos ter que chamar alguém que entenda da calibração necessária”. Ela só fica me olhando enquanto eu digo, “eu não disse?” [Atualização: ontem, estávamos vendo o primeiro episódio de Star Trek: Odyssey. Uma romulana sugere a adaptação de um quantum slipstream drive em uma nave romulana. Pensei, isso não pode, porque vai interagir com a singularidade quântica que os romulanos usam para propulsão. Dito e feito: ato contínuo, o Ten.-Cte. Aster responde exatamente o que pensei.]

4 – Uma pequena dúvida: é possível entrar dentro de uma nacele com ela funcionando ou é hermeticamente fechada?

Com ela funcionando não pode. O plasma de dobra é mais quente do que palpite comprado para o páreo armado da corrida de cavalos. Vaporiza a vítima em menos tempo do que leva uma multidão de trekkers famintos para esgotar o estoque de fotografias autografadas que o Nimoy levou para a convenção.

Mas, com a nacele desligada, pelo menos nas classes Galaxy e Sovereign, você pode até entrar nela — conforme visto em “Eye of the Beholder” (http://stng.36el.com/st-tng/episodes/270.html).

De todo modo, não é hermeticamente fechada. Existe um escapamento de plasma “gasto” através das laterais, que é o que permite rastrear a nave através do espaço. Mas aí é só saída, não serve de entrada.

Vista interna de uma nacele da classe Sovereign: http://www.ex-astris-scientia.org/scans/sovereign-nacelle.jpg

5 – Mais uma vez você dá mostras que o seu intelecto continua afiado. Vou explicar a situação e, quem sabe, você me ajuda a sair da sinuca de bico em que me meti. [Seguem-se detalhes da história que está escrevendo.] (…) Uma nave da classe Excelsior está dentro da Zona Neutra Romulana por uma série de fatores. Uma Warbird descobre a dita nave[, que] tem a nacele esquerda atingida. Acontecem alguns fatos e ela acaba por se livrar da Warbird, mas ainda está dentro da ZN e ela precisa urgentemente sair de lá. A minha pobre ignorância já tinha pensando a respeito de um campo de contenção e a sua resposta 2 vai de encontro àquilo que tinha intuído, mas tinha partido da seguinte teoria: ora, se um avião pode voar com apenas um motor, por que não uma nave? Terei de repensar isso. Estou encalacrada no seguinte ponto da história: o engenheiro-chefe pensou em usar o feixe de teletransporte para criar um campo de contenção para que o plasma não se perca. Ele pensa em mandar o plasma através do transporte e ao mesmo tempo criaria um campo que serviria de contenção e assim poderia aumentar a velocidade de dobra, pois, do jeito que a nave está, vai demorar uns seis meses pra sair da ZN e claro, não seria lá muito prudente passar seis meses sendo perseguidos pelos romulanos. Deu pra entender? Please, be free para publicar onde quiser. Quem sabe alguém também não dá um pitaco que ajude?

Depois dessa última pergunta, discutimos o tema ao telefone, e recrutei auxílio de meu primo, meu irmão Leandro M. Pinto, que deu uma excelente sugestão: pode-se conjugar uma certa quantidade de naves auxiliares e fazê-las ocupar o lugar da nacele faltante. Nas palavras dele no Twitter,

Outra opção é tecnoblabar os shuttles na posição da nacele perdida e utilizar as deles para complementar o campo de dobra da nave

Legal é que a solução encontrada dá para ser escrita de maneira bem dramática – pilotos coordenando esforços com a nave, etc.

O lance é o seguinte: nada disso existe, certo? Nada disso existe. Mas já existe um bocado de trabalho teórico em cima, verdadeiros tratados sendo escritos. Especial atenção merecem os saites de Joshua S. Bell, Jason Hinson e Bernd Schneider. Então, no dia em que os trabalhos do maluco do Alcubierre gerarem resultado e cruzarmos a barreira de Dobra Um, a maior parte da teoria já estará desenvolvida! Graças a nós, trekkers, boa parte do trabalho estará pronta!

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Another collection of boring annotations

Again, these are my annotations on some comics I have read in the not too distant past, aiming mostly at myself and googlers. But you are welcome to enjoy them.

In items 1 through 6, the page numbers refer to the Superman: Krisis of the Krimson Kryptonite trade paperback.

1. Superman #49 (Nov 1990)
Page 9, panel 4: of course, “J.L. Byrne” is penciller and writer John Lindley Byrne, the artist who has had the most influence on Superman since 1986.
Page 10, panel 1: “alter-ego booster” is certainly a reference to Superman being Clark Kent in disguise.

2. Starman #28 (Nov 1990)
Page 60, panel 5: “Hanna” refers to inker Scott Hanna.
Page 61, panel 2: Time magazine has Batman on the cover. Of course, DC belongs to the Time-Warner group.
Page 61, panel 3, shows a cover from National Periodicals — DC’s old name.

3. Action Comics #659 (Nov 1990)
Page 78, panel 1: the kid on the left is wearing a Hulk T-shirt. This is a possible reference to both writer Roger Stern and penciller Bob McLeod’s previous work on The Incredible Hulk.

4. Superman #50 (Dec 1990)
Page 102, panel 2: “don’t let your current situation color the decision” probably refers to the red kryptonite.
Page 102, panel 5: “Dennis” is artist Dennis Janke.
Page 103, panel 2: “not so windy these past few days” because Superman is powerless, so he has not made the newspapers fly around as usual.
Page 106, panel 4, and page 107, panel 6: Kevin Dooley, editor.
Page 108, panels 2-5: nice, realistic dialogues. My favourite in this edition.
Page 112, panel 1: note an elongated Mr Fantastic, the Thing conveniently hiding his appearance under the pink fluid, and the Human Torch’s flames in the air. The Invisible Woman is nowhere to be seen…
Page 112, panel 2, refers to “fantastic new friends”.
Page 121, panel 1. Emphasis is put on the number of friends: four.
Page 121, panels 2-3 refer to the Impossible Man, an annoying but harmless foe (sort of) of the Fantastic Four.
Page 121, panel 4. The Fantastic Couple wears blue (clearly the right-hand one is a woman), and we can also see the Human Torch’s wake and the Thing, still under the pink slush.
Page 123, panels 1-3. After the 70s, villains are not in black & white. You come to understand that Luthor is a human being also, with virtues, and you come to understand some of his side, the life history that leads him to act as he does, his motivations. You see his reasons, which make all sense in his point of view — he is not necessarily “wrong”, and there is no wrong. Furthermore, Luthor’s dignity and reputation are unmarred by these revelations, since they are made by another person while he is unconscious, and, at that, by a maternal woman who cares for him, who understands him, and who has compassion for him.
Page 127, panel 2. Clark Kent’s novel has been published by Warner Books.

5. The Adventures of Superman #473 (Dec 1990)
Page 131. You can see an Elvis impersonator in the background.
Page 133, panels 4-6. This, added to Superman #49, page 10, panel 1 (see above), leads me to wonder. Has Lois already found out about Superman’s secret identity? After Action Comics #662 (where he reveals it to her), I have not read the followup Superman #53, so I would not know whether there Lois admits to having deducted it a while before. If she has by now, then Superman #49, page 10, panel 1, amounts to her teasing him, whilst this here instance in Adventures #473 is her way of allowing him the dignity of keeping the secret while unprepared to reveal it and saving face at the same time. Will have to check.
Page 140, panels 2 and 4; page 141, panels 1-2; page 142, panels 2-3; and page 143, panel 1: the USAF has never operated F-14s, none has ever been operated in Wyoming, F-14s have never been painted in camouflage, and the camouflage does not match any USAF standard, though these are accurate depictions of F-14s.
Page 143, panel 6, is a refreshing attempt at humour where the comics do not take themselves too seriously.

6. Action Comics #660 (Dec 1990)
Page 158, panel 2, provides for an interesting comparison between the customs of 1990 and those of 2010. Twenty years ago, no one who had their wits about them would think of bringing a mobile phone to a date. It was impolite to others and a bulky nuisance to self. Twenty years later, no one thinks of not bringing the mobile wherever. Reading this page in 2010, it is a stark contrast that, though I had thought that so little had changed, some things can already be traced as markedly different. Readers’ assumptions are clearly supposed to be significantly different in this respect between the two decades.
In another note, panel 2 goes to show how much of a workaholic Lois is, going to the extreme of bringing her mobile along on a date.
Page 158, panel 3. Look at the size of this gadget! Those are batteries for you!

7. Doom Patrol #47 (Sep 1991)
As published in Doom Patrol volume 4, page 159, panel 2, reads “DP inker – new dad!”, which should lead me to assume that inker Mark McKenna (who probably filled those headlines) had just become a father. Likewise panel 4 reads “Congrats”.

8. Detective Comics #659 (May 1993)
As published in Brazil in Liga da Justiça e Batman no. 8, page 8, panel 1: “Simpson Flanders” seems to be an obvious joke on the Simpsons’ neighbour Ned Flanders. Dr Flanders appears again in Robin #1 (Nov 1993).

9. Flash #76 (May 1993)
As published in Flash: the Return of Barry Allen, page 60, panel 4, refers to a certain Broome Building. John Broome was the Flash’s main penciller during the Silver Age.

10. Justice League America #80-83 (Sep-Dec 1993)
Evidently, the two alien fugitives’ names, Blake and Corbett, are references to those old scifi TV series, Blakes 7 and Tom Corbett, Space Cadet.

11. Action Comics #692 (Oct 1993)
As published in Brazil in Super-Homem no. 126, page 47, panel 3, the oldest reference on Doctor Occult is a passage from the Daily Planet dated 1935. I take this as an homage to DC’s oldest character, Doctor Occult, who first appeared in New Fun Comics #6, October 1935, thus predating even Superman (whose Action Comics #1 is from June 1938).

12. Superman: the Man of Steel #28 (Dec 1993)
Conforme publicada em Super-Homem no. 127, página 3, quadro 1, e página 25, quadro 1: “Jotapê” é Jotapê Martins, da equipe de tradutores do Estúdio Art & Comics, que fazia a tradução dos títulos da DC em 1995.
As published in Brazil in Super-Homem no. 127, page 8, panel 2, the pizza carton from “Titano’s” is a reference to Titano, the giant monkey from Superman Annual # 1 (1987).

13. Batman #502 (Dec 1993)
As published in Brazil in Batman no. 5, page 44, panel 4, Mad magazine appears on a rack, presumably with Alfred E. Neuman on the cover (obviously). Mad is published in the US by DC Comics.

14. The Adventures of Superman #507 (Dec 1993)
Conforme publicada em Super-Homem no. 128, página 3, quadro 2: novamente, “Jotapê” é Jotapê Martins.
Página 7, quadro 1, contém uma referência a Superboy no. 2 dando a entender que conta a história da morte de Adam Grant. Entretanto, a última edição antes de Adventures #507 é Superman #84 (Dec 1993), que saiu em Super-Homem no. 127 e que é a que mostra essa morte. A história que saiu em Superboy no. 2 (junto com outras que não vêm ao caso) é a de Superman #85 (Jan 1994), que, na verdade, é posterior a Adventures #507 e lida com as consequências imediatas do evento, mas não é onde ocorre o próprio.

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RAF a baixa altitude

Nos últimos dias, andei assistindo a diversos vídeos de aviões no YouTube. Creio pertinente dividir com quem também gosta.

Conforme alguns textos aqui embaixo já indicam, neste ano compareci ao Royal International Air Tattoo, um evento de dois dias onde, das 10 às 18 h, aviões militares voam na sua frente nonstop. Recentemente subi dois vídeos, um de um Harrier GR7, outro de um C-17A, ambos filmados no evento.

Agora, apresento alguns do F-22A, que encontrei no Tubo, feitos por outras pessoas. Estão pràticamente no mesmo ângulo com que vi ao vivo, com a diferença de uma qualidade de vídeo melhor do que a da minha câmera, sob todos os aspectos, inclusive de enquadramento e estabilidade.

Primeiro, tem a decolagem do F-22, que é impressionante. Chamo sua atenção para os vórtices de ponta de asa e na ponta da deriva, que ficam bastante visíveis com a condensação e o escapamento dos motores.

E agora o melhor destes três vídeos do F-22, mostrando mais, mais de perto e com melhor qualidade.

Depois, encontrei alguns vídeos feitos numa região de Gales chamada Mach Loop. Os aficionados sobem a montanha e ficam à espera, câmeras em punho, esperando os jatos rápidos da Real Força Aérea, que, em treinamento, passam a alta velocidade e mais baixo do que a altura dos vales. A explicação está aqui. E, aqui, você encontra algumas excelentes fotografias tiradas ali. Você tem mais explicações e excelentes amostras aqui.

E agora os vídeos. Abaixo você poderá ter boas vistas de Hawk 100, Hercules, Jaguar, Tornado GR4, Typhoon, e até um F-15E da USAF. Supostamente, os Hawks vêm de RAF Valley, uma base próxima dali. Os demais não sei, mas nunca vêm de longe. Para começar, dois Tornados.

Neste aqui, repare que, depois do Hercules, vem um Tornado. Quando ele faz uma curva à direita, forma-se condensação acima da asa, indicando o descolamento da camada limite.

Aqui são Typhoons.

Este é de um Tornado.

Esta é a vista traseira do cockpit de um Hawk que percorre esse terreno.

E, por último mas não menos importante, uma miscelânea.

Este aqui foi no Distrito dos Lagos, uma região montanhosa e agreste no Noroeste da Inglaterra, quase divisa com a Escócia. É uma região muito usada por montanhistas, gente que gosta de acampar, de passar frio na chuva fina, de fazer longas caminhadas no meio das pedras, mas também pelos pilotos em treinamento a baixa altitude. Então, numa dessas saídas ao frio ar livre, a vítima capturou um Jaguar.

Mais vídeos no nosso plantão.

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Medo de altura, mas não de eletricidade

Existe uma passagem do romance Contato, de Carl Sagan, onde um personagem religioso desafia a fé da cientista na Ciência. Atendendo ao desafio, ela solta um pesadíssimo pêndulo de Foucault e fica exatamente onde estava, na certeza de que, na volta, ele não vai atingi-la. Como de fato não a atinge.

O vídeo abaixo mostra o que, de fato, é você confiar sua VIDA à Ciência. Mostra o que é que, de fato, significa você acreditar em um princípio científico, segurar na mão de Faraday e ir.

A ideia é a seguinte: no século XIX, Michael Faraday descobriu que, em um objeto metálico, a corrente elétrica flui por fora, mas não por dentro. Em um fio elétrico, a corrente está sempre na superfície, nunca no núcleo. Agora, pense no sujeito que vai inspecionar fios de alta tensão. O cara veste uma roupa que é 25% aço inox. Então, a roupa é uma gaiola de Faraday e protege seu usuário. Quando ele encosta em um cabo que está com UM MILHÃO DE VOLTS de potencial em relação à terra, a corrente flui em volta dele, a carga ocupa o lado externo da roupa, e ele adquire o mesmo potencial do cabo. Daí por diante, é mamão com açúcar.

Alguns diriam que é preciso ter muito colhão para fazer o que esse cara faz. Concordo na medida em que não se pode ter medo de altura, nem se pode dar um passo em falso, nem tocar em nada na hora errada. Concordo na medida em que o vento do rotor pode jogar a vítima lá embaixo. Mas, quanto à voltagem, não precisa ter coragem não: basta entender e, daí, acreditar.

Aí, você põe um homem temente-a-Deus ali em cima, sem a roupa especial, e um desses inspetores. Vamos ver quem protege mais: as orações ou a roupa.

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RIAT 2010 — Harrier e C-17

De ontem para hoje, subi mais dois vídeos do Royal International Air Tattoo 2010. Estão no YouTube, mas, para facilitar sua vida, seguem também abaixo, inclusive com os textos que os acompanham. Aproveite.

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Harrier hovering at RIAT 2010

A BAE Harrier GR7 from 4(R) Squadron displays its hovering abilities before the amazed crowd at Royal International Air Tattoo 2010 on Saturday, 17 July. The sound was the loudest we had at the event. As my wife filmed this, I stood at her side but, even if I shouted at her, she could barely hear me. That’s Pegasus engine noise for you! Our Sony CyberShot DSC-TX1’s sound filter preserves your ears now, though.

Please pay attention to the columns of smoke, shooting vertically from the four nozzles, which go to show the Harrier’s vectoring to good effect.

At the very end, the voice you hear is mine, asking Wife to stop shooting. Battery was low, I feared the camera would not have enough of it to record the movie to the flash card, and this is what I was telling her.

Um BAE Harrier GR7 do Esquadrão 4(R) (Reserva) demonstra sua capacidade de pairar perante a multidão impressionada no Royal International Air Tattoo (Real Desfile Aéreo Internacional) 2010, no sábado, 17 de julho. O ruído foi o mais alto que houve no evento. Enquanto minha esposa filmava isto, eu fiquei ao lado dela, mas, mesmo que eu gritasse, ela quase não conseguia me ouvir. Assim é o ruído do motor Pegasus pra você! Agora, porém, o filtro de som de nossa Sony CyberShot DSC-TX1 preserva seus ouvidos.

Preste atenção às colunas de fumaça, ejetadas verticalmente dos quatro bocais, que mostram a vetoração do Harrier de modo eficaz.

Bem no finalzinho, a voz que você ouve é a minha, pedindo a Esposa que pare de filmar. A bateria estava no fim, eu temia que a câmera não fosse ter o suficiente para gravar o filme no cartão de memória, e era isso que eu estava dizendo a ela.

***
Boeing C-17A Globemaster III landing at RIAT 2010

After a remarkable demonstration of agility for an airplane this size, a C-17A from the 58th Airlift Squadron, 97th Air Mobility Wing, US Air Force, lands at RAF Fairford, nearing the end of its participation on the Saturday, 17 July, portion of the Royal International Air Tattoo 2010. Please take note of the high sink rate approach, followed by a short landing run with thrust reversers. According to the host, this ability is in much-needed use today in Afghanistan, reducing the aircraft’s exposition to guns at the vulnerable moment when it approaches, lands and stays on ground at forward bases.

Após uma notável demonstração de agilidade para uma aeronave deste tamanho, um C-17A do 58o. Esquadrão de Transporte Aéreo, 97a. Ala de Mobilidade Aérea, Força Aérea dos Estados Unidos, pousa na base Fairford da Real Força Aérea, próximo do fim de sua participação na porção de sábado, 17 de julho, do Real Desfile Aéreo Internacional 2010. Observe a aproximação em alta razão de descida, seguida de uma corrida de pouso curta com reversores de empuxo. Segundo o apresentador, essa capacidade está em uso necessário hoje no Afeganistão, reduzindo a exposição da aeronave a armas de fogo no vulnerável momento em que se aproxima, pousa e permanece no solo nas bases avançadas.

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Swamp Thing annotations to Greg Plantamura

Agora há pouco, enviei este texto ao Greg Plantamura. Estou dividindo com potenciais googladores. Não é necessariamente com você.

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Hello. I keep on perusing your Swamp Thing pages. Quite a job, may I insist.

Earlier today I was reading New Titans from 1993. There is a sequel to Swamp Thing #60 there!!!

Cyborg went catatonic some ten or twelve issues before New Titans #103 (Nov 1993), losing his memory and, in fact, all ability at communicating. In this issue, he is at the S.T.A.R. Labs, where Team Titans’ Prester Jon is attempting to interface with his inner circuits. Late in this issue, the cause of tampering is found to be a group of aliens who are the avatars of beings from a machine planet.

In New Titans #104 (Early Dec ’93), the Titans are brought to the aliens’ planet — lo and behold, that’s the machine planet from “Loving the Alien” (Swamp Thing #60). It transpires that Swampy’s visit, years before, brought the planet out of a stagnation state. Some of its “life” forms learned then of new ways and became curious about this “life”. As a consequence, they left their cradle and went out into the stars, seeking understanding, which ultimately led to Cyborg being hacked. I am still at this point in my reading, so I do not know where this leads, but there you have it.

In NT #104, Marv Wolfman attempts to describe the machines’ world in much the same way as Alan Moore had, but fails. Just as in ST #60, panels are disjointed from one another, and the text floats in off-narration with sentences that are not to be much understood. Anyway it lacks Moore’s spark (which, it is my feeling, was also missing from the original #60, which was very poor in my own POV — still, that was Moore, for better or for worse).

In fact, NT #104 has a two-page spread panel where the Titans arrive at a gate to the machine planet’s core. It pretty much imitates Spock’s venture into V’Ger in Star Trek: the Motion Picture — and, instead of a fixed, aloof Ilia figure, what do we have? Four Swamp Thing figures, which I believe correspond precisely enough with the Green’s four avatars selected by the Parliament of Trees for the Regenesis/Spontaneous Generation storyline — you know, Ghost Hiding In the Rushes, Kettle-hole Devil and their likes.

In my opinion, NT #104 sucks. Still, I think it a worthy reference and one you might like to purchase from online second-hand retailers such as Mile High Comics, My Comic Shop etc. etc. so you can check it for yourself. And you will have the benefit of checking the original, for I have so far only had access to Brazilian translations, which leave out some of the text.


On another note, I made a mistake years ago when I wrote to you on Swamp Thing #70. You wrote up an annotation and credited it to me (thank you), but in fact I should have referred to issue #71, and so should you. Please check! The annotation is part of the issue #70 annotations and goes like this:
“PAGES 22-23:3 João Paulo Cursino pointed out to me that the sound effects “SHLOEL BSSTTE TTLBN” sound like the artists names Bissette and Totleben. But who is Shloel?”
… except I should have referred to issue #71, where those pages were printed.


On a third note, please check Swamp Thing #34, included in the beautiful storyline of volume 2. Page 20 (to be sure: I refer to the page with text “With me.”, “With him.”, “…”) — does page 20 not depict a woman’s vulva, very clearly in front of you? You can clearly distinguish the labia, the clitoris, there’s even a lot of hair around it. I think this was the intent there. It is a beautiful piece of art by Bissette and Totleben, who managed to disguise it from moralists by making it look like a piece of plant. The things those guys managed to get away with, the madness of Moore, the best hiding of things in plain sight…

Another vulva, I think, can be found in issue #70 (“The Secret Life of Plants”), in page 17 (the one where Abby lies down on some orchids), albeit in a more symbolic sense. Please take note of the orchid’s shape.


And issue #65, page 14, panel 5 — Take note of a tire at the bottom right corner. Is the brand not “Alcalá”? :-)


Issue #66, page 2 — “Len and Berni were here 1972”. Indeed. Len Wein and Berni Wrightson created S.T. in 1972. Apparently they did so as they sat in Arkham Asylum. That explains it. :-)

Would you please check these and add them to your notes?

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De especialistas marca barbante

Aqui tem uma entrevista com o Autor de quadrinhos Robert Crumb, um dos ícones vivos da contracultura dos anos 60. Em determinado trecho, diz o entrevistador:

Em Paraty, o cartunista, antes esperado como o grande nome da Flip, saiu de lá tachado com um chato, já que a mesa em participou ao lado de seu amigo e também cartunista, Gilbert Shelton, criador dos Faboulous Freak Brothers, decepcionou a muitos. Crumb é avesso a jornalistas e a fotógrafos, e realmente não tem muito a ver com algo como a Flip. Mas o grande equívoco foi escalar um mediador que não conhecia a obra de Crumb a fundo, tampouco de quadrinhos.  E aí na imprensa lemos bastante que “Crumb é um chato, ranzinza e mal educado, a Flip deveria chamar só escritores etc.” Ele pode ser ranzinza e mal educado por conta dos lugares comuns que sempre lhe perguntam, ou coisas como se havia muita competição nos quadrinhos underground nos anos 1960, na Califórnia. A essa pergunta, no debate, ele questionou duas vezes: “Você está bricando?” [“Are you kidding?”].

Extremamente educado, simpático e gentil, (…)

E aí eu digo: de fato, a escolha do mediador faz uma diferença enorme. Em 1996, fui convidado pelo Prof. Paulo Metri, então diretor cultural do Clube de Engenharia, para ser um dos debatedores após uma exibição do filme Jornada nas Estrelas VI, no auditório do clube. Aceitei muito honrado, porque o tema é caro a mim e eu era (ainda sou) muito preparado para discutir qualquer aspecto de Jornada, em especial esse filme.

A exibição foi um sucesso, o filme se presta a várias discussões sobre geopolítica, ecologia, ideologia, pacifismo e anacronismo, eu e minha amiga Patricia contribuímos bastante, e o público só saiu porque estava na hora de fechar o auditório. Acontece que, como mediador, o clube pusera um sujeito que nunca tinha assistido a Jornada nas Estrelas nem conhecia nada de nada do tema. Pois o camarada começou atacando o filme — sem se dar conta de que boa parte dos que ali estavam já gostavam bastante dele — e prosseguiu a falar mal dos trekkers como alienados, irresponsáveis — sem se dar conta de que quase toda a plateia era composta por trekkers. De início, foi constrangedor vê-lo antagonizar palestrantes e público sem saber do que estava falando (uma das eternas marcas da arrogância oriunda da ignorância) mas, de certo modo, foi até engraçado como todo o mundo se uniu para praticamente escorraçá-lo de modo paternalista, se é que isso não é uma contradição em termos.

De outra feita, no mesmo Clube de Engenharia, o filme era 2001. Conforme eu já disse várias vezes, sou adepto da tese do Underman de que 2001 seja uma obra aberta: cada um vê nele o que é levado a ver, e o significado do filme só se completa na mente de cada um. É verdade que isso vale para toda obra de arte, aliás para toda obra: afinal, você precisa do receptor para se completar a mensagem. Mas, em 2001, nada tem realmente seu próprio significado: é você que põe seu significado na obra que está vendo. É como se cada pessoa visse um filme diferente.

Só que certas pessoas levam esse tecido aberto a extremos. Lembro-me de um senhor idoso velho, componente da mesa de debatedores, que, quando o filme terminou, começou a malhá-lo dizendo que sua principal mensagem era denunciar o ridículo do capitalismo americano. Exemplificava com as cenas da comissária de bordo, servindo bandejas devagar em zero-g com seu capacete branco redondo, e dos astronautas jogando xadrez com Hal. WTF?! Posso até entender que ele considerasse ridícula a cena da comissária, mas claramente se via que o ancião velho não conhecia o contexto em que o filme fôra feito (bem na parte mais excitante da Era Espacial, 1964-68), não tinha lido o livro 2001 original nem o livro onde Arthur Clarke explica das motivações e procedimentos da criação do filme (anote aí: Lost Worlds of 2001, com tradução esgotada no Brasil, Mundos perdidos de 2001), nem òbviamente tinha estudado qualquer coisa sobre a obra que tinha acabado de ser exposta.

Portanto, cuidado com isto. Quando for convidar alguém para ser debatedor ou mediador em qualquer seminário, congresso, painel, mesa redonda, o que for, tenha atenção a quem você estiver chamando. Certifique-se de que a pessoa conheça o tema. Aliás, isso vale para qualquer convite que se faça para qualquer coisa, não é verdade?

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Completamente fora de contexto, uma citação de Alex Castro

Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.

O original está aqui.

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Uma tuitagem mais duradoura

Joguei isto no Twitter, mas quero deixar mais fixo e recuperável. Então, repito aqui.

You can take the boy out of the favela, but you can’t take the favela out of the boy: http://bit.ly/aCeQXA

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Em uma nota mais animada, acabo de subir um vídeo. Fui eu mesmo que fiz em Duxford em 10 de julho:

É um Balbo, ou seja, uma grande formação de aviões, desfilando comemorativamente. Nos comentários do vídeo, identifico-os. Taqui a tradução do que digo lá:

Museu Imperial da Guerra em Duxford, 10 de julho de 2010, 16:56. À medida em que a formação se aproxima aparentemente por sobre a B-17G Sally B, o som aumenta para uma fileira de motores Merlin e radiais. Da testa à cauda: P-51 Mustang + Sea Fury + Fury + F4U Corsair, três AD Skyraiders, quatro Mustangs, três Spitfires + HA.1112 Buchón (Bf 109 fabricado na Espanha com motor Merlin), três Spitfires, P-40 + dois Spitfires, três Yaks.

Algo não vai muito bem com minha memória. Distintamente me lembro de ter visto o Bf 109 autêntico (com motor DB 605) em formação com Spitfires e o I-16; entretanto, não os identifico no vídeo. Contribuições são bem-vindas.

Esses nem são todos os aviões que participaram do Flying Legends. Houve outros Spitfires; houve o Battle of Britain Memorial Flight (Esquadrilha Comemorativa da Batalha da Inglaterra) com seus Lancaster, Spitfire e Hurricane; houve Bücker monoposto e biposto; houve Gladiator; houve Bearcat; houve Sally B escoltada por Mustang; houve MS.406.

No FL 2008, o Balbo não tinha Skyraiders, Fury nem Sea Fury, mas tinha Wildcat, P-39, B-25 e A-26. Ainda não o subi, mas, de todo modo, o filme não ficou tão bom.

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Teria sido mais barato telefonar para Marte

Em 2008, comprei dois telefones celulares de minha operadora. O vendedor disse que os dois estavam desbloqueados. Ingênuo ou burro, não pensei em testar se era verdade.

Em 9 de julho de 2010, cheguei a Heathrow sabendo que, se fosse usar meu celular em roaming, pagaria uma fortuna. Então, ali mesmo, diante da esteira de bagagem, fui à máquina que vende chips (“SIM cards”) e comprei um da Lebara. Assim, como quem compra Coca-Cola, só que era chip de celular, entende? Igual àqui, no Brasil.

É claro que, quando troquei o chip de minha operadora pelo da Lebara, o celular acusou que estava bloqueado. A partir daí, apesar de ter levado uns vinte minutos entre o desembarque e o recolhimento de bagagem (incluído aí o controle de passaporte), ainda fiquei umas duas horas discutindo com a “assistência ao cliente” da operadora, pedindo para desbloquearem meu telefone remotamente.

O de minha esposa até desbloquearam. O meu, não: dependia de pedirem o código à Nokia, com prazo de resposta de cinco dias úteis. Pedi-lhes que enviassem o código por SMS ao celular de minha esposa, que é da mesma operadora. Enviaram ao teu?

Ao dela também não.

O único motivo de eu não dizer qual é minha operadora é que, se eu fizer isso, dita Murphy que serei processado por difamação. De todo modo, as quatro operadoras que temos no Rio de Janeiro te tratam do mesmo jeito; então, você pode mudar de uma para outra, que não faz a menor diferença.

Mas daí. Quando vi que o desbloqueio não ia sair na hora, resolvi telefonar para minha mãe, só para dizer que tinha chegado. Ontem veio a conta: R$ 8,91 pelos 18 segundos que durou a ligação. Isso dá R$ 29,70 por minuto.

Com o chip da Lebara, eu telefonei DA INGLATERRA PARA O BRASIL pagando 4p por minuto. Pelo câmbio do dia em que comprei créditos, isso dá R$ 0,1058 por minuto. Ou seja, custou 281 VEZES MAIS BARATO.

Deixe-me repetir isso. Com o dinheiro que eu gasto para falar UM MINUTO da Inglaterra  para o Brasil, no roaming da operadora do Brasil, eu falo QUATRO HORAS E MEIA com o chip da operadora inglesa. Só posso chegar à conclusão de que minha operadora pensa que a Inglaterra fica em Marte, sei lá. Dizque ligação interplanetária só fica mais barata quando os dois lados da linha estão do mesmo lado em relação ao Sol. Não sei, dizem.

Além disso, temos uma amiga alemã que tem uma amiga espanhola. Pois ouvi da espanhola que ela tem um contrato de combo (telefone, Internet e TV, sabe como é) do mais simples — com 12 MEGAbits por segundo. Vamos presumir que, lá como aqui, a operadora só entregue um sétimo do valor contratado. Mesmo assim, esse um sétimo é DOZE vezes maior do que o plano mais simples que minha operadora de Internet me oferece. E não venha me dizer que “não tenho mais porque não quero”. Eu pedi mais, mas o moço que veio instalar mostrou-me, com medidor de ruído, que a linha não comporta mais do que 1 mega. Então, eles estornaram a cobrança dos 2 mega e fiquei com um só mesmo.

Verdade que eu posso estar errado, posso ter sido enrolado — tudo pode ser, não sou especialista. Mas está claro para você que nós somos uns índios? Está claro que nossos planos são dos mais caros que existem entre Vênus e Júpiter e que ainda temos que comer muito feijão para sonharmos com inclusões digitais e o raio que o parta?

Depois disso, volto para o Galeão na noite de 24 de julho e descubro que há um descontrole total no desembarque. A calçada está tomada de empregados de cooperativas que ficam, agressivamente, impedindo a aproximação de veículos de fora e, de modo até hostil, quase forçando os passageiros para dentro das mandíbulas de seus motoristas. Uma ambulância estava estacionada, sem emergência nem luzes acesas, em vaga de táxi especial. Nenhum empregado da Infraero à vista.

Então, que temos? Um aeroporto com intermodalidade quase nula (só umas poucas linhas de ônibus, uma delas a que segue para a zona Sul e que não tem horário), sem trem, sem metrô, com uma bandalheira que se apoderou do ponto de táxi; denúncias de cambistas ilegais disfarçados de carregadores de mala; ausência quase completa de comércio; um free shop (o de quem sai do País) que mais parece uma piada de mau gosto; uma minúscula área de coleta de bagagens que, ademais, está caindo aos pedaços; ambientes sem iluminação; várias áreas comerciais vazias; ausência de sinalização em língua estrangeira correta; e pessoal do comércio e serviços incapaz de falar um português correto, quanto mais inglês…

Mas nada tema: teremos Jogos Olímpicos em 2016 e Copa do Mundo em 2014. Com esse nível de preparo e de serviços, tenho certeza de que tudo vai dar certo.

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Era dia 21 de julho, e eu estava a 1200 pés

Do jeito como é a vida, corrida, atropelada, é provável que eu nunca venha aqui escrever sobre a viagem da qual voltei no último sábado. Mas vou dizer quais foram os pontos altos: a decolagem de um B-52 (evento que havia anos eu esperava poder testemunhar e que, de certo modo, era o mais aguardado), a decolagem do Vulcan XH558 (jogue XH558 no Google para entender a importância) e um voo de apenas 28 minutos onde o piloto em comando… era eu. Tirei a foto abaixo para provar. Ou melhor, só provo para quem acredita, porque, para quem não acredita, a foto não prova nada.

Muito melhor do que Flight Simulator!

Ao comando de um Cessna 172S. Ao fundo, a ilha de Wight, objeto de comentário em http://www.baxt.net/blog/2009/04/13/voltei-para-casa/

Òbviamente, eu não estava sòzinho. O instrutor tinha mais de 13.500 horas, a maior parte das quais voando linhas domésticas na British; e a aeronave tinha um full glass cockpit todo modernão, onde os instrumentos apareciam no LCD.

E vou dizer uma coisa, viu. O avião voa sòzinho se você tirar a mão dos controles, nivelado e retinho. Mas, se você encostar de leve, ele over-obedece, é muito sensível. Um toquezinho de nada, e o nariz levanta ou mergulha. E acontecem coisas engraçadas também. Por exemplo: encontramos uma térmica e o avião começou a subir sòzinho, sem ser comandado. Com aquele tanto de asa que o 172 tem, é inevitável, então eu tinha que toda hora comandar mergulho. Conclusão: passei mais tempo me concentrando nos instrumentos e tentando não exagerar as manobras do que realmente olhando pra fora. Acontece; é bom que se aprende. Mas valeu cada minuto, cada segundo.

No mesmo dia, à tarde, caminhamos sobre o muro da cidade de Chichester, erguido no tempo dos romanos. Um passeio que indico.

Além disso, foi só tardiamente que descobri que London Pride é uma excelente e macia ale. Tardiamente porque já estava na sala de embarque, voltando para o Brasil, sem nunca ter pedido um pint no JD Wetherspoon. Fica para uma próxima.

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