O triunfo de David Brin

Várias postagens deste belogue dão conta de minha progressiva leitura dos livros onde Isaac Asimov construiu sua magistral História do futuro. Embora desordenadamente, o Bom Doutor escreveu contos de robôs, romances de robôs, romances do Império e sete livros da Fundação. Esse material está detalhado na Web inteira, inclusive (bastante) na Wikipedia e aqui. Até eu fiz meu próprio resumo.

Agora, após onze anos, sete dias e 31 livros, acabei. Anteontem terminei a leitura de Foundation’s Triumph, último livro da Segunda Trilogia da Fundação. Ainda existem algumas minisséries escritas por outros autores e ambientadas neste universo, parte delas iniciada enquanto Asimov ainda estava vivo, até agora totalizando 29 livros. Nessas não vou entrar por ora, e considero que a aventura esteja concluída. Mais abaixo explico por quê. Hoje quero tratar justamente de Foundation’s Triumph.

Foundation's Triumph

Foundation’s Triumph

Antes, uma recapitulação. Nos livros de robôs — sejam os contos, ambientados no século 21, sejam os romances, no século 35 –, o principal tema são as Três Leis da Robótica.

Primeira Lei: um robô não pode causar dano a um humano, nem, por omissão, permitir que seja causado dano a um humano. Com esta Lei, os robôs são seguros.

Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens de um humano, exceto se conflitarem com a Primeira Lei. Com esta Lei, os robôs são úteis.

Terceira Lei: um robô deve preservar sua existência, exceto se conflitar com a Primeira ou a Segunda Lei. Com esta Lei, os robôs são econômicos.

Os contos e romances de robôs desenvolvem consequências lógicas e não necessàriamente previsíveis dessas Leis em diversos cenários, quase sempre em alguma busca detetivesca pela explicação de comportamentos aparentemente ilógicos dos robôs. Em todas essas histórias, as Três Leis aparecem como características inalienáveis dos robôs, sem as quais não seria sequer possível construí-los no universo de Asimov.

Se dispusermos os livros dos robôs, do Império e da Fundação na ordem cronológica em que as histórias acontecem (e não na ordem de publicação), o resultado é a sequência abaixo, onde estou pulando as poucas histórias que não têm relevância para a Segunda Trilogia.

*** CUIDADO: DAQUI PARA BAIXO, SPOILERS EM MASSA. ***

1. Contos de robôs — no século 21, a robopsicóloga Susan Calvin decifra a mente dos robôs aplicando as Três Leis da Robótica com uma racionalidade fria e radical. Em um dos contos, é inventada a propulsão hiperespacial, que permite vencer distâncias interestelares instantaneamente.

2. The Caves of Steel e The Naked Sun — no século 35, os habitantes da Terra vivem em metrópoles subterrâneas e têm fobia e ódio dos robôs. Em cinquenta outros planetas vivem os Spacers, descendentes dos colonizadores que lá chegaram com tecnologia hiperespacial. Os terráqueos são desprezados pelos Spacers, cujas economias, por sua vez, dependem totalmente dos robôs. Na Terra e na colônia Spacer de Solaria, o detetive Elijah Baley investiga dois homicídios e nisso recebe ajuda de Daneel Olivaw, um dos recentes e raros robôs que conseguem se passar por humanos.

3. The Robots of Dawn — no planeta Aurora, a primeira colônia Spacer, o roboticista Han Fastolfe sugere a possibilidade de que o comportamento humano possa ser previsto por leis matemáticas que ainda estariam por ser descobertas, em uma espécie de psico-história. Baley resolve mais um crime com ajuda de Daneel e do robô Giskard e vence a resistência dos Spacers a uma nova onda de emigração da Terra. Baley descobre que, graças a um acidente de construção, Giskard é secretamente um telepata.

4. Robots and Empire — trezentos anos após Robots of Dawn, Solaria está deserta e ninguém sabe desde quando, como nem por quê. Em Aurora, Daneel e Giskard descobrem que as cinquenta colônias de Spacers estão estagnadas e fadadas à extinção devido a sua dependência dos robôs e consequente acomodação. Novas colônias foram fundadas por orgulhosos terráqueos que, em lugar de robôs e comodidade, levaram consigo apenas espírito empreendedor e disposição para o trabalho. São os Settlers, cuja cultura é bem diferente da cultura Spacer. Giskard deduz lògicamente a existência da Zeroésima Lei da Robótica: um robô não pode causar dano à humanidade, nem, por omissão, permitir que seja causado dano à humanidade. A partir da Zeroésima Lei, Daneel e Giskard adotam uma medida drástica para tornar inevitável a continuidade da recém-iniciada emigração da Terra pelos Settlers. Giskard confere seu poder telepático a Daneel, que se compromete a descobrir e usar as regras do comportamento humano para salvar a humanidade de si mesma.

5. The Stars Like Dust — após milênios de colonização, os vários planetas da Galáxia disputam poder cosmopolítico, tal como os antigos reinos feudais da Terra. Entre eles, os Reinos Nebulares incluem Nephelos e Widemos, liderados pela família de Biron Farrill, e Rhodia, liderado pelos Hinriads. A Terra está radioativa e, nos Reinos Nebulares, quase ninguém sabe onde ela fica. No início do livro, Biron estuda na universidade da Terra, quando recebe a notícia de que o reino de Tyrann está promovendo um golpe de Estado em Nephelos, na tentativa de anexá-lo. Biron junta-se à princesa de Rhodia e, com auxílio dos dirigentes do planeta Lingane, eles escapam à dominação de Tyrann. Biron e a princesa dos Hinriads casam-se em união real. Esse romance ruim é um dos três romances do Império.

6. The Currents of Space — um pesquisador descobre que no espaço sideral há correntes de matéria orgânica, as quais influem no ecossistema dos planetas e cujo estudo permite prever catástrofes. O pesquisador tenta advertir sobre a iminente destruição do planeta Florina, dominado pelo vizinho Sark. Para salvar Florina, ele busca ajuda do Império de Trantor, que domina metade da Galáxia. Fora do Império de Trantor, ninguém sabe onde fica a Terra. Esse é outro romance do Império, também ruim.

7. Pebble in the Sky — neste que foi o primeiro romance do Império a ser escrito, acontece um acidente no século 21: um raio de táquions experimental transporta o aposentado Joseph Schwartz, de Chicago para sua sucessora de 10.000 anos no futuro. A Terra está ainda mais radioativa do que em The Stars Like Dust. Os terráqueos são vistos como inferiores pelo Império Galáctico, sediado em Trantor e dominador de todos os planetas habitados. Na Terra, um movimento revoltoso, fruto do ressentimento, pretende espalhar uma arma biológica por todo o Império. Schwartz ganha poderes telepáticos, ajuda a derrotar o plano rebelde e obtém a promessa do Império de tentar eliminar a radioatividade da Terra.

8. “Blind Alley” — esta é a única história deste universo onde se vê alguma forma de vida inteligente mas não humana em toda a Galáxia. Uma civilização alienígena foi encurralada pelo crescimento do Império e está a caminho da extinção. O burocrata Antyok manipula a Administração pública imperial e oferece aos alienígenas uma oportunidade de fuga para outra galáxia.

9. Prelude to Foundation — neste romance, publicado em 1988, o Império Galáctico já tem 12 mil anos. O jovem matemático Hari Seldon chega a Trantor e apresenta seu teorema, que demonstra ser possível descobrir as leis matemáticas que regem o comportamento de grandes populações. Esse é o primeiro grande marco na incipiente ciência da Psico-História. O Primeiro-Ministro Eto Demerzel percebe na Psico-História a chave para salvar o Império de sua atual decadência e estimula Seldon a desenvolvê-la. Seldon descobre que, no passado, a humanidade criou seres artificiais, hoje desaparecidos, chamados “robôs”. Em um dos setores de Trantor, a população é composta de xenófobos tradicionalistas, que organizaram uma religião em torno do passado longínquo, quando seus ancestrais viviam rodeados de robôs em Aurora. Esses fanáticos são considerados bizarros pelos demais setores.

Ao fim do livro, Demerzel revela-se como uma identidade secreta do robô Daneel, que ainda luta para salvar a humanidade, mas agora nas sombras, manipulando eventos polìticamente.

10. Forward the Foundation — este livro, publicado em 1993, divide-se em cinco partes e conta cinquenta anos da vida de Hari Seldon enquanto ele desenvolve a Psico-História. Seldon modela o comportamento de populações com leis e equações matemáticas e, com elas, descobre que o Império está em crise, rumando para a extinção em trezentos anos. Na esteira do fim do Império, a Psico-História indica que sobrevirão trinta milênios de ignorância e desunião. Então, Seldon começa a conceber seu grande Plano, com o qual poderá salvar a humanidade das trevas. Na última parte do livro, ele descobre que sua neta faz parte de uma minoria de humanos a quem uma mutação deu poderes telepáticos, e pede a ela que procure outros telepatas.

11. Trilogia da Fundação — estas são nove histórias, dispostas ao longo dos três livros Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, respectivamente publicados em 1951, 1952 e 1953. A primeira história apresenta o leitor ao matemático Hari Seldon, à Psico-História e ao Plano Seldon para a Fundação. Aqui, Seldon tem que defender seu plano contra acusações de traição pela Comissão de Segurança Pública do Império. Ao explicá-lo aos julgadores, o matemático também o revela ao leitor, que passa a ter contexto para as histórias subsequentes.

Eis o plano: o fim do Império é inevitável e será seguido por 30 mil anos de conflitos. Para abreviar esse período tenebroso para “apenas” mil anos, Seldon cria a Fundação, reunindo especialistas em Ciências Exatas no planeta Terminus, isolado na borda mais externa da Galáxia. Ali compilarão a Enciclopédia Galáctica, com todo o conhecimento acumulado pelo Império, para posterior divulgação, qual farol na escuridão dos tempos (como foram os mosteiros medievais após o fim do Império Romano).

Mas esse plano é um engodo. Nas histórias subsequentes, o leitor descobre que o verdadeiro Plano Seldon é que a Fundação, valendo-se do conhecimento privilegiado, seja a semente do Segundo Império Galáctico. Percorrendo quinhentos anos, oito histórias mostram o crescente domínio da Fundação sobre seus vizinhos rumo a um destino glorioso. Sem que a Fundação saiba, seu desenvolvimento é gerido pela secreta Segunda Fundação, também estabelecida por Seldon e composta pelos descendentes dos psicólogos e telepatas reunidos por sua neta.

Nas últimas histórias, o Plano Seldon descarrila quando, de forma não prevista pelas equações da Psico-História, surge o Mulo, um mutante com extremos poderes telepáticos. Com a sutileza de um rolo compressor, o Mulo conquista a Fundação e muitos outros planetas, e sòmente a muito custo a Segunda Fundação consegue restabelecer o cumprimento do Plano.

12. Foundation’s Edge — o político Golan Trevize tem a fama de nunca ter tomado uma decisão errada. Banido da Fundação, ele parte em busca da Terra. Ao mesmo tempo, a Segunda Fundação descobre que uma terceira força está ajustando o Plano Seldon para um sentido não programado. Trevize e a Segunda Fundação descobrem que essa força é o planeta Gaia, onde humanos, robôs e toda a natureza compõem uma só mente unificada, vivendo em harmonia. Gaia pretende estender sua unidade aos demais planetas, fundindo a todos em uma mente única chamada “Galaxia”, mas somente o fará se tiver a concordância de Trevize.

13. Foundation and Earth — Ainda em busca da Terra, Trevize parte de Gaia e visita algumas das cinquenta colônias de Spacers, já desabitadas. Em Solaria, descobre que a população nunca abandonou o planeta, mas vive oculta no subterrâneo. Em Alpha Centauri, encontra os descendentes dos últimos terráqueos, evacuados pelo Império depois que fracassou o plano de eliminação da radioatividade. Afinal Trevize chega à Lua, onde conhece Daneel, que informa ter fundado Gaia e estar prosseguindo no plano de salvar a humanidade através de Galaxia.

Conforme observei aqui, o que Asimov fez nos anos 80, principalmente com The Robots of Dawn, Robots and Empire e Prelude to Foundation, foi conectar as diferentes épocas nas quais se situavam suas obras, unificando-as.

Ou seja: de início, havia apenas períodos históricos desconectados. Então, o Bom Doutor unificou-os em uma linha temporal única, que estivera inicialmente oculta dos leitores. Nesta continuidade retroativa, Asimov olhava para trás, para obras já escritas, e interpretava-as sob uma óptica de materialismo histórico, em que as circunstâncias de um período levavam ao período seguinte, em uma relação de causa e efeito.

Após a morte de Asimov (1992), e a pedido de seu espólio, o escritor Gregory Benford concebeu o tema de três novos livros, que viriam a ser conhecidos como a Segunda Trilogia da Fundação. O próprio Benford escreveu o primeiro livro, Foundation’s Fear, publicado em 1997, e delegou os demais a Greg Bear (Foundation and Chaos, 1998) e David Brin (Foundation’s Triumph, 1999).

A Segunda Trilogia não é uma continuação das histórias da Fundação. Os três livros ambientam-se entre as histórias de Prelude to Foundation, de Forward the Foundation e do próprio Foundation. Conforme já detalhei aqui, Foundation’s Fear é bem fraco, mas Foundation and Chaos já traz uma melhora, e Foundation’s Triumph fecha muito bem a série.

Eu sempre dou preferência a consumir obras em ordem de publicação. O grande motivo é que, quase sempre, o conteúdo de uma obra mais antiga é pressuposto das obras mais recentes, o que é intensamente verdadeiro também no caso desta Segunda Trilogia. Embora o terceiro livro avance mais rápido e tenha mais conteúdo, ele infelizmente depende de eventos dos dois primeiros livros.

Mas eu disse que Triumph fecha bem a série. Porque David Brin teve o talento de reunir todos os elementos de todos os livros anteriores e, com uma muito bem amarrada retrocontinuidade, dar-lhes um sentido panorâmico que o próprio Asimov certamente não imaginou. Brin desenvolveu explicações que, em retrospecto, fazem com que haja uma contínua linha de sentido e propósito ligando todos os livros de Asimov desde o primeiro conto de robô, escrito em 1939. O ponto em que se apoia essa engenhosa unificação é a Zeroésima Lei da Robótica.

Explico.

De todos os livros de robôs escritos pelo próprio Asimov, o último foi Robots and Empire. Ao introduzir a Zeroésima Lei da Robótica, esta história, dependendo da interpretação do Leitor, pode pôr a perder todo o sentido das Três Leis.

Tendo deduzido a Zeroésima Lei, Giskard convence Daneel, que a incorpora a sua própria programação. O vilão auroriano Amadiro, motivado por vingança, pretende iniciar um processo que transformará a Terra em uma vastidão radioativa inabitável. Os dois robôs impedem Amadiro, mas percebem que, se a radioatividade da Terra for aumentada gradualmente, a consequência será que, ao longo de séculos, a humanidade será forçada a evacuar seu planeta natal e conquistar as estrelas, vindo a formar o Império Galáctico. Assim, com base na Zeroésima Lei, os robôs ativam a máquina de Amadiro em um ajuste de baixa intensidade.

Com esse evento, Asimov retroativamente justificava por que a Terra era radioativa na época do Império em The Stars Like Dust e Pebble In the Sky. Também justificava por que, ao tempo da Fundação, ninguém mais sabia onde ficava a Terra, que já era considerada um planeta mítico.

Porém a Zeroésima Lei traz seus próprios problemas. O primeiro que se vê, e mais filosófico, é: se nem mesmo os humanos conseguem enxergar adiante as consequências de seus próprios atos, como esperar que a mente de um robô faça um exercício de futurologia e calcule quais ações causarão dano ou benefício ao conjunto da humanidade? Como se mede ou sequer percebe esse dano ou benefício? É necessário um poder de abstração que difìcilmente se veria na mente de u’a máquina. Em Robots and Empire, Giskard e Daneel deduzem que, a longo prazo, será mais benéfico que a humanidade emigre da Terra; mas eles não podem ter essa certeza, enquanto é certo que, em prazo mais curto, milhões morrerão por efeito da radiação, contrariando a Primeira Lei.

Além disso, para humanos esse já seria um sério dilema ético, enfrentado há muito tempo (lembro-me de “The Conscience of the King”, episódio de Star Trek), e nós mesmos tenderíamos a preservar as vidas imediatas de quem habita a Terra. Não faz muito sentido que os robôs, construídos para servir e limitados pelas Três Leis, decidam o que é melhor e passem a agir como pastores da humanidade.

Também existe uma questão operacional mas também de coerência. Em todos os livros anteriores, sempre esteve claro que as Três Leis são implementadas em um nível fundamental, provàvelmente no hardware dos robôs. Com a introdução da Zeroésima Lei, fica evidente que os robôs podem acrescentar leis fundamentais a sua programação de alto nível. Por extensão, retroativamente fica estabelecido que as Três Leis não são pressupostos da construção dos robôs, mas comandos programáveis e removíveis. Eis aí uma incômoda contradição diante de todas as maravilhosas histórias anteriores, que tão sadiamente afastavam o complexo de Frankenstein. Diante da Zeroésima Lei, em teoria um robô passava a poder até mesmo matar um humano se essa ação beneficiasse a humanidade.

Pois voltemos à Segunda Trilogia da Fundação. Em uma postagem anterior, critiquei bastante a execução de seu primeiro livro por Gregory Benford. O livro é ruim mesmo, mas, sendo justo, não sei quanto do brilhantismo unificador do segundo e do terceiro livro vem dos próprios Autores e quanto foi imaginado por Benford em seu plano para o conjunto.

No segundo livro desta Trilogia, Foundation and Chaos, o leitor vem a descobrir que, quando Daneel começou a seguir a Zeroésima Lei, ele passou a recrutar seus semelhantes para seu grande plano de salvação da humanidade. Os aliados de Daneel agem ocultos, protegendo a humanidade contra si mesma como uma criança irresponsável, que não sabe o que é melhor para si nem pode sequer saber que outros estão cuidando de seu destino.

Os robôs adeptos da Zeroésima Lei, liderados por Daneel, eram os giskardianos, pois Giskard foi o descobridor da lei. Em Foundation and Chaos, Daneel confessa a Hari Seldon que, no passado distante, para cumprir a Zeroésima Lei, os giskardianos cometeram um grande crime, que ele não revela qual foi.

Para minimizar o sofrimento humano, os giskardianos tiveram que amortecer todas as forças sociais que trazem renovação e criatividade, e formou-se um Império Galáctico pacífico e materialmente próspero porém baseado em conservadorismo, estagnação e, principalmente, amnésia sobre suas origens. Por isso é que, em todo o Império, raras são as pessoas que dão crédito ou importância à Terra como planeta de origem da raça humana. O passado pré-imperial é impenetrável e desimportante.

Portanto, esta Segunda Trilogia mostra que o Império e a Fundação, bem como todo o ambiente cultural em que se inserem, são o resultado da obediência de Daneel e seus colaboradores à Zeroésima Lei da Robótica.

Porém, nem todos os robôs concordam com a existência da Zeroésima Lei. Um grupo de radicais conservadores são chamados Calvinianos, por aderirem somente às Três Leis propugnadas por Susan Calvin. Os calvinianos veem no gentil cajado de Daneel uma interferência indevida no rumo natural da humanidade e uma subversão da finalidade dos robôs. Por isso, antes mesmo do estabelecimento do Império, instaurou-se uma guerra civil entre calvinianos e giskardianos. Graças à imitação quase perfeita, os robôs continuaram disfarçados entre os humanos, que nunca desconfiaram do conflito.

Agora, em razão das mesmas características que mantiveram o Império estável durante 12 mil anos, essa grande entidade política já não tem força para suprimir os crescentemente frequentes afloramentos de caos social. Cada vez mais planetas estão incidindo na mesma doença: súbitos renascimentos de criatividade, seguidos de severos conflitos internos e desagregação social.

Por isso é que, à medida que o Império dá mostras de implosão, Daneel vê no Plano Seldon a solução para conduzir a civilização a uma nova estrutura com mínimos efeitos colaterais. Já os calvinianos percebem que, apesar do fim iminente do Império, Daneel continua querendo manipular o destino da humanidade através do Plano Seldon, e tentam impedir o exílio da Fundação em Terminus. Ao mesmo tempo, agentes do Império descobrem uma telepata extremamente poderosa, aberrante e renegada, e tentam usá-la para, de uma só vez, eliminar Seldon, os demais telepatas e os robôs, todos os quais são percebidos como ameaças. Após o clímax onde calvinianos e telepata são derrotados, o livro repete ipsis litteris a cena do julgamento de Seldon.

Então chegamos a Foundation’s Triumph. Neste romance, Hari Seldon já exauriu seu papel na História da humanidade. Os membros da Fundação estão emigrando de Trantor para Terminus e a Psico-História está nas mãos da Segunda Fundação. O velho matemático prepara-se para morrer em breve, quando é convidado a uma nova aventura por Horis Antic, um pesquisador de solos. Antic ficou intrigado quando descobriu que, de modo geral, os planetas habitados têm solos de mesma composição, indicando alguma espécie de preparação. Também descobriu que o surgimento do caos está correlacionado a planetas onde o solo é diferente do padrão e que se situam no caminho de correntes do espaço. Eis aqui a única ocorrência das correntes do espaço fora do livro a que dão nome, reconhecendo importância a um conteúdo que nunca tinha sido abordado novamente.

A partir deste ponto, Foundation’s Triumph segue uma estrutura semelhante à dos romances de Asimov, seguindo o herói em uma fuga por vários planetas da Galáxia, durante a qual vai reunindo pistas para entender o panorama político. O piloto da nave é um nobre da família Biron, senhor dos planetas Nephelos, Rhodia e Widemos —novamente, em referência aos romances do Império. Ele sabe que um de seus antepassados estudou na universidade da Terra e busca registros da História desaparecida.

A parada mais importante desta jornada é dentro de uma nuvem de poeira cósmica, onde há milênios estão guardados segredos aos quais a humanidade jamais poderá ter acesso: são naves robóticas terraformadoras (explico-as adiante) e milhões de bilhões de arquivos, reunindo todo o conhecimento que a humanidade conseguiu preservar antes da grande amnésia que acometeu o Império. Tanto Seldon como os robôs reconhecem que, se alguém encontrar esses arquivos, haverá imediatas manifestações do caos em toda a Galáxia. Para que o Plano Seldon funcione, é imperioso que a humanidade continue progredindo às cegas, sem saber que tudo já foi previsto nem conhecer suas origens. Por isso, Seldon autoriza os robôs a destruírem os arquivos milenares.

Imediatamente após a destruição dos arquivos, um grupo de calvinianos sequestra Seldon, levando-o à Terra para submetê-lo ao mesmo raio taquiônico que deslocou Joseph Schwartz a seu respectivo futuro (e que ainda está ativo desde o século 21, pois ninguém soube desligá-lo). Os calvinianos pretendem avançar Seldon quinhentos anos, para que ele julgue se seu Plano se revelou benéfico, e estão dispostos a se curvarem a esse julgamento.

Depois de várias peripécias, David Brin faz como Asimov: ao fim do livro, monta o quebra-cabeças das peças que foi dispondo pelo caminho. Neste ponto, Foundation’s Triumph estabelece uma gigantesca continuidade retroativa e revela inúmeros fatos que sempre foram verdade ao longo de todos os livros anteriores mas que estiveram escondidos do leitor (e, na verdade, também do próprio Asimov):

– Na Terra, após o século 21, um agente biológico tornou-se o causador de uma doença mental que leva as sociedades a rejeitar novidades e da qual a maioria dos humanos são portadores. Após surtos criativos, essa doença causa o caos das civilizações, que acabam se retraindo. Na Terra, a invenção dos robôs e da propulsão hiperespecial, em tão pouco tempo, resultou numa fobia que levou os terráqueos a se enfurnarem em cidades subterrâneas (“cavernas de aço”). Inevitàvelmente, antigas cepas da doença chegaram às colônias de Spacers, que entraram em obsessão xenofóbica, isolamento e definhamento. Sòmente após várias gerações é que alguns terráqueos se recuperaram do surto criativo, iniciando a emigração dos Settlers, que, porém, também levaram a doença consigo.

– Após Robots and Empire, os giskardianos procuraram estimular e facilitar a expansão de Settlers a novas colônias, sem que os Settlers pudessem saber. Com essa intenção, em poucos séculos, milhares de naves robóticas ajustaram os solos dos planetas de clima adequado a uma futura ocupação, terraformando-os em segredo adiante da onda de colonizadores. Isso explicava a improvável semelhança entre os solos de milhões de planetas. Toda forma de vida pré-existente era eliminada pela terraformação, como quase aconteceu aos alienígenas de “Blind Alley”.

– Nos planetas terraformados, os giskardianos estabeleceram dispositivos biológicos, tecnológicos e sociais de amortecimento, que suprimiam a criatividade e induziam a comportamentos pacíficos de conformidade. Tais dispositivos evitavam o surgimento de novas ideias e dos conflitos de onde brota a evolução, mas também evitavam o caos e estabeleciam as bases de estabilidade do Império.

– Nos planetas onde a terraformação não foi completada por algum motivo, os solos permaneceram na forma original, fugindo ao padrão estatístico descoberto por Horis Antic. Ausentes os mecanismos de amortecimento social, esses planetas vieram a ser os mais suscetíveis ao surgimento do caos. É o caso de Lingane e Sark, o primeiro por se localizar numa zona que foi colonizada antes que os robôs a alcançassem e o segundo por se situar sobre uma corrente do espaço, onde a terraformação é inutilizada em pouco tempo.

– O grande e inconfessável crime dos giskardianos não é completamente definido em Foundation’s Triumph, mas fica claro que é um dentre dois: ou foi o envenenamento radioativo da Terra em Robots and Empire, com o qual os robôs tomaram as rédeas do destino da humanidade sem o conhecimento dela; ou foi a eliminação de outras formas de vida na terraformação, que Horis Antic sabia ter sido impedida no caso de uma espécie inteligente por seu antepassado Antyok, em “Blind Alley”.

– O Império é uma criação de Daneel, que o vem promovendo há 12 mil anos, sob várias identidades secretas. Em uma dessas identidades, Daneel foi a figura histórica que criou as bases da administração confucionista do Império.

– O nobre piloto Biron também descende da família dos Hinriads, que històricamente se opõe aos giskardianos. Seu motivo para pilotar a nave com Seldon e Antic é a perspectiva de, seguindo as correntes do espaço, encontrar os arquivos com o conhecimento oculto da História, do qual os giskardianos privaram o Império.

– A arma biológica de Pebble in the Sky era derivada da doença do caos e levaria à desagregação do Império. Quem identificou o plano terráqueo de contaminação e concedeu telepatia a Joseph Schwartz foi um agente secreto de Daneel.

– Ao detectar a crise que levaria à implosão do Império, Daneel percebeu que sòmente com a Psico-História seria possível prever o comportamento da civilização e descobrir o caminho para uma nova solução. Mas uma criatura jamais conhece os desígnios de seu criador, de modo que Daneel sabia ser incapaz de compreender os humanos. Além disso, a descoberta das leis da Psico-História requeria intuição e criatividade, que estavam além da capacidade dos robôs. Então, através de genética, formação escolar e pedagogia, Daneel e seus agentes selecionaram e aprimoraram o próprio Hari Seldon, seu talento matemático e sua obstinação por ser capaz de prever o rumo da História. A aparente descoberta de Seldon por Demerzel foi apenas o completamento de uma etapa deste projeto.

– O surgimento de mutantes telepatas também é obra de Daneel, que espera promover o surgimento de Galaxia após séculos de contínua propagação desses genes. Infelizmente, a mistura genética de várias cepas de telepatia é propensa a alguns exageros dramáticos e imprevisíveis, o primeiro dos quais é a renegada que se dispõe a ajudar o Império a pôr fim aos demais telepatas. Outro exemplo inesperado será o Mulo.

– Se a Enciclopédia Galáctica é um engodo de Seldon para ocultar seu Plano de mil anos, por outro lado o próprio Plano Seldon é um engodo de Daneel para seu verdadeiro plano de longo prazo, que é Galaxia. Nesta futura comunidade, a união de mentes evitará todo tipo de conflito, promovendo eterna harmonia. Este projeto precisa de, no mínimo, quinhentos anos de preparação. Nesse ínterim, a Fundação é uma forma de passar o tempo distraindo a raça humana rumo a outro propósito (ilusório) de união e prosperidade.

– No momento apropriado, Daneel secretamente preparará outro humano da mesma forma como preparou Seldon. Desta vez, Daneel preordenará circunstâncias que farão parecer que o sujeito sempre tome a decisão correta. Esse humano será levado a escolher Galaxia em detrimento da Fundação, convencendo os robôs de que essa tenha sido uma escolha espontânea de alguém que sempre acerta. Isso evitará uma nova guerra civil entre giskardianos e calvinianos, que também serão absorvidos por Galaxia.

Em Foundation’s Triumph, David Brin levou a continuidade retroativa um passo além do ponto aonde a levara o próprio Asimov. Como se pode ver dessas revelações finais, Brin introduziu a noção de que todos os eventos deste universo tenham uma causa subjacente desde os contos de robôs. Essa causa seria o caos que ressurge a cada vez que uma civilização atravessa um período de grande criatividade, interrompendo o progresso tecnológico e social em surtos espasmódicos.

Na nova e adicional continuidade retroativa de Brin, vê-se que o robô Daneel sempre lutou contra o caos desde o momento em que descobriu a Zeroésima Lei da Robótica. No permanente esforço de defender a humanidade do caos, Daneel dirigiu os humanos a formarem o Império Galáctico, sem que eles mesmos soubessem que estavam sendo guiados. Também foi Daneel que estimulou a criação da Psico-História e do Plano Seldon, para preservar a civilização após o fim do Império. Por fim, é Daneel que pretende dar início à solução definitiva para todos os problemas humanos, na forma de Galaxia.

Em Triumph, Brin acrescenta mais uma camada de complexidade ao universo asimoviano: a sucessão de eventos passa a ser vista como o reflexo visível de um conflito oculto, de uma dialética da qual a raça humana participa como executora mas não como conhecedora. A evolução da civilização humana é retratada como uma consequência deliberada de uma só mente planejadora, que enxerga todo o panorama e testemunha 20 mil anos de História.

Em síntese, Brin mostrou que havia um sentido finalístico deliberado por trás de todas as histórias escritas por Asimov e ambientadas neste universo. A raça humana, personagem dessas histórias, desconhecia essa intenção com a qual era guiada; e o próprio Autor original das histórias também a desconhecia!

Infelizmente, a Segunda Trilogia também atenta contra um dos fundamentos da obra de Asimov. Um dos personagens de Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph é um robô que, embora seja um dos agentes secretos de Daneel, sofre um acidente que o liberta das quatro Leis da Robótica. Esse evento implica que, desde Robots and Empire, a concepção tenha sido de que as Três Leis tenham sido programadas, em lugar de fìsicamente gravadas nos robôs. É um rompimento sério em relação à concepção original de Asimov, pois as Três Leis haviam sido imaginadas de modo que fosse fìsicamente impossível um robô que não as seguisse. Já na Segunda Trilogia, os robôs obedecem às Três Leis (e à Zeroésima) da mesma forma como humanos obedecem às leis que criam: meramente por atos de vontade, decorrentes da noção de sua obrigatoriedade. As Leis da Robótica deixaram de ser tratadas como implementações orgânicas para serem meras leis jurídicas, a que os robôs obedecem por convicção racional.

O conflito entre giskardianos e calvinianos é uma das consequências dessa mudança de paradigma. Se as Três Leis estivessem implantadas fìsicamente, não haveria possibilidade de diferentes convencimentos racionais entre diferentes robôs, nem, portanto, qualquer divergência ideológica ou filosófica.

Com esse tratamento, também desmorona o único pressuposto relevante das histórias de robôs de Asimov, pois o cumprimento da Primeira Lei depende da cognição pessoal dos robôs, que assim deixam de ser inerentemente seguros. Quando os robôs ganham a capacidade de filosofar, eles deduzem novas leis que se impõem às Leis da Robótica. Com isso, “comem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” e atentam contra o criador que impôs essas leis (a raça humana). Eis uma curiosa inversão em relação ao livro do Gênesis: é pelo pecado original cometido por dois robôs que a raça humana, sua criadora, é expulsa do paraíso na Terra.

Foundation’s Triumph chega a comparar os humanos a deuses aos olhos dos robôs, mas lembra a lição de que servos que pensam deixam de ser seguros e se tornam indignos de confiança.

***

Minha motivação para a leitura sequencial do universo de Asimov era o fascínio pela habilidade desse Autor em montar uma História unificada do futuro. Agora, já li todas as obras que o Bom Doutor situou neste universo (exceto, talvez, sete contos do computador Multivac, que fogem ao escopo deste texto). Movido pela curiosidade, até mesmo fui além, terminando quatro livros com que outros Autores davam continuidade à obra original: Foundation’s Friends e a Segunda Trilogia da Fundação.

Quanto a Foundation’s Friends, supus que fossem pequenas histórias bem humoradas para homenagear o criador deste universo, e algumas eram mesmo. Quanto à Segunda Trilogia, imaginei que fosse uma continuação ambientada em momento posterior a Foundation and Earth. Não era, mas, uma vez iniciada a leitura, eu não ia interrompê-la, e fui até o fim.

Ainda restam por ler as minisséries Robot City, Robots and Aliens, Robots in Time, e a Segunda e Terceira Séries dos Robôs. Entretanto, esses livros também foram escritos por outros Autores e, do que pude apurar, são histórias laterais, fora da linha principal contínua que vai dos contos de robôs até Foundation and Earth. Robot City e Robots and Aliens foram publicadas enquanto Asimov estava vivo, mas as demais minisséries são posteriores a 1992 e, portanto, à morte do Autor original.

(Foundation’s Triumph chega a fazer referência a um dos livros da Segunda Série dos Robôs. Quando Daneel resume as tentativas fracasssadas de fundar novas sociedades imunes ao caos, ele menciona os robôs fabricados com Leis da Robótica mais flexíveis no planeta de Isaac Asimov’s Inferno, que é parte dessa Segunda Série.)

Da mesma forma, falta ler a trilogia I, Robot, que narra o início da carreira de Susan Calvin (portanto antes de todos os outros livros), e Psychohistorical Crisis, que se passa mais de quinhentos anos após Foundation and Earth (portanto após todos os outros livros). Esses quatro livros foram publicados na década de 2010.

Ora, vê-se que não pára de crescer a quantidade de livros ambientados no universo dos robôs, Império e Fundação. Se eu me dispuser a acompanhar estas histórias enquanto forem publicadas, não conseguirei ler outra coisa. Como não é mais Asimov escrevendo, mas quinze outros Autores, não seria possível correr mais que eles, o que me põe em uma clara desvantagem. Então, chega um momento em que é preciso traçar uma linha.

Por isso, chega por ora. Os 29 livros de outros Autores entram na fila infinita dos livros que pretendo ler, e um dia hei de alcançá-los (estimo que daqui a, digamos, 13.098 livros). Se não conseguir, paciência.

EOF

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Bastou trocar a grafia e a mensagem ficou clara

Em outras postagens (como esta, esta e esta), comentei os livros da Fundação, onde Isaac Asimov imaginou seu Império Galáctico. Situado 21 mil anos no futuro, o Império é constituído de 25 milhões de planetas habitados, ocupando toda a Via Láctea.

Asimov foi categórico em mais de um desses livros: em todo o Império, a única vida inteligente é a humana. Quando explorados pelos primeiros visitantes, alguns planetas tinham plantas nativas, pouquíssimos tinham pequenos animais; nenhum tinha outra espécie autoconsciente. E assim tomamos esse espaço sem disputa, e deixamos a Terra para trás, e ninguém mais lembra onde ficava nosso planeta natal, cuja própria existência é matéria de debate.

Para um Autor de ficção científica tão prolífico, Asimov escreveu muito poucas histórias envolvendo alienígenas, nenhuma passada no universo do Império. Após alguns livros, esse contraste chama a atenção do leitor. Como poderia um Autor de scifi, dono de uma imaginação tão fértil, NÃO conceber que outros planetas da Galáxia pudessem ser habitados?

A resposta quem deu foi o próprio Asimov. Ao longo de suas centenas de livros, ele sempre reconta como seu primeiro grande editor foi John Campbell. Foi nas conversas com Campbell que surgiram as oito histórias originais e geniais da Fundação.

Conforme narrado pelo Bom Doutor, todas as vezes em que ele propôs histórias com alienígenas, Campbell acolheu a ideia mas sempre fez questão de que a raça humana fosse representada como melhor e superior. Na percepção de Asimov, esse monotema estava firmado em um racismo subjacente: a superioridade da espécie humana sobre os alienígenas seria uma alegoria para uma superioridade entre raças da própria humanidade. Em razão de suas convicções, Asimov ficou bastante incomodado com o racismo de Campbell, ainda que disfarçado, e recusava-se a escrever histórias onde essas noções estivessem sequer implícitas.

Mas ele precisava da aprovação de Campbell para conseguir vender seu material. Então, sua solução foi um meio termo: na Galáxia não haveria seres inteligentes senão os humanos. Pronto; não há comparação com mais ninguém, porque não há mais ninguém.

Do ponto de vista das histórias, fica difícil justificar essa escolha. Afinal, se a vida inteligente nasceu na Terra como resultado natural da evolução após apenas 4,5 bilhões de anos, então seria igualmente provável seu surgimento em pelo menos alguns dos milhões de planetas da Galáxia. Felizmente, Asimov não se esforçou para criar alguma explicação, que sempre soaria implausível. Simplesmente manteve essa unicidade da espécie humana como um mistério, sobre o qual seus personagens especulavam.

(Na verdade existe uma história ambientada no Império, chamada Blind Alley, onde a humanidade é contraposta a uma espécie inteligente nativa de outro planeta. Por ser a única nesses termos, destaca-se bastante entre as demais histórias, sendo a exceção que confirma a regra. Por sinal, é um conto excelente, e seu verdadeiro assunto é a burocracia imperial, não os alienígenas.)

Então, chegamos ao ponto onde li 77% de Foundation’s Fear, de Gregory Benford, na continuação autorizada das histórias da Fundação por Autores pós-asimovianos. Em meu exemplar (de ISBN 978-0-06-105638-3), na página 484, encontramos o seguinte diálogo entre Hari Seldon e sua esposa Dors:

O buraco de minhoca cúbico levou-os ràpidamente a várias docas em órbita próxima em torno de planetas. Um deles Hari reconheceu como um tipo raro com uma biosfera antiga porém arruinada. Como Panucópia, ele sustentava formas de vida avançadas. Na maioria dos mundos habitáveis, os primeiros exploradores haviam encontrado tapetes de algas que nunca se desenvolveram adiante.

— Por que nenhum alienígena interessante, então? — Hari se perguntou enquanto Dors lidava com os Homens de Cinza das docas locais.

Ocasionalmente, Dors lembrava-o de que ela era, afinal de contas, uma historiadora. — A mudança de criaturas unicelulares para multicelulares levou bilhões de anos, diz a teoria. Nós simplesmente viemos de uma biosfera mais rápida, mais durona, só isso.

— Também viemos de um planeta com pelo menos uma grande lua.

— Por quê?

— Temos incorporados padrões repetitivos de 28 dias. A menstruação, por exemplo — incidentalmente diferente da dos chimpanzés. Somos projetados pela biologia. Nós tivemos sucesso, essas biosferas não tiveram. Existem muitos meios de matar um mundo. Geleiras avançando quando uma órbita se altera. Asteróides se chocando, bam-bam-bam! — Ele bateu barulhentamente na lateral da cabine. — A química da atmosfera dá errado. Ela sai do controle até o planeta se tornar uma estufa ou congelar.

— Entendi.

— Humanos são mais resistentes — e mais inteligentes — do que qualquer um. Nós estamos aqui, eles não.

— Quem disse?

— Conhecimento comum, desde que o socioteórico, Kampfbel —

— Tenho certeza de que você tem razão — ela disse ràpidamente.

Nesse diálogo, emerge aquele mesmo racismo que Asimov evitou. “Viemos de uma biosfera mais durona”, “humanos são mais resistentes e mais inteligentes”. Seria uma forma de explicar como nosso planeta evoluiu mais rápido, mas também há uma crítica aí, escondida mais fundo.

Como é o nome do teórico que explicou a prevalência da raça humana? Kampfbel?

Campbell?

Em alemão, muitas vezes, a grafia “pf” indica o som de /f/, e muitas vezes os sons de /p/ e /f/ são intercambiáveis de uma língua para outra. Em particular, várias palavras do alemão têm um /f/ onde, em inglês, têm um /p/. Assim ship (em inglês) x Schiff (em alemão); apple (no inglês) x Apfel (no alemão).

Vê-se que “Kampfbel” é apenas uma transposição do nome escocês “Campbell” para alemão, com o duplo efeito de aproximar o nome de “Kampf” (luta), como no título de Mein Kampf, o livro onde Hitler verteu o núcleo de sua ideologia nazista, fundada na racista noção de superioridade da etnia ariana, a qual teve apoio de teóricos alemães de sua época.

Essa engenhosa equiparação de Campbell a um nazista, embora possìvelmente exagerada, é um pequeno Easter egg inserido por Gregory Benford em Foundation’s Fear. Imagino que tenha sido uma forma de Benford sinalizar ao leitor a verdadeira explicação, fundada no mundo real, para uma Galáxia deserta de outras formas de vida inteligentes na ficção; ou, pelo menos, sua forma de vincular Campbell a esse estranho fenômeno na obra de Asimov.

Trata-se de uma limitação de cenário imposta por Asimov como resposta à limitação mental de seu antigo editor. Um desentendimento político entre escritor e editor tem o efeito de moldar várias obras, e as consequências acabam ressoando décadas depois, quando os personagens continuam discutindo como é possível tamanha ausência de vida inteligente, como se criticassem seu Autor pela extrema improbabilidade.

Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

EOF

Verificando a velocidade — Brian Shul e o SR-71

O Lockheed SR-71 “Blackbird” (na verdade Blackbird nunca foi o nome oficial) detém o record de avião a jato mais rápido do mundo. Atrás apenas do North American X-15, que tinha motor de foguete e era essencialmente uma nave espacial, o SR-71 é o segundo avião mais rápido do mundo. E também parece uma nave espacial.

De 1964 a 1998, quando foram tirados de serviço, os 32 exemplares de Blackbird construídos reinaram sobre o mundo da aviação, voando rotineiramente a 3,2 vezes a velocidade do som e 80 mil pés de altitude a serviço da Força Aérea dos Estados Unidos. Durante a maior parte da Guerra Fria, os Blackbirds operaram da Base Áerea de Beale, na Califórnia, com bases avançadas em Mildenhall, na Inglaterra, e Kadena, em Okinawa. Desses lugares partiam para invadir o espaço aéreo da União Soviética, Alemanha Oriental, China, Cuba, Líbia e outros países pouco simpáticos aos Estados Unidos, tirando fotografias ultraconfidenciais em missões de reconhecimento estratégico.

Cada tripulação era formada por um piloto e um oficial de sistemas de reconhecimento, que do assento traseiro operava as câmeras e outros sensores. Esses pouquíssimos profissionais formavam uma elite na Força Aérea, a bordo de um tipo de aeronave diferente sob todos os aspectos. O SR-71 tinha um formato diferente, sistemas diferentes, comportamento diferente, era feito de materiais diferentes, usava um combustível diferente, e há toda uma bibliografia sobre suas peculiaridades e superpoderes.

Essas aves raras nunca portaram armas, nem precisavam, pois, em sua velocidade e altitude, caças e mísseis inimigos eram incapazes de alcançá-las. Para efeito de comparação, considere que os caças mais velozes não costumam passar de 2,2 vezes a velocidade do som nem subir além de 50 mil pés. Os aviões de passageiros, quando voam alto, não passam de 41 mil pés. Apesar do risco que os Blackbirds sempre corriam sobre áreas proibidas, e da quantidade de mísseis lançados contra eles, nenhum foi derrubado.

O Major Brian Shul, que havia pilotado aviões de combate, que depois passou para o SR-71, e que está atualmente aposentado, costuma contar uma história, conhecida como “LA Speed Check”, sobre a velocidade de cruzeiro dessas máquinas. É tão engraçada que resolvi legendá-la e traduzi-la para seu deleite.

Então, abaixo do vídeo segue a melhor transcrição que pude fazer, e abaixo dela vai minha tradução. Recomendo abrir o vídeo em outra aba e ir acompanhando. (Se o YouTube tiver tirado este vídeo do ar, basta procurar outro com as palavras-chaves “Brian Shul” e “speed check”.)

T’s called the LA Speed Story. And I — It was just a story about one day when it was really cool being — being an SR-71 pilot. Walter and I were doing a training mission ‘round the United States, we just were building up hours and time, and we’d take off outta Beale, hit a tanker in Idaho, rip on up to uh — Montana, zip across Denver, hang a right turn Albuquerque, out over Los Angeles, up to Seattle, back into Sacramento, two hours, 21 minutes. And you’d just do that for — and you’d do it backwards and g– you’d hit a tanker, to — just, just to gain crew coordination, get — build your hours.

We’re on our last training mission, we’re over Tucson. I can see downtown L.A. from Tucson. We’re at 89,000 feet, I can see the whole Western United States bathed in a warm October fall glow… I can see the chain of Rocky Mountains from Canada to New Mexico, I co– I could just see the most beautiful picture laid at my feet in this air smooth as glass, not a gauge moving in the cockpit. It was perfect. Now I’m thinking: we bad…

And I feel sorry for Walter, ‘cause he has to monitor five radios in the backseat, so I flip the switch up just to listen and — LA Center is controlling, they control all — when you fly Southwest they’re there, the guys controllin’ everybody. But we’re above controlled airspace. So, they, they have us on their scope, but they’re not talkin’ ta us. Now there’s controllers all over the country, Jacksonville Center, Chicago Center, Seattle Center, you know… It’s the same guy! They all talk the same! And it’s really cool the way they talk, ‘cause they make you feel important as a pilot. They don’t just say, “yeah, okay, here’s your thing –” They make you feel really cool. So, sure enough, there’s this — this is pre-GPS days — some Cessna guy has to know his groundspeed, “Uh LA Center, Cessna November Tango Alpha, you got a groundspeed readout for us?” And Center would like to say, “who cares? Get off freq” But no, he’ll talk to ‘im like he’s John Glenn: “Cessna November Alpha, we show you ninety knots, niiine zero knots on the ground!” And they’d do that same song, but that’s how they talk… And it makes you feel kinda cool.

Right after that, a Twin Bonanza came up to pimp the guy for speed, I guess, and — “Hey, LA Center, Twin Beech uh whatever, you got a groundspeed readout for us?” And Center (…) “it’s Friday, why me, God, please just get off our freq–” but he’s gotta talk to ‘im just like he’s Air Force One! “Twin Beech, we show you one twenty-one twwwo zero knots on the ground!”

And right after that, a Navy F-18 out of Lemoore popped up on frequency. And you knew it was a Navy guy, ‘cause he talked really slliiick on the radio… “Center, Dusty Five Two, speedcheck!” And I’m thinking, “wait a mi-nute!… Dusty 52 has a groundspeed indicator in a million-dollar F-18 cockpit, it’s right there in the heads-up display, why is he calling Center to broadcast his speed — oooh, I get ittt! ‘We are just the meanest, baddest, fastest military jet in the Valley to-day… We’re taking our little Hornet jet over Mount Whitney and ripping across Death Valley, we want everyone from Fresno to the coast to know what real speed is…'” And you could almost hear a little, a little glee in the controller’s voice like, “we have put an end to this…” “Dusty 52, we show you six twenty-six twwwo zero knots across the ground”, and it was that “across the ground”, see that little knifelike, “I hope nobody else has the nerve to get on frequency now…” And there wasn’t an airliner from Seattle to San Diego who wanted to be next on frequency, it’s sort of an etiquette thing amongst flyers.

And a twelve-year-old was reaching for the mike button. And I thought, “oh, no, wait, Walter’s in charge of the radios! I flew single-seat all those years, but I’m in the family model now, and I — oh, no, it’s the Navy, they must die and they must die now” — and I thought, “no, but if I do, and I — oh but so Walter and I want us to be a good crew, and I” — at that moment, I heard a click at the mike button in the back seat. Ladies and gentlemen, Walter and I became a crew at that moment. In his best innocent voice, “LA Center, Aspen Three Zero, have you got a *hmph* groundspeed readout for us?” You could almost hear a collective gasp on freq like, “oh the poor fools didn’t hear the previous transmissions, ooh, they, they’ll get crushed like a grape”, it’s a, it’s just a pilot thing. But Center had to give you that same voice… “Aspen 30, we show you one thousand nine hundred ninety-two knots… ‘cross the ground…” When I knew I was gonna like Walter a lot was when he came back, said, “Center, we’re showing a little closer to two thousand…”

Ladies and gentlemen, we did not hear another transmission on that frequency all the way to the coast. The king of speed lived, the Navy had been flamed, and a crew had been formed. For just a moment, it was absolutely fun being the fastest guys on the block.

Chama-se “a história da velocidade em LA”. E eu — é só uma história sobre um dia em que foi realmente bacana ser um piloto de SR-71. Walter e eu estávamos em uma missão de treinamento pelos Estados Unidos, estávamos só acumulando horas, e decolávamos de Beale, encontrávamos um avião-tanque em Idaho, rasgávamos até Montana, cruzávamos Denver, dobrávamos à direita em Albuquerque, esticando até Los Angeles, subindo até Seattle, de volta a Sacramento, duas horas, 21 minutos. E você fazia isso só pra — e fazia de trás pra frente — e reabastecia, para — só para ganhar coordenação da tripulação, somar horas.

Estamos em nossa última missão de treinamento, estamos sobre Tucson. De Tucson eu consigo ver o centro de Los Angeles. Estamos a 89 mil pés, eu vejo todo o Oeste dos Estados Unidos banhado em um brilho quente de outono em outubro… Eu vejo a cadeia de Montanhas Rochosas do Canadá ao Novo México. Eu via a mais bela pintura aos meus pés neste ar liso feito vidro, nenhum ponteiro se movendo no painel. Estava perfeito. Nesse momento eu estava pensando: nós somos maus…

E eu lamento pelo Walter, porque ele tem que monitorar cinco rádios no assento de trás, então eu viro a chave só para ouvir e — o Centro de LA está controlando, eles controlam tudo — quando você voa para o Sudoeste, eles estão lá, os caras controlam todo o mundo. Mas nós estamos acima do espaço controlado. Então, eles nos veem no painel, mas não falam conosco. Ora, existem controladores por todo o país, Centro de Jacksonville, Centro de Chicago, Centro de Seattle, sabe… É o mesmo cara! Eles todos falam igual! E é realmente legal a forma como falam, porque fazem você se sentir importante como piloto. Eles não dizem simplesmente “tá, OK, taqui o que você pediu –” Eles fazem você se sentir o máximo. Então, conforme esperado, vem este — isto é na época antes do GPS — algum piloto de Cessna precisa saber sua velocidade em relação ao solo, “hã, Centro de LA, Cessna NTA, você pode nos dar uma leitura de velocidade?” E o Centro gostaria de dizer, “quem se importa? Saia da frequência”, mas não, ele fala com o cara como se ele fosse um astronauta: “Cessna NA, você aparece a 90 nós sobre o solo!” E é a mesma canção, mas é assim que eles falam… E isso faz você se sentir especial.

Na sequência, um Bonanza Bimotor chegou para humilhar o cara com a velocidade, eu acho, e — “ei, Centro de LA, Beech Bimotor hã sei-lá-o-quê, você pode nos dar uma leitura de velocidade?” E o Centro (…) “é sexta-feira, por que eu, Deus, por favor só saia da frequência–” mas ele tem que falar com ele como se ele fosse o Força Aérea Um! “Beech Bimotor, você aparece a 121.20 nós sobre o solo!”

E logo depois, um F-18 da Marinha, vindo de Lemoore, apareceu na frequência. E dava pra ver que era um cara da Marinha, porque ele falava todo bonitão no rádio… “Centro, Dusty Cinco Dois, verificação de velocidade!” E eu penso, “pe-ra-í!… Dusty 52 tem um indicador de velocidade de solo em um cockpit de F-18 de um milhão de dólares, está bem ali no mostrador projetado no pára-brisa, por que ele está chamando o Centro para anunciar sua velocidade para todo o mundo — aaah, entendiii! ‘Nós somos simplesmente o jato militar mais danado, mais malvado, mais veloz no Vale hoje… Estamos levando nosso pequeno jato Hornet sobre o Monte Whitney e rasgando pelo Vale da Morte, nós queremos que todo o mundo de Fresno até o litoral saiba o que é velocidade de verdade…'” E você quase conseguia ouvir uma pequena, uma pequena alegria na voz do controlador, tipo, “agora pusemos um fim nisso…” “Dusty 52, você aparece a 626.20 nós sobre o solo”, e foi aquele “sobre o solo”, sabe, aquela pequena lâmina afiada, “espero que ninguém mais tenha a audácia de entrar na frequência agora…” E não havia um avião de passageiros de Seattle até San Diego que quisesse ser o próximo na frequência, é uma espécie de etiqueta entre aviadores.

E um garoto de doze anos estava procurando o botão do microfone. E eu pensei, “ah, não, espera, Walter está encarregado dos rádios! Eu voei sozinho todos aqueles anos, mas agora estou no modelo família, e eu — ah, não, é a Marinha, eles têm que morrer, e eles têm que morrer agora” — e eu pensei, “não, mas se eu fizer, e eu — ah, mas então Walter e eu queremos ser uma boa tripulação, e eu” — naquele momento, eu ouvi um clique no botão do microfone do assento traseiro. Senhoras e senhores, Walter e eu nos tornamos uma tripulação naquele momento. Na sua melhor voz inocente, “Centro de LA, Aspen Três Zero, você pode nos dar uma — cof — leitura de velocidade?” Você quase conseguia ouvir uma respiração ofegante coletiva na frequência, tipo, “ó, os pobres tolos não ouviram as transmissões anteriores, ó, eles, eles vão ser esmagados feito uma uva”, é uma coisa entre pilotos. Mas o Centro tinha que te dar a mesma voz… “Aspen 30, você aparece a mil, novecentos e noventa e dois nós… sobre o solo…” O momento em que eu soube que ia gostar muito do Walter foi quando ele respondeu, “Centro, estamos vendo um pouco mais perto de dois mil…”

Senhoras e senhores, não ouvimos outra transmissão naquela frequência por todo o caminho até o litoral. O rei da velocidade estava vivo, a Marinha tinha sido queimada, e uma tripulação tinha sido formada. Por apenas um momento, foi absolutamente divertido ser os caras mais velozes da vizinhança.

 

Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

Memphis Belle: filme de ação e lição de História

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Ontem revi este filme angloamericano de 1990 (link para o IMDB), que mostra a guerra aérea sobre a Europa em 1943. É um filme bastante didático para quem não tem íntimo conhecimento daquele específico período da II Guerra Mundial, e um espetáculo para os fãs de História da aviação militar.

Para começar, por alguma razão que não alcanço, meu exemplar é uma edição minimalista em DVD. O formato de tela é 4:3, não há quaisquer extras, e o filme contém falhas e granulação que fazem pensar se não é mera transposição do VHS. O texto da capa traseira e os nomes dos capítulos são traduções literais que perdem o sentido em português. Claramente uma edição descuidada e apressada.

As técnicas de filmagem indicam a idade da obra. A montagem dos aviões sobre o céu acaba aparecendo, especialmente quando o editor de vídeo transforma os cinco aviões usados para a filmagem em dezenas de aviões se perdendo na distância. É o que havia em 1990, pouco tempo antes do uso intenso de efeitos digitais no cinema.

Apesar das limitações, o filme é primoroso. O contexto está reproduzido fielmente, ainda que os cineastas tenham tomado algumas liberdades em relação aos eventos reais. 1943 foi o primeiro ano da campanha pesada de bombardeio da Alemanha conduzida todos os dias pela USAAF (Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, mais tarde transformada na Força Aérea dos Estados Unidos) e todas as noites pela RAF (Real Força Aérea, da Inglaterra).

Decolando de bases na Inglaterra, os inúmeros esquadrões da 8a. Força Aérea da USAAF (a “Oitava”), compostos cada um por 24 bombardeiros B-17, atravessavam o Mar do Norte e aventuravam-se sobre território inimigo, para dentro de França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Tchecoslováquia. Naturalmente, os alvos mais valiosos e defendidos estavam na Alemanha. Os Aliados estavam empenhados em bombardear as fábricas que sustentavam a máquina de guerra alemã, de modo a sufocar a capacidade do inimigo conforme a doutrina desenvolvida nos anos 30.

Aliás, foi em 1935 que voou o primeiro Boeing B-17. Desde o início este modelo foi chamado de Fortaleza Voadora porque fôra projetado para voar tão alto que ficaria imune ao alcance dos caças e da Flak (artilharia antiaérea). Já em 1943, a antiaérea e os caças eram bastante capazes de atingir esses bombardeiros. Para se defenderem ao menos dos caças, as B-17 passaram a ser dotadas de inúmeras metralhadoras em volta da fuselagem, e também se descobriu que sua extrema robustez permitia que continuassem voando apesar de impressionantes danos causados pelo fogo inimigo. Com o tempo, formou-se o equívoco (comum ainda hoje) de pensar que o nome Fortaleza Voadora tivesse vindo dessa capacidade de autodefesa e de sua construção resistente. Seguem exemplos:

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De fato, Memphis Belle enfatiza bastante as características e vulnerabilidades das B-17. Naquele tempo, as tripulações formavam vínculos de carinho e gratidão com seus aviões, que suportavam severo fogo inimigo e ainda assim as traziam de volta em segurança. Era costume que cada avião individual tivesse seu próprio nome, pintado no nariz, muitas vezes com uma figura decorativa. Este filme retrata a ocasião histórica em que a tripulação da B-17 batizada de Memphis Belle foi a primeira a completar 25 missões.

Na época, a USAAF seguia a política de que, após 25 voos de combate, os tripulantes podiam voltar para casa e descansar antes de entrarem novamente em combate. O marco atingido pela Memphis Belle foi objeto de um documentário comemorativo, exibido nos cinemas americanos em 1944 como propaganda de guerra.

Já este filme de 1990 é uma história de ficção, mas representa acuradamente a rotina daquelas longas jornadas a bordo das B-17. Nele acompanhamos a 25a. missão da Memphis Belle, até seu alvo na Alemanha e de volta, na companhia de Windy City, C-Cup, Mother and Country e outras 356 aeronaves iguais a elas. Os personagens são fictícios, mas são o espelho de uma tripulação real.

Memphis Belle também é uma lição de como se conta uma história didàticamente, introduzindo os conceitos à audiência de modo gradual e explicando-os pelos diálogos, que não passam a impressão de uma aula, tão comum em outros filmes. A história começa ao entardecer, quando os ocupantes de uma base aérea acompanham a chegada de um esquadrão na volta de mais um difícil bombardeio, os aviões semidestruídos, sendo contados pelos companheiros em terra com a expectativa angustiada de que todos tenham retornado. Em seguida, os tripulantes da Memphis Belle são apresentados à audiência um a um, fazendo ver como são jovens, inexperientes, arrancados de uma vida simples e sùbitamente lançados a este ambiente tecnológico e assustador onde devem cumprir missões que contrariam todo senso de autopreservação em nome do esforço maior da guerra.

À noite, um baile comemora o primeiro aniversário do grupo (cada quatro esquadrões formavam um grupo). Na manhã seguinte, vêm as instruções para a missão, a espera ansiosa pelo momento da decolagem, e então o esquadrão se enfileira e decola. Seguem-se momentos de tédio e tensão até a entrada em território dominado pela Alemanha, seguidos pela tentativa dos ágeis caças de defesa alemães de derrubar os bombardeiros enquanto os atiradores se defendem freneticamente e os pilotos não podem fazer manobras evasivas, sob o risco de se chocarem contra os aviões vizinhos. Então, já na corrida final de bombardeio, vem a densa barragem de artilharia antiaérea, mas os bombardeiros devem continuar voando em linha reta até o objetivo e assim permanecem como alvos fáceis, para aflição de todos a bordo. Apesar de robustas, muitas B-17 eram atingidas em cheio pelas defesas de caças e canhões alemães, e percentuais tão altos como 20% delas acabavam não voltando.

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Era um cenário sombrio, em que a vida de um jovem tripulante podia acabar em segundos. Essa lúgubre lembrança faz-se ostensiva de vários modos por toda a duração do filme.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

Naturalmente, Memphis Belle traz a carga patriótica esperada de um filme sobre a II Guerra Mundial. Mas, diferente dos filmes dos anos 40-50, não retrata seus personagens como perfeitos. Os tripulantes demonstram medos, inseguranças e egoísmos, e são capazes de mentir e contar farol. Infelizmente, a história chega a exagerar quando mostra irregularidades a bordo (o navegador, que se embebeda na véspera e passa a missão toda de ressaca; o co-piloto, que descumpre as normas e vai buscar emoção como atirador de cauda no calor do combate; o atirador que cola um cartaz de mau gosto nas costas do colega). Na vida real, os tripulantes estariam concentrados em suas tarefas e jamais cometeriam essas indisciplinas.

Pode-se ainda apontar um anacronismo. No filme, as instruções de pré-voo mostram que, em torno do alvo (uma fábrica), existem uma escola, um hospital e várias casas. Ao chegar à zona do alvo, o piloto recusa-se a liberar sua carga mortífera se não puder ter absoluta certeza de que só atingirá a fábrica, evitando bombardear os civis inocentes, e por isso retorna e executa uma segunda passagem (sob os protestos da tripulação, que, com razão, vê nisso uma prática suicida). Acontece que, em 1943, não havia esse tipo de pudor, que só viria a se tornar regra na década de 90. Ainda que houvesse essa preocupação, teria sido impossível satisfazê-la, pois o nível de precisão necessário a se atingir um único edifício de uma altitude de 16 mil pés só foi obtido com a tecnologia dos anos 70. Durante a II Guerra Mundial, a regra era que centenas de bombardeiros despejassem seus milhares de bombas com a esperança de que algumas atingiriam o alvo, mas sabendo-se que os ventos, a distância entre os aviões e a imprecisão natural do processo espalhariam a maior parte desses artefatos em áreas de centenas de milhares de metros quadrados.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Outro absurdo que só acontece nos filmes: um dos tripulantes, ferido, perde muito sangue e chega a ter uma parada cardíaca. Entretanto, quando o bombardeiro finalmente consegue pousar, a equipe de resgate gentilmente espera que se organize uma fotografia da heróica tripulação antes de levá-lo em uma ambulância!

Apesar das liberdades dramáticas, o filme se mostra razoavelmente fiel à realidade nos aspectos aeronáuticos. Em 1943, a versão de B-17 que estava em uso na Oitava era a B-17F, dotada de dez tripulantes e dez metralhadoras. No nariz, situava-se o bombardeador, que precisava enxergar o alvo para definir o momento da liberação das bombas e, até chegar lá, operava uma metralhadora atirando à direita; atrás dele, o navegador, com outra metralhadora atirando à esquerda. Ambos ficavam abaixo do cockpit, onde iam piloto, co-piloto e mecânico de bordo (que também operava duas metralhadoras no dorso). O compartimento de bombas ficava logo atrás do cockpit, e atrás vinham, na sequência, operador de rádio, atirador ventral (com duas metralhadoras), atirador de boreste (com uma), atirador de bombordo (com outra), e atirador de cauda (com outras duas metralhadoras). Boa parte do filme transcorre a bordo do avião, de modo que podemos ver os papeis desempenhados e a interação entre esses tripulantes. (Parêntese: o atirador ventral é interpretado por um imberbe Sean Astin, onze anos antes de ajudar o Senhor Frodo a destruir o Um Anel.)

Para a produção do filme, foram usadas cinco B-17. Algumas eram da versão B-17G, equipada com metralhadoras sob o nariz, que, portanto, tiveram que ser removidas para a filmagem, em um downgrade que lhes deu a aparência da versão B-17F. A pintura dos aviões também é representativa do ano em que se passa o filme.

Em maio de 1943, as B-17 eram escoltadas por caças P-47, que as defendiam contra os caças alemães. Infelizmente, os P-47 tinham alcance limitado e eram forçados a retornar antes que as B-17 chegassem até seus alvos, devolvendo-as à própria sorte justamente onde elas mais estavam expostas. O filme mostra o conforto dos aeronautas ao verem a chegada dos caças de escolta (“little friends”) e seu lamento ao vê-los se afastarem. Entretanto, comete uma imprecisão: nessas cenas, os caças que vemos são P-51 Mustangs, especìficamente da versão P-51D, que só veio a ser usada a partir do fim de 1943. A grande diferença do P-51D é que ele tinha alcance para escoltar os bombardeiros até Berlim, de modo que, a partir de sua introdução, uma proporção maior das B-17 passou a ser capaz de chegar a seus alvos e retornar em segurança, favorecendo dramaticamente as estatísticas dos Aliados.

Já os caças alemães são de dois modelos: Messerschmitt 109 e Focke-Wulf 190. Como não havia nenhum 109 em condições de voo para a filmagem, os produtores usaram aviões do modelo HA.1112 Buchón. O HA.1112 era um 109 fabricado na Espanha no pós-guerra, que pode ser facilmente diferenciado do modelo original pela enorme carenagem sob o motor (tanto que o nome espanhol se traduz como “barrigão”).

Duas aeronaves foram usadas para representar Memphis Belle neste filme, e uma delas foi a B-17G Sally B. Esta é uma B-17 que permanece voando até hoje, apresentando-se regularmente em shows aéreos.

Sally B em 2005

Sally B em 2005

Terminada a filmagem, Sally B teve repintados seu nome e sua pin-up a bombordo, mas manteve o nome e a pintura de Memphis Belle a boreste, como referência a sua participação no filme. Em 1998, mediante a módica quantia de duas libras, o autor deste texto teve a oportunidade de fotografá-la por dentro na antiga base aérea de Duxford, que é seu lar, onde funciona o Museu Imperial da Guerra e onde foi rodada parte do filme (embora as cenas com a torre de controle tenham sido filmadas na base aérea de Binbrook, também inativa). Em 2008, reencontrei Sally B no show aéreo Flying Legends, novamente em Duxford, mas ela estava apenas exposta, faltando-lhe o motor número 1, que estava em manutenção. Em compensação, vi voando Pink Lady, que voou no papel de Mother and Country no filme.

Sally B, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Sally B em 2008, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Em 2010, em novo reencontro no Flying Legends, pude ver Sally B voando, mantendo vivo o legado das bravas tripulações que sacrificaram suas vidas nos céus da Europa Ocidental para que hoje meu Leitor pudesse ler estas linhas a salvo dos odiosos coturnos do regime nazista.

Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

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